Pafúncio e a Tevê
ou um exercício na arte do humor negro
1°
cap. – História dos Três Personagens Desta Estória
Pafúncio,
não se afirma aqui Confúcio o qual foi um filósofo chinês a viver nos séculos 6
e 5 aC; Pafúncio olha com olhar em expressão aturdida atarantada espantada os
tios – pego de surpresa decerto, firme no ver o que vê – olha e desolha imediato
olhando voltado novamente à televisão ligada; fosse desligada talvez nem
olhasse não soubesse pra que direção olhar, ou fechasse olhos assim grandões e
dormisse, acordado, acordadíssimo. Nem vê bem os tios. Tio Zé, gozador
ene-vezes gozador; e tia Antônia, a concordar sempre com o marido, compassiva
ou passiva apenas, em aguardo como toda consorte casada nos conformes do
antigamente o consorte envelhotar mais e, aí, vingar-se pela afronta duma vida
conjugal inteira como quase objeto de seu machão, então não mais machão mijão
de urinar de pé no pé e daí receber ralhação da esposa ex-posa posando passivamente ao seu homem agora. Não, sim o tio dá
as cartas, conta o que vê, veem, ou seja – o sobrinho Pafúncio olhando a tevê.
Fá-lo em diálogo ao gosto do homem comum: ouve-se, concorda-se respondendo sim
na linguagem mímica quase sem som, a dar prestígio ao macho falante matracante.
Vai mais além tio Zé. Conta para a outra, a fêmea da espécie escutante,
conta-lhe desembaraçadamente, inclusive sem precisar aspar; assim economizando
sinais trabalho tinta gasto do escrivão anotador e do diletante digitador, e
também do paciente editor. Isto porque ¡como
saberíamos essas artes dos três personagens sem toda essa arte!
Bem.
Mal começamos já o tio sai-nos com uma de suas tiradas: Veja Tonha (ela detesta
esse apelido, às comadres chega a exigir ser chamada Dona Antônia ou Comadre
apenas, Tonha! que indecência; contudo se cala diante do machão falante e
inclusive solta um risinho dos mais sem-graça que encontra no momento). Veja
Tonha, dona Antônia é sua ouvinte de carteirinha, sua consorte sem sorte; veja
o que vemos, isto é um sobrinho com semblante dum ser entre o Einstein e a
Chita, a Chita do Tarzã. Nosso Pafúncio se encultura recebe conhecimento vendo
televisão, a rainha de nossos dias, ah que saudades do rádio na roça mentirando
com ajuda das pilhonas de mil horas que duravam umas setecentas apenas; você se
lembra?
Antes
dela responder, tivesse nessa altura língua, já faz outro comentário o tio
sobre o sobrinho.
Pafúncio
veio ter ao lar dos tios por desaparecimento em morte morrida ou cadeia ou
sumiço tão comum na sociedade, desaparecimento esse que atingiu os pais, então
separados recasados ou ajuntados como manda a regra ou o modismo social. Sobrou
o órfão a ser criado pelos bondosos caridosos tios. Enquanto que a vizinhança e
conhecidos desocupados se ocupavam a criar estórias em torno dessa criança (uma
vertente dizia o garoto bastardo de seu Zé, o qual teria recolhido o filho das
mãos ingratas e desnorteadoras do abandono. Fica nestes parênteses um ‘talvez’
a aguçar melhor o desnecessário, e pronto. Ponto).
Pafúncio
cresce e é agora grandalhão e nisso teria puxado os parentes maternos
gigantões, enquanto o pai presumível sendo tão pequeno quanto o mano José, o Zé
da Antônia Gorda Grandona; estes passando como pais emprestados a criar o
rapagão.
Vive
sem nada fazer, o que é muito fazer; e para distração e cultura vê tevê dia
noite dia; isto em virtude da desvirtude em não existir computador – ou noite
dia noite vidrando a usar as teclas e a só pensar falar informaticamente. Vê
tevê.
Só?
come vendo, dorme vendo, corre rápido dá descarga ou se esquece e volta para
ver tevê. É pouco mais ou pouco menos que um prolongamente da tevê, embora em
carne e osso. Só.
