As Eternidades
1°
Capitulinho: Preâmbulo à Primeira Eternidade
Era
uma família bem situada; com tudo nos conformes; filha única em descuido do
casal ou não, não se deve meter e não se mete na vida íntima de outrem; chefe
familial trabalhador corajoso aventureiro talvez, ele se põe em risco no mercado
de capitais: compra vende recompra revende e ganha, ganha sempre e perde numa
noite o dia e a riqueza; a filha vem, tardiamente, a saber do desastre quando a
família já lutando na lama. Aí ‘pinta’ uma saída honrosa ou qualquer coisa semelhando
tal disparate: a fuga. E nisto e assim se acaba a primeira eternidade.
2°
Capitulinho. Papai era uma potência a dominar toda
uma potência. Dezenas centenas de servidores a fervilhar sob seus auspícios,
empregados subempregados agregados desempregados desendinheirados terceirizados
enfim submissos e afins; situação estável, bem com a política local a da região
quiçá a do país. Isso dando um respaldo enorme às mulheres da casa. Noêmia –
dita Noemy para engrandecer o pedigri e seguir o modismo nas altas rodas – ela
uma flor. Belíssima talvez e requisitada, um pouco mandona e mesmo imperativa,
se julgando belíssima. O tempo fê-la muito bonita para depois conscientizá-la
menos bela ou apenas bonita; e aqui ainda a se enganar... Quem sabe bonita
somente na definição de que todas mulheres são bonitas, ela mulher. Ou tão só
ingênua com boas intenções e aceitando elogios baratos que a classe
endinheirada recebe ou os pais pelos filhos, no caso a casa de filha única e
herdeira da fortuna. Ah a fortuna!
3°
Capitulinho. A empresa ia bem obrigado. Ganhava-se
horrores, perdia-se para se ganhar ainda mais e mais crescer, crescer sempre. O
sempre tem lá suas limitações também. O gastar não. Papai daria tudo à filha,
aliás nem sabendo direito gastar onde a menina – era a menina a menina de seus olhos;
mas a administração doméstica dos bens mal empregados ou malbaratados se
fazendo através de mamãe. Mamãe entretanto com pés no chão do tempo em que o
chão era chãozinho e agonizava a família na pobreza, ricos agora ou apenas
ricaços milionários – ele perdulário até, ela contida sem abuso nas limitações
e isto passando um pouco à sua menina também menina dos olhos. No entanto
deu-lhe caros joias vestidos e inclusive a Tiquita. Tiquita a cadela cheia de
pedigri ao pedigri da família. Dessinhas que se aparam os pelos botam-se perfumes
e pintam-nos de vermelho e verde quando também a menina Noemy a se pintar e
gastar em preparo das festas nas altas rodas da gente grande na cidade pequena,
exigindo cerimonial e aparências. A ficar ambas mais bonitas possível: a cadela
magrela só pelos e com carinha de brinquedo de pelúcia a rir na janelinha do
carro aos passantes se engraçarem nos carrões no trânsito; a menina se
produzindo para, num impossível, se tornar mais bela, ao menos mais bela que as
outras jovens belas da sociedade talvez acanhada e provinciana. Ambas em
desfile por aí, até Noemy bater o veículo e quase virar Noêmia como qualquer
rica-pobre, quer dizer as outras menos ricas. Enfim a passear e mostrar
ambinhas figura bem nascida e bem posta. Enquanto mamãe no lar a gritar com as
criadas e papai a trabalhar juntar enricar (mais) e a se atrapalhar depois no
jogo da bolsa lá na capital. Isto não o fim do jogo e sim para ficar mais rico,
satisfazendo a deusa ambição – desmedida, sabemos. Trabalhou mais especulou
mais arriscou mais, caiu no menos que é o fracasso a quebra a vergonha o ameaço
o crime (crime é algo que fazemos até não se descobrir e então é crime de fato:
ostensivo). As autoridades a vigiar a fiscalizar a flagrar e...
