O Agente
não agente por Refém
1.Primeiras
Palavras
Já
naquele dia... qual dia? ora bolas cada pergunta, aquele. Então desceu do seu
importado preto limpo claro brilho mas sujo da poeira, bateu... ora, bateu a
porta não o carro, bateu quase espalhafatoso não sendo de apuro e educação, a
questão de um sujeito por ter dinheiro ser necessariamente de fino trato! não,
claro; bateu não chegando a assustar quem de assustar no barulho de lata contra
lata, sozinho, a sair do carrão vistoso, importado se bem me alembro, eu só
ouvia não via vendo a rua, a rua Boa Morte? a rua Boa Morte, talvez mais
interessado na boa, a boa do 24, por sinal um numerozinho bem sem-vergonha
todavia não jogo no bicho, não jogo; o vizinho sim, dizem até que ganha
horrores nisso e tem ainda interesse na sena na timemania essas coisas
lotéricas; coisas poucas porque é fazendeiro herdeiro vezeiro falam, sem provar
suponho, falam que enganara os irmãos dele na herança recebendo a parte do
leão. Rico já, além de possuir outra fonte de renda e é nisto aqui nos fixarmos
agora, agora bateu a porta do auto sem raiva mas sem educação também, bateu o
importado a entrar em seu palácio.
2.O
Palácio e a Fonte
Entra
só, não está só na casa; uma residência longe ser sequer palacete porém moradia
burguesa decente a fazer inveja aos pés no chão e aos pés de chinelo a passar
silenciosos; quer dizer, não bem silenciosos, silenciosos os passantes, os cães
gritam esbravejam querendo morder o mundo e os pés-rapados a passar ressabiados
na Boa Morte, não para a morte para a vida em existência sofrida pobre quase
miserável e então, então essa pobre gente comum vendo o imóvel como das mil e
uma noites; além de observar o carrão importado parado lustroso sujo de poeira;
amiúdo não agora vê o morador lavando limpando adorando o importado ou só
mostrando a riqueza; contudo o automóvel não entrou na garagem, imitando o dono
a entrar no palácio; a bela máquina, o carrãozinho, permanece ali igual
cachorro a defender o patrimônio que é uma propriedade urbana, urbana haja vista
haver a rural cheia de vacas pobres e trabalhadores no limiar da miséria com
salário defasado, defasado somente o nome porque os séculos cimentaram o valor;
a propriedade rural dele não precisa cachorrinho (sim, tem um brabo e rosnador
de amedrontar possível estranho) nem cão nem guarda importado ou apenas rico na
visão miserável a garantir a fazenda. Lá são pastos e mais pastos sem árvores
pois o pobre rico proprietário é contra tais intromissões, as árvores nas suas
terras, e assim mandou cortá-las plantar capim ao gado rendoso. Já no palácio
não tem berrar mugir nem gritões humanos nem ladrar, no palácio é o silêncio,
não obstante não estar sozinho o alto funcionário, aqui autodenominação visto
andar lotado no comum do funcionalismo. Estão agora a mulher bonita, boba na
sua opinião, e a filha, belinha mas bobinha ou sem expediente sem iniciativa
dada a educação em casa ser do tipo “papai falou” e “o Jorge mandou”. O Jorge
não pensa nisso, nele apenas. É um sujeito esquisito egocêntrico não chegando
nunca a achar que outrem possa achar algo e até contrariá-lo nos contrários.
Tem o menino, menino já adolescente e longe no cursinho, em marcha firme a ser
militar ou engenheiro militar, segundo imposição de papai. Papai está brabo.
Não, macambúzio, tristonho, a falar tão só com os botões, sabemos que botões
não revelam segredos de Estado, no estado em que se encontra o funcionário a
extrair alto salário (pensamento puro do pobretão que o vê, não seu pensar) a
extrair ganhos nessa fonte inesgotável que são as burras do governo. Contudo há
na sua mente segredo... Segredo não é para se saber e menos para comentar; em
virtude dessa desvirtude é o ambiente um silêncio entre os seus nas quatro
paredes, nem a tevê ligada baixinho nem mesmo o computador dando palpite: todo
mundo aceita e pronto. Papai faz o que deve se limpa come tudinho no silêncio;
ela comentará depois na vizinhança, mesmo porque como parar a língua da bela!
comentará seu lar ser um verdadeiro cemitério. Cemitério não é o lugar da paz e
onde nada se diz? então. Então ele, o dono da dona e da doninha e por que não
dizer do rapazote futuro general? então sai, vai sair apressado de sua mesa de
talvez lauta refeição ou pródiga alimentação, sair com destino certo: o carro
na rua Boa Morte que o levará ao trabalho e o certo dá errado – desmaia!