2°
cap. – As Torres
Seria
mentira, isto verdade, que Pafúncio se conhece a contento; sequer havendo
pensado nisso. O tio a pensar pelo sobrinho, agora mastigando pipoca em frente
à máquina de fazer loucos, uma pipoca estourada pela tia, não por ela pela
empregada arranjada trabalhada pela patroa a ser feiosa bastante pra não ter
que temer pelo esposo, o qual não merece confiança diante de rabo de saia; ele
ali havendo trazido a dita redita pipoca ao sobrinho ver tevê. A telinha
gargalha suas coisas mostra mui e mui outras propagandas, interrompe e diz ao
bico de Pafúncio fazendo puf após cada milho mastigado e ouvindo sério:
interrompemos nossa programação para mostrar quem sabe o fim do mundo! Estão
bombardeando as Torres Gêmeas no coração da central urbana do planeta, onde,
como veem (a burra tevê não sabe que existe apenas um único Pafúncio a
arregalar ver olhar aquilo cheio de imagem e som a estrondar com fumaça subindo:)
um avião de passageiros se choca neste instante com uma das torres, outro vem
lá, olhem, vai bater, bateu a desintegrar-se e ah: desintegra a primeira torre,
depois também a outra e o povo, olhem, corre qual barata tonta sem saber pra
onde... é o caos... Olha, olham ambos tios igualmente, ela antes viu a perceber
fragmentos de pipoca daquele boboca no chão que ela limpara atrasinho minutos;
olham também eles e veem realmente o caos na capital do mundo do dinheiro do
homem do planeta do universo quiçá!
Ela
então vai dar seu recado, talvez comentar lamentar levantar questão, não: ele
quem fala. Veja Tonha (o tio desconhece benzinho ou benzinha querida ou meu
amor ou ainda como em nossos dias – gatinha, diz apenas Tonha) veja que o sobrinho
aumenta sua cultura, acresce conhecimento e se educa, a tevê é educativa. Fá-lo
vendo tão belas imagens.
Nisso
a empregada (quarta personagem, aqui acrescentada a burlar o grupo de apenas
três personagens admitidos na estória) nisso derruba nunseiquê, ela corre ver os
estragos na cozinha ele corre atrás dela, elão principal fica bobocando na
tevê, até derruba no soalho um milho, dois milhos pra ser exato.
3°
cap. – ‘Aquiecimento’ no Aquecimento Global
Torna
da cozinha o casal, ele, Pafúncio, continua vidrado naquilo, ansiado decerto
por mais e mais cultura. Enquanto isso o tio discursa. A Terra não precisa do
homem, o homem precisa da Terra, diz, mas, Tonha, mas o homem pensa que pode
aquecê-la o quanto quiser, o homem, Tonha, o homem, deseja aquecê-la de tal
forma com seus poluentes e abusos mais na queima de combustível abusivo também;
enfim aquecê-la de tal maneira que possa fritá-la, igual a cozinheira faz, sim
estraga funde a peça no fogão; o homem aumenta mais e mais ainda sua
poluição... só isso? não: acha dever conseguir aumentar abusar acumular mais
seu arsenal. Só uma, a maior potência por sinal, só uma Tonha, uma só das
potências tem, diz ter dizem entendidos ter, ter o poder de liquidá-la por
trinta e cinco vezes, não fosse desnecessário as trinta e quatro restantes
nuclearmente corretas, para de fato acabar com o planeta; bastante uma e única
vez! Tonha, isso mesmo Tonha: veja nosso pacífico Pafúncio ao ver tevê e me
ouça. Quer o homem sujá-la melhor ofendê-la mais bem, queimar sua epiderme, que
é a crosta, com os abusos tóxicos, acabar com seu coração com suas entranhas
com sua alma inclusive, teria a Terra alma como o sobrinho e nós!? Semelhante
fazem pensam fazer as formiguinhas na casca dum bolo, decerto enormíssimo a
elas tal a nós o orbe. Contudo Pafúncio continua vendo e não vê isso, vê vendo
tevê.
Balança
o tio a cabeça, a cabeça balança a tia.
