sábado, 10 de agosto de 2019

Pafúncio e a Tevê


Pafúncio e a Tevê

ou um exercício na arte do humor negro

1° cap. – História dos Três Personagens Desta Estória
Pafúncio, não se afirma aqui Confúcio o qual foi um filósofo chinês a viver nos séculos 6 e 5 aC; Pafúncio olha com olhar em expressão aturdida atarantada espantada os tios – pego de surpresa decerto, firme no ver o que vê – olha e desolha imediato olhando voltado novamente à televisão ligada; fosse desligada talvez nem olhasse não soubesse pra que direção olhar, ou fechasse olhos assim grandões e dormisse, acordado, acordadíssimo. Nem vê bem os tios. Tio Zé, gozador ene-vezes gozador; e tia Antônia, a concordar sempre com o marido, compassiva ou passiva apenas, em aguardo como toda consorte casada nos conformes do antigamente o consorte envelhotar mais e, aí, vingar-se pela afronta duma vida conjugal inteira como quase objeto de seu machão, então não mais machão mijão de urinar de pé no pé e daí receber ralhação da esposa ex-posa posando passivamente ao seu homem agora. Não, sim o tio dá as cartas, conta o que vê, veem, ou seja – o sobrinho Pafúncio olhando a tevê. Fá-lo em diálogo ao gosto do homem comum: ouve-se, concorda-se respondendo sim na linguagem mímica quase sem som, a dar prestígio ao macho falante matracante. Vai mais além tio Zé. Conta para a outra, a fêmea da espécie escutante, conta-lhe desembaraçadamente, inclusive sem precisar aspar; assim economizando sinais trabalho tinta gasto do escrivão anotador e do diletante digitador, e também do paciente editor. Isto porque  ¡como saberíamos essas artes dos três personagens sem toda essa arte!
Bem. Mal começamos já o tio sai-nos com uma de suas tiradas: Veja Tonha (ela detesta esse apelido, às comadres chega a exigir ser chamada Dona Antônia ou Comadre apenas, Tonha! que indecência; contudo se cala diante do machão falante e inclusive solta um risinho dos mais sem-graça que encontra no momento). Veja Tonha, dona Antônia é sua ouvinte de carteirinha, sua consorte sem sorte; veja o que vemos, isto é um sobrinho com semblante dum ser entre o Einstein e a Chita, a Chita do Tarzã. Nosso Pafúncio se encultura recebe conhecimento vendo televisão, a rainha de nossos dias, ah que saudades do rádio na roça mentirando com ajuda das pilhonas de mil horas que duravam umas setecentas apenas; você se lembra?
Antes dela responder, tivesse nessa altura língua, já faz outro comentário o tio sobre o sobrinho.
Pafúncio veio ter ao lar dos tios por desaparecimento em morte morrida ou cadeia ou sumiço tão comum na sociedade, desaparecimento esse que atingiu os pais, então separados recasados ou ajuntados como manda a regra ou o modismo social. Sobrou o órfão a ser criado pelos bondosos caridosos tios. Enquanto que a vizinhança e conhecidos desocupados se ocupavam a criar estórias em torno dessa criança (uma vertente dizia o garoto bastardo de seu Zé, o qual teria recolhido o filho das mãos ingratas e desnorteadoras do abandono. Fica nestes parênteses um ‘talvez’ a aguçar melhor o desnecessário, e pronto. Ponto).
Pafúncio cresce e é agora grandalhão e nisso teria puxado os parentes maternos gigantões, enquanto o pai presumível sendo tão pequeno quanto o mano José, o Zé da Antônia Gorda Grandona; estes passando como pais emprestados a criar o rapagão.
Vive sem nada fazer, o que é muito fazer; e para distração e cultura vê tevê dia noite dia; isto em virtude da desvirtude em não existir computador – ou noite dia noite vidrando a usar as teclas e a só pensar falar informaticamente. Vê tevê.
Só? come vendo, dorme vendo, corre rápido dá descarga ou se esquece e volta para ver tevê. É pouco mais ou pouco menos que um prolongamente da tevê, embora em carne e osso. Só.