desmaia a assustar um mundo, sua casa é seu mundo. Grito, pavor, assistência,
ambulância, vizinhos curiosos como sempre, nisto não se pretende mudar o andar
da carruagem do planeta: curiosidade bastante na gente ao redor e finalmente
chega o médico e se dá a internação. Seu Jorge, o senhor ou para de beber e de
fumar ou... Lá vêm regimes supressões remédios rios de dinheiro em remédios
nada placebos mas fortes desses de tarja preta; e a consequente licença no
trabalho, isto um bem porque não aguentava mais o funcionário funcionários
outros e mais os fregueses dos funcionários, maus fregueses a bem da verdade em
virtude viverem numa repartição do sistema carcerário do Estado, no estado em
que se encontra, quer dizer superlotação e outros abusos que a tevê mostra
diário na hora da janta o chefe sentado no sofá com o cachorrinho nos pés.
3.Na
Mansão a Recuperação
Mamãe
está espantada com o regime do esposo seu guardião proprietário? com as
besteiras que ultimamente tem dito, se bem que à boca pequena na grande casa
pois só a ouvir o auditório familiar e por causa de o Jorge ser prudente embora
retido no leito de convalescença e o seja também nos negócios num fazer crescer
haveres; enfim medido nas palavras que a vizinhança abelhuda metida deseja
ouvir – e aumentar aumentar deturpar incriminar! puxa vida – espantada mamãe
por essas e outras besteiras ditas nessa boca e escutadas por ela. Imagine,
mãe, confessa baixinho à mãe dela, imagine que o Jorge me mandou buscar uma
arma dum colega dele pra se matar! A sogra do genro quase cai de costas, a
filha olha que não olhe a filha belinha e se mostra temerosa virar de repente
viúva. Cuida do regime do paciente do médico, conseguem ambos mentores, o
doutor e a esposa do paciente, um ganho consideravel: o Jorge para de beber
(“ou...” lembra o clínico) mas não de fumar; acende um noutro, assopra bafora a
casa dia inteiro. Por fim os remédios e os cuidados devolvem mês depois o
teimoso ao serviço, a sofrer no serviço. Antes, aproveita a melhorar as
finanças nas férias forçadas e sai ao horror da esposa guardiã, sai no seu
carrão importado pra fazer entabular concluir ampliar o ganho nos negócios
legais (ah, têm os não sabidos! têm, tenha paciência). Visita possíveis compradores
vendedores trocadores de tudo; antigamente em moleque trocava galinha por
porco, já um pouco inescrupuloso aos arrepios maternos, depois cresceu virou
adulto casou-se, na igreja verde disseram, formou seu capital recebeu herança
da morte e entremeio se fez funcionário público comprou até carrão. Visita
amigos, que será um amigo!? sabe-se lá... visita inclusive suas terras, dá
ordens aos poucos empregados, mal empregados dir-se-ia. Faz outras tramas e
extravagâncias visto convalecer deveria estar preso no leito e enfim se pensa
curado, tem coisas das quais nós pobres mortais não nos curamos nunca, não
estas aquela recaída. Assim torna à repartição.
4.No
Serviço sem Trabalho
Santos
anjos querubins e por aí a fora dentro, nenhum: todos são pecadores os
fregueses ou protegidos de Jorge, dele e dos outros funcionários que talvez não
se pensem tão grandes agentes quanto ele, lotados na repartição; ou provável se
pensem todos grandes inclusive no conjunto do sistema carcerário do país, o
país sim com certeza se pensando um dia potência, por enquanto a curtir o
terceiro mundo, tá bom: em desenvolvimento. Tornemos ao dia a dia do enfermo
imaginando haver sarado. Isto porque temos humanos doenças rotuladas vícios das
quais não nos livramos fácil, como o fumar aceito socialmente. Fuma a pensar
agora na guarita. Nisto um lembrete válido, o de que o povo falador garante que
funcionário público não trabalha, um engano. O Jorge cumpre fiel sua função na
guarita. Fuma gulosamente a pensar; antes andava vigiando direto presos,
fardado, na farda que só veste no serviço a temer ser reconhecido policial na
rua; depois escalado para fiscalizar o presído com outro agente, a andar “de
bonde” (os detentos gozam assim como se gozava antigamente um par de namorados
os pobres policiais). Mais tarde seu chefe o enviou em trabalho na guarita e
daí fuma fuma sem parar, claro não perceber o próprio desespero e a preocupação
que tem na mente; está enquanto vê longe aquela cadeia infecta perto num pensar
nos seus dramas, bem mais próximo o drama que esse distante da tarefa, porque o
longe perto de si um flagrante quase – a questão do mal feito ou mal sofrido
(nós seres humanos, criaturas falhas, supondo-nos vítimas sempre) visto ter
sido enredado arrastado envolvido incriminado e... ai! a fumaça sobe dispersa e
não se dispersa do seu ser, isto que não vê mas sentindo um pouco. Ora, nem a
boba conhece inteiro o drama na extensão toda do drama; somente por alto; então
se mordisca o esposo dela e se fala: não
posso haver falado indevidos lá em casa dormindo sob efeito dos soníferos
receitados por aquele açougueiro imbecil! decerto ele morrerá bem antes que eu
e deve beber e fumar mais que nós funcionários desta loucura de cadeia...
