quarta-feira, 14 de agosto de 2019

O Agente não agente por Refém



O Agente não agente por Refém

1.Primeiras Palavras
Já naquele dia... qual dia? ora bolas cada pergunta, aquele. Então desceu do seu importado preto limpo claro brilho mas sujo da poeira, bateu... ora, bateu a porta não o carro, bateu quase espalhafatoso não sendo de apuro e educação, a questão de um sujeito por ter dinheiro ser necessariamente de fino trato! não, claro; bateu não chegando a assustar quem de assustar no barulho de lata contra lata, sozinho, a sair do carrão vistoso, importado se bem me alembro, eu só ouvia não via vendo a rua, a rua Boa Morte? a rua Boa Morte, talvez mais interessado na boa, a boa do 24, por sinal um numerozinho bem sem-vergonha todavia não jogo no bicho, não jogo; o vizinho sim, dizem até que ganha horrores nisso e tem ainda interesse na sena na timemania essas coisas lotéricas; coisas poucas porque é fazendeiro herdeiro vezeiro falam, sem provar suponho, falam que enganara os irmãos dele na herança recebendo a parte do leão. Rico já, além de possuir outra fonte de renda e é nisto aqui nos fixarmos agora, agora bateu a porta do auto sem raiva mas sem educação também, bateu o importado a entrar em seu palácio.

2.O Palácio e a Fonte
Entra só, não está só na casa; uma residência longe ser sequer palacete porém moradia burguesa decente a fazer inveja aos pés no chão e aos pés de chinelo a passar silenciosos; quer dizer, não bem silenciosos, silenciosos os passantes, os cães gritam esbravejam querendo morder o mundo e os pés-rapados a passar ressabiados na Boa Morte, não para a morte para a vida em existência sofrida pobre quase miserável e então, então essa pobre gente comum vendo o imóvel como das mil e uma noites; além de observar o carrão importado parado lustroso sujo de poeira; amiúdo não agora vê o morador lavando limpando adorando o importado ou só mostrando a riqueza; contudo o automóvel não entrou na garagem, imitando o dono a entrar no palácio; a bela máquina, o carrãozinho, permanece ali igual cachorro a defender o patrimônio que é uma propriedade urbana, urbana haja vista haver a rural cheia de vacas pobres e trabalhadores no limiar da miséria com salário defasado, defasado somente o nome porque os séculos cimentaram o valor; a propriedade rural dele não precisa cachorrinho (sim, tem um brabo e rosnador de amedrontar possível estranho) nem cão nem guarda importado ou apenas rico na visão miserável a garantir a fazenda. Lá são pastos e mais pastos sem árvores pois o pobre rico proprietário é contra tais intromissões, as árvores nas suas terras, e assim mandou cortá-las plantar capim ao gado rendoso. Já no palácio não tem berrar mugir nem gritões humanos nem ladrar, no palácio é o silêncio, não obstante não estar sozinho o alto funcionário, aqui autodenominação visto andar lotado no comum do funcionalismo. Estão agora a mulher bonita, boba na sua opinião, e a filha, belinha mas bobinha ou sem expediente sem iniciativa dada a educação em casa ser do tipo “papai falou” e “o Jorge mandou”. O Jorge não pensa nisso, nele apenas. É um sujeito esquisito egocêntrico não chegando nunca a achar que outrem possa achar algo e até contrariá-lo nos contrários. Tem o menino, menino já adolescente e longe no cursinho, em marcha firme a ser militar ou engenheiro militar, segundo imposição de papai. Papai está brabo. Não, macambúzio, tristonho, a falar tão só com os botões, sabemos que botões não revelam segredos de Estado, no estado em que se encontra o funcionário a extrair alto salário (pensamento puro do pobretão que o vê, não seu pensar) a extrair ganhos nessa fonte inesgotável que são as burras do governo. Contudo há na sua mente segredo... Segredo não é para se saber e menos para comentar; em virtude dessa desvirtude é o ambiente um silêncio entre os seus nas quatro paredes, nem a tevê ligada baixinho nem mesmo o computador dando palpite: todo mundo aceita e pronto. Papai faz o que deve se limpa come tudinho no silêncio; ela comentará depois na vizinhança, mesmo porque como parar a língua da bela! comentará seu lar ser um verdadeiro cemitério. Cemitério não é o lugar da paz e onde nada se diz? então. Então ele, o dono da dona e da doninha e por que não dizer do rapazote futuro general? então sai, vai sair apressado de sua mesa de talvez lauta refeição ou pródiga alimentação, sair com destino certo: o carro na rua Boa Morte que o levará ao trabalho e o certo dá errado – desmaia! desmaia a assustar um mundo, sua casa é seu mundo. Grito, pavor, assistência, ambulância, vizinhos curiosos como sempre, nisto não se pretende mudar o andar da carruagem do planeta: curiosidade bastante na gente ao redor e finalmente chega o médico e se dá a internação. Seu Jorge, o senhor ou para de beber e de fumar ou... Lá vêm regimes supressões remédios rios de dinheiro em remédios nada placebos mas fortes desses de tarja preta; e a consequente licença no trabalho, isto um bem porque não aguentava mais o funcionário funcionários outros e mais os fregueses dos funcionários, maus fregueses a bem da verdade em virtude viverem numa repartição do sistema carcerário do Estado, no estado em que se encontra, quer dizer superlotação e outros abusos que a tevê mostra diário na hora da janta o chefe sentado no sofá com o cachorrinho nos pés.
3.Na Mansão a Recuperação
Mamãe está espantada com o regime do esposo seu guardião proprietário? com as besteiras que ultimamente tem dito, se bem que à boca pequena na grande casa pois só a ouvir o auditório familiar e por causa de o Jorge ser prudente embora retido no leito de convalescença e o seja também nos negócios num fazer crescer haveres; enfim medido nas palavras que a vizinhança abelhuda metida deseja ouvir – e aumentar aumentar deturpar incriminar! puxa vida – espantada mamãe por essas e outras besteiras ditas nessa boca e escutadas por ela. Imagine, mãe, confessa baixinho à mãe dela, imagine que o Jorge me mandou buscar uma arma dum colega dele pra se matar! A sogra do genro quase cai de costas, a filha olha que não olhe a filha belinha e se mostra temerosa virar de repente viúva. Cuida do regime do paciente do médico, conseguem ambos mentores, o doutor e a esposa do paciente, um ganho consideravel: o Jorge para de beber (“ou...” lembra o clínico) mas não de fumar; acende um noutro, assopra bafora a casa dia inteiro. Por fim os remédios e os cuidados devolvem mês depois o teimoso ao serviço, a sofrer no serviço. Antes, aproveita a melhorar as finanças nas férias forçadas e sai ao horror da esposa guardiã, sai no seu carrão importado pra fazer entabular concluir ampliar o ganho nos negócios legais (ah, têm os não sabidos! têm, tenha paciência). Visita possíveis compradores vendedores trocadores de tudo; antigamente em moleque trocava galinha por porco, já um pouco inescrupuloso aos arrepios maternos, depois cresceu virou adulto casou-se, na igreja verde disseram, formou seu capital recebeu herança da morte e entremeio se fez funcionário público comprou até carrão. Visita amigos, que será um amigo!? sabe-se lá... visita inclusive suas terras, dá ordens aos poucos empregados, mal empregados dir-se-ia. Faz outras tramas e extravagâncias visto convalecer deveria estar preso no leito e enfim se pensa curado, tem coisas das quais nós pobres mortais não nos curamos nunca, não estas aquela recaída. Assim torna à repartição.

