Ela, a
mais, e os demais
1°
- Eu... claro que eu exista existo: sou a caneta. Uma esferografinha bela
charmosa boa correta em minha opinião, temendo consultar sobre tanto a intriga
quanto a oposição; ainda mais sem boca – onde já se viu caneta de boca! – e por
isso apenas escrever. Escrevo e quando escrito no texto sou eu quem digo,
lógico. Contudo outrem também existindo. Por exemplo Ela.
Ela.
Ela fala; e como fala. Desse tipo de gente quando a falar ninguém mais fala,
não deixa. Fala... então digamos que alguém observe a fala educado e para não
dar espetáculo ou para não chamar a atenção de todo um bairrro diz a pisar
ovos: “Ela, pelo amor de Deus, pare de falar”. Não para, para sim a repensar e
daí despenca em despique a falar ainda mais alto e não interrompe seu discurso
contra... ora nem ela Ela se lembra mais sobre quem, o qual é contra quem for
contra.
Existem
eles outros na família ou só na residência ali a escutá-la. Existe a Boa, tem a
Boinha, tem Ele, este geralmente apequenado em letra pequena e então ‘ele’. Há
o irmão das outras, um macho da espécie na prole, seria um ‘elinho’ em não
chocar e confundir (isto porque gente é animal demais confuso e aqui se
esclarece) para enfim não misturar pai e filho, na espécie, tidos por machos
pra valer, valem-se bem das orelhas a ouvi-la. Ela fala menos alto menos braba
menos invectivadora, decerto se imaginando agora não no púlpito ou no palanque,
em casa com os seus. Assim ouvem. Frequente... não, isto abuso visto os
parentes raro aparecerem e se no positivo tem aí mais um negativo por
ouvirem-na discursar não deixando pedra sobre pedra e... calma, calma me
advirto ou teremos Ela além das deusas no olimpo – não, Ela tão só adverte seu
publiquinho particular duns errados na família, desses enganos de interpretação
que só entes da gente sentem sabem usar errado na conduta segundo Ela. Daí Ela
fala fala fala vocifera o mais baixo possível coisas como aquela doidinha Boa a
complicar a vida dos seus, dEla mãe em particular. Isto
porque Ela a chama nos tentos já anos (seguidos e sem parar seria dose a matar
morto) fala tempão mostrando os perigos em que desliza sua filha mas a
desmiolada não se corrige, corrigir! capaz: nem ouve sequer e a gente fica a
falar sozinha...
Ele,
ele... ora, já não foi afirmado ele existir. Por que teria que haver somente
Ela e a Boa e a Boinha e ainda o filho do pai e dEla claro – dEla na proporção
de nove meses pra cinco minutos, no pensamento do filósofo Monteiro Lobato.
Assim não resta outra alternativa e mesmo dúvida ele e elinho existirem em
carne e osso. No entanto parece à crítica vizinha não existirem bem, quer dizer
integralmente, comidos engolidos por Ela. Depois nessa esteira que mostra
familiares, os familiares. Estes merecem inclusive tratamento especial noutro capítulo.
Vivem na área também os vizinhos, indiferentes criaturas porém
contraditoriamente mui curiosas e que nada têm que ver com a vida na casa dEla;
entre esses de fora o mais atacado pelo mal do abuso e no abuso na língua, o
Lunático, a rigor Lunatiquinho porque miúdo esquelético e baixo na estatura.
Após
essa relação vêm outros indiferentes, pessoas que passam na rua Boa Morte, as
quais nunca ninguém sabendo com que fim circulam no pedaço; não seria a ouvi-la
decerto, se bem que obrigados, não sendo surdos, a escutar o vozeirão. Em vista
disso não merecem um capítulo especial, merecendo tanto quanto quem não tenha
sequer nascido ou já morrido, enfim sem tratamento especial.
Ah
que esquecimento inadmissível: passara despercebida a existência de Auau, a
cadela ciumenta ou só um pouco ladradora da gente dEla. Descoberto a descoberta
do esquecimento, ei-la a latir com garbo e ferocidade ao mesmo tempo.
São
tais os membros da família chefiada por Ela.
2° - Aí, naquele
dia, chegaram parentes, os quais aproveitaram a ocasião e a fama dEla como boa
na cozinha e assim convencendo outros estranhos – estranhos da casa dEla amigos
dos parentes dele, por azar: do marido, não os dEla, estes sendo um primor em
educação etc. e tal, vindo os dele – e os estranhos vieram apertados no carro
porém deu-se um jeito: agora todos juntos na sala pequena para tantos grandes.
Tem gente no sofá, tem gente de pé, tem gente encostada na parede ou se apoiando
na guarda do sofá gasto, tem gentinha no chão a brincar com outras crianças.
Ela olha se bem se mostre simpática alegre e até feliz, não está.
Aquele
negócio chato e constrangedor... ah antes disso disse “muito prazer” nas
apresentações formais (o que prova não serem íntimos nem aos ‘íntimos’ parentes
em visita, parentes dele insiste-se. Tinha em meio uma velha – mãe tia avó ou
sabe-se lá – essa com mãos frias gélidas como o abismo da morte ou mesmo mais
ainda. Outro dos estranhos, trêmulo e barulhento. Depois, descontraídos, iriam
cantar alto desafinado ao acompanhamento de um violão desregulado, em canto
alto da maioria, um dos cantadores tendo som gutural e quase estridente
enquanto outro deles numa sonância como baixo rouco de pulmões a assoprar o que
seria um vozeirão e saindo cavo. Ao chegarem, claro, não apresentaram os meninos,
dois apenas felizmente, não é praxe ver e elevar crianças quando adultos
apressados em mostrar se não seu egoísmo o seu egocentrismo, imaginando decerto
todo sistema solar girando ali no seu entorno; e não bastando falar alto mas a
repetir seu lindo nome, o que mamãe mandou papai pôr no cartório, com uma
ressalva sendo a de que o funcionário não acentuou o ‘a’, uma paroxítona
respeitável que o escrivão analfabeto não pôs. Claro isso senãozinho porque na
apresentação e na conversa que se seguiu, enfim na fala rotineira, ninguém ficaria
mesmo sabendo certo desse errado. Então, o meninãozinho dele, desse forasteiro
e família em carona com os parentes, dele a repetir, o menino crescido
entretanto pequeno na idade indo por baixo – lá no alto os adultos a se
apresentar a dar as mãos educadamente – e o guri de mãos grudentas por balas e
outros confeitos a pegar na roupa da gente, a gente piormente sendo Ela e Ela
não podendo contra a força do monstro... até que o moleque descobriu as barras
das calças compridas maternas, já acostumadas com esse grude e decerto
reclamando falando batendo lá no seu lar no porcolino por isso; ou não,
exatamente porque a psicologia de nossos tempos não permite a violência de palmadas
e chibatadas, só a da gritada no lar doce lar. E aí? aí que nem Ela com todo
seu potencial e poder – o qual brotado da força da língua – nem Ela se
livrando. “Ah deixa pra lá... criança é assim mesmo”. Patati, patatá.