4°
cap. – Nisso tem Assalto
Nisso
dá-se um assalto, seguido ou antecedido (isto não mudando o crime) por um sequestro
e um sequestro-relâmpago, este que é uma criazinha do sequestro e sendo uma
gracinha. No país, pois Pafúncio não vê apenas cenas pequenas entre as grandes
internacionais, a pensar-se globalmente e assim tudo que se dá dá-se em tudo.
Vê também no vomitório televisivo as coisas de casa, onde não se faz bem ou
todo o dever de casa como no caso da saúde que anda doente na nação. Não, é um
caso de assalto à mão armada, banal, ótimo ao telespectador chão. Corre-corre,
sirenes, bombeiros, curiosos, cerco policial, holofotes potes quebrados.
Prendem os useiros e vezeiros mais, o povo olha olha Pafúncio estupidificado
absorto ou só vendo por ver, a aumentar sua cultura, diz o tio. Veja como o
garoto (o garoto dá dois dele ele pequeno miúdo magro a tia gordona grandona a
abordar a bronqueza do sobrinho filho adotivo deles) veja Tonha como o menino
adquire mais cultura com a tevê, vê essa maravilhosa paisagem nacional de todos
banalizados crimes: ou isso que também vemos, o assalto à mão armada a vítima
no porta-malas pra exigir dinheiro como resgate; ou vê a prisão apinhada,
arrepare os presos, detentos ou reeducandos na linguagem oficial, eles a fazer
com as mãos sinais de apinhamento e superlotação carcerária usando a mímica,
pois uma imagem dizem vale por mil palavras. Veja, Tonha, o sobrinho aquilata
mais seus conhecimentos, adiciona saber ao ver tevê como vê.
5°
cap. – Viagem ao Iraque
Ele
não sabe, ou será que sabe vendo na tevê! que aí o centro das mil e uma noites,
agora o centro do petróleo dos homens-bomba e das mulheres-bomba... (nisso o
tio olha a tia e quase fala ah que pena essas gostosuras se explodir desperdiçando
tanto material bom em bomba! mas não fala cala continua:) aí, Tonha, aí ele vê
na tevê o local onde a guerra, uma das mil e uma que se fere no globo neste
momento. Você diria agora ser mau este nosso filho-postiço sofrer a nojeira da
violência pela exploração do primeiro sobre o terceiro mundo, quiçá quarto ou
quinto, dado o estralhaçamento moral em que a população iraqueana se encontra
nesse morticínio, não é? Agorinha mesmo neste instante está vendo como que o
agressor, confortavelmente sentado no seu supersônico noturno, prepara vê com
infra-vermelho a presa, o mendigo iraqueano e a mendiga fêmea da espécie
sofrente e as crias, umas gracinhas de vitiminhas, como vistos no instrumento;
e então com o raio laser executa lá embaixo aqueles arremedos de gente,
Pafúncio vê o despedaçamento o esfacelamento dito aqui pelo tio à tia; o piloto
executa julgando ou sequer pensando sejam terroristas, uns monstrengos que
vivem azucrinando o sossego do ricaço no ocidente louco pra juntar riqueza;
pois o mar de petróleo onde a canoa iraqueana rema é riqueza. Mira, preme o
botão, solta a morte, tolhe a vida, se vida pois terroristas não devem ter vida
ou não precisam de vida, devidamente eliminados. Sobe então uma fumaça da desintegração
dessas coisas de dois pés que andam qual ratos lá embaixo. Missão cumprida,
retorno à base... Isso, Tonha, isso é que Pafúncio está vendo e ampliando assim
sua visão sobre o mundo. Contudo deixêmo-lo em paz nessa guerra, voltemos
àquela sua empregada na cozinha, para ver se conseguiu derrubar melhor e mais
uma pilha de pratos.