4.No Serviço sem Trabalho
Santos anjos querubins e por aí a fora dentro, nenhum: todos são pecadores os fregueses ou protegidos de Jorge, dele e dos outros funcionários que talvez não se pensem tão grandes agentes quanto ele, lotados na repartição; ou provável se pensem todos grandes inclusive no conjunto do sistema carcerário do país, o país sim com certeza se pensando um dia potência, por enquanto a curtir o terceiro mundo, tá bom: em desenvolvimento. Tornemos ao dia a dia do enfermo imaginando haver sarado. Isto porque temos humanos doenças rotuladas vícios das quais não nos livramos fácil, como o fumar aceito socialmente. Fuma a pensar agora na guarita. Nisto um lembrete válido, o de que o povo falador garante que funcionário público não trabalha, um engano. O Jorge cumpre fiel sua função na guarita. Fuma gulosamente a pensar; antes andava vigiando direto presos, fardado, na farda que só veste no serviço a temer ser reconhecido policial na rua; depois escalado para fiscalizar o presído com outro agente, a andar “de bonde” (os detentos gozam assim como se gozava antigamente um par de namorados os pobres policiais). Mais tarde seu chefe o enviou em trabalho na guarita e daí fuma fuma sem parar, claro não perceber o próprio desespero e a preocupação que tem na mente; está enquanto vê longe aquela cadeia infecta perto num pensar nos seus dramas, bem mais próximo o drama que esse distante da tarefa, porque o longe perto de si um flagrante quase – a questão do mal feito ou mal sofrido (nós seres humanos, criaturas falhas, supondo-nos vítimas sempre) visto ter sido enredado arrastado envolvido incriminado e... ai! a fumaça sobe dispersa e não se dispersa do seu ser, isto que não vê mas sentindo um pouco. Ora, nem a boba conhece inteiro o drama na extensão toda do drama; somente por alto; então se mordisca o esposo dela e se fala:  não posso haver falado indevidos lá em casa dormindo sob efeito dos soníferos receitados por aquele açougueiro imbecil! decerto ele morrerá bem antes que eu e deve beber e fumar mais que nós funcionários desta loucura de cadeia... Tosse. A tosse é a primeira amiga da fumaça, a fumaça a primeira do cigarro. Depois piora...