Oh
que alívio, disse de fato uf!, com que alívio abanou as mãos simpaticamente na
despedida. Ainda a porcaria do automóvel deles apagou negou fogo ao sair saiu
após em soquinhos e sumiu, graças a Deus, sumiu no fim da rua Boa Morte.
3° - Curiosamente
Ela está só. Mal acompanhada? Aguarda, matando o tempo como se diz, faz isto
isso aquilo aquiloutrinho nas miudezas do serviço caseiro, se enganando ao enganar
o tempo no aguardo dos lerdos ponteiros, na espera do horário do seu ônibus
circular. Então rumina não fala – ah falasse não a tomariam por louca! essa
gente do bairro e em especial a da Boa Morte nada confiável, igualzinho a
morte. Tomá-la-ia por doida e, pior, não creria divulgaria deformaria seu
estado normal... que é normal? Rumina.
Porque
no dia anterior, na tarde anterior, na quase noite anterior... e a gente não
tem direito ao descanso após um dia aturando o patrão, o patrão? ainda que
fosse o chato mas a patroa querendo mandar no seu homem no serviço dele nos
empregados dele e mandar nEla por extensão. Ora, não engolindo a mulherinha
cosmetizada e apesar disso feia como uma guerra. Aturou dia inteiro no trabalho
a situação, nem bem põe os pés em casa: olhe eles com elas a chegar. E precisando
fazer sala formalmente e bonitinho num cansaço daqueles, era é ainda dose. Não
se fez de rogada e comandou a reunião embora reunião informal.
Aos
poucos – digo eu caneta a rabiscar isto daquilo que a gente vulgar fala – aos
poucos os machos da espécie visita, do grupo da visita inesperada e a gente
sequer podendo falar certas verdades a desabafar, como as maluquices da Boa, e
o parente por íntimo já conhece perdoa ou só entende... não entendem outros conhecidos-desconhecidos
de fora em visita não programada e logo ela Ela sozinha na volta do dia tão cansativo...
aquela mulher mandando no patrão e na gente, fora demais e pior nisso isso ser
rotina, vivendo tempos cansada, estressada apreciando Ela formalizar
modernismos, já estressada e aí quase na hora da novela chegam.
Aos
poucos na conversa nada nada dirigida e menos planejada os machos da espécie se
olham se entendem se falam, baixinho miúdo silenciosamente, afirmam que elas
são intragáveis e a gente precisa sorrir educação mesmo assim. Mulher? dizem: é
um animal chato, que só sabe falar de cabelo de doença de menino de parto...
Ela
toma a direção, se esquecendo estressada e narra em boa dicção e boa voz nas minúcias
a Boa a Boinha elinho ao nascer – cuidados, gestação, parto peso pô! e
chorinhos remedinhos bobajonas atrevidas e... bem, as outras da espécie fazem o
mesmo, só mudando os nomes não a nomenclatura daquela chateação segundo oposicionistas.
Ora,
isso foi bom. Porque os visitantes se foram logo horas após a segunda novela?
Não. Porque Ela destravou pensamentos lúgubres, destravou a língua, a boca se
consumou num vozeirão. Parecia quando os seus reunidos e Ela a pegar-lhes no pé
pelos desandos.
Quando
a supor o mal-estar por estar novamente só e a volta do estado macambúzio, eis
que chegam o consorte depois a Boinha, esta com as pequenas encrencas
novíssimas do dia na escola.
4° - Bem que Ela
não via e continuando não ver com bons olhos ele; ele o marido? não, o vizinho
pequenininho baixinho olhinhos disparados em ver o que não sendo da conta dos outros
– o Lunatiquinho. Ou mais que ao próprio lunático, mal conceituando sua digníssima
esposa. Quanto a Ela, não tem nunca teve em alta conta o vizinho, visto os
contrários se repudiarem e inclusive se detestarem. Assim passa frente à casa
do casal vizinho, não cumprimenta, passa indo passa vindo, sempre em passos
pesados a marcar o chão com raiva ¿ou
seria isto a voz da indiferença surda muda para melhor atingir um alvo
desagradável gasto no desgaste que a sabedoria nos traz pelo conhecimento do
tempo que por sua vez passa passa e marca?
Seja como for fica provado não se darem não se cortarem não se suportarem
ambos: o verso o ‘anti-verso’ em reverso perverso, próprio do homem comum, o
que caracteriza os dois vizinhos, ou os três somando aqui a consorte do consorte
ali quase em frente.
Assim mesmo o velho, “aquela caca que é o caco” afirma doutoralmente
Ela dele, assim mesmo o velho olha observa examina bem e... espere lá: faz tal
análise criteriosa igual em todas mulheres passantes, as da Boa Morte as de
outras ruas as de outras cidades porventura a passar e até as doutras mortes.
Esquadrinha todas – uma delas em virtude dessa desvirtude comenta: aquele
destroço humano me faz sentir estar nua! por que não vai examinar mais que a
gente a própria esposa, por sinal de extrema feiura. Aliás esta a opinião dEla
também sobre o casal vizinho, cujo imóvel atende pelo número trinta e três. Por
que, aqui indagando indignada e mais enraivecida Ela, por que motivo não picha
a do quarenta e quatro cheia de podridão por fora e por dentro, a receber homens
quase diário. O tonto tanto, ou sem vergonha tanto tonto, esse precisa ficar
fiscalizando uma senhora honesta digna e boa como eu! Vai ver, pensa brabo
irritada, vai ver até já criminalizou minha Boa, quiçá a Boinha ainda na flor
da juventude, as quais se enganam sim de vez em quando mas não erram (a si
gente do sangue não erra, se engana e comete deslizes apenas:) Sim tem lá sua maneira
para ver o mundo diverso de nós, eu se diz Ela e ele; contudo sem serem santas
são corretas as minhas filhas.
Enquanto
pensa isso e nisso, já chega ao ponto do circular, avista o veículo vindo e
sente quase haver perdido por um triz a condução, exatamente por causa... por
causa ora, seria em razão do vizinho sem razão?