6°
cap. – Uf, Afeganistão
Até
que enfim chegamos ao Afeganistão, uf! A imprensa televisiva andava esquecendo
nossos queridos talibãs, não esquecendo entretanto o Bin Laden escondido e não
tem jeito do chefe da máfia ocidental desenterrá-lo das catacumbas nas
montanhas do país. Ora, onde quero chegar, Tonha. É que nosso Pafúncio estava
meio perdido só vendo guerra noutros santuários, veja como inclusive seu
semblante mudou agora. De fato o moço quase nem exibe seu bico e suas bochechas
pronunciadas como hábito – preso a essa caçada vista que o aparelho de vídeo
nos dá, ou seja os soldados da paz e do bem da liberdade e da democracia
prendem muitos terroristas da alcaída; meia hora de show ao nosso
sobrinho assistir e acrescer à sua já grande sabedoria. Mal sabendo ele como fora
difícil desmanchar o governo do diabo e como difícil também apossar-se dos bens
e das jazidas petrolíferas do lugar. Enfim foi imposta a democracia e a
liberdade contra a libertinagem da ditadura nativa, embora muitos afegãos não
hajam apreciado e optado por meios de vingança e de destruição da obra imposta
a eles. Vê arregaladas a pupilas de nosso pupilo ao observar a matéria sobre o
Afeganistão. Praquê melhor escola?
7°
cap. – Matança Fraterna
Sabe
que a xenofobia é de frequência mais comum que o comum do pensar? Saiba que o
estrangeiro em todos pontos cardeais no planeta é mal visto pela gente da terra
em que viver. Quando uma pessoa se diz liberal, ainda assim é difícil observar
como tem prevenção contra os de fora. Mas fora o quê, se todos somos de dentro.
Saiba Tonha, e Pafúncio desconhece, tanto assim que ainda pregado no sofá no
ver tevê em que esse drama salta aos olhos e quer mais e mais ampliar seu
conhecimento. Sim, porque nosso sobrinho-filho deseja ser mais culto vendo a
telinha; saiba que ela mostra, esbanja até, mostra a sobejo as perseguições
nestes dias na África do Sul. Tanto quanto as do Afeganistão e do Iraque contra
os irmãos curdos? Quem sabe mais, menos aparente. Contudo o pessoal dessa
região sofrida se julga roubado no emprego e na comida pouca que os
estrangeiros consomem em sua comunidade. Aí resolveu dar um basta com certa
matança em regra: saiu de pau, pôs fogo em barracos dos estrangeiros; quase ou
com certeza uma briga tribal, pois gente do povo negro contra negro povo vindo
de fora. Taí pra ver na tevê. Pafúncio sabe disso, ou recolhe essa preciosidade
nessa distração saudável de nossos dias. Aqui, digo como tio e pai, sendo ele
nosso adotivo pelo defunto mano morto: dispensaria mesmo a escola formal que o
menino teve nestes anos até agora, havendo a televisão para transmitir dados e
cultura. Estarei errado?
8°
cap. – Forças da Natureza
Contudo,
talvez o rapaz devaneie mais ainda com os espetáculos que a natureza nos
oferece e a televisão sabe de cátedra explorar em seus mínimos ângulos.
Pafúncio se horrorizou (isto digo emprestando a ele meu sentimento de tio-pai;
como espero você também pense e sinta como tia-mãe) horrorizou-se com os
últimos vomitados das entranhas nas várias regiões e com os terremotos recentes
na China: milhares de mortos e vítimas outras, inclusive acordando a solidariedade
dos outros povos, viu aviões a despejar não bombas mas fardos de alimentos e
medicamentos aos pobres; bem como atos de salvamento. São vulcões em tantos
lugares como na Indonésia e ondas gigantes maremoteadas, é tsuname que
falam, Tonha? Então, e tem enfim todos estragos que a Terra faz de tempos em
tempos, os quais aterrorizam-nos para mostrar a sua fúria e sua força à pouca
força do homem, a cujo nome este dá como sendo desgraça. Sobejo que o ser
humano insignificante diante o talante; todavia essa pulguinha que somos na
crosta terrena advoga a si o direito em explorar também essa dor: vira show televisivo! ganha-se dinheiro
prestígio e valor mostrando os estragos e a morte, a perda num ganho. Ganham
mais ainda as agências noticiosas do primeiro mundo, onde elas têm séde
e sêde de poder. Vendem a varejo esse atacado do negativo a que o
ser humano não pode fugir, tal qual um rato branco na gaiola de cobaia... Mas
tem um ganhoainda maior – nosso bicudo sobrinho bicuda a cultura pela tevê.