2° cap. – As Torres
Seria mentira, isto verdade, que Pafúncio se conhece a contento; sequer havendo pensado nisso. O tio a pensar pelo sobrinho, agora mastigando pipoca em frente à máquina de fazer loucos, uma pipoca estourada pela tia, não por ela pela empregada arranjada trabalhada pela patroa a ser feiosa bastante pra não ter que temer pelo esposo, o qual não merece confiança diante de rabo de saia; ele ali havendo trazido a dita redita pipoca ao sobrinho ver tevê. A telinha gargalha suas coisas mostra mui e mui outras propagandas, interrompe e diz ao bico de Pafúncio fazendo puf após cada milho mastigado e ouvindo sério: interrompemos nossa programação para mostrar quem sabe o fim do mundo! Estão bombardeando as Torres Gêmeas no coração da central urbana do planeta, onde, como veem (a burra tevê não sabe que existe apenas um único Pafúncio a arregalar ver olhar aquilo cheio de imagem e som a estrondar com fumaça subindo:) um avião de passageiros se choca neste instante com uma das torres, outro vem lá, olhem, vai bater, bateu a desintegrar-se e ah: desintegra a primeira torre, depois também a outra e o povo, olhem, corre qual barata tonta sem saber pra onde... é o caos... Olha, olham ambos tios igualmente, ela antes viu a perceber fragmentos de pipoca daquele boboca no chão que ela limpara atrasinho minutos; olham também eles e veem realmente o caos na capital do mundo do dinheiro do homem do planeta do universo quiçá!
Ela então vai dar seu recado, talvez comentar lamentar levantar questão, não: ele quem fala. Veja Tonha (o tio desconhece benzinho ou benzinha querida ou meu amor ou ainda como em nossos dias – gatinha, diz apenas Tonha) veja que o sobrinho aumenta sua cultura, acresce conhecimento e se educa, a tevê é educativa. Fá-lo vendo tão belas imagens.
Nisso a empregada (quarta personagem, aqui acrescentada a burlar o grupo de apenas três personagens admitidos na estória) nisso derruba nunseiquê, ela corre ver os estragos na cozinha ele corre atrás dela, elão principal fica bobocando na tevê, até derruba no soalho um milho, dois milhos pra ser exato.

3° cap. – ‘Aquiecimento’ no Aquecimento Global
Torna da cozinha o casal, ele, Pafúncio, continua vidrado naquilo, ansiado decerto por mais e mais cultura. Enquanto isso o tio discursa. A Terra não precisa do homem, o homem precisa da Terra, diz, mas, Tonha, mas o homem pensa que pode aquecê-la o quanto quiser, o homem, Tonha, o homem, deseja aquecê-la de tal forma com seus poluentes e abusos mais na queima de combustível abusivo também; enfim aquecê-la de tal maneira que possa fritá-la, igual a cozinheira faz, sim estraga funde a peça no fogão; o homem aumenta mais e mais ainda sua poluição... só isso? não: acha dever conseguir aumentar abusar acumular mais seu arsenal. Só uma, a maior potência por sinal, só uma Tonha, uma só das potências tem, diz ter dizem entendidos ter, ter o poder de liquidá-la por trinta e cinco vezes, não fosse desnecessário as trinta e quatro restantes nuclearmente corretas, para de fato acabar com o planeta; bastante uma e única vez! Tonha, isso mesmo Tonha: veja nosso pacífico Pafúncio ao ver tevê e me ouça. Quer o homem sujá-la melhor ofendê-la mais bem, queimar sua epiderme, que é a crosta, com os abusos tóxicos, acabar com seu coração com suas entranhas com sua alma inclusive, teria a Terra alma como o sobrinho e nós!? Semelhante fazem pensam fazer as formiguinhas na casca dum bolo, decerto enormíssimo a elas tal a nós o orbe. Contudo Pafúncio continua vendo e não vê isso, vê vendo tevê.
Balança o tio a cabeça, a cabeça balança a tia.