Todavia
ele permanece de sentinela na guarita do seu portão, olhos engatilhados, visor
enquadrado no zum mais normal permitido em guarda: para ver a banda passar? ver
o bando de espécimes no exército da escultura e da beleza. Sim tem no meio as
que não são belas, têm umas velhotas bem passadas, dessas que apreciam
conversar falar as chatices do tempo da saúde da falta do abuso dos outros
sobretudo das outras. Lunatiquinho recebe deposita em compartimento adequado os
informes delas e só lamenta elas ficarem fiscalizando por sua vez o que ele
fiscaliza e o seu modo de fiscalizar, ou seja as boas que desfilam à sua
inteira felicidade. No entanto agora se contém e faz pose de alto moralismo,
dosa a língua, mantém fisionomia se não santa, casta e certa. Elas, as velhotas
que fizeram ponto no seu ponto de observação, partem (uf! diz de boca fechada);
e assim o velho retoma sua criteriosa análise das peças que passam aí em frente
na rua Boa Morte; lembra a mulher, Ela, a vizinha já foi decerto ao trabalho e
um dia descubro onde e em que trabalha... Assim observo as boas. Quer dizer,
tenho agora o campo liberado porque minha megera foi levar aquele negócio à
casa de nossa filha.
Ou
nem poderia o Lunatiquinho ficar exposto no seu posto observatório.
5° - Mais uma vez
Ela olha se não olhando o vizinho, aquele! mas não para ver e sim em aguardo. Logo deve
enfrentar, e isso fazendo meses, logo a ter enfrentar o constrangimento de
passar ali em frente (¿e que faria
para não fazer: dar a volta ao quarteirão a fim de chegar no ponto de ônibus,
tão só para não passar rente do maluco?)
Felizmente o caminho hoje livre e assim deixa de ruminar e recua apenas
pensando. Com ele não posso. Não posso? como não posso depois de mais de trinta
anos desde as bodas... Já falei já gritei um dia, gritei mesmo a assustar
certamente os vizinhos – não se emenda. Aliás nenhum dos meus, dos meus!? ora,
nenhum sobre a Terra anda corretamente e aqui inclusive sinto pena da feia e horrorosa
do horroroso velhote porque assim como ele e o elinho o Lunático deve fazer das
dele lá dentro da casa e a pobre... que pobre coisa alguma: o casal não presta
o esposo é pior por ficar comendo as mulheres com olhinhos sem-vergonha, ela é
tanto quanto; mais feia ainda que o feio. Então pra quê solidariedade com a
velha do velho: tudo farinha do mesmo saco e ainda não são nem oito horas, às
oito e quinze o ônibus.
Anda
Ela nervosa com ele nestes dias. O que melhor conseguiu nessa guerra conjugal é
ele ir para fora de casa fumar, fumaçava dentro. Aliás a Boa, que não é homem
mas bonita mulher, apesar de bela me dá tanta preocupação; todavia ela também
sai na porta e fica a tragar o cigarro igual o pai. Ele não entra nos eixos e
acho que isso é válido para todos machos da espécie. Dizem que Deus não erra,
errou no homem (aqui Ela se benze no sacrilégio do pensamento praticado, se
benze faz sinal da cruz como quando católica mais ou menos praticante...) se
não errou se enganou para experimentar as mulheres. A gente fala todos dias,
dias todos no ano anos – não se emenda: ele fuma atira cinza na água do vaso,
joga a bituca na meleca ou líquido limpo o quanto limpo pode a louça. Faz mais
e todos dias sem falhar: não levanta a tampa do sanitário com preguiça e assim
molha e fede o vaso! Durma-se com um barulho desses...
O
pior nisso é elinho andar na mesma pegada, embora não tenha o vício do tabaco
molha a tampa respinga no chão; atira papel sujo usado no solo e então o cesto
para quê?
A
gente vai falar com toda educação voltada ao amor para acertar no futuro, vai
falar com o filho e briga. Com ele briga mais e responde o respondão, dá
entrevero dos grossos. E ainda me grita – baixo é verdade, baixo sim não manso
– me intima a me intimidar parar de falar, “matracar” diz somente para irritar-me.
Não
tem jeito com os sem jeito.
6° - É um casal
nada esdrúxulo pois tendo mil assim mas diferente visto no mundo só haver
diferente, inclusive os gêmeos não são mais que semelhantes. Ela neste ponto
dos meandros do pensamento relembra que a Boa nascera quase grudada a outra
irmã morta. Na crise sentimental na época sequer aceitara ver o cadaverzinho.
Disseram após o enterro ser a morta parecidíssima com a viva. Só parecido nada
é igual.
No
temperamento mesmo, cada um dos filhos um filho diverso. O povo costuma
afirmar: os dedos da mão nenhum igual. A Boa é voluntariosa... espera lá:
voluntariosa com o vício, será vício! com o vício de se calar. Fala-se o diabo
para ela, olha e não responde. Não responde? qual o quê, responde sim na pior
forma: agindo fazendo, àcima de quaisquer críticas. Responde com o mal já feito
pronto ‘indesmanchável’, pois não se volta absolutamente no tempo. Então a família,
mais Ela que ele, então os seus tentam consertar ao concerto. A Boa nisso
sorri; fosse gente de fora seria visto por maldade gozação provocação esse rir.
Nela um leite derramado sem solução. Quando nas questões morais...
Nessa
altura das tergiversações lembra o Lunatiquinho e sua voracidade em deglutir os
podres dos pobres na Boa Morte. O que não terá dito; inventado é muito claro.
Porque não é a árvore boa que dá bons frutos? a má... Ouviu assim ou semelhante
num sermão. Agora anda debandando como falava o padre, debandando ao grupo
evangélico. Somente conversa nas imediações com a vizinha ao lado, velha
honesta e evangélica. Leva roupa a passar, traz do portão da outra as peças
passadas empilhadas em ordem e recebe noções bíblicas. A velha senhora tem
sempre como todos de sua religião prontamente exemplos cristãos e citações.
Não, Ela não guarda ainda capítulos e versículos porém as ideias básicas
expostas. Por vezes é a Boinha quem pega a roupa na casa ao lado.