9°
cap. – Fogueira e Empalação
Às
vezes a telinha tem rompantes patrióticos: deixa de mostrar a Pafúncio a paz
internacional, os furos de reportagem no exterior, para focar as coisas
pertinentes às palmeiras e aos sabiás que só gorgeiam por aqui, Tonha. No
medievo facilmente os religiosos encontravam o demônio e queimava em público ao
som de cantilenas e desfiles cerimoniais o corpo de quem abrigava o diabo; ou
os clérigos preferiam ditar o empalamento da pessoa perdida jogada mirrada
condenada ao calabouço, caso ainda não morta. Espetavam-na a um poste pelo ânus
e a deixavam curtir seu mal até expirar. Isto nosso sobrinho não sabe, sabe as
coisas de agora acontecidas mostradas em primeira mão num canal e após em todos
outros; de forma que o menino poderá rebuscar entre desenhos e comerciais outra
coisa a aprender e crescer culturalmente – não achará, porém tão só tais
coisas, às vezes ocorrendo quase na mesma hora que ele esteja vendo, como neste
momento, observe como anda ligado no aparelho sentado no sofá nosso sobrinho,
não desgruda do sofá nem arreda pé dos olhos da tela! Pois bem. Outro dia viu
como uns boyzinhos ricos puseram fogo no índio Galdino, dormindo no
ponto de ônibus. Não precisa imaginar solução do caso, Tonha: fica como antes
no castelo de abrantes o assunto do índio, não é assim. Assim também agora
condenaram uma índia de dezesseis anos entrevada em cadeira de rodas a morrer à
moda antiga, decerto julgando ela com capeta: empalaram a pobre, morreu, a tevê
contou mais esse fato patriótico ao Pafúncio, acaba de narrar a ele...
10°
cap. – Voltemos ao Exterior
Mesmo
porque o país anda congregado ao globalismo; valorizemos mais o que é nosso
fora. Por exemplo no Iemem, onde alguns navios superlotados afundam e vitimam
os pobres que desejem ir à África; e onde por alguns milhares de litros de
petróleo trucida-se a cúpula rica, trocando a imitar outros terceiromundistas
seus dirigentes teleguiados desde o nojo diretor da economia mundial. Pafúncio
não raciocina nestes termos, não racioncina. Olha, se afunda no sofá, cavado
por uma bunda com duas nádegas potentes, a ponto de nem perceber a ponta da
mola do dito sofá embaixo a espetá-lo no espetáculo em frente vendo; absorto
mudo atarantado pasmo. Enquanto o tio apenas olha o garoto, garoto embora tenha
quase duas vezes o volume corporal do pai-adotivo, este que agora se cala a
ouvir também ele o noticiário iemenita que o rapaz engole. Enquanto que Dona
Antônia de Seu Zé dá uma espinafrada a bronquear a servidora lá na cozinha;
tanto barulho na tal cozinha a patroa braba, tanto que estas linhas não
conseguem como Pafúncio se beneficiar aumentando o conhecimento com as vozes
televisivas em detrimento das vozes da cozinha lá longe: apenas ouvem as linhas
os gritos longínquos e não bem os próximos. Certamente a patroa enciumada pelos
olhares da criada sobre o homenzinho dela, dela patroa. Quase certo o errado em
ser despedida a cozinheira, a ser trocada por outra mais feia...
11°
cap. – Mil Mios
Ele
anda teimoso em não andar para frente; se preciso pisoteia adversários enfrenta
a marcha da civilização, marcha à ré, teima, fica. O Pafúncio? não, o ditador,
que são ditadores militares há cinquenta anos no poder em Miamar, o qual conservadores
chamam Birmânia, onde o ocidente praticava há séculos a brincadeira de mandões
e escravos. Quer enfrentar a História, ou por sabê-la mentirosa ou por não
sabê-la, ignorá-la. E manda e anda e desanda. Pafúncio não anda; demanda? não,
apenas não entende ou vê em vão e absorto. O tio comenta com a patroa, dona
Antônia – gracinha, Tonha, nosso menino a se enriquecer, a beber conhecimentos
por esse meio direto e mais fácil de aprender que a frágil escola incompetente
de nossa época. Se ilustrando à beça, bebendo conceitos nesse manancial
retangular piscando cores e imagens, a imagem da realidade e da verdade,
fabricadas e plantadas, de última geração, somente a ser suplantada pelo
computador na próxima era, do tipo era uma vez. Veja q... (quase disse “querida”
quem sabe temendo que a mulherona mandasse a cozinheira feia embora a trocá-la
por outra mais feia ainda, possível, e aí o mundo mesmo perdido!) Veja, Tonha,
como ele recebe carinhosamente na inércia os afagos dessa educadora de nossos
dias; saiba, sabe já todas musiquinhas das propagandas e se tivesse talento
para desenho faria belas caricaturas... Bem como terá na cachola mil tiros mil
detonações mil mortes das mil e uma guerras que vê, vendo ainda em contrapeso
como retalhos postos em peso no açougue que são as chacinas e briguinhas de
bandidos nacionais, patriota que é nosso Pafúncio.