4° cap. – Nisso tem Assalto
Nisso dá-se um assalto, seguido ou antecedido (isto não mudando o crime) por um sequestro e um sequestro-relâmpago, este que é uma criazinha do sequestro e sendo uma gracinha. No país, pois Pafúncio não vê apenas cenas pequenas entre as grandes internacionais, a pensar-se globalmente e assim tudo que se dá dá-se em tudo. Vê também no vomitório televisivo as coisas de casa, onde não se faz bem ou todo o dever de casa como no caso da saúde que anda doente na nação. Não, é um caso de assalto à mão armada, banal, ótimo ao telespectador chão. Corre-corre, sirenes, bombeiros, curiosos, cerco policial, holofotes potes quebrados. Prendem os useiros e vezeiros mais, o povo olha olha Pafúncio estupidificado absorto ou só vendo por ver, a aumentar sua cultura, diz o tio. Veja como o garoto (o garoto dá dois dele ele pequeno miúdo magro a tia gordona grandona a abordar a bronqueza do sobrinho filho adotivo deles) veja Tonha como o menino adquire mais cultura com a tevê, vê essa maravilhosa paisagem nacional de todos banalizados crimes: ou isso que também vemos, o assalto à mão armada a vítima no porta-malas pra exigir dinheiro como resgate; ou vê a prisão apinhada, arrepare os presos, detentos ou reeducandos na linguagem oficial, eles a fazer com as mãos sinais de apinhamento e superlotação carcerária usando a mímica, pois uma imagem dizem vale por mil palavras. Veja, Tonha, o sobrinho aquilata mais seus conhecimentos, adiciona saber ao ver tevê como vê.

5° cap. – Viagem ao Iraque
Ele não sabe, ou será que sabe vendo na tevê! que aí o centro das mil e uma noites, agora o centro do petróleo dos homens-bomba e das mulheres-bomba... (nisso o tio olha a tia e quase fala ah que pena essas gostosuras se explodir desperdiçando tanto material bom em bomba! mas não fala cala continua:) aí, Tonha, aí ele vê na tevê o local onde a guerra, uma das mil e uma que se fere no globo neste momento. Você diria agora ser mau este nosso filho-postiço sofrer a nojeira da violência pela exploração do primeiro sobre o terceiro mundo, quiçá quarto ou quinto, dado o estralhaçamento moral em que a população iraqueana se encontra nesse morticínio, não é? Agorinha mesmo neste instante está vendo como que o agressor, confortavelmente sentado no seu supersônico noturno, prepara vê com infra-vermelho a presa, o mendigo iraqueano e a mendiga fêmea da espécie sofrente e as crias, umas gracinhas de vitiminhas, como vistos no instrumento; e então com o raio laser executa lá embaixo aqueles arremedos de gente, Pafúncio vê o despedaçamento o esfacelamento dito aqui pelo tio à tia; o piloto executa julgando ou sequer pensando sejam terroristas, uns monstrengos que vivem azucrinando o sossego do ricaço no ocidente louco pra juntar riqueza; pois o mar de petróleo onde a canoa iraqueana rema é riqueza. Mira, preme o botão, solta a morte, tolhe a vida, se vida pois terroristas não devem ter vida ou não precisam de vida, devidamente eliminados. Sobe então uma fumaça da desintegração dessas coisas de dois pés que andam qual ratos lá embaixo. Missão cumprida, retorno à base... Isso, Tonha, isso é que Pafúncio está vendo e ampliando assim sua visão sobre o mundo. Contudo deixêmo-lo em paz nessa guerra, voltemos àquela sua empregada na cozinha, para ver se conseguiu derrubar melhor e mais uma pilha de pratos.