A
Boinha... bem, essa filha um pouco espevitada, tem movimento na ponta da língua
– vive como todo vivente expansivo; sem alardes, contida um pouco no falar não
no viver. Internamente intimamente revela diário à mãe lá dentro do lar as
coisas dos colegas e do que sabe e também do que vendo ou seja o que os mesmos
lhe trazem. Ela, a mãe, se horroriza na possibilidade dos deslizes da Boinha no
seu sorriso fácil e na inocência (em geral todo genitor imagina a inocência
entre os seus; o resto seria o abuso e por que não dizer o crime!!) se
horroriza caia a menina quase moça, que ela enfim se envolva nas drogas; nunca
sendo demais a preocupação familial nestes tempos difíceis... Teme-se é a
ligação espúria por muito a televisão mostrar sempre na tela, isso que é drama
nos outros. Nós pobres mortais sempre tomados de surpresa quando esse e outros
males maiores ou menores chegam através dos nossos de sangue. Aliás não
precisaria Ela saber dessa podridão pela filha, porque sobram crimes do mesmo
teor – sim ‘crimes’ aqui proposital – têm os moradores da Boa Morte mil exemplares
em exemplo de atolados ou só maculados, os que enfeiam a sociedade atual...
Por
elinho não teme a respeito, o filho é discreto e correto. Desse tipo manso.
Mesmo estando feroz a língua materna, Ela costuma exagerar extrapolar o normal
no som na acidez no conteúdo que sugerem as ideias. E não daria uma reação
braba no moço pouco mais que adolescente? o comum é assim ver nas famílias. Um
dos vizinhos mesmo, talvez mais turbulento, mais especificamente o do quarenta,
um jovem que briga grita abusa e ultrapassa o bom senso a xingar a própria mãe:
“gostaria que você morresse!” esbraveja a todo som a todos ventos, a
envergonhar a vizinhança; não é dessa forma ocorrer? a gente fica constrangido
como fosse o criminoso e a vítima ao mesmo tempo nesse caso, no lugar de outrem
que esteja em discurso tão escuro tão escuso. Pois bem, Ela não sofre tal
vergonha, não anda liquidada como posta a nocaute na lona pelas forças malignas
contra a honra e o respeito: seu filho único não chega ser santo, mas é um
homem!
Desse
jeito pensa Ela de elinho. Um menino vigilante controlado trabalhador quieto no
lar parecendo mudo, raramente ouve-se sua voz, mais a voz da motocicleta que
agora possui. Esta em comparação e compensação arrasa e mata o silêncio de
minutos na Boa Morte com seu tataratá incidente intermitente quase permanente a
sair e a chegar para entrar na residência deles, onde Ela canta de galo. Supõem
os que sabem supor que até quando choca nunca deixou ser galo e a cucurucar...
Com elinho não é preciso falar, menos insistir agora no grito: ele faz o que
deve sem reclamar. Decerto dentro disso as manas possam imaginar a mãe tendo
predileção e preferência (e não sendo por elas...) Ora, parece visto por alto,
que o principal enrosco nesse lar não seja nenhum da prole sim a sua oposição.
Enfim
o ambiente caseiro é realmente caseiro, quase do tipo de antanho. Falam por aí
que antanho o galo era o galo, raro a galinha de espora. Na casa dEla Ela
contudo canta e manda. No lar. Não consegue é desmanchar a desordem na rua da
casa...
7° - A Boa Morte
inicia viva a manhã, viva demais diz desgastada Ela. Visto não ser um fim de
semana anos a gente ‘acostumada’ com isso, com isso embora ninguém se acostume
e se se acostumar não aceitará jamais; a gente tida por bem. No final da semana
sábados domingos ou então nas vizinhanças dum feriado é que se dá o ajuntamento
terrível. Ainda pensamento dos de bem. Então é aquele deus nos acuda.
Ela
observa, observa a coisa não apenas nestes tempos, desde que chegaram em
mudança vivíssimos na Boa Morte – na mudança participando os parentes os
conhecidos e até desconhecidos a quem se paga com um trago na venda, aos amigos
e à gente do sangue não se paga auxílio para se transportar os móveis e objetos
miúdos duma residência em crise para outra, seja a crise por despejo ou seja
por vizinhança intratável e até insuportável ou que sendo os cômodos incômodos
na repartição e tamanho não cabendo os da gente – seja lá o como e o porquê em
livre escolha, ou ainda a sorte que seja por azar: tudo redundando no
translado; aí sim pagando-se a cachaça ou em brincadeiras e palmadinhas nas costas
como amizade; porque dá tudo no mesmo que é a mudança. Aqui nesse dia já
notando sua argúcia (não seria pela experiência sofrida!) enfim Ela já notou um
quê diferente em a nova casa, pois se mudaram num fim de semana a aproveitar uma
folga no serviço, todos na família trabalham, este um mérito indiscutível dos
seus; em suma aproveitaram a folga deles e a dos que lhes ajudaram e nisso
apenas se quebrando um vaso, inexpressivo a quem desconheça arte, e partindo um
espelho, justamente o do guarda-roupa onde se via Ela anos bela talvez agora um
pouco menos bonita; aqui sem se criticar a má representação nas imagens
distorcidas que os infames pedaços do espelhão ofertam a irritar quem o veja...
No
decorrer dos anos concluiu-se pelo amiudamento das ocorrências e agora se dando
inclusive na manhã de meio de semana em que a Boa Morte inicia viva, demais, o
dia.
Porque
jovens quase sempre meninos adolescentes se reunem ali na esquina para suas
algazarras. Consiste tais ajuntamentos e encontros da gente imberbe, garotos e
meninas, em dar curso ao vício social das drogas – leves e populares como a maconha
e o crack, parece não se cogitar das
mais sofisticadas de domínio das classes altas. Não se propõe aqui o aspecto moral,
altas querendo dizer endinheiradas.
Então
gozam gozam-se sobretudo havendo um que outro ‘chefe’, palavra ou imprópria ou
provisória, estes de carros e nestes autos o comum do chamado ‘som’ o qual é
todo ruído em estardalhaços e muitos decibéis e até algumas músicas populares
de gosto discutível pois não passam de cantos de cadeia... Expliquemos: sons ao
som da cadência em percussão de tambores freneticamente acionados e sem sequer
pausa rítmica para descanso de ouvidos porventura educados; tais cantos são
mensagens criminosas de presidiários e facções bandidas, segundo a polícia
insegura de nossos dias... De quê forma são expostas? dispostas como atitude na
altitude das montanhas a um público grosseiro abaixo do chão!
O
público é um grupo de crianças crescidas que riem por dopadas ou embriagadas na
droga e também no álcool (garrafas de uísque e vodca são encontradas vazias
depois) o álcool igualmente droga; havendo embriaguez primeiro a relaxar o
juízo e segundo a perder o medo que o perigo na atividade ilegal oferece. Visto
serem o que o mundo bravio policialesco apelida ‘aviões’, quer dizer
carregadores desse ilícito aos viciados por aí. Num dia, mesmo em frente da
casa dEla, um menino gritava na noite à turma “não posso ficar, preciso cuidar
do meu ponto” ponto de redistribuição de drogas! Não é deprimente?
