domingo, 18 de agosto de 2019

Ela, a mais, e os demais


Ela, a mais, e os demais

  - Eu... claro que eu exista existo: sou a caneta. Uma esferografinha bela charmosa boa correta em minha opinião, temendo consultar sobre tanto a intriga quanto a oposição; ainda mais sem boca – onde já se viu caneta de boca! – e por isso apenas escrever. Escrevo e quando escrito no texto sou eu quem digo, lógico. Contudo outrem também existindo. Por exemplo Ela.
Ela. Ela fala; e como fala. Desse tipo de gente quando a falar ninguém mais fala, não deixa. Fala... então digamos que alguém observe a fala educado e para não dar espetáculo ou para não chamar a atenção de todo um bairrro diz a pisar ovos: “Ela, pelo amor de Deus, pare de falar”. Não para, para sim a repensar e daí despenca em despique a falar ainda mais alto e não interrompe seu discurso contra... ora nem ela Ela se lembra mais sobre quem, o qual é contra quem for contra.
Existem eles outros na família ou só na residência ali a escutá-la. Existe a Boa, tem a Boinha, tem Ele, este geralmente apequenado em letra pequena e então ‘ele’. Há o irmão das outras, um macho da espécie na prole, seria um ‘elinho’ em não chocar e confundir (isto porque gente é animal demais confuso e aqui se esclarece) para enfim não misturar pai e filho, na espécie, tidos por machos pra valer, valem-se bem das orelhas a ouvi-la. Ela fala menos alto menos braba menos invectivadora, decerto se imaginando agora não no púlpito ou no palanque, em casa com os seus. Assim ouvem. Frequente... não, isto abuso visto os parentes raro aparecerem e se no positivo tem aí mais um negativo por ouvirem-na discursar não deixando pedra sobre pedra e... calma, calma me advirto ou teremos Ela além das deusas no olimpo – não, Ela tão só adverte seu publiquinho particular duns errados na família, desses enganos de interpretação que só entes da gente sentem sabem usar errado na conduta segundo Ela. Daí Ela fala fala fala vocifera o mais baixo possível coisas como aquela doidinha Boa a complicar a vida dos seus, dEla mãe em particular. Isto porque Ela a chama nos tentos já anos (seguidos e sem parar seria dose a matar morto) fala tempão mostrando os perigos em que desliza sua filha mas a desmiolada não se corrige, corrigir! capaz: nem ouve sequer e a gente fica a falar sozinha...
Ele, ele... ora, já não foi afirmado ele existir. Por que teria que haver somente Ela e a Boa e a Boinha e ainda o filho do pai e dEla claro – dEla na proporção de nove meses pra cinco minutos, no pensamento do filósofo Monteiro Lobato. Assim não resta outra alternativa e mesmo dúvida ele e elinho existirem em carne e osso. No entanto parece à crítica vizinha não existirem bem, quer dizer integralmente, comidos engolidos por Ela. Depois nessa esteira que mostra familiares, os familiares. Estes merecem inclusive tratamento especial noutro capítulo. Vivem na área também os vizinhos, indiferentes criaturas porém contraditoriamente mui curiosas e que nada têm que ver com a vida na casa dEla; entre esses de fora o mais atacado pelo mal do abuso e no abuso na língua, o Lunático, a rigor Lunatiquinho porque miúdo esquelético e baixo na estatura.
Após essa relação vêm outros indiferentes, pessoas que passam na rua Boa Morte, as quais nunca ninguém sabendo com que fim circulam no pedaço; não seria a ouvi-la decerto, se bem que obrigados, não sendo surdos, a escutar o vozeirão. Em vista disso não merecem um capítulo especial, merecendo tanto quanto quem não tenha sequer nascido ou já morrido, enfim sem tratamento especial.
Ah que esquecimento inadmissível: passara despercebida a existência de Auau, a cadela ciumenta ou só um pouco ladradora da gente dEla. Descoberto a descoberta do esquecimento, ei-la a latir com garbo e ferocidade ao mesmo tempo.
São tais os membros da família chefiada por Ela.

- Aí, naquele dia, chegaram parentes, os quais aproveitaram a ocasião e a fama dEla como boa na cozinha e assim convencendo outros estranhos – estranhos da casa dEla amigos dos parentes dele, por azar: do marido, não os dEla, estes sendo um primor em educação etc. e tal, vindo os dele – e os estranhos vieram apertados no carro porém deu-se um jeito: agora todos juntos na sala pequena para tantos grandes. Tem gente no sofá, tem gente de pé, tem gente encostada na parede ou se apoiando na guarda do sofá gasto, tem gentinha no chão a brincar com outras crianças. Ela olha se bem se mostre simpática alegre e até feliz, não está.
Aquele negócio chato e constrangedor... ah antes disso disse “muito prazer” nas apresentações formais (o que prova não serem íntimos nem aos ‘íntimos’ parentes em visita, parentes dele insiste-se. Tinha em meio uma velha – mãe tia avó ou sabe-se lá – essa com mãos frias gélidas como o abismo da morte ou mesmo mais ainda. Outro dos estranhos, trêmulo e barulhento. Depois, descontraídos, iriam cantar alto desafinado ao acompanhamento de um violão desregulado, em canto alto da maioria, um dos cantadores tendo som gutural e quase estridente enquanto outro deles numa sonância como baixo rouco de pulmões a assoprar o que seria um vozeirão e saindo cavo. Ao chegarem, claro, não apresentaram os meninos, dois apenas felizmente, não é praxe ver e elevar crianças quando adultos apressados em mostrar se não seu egoísmo o seu egocentrismo, imaginando decerto todo sistema solar girando ali no seu entorno; e não bastando falar alto mas a repetir seu lindo nome, o que mamãe mandou papai pôr no cartório, com uma ressalva sendo a de que o funcionário não acentuou o ‘a’, uma paroxítona respeitável que o escrivão analfabeto não pôs. Claro isso senãozinho porque na apresentação e na conversa que se seguiu, enfim na fala rotineira, ninguém ficaria mesmo sabendo certo desse errado. Então, o meninãozinho dele, desse forasteiro e família em carona com os parentes, dele a repetir, o menino crescido entretanto pequeno na idade indo por baixo – lá no alto os adultos a se apresentar a dar as mãos educadamente – e o guri de mãos grudentas por balas e outros confeitos a pegar na roupa da gente, a gente piormente sendo Ela e Ela não podendo contra a força do monstro... até que o moleque descobriu as barras das calças compridas maternas, já acostumadas com esse grude e decerto reclamando falando batendo lá no seu lar no porcolino por isso; ou não, exatamente porque a psicologia de nossos tempos não permite a violência de palmadas e chibatadas, só a da gritada no lar doce lar. E aí? aí que nem Ela com todo seu potencial e poder – o qual brotado da força da língua – nem Ela se livrando. “Ah deixa pra lá... criança é assim mesmo”. Patati, patatá.
Oh que alívio, disse de fato uf!, com que alívio abanou as mãos simpaticamente na despedida. Ainda a porcaria do automóvel deles apagou negou fogo ao sair saiu após em soquinhos e sumiu, graças a Deus, sumiu no fim da rua Boa Morte.

