sábado, 10 de agosto de 2019

As Eternidades


As Eternidades


Capitulinho: Preâmbulo à Primeira Eternidade
Era uma família bem situada; com tudo nos conformes; filha única em descuido do casal ou não, não se deve meter e não se mete na vida íntima de outrem; chefe familial trabalhador corajoso aventureiro talvez, ele se põe em risco no mercado de capitais: compra vende recompra revende e ganha, ganha sempre e perde numa noite o dia e a riqueza; a filha vem, tardiamente, a saber do desastre quando a família já lutando na lama. Aí ‘pinta’ uma saída honrosa ou qualquer coisa semelhando tal disparate: a fuga. E nisto e assim se acaba a primeira eternidade.

Capitulinho. Papai era uma potência a dominar toda uma potência. Dezenas centenas de servidores a fervilhar sob seus auspícios, empregados subempregados agregados desempregados desendinheirados terceirizados enfim submissos e afins; situação estável, bem com a política local a da região quiçá a do país. Isso dando um respaldo enorme às mulheres da casa. Noêmia – dita Noemy para engrandecer o pedigri e seguir o modismo nas altas rodas – ela uma flor. Belíssima talvez e requisitada, um pouco mandona e mesmo imperativa, se julgando belíssima. O tempo fê-la muito bonita para depois conscientizá-la menos bela ou apenas bonita; e aqui ainda a se enganar... Quem sabe bonita somente na definição de que todas mulheres são bonitas, ela mulher. Ou tão só ingênua com boas intenções e aceitando elogios baratos que a classe endinheirada recebe ou os pais pelos filhos, no caso a casa de filha única e herdeira da fortuna. Ah a fortuna!

Capitulinho. A empresa ia bem obrigado. Ganhava-se horrores, perdia-se para se ganhar ainda mais e mais crescer, crescer sempre. O sempre tem lá suas limitações também. O gastar não. Papai daria tudo à filha, aliás nem sabendo direito gastar onde a menina – era a menina a menina de seus olhos; mas a administração doméstica dos bens mal empregados ou malbaratados se fazendo através de mamãe. Mamãe entretanto com pés no chão do tempo em que o chão era chãozinho e agonizava a família na pobreza, ricos agora ou apenas ricaços milionários – ele perdulário até, ela contida sem abuso nas limitações e isto passando um pouco à sua menina também menina dos olhos. No entanto deu-lhe caros joias vestidos e inclusive a Tiquita. Tiquita a cadela cheia de pedigri ao pedigri da família. Dessinhas que se aparam os pelos botam-se perfumes e pintam-nos de vermelho e verde quando também a menina Noemy a se pintar e gastar em preparo das festas nas altas rodas da gente grande na cidade pequena, exigindo cerimonial e aparências. A ficar ambas mais bonitas possível: a cadela magrela só pelos e com carinha de brinquedo de pelúcia a rir na janelinha do carro aos passantes se engraçarem nos carrões no trânsito; a menina se produzindo para, num impossível, se tornar mais bela, ao menos mais bela que as outras jovens belas da sociedade talvez acanhada e provinciana. Ambas em desfile por aí, até Noemy bater o veículo e quase virar Noêmia como qualquer rica-pobre, quer dizer as outras menos ricas. Enfim a passear e mostrar ambinhas figura bem nascida e bem posta. Enquanto mamãe no lar a gritar com as criadas e papai a trabalhar juntar enricar (mais) e a se atrapalhar depois no jogo da bolsa lá na capital. Isto não o fim do jogo e sim para ficar mais rico, satisfazendo a deusa ambição – desmedida, sabemos. Trabalhou mais especulou mais arriscou mais, caiu no menos que é o fracasso a quebra a vergonha o ameaço o crime (crime é algo que fazemos até não se descobrir e então é crime de fato: ostensivo). As autoridades a vigiar a fiscalizar a flagrar e...