Ora,
para tanto se drogam, decerto em início como oferta da casa pelos chefes (ainda
aqui um vocábulo provisório) e após os jovens se responsabilizam no passar a
coisa adiante, seja ou não seu próprio ponto...
Aqui
entra a irritação dEla. Porque embora não haja agressividade em não ser a das
expressões usadas ou no linguajar da gente do grupo, considerando que apenas um
garoto mal pagador foi morto com um tiro, nenhum mais exemplo de violência. A
verdade é a população presenciar uma algazarra digna de festividades mundanas,
sempre com as consequências conhecidas e banais, assunto e matéria da tevê de
hoje.
Os
vizinhos reclamam entre si.
E
a polícia, perguntam. Ora, um dia (contaram a Ela, Ela então no seu trabalho
portanto em segunda mão:) certo dia o Lunatiquinho aciona policiais. Quase
gasta os dedos digitando à delegacia por causa desses jovens afoitos. Não
vieram oficialmente, não fizeram apresentação à tevê a dar para ela o ‘ibope’
cobiçado e ansiado; tão só apareceu um dos policiais fardados – entrou saiu da
casa de presumível traficante ali na esquina; e completou a visita abanando
amistosamente as mãos...
Ela?
ah ficou indignada pela narração vizinha e pela coisa em si. Fica mais ainda
quando veículos dessa gente passa a raspar cantar pneus dos carros ou as motos
empinadas feito cavalo ensinado. Além é claro do ‘som’ no último volume nos automóveis.
Ela:
não pode que um passe por cima das crianças ou de um de nós adultos!
Pode.
Pode sim. E daí?
8° - O sol a
lua. Não: a Lua e o sol, a ser justo nesse lar onde Ela é mais Ela, ele ele
apenas. Mas um dado ressalta nessa gente trabalhadora e respeitável; não se
afirma respeitada porque nas condições da Boa Morte isso soaria falso: ninguém
pode exigir ser respeitado vivendo tão próximo dos jovens transgressores na sua
festa quase contínua... Contudo a casa anda, prossegue embora também e
sobretudo tolerâncias e intolerâncias internas.
Um
dado presente deles é a convivência quase anormal. Os pais saem a trabalhar
fora – dentro se faz por vezes mais ainda que fora e aqui sobressaindo a lida
dEla quando no lar sem descanso, o que dá algum choque com os elementos masculinos
e até os femininos mormente a Boa. Anormal pois não disposto como o comum papai
mamãe filhinhos na rotina; a rotina conflita um pouco nestes dias a lua estando
em vigor de dia o sol de noite: ele faz plantão noturno parece que num hotel,
dizem vizinhos hotel; enquanto Ela que trabalhava à noite, onde o Lunatiquinho
nunca descobriu onde – agora removida ao período diurno e... ah o lar! o lar às
moscas falam desempregados de língua solta. Assim a coisa anda, com o silêncio
de dia e o quase barulho de noite, tendo Ela retornado no fim do sol ou começo
do reinado da lua; é quando igualmente os filhos da volta do trabalho deles; trabalho
nos estudos no caso da Boinha ainda não empregada.
À
noite é quando se costuma juntar os membros, a narrar ou seu dia ou suas
mazelas, estas se unem aos problemas da família. É neste ponto haver, Ela
estando com saúde na boca, haver os bate-bocas. Ela entra em conflito frequente
com a Boa faz anos numas questões morais.
Aquele
negócio da Boa agir tomar decisões, à revelia da mãe e diante desta calar-se
não contando seus podres (Ela diz textualmente podres) e também confrontada,
diante dos berros maternos fecha a boca calando-se já calada – o que dá uma
como coceira lá por dentro dEla e ora, que diacho, se fala falando baixinho
agora: a bruta grosseira aí está, chegou a “perdida!” Comumente a mãe apenas
rumina sua raiva – a Boa quieta quieta! mas qual o quê: a mãe lê-lhe escárnio
no riso que não externa, no olhar que olha não vê, no respirar até no respirar
e assim a filha estaria ainda escarnecendo num fungar baixo nada manso. Em suma
a jovem responde muda na luta eterna, tal qual entre marido e mulher o homem
põe mulher-e-marido; ou na briga entre sogra e nora, aquela sempre pondo
nora-e-sogra na ordem natural das relações. É assim que Boa age: fala muda,
mudinha da silva – enquanto Ela esbraveja. Um dia extrapolaram ambas na extrapolação
da língua. Um dia? uma noite madrugada já avançada na qual cuida da insônia
Ela, ele ali também decerto a torcer que a filha tornasse logo num mais cedo do
mais tarde; aí por umas duas ou três da madrugada, os galos até já a dormir e
talvez os vizinhos, esses sim dormindo sua paz no silêncio em que os grilos cricrilam.
Chegara finalmente a Boa, o carro sabe-se lá se dum namorado ou doutra coisa
pior. Parou desceu entrou, quis entrar gritou baixinho “mãe” depois “mãe, a porta!”
Chega
Ela de roupão penhoar pijama camisola ¡¿ora
quem terá o direito em vê-los na intimidade ele em cueca do tipo samba-canção
Ela em vestes feminis de dormir, insoniando!?
Isso são horas de chegar? berrou seu normal de indignação. Pensa, antes repete
a indagação, pensa que esta casa é ‘p’(aqui elevou o som na alta baixaria, a
todos ouvirem e piormente o Lunatiquinho e sua horrorozinha).
Fez
mais um luxo aguardando a ansiedade e a vergonha da filha mais velha, esta a
implorar quase que Ela não desse, já provocado, o escândalo. Então abre de vez
a porta do lar doce lar. Imediato o silêncio no doce tão amargo da madrugada.
Não obstante orelhas afins e afinadas escutaram lá dentro o zum-zum em abafamento. Ela
“faça como quiser, e arque depois com os atos praticados; eu? ajuntou Ela –
encosto a cabeça no travesseiro e durmo em paz!”
Nem
dormiu, a insônia não permitindo; nem teve certamente paz, a paz em alerta...
9° - Contudo a
Boa é muito boa no que faz, afirmam colegas no serviço e nunca perdeu um dia de
serviço, isto palavra do patrão; ela ouve outros elogios sobretudo de colegas
machos pra valer e que apreciam seus dotes físicos e as características árabes
que possui enquanto as mulheres a se agradarem com o bom gosto dela no se
vestir e pelas boas relações que cultiva no ambiente, apesar das muitas
intrigas existentes numa empresa; ela mais sorri que fala diante discussões desnecessárias.