12°
cap. – O Clube das Estupradas
Agora,
Tonha, veja não está vendo a África nosso Pafúncio. Note que vê a baixaria nas
altas esferas televisivas, sim as miserinhas da bela Rio de Janeiro, polícia
que mata bandido, bandido que mata polícia, ambos bandido e polícia matando
quem se aventurar passar pela sua frente ou esteja na santa paz dormindo ou
mesmo na sala vendo tevê como vê nosso menino (nisso a tia temeu olhando se da
janela escancarada atrás da televisão à frente do garoto não vindo uma bala perdida...
porém não disse coisa alguma, prosseguiu sem sorte a ouvir o discurso do
consorte:) Sim, não assiste ao drama na África neste momento mas às coisas
nacionais. Outro dia não vendo a miséria moral do Rio sim a miséria africana.
Focalizavam, entrevistavam, em inglês, fluente decerto, em gringo porém com
legendas para que Pafúncio pudesse ler, pois sabemos haver ele conseguido quase
alfabetizar-se na escola pública frequentada e agora com a escola também
pública da televisão, não é? (Tia Antônia concordou de cabeça). Pois bem, mal
ficou essa entrevista: uma vítima do norte continental dizia haver como que um
verdadeiro clube de estupradas! a emissora mostrando a imagem de vinte mil
delas com suas crias quase apócrifas porque as pobres foram sim humilhadas
obrigadas submetidas. Enfim produto da passagem de mil e tantos soldados
sequiosos nas guerras constantes e que nunca se acabam lá na África, em
virtude, e é uma desvirtude, em vista da miséria e a sede de poder nessa
sofrida região, fato estimulado sempre pela política do Primeiro Mundo. O Primeiro
sempre também interferindo no Terceiro, sendo que a África talvez seja quem
sabe Quarto ou indo pros quintos dos mundos! Aliás, Tonha, bem a propósito
lembro a preocupação do G-8, o grupo das nações primeiromundistas com a Rússia
de Terceiro agora apensa para dar ideia democrática e liberal e de abarcação
entre os ricaços; isto que tem visto e vê vendo tevê nosso filho. Todavia vamos
à questão do G8. O G8, neste ano sediado no Japão, olhando ‘preocupado’ com os
africanos, qual os britânicos olhavam no século 19 ‘preocupados’ com a
libertação dos escravos no Brasil. Preocupados sim com o fato de o escravo não
ter dinheiro para comprar produtos britânicos e assim não enriquecer mais a
nobreza burguesa de Londres, mandona no orbe de então. Hoje o G8 interessado no
lucro a manter os ricos ricos, pois sem meios a população sudesenvolvida negra
não pode gastar e comprar a produção primeiromundista. Daí a atual ‘preocupação’
pela sub-cidadania africana. Querem coisa alguma elevar o nível de vida da
África e defender a paz entre países tribais africanos. Claro, aqui entra
também o petróleo, o primeiro mundo adora petróleo e petrodólares asiáticos ou
seja donde vierem; e se preocupa sim com
o possível bloqueio à passagem de riquezas no norte briguento do explorado
continente negro e aí... Ué cadê ocê! A tia fora à cozinha passar ordens à nova
e mais feia empregada – deixara o esposo falando às paredes, pois o bruto
sobrinho já antes não ouvia o tio realmente, vendo vidrado parado bestializado
na cultura de vídeo. Então o tio Zé parou de falar, olhou os claros e piscares
da tevê de distrair Pafúncio, um molecão bicudo e de bochechas estufadas e os
olhões a olhá-la.