6° cap. – Uf, Afeganistão
Até que enfim chegamos ao Afeganistão, uf! A imprensa televisiva andava esquecendo nossos queridos talibãs, não esquecendo entretanto o Bin Laden escondido e não tem jeito do chefe da máfia ocidental desenterrá-lo das catacumbas nas montanhas do país. Ora, onde quero chegar, Tonha. É que nosso Pafúncio estava meio perdido só vendo guerra noutros santuários, veja como inclusive seu semblante mudou agora. De fato o moço quase nem exibe seu bico e suas bochechas pronunciadas como hábito – preso a essa caçada vista que o aparelho de vídeo nos dá, ou seja os soldados da paz e do bem da liberdade e da democracia prendem muitos terroristas da alcaída; meia hora de show ao nosso sobrinho assistir e acrescer à sua já grande sabedoria. Mal sabendo ele como fora difícil desmanchar o governo do diabo e como difícil também apossar-se dos bens e das jazidas petrolíferas do lugar. Enfim foi imposta a democracia e a liberdade contra a libertinagem da ditadura nativa, embora muitos afegãos não hajam apreciado e optado por meios de vingança e de destruição da obra imposta a eles. Vê arregaladas a pupilas de nosso pupilo ao observar a matéria sobre o Afeganistão. Praquê melhor escola?

7° cap. – Matança Fraterna
Sabe que a xenofobia é de frequência mais comum que o comum do pensar? Saiba que o estrangeiro em todos pontos cardeais no planeta é mal visto pela gente da terra em que viver. Quando uma pessoa se diz liberal, ainda assim é difícil observar como tem prevenção contra os de fora. Mas fora o quê, se todos somos de dentro. Saiba Tonha, e Pafúncio desconhece, tanto assim que ainda pregado no sofá no ver tevê em que esse drama salta aos olhos e quer mais e mais ampliar seu conhecimento. Sim, porque nosso sobrinho-filho deseja ser mais culto vendo a telinha; saiba que ela mostra, esbanja até, mostra a sobejo as perseguições nestes dias na África do Sul. Tanto quanto as do Afeganistão e do Iraque contra os irmãos curdos? Quem sabe mais, menos aparente. Contudo o pessoal dessa região sofrida se julga roubado no emprego e na comida pouca que os estrangeiros consomem em sua comunidade. Aí resolveu dar um basta com certa matança em regra: saiu de pau, pôs fogo em barracos dos estrangeiros; quase ou com certeza uma briga tribal, pois gente do povo negro contra negro povo vindo de fora. Taí pra ver na tevê. Pafúncio sabe disso, ou recolhe essa preciosidade nessa distração saudável de nossos dias. Aqui, digo como tio e pai, sendo ele nosso adotivo pelo defunto mano morto: dispensaria mesmo a escola formal que o menino teve nestes anos até agora, havendo a televisão para transmitir dados e cultura. Estarei errado?

8° cap. – Forças da Natureza
Contudo, talvez o rapaz devaneie mais ainda com os espetáculos que a natureza nos oferece e a televisão sabe de cátedra explorar em seus mínimos ângulos. Pafúncio se horrorizou (isto digo emprestando a ele meu sentimento de tio-pai; como espero você também pense e sinta como tia-mãe) horrorizou-se com os últimos vomitados das entranhas nas várias regiões e com os terremotos recentes na China: milhares de mortos e vítimas outras, inclusive acordando a solidariedade dos outros povos, viu aviões a despejar não bombas mas fardos de alimentos e medicamentos aos pobres; bem como atos de salvamento. São vulcões em tantos lugares como na Indonésia e ondas gigantes maremoteadas, é tsuname que falam, Tonha? Então, e tem enfim todos estragos que a Terra faz de tempos em tempos, os quais aterrorizam-nos para mostrar a sua fúria e sua força à pouca força do homem, a cujo nome este dá como sendo desgraça. Sobejo que o ser humano insignificante diante o talante; todavia essa pulguinha que somos na crosta terrena advoga a si o direito em explorar também essa dor: vira show televisivo! ganha-se dinheiro prestígio e valor mostrando os estragos e a morte, a perda num ganho. Ganham mais ainda as agências noticiosas do primeiro mundo, onde elas têm séde e sêde de poder. Vendem a varejo esse atacado do negativo a que o ser humano não pode fugir, tal qual um rato branco na gaiola de cobaia... Mas tem um ganhoainda maior – nosso bicudo sobrinho bicuda a cultura pela tevê.