Aquela velha questão de ouvir outrem a narrar sem atritar com respostas duras.
Ora, isto agrada sobremaneira a gente. Mesmo, e até em razão disso, mesmo não
abrindo a boca só a sorrir e aceitar com os olhos, porque assim agrada todo mundo
e salva as relações sociais. Onde? na fábrica no escritório na loja, onde se
pergunta o Lunático não adiantando indagar esse desconhecido à Lunática pois
inventará na certa, onde? Não sabe toda rua Boa Morte. A moça destranca o portão,
faz um barulhinho manso, sai passa – orgulhosamente afirmam alguns se não todos
– passa e some na esquina, corre andando depressa ao ponto sobe no veículo e
deixa o exalar dum perfume também manso; sobe no seu ônibus, após desaparece à
curiosidade do bairro e entra no concerto do centro urbano, faz o que faz,
torna passa entra afunda no fundo de sua residência e vai descansar ou brigar
com a Boinha, visto não haver inventado a família outra conexão melhor entre
irmãos; porque ambas no mesmo quarto e a relaxadinha bagunça espalha cadernos
folhas materiais escolares outros, inclusive na cama da Boa. E a Boa,
adianta-lhe queixar-se com a mãe delas! não. Dessa maneira foge ao intestino do
lar doce lar, para só noutro dia empenhar nova caminhada da Boa Morte ao
centro.
Apesar
do dito e do dito pelo não dito sobram questões em problemas insolúveis ao lar
dEla onde ele também vive, embora não decida em não ser quando a bater o pé e
brigarem e mudarem as normas da família.
Nuns
tempos a Lua volta a iluminar a noite em seu trabalho, onde? perguntam, não a
Ela claríssimo. Enquanto os outros membros familiares se ocupam de dia e dormem
de noite como quase o resto da humanidade. Logo também Ela a mando do patrão,
por sua vez atendendo ordens da esposa “ah esses fracalhões” comenta a empregada
com outra no serviço; então Ela é devolvida ao sistema anterior: assim dorme ou
insonia à noite enquanto ele, aquele bárbaro, se levanta a fumar felizmente lá
fora e volta cheirando tabaco curtido e um pouco de álcool bem curtido
igualmente para o leito conjugal. Ela exerce seu trabalho durante o sol. Enfim
agora todos direitinho a dormir à noite, trabalhar no dia. O dia por essa razão
é na casa silêncio.
Num
lar onde crianças babás ou mamães na lida diurna é o som da normalidade. Que
seria normal? Bem. Não assim o silêncio cujo sinônimo mundano é a paz... A casa
calma, quieta; abandonada? Certa vez perguntaram se à venda se para alugar,
coisas desse jaez e ótima pergunta a vizinhos – tal a quietude na residência.
Aqui
é um abuso da linguagem e até da verdade visto haver algo lá dentro do prédio
em meio lote – a prefeitura aquela ladrona no dizer da esposa do Lunatiquinho,
os poderes públicos permitiram que se seccionassem o terreno e se construíssem
duas casas apertadas no mesmo lote; assim Ela e ele compraram ou alugaram, isto
não sendo da conta de ninguém, o imóvel já nesse estado, quando da arruaça da
mudança e do espelho partido em mostra de várias Elas cada qual não parecendo
Ela-original. Todavia o silêncio ali é o absurdo.
Isto
porque existe – não havendo caneta por mais inteligente e ladina que possa
desmanchar eliminar – existe Auau.
E
como existe... ladra horrores. Mais flagrante o latido alto ardido violento
mesmo, levando-se em consideração que Auau é uma cadelinha de raça miúda, de
qual ‘marca’ pergunta o Lunático, chuta-se uma raça vira-lata e fim de papo.
Não, começo. Ladra ladra ladra até cansar ouvidos alheios; não se cansa. Então
o estranho ou curioso vendo se é para alugar se está a casa vazia – que burrice
não percebe cadeiras peças de roupa estendidas a pingar secar usar depois! Tem
gente que faz perguntas de respostas óbvias. Aliás não há ninguém a responder.
Tem Auau indignada com tanto cheiro de gente – coisa horrível no pensamento
humano, que tanto agrada o cachorro da gente – como não ficar indignada.
Depois
se bebe água com a linguinha de estalar e se descansa a voz o gogó.
A
casa, os demais a trabalhar, a casa às moscas.
10° - Agora chega
um, a cadela em festa, abre ainda tataratando a porta – ela, não a porta de
ferro enferrujada a ringir não conseguindo tapar o tá-tá-tá da loucura da
motocicleta – ela já conversou latindo na sua linguagem de alegria e felicidade
a presença delinho; não faz tanto alarde com o pai, ele, e menos com Ela, pra
ela sorri seu cotó o rabo cortado aceitando a dona mas não sabendo donde virá a
cobra (isto linguagem figurada humana, na da cachorra a vassoura quando Ela nervosa...)
Perto da Boa sorri, sorriem ambas ama e cadelinha; todavia sem exageros,
desnecessários como são os exageros; festeja bem a Boinha que lhe afaga tira os
carrapatos dá comida vê se água na lata de goiabada no chão, quase sempre antes
do depósito do material escolar na mesa de centro, já entorna derrama substitui
água suja (uma vez a vasilha seca e a sede braba...) e imediato põe água, limpa
e fria. A comida? ora são restos da refeição da gente ou alguma ração; contudo
Auau espera, educada, a colocação do alimento olha agradecida a outra e quando
a Boinha sorri ou fala algo na embrulhada que os seres humanos proferem, então
avança no almoço na janta – sem a ansiedade e falta de compostura de bicho selvagem
guloso faminto: com classe.
Agora
chegam a moto e o rapaz em cima da moto. Desliga a loucura, ainda permanece no
ambiente um cheiro de combustível; elinho diz qualquer ao animal, este já
percorreu sua via-sacra de sempre indo lá nos fundos (para avisar a quem se a casa
vazia) torna feliz ao dono. Este faz o que faz, se lava por exemplo se troca
come e atira um osso de frango para a amiga se contentar mais que
anteriormente, liga a tevê vê o que não vê com o pensamento longe nas
encrencas, do escritório? indaga o Lunatiquinho, da loja da firma, enfim nunca
a gente pode apurar toda verdade nas verdades das coisas. Assim, um pouco
ansioso elinho, elinho liga de novo aquela máquina infernal e sai a tataratar,
não espantando a rua Boa Morte porque têm outras mortes noutras motos tão
barulhentas como. Auau não entende disso e sai antes, já conhecendo meses o
caminho a ladrar como que anunciando “o rei vai passar, abram alas!” ou então é
a motocicleta que sai louca e desesperada com o homem em cima e ela, Auau,
correndo atrás. Nisso se cansa, o veículo rápido disparou fumaçou sumiu no
final da rua entrou noutra rua no emaranhando de ruas e então ela, Auau, torna
à casa onde manda Ela. Agora uma surpresa já experimentada mil e uma vezes que
é a porta fechada pior trancada e que lhe adiantaria não estivesse ‘cadeada’.