5.A Piora e o Flagrante
Naquele dia, pensa-lembra Jorge entregue à fumaça e neblina, naquele sonha acordado anuviando dispersivo demais para ouvir gritos e desaforos da freguesia detenta e as gozaçõezinhas sem graça dos colegas ora a entrar ora a sair ora a ficar fazer mexer empurrar puxar caixotes ou a cuidar dos veículos oficiais e dos particulares seus; menos escuta ainda, a rigor não vendo, ainda menos ouve o semiabafado difuso na rodovia próxima incomodada decerto com tanta distância em seus extremos e sequer ela (igualmente dopada!) sequer vendo um presídio fulgurante na sua construção pesada com linhas arquitetônicas comuns de cimento grosseiro sem beleza verdadeiro monstro assustador, presente para essa via e para os motoristas em santa paz, a fim de que os carros possam estar loucos... Uma loucura. Contudo Jorge também não percebe a beleza se beleza ou monstruosidade se feiura, não nota qualquer em sua volta em volta da guarita de trabalho, ele firme com dedos insensíveis na arma e no gatilho da arma. Porque unicamente pensa naquilo, naquilo? naquele dia... Entravam para visita por ser dia de visita homens e mulheres, as crianças não pois elas no fretado ônibus-turismo (ah quanta ironia!) e havendo entremeio mais parentes e amigos – que será de fato um amigo? – enfim o comboio a visitar seus presos, presos sempre em boa ‘vitimia’ e portanto aprisionados indevidamente porque a lei é cega mais cega que a justiça. Olhava esse funcionário fardado compenetrado atento à penetração quase apócrifa na casa de detenção; os outros funcionários supostamente imbuídos do dever tanto quanto Jorge. E aí o desastre. Um estranho pede audienciazinha ao policialão. Dá a entender andar Jorge extrapolando dever na hora da visitação; ora, ninguém iria ser ingênuo trazer celulares e drogas escondidos... ninguém com más intenções etc. e tal. Diante da feição inamistosa e negativa do ‘alto’ funcionário o estranho abriu o jogo, no dizer popular: se não facilitasse a entrada de sua gente com objetos indispensáveis a presentear sua gente aprisionada, haveria consequências terríveis em punição à punição. Que ninguém enfim fosse mais realista que o rei nem mais católico que o papa. Mais ou menos nesses termos a coisa posta ao abismado Jorge, o da boba em casa da belinha do futuro militar graduado e até dele mesmo Jorge por visionário (pudesse um homem ser mais guloso ao enriquecimento talvez fácil). Sim poderia, argumenta o estranho bem estranho, poderia em pagamento de gentileza receber futuramente tesouros que tanto ambicionava: o carrão outras fazendas casa e casas, quantos imóveis e contas bancárias necessitando no porvir... Em troca de quê? fechar os olhos embora abertos sorrindo na seriedade habitual. Noutra visita da visita estranha o estranho mais amistoso porém um bocado carrancudo, em seriedade esdrúxula: Ou... daí completou em nova argumentação – sua bela boba, a belinha, o generalzinho virando recruta, enfim toda a família será sequestrada por meus amigos; isso porque os estranhos também possuem amigos, que seria amigo? Promete em suma sequestro tortura cemitério. Certos argumentos e certas decisões sequer merecem comentário. O fato é que desde então Jorge fez crescer sua fortuna, se movimentando melhor na urbe, agora num carrão importado, desses de sugerir inveja. Mas... A contrapartida arruinou sub-repticiamente primeiro fazendo surgir o drama conscencial e depois no dito desmaio no lar, a já lembrada crise envolvendo clínicos e psiquiatras e doses de tranquilizantes, estes como tentativa de anular ou diminuir talvez a droga do álcool e do fumo, tão bem vistos socialmente.