Capitulinho. Mamãe, tadinha de mamãe! mamãe fora pega desprevenida, embora sempre aguardasse tal desfecho desde que eram pobretões e quase miseráveis a ter ela que lavar roupa pra fora enquanto o macho da espécie no emprego mal remunerado. Piorando quando em sobrando na falta. Noêmia surgiu sem avisar no ventre dela, dele não. Porém eis que Noêmia cresce o pai vira papai, enrica – a oposição opondo falcatruas e imoralismos próprios da intriga – enrica e extrapola, elinha fica elona vira Noemy, bem pra gente bem; sobretudo à gente-bem bonita. Extremamente bem, extremamente rica, todavia extremamente orgulhosa de sua beleza e poder.
Papai não participando disso, coisas de mulher, embora a esposa contida nos entusiasmos. A filha belíssima não: gastando a rodo a fim de aparecer e a superar todas em tudo. Na beleza por exemplo levava jeito. Não tem jeito mais a família, minada pelos escândalos comerciais e a fome despertada no fisco... Noemy não vê nada disso, cega. Esbanja apesar dos puxões  de orelhas velados da mãe; esbanja impera e com isso os jovens sérios fugindo e aos outros homens atraindo apenas a riqueza suposta da moça. Mantém-se sempre à distância ela dos interessados e não cultiva sequer entre outras belas, menos belas, amizade ou apego. Mui menos tem confidentes (nisto não se salvando mesmo a genitora) nem se dá a confidências. Seu mundo permanece sempre estranho, desde que não se lamba seus pés...
Em razão do exposto é pega desprevenida.
Acaba nesta eternidade pobre.
Pobre também a mãe-rica, pobre o pai-milionário. Pobre Noemy, que se vê duma hora para outra Noêmia.
Nessa altura papai se esconde, a caixa de abelhas credora dispara se avoluma e fustiga mãe e filha no palácio (este será tomado depois pelo exército da lei com seus advogados de plantão). Só existe daí uma saída.
A fuga se dá numa das caladas de noite por menos alvoroçado possa parecer. Para inteiro espanto quem sabe dos 'amigos' inimigos tribais; mais ainda da lei e de suas brechas amigas embora e com a justiça eternamente morosa, ajudando nisto as sombras a serem sombras. A fuga, é suposto, decreta o esquecimento e o fim da eternidade primeira.

Segunda Eternidade
Capitulinho: Resumo da Segunda Eternidade
Noemy acorda certo dia num ser comum de nome Noêmia. Acorda perdida no seu achado. Está em plena selva bravia. Quer se adaptar. Adaptação da família fuginte. Morre o pai, após a mãe na dor que é mais dor se se relembrar a dor antiga. Noêmia pensa num relacionamento caboclo e o esclarecimento disso não cabe num resumo.