9° cap. – Fogueira e Empalação
Às vezes a telinha tem rompantes patrióticos: deixa de mostrar a Pafúncio a paz internacional, os furos de reportagem no exterior, para focar as coisas pertinentes às palmeiras e aos sabiás que só gorgeiam por aqui, Tonha. No medievo facilmente os religiosos encontravam o demônio e queimava em público ao som de cantilenas e desfiles cerimoniais o corpo de quem abrigava o diabo; ou os clérigos preferiam ditar o empalamento da pessoa perdida jogada mirrada condenada ao calabouço, caso ainda não morta. Espetavam-na a um poste pelo ânus e a deixavam curtir seu mal até expirar. Isto nosso sobrinho não sabe, sabe as coisas de agora acontecidas mostradas em primeira mão num canal e após em todos outros; de forma que o menino poderá rebuscar entre desenhos e comerciais outra coisa a aprender e crescer culturalmente – não achará, porém tão só tais coisas, às vezes ocorrendo quase na mesma hora que ele esteja vendo, como neste momento, observe como anda ligado no aparelho sentado no sofá nosso sobrinho, não desgruda do sofá nem arreda pé dos olhos da tela! Pois bem. Outro dia viu como uns boyzinhos ricos puseram fogo no índio Galdino, dormindo no ponto de ônibus. Não precisa imaginar solução do caso, Tonha: fica como antes no castelo de abrantes o assunto do índio, não é assim. Assim também agora condenaram uma índia de dezesseis anos entrevada em cadeira de rodas a morrer à moda antiga, decerto julgando ela com capeta: empalaram a pobre, morreu, a tevê contou mais esse fato patriótico ao Pafúncio, acaba de narrar a ele...

10° cap. – Voltemos ao Exterior
Mesmo porque o país anda congregado ao globalismo; valorizemos mais o que é nosso fora. Por exemplo no Iemem, onde alguns navios superlotados afundam e vitimam os pobres que desejem ir à África; e onde por alguns milhares de litros de petróleo trucida-se a cúpula rica, trocando a imitar outros terceiromundistas seus dirigentes teleguiados desde o nojo diretor da economia mundial. Pafúncio não raciocina nestes termos, não racioncina. Olha, se afunda no sofá, cavado por uma bunda com duas nádegas potentes, a ponto de nem perceber a ponta da mola do dito sofá embaixo a espetá-lo no espetáculo em frente vendo; absorto mudo atarantado pasmo. Enquanto o tio apenas olha o garoto, garoto embora tenha quase duas vezes o volume corporal do pai-adotivo, este que agora se cala a ouvir também ele o noticiário iemenita que o rapaz engole. Enquanto que Dona Antônia de Seu Zé dá uma espinafrada a bronquear a servidora lá na cozinha; tanto barulho na tal cozinha a patroa braba, tanto que estas linhas não conseguem como Pafúncio se beneficiar aumentando o conhecimento com as vozes televisivas em detrimento das vozes da cozinha lá longe: apenas ouvem as linhas os gritos longínquos e não bem os próximos. Certamente a patroa enciumada pelos olhares da criada sobre o homenzinho dela, dela patroa. Quase certo o errado em ser despedida a cozinheira, a ser trocada por outra mais feia...

11° cap. – Mil Mios
Ele anda teimoso em não andar para frente; se preciso pisoteia adversários enfrenta a marcha da civilização, marcha à ré, teima, fica. O Pafúncio? não, o ditador, que são ditadores militares há cinquenta anos no poder em Miamar, o qual conservadores chamam Birmânia, onde o ocidente praticava há séculos a brincadeira de mandões e escravos. Quer enfrentar a História, ou por sabê-la mentirosa ou por não sabê-la, ignorá-la. E manda e anda e desanda. Pafúncio não anda; demanda? não, apenas não entende ou vê em vão e absorto. O tio comenta com a patroa, dona Antônia – gracinha, Tonha, nosso menino a se enriquecer, a beber conhecimentos por esse meio direto e mais fácil de aprender que a frágil escola incompetente de nossa época. Se ilustrando à beça, bebendo conceitos nesse manancial retangular piscando cores e imagens, a imagem da realidade e da verdade, fabricadas e plantadas, de última geração, somente a ser suplantada pelo computador na próxima era, do tipo era uma vez. Veja q... (quase disse “querida” quem sabe temendo que a mulherona mandasse a cozinheira feia embora a trocá-la por outra mais feia ainda, possível, e aí o mundo mesmo perdido!) Veja, Tonha, como ele recebe carinhosamente na inércia os afagos dessa educadora de nossos dias; saiba, sabe já todas musiquinhas das propagandas e se tivesse talento para desenho faria belas caricaturas... Bem como terá na cachola mil tiros mil detonações mil mortes das mil e uma guerras que vê, vendo ainda em contrapeso como retalhos postos em peso no açougue que são as chacinas e briguinhas de bandidos nacionais, patriota que é nosso Pafúncio.