- Curiosamente Ela está só. Mal acompanhada? Aguarda, matando o tempo como se diz, faz isto isso aquilo aquiloutrinho nas miudezas do serviço caseiro, se enganando ao enganar o tempo no aguardo dos lerdos ponteiros, na espera do horário do seu ônibus circular. Então rumina não fala – ah falasse não a tomariam por louca! essa gente do bairro e em especial a da Boa Morte nada confiável, igualzinho a morte. Tomá-la-ia por doida e, pior, não creria divulgaria deformaria seu estado normal... que é normal? Rumina.
Porque no dia anterior, na tarde anterior, na quase noite anterior... e a gente não tem direito ao descanso após um dia aturando o patrão, o patrão? ainda que fosse o chato mas a patroa querendo mandar no seu homem no serviço dele nos empregados dele e mandar nEla por extensão. Ora, não engolindo a mulherinha cosmetizada e apesar disso feia como uma guerra. Aturou dia inteiro no trabalho a situação, nem bem põe os pés em casa: olhe eles com elas a chegar. E precisando fazer sala formalmente e bonitinho num cansaço daqueles, era é ainda dose. Não se fez de rogada e comandou a reunião embora reunião informal.
Aos poucos – digo eu caneta a rabiscar isto daquilo que a gente vulgar fala – aos poucos os machos da espécie visita, do grupo da visita inesperada e a gente sequer podendo falar certas verdades a desabafar, como as maluquices da Boa, e o parente por íntimo já conhece perdoa ou só entende... não entendem outros conhecidos-desconhecidos de fora em visita não programada e logo ela Ela sozinha na volta do dia tão cansativo... aquela mulher mandando no patrão e na gente, fora demais e pior nisso isso ser rotina, vivendo tempos cansada, estressada apreciando Ela formalizar modernismos, já estressada e aí quase na hora da novela chegam.
Aos poucos na conversa nada nada dirigida e menos planejada os machos da espécie se olham se entendem se falam, baixinho miúdo silenciosamente, afirmam que elas são intragáveis e a gente precisa sorrir educação mesmo assim. Mulher? dizem: é um animal chato, que só sabe falar de cabelo de doença de menino de parto...
Ela toma a direção, se esquecendo estressada e narra em boa dicção e boa voz nas minúcias a Boa a Boinha elinho ao nascer – cuidados, gestação, parto peso pô! e chorinhos remedinhos bobajonas atrevidas e... bem, as outras da espécie fazem o mesmo, só mudando os nomes não a nomenclatura daquela chateação segundo oposicionistas.
Ora, isso foi bom. Porque os visitantes se foram logo horas após a segunda novela? Não. Porque Ela destravou pensamentos lúgubres, destravou a língua, a boca se consumou num vozeirão. Parecia quando os seus reunidos e Ela a pegar-lhes no pé pelos desandos.
Quando a supor o mal-estar por estar novamente só e a volta do estado macambúzio, eis que chegam o consorte depois a Boinha, esta com as pequenas encrencas novíssimas do dia na escola.

- Bem que Ela não via e continuando não ver com bons olhos ele; ele o marido? não, o vizinho pequenininho baixinho olhinhos disparados em ver o que não sendo da conta dos outros – o Lunatiquinho. Ou mais que ao próprio lunático, mal conceituando sua digníssima esposa. Quanto a Ela, não tem nunca teve em alta conta o vizinho, visto os contrários se repudiarem e inclusive se detestarem. Assim passa frente à casa do casal vizinho, não cumprimenta, passa indo passa vindo, sempre em passos pesados a marcar o chão com raiva ¿ou seria isto a voz da indiferença surda muda para melhor atingir um alvo desagradável gasto no desgaste que a sabedoria nos traz pelo conhecimento do tempo que por sua vez passa passa e marca? Seja como for fica provado não se darem não se cortarem não se suportarem ambos: o verso o ‘anti-verso’ em reverso perverso, próprio do homem comum, o que caracteriza os dois vizinhos, ou os três somando aqui a consorte do consorte ali quase em frente. Assim mesmo o velho, “aquela caca que é o caco” afirma doutoralmente Ela dele, assim mesmo o velho olha observa examina bem e... espere lá: faz tal análise criteriosa igual em todas mulheres passantes, as da Boa Morte as de outras ruas as de outras cidades porventura a passar e até as doutras mortes. Esquadrinha todas – uma delas em virtude dessa desvirtude comenta: aquele destroço humano me faz sentir estar nua! por que não vai examinar mais que a gente a própria esposa, por sinal de extrema feiura. Aliás esta a opinião dEla também sobre o casal vizinho, cujo imóvel atende pelo número trinta e três. Por que, aqui indagando indignada e mais enraivecida Ela, por que motivo não picha a do quarenta e quatro cheia de podridão por fora e por dentro, a receber homens quase diário. O tonto tanto, ou sem vergonha tanto tonto, esse precisa ficar fiscalizando uma senhora honesta digna e boa como eu! Vai ver, pensa brabo irritada, vai ver até já criminalizou minha Boa, quiçá a Boinha ainda na flor da juventude, as quais se enganam sim de vez em quando mas não erram (a si gente do sangue não erra, se engana e comete deslizes apenas:) Sim tem lá sua maneira para ver o mundo diverso de nós, eu se diz Ela e ele; contudo sem serem santas são corretas as minhas filhas.
Enquanto pensa isso e nisso, já chega ao ponto do circular, avista o veículo vindo e sente quase haver perdido por um triz a condução, exatamente por causa... por causa ora, seria em razão do vizinho sem razão?
Todavia ele permanece de sentinela na guarita do seu portão, olhos engatilhados, visor enquadrado no zum mais normal permitido em guarda: para ver a banda passar? ver o bando de espécimes no exército da escultura e da beleza. Sim tem no meio as que não são belas, têm umas velhotas bem passadas, dessas que apreciam conversar falar as chatices do tempo da saúde da falta do abuso dos outros sobretudo das outras. Lunatiquinho recebe deposita em compartimento adequado os informes delas e só lamenta elas ficarem fiscalizando por sua vez o que ele fiscaliza e o seu modo de fiscalizar, ou seja as boas que desfilam à sua inteira felicidade. No entanto agora se contém e faz pose de alto moralismo, dosa a língua, mantém fisionomia se não santa, casta e certa. Elas, as velhotas que fizeram ponto no seu ponto de observação, partem (uf! diz de boca fechada); e assim o velho retoma sua criteriosa análise das peças que passam aí em frente na rua Boa Morte; lembra a mulher, Ela, a vizinha já foi decerto ao trabalho e um dia descubro onde e em que trabalha... Assim observo as boas. Quer dizer, tenho agora o campo liberado porque minha megera foi levar aquele negócio à casa de nossa filha.
Ou nem poderia o Lunatiquinho ficar exposto no seu posto observatório.

5° - Mais uma vez Ela olha se não olhando o vizinho, aquele! mas não para ver e sim em aguardo. Logo deve enfrentar, e isso fazendo meses, logo a ter enfrentar o constrangimento de passar ali em frente (¿e que faria para não fazer: dar a volta ao quarteirão a fim de chegar no ponto de ônibus, tão só para não passar rente do maluco?) Felizmente o caminho hoje livre e assim deixa de ruminar e recua apenas pensando. Com ele não posso. Não posso? como não posso depois de mais de trinta anos desde as bodas... Já falei já gritei um dia, gritei mesmo a assustar certamente os vizinhos – não se emenda. Aliás nenhum dos meus, dos meus!? ora, nenhum sobre a Terra anda corretamente e aqui inclusive sinto pena da feia e horrorosa do horroroso velhote porque assim como ele e o elinho o Lunático deve fazer das dele lá dentro da casa e a pobre... que pobre coisa alguma: o casal não presta o esposo é pior por ficar comendo as mulheres com olhinhos sem-vergonha, ela é tanto quanto; mais feia ainda que o feio. Então pra quê solidariedade com a velha do velho: tudo farinha do mesmo saco e ainda não são nem oito horas, às oito e quinze o ônibus.
Anda Ela nervosa com ele nestes dias. O que melhor conseguiu nessa guerra conjugal é ele ir para fora de casa fumar, fumaçava dentro. Aliás a Boa, que não é homem mas bonita mulher, apesar de bela me dá tanta preocupação; todavia ela também sai na porta e fica a tragar o cigarro igual o pai. Ele não entra nos eixos e acho que isso é válido para todos machos da espécie. Dizem que Deus não erra, errou no homem (aqui Ela se benze no sacrilégio do pensamento praticado, se benze faz sinal da cruz como quando católica mais ou menos praticante...) se não errou se enganou para experimentar as mulheres. A gente fala todos dias, dias todos no ano anos – não se emenda: ele fuma atira cinza na água do vaso, joga a bituca na meleca ou líquido limpo o quanto limpo pode a louça. Faz mais e todos dias sem falhar: não levanta a tampa do sanitário com preguiça e assim molha e fede o vaso! Durma-se com um barulho desses...
O pior nisso é elinho andar na mesma pegada, embora não tenha o vício do tabaco molha a tampa respinga no chão; atira papel sujo usado no solo e então o cesto para quê?
A gente vai falar com toda educação voltada ao amor para acertar no futuro, vai falar com o filho e briga. Com ele briga mais e responde o respondão, dá entrevero dos grossos. E ainda me grita – baixo é verdade, baixo sim não manso – me intima a me intimidar parar de falar, “matracar” diz somente para irritar-me.
Não tem jeito com os sem jeito.