Senta-se nas patas traseiras a olhar (não a fiscalizar como a doidice vizinha
do esposo da velha, esposo nada afirma Ela: ali tem é dente de coelho e igreja
verde, isto pouco ou nada importa a uma fêmea castrada de cão) a simplesmente
olhar aguardar que apareça outro cheiro bom de sua gente; inclusive Mamãe de
chinelo ou de vassoura engatilhados a cheirar gostoso. Espera espera na frente
da residência. Os carros os homens passam repassam e até outros cães para que
ela rosne ou ladre; espera.
11° - Espera
curta, logo chega Ela, nem vê compenetrada desgastada aborrecida a cadelinha. A
cadelinha festeja outra vez, mas sem grandes vozes, aprendera e tirara grau
máximo em grito em vassoura em chinelo. Penetra aquele santuário que é o lar, o
bicho entra atrás imediato, também aprendida a lição, entra depressa e vai se
refrescar bebendo na latinha.
Ela,
não a lata de água, Ela parece-lhe uma giganta; e é bem fornida, fora bela qual
a Boa, a intriga o ciúme a imaginação batem o pé que a mãe mui mais menos
desajeitada agora que antes, quando ele se decidiu pedir-lhe a mão, tendo
ensaiado mil vezes e se amarrando ao fracasso outras mil vezes até se encorajar
enfrentar o futuro sogro morto pouco depois da sogra, sogra dele. Então uma
formosura e ele um macho pra valer, ali os três filhos deles não cabendo
dúvida. Para Auau Ela uma brutamontes, com um ventre que não quis voltar ao
normal (que será normal?) isso após dar à luz Boinha; o rosto deformado por mil
pedaços dum espelho teimoso em mudança na qual todos mandam, e estragam, tais
pedaços mostram uma cara estufada com dois olhinhos penetrantes e uns lábios
levemente cobertos pelas camadas de batom os zigomas com pós e pós da rua
também, visto o centro urbano andar demais poluído todos falam fala Ela e aí
chega ofegante; espanta sem gritar a cadela e por fim entra na casa. Já desembesta
a fazer isto aquilo limpa varre examina dobra guarda para funga resmunga a
demora de Boinha. Ah em geral esta no lar quando a mãe grita na porta de metal.
Aí corre abrir e... ah parece ser a sina do imóvel porque o mesmo vício noutro
morador dessa casa antes deles comprarem alugarem (que é que o Lunático pode
ter com isso?) Sim, então cada um dos membros a chegar o grito, o dono berrava
poder e macheza por não ter chave a abrir o prédio: sempre alguém precisando
correr abrir quando não com o espetáculo desgracioso da discussão sem causa por
ter muitas causas. Em suma ninguém na família com chave. Agora a família dEla e
dele com o mesmo defeito ou vício mesmo: nenhum membro com chave a mexer na lingueta
da fechadura! ou é que um só tenha e se não chegar antes e a tempo? Justo à
pacífica rua Boa Morte ouvir o chamamento repetido de fulana ou de fulano! a
chave palavra mágica que abre casas... Ou se deixa a mesma na vizinha, a qual
fica com a incumbência guardar entregar a dita para quem aparecer primeiro. O
Lunatiquinho: isso é uma indecência.
Ela
não põe essas questiúnculas filosóficas, berra a Boinha; ou no fim das coisas
grita a casa ao lado, a qual vira ainda por cima nesse por baixo orelhas às
lamentações dEla. A senhora sabe, já contei outro dia, aquela piranha do patrão
nos solta mais tarde quando o bobo não está na empresa e aí... ai? são minutos,
desses que vão além dos cinquenta e nove; caso não precise Ela fazer confissão
de algo fundamental que certamente a Boinha não fez, ou sobrecarregada no período
das provas e outro dia levou vermelho, vê a senhora se posso aguentar pois só
vive para estudar... não senhora, não se dá a namoriscos e... bem passa da
marca dos sessenta.
12° - Visita de
conhecido-desconhecido e aqueles que amiudadamente aparecem que são os parentes
aqui da urbe e eventuamente os do sangue porém de fora, bem. Mas naquele dia
que lhe sopraram azíago e com um monte de problemas a esperá-la no trabalho na
firma (aquele negócio da louca abusando da autoridade sobre o esposo e, puxa:
sobre os colegas e mais sobre Ela! dose demasiada) e com tudo isso lá vem
visita oito horas da manhã, a gente atrasa e aí perde a condução em ter de
apelar à carona, ainda considerando seu espírito orgulhoso, era pra si demais.
Pois eis que surge uma visita valendo todos visitantes indesejáveis – o
Lunatiquinho. Imediato pensou bolou estudou uma forma expulsá-lo antes da chegada,
parecia um soldado alemão de Hitler marchando contra vítimas inocentes, pior
sua inocência. “Senhor Lunático, pelo amor de Deus, não posso atendê-lo, meu
ônibus...” aí consultaria o relógio (Ela
usa um de homem, parece um despertador grosseiro no pulso) olhe, oito passada
e... E não adiantou, já ouvindo a tossinha sequinha forçadinha do Lunatiquinho,
vizinho do número trinta e três ali em frente.
Senhora,
bom-dia.
Respondeu
desejou mau-dia não disse, reticenciou seu olhar apenas.
Pois
é, continuou o velho. É que o carteiro – sabe da novidade, temos agora um
‘vivo’ na Boa Morte? trocaram zé por joão, aliás não sei o nome do novo bruto
ou analfabeto. Deu errado pôs errado a carta certa da sua filha na caixa de
casa. Olhe, falou nada conciso o homenzinho, pus inclusive cadeado na caixa de
correspondência para os moleques não roubarem documentos e fazer com eles
aviãozinho e ainda ficarem voando nesta rua praguejada com traficantes e malhada
de drogados e...