Tosse. A tosse é a primeira amiga da fumaça, a fumaça a primeira do cigarro. Depois
piora...
5.A
Piora e o Flagrante
Naquele
dia, pensa-lembra Jorge entregue à fumaça e neblina, naquele sonha acordado
anuviando dispersivo demais para ouvir gritos e desaforos da freguesia detenta
e as gozaçõezinhas sem graça dos colegas ora a entrar ora a sair ora a ficar
fazer mexer empurrar puxar caixotes ou a cuidar dos veículos oficiais e dos
particulares seus; menos escuta ainda, a rigor não vendo, ainda menos ouve o
semiabafado difuso na rodovia próxima incomodada decerto com tanta distância em
seus extremos e sequer ela (igualmente dopada!) sequer vendo um presídio
fulgurante na sua construção pesada com linhas arquitetônicas comuns de cimento
grosseiro sem beleza verdadeiro monstro assustador, presente para essa via e
para os motoristas em santa paz, a fim de que os carros possam estar loucos...
Uma loucura. Contudo Jorge também não percebe a beleza se beleza ou
monstruosidade se feiura, não nota qualquer em sua volta em volta da guarita de
trabalho, ele firme com dedos insensíveis na arma e no gatilho da arma. Porque
unicamente pensa naquilo, naquilo? naquele dia... Entravam para visita por ser
dia de visita homens e mulheres, as crianças não pois elas no fretado
ônibus-turismo (ah quanta ironia!) e havendo entremeio mais parentes e amigos –
que será de fato um amigo? – enfim o comboio a visitar seus presos, presos
sempre em boa ‘vitimia’ e portanto aprisionados indevidamente porque a lei é
cega mais cega que a justiça. Olhava esse funcionário fardado compenetrado
atento à penetração quase apócrifa na casa de detenção; os outros funcionários
supostamente imbuídos do dever tanto quanto Jorge. E aí o desastre. Um estranho
pede audienciazinha ao policialão. Dá a entender andar Jorge extrapolando dever
na hora da visitação; ora, ninguém iria ser ingênuo trazer celulares e drogas
escondidos... ninguém com más intenções etc. e tal. Diante da feição inamistosa
e negativa do ‘alto’ funcionário o estranho abriu o jogo, no dizer popular: se
não facilitasse a entrada de sua gente com objetos indispensáveis a presentear
sua gente aprisionada, haveria consequências terríveis em punição à punição.
Que ninguém enfim fosse mais realista que o rei nem mais católico que o papa.
Mais ou menos nesses termos a coisa posta ao abismado Jorge, o da boba em casa
da belinha do futuro militar graduado e até dele mesmo Jorge por visionário
(pudesse um homem ser mais guloso ao enriquecimento talvez fácil). Sim poderia,
argumenta o estranho bem estranho, poderia em pagamento de gentileza receber
futuramente tesouros que tanto ambicionava: o carrão outras fazendas casa e
casas, quantos imóveis e contas bancárias necessitando no porvir... Em troca de
quê? fechar os olhos embora abertos sorrindo na seriedade habitual. Noutra
visita da visita estranha o estranho mais amistoso porém um bocado carrancudo,
em seriedade esdrúxula: Ou... daí completou em nova argumentação – sua bela
boba, a belinha, o generalzinho virando recruta, enfim toda a família será
sequestrada por meus amigos; isso porque os estranhos também possuem amigos,
que seria amigo? Promete em suma sequestro tortura cemitério. Certos argumentos
e certas decisões sequer merecem comentário. O fato é que desde então Jorge fez
crescer sua fortuna, se movimentando melhor na urbe, agora num carrão
importado, desses de sugerir inveja. Mas... A contrapartida arruinou
sub-repticiamente primeiro fazendo surgir o drama conscencial e depois no dito
desmaio no lar, a já lembrada crise envolvendo clínicos e psiquiatras e doses
de tranquilizantes, estes como tentativa de anular ou diminuir talvez a droga
do álcool e do fumo, tão bem vistos socialmente.