- É um casal nada esdrúxulo pois tendo mil assim mas diferente visto no mundo só haver diferente, inclusive os gêmeos não são mais que semelhantes. Ela neste ponto dos meandros do pensamento relembra que a Boa nascera quase grudada a outra irmã morta. Na crise sentimental na época sequer aceitara ver o cadaverzinho. Disseram após o enterro ser a morta parecidíssima com a viva. Só parecido nada é igual.
No temperamento mesmo, cada um dos filhos um filho diverso. O povo costuma afirmar: os dedos da mão nenhum igual. A Boa é voluntariosa... espera lá: voluntariosa com o vício, será vício! com o vício de se calar. Fala-se o diabo para ela, olha e não responde. Não responde? qual o quê, responde sim na pior forma: agindo fazendo, àcima de quaisquer críticas. Responde com o mal já feito pronto ‘indesmanchável’, pois não se volta absolutamente no tempo. Então a família, mais Ela que ele, então os seus tentam consertar ao concerto. A Boa nisso sorri; fosse gente de fora seria visto por maldade gozação provocação esse rir. Nela um leite derramado sem solução. Quando nas questões morais...
Nessa altura das tergiversações lembra o Lunatiquinho e sua voracidade em deglutir os podres dos pobres na Boa Morte. O que não terá dito; inventado é muito claro. Porque não é a árvore boa que dá bons frutos? a má... Ouviu assim ou semelhante num sermão. Agora anda debandando como falava o padre, debandando ao grupo evangélico. Somente conversa nas imediações com a vizinha ao lado, velha honesta e evangélica. Leva roupa a passar, traz do portão da outra as peças passadas empilhadas em ordem e recebe noções bíblicas. A velha senhora tem sempre como todos de sua religião prontamente exemplos cristãos e citações. Não, Ela não guarda ainda capítulos e versículos porém as ideias básicas expostas. Por vezes é a Boinha quem pega a roupa na casa ao lado.
A Boinha... bem, essa filha um pouco espevitada, tem movimento na ponta da língua – vive como todo vivente expansivo; sem alardes, contida um pouco no falar não no viver. Internamente intimamente revela diário à mãe lá dentro do lar as coisas dos colegas e do que sabe e também do que vendo ou seja o que os mesmos lhe trazem. Ela, a mãe, se horroriza na possibilidade dos deslizes da Boinha no seu sorriso fácil e na inocência (em geral todo genitor imagina a inocência entre os seus; o resto seria o abuso e por que não dizer o crime!!) se horroriza caia a menina quase moça, que ela enfim se envolva nas drogas; nunca sendo demais a preocupação familial nestes tempos difíceis... Teme-se é a ligação espúria por muito a televisão mostrar sempre na tela, isso que é drama nos outros. Nós pobres mortais sempre tomados de surpresa quando esse e outros males maiores ou menores chegam através dos nossos de sangue. Aliás não precisaria Ela saber dessa podridão pela filha, porque sobram crimes do mesmo teor – sim ‘crimes’ aqui proposital – têm os moradores da Boa Morte mil exemplares em exemplo de atolados ou só maculados, os que enfeiam a sociedade atual...
Por elinho não teme a respeito, o filho é discreto e correto. Desse tipo manso. Mesmo estando feroz a língua materna, Ela costuma exagerar extrapolar o normal no som na acidez no conteúdo que sugerem as ideias. E não daria uma reação braba no moço pouco mais que adolescente? o comum é assim ver nas famílias. Um dos vizinhos mesmo, talvez mais turbulento, mais especificamente o do quarenta, um jovem que briga grita abusa e ultrapassa o bom senso a xingar a própria mãe: “gostaria que você morresse!” esbraveja a todo som a todos ventos, a envergonhar a vizinhança; não é dessa forma ocorrer? a gente fica constrangido como fosse o criminoso e a vítima ao mesmo tempo nesse caso, no lugar de outrem que esteja em discurso tão escuro tão escuso. Pois bem, Ela não sofre tal vergonha, não anda liquidada como posta a nocaute na lona pelas forças malignas contra a honra e o respeito: seu filho único não chega ser santo, mas é um homem!
Desse jeito pensa Ela de elinho. Um menino vigilante controlado trabalhador quieto no lar parecendo mudo, raramente ouve-se sua voz, mais a voz da motocicleta que agora possui. Esta em comparação e compensação arrasa e mata o silêncio de minutos na Boa Morte com seu tataratá incidente intermitente quase permanente a sair e a chegar para entrar na residência deles, onde Ela canta de galo. Supõem os que sabem supor que até quando choca nunca deixou ser galo e a cucurucar... Com elinho não é preciso falar, menos insistir agora no grito: ele faz o que deve sem reclamar. Decerto dentro disso as manas possam imaginar a mãe tendo predileção e preferência (e não sendo por elas...) Ora, parece visto por alto, que o principal enrosco nesse lar não seja nenhum da prole sim a sua oposição.
Enfim o ambiente caseiro é realmente caseiro, quase do tipo de antanho. Falam por aí que antanho o galo era o galo, raro a galinha de espora. Na casa dEla Ela contudo canta e manda. No lar. Não consegue é desmanchar a desordem na rua da casa...