4°
Capitulinho. Mamãe, tadinha de mamãe! mamãe fora
pega desprevenida, embora sempre aguardasse tal desfecho desde que eram
pobretões e quase miseráveis a ter ela que lavar roupa pra fora enquanto o
macho da espécie no emprego mal remunerado. Piorando quando em sobrando na
falta. Noêmia surgiu sem avisar no ventre dela, dele não. Porém eis que Noêmia
cresce o pai vira papai, enrica – a oposição opondo falcatruas e imoralismos
próprios da intriga – enrica e extrapola, elinha fica elona vira Noemy, bem pra
gente bem; sobretudo à gente-bem bonita. Extremamente bem, extremamente rica,
todavia extremamente orgulhosa de sua beleza e poder.
Papai
não participando disso, coisas de mulher, embora a esposa contida nos
entusiasmos. A filha belíssima não: gastando a rodo a fim de aparecer e a
superar todas em tudo. Na beleza por exemplo levava jeito. Não tem jeito mais a
família, minada pelos escândalos comerciais e a fome despertada no fisco...
Noemy não vê nada disso, cega. Esbanja apesar dos puxões de orelhas velados da mãe; esbanja impera e
com isso os jovens sérios fugindo e aos outros homens atraindo apenas a riqueza
suposta da moça. Mantém-se sempre à distância ela dos interessados e não
cultiva sequer entre outras belas, menos belas, amizade ou apego. Mui menos tem
confidentes (nisto não se salvando mesmo a genitora) nem se dá a confidências.
Seu mundo permanece sempre estranho, desde que não se lamba seus pés...
Em
razão do exposto é pega desprevenida.
Acaba
nesta eternidade pobre.
Pobre
também a mãe-rica, pobre o pai-milionário. Pobre Noemy, que se vê duma hora
para outra Noêmia.
Nessa
altura papai se esconde, a caixa de abelhas credora dispara se avoluma e
fustiga mãe e filha no palácio (este será tomado depois pelo exército da lei
com seus advogados de plantão). Só existe daí uma saída.
A
fuga se dá numa das caladas de noite por menos alvoroçado possa parecer. Para
inteiro espanto quem sabe dos 'amigos' inimigos tribais; mais ainda da lei e de
suas brechas amigas embora e com a justiça eternamente morosa, ajudando nisto
as sombras a serem sombras. A fuga, é suposto, decreta o esquecimento e o fim
da eternidade primeira.
Segunda
Eternidade
1°
Capitulinho: Resumo da Segunda Eternidade
Noemy
acorda certo dia num ser comum de nome Noêmia. Acorda perdida no seu achado.
Está em plena selva bravia. Quer se adaptar. Adaptação da família fuginte.
Morre o pai, após a mãe na dor que é mais dor se se relembrar a dor antiga.
Noêmia pensa num relacionamento caboclo e o esclarecimento disso não cabe num
resumo.
2°
Capitulinho. Noemy é um sonho, acorda no pesadelo como
Noêmia. Tudo lhe é estranho – já era estranha sempre fora estranha aos
estranhos e conhecidos íntimos nunca se engajando, aparentemente por se sentir
superior aos inferiores, nunca a se entregar e integrar no meio do sonho e
seria decerto assim no pesadelo – tudinho estranho pra si nada se encaixa nem
ela se encaixando em si mesma também. No entanto é preciso viver, mas o que
seria viver? Encontra-se na mata cercada por árvores e com cheiro de vegetais
pisados e incinerados, a terra remexida ao plantio, tem sol tem calor tem
fastio no seu fastio. Felizmente tem aves barulhentas e engraçadas pudesse
achar graça nalguma coisa; e teme feras possíveis nunca vistas porém
pressentidas ou apenas a saber das narradas nas estórias dos poucos capiaus que
estão presentes olhando examinando os chegantes estranhos da civilização
chocantemente trajados. Indígenas perigosos não encontrou: ou assassinados ou
afugentados ou miscigenados no sangue matuto que restou da voragem da
colonização. É a gente, a matuta, com quem privam os seus. Papai, agora só um
pai qualquer, não reage a contento, vive, se viver, vive macambúzio e mudo
quase, depois mudo de vez; logo morre, morre nos primeiros meses; morre ou é
morto pois as novelas desfiguram as certezas possíveis. Esta versão em virtude
da desvirtude do encontro do corpo estufado perfurado por arma contundente, num
talvez com alguma certeza pelo encontro e reencontro com as perseguições... é
encontrado nas cercanias do palacete familial, uma tapera ao gosto caipira e à
altura cabocla: o costumeiro pau a pique coberto de sapé.