Capitulinho. Noemy é um sonho, acorda no pesadelo como Noêmia. Tudo lhe é estranho – já era estranha sempre fora estranha aos estranhos e conhecidos íntimos nunca se engajando, aparentemente por se sentir superior aos inferiores, nunca a se entregar e integrar no meio do sonho e seria decerto assim no pesadelo – tudinho estranho pra si nada se encaixa nem ela se encaixando em si mesma também. No entanto é preciso viver, mas o que seria viver? Encontra-se na mata cercada por árvores e com cheiro de vegetais pisados e incinerados, a terra remexida ao plantio, tem sol tem calor tem fastio no seu fastio. Felizmente tem aves barulhentas e engraçadas pudesse achar graça nalguma coisa; e teme feras possíveis nunca vistas porém pressentidas ou apenas a saber das narradas nas estórias dos poucos capiaus que estão presentes olhando examinando os chegantes estranhos da civilização chocantemente trajados. Indígenas perigosos não encontrou: ou assassinados ou afugentados ou miscigenados no sangue matuto que restou da voragem da colonização. É a gente, a matuta, com quem privam os seus. Papai, agora só um pai qualquer, não reage a contento, vive, se viver, vive macambúzio e mudo quase, depois mudo de vez; logo morre, morre nos primeiros meses; morre ou é morto pois as novelas desfiguram as certezas possíveis. Esta versão em virtude da desvirtude do encontro do corpo estufado perfurado por arma contundente, num talvez com alguma certeza pelo encontro e reencontro com as perseguições... é encontrado nas cercanias do palacete familial, uma tapera ao gosto caipira e à altura cabocla: o costumeiro pau a pique coberto de sapé.
Estamos diante do inusitado à civilização. Ninguém podendo esperar cremação ou algum trato funerário educado e vistoso. Nem exigência de catalogação no IML e necrológio nos periódicos intriguentos. Optam pela opção simples em não aguardar feder o defunto, alegria das moscas; optam enterramento. Chora Noêmia, a mãe não tem mais lágrimas, vertidas meses eternos no inferno da miséria flagrante. Ela perece logo após num mal súbito, que os da terra apelidam ‘morte morrida’, inexplicada ao menos. Ou teria antes falecido falecendo nas lembranças dos esquecidos! Ou pela recente perda e o ganho na viuvez. Quanto ao seu velho – mais velho ainda na brancura de cabelos sobrantes acelerada na perda da antiga riqueza – nos últimos dias da sua noite a insoniar ações ganhos especulações traições e perdas absolutas e irrecuperáveis. Agora não mais contando: os vizinhos válidos dão a última demão com pás e enxadas na cova, não mais que montículo fofo solto de terra, a qual por hábito come olhos e o resto do caboclo e eventualmente um civilizado morto. Isto válido ao paí e à mãe viúva do viúvo da riqueza da Primeira Eternidade.
Vai longe a Segunda e Noêmia encontra-se sozinha. Aliás sempre fora só, mesmo na hipótese da antiga adoração dos adoradores de sua fortuna, em mão agora de credores e do governo.
Ainda jovem, ainda sem grandes promessas ao amor; quem sabe se não sonha acordada na noite do seu dia desejando com alguém ter uma união sólida e um matrimônio de cerimoniais possíveis... Ou que o sonho determine a recordação de grande princesa tendo encantados aos seus pés milionários...
Contudo o agora tem o hoje da ocasião. Noêmia amanha a terra, amassa seu pão, amansa o cansaço, amaina o sonho e descarta com esforço possível o possível pesadelo no pesadelo da existência.
Vê e é vista vez que outra por miseráveis roceiros. Ninguém quer mais sua riqueza nem sua herança; nenhum trabalhador a aspirar possuir sua beleza de solteirona gasta; no entanto permanece mulher...

Terceira Eternidade

Capitulinho: Resumo do Fim, se o Fim Existir
Ela vive só, o que é não viver. Teme as coisas do mundo. Tem sim desejo em formar sua própria família mas encontra as reticências e não acha o homem dos sonhos. Então soma sofrimentos e fraquezas e toma decisão. Uma que não cabe num resumo.

Capitulinho. Um dia Noêmia descobre não apenas estar sozinha e sim mal acompanhada pelo tédio. Já não conta com o sonho, vive o pesadelo. Mostra isso a um espelhinho trazido do império da riqueza e da nação da juventude, como butim da guerra sem paz. Tentara meses, meses somara anos já. Ainda não achara companheiro, os poucos nas imediações daquela mataria estão comprometidos com suas esposas com seus filhos e mesmo não tivessem compromisso estando longe de ser belos, são antes grosseiras criaturas e elementos chãos; nenhum príncipe encantado a beijar seus pés. Piormente se descobre velhota e cabocla tosca pobretona – mais para bruxa que para princesa; olha os pés, os pés não estão calçados com sandalhas de ouro, encontra-se descalça tem sola grossa tem calcanhar rachado, anda suja. Não mais sonha; sonha sim todavia com coisas chãs da lavoura dos porcos das galinhas e as preocupações de pernas curtas nada filosóficas... seu sonho não poetiza. Daí não avisa ninguém, quem a se interessar por uma Noêmia, ela que não se integrara antes nas fadas nem agora nos fados; não avisa, assim se bastando ou se vingando do zé-povinho.  Anda. Segue. Segue em frente. Em frente tem um ‘timbé’, o povo fala assim ou diz "buracão". É quase noite, olha à frente vê o não se vê, é o poço é o buraco é o fosso é o brusco é o oco é o vão ao morto.

Marília   maio  2009



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