- A Boa Morte inicia viva a manhã, viva demais diz desgastada Ela. Visto não ser um fim de semana anos a gente ‘acostumada’ com isso, com isso embora ninguém se acostume e se se acostumar não aceitará jamais; a gente tida por bem. No final da semana sábados domingos ou então nas vizinhanças dum feriado é que se dá o ajuntamento terrível. Ainda pensamento dos de bem. Então é aquele deus nos acuda.
Ela observa, observa a coisa não apenas nestes tempos, desde que chegaram em mudança vivíssimos na Boa Morte – na mudança participando os parentes os conhecidos e até desconhecidos a quem se paga com um trago na venda, aos amigos e à gente do sangue não se paga auxílio para se transportar os móveis e objetos miúdos duma residência em crise para outra, seja a crise por despejo ou seja por vizinhança intratável e até insuportável ou que sendo os cômodos incômodos na repartição e tamanho não cabendo os da gente – seja lá o como e o porquê em livre escolha, ou ainda a sorte que seja por azar: tudo redundando no translado; aí sim pagando-se a cachaça ou em brincadeiras e palmadinhas nas costas como amizade; porque dá tudo no mesmo que é a mudança. Aqui nesse dia já notando sua argúcia (não seria pela experiência sofrida!) enfim Ela já notou um quê diferente em a nova casa, pois se mudaram num fim de semana a aproveitar uma folga no serviço, todos na família trabalham, este um mérito indiscutível dos seus; em suma aproveitaram a folga deles e a dos que lhes ajudaram e nisso apenas se quebrando um vaso, inexpressivo a quem desconheça arte, e partindo um espelho, justamente o do guarda-roupa onde se via Ela anos bela talvez agora um pouco menos bonita; aqui sem se criticar a má representação nas imagens distorcidas que os infames pedaços do espelhão ofertam a irritar quem o veja...
No decorrer dos anos concluiu-se pelo amiudamento das ocorrências e agora se dando inclusive na manhã de meio de semana em que a Boa Morte inicia viva, demais, o dia.
Porque jovens quase sempre meninos adolescentes se reunem ali na esquina para suas algazarras. Consiste tais ajuntamentos e encontros da gente imberbe, garotos e meninas, em dar curso ao vício social das drogas – leves e populares como a maconha e o crack, parece não se cogitar das mais sofisticadas de domínio das classes altas. Não se propõe aqui o aspecto moral, altas querendo dizer endinheiradas.
Então gozam gozam-se sobretudo havendo um que outro ‘chefe’, palavra ou imprópria ou provisória, estes de carros e nestes autos o comum do chamado ‘som’ o qual é todo ruído em estardalhaços e muitos decibéis e até algumas músicas populares de gosto discutível pois não passam de cantos de cadeia... Expliquemos: sons ao som da cadência em percussão de tambores freneticamente acionados e sem sequer pausa rítmica para descanso de ouvidos porventura educados; tais cantos são mensagens criminosas de presidiários e facções bandidas, segundo a polícia insegura de nossos dias... De quê forma são expostas? dispostas como atitude na altitude das montanhas a um público grosseiro abaixo do chão!
O público é um grupo de crianças crescidas que riem por dopadas ou embriagadas na droga e também no álcool (garrafas de uísque e vodca são encontradas vazias depois) o álcool igualmente droga; havendo embriaguez primeiro a relaxar o juízo e segundo a perder o medo que o perigo na atividade ilegal oferece. Visto serem o que o mundo bravio policialesco apelida ‘aviões’, quer dizer carregadores desse ilícito aos viciados por aí. Num dia, mesmo em frente da casa dEla, um menino gritava na noite à turma “não posso ficar, preciso cuidar do meu ponto” ponto de redistribuição de drogas! Não é deprimente?
Ora, para tanto se drogam, decerto em início como oferta da casa pelos chefes (ainda aqui um vocábulo provisório) e após os jovens se responsabilizam no passar a coisa adiante, seja ou não seu próprio ponto...
Aqui entra a irritação dEla. Porque embora não haja agressividade em não ser a das expressões usadas ou no linguajar da gente do grupo, considerando que apenas um garoto mal pagador foi morto com um tiro, nenhum mais exemplo de violência. A verdade é a população presenciar uma algazarra digna de festividades mundanas, sempre com as consequências conhecidas e banais, assunto e matéria da tevê de hoje.
Os vizinhos reclamam entre si.
E a polícia, perguntam. Ora, um dia (contaram a Ela, Ela então no seu trabalho portanto em segunda mão:) certo dia o Lunatiquinho aciona policiais. Quase gasta os dedos digitando à delegacia por causa desses jovens afoitos. Não vieram oficialmente, não fizeram apresentação à tevê a dar para ela o ‘ibope’ cobiçado e ansiado; tão só apareceu um dos policiais fardados – entrou saiu da casa de presumível traficante ali na esquina; e completou a visita abanando amistosamente as mãos...
Ela? ah ficou indignada pela narração vizinha e pela coisa em si. Fica mais ainda quando veículos dessa gente passa a raspar cantar pneus dos carros ou as motos empinadas feito cavalo ensinado. Além é claro do ‘som’ no último volume nos automóveis.
Ela: não pode que um passe por cima das crianças ou de um de nós adultos!
Pode. Pode sim. E daí?

- O sol a lua. Não: a Lua e o sol, a ser justo nesse lar onde Ela é mais Ela, ele ele apenas. Mas um dado ressalta nessa gente trabalhadora e respeitável; não se afirma respeitada porque nas condições da Boa Morte isso soaria falso: ninguém pode exigir ser respeitado vivendo tão próximo dos jovens transgressores na sua festa quase contínua... Contudo a casa anda, prossegue embora também e sobretudo tolerâncias e intolerâncias internas.
Um dado presente deles é a convivência quase anormal. Os pais saem a trabalhar fora – dentro se faz por vezes mais ainda que fora e aqui sobressaindo a lida dEla quando no lar sem descanso, o que dá algum choque com os elementos masculinos e até os femininos mormente a Boa. Anormal pois não disposto como o comum papai mamãe filhinhos na rotina; a rotina conflita um pouco nestes dias a lua estando em vigor de dia o sol de noite: ele faz plantão noturno parece que num hotel, dizem vizinhos hotel; enquanto Ela que trabalhava à noite, onde o Lunatiquinho nunca descobriu onde – agora removida ao período diurno e... ah o lar! o lar às moscas falam desempregados de língua solta. Assim a coisa anda, com o silêncio de dia e o quase barulho de noite, tendo Ela retornado no fim do sol ou começo do reinado da lua; é quando igualmente os filhos da volta do trabalho deles; trabalho nos estudos no caso da Boinha ainda não empregada.
À noite é quando se costuma juntar os membros, a narrar ou seu dia ou suas mazelas, estas se unem aos problemas da família. É neste ponto haver, Ela estando com saúde na boca, haver os bate-bocas. Ela entra em conflito frequente com a Boa faz anos numas questões morais.
Aquele negócio da Boa agir tomar decisões, à revelia da mãe e diante desta calar-se não contando seus podres (Ela diz textualmente podres) e também confrontada, diante dos berros maternos fecha a boca calando-se já calada – o que dá uma como coceira lá por dentro dEla e ora, que diacho, se fala falando baixinho agora: a bruta grosseira aí está, chegou a “perdida!” Comumente a mãe apenas rumina sua raiva – a Boa quieta quieta! mas qual o quê: a mãe lê-lhe escárnio no riso que não externa, no olhar que olha não vê, no respirar até no respirar e assim a filha estaria ainda escarnecendo num fungar baixo nada manso. Em suma a jovem responde muda na luta eterna, tal qual entre marido e mulher o homem põe mulher-e-marido; ou na briga entre sogra e nora, aquela sempre pondo nora-e-sogra na ordem natural das relações. É assim que Boa age: fala muda, mudinha da silva – enquanto Ela esbraveja. Um dia extrapolaram ambas na extrapolação da língua. Um dia? uma noite madrugada já avançada na qual cuida da insônia Ela, ele ali também decerto a torcer que a filha tornasse logo num mais cedo do mais tarde; aí por umas duas ou três da madrugada, os galos até já a dormir e talvez os vizinhos, esses sim dormindo sua paz no silêncio em que os grilos cricrilam. Chegara finalmente a Boa, o carro sabe-se lá se dum namorado ou doutra coisa pior. Parou desceu entrou, quis entrar gritou baixinho “mãe” depois “mãe, a porta!”
Chega Ela de roupão penhoar pijama camisola ¡¿ora quem terá o direito em vê-los na intimidade ele em cueca do tipo samba-canção Ela em vestes feminis de dormir, insoniando!? Isso são horas de chegar? berrou seu normal de indignação. Pensa, antes repete a indagação, pensa que esta casa é ‘p’(aqui elevou o som na alta baixaria, a todos ouvirem e piormente o Lunatiquinho e sua horrorozinha).
Fez mais um luxo aguardando a ansiedade e a vergonha da filha mais velha, esta a implorar quase que Ela não desse, já provocado, o escândalo. Então abre de vez a porta do lar doce lar. Imediato o silêncio no doce tão amargo da madrugada. Não obstante orelhas afins e afinadas escutaram lá dentro o zum-zum em abafamento. Ela “faça como quiser, e arque depois com os atos praticados; eu? ajuntou Ela – encosto a cabeça no travesseiro e durmo em paz!”
Nem dormiu, a insônia não permitindo; nem teve certamente paz, a paz em alerta...