Estamos
diante do inusitado à civilização. Ninguém podendo esperar cremação ou algum
trato funerário educado e vistoso. Nem exigência de catalogação no IML e
necrológio nos periódicos intriguentos. Optam pela opção simples em não
aguardar feder o defunto, alegria das moscas; optam enterramento. Chora Noêmia,
a mãe não tem mais lágrimas, vertidas meses eternos no inferno da miséria
flagrante. Ela perece logo após num mal súbito, que os da terra apelidam ‘morte
morrida’, inexplicada ao menos. Ou teria antes falecido falecendo nas
lembranças dos esquecidos! Ou pela recente perda e o ganho na viuvez. Quanto ao
seu velho – mais velho ainda na brancura de cabelos sobrantes acelerada na
perda da antiga riqueza – nos últimos dias da sua noite a insoniar ações ganhos
especulações traições e perdas absolutas e irrecuperáveis. Agora não mais
contando: os vizinhos válidos dão a última demão com pás e enxadas na cova, não
mais que montículo fofo solto de terra, a qual por hábito come olhos e o resto
do caboclo e eventualmente um civilizado morto. Isto válido ao paí e à mãe
viúva do viúvo da riqueza da Primeira Eternidade.
Vai
longe a Segunda e Noêmia encontra-se sozinha. Aliás sempre fora só, mesmo na
hipótese da antiga adoração dos adoradores de sua fortuna, em mão agora de
credores e do governo.
Ainda
jovem, ainda sem grandes promessas ao amor; quem sabe se não sonha acordada na
noite do seu dia desejando com alguém ter uma união sólida e um matrimônio de
cerimoniais possíveis... Ou que o sonho determine a recordação de grande
princesa tendo encantados aos seus pés milionários...
Contudo
o agora tem o hoje da ocasião. Noêmia amanha a terra, amassa seu pão, amansa o
cansaço, amaina o sonho e descarta com esforço possível o possível pesadelo no
pesadelo da existência.
Vê
e é vista vez que outra por miseráveis roceiros. Ninguém quer mais sua riqueza
nem sua herança; nenhum trabalhador a aspirar possuir sua beleza de solteirona
gasta; no entanto permanece mulher...
Terceira
Eternidade
1°
Capitulinho: Resumo do Fim, se o Fim Existir
Ela
vive só, o que é não viver. Teme as coisas do mundo. Tem sim desejo em formar
sua própria família mas encontra as reticências e não acha o homem dos sonhos.
Então soma sofrimentos e fraquezas e toma decisão. Uma que não cabe num resumo.
2°
Capitulinho. Um dia Noêmia descobre não apenas
estar sozinha e sim mal acompanhada pelo tédio. Já não conta com o sonho, vive
o pesadelo. Mostra isso a um espelhinho trazido do império da riqueza e da
nação da juventude, como butim da guerra sem paz. Tentara meses, meses somara
anos já. Ainda não achara companheiro, os poucos nas imediações daquela mataria
estão comprometidos com suas esposas com seus filhos e mesmo não tivessem
compromisso estando longe de ser belos, são antes grosseiras criaturas e elementos
chãos; nenhum príncipe encantado a beijar seus pés. Piormente se descobre
velhota e cabocla tosca pobretona – mais para bruxa que para princesa; olha os
pés, os pés não estão calçados com sandalhas de ouro, encontra-se descalça tem
sola grossa tem calcanhar rachado, anda suja. Não mais sonha; sonha sim todavia
com coisas chãs da lavoura dos porcos das galinhas e as preocupações de pernas
curtas nada filosóficas... seu sonho não poetiza. Daí não avisa ninguém, quem a
se interessar por uma Noêmia, ela que não se integrara antes nas fadas nem
agora nos fados; não avisa, assim se bastando ou se vingando do
zé-povinho. Anda. Segue. Segue em frente.
Em frente tem um ‘timbé’, o povo fala assim ou diz "buracão". É quase
noite, olha à frente vê o não se vê, é o poço é o buraco é o fosso é o brusco é
o oco é o vão ao morto.
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