12° cap. – O Clube das Estupradas
Agora, Tonha, veja não está vendo a África nosso Pafúncio. Note que vê a baixaria nas altas esferas televisivas, sim as miserinhas da bela Rio de Janeiro, polícia que mata bandido, bandido que mata polícia, ambos bandido e polícia matando quem se aventurar passar pela sua frente ou esteja na santa paz dormindo ou mesmo na sala vendo tevê como vê nosso menino (nisso a tia temeu olhando se da janela escancarada atrás da televisão à frente do garoto não vindo uma bala perdida... porém não disse coisa alguma, prosseguiu sem sorte a ouvir o discurso do consorte:) Sim, não assiste ao drama na África neste momento mas às coisas nacionais. Outro dia não vendo a miséria moral do Rio sim a miséria africana. Focalizavam, entrevistavam, em inglês, fluente decerto, em gringo porém com legendas para que Pafúncio pudesse ler, pois sabemos haver ele conseguido quase alfabetizar-se na escola pública frequentada e agora com a escola também pública da televisão, não é? (Tia Antônia concordou de cabeça). Pois bem, mal ficou essa entrevista: uma vítima do norte continental dizia haver como que um verdadeiro clube de estupradas! a emissora mostrando a imagem de vinte mil delas com suas crias quase apócrifas porque as pobres foram sim humilhadas obrigadas submetidas. Enfim produto da passagem de mil e tantos soldados sequiosos nas guerras constantes e que nunca se acabam lá na África, em virtude, e é uma desvirtude, em vista da miséria e a sede de poder nessa sofrida região, fato estimulado sempre pela política do Primeiro Mundo. O Primeiro sempre também interferindo no Terceiro, sendo que a África talvez seja quem sabe Quarto ou indo pros quintos dos mundos! Aliás, Tonha, bem a propósito lembro a preocupação do G-8, o grupo das nações primeiromundistas com a Rússia de Terceiro agora apensa para dar ideia democrática e liberal e de abarcação entre os ricaços; isto que tem visto e vê vendo tevê nosso filho. Todavia vamos à questão do G8. O G8, neste ano sediado no Japão, olhando ‘preocupado’ com os africanos, qual os britânicos olhavam no século 19 ‘preocupados’ com a libertação dos escravos no Brasil. Preocupados sim com o fato de o escravo não ter dinheiro para comprar produtos britânicos e assim não enriquecer mais a nobreza burguesa de Londres, mandona no orbe de então. Hoje o G8 interessado no lucro a manter os ricos ricos, pois sem meios a população sudesenvolvida negra não pode gastar e comprar a produção primeiromundista. Daí a atual ‘preocupação’ pela sub-cidadania africana. Querem coisa alguma elevar o nível de vida da África e defender a paz entre países tribais africanos. Claro, aqui entra também o petróleo, o primeiro mundo adora petróleo e petrodólares asiáticos ou seja donde vierem;  e se preocupa sim com o possível bloqueio à passagem de riquezas no norte briguento do explorado continente negro e aí... Ué cadê ocê! A tia fora à cozinha passar ordens à nova e mais feia empregada – deixara o esposo falando às paredes, pois o bruto sobrinho já antes não ouvia o tio realmente, vendo vidrado parado bestializado na cultura de vídeo. Então o tio Zé parou de falar, olhou os claros e piscares da tevê de distrair Pafúncio, um molecão bicudo e de bochechas estufadas e os olhões a olhá-la.