- Contudo a Boa é muito boa no que faz, afirmam colegas no serviço e nunca perdeu um dia de serviço, isto palavra do patrão; ela ouve outros elogios sobretudo de colegas machos pra valer e que apreciam seus dotes físicos e as características árabes que possui enquanto as mulheres a se agradarem com o bom gosto dela no se vestir e pelas boas relações que cultiva no ambiente, apesar das muitas intrigas existentes numa empresa; ela mais sorri que fala diante discussões desnecessárias. Aquela velha questão de ouvir outrem a narrar sem atritar com respostas duras. Ora, isto agrada sobremaneira a gente. Mesmo, e até em razão disso, mesmo não abrindo a boca só a sorrir e aceitar com os olhos, porque assim agrada todo mundo e salva as relações sociais. Onde? na fábrica no escritório na loja, onde se pergunta o Lunático não adiantando indagar esse desconhecido à Lunática pois inventará na certa, onde? Não sabe toda rua Boa Morte. A moça destranca o portão, faz um barulhinho manso, sai passa – orgulhosamente afirmam alguns se não todos – passa e some na esquina, corre andando depressa ao ponto sobe no veículo e deixa o exalar dum perfume também manso; sobe no seu ônibus, após desaparece à curiosidade do bairro e entra no concerto do centro urbano, faz o que faz, torna passa entra afunda no fundo de sua residência e vai descansar ou brigar com a Boinha, visto não haver inventado a família outra conexão melhor entre irmãos; porque ambas no mesmo quarto e a relaxadinha bagunça espalha cadernos folhas materiais escolares outros, inclusive na cama da Boa. E a Boa, adianta-lhe queixar-se com a mãe delas! não. Dessa maneira foge ao intestino do lar doce lar, para só noutro dia empenhar nova caminhada da Boa Morte ao centro.
Apesar do dito e do dito pelo não dito sobram questões em problemas insolúveis ao lar dEla onde ele também vive, embora não decida em não ser quando a bater o pé e brigarem e mudarem as normas da família.
Nuns tempos a Lua volta a iluminar a noite em seu trabalho, onde? perguntam, não a Ela claríssimo. Enquanto os outros membros familiares se ocupam de dia e dormem de noite como quase o resto da humanidade. Logo também Ela a mando do patrão, por sua vez atendendo ordens da esposa “ah esses fracalhões” comenta a empregada com outra no serviço; então Ela é devolvida ao sistema anterior: assim dorme ou insonia à noite enquanto ele, aquele bárbaro, se levanta a fumar felizmente lá fora e volta cheirando tabaco curtido e um pouco de álcool bem curtido igualmente para o leito conjugal. Ela exerce seu trabalho durante o sol. Enfim agora todos direitinho a dormir à noite, trabalhar no dia. O dia por essa razão é na casa silêncio.
Num lar onde crianças babás ou mamães na lida diurna é o som da normalidade. Que seria normal? Bem. Não assim o silêncio cujo sinônimo mundano é a paz... A casa calma, quieta; abandonada? Certa vez perguntaram se à venda se para alugar, coisas desse jaez e ótima pergunta a vizinhos – tal a quietude na residência.
Aqui é um abuso da linguagem e até da verdade visto haver algo lá dentro do prédio em meio lote – a prefeitura aquela ladrona no dizer da esposa do Lunatiquinho, os poderes públicos permitiram que se seccionassem o terreno e se construíssem duas casas apertadas no mesmo lote; assim Ela e ele compraram ou alugaram, isto não sendo da conta de ninguém, o imóvel já nesse estado, quando da arruaça da mudança e do espelho partido em mostra de várias Elas cada qual não parecendo Ela-original. Todavia o silêncio ali é o absurdo.
Isto porque existe – não havendo caneta por mais inteligente e ladina que possa desmanchar eliminar – existe Auau.
E como existe... ladra horrores. Mais flagrante o latido alto ardido violento mesmo, levando-se em consideração que Auau é uma cadelinha de raça miúda, de qual ‘marca’ pergunta o Lunático, chuta-se uma raça vira-lata e fim de papo. Não, começo. Ladra ladra ladra até cansar ouvidos alheios; não se cansa. Então o estranho ou curioso vendo se é para alugar se está a casa vazia – que burrice não percebe cadeiras peças de roupa estendidas a pingar secar usar depois! Tem gente que faz perguntas de respostas óbvias. Aliás não há ninguém a responder. Tem Auau indignada com tanto cheiro de gente – coisa horrível no pensamento humano, que tanto agrada o cachorro da gente – como não ficar indignada.
Depois se bebe água com a linguinha de estalar e se descansa a voz o gogó.
A casa, os demais a trabalhar, a casa às moscas.

10° - Agora chega um, a cadela em festa, abre ainda tataratando a porta – ela, não a porta de ferro enferrujada a ringir não conseguindo tapar o tá-tá-tá da loucura da motocicleta – ela já conversou latindo na sua linguagem de alegria e felicidade a presença delinho; não faz tanto alarde com o pai, ele, e menos com Ela, pra ela sorri seu cotó o rabo cortado aceitando a dona mas não sabendo donde virá a cobra (isto linguagem figurada humana, na da cachorra a vassoura quando Ela nervosa...) Perto da Boa sorri, sorriem ambas ama e cadelinha; todavia sem exageros, desnecessários como são os exageros; festeja bem a Boinha que lhe afaga tira os carrapatos dá comida vê se água na lata de goiabada no chão, quase sempre antes do depósito do material escolar na mesa de centro, já entorna derrama substitui água suja (uma vez a vasilha seca e a sede braba...) e imediato põe água, limpa e fria. A comida? ora são restos da refeição da gente ou alguma ração; contudo Auau espera, educada, a colocação do alimento olha agradecida a outra e quando a Boinha sorri ou fala algo na embrulhada que os seres humanos proferem, então avança no almoço na janta – sem a ansiedade e falta de compostura de bicho selvagem guloso faminto: com classe.
Agora chegam a moto e o rapaz em cima da moto. Desliga a loucura, ainda permanece no ambiente um cheiro de combustível; elinho diz qualquer ao animal, este já percorreu sua via-sacra de sempre indo lá nos fundos (para avisar a quem se a casa vazia) torna feliz ao dono. Este faz o que faz, se lava por exemplo se troca come e atira um osso de frango para a amiga se contentar mais que anteriormente, liga a tevê vê o que não vê com o pensamento longe nas encrencas, do escritório? indaga o Lunatiquinho, da loja da firma, enfim nunca a gente pode apurar toda verdade nas verdades das coisas. Assim, um pouco ansioso elinho, elinho liga de novo aquela máquina infernal e sai a tataratar, não espantando a rua Boa Morte porque têm outras mortes noutras motos tão barulhentas como. Auau não entende disso e sai antes, já conhecendo meses o caminho a ladrar como que anunciando “o rei vai passar, abram alas!” ou então é a motocicleta que sai louca e desesperada com o homem em cima e ela, Auau, correndo atrás. Nisso se cansa, o veículo rápido disparou fumaçou sumiu no final da rua entrou noutra rua no emaranhando de ruas e então ela, Auau, torna à casa onde manda Ela. Agora uma surpresa já experimentada mil e uma vezes que é a porta fechada pior trancada e que lhe adiantaria não estivesse ‘cadeada’. Senta-se nas patas traseiras a olhar (não a fiscalizar como a doidice vizinha do esposo da velha, esposo nada afirma Ela: ali tem é dente de coelho e igreja verde, isto pouco ou nada importa a uma fêmea castrada de cão) a simplesmente olhar aguardar que apareça outro cheiro bom de sua gente; inclusive Mamãe de chinelo ou de vassoura engatilhados a cheirar gostoso. Espera espera na frente da residência. Os carros os homens passam repassam e até outros cães para que ela rosne ou ladre; espera.