13°
cap. – Um Atacadão em Baixaria
Neste
ritmo em que segue Pafúncio vendo continuado e sem parar até vidrado na tevê o
que vê ou se ilustra tanto quanto Einstein ou apalermar-se-á em Chita; nem sei
mais que digo sobre isso, Tonha. Uma verdade salta aos nossos olhos a propósito
desses olhões vendo tevê: é que se não se ilustra ou não apreende a aprender de
fato, de fato vê ao menos. Vê as bombas no Paquistão ou levantes na Cachemira,
mesmo com todo temor que vem das possibilidades nucleares nessas regiões,
regiões com mente subdesenvolvida... Incontrolável!? Incontrolável me parecendo
mais ainda o Irã. Creia, Tonha, e o menino vê essas coisas; acredite que vem aí
ameaça grande à frente pela força atômica iraniana e pela israelense, ambos
povos fanáticos e portanto incontroláveis diante da subforça da razão; e agora
ameaçando na ameaça global com uma possível guerra, trazendo daí seu ódio e
seus agentes secretos infiltrados e em consequência a guerra além da guerra das
bocas, as bocas que costumam antes de destruir diminuir a verdade. Sim vêm
consequências imprevisíveis. Ah em que mundo pusemos essa pobre criança aí
vendo tevê... Sim, adotamo-la; porém somos ainda assim responsáveis pela sua
educação; não somos? Israel como sabe não se contenta em brigar com a
Palestina, igualmente fanatizada, quer se indispor como falei com o Irã, já se
indispõem; enfim flores que não se cheiram; ainda mais com ajuda financeira e
apoio político doutra flor que menos se deve cheirar: os states. Contudo
Pafúncio tem de sobra mais e mais áreas e litigantes para ver na tevê, as imagens
que frequentam diário a tela: os curdos na Turquia e no Iraque por exemplo; os
dramas no Zimbábue com sua oposição em péssima situação... o povo num pagar
tudo isso com o sofrimento da fome e pagar com vida. Enfim Biafras antigas e
atuais, zonas da exploração de lideranças abusivas. Ele só assiste, o pobre
menino que dá dois de mim em estatura e chega ao seu tamanho, Tonha, veja o
volume dessa criança! Todavia vê; e vê sem precisar que a telinha lhe mostre o
longe tendo o próximo de si; o distante lhe ofertando os estragos entre chechênios
ou a loucura dos terroristas da Eta espanhola. Não. Aqui pertinho da gente
temos os dramas decenais na Colômbia com suas Farcs; tá no dia a dia da tevê
que agora ele vê. Afianço entretanto, diz o tio à tia ambos olhando o filho vendo
tevê, o filho Pafúncio; afianço que não precisaria ele (o qual olha o
instrumento de fabricar louco ou idiota) sim não precisaria sequer ‘ir’ visitar
a Colômbia ou o Iraque e demais focos de convulsões sociais fora, tendo aqui no
país tudo isso; e mais um pouco pois somos mestres em violência, explícita ou
velada. Não é assim se assim não for o estado em que se encontra o estado do
Rio! e o caso da Grande São Paulo, de Salvador do Recife e demais áreas de
concentração urbana e de riqueza e de miséria!! Temos focos de todas regiões
conflituosas do planeta em cada grande urbe, não temos?