13° cap. – Um Atacadão em Baixaria
Neste ritmo em que segue Pafúncio vendo continuado e sem parar até vidrado na tevê o que vê ou se ilustra tanto quanto Einstein ou apalermar-se-á em Chita; nem sei mais que digo sobre isso, Tonha. Uma verdade salta aos nossos olhos a propósito desses olhões vendo tevê: é que se não se ilustra ou não apreende a aprender de fato, de fato vê ao menos. Vê as bombas no Paquistão ou levantes na Cachemira, mesmo com todo temor que vem das possibilidades nucleares nessas regiões, regiões com mente subdesenvolvida... Incontrolável!? Incontrolável me parecendo mais ainda o Irã. Creia, Tonha, e o menino vê essas coisas; acredite que vem aí ameaça grande à frente pela força atômica iraniana e pela israelense, ambos povos fanáticos e portanto incontroláveis diante da subforça da razão; e agora ameaçando na ameaça global com uma possível guerra, trazendo daí seu ódio e seus agentes secretos infiltrados e em consequência a guerra além da guerra das bocas, as bocas que costumam antes de destruir diminuir a verdade. Sim vêm consequências imprevisíveis. Ah em que mundo pusemos essa pobre criança aí vendo tevê... Sim, adotamo-la; porém somos ainda assim responsáveis pela sua educação; não somos? Israel como sabe não se contenta em brigar com a Palestina, igualmente fanatizada, quer se indispor como falei com o Irã, já se indispõem; enfim flores que não se cheiram; ainda mais com ajuda financeira e apoio político doutra flor que menos se deve cheirar: os states. Contudo Pafúncio tem de sobra mais e mais áreas e litigantes para ver na tevê, as imagens que frequentam diário a tela: os curdos na Turquia e no Iraque por exemplo; os dramas no Zimbábue com sua oposição em péssima situação... o povo num pagar tudo isso com o sofrimento da fome e pagar com vida. Enfim Biafras antigas e atuais, zonas da exploração de lideranças abusivas. Ele só assiste, o pobre menino que dá dois de mim em estatura e chega ao seu tamanho, Tonha, veja o volume dessa criança! Todavia vê; e vê sem precisar que a telinha lhe mostre o longe tendo o próximo de si; o distante lhe ofertando os estragos entre chechênios ou a loucura dos terroristas da Eta espanhola. Não. Aqui pertinho da gente temos os dramas decenais na Colômbia com suas Farcs; tá no dia a dia da tevê que agora ele vê. Afianço entretanto, diz o tio à tia ambos olhando o filho vendo tevê, o filho Pafúncio; afianço que não precisaria ele (o qual olha o instrumento de fabricar louco ou idiota) sim não precisaria sequer ‘ir’ visitar a Colômbia ou o Iraque e demais focos de convulsões sociais fora, tendo aqui no país tudo isso; e mais um pouco pois somos mestres em violência, explícita ou velada. Não é assim se assim não for o estado em que se encontra o estado do Rio! e o caso da Grande São Paulo, de Salvador do Recife e demais áreas de concentração urbana e de riqueza e de miséria!! Temos focos de todas regiões conflituosas do planeta em cada grande urbe, não temos?
Em nossas urbes, bonitinhas sejam, e nos campos dos cantos do país, o que mais flagramos são incêndios criminosos em matas, vandalismos com pichamento e quebra de orelhões e bens públicos. Mas tem o carnaval; tem futebol com sua torcida uniformizada organizada desesperada enfurecida aloucada em verdadeira guerra na paz social; tem sim a maior parada gay do mundo ( e isto nos engrandece, Tonha?) Temos vigarices, taí na tevê e ele vê, vendo isso. Temos, ainda, traficantes e suas drogas; temos outros estados violentos, como a violência profunda na corrupção, não apenas entre os políticos; violência como a pedofilia, que virou moda como moda jogar o próprio filho do sexto andar. Tem mais? e como tem. De fato temos parque infantil em consolo; e tem mulher bonita ainda não modelo nem definhando em anorexia, enfim existem as jovens para nosso Pafúncio se deliciar e sonhar... Não me olhe feio, Tonha, não sou eu quem vê ele vê tevê, sou apenas um tio de respeito igual você tia de respeito; não podemos é tapar o sol com a peneira; isto um ditado bem conhecido. Tem sim mais violências exageros e abusos: o imposto do cheque, por exemplo, e a mais alta taxa cobrada no mundo, isso é lá para nos envaidecer! O menino desconhece a coisa, suponho. E por último, houvesse último numa terra surrealista longe ser o paraíso, por último o presidente da nação e sua comitiva, às nossas custas, vive mais viajando que no país... Não acha você minha cara esposa que já anda como que um preparo ao apagão-moral a comprometer nossa sociedade e a provocar escatologicamente um escuro...
Você, Tonha, não creio que tomará isto ao pé da letra; lembre-se entretanto do apagão de poucos anos atrás, o qual marcou indelével a população gastona e ‘cheia de luz’. Não obstante poderá também isso ocorrer, não poderá?
Ora, o que me preocupa, diz o tio Zé às orelhas antônias, é o porquê de Pafúncio não desgrudar de jeito nenhum da televisão. Nada mais fazendo. Só vê tevê.