11° - Espera curta, logo chega Ela, nem vê compenetrada desgastada aborrecida a cadelinha. A cadelinha festeja outra vez, mas sem grandes vozes, aprendera e tirara grau máximo em grito em vassoura em chinelo. Penetra aquele santuário que é o lar, o bicho entra atrás imediato, também aprendida a lição, entra depressa e vai se refrescar bebendo na latinha.
Ela, não a lata de água, Ela parece-lhe uma giganta; e é bem fornida, fora bela qual a Boa, a intriga o ciúme a imaginação batem o pé que a mãe mui mais menos desajeitada agora que antes, quando ele se decidiu pedir-lhe a mão, tendo ensaiado mil vezes e se amarrando ao fracasso outras mil vezes até se encorajar enfrentar o futuro sogro morto pouco depois da sogra, sogra dele. Então uma formosura e ele um macho pra valer, ali os três filhos deles não cabendo dúvida. Para Auau Ela uma brutamontes, com um ventre que não quis voltar ao normal (que será normal?) isso após dar à luz Boinha; o rosto deformado por mil pedaços dum espelho teimoso em mudança na qual todos mandam, e estragam, tais pedaços mostram uma cara estufada com dois olhinhos penetrantes e uns lábios levemente cobertos pelas camadas de batom os zigomas com pós e pós da rua também, visto o centro urbano andar demais poluído todos falam fala Ela e aí chega ofegante; espanta sem gritar a cadela e por fim entra na casa. Já desembesta a fazer isto aquilo limpa varre examina dobra guarda para funga resmunga a demora de Boinha. Ah em geral esta no lar quando a mãe grita na porta de metal. Aí corre abrir e... ah parece ser a sina do imóvel porque o mesmo vício noutro morador dessa casa antes deles comprarem alugarem (que é que o Lunático pode ter com isso?) Sim, então cada um dos membros a chegar o grito, o dono berrava poder e macheza por não ter chave a abrir o prédio: sempre alguém precisando correr abrir quando não com o espetáculo desgracioso da discussão sem causa por ter muitas causas. Em suma ninguém na família com chave. Agora a família dEla e dele com o mesmo defeito ou vício mesmo: nenhum membro com chave a mexer na lingueta da fechadura! ou é que um só tenha e se não chegar antes e a tempo? Justo à pacífica rua Boa Morte ouvir o chamamento repetido de fulana ou de fulano! a chave palavra mágica que abre casas... Ou se deixa a mesma na vizinha, a qual fica com a incumbência guardar entregar a dita para quem aparecer primeiro. O Lunatiquinho: isso é uma indecência.
Ela não põe essas questiúnculas filosóficas, berra a Boinha; ou no fim das coisas grita a casa ao lado, a qual vira ainda por cima nesse por baixo orelhas às lamentações dEla. A senhora sabe, já contei outro dia, aquela piranha do patrão nos solta mais tarde quando o bobo não está na empresa e aí... ai? são minutos, desses que vão além dos cinquenta e nove; caso não precise Ela fazer confissão de algo fundamental que certamente a Boinha não fez, ou sobrecarregada no período das provas e outro dia levou vermelho, vê a senhora se posso aguentar pois só vive para estudar... não senhora, não se dá a namoriscos e... bem passa da marca dos sessenta.

12° - Visita de conhecido-desconhecido e aqueles que amiudadamente aparecem que são os parentes aqui da urbe e eventuamente os do sangue porém de fora, bem. Mas naquele dia que lhe sopraram azíago e com um monte de problemas a esperá-la no trabalho na firma (aquele negócio da louca abusando da autoridade sobre o esposo e, puxa: sobre os colegas e mais sobre Ela! dose demasiada) e com tudo isso lá vem visita oito horas da manhã, a gente atrasa e aí perde a condução em ter de apelar à carona, ainda considerando seu espírito orgulhoso, era pra si demais. Pois eis que surge uma visita valendo todos visitantes indesejáveis – o Lunatiquinho. Imediato pensou bolou estudou uma forma expulsá-lo antes da chegada, parecia um soldado alemão de Hitler marchando contra vítimas inocentes, pior sua inocência. “Senhor Lunático, pelo amor de Deus, não posso atendê-lo, meu ônibus...”  aí consultaria o relógio (Ela usa um de homem, parece um despertador grosseiro no pulso) olhe, oito passada e... E não adiantou, já ouvindo a tossinha sequinha forçadinha do Lunatiquinho, vizinho do número trinta e três ali em frente.
Senhora, bom-dia.
Respondeu desejou mau-dia não disse, reticenciou seu olhar apenas.
Pois é, continuou o velho. É que o carteiro – sabe da novidade, temos agora um ‘vivo’ na Boa Morte? trocaram zé por joão, aliás não sei o nome do novo bruto ou analfabeto. Deu errado pôs errado a carta certa da sua filha na caixa de casa. Olhe, falou nada conciso o homenzinho, pus inclusive cadeado na caixa de correspondência para os moleques não roubarem documentos e fazer com eles aviãozinho e ainda ficarem voando nesta rua praguejada com traficantes e malhada de drogados e...
Neste ponto já fechava Ela a porta, dando duas voltas na chave, só Ela tem chave que às vezes perde e ele também, ele esquece a sua no hotel e daí fica a chamar a Boinha devendo esta haver chegado da aula; ah a menina pega a chave na vizinha para após varrer a casa etc.; ou fica o pai pra fora, fuma um cigarrinho do tipo estoura-peito e depois vai fazer hora para hora da filhota aparecer. Acontece ter ocorrido oportunidades incontáveis em chamar a evangélica amiga dEla e pedir a chave: contudo é tímido... a oposição usa como sinônimo de timidez bobeira. Ah não vai ao caso, o caso é Ela guardando na famigerada bolsa feminina onde cabe um montão e até a chave. Assim ou apressando o Lunatiquinho ou se desfazendo da indesejável criatura (indesejável e asquerosa no pensamento dEla) “com sua licença ou perco o circular.”
O vizinho não ouve tanta braveza, mesmo porque quase tudo dito com os lábios da mente aflita. Não escuta.
Pois senhora Ela, é Ela não é? a carta de cobrança, não quero estragar-lhe o dia mas é sim de cobrança... de cobrança entendo eu porque minha velha é um despropósito como gastadora, me afunda, entendo de intimação a pagamento atrasado. Esta correspondência veio em nome de ‘Ilma. Sra.’ – deve ser senhorita pois não! sra. Boa da Silva... O descuidado funcionário dos correios pôs errado na caixa certa, visto caísse em mãos infames dos drogados e dos moleques, perder-se-ia. A senhora não acha?
Acho. Obrigado (deveria concordar femininamente obrigada). Tomou sem esconder no filtro da educação e das normas sociais o papel tremulando qual bandeira da pátria das mãos do Lunático, agradeceu de novo agora com mais raiva e sem qualquer ímpeto de sinceridade e imediato marchou soldada nazista igualmente para longe dele; o vizinho aparvalhado e de boca aberta, com sonhos desfeitos.
Os sonhos quase milenares do casal do número trinta e três da Boa Morte eram simples: atar (não reatar, isto não existe nesse caso) atar amizade, com muitos bons-dias boas-noites como vai e aqui introduzir possibilidade de sugerir que Ela contasse os podres no seu lar esquisito lar. Devendo este ser bem suculento, a dar corda à conversa... Ainda virando a esquina rumo ao ponto, correndo no passo apressado, Ela sumia. Outro dos sonhos, apenas secular decerto, outro tanto quanto importante ao casal Lunático, era tê-la nas amizades mesmo que formais: olá, como vai, tá quente, vai chover e outras inverdades ou verdades tênues da realidade vista e sentida no bairro.
Os sonhos acabaram.
A prova é noutro dia Ela ao passar em frente da frente deles – ele ainda sorria educação sem ir além nesse abuso manso – passar marcando o compasso com o coturno, duro, nem sequer um formalíssimo bom-dia.