Em
nossas urbes, bonitinhas sejam, e nos campos dos cantos do país, o que mais
flagramos são incêndios criminosos em matas, vandalismos com pichamento e
quebra de orelhões e bens públicos. Mas tem o carnaval; tem futebol com sua torcida
uniformizada organizada desesperada enfurecida aloucada em verdadeira guerra na
paz social; tem sim a maior parada gay do mundo ( e isto nos engrandece,
Tonha?) Temos vigarices, taí na tevê e ele vê, vendo isso. Temos, ainda,
traficantes e suas drogas; temos outros estados violentos, como a violência
profunda na corrupção, não apenas entre os políticos; violência como a
pedofilia, que virou moda como moda jogar o próprio filho do sexto andar. Tem
mais? e como tem. De fato temos parque infantil em consolo; e tem mulher bonita
ainda não modelo nem definhando em anorexia, enfim existem as jovens para nosso
Pafúncio se deliciar e sonhar... Não me olhe feio, Tonha, não sou eu quem vê
ele vê tevê, sou apenas um tio de respeito igual você tia de respeito; não podemos
é tapar o sol com a peneira; isto um ditado bem conhecido. Tem sim mais
violências exageros e abusos: o imposto do cheque, por exemplo, e a mais alta
taxa cobrada no mundo, isso é lá para nos envaidecer! O menino desconhece a
coisa, suponho. E por último, houvesse último numa terra surrealista longe ser
o paraíso, por último o presidente da nação e sua comitiva, às nossas custas,
vive mais viajando que no país... Não acha você minha cara esposa que já anda
como que um preparo ao apagão-moral a comprometer nossa sociedade e a provocar
escatologicamente um escuro...
Você,
Tonha, não creio que tomará isto ao pé da letra; lembre-se entretanto do apagão
de poucos anos atrás, o qual marcou indelével a população gastona e ‘cheia de
luz’. Não obstante poderá também isso ocorrer, não poderá?
Ora,
o que me preocupa, diz o tio Zé às orelhas antônias, é o porquê de Pafúncio não
desgrudar de jeito nenhum da televisão. Nada mais fazendo. Só vê tevê.
14°
Cap. – Final
Segundo
o primeiro personagem, aqui chamado Pafúncio (supondo o tio que ele pense) o
governo do país garante, num pronunciamento feito outro dia e televisionado é
óbvio, feito sim por um de seus ministros, um sinistro goza o tio: não faltará
mais energia elétrica às necessidades do povo e não haverá mais apagão. Isto,
diz, foi obra do passado, da oposição quando governo ou situação, nós, fala o
sinistro, nós não deixaremos haver essa vergonha a nos sujar internacionalmente:
resolvemos definitivo o problema! (a exclamação vem por conta do ano eleitoral,
os políticos todos sabemos são eleitoeiros de carteirinha ou desde criancinha).
Sim, não afirma o sinistro nesses termos porém em linguagem empolada ao gosto
da eleição próxima, afirma ao empresariado aflito reunido no nunseionde. Nisso
Pafúncio grita para o tio pensando longe perto dele e até ao lado a
observar-lhe a expressão: “tio cadê ocê!?” O garoto tem, sempre teve desde
criancinha como no caso dos políticos, tem um temor doentio ao escuro; o tio a
sorrir do seu choramingar ou prestes a chorar, o tio sorri disso ou do sinistro
ali arreganhado discursando aos empresários na tevê mas interrompido no corte
elétrico; porém tia Antônia já chegando com o toco de vela aceso para dar à
luz, visto ser estéril e nunca ter podido gerar criança mas ter ali com eles o
filho adotivo. O tio comenta, sempre gozador: o sinistro e todo governo não
negava até dia desses não existir o perigo da inflação? não garantia o controle
inflacionário? Ora, quanto você pagou a mais pela carne, Tonha? e pelo arroz o
feijão e na farmácia a comprar minhas pílulas!
Enquanto
discute a família, se é que possa haver discussão havendo uma esposa muda e um
filho bobalhão vidrado na tevê dia e noite, noite e dia, agora por exemplo...
Sim,
enquanto discute a família, ou fala sem parar o tio, o tio presta melhor
atenção à atenção de Pafúncio. Não diz, pensa, caramba! eu imaginando que essa
praga de meninão via vidrado o vidro do vídeo, vidrado sim não na televisão
porém na televizinha... De fato (e nesse ponto o tio igualmente olha interessado
naquele ângulo que percebe, percebe vê:) uma boa se trocando no apartamento em
frente à janela atrás da tevê... Pafúncio olha o tio olha, ambos engrandecidos,
quase perdidos absortos no ver; não veem ou vê o tio Zé que vê Tonha a qual
possivelmente também vê a vizinha, embora a observar os dois – não estaria ela
com ciúmes pelos abusos do marido!
Contudo
nesse momento crítico e perigoso na vida dos seres – tchibum! caiu na cozinha
uma possível pilha posta de pratos, pô! assustando quem sabe o mundo.
Marília junho 2008
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