14° Cap. – Final
Segundo o primeiro personagem, aqui chamado Pafúncio (supondo o tio que ele pense) o governo do país garante, num pronunciamento feito outro dia e televisionado é óbvio, feito sim por um de seus ministros, um sinistro goza o tio: não faltará mais energia elétrica às necessidades do povo e não haverá mais apagão. Isto, diz, foi obra do passado, da oposição quando governo ou situação, nós, fala o sinistro, nós não deixaremos haver essa vergonha a nos sujar internacionalmente: resolvemos definitivo o problema! (a exclamação vem por conta do ano eleitoral, os políticos todos sabemos são eleitoeiros de carteirinha ou desde criancinha). Sim, não afirma o sinistro nesses termos porém em linguagem empolada ao gosto da eleição próxima, afirma ao empresariado aflito reunido no nunseionde. Nisso Pafúncio grita para o tio pensando longe perto dele e até ao lado a observar-lhe a expressão: “tio cadê ocê!?” O garoto tem, sempre teve desde criancinha como no caso dos políticos, tem um temor doentio ao escuro; o tio a sorrir do seu choramingar ou prestes a chorar, o tio sorri disso ou do sinistro ali arreganhado discursando aos empresários na tevê mas interrompido no corte elétrico; porém tia Antônia já chegando com o toco de vela aceso para dar à luz, visto ser estéril e nunca ter podido gerar criança mas ter ali com eles o filho adotivo. O tio comenta, sempre gozador: o sinistro e todo governo não negava até dia desses não existir o perigo da inflação? não garantia o controle inflacionário? Ora, quanto você pagou a mais pela carne, Tonha? e pelo arroz o feijão e na farmácia a comprar minhas pílulas!
Enquanto discute a família, se é que possa haver discussão havendo uma esposa muda e um filho bobalhão vidrado na tevê dia e noite, noite e dia, agora por exemplo...
Sim, enquanto discute a família, ou fala sem parar o tio, o tio presta melhor atenção à atenção de Pafúncio. Não diz, pensa, caramba! eu imaginando que essa praga de meninão via vidrado o vidro do vídeo, vidrado sim não na televisão porém na televizinha... De fato (e nesse ponto o tio igualmente olha interessado naquele ângulo que percebe, percebe vê:) uma boa se trocando no apartamento em frente à janela atrás da tevê... Pafúncio olha o tio olha, ambos engrandecidos, quase perdidos absortos no ver; não veem ou vê o tio Zé que vê Tonha a qual possivelmente também vê a vizinha, embora a observar os dois – não estaria ela com ciúmes pelos abusos do marido!
Contudo nesse momento crítico e perigoso na vida dos seres – tchibum! caiu na cozinha uma possível pilha posta de pratos, pô! assustando quem sabe o mundo.
Marília   junho  2008




         




         



             

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