 13° - É possível manuscritar usando esta bela e charmosa esferografinha, sem temor ferir a verdade no caso da casa trinta e três da Boa Morte. A morte boa do morador e quase imediato também de sua parceira, conforme intrigas das muitas oposições; e aqui de sobra drogados e traficantes e línguas sem a grande violência apenas violentas na fala.
Arranjara o Lunatiquinho mil inimigos ou somente adversários gratuitos na centena de moradores duma via pública que um dia a prefeitura batizara por decreto rua da Esperança, com placa e tudo o mais, que o  povo torcendo a verdade ou inventando a verdade passou chamá-la rua Boa Morte. O que abuso da invenção, visto ter havido aí apenas quatro ou cinco assassinatos pois o restante da baixa na população foi Deus que levou; e aqui ninguém a discutir atos divinos. O morto vivo dizia que a rua espécie de matadouro municipal, em discordância com a Lunatiquinha a se opor à oposição dela, afirmando esta em discussão sine die para acabar que não só raro havendo baixa e igualmente que a divindade nunca mata, mata sim o homem ao homem e inclusive o homem vive a matar a própria divindade.
O fato é que o vizinho dEla, morador no trinta e três, morreu, morreu sem ser assassinado nem arrastado esperneando ao céu em que não acreditava. Quanto à oposição dele ela terá perecido no mesmo dia por entender faltar ter com quem brigar depois. Um desastre duplo na Boa Morte, acabando assim com a esperança.
Ora, o curioso desta situação inusitada, o curioso é Ela não ter sabido dos passamentos...
Não foi bem assim, não pôde tomar conhecimento da morte durante esse fatídico dia, somente à noite vindo saber. O coração fraco da boca forte parara às 8:15h; Ela tomara a condução das 7:30h, levada mais cedo a conversar de homem para homem com a mulher, a louca do bobo patrão dEla. Inclusive se dispondo a pedir de vez a conta e acabar com a exploração (sugerindo que as outras colegas de serviço fizessem o mesmo, que fosse a loja por isso à falência:) à falência quase levou sim o seu matrimônio com ele – discutiram intimidades noite toda, não deixando sequer conciliar o sono a Boa e até a Boinha, estazinha embora sempre com um sono de pedra; elinho não se encontrava no lar. Discutiram feio, ele pegou pesado segundo Ela; ele: Ela me fez em trapos, confessou ele a um colega no hotel, longe do gerente. Saíra por isso mais cedo que o hábito a mulher, então irada e disposta em não deixar pedra sobre pedra lá no serviço na zona central da urbe. Assim partiu antes da tragédia.
A tragédia foi contada pela vizinha evangélica de noite após sua volta.
Ela se surpreendeu: morreu! morreram!! Teria, fosse hipócrita, não era era apenas abusiva na língua, teria dito o comum “que pena” um santo homem e ela amiga de todas horas. Contudo não sentiu doutro lado alegria por aquele desfalque na rua sem paz, no impacto do primeiro momento. O corpo os corpos removidos às lágrimas de parentes e amigos decerto e o número trinta e três fechado, um que outro curioso nas imediações de plantão ali a dar informes possíveis para outros curiosos e desconhecidos. No primeiro momento Ela ficou pasma e de língua presa, a ouvir a vizinha narrar o infausto dia a remoção dos cadáveres e lembrando também a visita sempre indesejável de policiais, indesejável aos assustados e inocentes. Claro, presença das autoridades por falecimentos eivados de interrogações, tão caras ao crime e à lei. Não chegou dizer a Ela entretanto observando a vizinha outros vizinhos a chorar como fosse perda de anjos nesse pedaço tão podre. Absteve-se a senhora de comentários sobre meras aparências e ficou tão só na descrição dos flagrantes mais tristes. O que convenceu Ela, a qual desejava ser convencida, mormente a equilibrar sua jornada no centro urbano, pobre de vitórias e rica nas suas insatisfações.
Após isso penetrou o santuário do lar doce lar, que o morto apostrofava esquisito, entrou na casa e conversou nas próximas horas mansamente quieta baixo com os filhos um a um a chegar; e com ele apenas o necessário e meio rombuda, enquanto o marido ainda bicudo para os lados da esposa. E se falaram todos no assunto principal daquele dia nessa noite, porém o fizeram à boca pequena; falaram do que ouviram contar desse talvez crime...

14° - Não sendo Ela uma criatura calculista fria ou só máquina de viver nesse convívio no bairrro, segundo pensava a oposição cita no imóvel número trinta e três. Não. Apenas embebida no peso avassalador dos dramas que enfrenta no centro e a suportar outro peso no ambiente doméstico; neste pisa de general, enquanto no do trabalho na loja não pisando pisada por considerada mequetrefe pela doida do tolo. Todavia em si um ser humano frágil como outrem – somos algo no que mostramos, pouco no que provamos – frágil sensível e mesmo sentimental. Semana antes do Lunatiquinho ir-se da rua Boa Morte à avenida Saudade para morar com sua velha, flagrou esse senhor uma cena inusitada. Aliás tudo vindo da casa em frente, Ela ele elinho Boa Boinha e até Auau, tudo ao velho sendo inusitado; a coisa lhe marcou o ser.
Então ocorrera ali próximo noutra casa um acidente ou incidente (e que isso importa nas dores!) um garotinho fora mordido por um cão, motivo sem muita importância à ideia principal destas linhas. O susto o sangue o grito e os curiosos a acorrer apenas em curiosidade, mas quantos deles não têm coração ou só não têm praticidade!?
Também o morto então vivo foi como os demais salvadores à mãe desesperada e ao filhinho a sangrar. Sangue, isso, ele sem coragem ver sangue; ficou um pouco longe a observar, mesmo porque quando a gente nada pode fazer, o melhor mesmo é não atrapalhar. Nisso espantou-se deveras, pois Ela abriu sua porta, onde conversava com parente em visita, correu socorrer mãe e filho, desconhecidos de sua timidez ou arrogância – aí mostrou iniciativa, a iniciativa que faltava a dezenas de pessoas ali no acidente ou incidente: primeiro acalmou a jovem mãe com palavras doces e ternas; e incentivou quase impondo como general que os sofredores entrassem no carro do parente dEla; então ordenou que se levasse ambos filhinho e genitora ao pronto-socorro. Presença de espírito.
E se foram a esguichar sangue. Enquanto Ela, calada, voltou à casa, quase a gozar seu domingo com os seus.
O morto, vivo, diante desse imprevisto, não tendo forças morais sequer a comentar em minúcias como o fazia anos à esposa para a esposa. Entrou no seu trinta e três quem sabe a conversar baixo; ou a pensar...