6.No
Trabalho sem Serviço
Ora,
agora é hora da modorra da rotina que todos levamos ou para a qual todos
caminhamos ao caminhar ao declive ou já configurado estar no declive, o de
Jorge bem acentuado. É dessa maneira a coisa e por isso não se espante, engula
a pergunta nos lábios, visto assim caminharmos. O alto funcionário, conforme
autodenominação apressada, o funcionário a essa altura vez que outra sai como
sempre saíra às quinze para as seis da manhã, com frio escuro cansaço prematuro
sono acumulado sonho ao pesadelo, o pesadelo de ir assinar ponto na repartição
carcerária, encarcerado ele mesmo na trama no seu dia a dia. Vítima? refém pelo
menos da sorte em momento de azar. Raramente leva agora seu uniforme escondido
no carrão a se fardar depois já dentro da repartição entre os seus colegas onde
sempre pena. Isto não é mais que evasiva da pena poética ou filosófica sem
dúvida louca com certeza. Porque nos tempos de agora, por hábito virou preso
entre presos, anda aprisionado condicionalmente na liberdade. Aliás tem sempre
os bicudos intelectualoides a afirmarem a precariedade da liberdade; esta que
se prende no medo e com horror no terror, inclusive a temer os facínoras soltos
ou roubando ou matando a roubar ou a roubar matando na sociedade a paz (parece
virem praticando os criminosos um trabalho sub-reptício nesse sentido ao longo
dos últimos tempos). Tem algo de podre no reino. Jorge no último ano mudou como
profissional. Em outras palavras, ele não mais vai, não mais sai, indo agora em
seu carrão, em direção do externo normal pra ser comum; deixa o lar por vezes
ficando dias fora, a sociedade e a vizinhança curiosa habituada no comum desse
normal que era o trabalhar dia/noite alternados para retornar certamente
sequioso ao lar pela boba pela belinha e pelo coturno ainda simbólico do
generalzinho. Vivos os do seu sangue, não enterrados na promessa hedionda.
Todos afirmam, o que muitíssimo fácil e cômodo, que o homem cumpre normalmente
o seu dever profissional e o dever de cidadão pagando impostos e criticando
baixinho o governo para ser igual todo mundo (não semelhante apenas, igual). Ao
que os desocupados ocupados em criar acrescem: vai para a repartição a fim de
não fazer nada próprio da vagabundice no funcionalismo público. O que engano.
Sério.
O
chefe – atualmente é outro chefe que substituiu outro chefe substituto porque o
funcionalismo não tem outro costume melhor – o chefe determina seu lugar onde
sentar-se, então sugere quase manda intima que dê o serviço... Esta expressão
diz tudo em nada mas existe e consiste na vítima falar o que sabe dentro dos
trâmites nos quais envolvida. Quem? Onde? Quando? Por quê? Indaga por semanas
de evasivas e aqui esconde dramas nos dramas maiores. Como, por exemplo, ficou
seu envolvimento antigo naquele estupro. Ora a lei... a lei não conseguiu
configurá-lo, sua defesa o livrou e para que advogado numa questão banal!? E
agora, insta e insiste o chefe, nestes dias como foi enredado nos crimes que o
sistema combate? Novas evasivas põe-no em guarda constante; em processo que lhe
pode custar o cargo a expulsão e mesmo a prisão, nisto virando freguês
protegido como ocorrendo no tempo funcional aos seus presidiários. Ah a coisa é
mais volumosa; ou mais intrincada; insolúvel?
7.O Fim onde
possa haver fim
O
sete é da conta de mentirosos.
Não
obstante é agora cumprir a ordem popular de não fazer nada no serviço, ajuntar
suor próprio ao funcionário do governo. Às custas dos impostos que pagamos, diz
o crítico. Pensará Jorge nesses termos? Primeiro foi afastado da função
primitiva de fiscalizar em contato direto detentos. Porém temendo a chefia
contaminação criminosa! ou por ordem dos passos no processo a que responde; foi
afastado da atividade e opera mesmo assim na função puramente administrativa,
cercado de papéis oficiais por todos lados – todavia sendo ilha de infortúnios
e problemas; por isso a fumar mais a dormir menos a exagerar pesadelos...
Para
continuar seu ramerrão, falando baixo e quem sabe a exigir dos seus o silêncio
na residência burguesa, a qual teimamos palácio a vigiar decerto um veículo
importado lustrado negro empoeirado da poeira do mundo, lavado lavado lavado
diário por seu dono. Ah sim, tem razão
agora, na Boa Morte.
Marília abril
2012
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