6.No Trabalho sem Serviço
Ora, agora é hora da modorra da rotina que todos levamos ou para a qual todos caminhamos ao caminhar ao declive ou já configurado estar no declive, o de Jorge bem acentuado. É dessa maneira a coisa e por isso não se espante, engula a pergunta nos lábios, visto assim caminharmos. O alto funcionário, conforme autodenominação apressada, o funcionário a essa altura vez que outra sai como sempre saíra às quinze para as seis da manhã, com frio escuro cansaço prematuro sono acumulado sonho ao pesadelo, o pesadelo de ir assinar ponto na repartição carcerária, encarcerado ele mesmo na trama no seu dia a dia. Vítima? refém pelo menos da sorte em momento de azar. Raramente leva agora seu uniforme escondido no carrão a se fardar depois já dentro da repartição entre os seus colegas onde sempre pena. Isto não é mais que evasiva da pena poética ou filosófica sem dúvida louca com certeza. Porque nos tempos de agora, por hábito virou preso entre presos, anda aprisionado condicionalmente na liberdade. Aliás tem sempre os bicudos intelectualoides a afirmarem a precariedade da liberdade; esta que se prende no medo e com horror no terror, inclusive a temer os facínoras soltos ou roubando ou matando a roubar ou a roubar matando na sociedade a paz (parece virem praticando os criminosos um trabalho sub-reptício nesse sentido ao longo dos últimos tempos). Tem algo de podre no reino. Jorge no último ano mudou como profissional. Em outras palavras, ele não mais vai, não mais sai, indo agora em seu carrão, em direção do externo normal pra ser comum; deixa o lar por vezes ficando dias fora, a sociedade e a vizinhança curiosa habituada no comum desse normal que era o trabalhar dia/noite alternados para retornar certamente sequioso ao lar pela boba pela belinha e pelo coturno ainda simbólico do generalzinho. Vivos os do seu sangue, não enterrados na promessa hedionda. Todos afirmam, o que muitíssimo fácil e cômodo, que o homem cumpre normalmente o seu dever profissional e o dever de cidadão pagando impostos e criticando baixinho o governo para ser igual todo mundo (não semelhante apenas, igual). Ao que os desocupados ocupados em criar acrescem: vai para a repartição a fim de não fazer nada próprio da vagabundice no funcionalismo público. O que engano. Sério.
O chefe – atualmente é outro chefe que substituiu outro chefe substituto porque o funcionalismo não tem outro costume melhor – o chefe determina seu lugar onde sentar-se, então sugere quase manda intima que dê o serviço... Esta expressão diz tudo em nada mas existe e consiste na vítima falar o que sabe dentro dos trâmites nos quais envolvida. Quem? Onde? Quando? Por quê? Indaga por semanas de evasivas e aqui esconde dramas nos dramas maiores. Como, por exemplo, ficou seu envolvimento antigo naquele estupro. Ora a lei... a lei não conseguiu configurá-lo, sua defesa o livrou e para que advogado numa questão banal!? E agora, insta e insiste o chefe, nestes dias como foi enredado nos crimes que o sistema combate? Novas evasivas põe-no em guarda constante; em processo que lhe pode custar o cargo a expulsão e mesmo a prisão, nisto virando freguês protegido como ocorrendo no tempo funcional aos seus presidiários. Ah a coisa é mais volumosa; ou mais intrincada; insolúvel?

7.O Fim onde possa haver fim
O sete é da conta de mentirosos.
Não obstante é agora cumprir a ordem popular de não fazer nada no serviço, ajuntar suor próprio ao funcionário do governo. Às custas dos impostos que pagamos, diz o crítico. Pensará Jorge nesses termos? Primeiro foi afastado da função primitiva de fiscalizar em contato direto detentos. Porém temendo a chefia contaminação criminosa! ou por ordem dos passos no processo a que responde; foi afastado da atividade e opera mesmo assim na função puramente administrativa, cercado de papéis oficiais por todos lados – todavia sendo ilha de infortúnios e problemas; por isso a fumar mais a dormir menos a exagerar pesadelos...
Para continuar seu ramerrão, falando baixo e quem sabe a exigir dos seus o silêncio na residência burguesa, a qual teimamos palácio a vigiar decerto um veículo importado lustrado negro empoeirado da poeira do mundo, lavado lavado lavado diário por seu dono.  Ah sim, tem razão agora, na Boa Morte.
Marília   abril  2012


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