15° - Dar-se-ia o caso de Auau ladrar em inglês, visto seu nome importado gringo originalmente quando veio embalada numa caixinha, mas ficou mesmo Auau por fazer muito barulho em casa na língua pátria. Como agora num dia já a acabar o dia, a residência trinta e três ali em frente de olho naquilo, quando um carro de muita estrada na sua sujeira parou par a par da casa dEla. A cadelinha se desesperou não apenas no avisar da chegada estranha e aqui negativo ao menos perigoso; na visão de alegria também dela por a condução trazer-lhe o mano. É preciso convir que um cão imagina os da família sejam do seu sangue e talvez da tradição; inclusive Ela armada com chinelos e olhando feio pro lado da cadela, igualmente por esta reconhecida como familiar; mais neste aspecto pois pensa decerto ser Ela sua genitora. Então elinho desceu do automóvel – o barulho do som, som sendo hoje todo o ruído em estardalhaço, o barulho ecoando tum-tum-tum compassado e brabo dentro do veículo, impedindo quase ouvir-se apresentações – elinho agora apresenta o amigo ou patrão ou superior ou interessado ou coisa assim à sua mãe; a Mãe sorri interesse ao estranho ainda ao volante, enquanto a cadela se desfazendo em agradecimento e alegria pela presença do irmão dela meses longe. Foi aí notar-se uma faceta desconhecida da mulher vista por orgulhosa na casa vizinha. Ela iniciou um falar alto (nunca soube conversar baixo inclusive nos inconfessáveis segredos caseiros sobretudo naqueles entreveros conjugais...) um falar que atraiu bem mais Lunático que outros vizinhos; bem entendido: o velhote e demais vizinhos andavam a fazer um estudo sobre Ela e os seus. Dizia, mansa e igual inocente e cativante criatura, dizia coisas impróprias segundo a oposição vizinha, dirigindo elogiosas palavras ao estranho, de maneira melíflua e suspeita, crendo-se forçadamente... a fim de quê! Ora bolas, a enaltecer em política materna desejando através de elogio e engradecimento alheio elevar o próprio filho no conceito de outrem. Seria, pensou sem poder confirmar, seria a conseguir sustentação no emprego ao garoto, o qual entra mês sai mês vive de expediente, enfim negócio precário!? O esposo também, ele um dia foi flagrado a defender elinho no telefone a alguém, este decerto a destruir uma imagem sagrada ao genitor, pois todo filho é caro a um pai. Agora é Ela quem defende sua prole.
O fato é que o som o tum ficaram horas alegrando todo bairro, a rua Boa Morte não necessitando nada superior às suas farras também com tum e com som.
Aqui no casal fiscalizante talvez em patrulha teria afirmado um membro ao outro: durma-se com um barulho desses. Contudo o sr.Lunatiquinho arranjou material para alimentar bem suas conversas dias e dias.
Além do mais nesse menos vizinho, o som entremeava o chamado pop e o sertanejo, este que Lunático levando em conta a falta de raízes apelidando aos próximos “sertanojo”.
Em todo caso desfez-se um bocado a ideia arraigada no bairro de que Ela fosse um ser fechado e orgulhoso.

16° - Agora Boinha de certa forma entrou nos eixos, quase se tornou um membro efetivo do lar em que Ela canta. Sem ficar totalmente prisioneira do silêncio na casa; mesmo porque se ouve fora dentro quando a menina está uma vitrola ou qualquer semelhança a vitrola aperfeiçoada pela tecnologia atual; além de ouvir-se ao mesmo tempo os sons exagerados e extrapoladores dos viciados na esquina a ensurdecer a gente. Não nestes decibéis. Enfim sons audíveis, certamente se coibindo mesmo esses parcos avanços quando Ela em casa por qualquer motivo: no chamar atenção no ensinar no brigar no dormir ou só descansar pois Ela reclama por seus anos a viver insoniar. Além reclamar por um que outro utensílio a cair ou barulho de qualquer máquina dessas que hoje abreviam e facilitam os serviços domésticos. Assim agora.
Antes, ao chegarem morar sendo estranhos em mudança e fora o escarcéu das brincadeiras dos ajudantes nessa tarefa, antes a Boinha fora mostrar seus encantos e sua vivacidade na Boa Morte, seu novo pedaço. Tentou com algum sucesso se enturmar com jovens já calejados por moradores antigos quiçá de nascimento aqui. Procurou conquistar e ser aceita também nos grupos adultos vários de senhoras tias ou comadres, dessas que têm ao menos meio centímetro a mais na língua que o menos entre os normais ou comuns, vários lhes cederam atenção. Claro o homem sendo venal esperavam pagamento, como por exemplo o que se faz dentro dum prédio cercado de paredes por todos lados menos o lado frontal à rua onde adormece a cadelinha no gradil e na porta enferrujada; como é Ela, ele canta de galo! e essa mana sua mais velha e de cara fechada, é Boa!? então o que faz a Boa quantos anos tem quantos namorados tem, visto ver-se vindo mil carros particulares e, convenhamos, nem todos devem ser do patrão dela trazendo a funcionária... E a propósito, quanto ganha etc. e tal...
O preço andava alto, o valor inflacionando o possível.
Assim Boinha pôs sua viola no saco e partiu em viagem para dentro da cadeia; cadeia? o nome daquela residência criado por Lunatiquinho à Lunatiquinha gargalhar.
Foi pra cela e nunca mais por meses muitos ofertou sorrisos – esses sorrisos fáceis em meninos – em não ser aos parentes e um que outro colega a gritar-lhe da rua “Boinha, estamos atrasados, o portão da escola vai fechar”.
Saindo os estudantes às carreiras a se gozar.

17° - “Ah... sim senhora, vou agora mesmo...” Desliga o telefone, confere imediato se não deixou qualquer errado no manuseio, os filhos usam o celular todo momento com facilidade, Ela apanha um pouco da tecnologia. Na mesma hora grita enfurecida o abuso da patroa, olha para os lados da Boinha único membro da família em casa Auau não contando nisso e comenta braba. Aquela vaca gorducha atrevida e mandona, pensa a fia-da-p. (aí rasga o verbo, não sendo verbo, como diz o povo) aquela indecente que mande no seu chifrudo, vai lá! entretanto em mim, cheguei agorinha do trabalho e a ordinária exige que eu torne e cubra e dobre o período da noite!!
Lá fora a Boa Morte movimentada, todo entardecer assim: carros motocas gente a gritar a passar ao descanso do serviço. Enquanto isso Ela? não tem descanso não merece descanso. Olha feio para Boinha como fosse a menina culpada e vocifera “pensa que sou máquina!” Daí chega ele, Ela desenrola novamente todo sofrimento da jornada, expõe a exploração a que está sujeita, xinga os patrões aproveita xingar a outra filha: a Boa fica nesse vai não vai, por que já não monta de vez casa com o amante!? Acha também alguns errados no esposo ali atarantado com o desabafo da mulher, critica a rua os vizinhos os parentes a prefeitura relaxada; xinga de novo os patrões, em brados, investe alto, e neste ponto se lembra agora uma evangélica, abaixa o tom, vai que a vizinha evangélica tenha ouvido seus disparates... ele ouviu e a Boinha de sobra ouvira antes e escuta outra vez. Encontra-se demais enraivecida com os abusos lá e cá, aqui diz andar até ao nariz com a nora; curiosamente sob suas instigações “que diabo, dissera várias vezes ao filho, ou você paga pensão ou traz de mudança a mãe do bebê morar nesta casa” falara assim num rompante como a panela de pressão preste a estourar. O pior nisso é que elinho trouxe mesmo de fora para dentro sua familiazinha para atravancar a pequena residência dos pais e agora Ela não aguenta a nora. Não vieram da cidade ainda e chegarão breve, elinho na motoca e a nora na traseira segurando o neto chorãozinho, o qual não deixará com certeza mais uma noite sua Avó curtir a própria insônia. Ora, dormir para quê! já já torno ao trabalho quase sem ter chegado, a mando daquela exploradora abusiva...
Por fim Ela fecha a boca, papai pretexta fumar, Boinha fica a sorrir; o filho chega com a ‘namorada’ e o filhote. Posteriormente se separa da companheira vira solteiro a tataratar sua moto como espécie de motobói a serviço da casa: ora levando um ora outro, como levava a ‘esposa’ ao serviço dela; a carregar o pai ao hotel a maninha à escola a mais velha ao trabalho e até a Mãe na garupa ao patrão contentar a patroa – indo e voltando num vice-versa bom no seu contrário e ótimo à confusão. Ou se transportando elinho mesmo às suas tarefas desconhecidas (desconhecidas do Lunático quando vivo, por exemplo). Até na família brigarem, brigarem inclusive por isso e daí usarem os membros ou caronas respectivas ou ônibus de carreira com horários devidamente adiantados ou quase sempre atrasados...
Nem por essas razões ou exatamente por causa dessas razões Ela cala sua boca no vozeirão a assustar a via pública. Propõe-se calar definitivo? Só a morte seria o definitivo.
Enfim esse o ambiente, que a gente só encontra na paz da Boa Morte e que registro antes que me seque a tinta; cubro-me com a tampa, paro, parei, caneta preguiçosa.
Marília   novembro  2012

Nenhum comentário :

Postar um comentário