Neste
ponto já fechava Ela a porta, dando duas voltas na chave, só Ela tem chave que
às vezes perde e ele também, ele esquece a sua no hotel e daí fica a chamar a
Boinha devendo esta haver chegado da aula; ah a menina pega a chave na vizinha
para após varrer a casa etc.; ou fica o pai pra fora, fuma um cigarrinho do
tipo estoura-peito e depois vai fazer hora para hora da filhota aparecer.
Acontece ter ocorrido oportunidades incontáveis em chamar a evangélica amiga
dEla e pedir a chave: contudo é tímido... a oposição usa como sinônimo de
timidez bobeira. Ah não vai ao caso, o caso é Ela guardando na famigerada bolsa
feminina onde cabe um montão e até a chave. Assim ou apressando o Lunatiquinho
ou se desfazendo da indesejável criatura (indesejável e asquerosa no pensamento
dEla) “com sua licença ou perco o circular.”
O
vizinho não ouve tanta braveza, mesmo porque quase tudo dito com os lábios da
mente aflita. Não escuta.
Pois
senhora Ela, é Ela não é? a carta de cobrança, não quero estragar-lhe o dia mas
é sim de cobrança... de cobrança entendo eu porque minha velha é um
despropósito como gastadora, me afunda, entendo de intimação a pagamento atrasado.
Esta correspondência veio em nome de ‘Ilma. Sra.’ – deve ser senhorita pois
não! sra. Boa da Silva... O descuidado funcionário dos correios pôs errado na
caixa certa, visto caísse em mãos infames dos drogados e dos moleques,
perder-se-ia. A senhora não acha?
Acho.
Obrigado (deveria concordar
femininamente obrigada). Tomou sem esconder no filtro da
educação e das normas sociais o papel tremulando qual bandeira da pátria das
mãos do Lunático, agradeceu de novo agora com mais raiva e sem qualquer ímpeto
de sinceridade e imediato marchou soldada nazista igualmente para longe dele; o
vizinho aparvalhado e de boca aberta, com sonhos desfeitos.
Os
sonhos quase milenares do casal do número trinta e três da Boa Morte eram
simples: atar (não reatar, isto não existe nesse caso) atar amizade, com muitos
bons-dias boas-noites como vai e aqui introduzir possibilidade de sugerir que
Ela contasse os podres no seu lar esquisito lar. Devendo este ser bem
suculento, a dar corda à conversa... Ainda virando a esquina rumo ao ponto,
correndo no passo apressado, Ela sumia. Outro dos sonhos, apenas secular
decerto, outro tanto quanto importante ao casal Lunático, era tê-la nas
amizades mesmo que formais: olá, como vai, tá quente, vai chover e outras
inverdades ou verdades tênues da realidade vista e sentida no bairro.
Os
sonhos acabaram.
A
prova é noutro dia Ela ao passar em frente da frente deles – ele ainda sorria
educação sem ir além nesse abuso manso – passar marcando o compasso com o
coturno, duro, nem sequer um formalíssimo bom-dia.
13°
- É possível manuscritar usando esta bela e charmosa esferografinha, sem temor
ferir a verdade no caso da casa trinta e três da Boa Morte. A morte boa do
morador e quase imediato também de sua parceira, conforme intrigas das muitas
oposições; e aqui de sobra drogados e traficantes e línguas sem a grande violência
apenas violentas na fala.
Arranjara
o Lunatiquinho mil inimigos ou somente adversários gratuitos na centena de
moradores duma via pública que um dia a prefeitura batizara por decreto rua da
Esperança, com placa e tudo o mais, que o
povo torcendo a verdade ou inventando a verdade passou chamá-la rua Boa
Morte. O que abuso da invenção, visto ter havido aí apenas quatro ou cinco
assassinatos pois o restante da baixa na população foi Deus que levou; e aqui
ninguém a discutir atos divinos. O morto vivo dizia que a rua espécie de
matadouro municipal, em discordância com a Lunatiquinha a se opor à oposição
dela, afirmando esta em discussão sine
die para acabar que não só raro havendo baixa e igualmente que a divindade
nunca mata, mata sim o homem ao homem e inclusive o homem vive a matar a
própria divindade.
O
fato é que o vizinho dEla, morador no trinta e três, morreu, morreu sem ser
assassinado nem arrastado esperneando ao céu em que não acreditava. Quanto à oposição
dele ela terá perecido no mesmo dia por entender faltar ter com quem brigar
depois. Um desastre duplo na Boa Morte, acabando assim com a esperança.
Ora,
o curioso desta situação inusitada, o curioso é Ela não ter sabido dos passamentos...
Não
foi bem assim, não pôde tomar conhecimento da morte durante esse fatídico dia,
somente à noite vindo saber. O coração fraco da boca forte parara às 8:15h; Ela
tomara a condução das 7:30h, levada mais cedo a conversar de homem para homem
com a mulher, a louca do bobo patrão dEla. Inclusive se dispondo a pedir de vez
a conta e acabar com a exploração (sugerindo que as outras colegas de serviço fizessem
o mesmo, que fosse a loja por isso à falência:) à falência quase levou sim o
seu matrimônio com ele – discutiram intimidades noite toda, não deixando sequer
conciliar o sono a Boa e até a Boinha, estazinha embora sempre com um sono de pedra;
elinho não se encontrava no lar. Discutiram feio, ele pegou pesado segundo Ela;
ele: Ela me fez em trapos, confessou ele a um colega no hotel, longe do
gerente. Saíra por isso mais cedo que o hábito a mulher, então irada e disposta
em não deixar pedra sobre pedra lá no serviço na zona central da urbe. Assim
partiu antes da tragédia.
A
tragédia foi contada pela vizinha evangélica de noite após sua volta.
Ela
se surpreendeu: morreu! morreram!! Teria, fosse hipócrita, não era era apenas
abusiva na língua, teria dito o comum “que pena” um santo homem e ela amiga de
todas horas. Contudo não sentiu doutro lado alegria por aquele desfalque na rua
sem paz, no impacto do primeiro momento. O corpo os corpos removidos às
lágrimas de parentes e amigos decerto e o número trinta e três fechado, um que
outro curioso nas imediações de plantão ali a dar informes possíveis para
outros curiosos e desconhecidos. No primeiro momento Ela ficou pasma e de
língua presa, a ouvir a vizinha narrar o infausto dia a remoção dos cadáveres e
lembrando também a visita sempre indesejável de policiais, indesejável aos
assustados e inocentes. Claro, presença das autoridades por falecimentos eivados
de interrogações, tão caras ao crime e à lei. Não chegou dizer a Ela entretanto
observando a vizinha outros vizinhos a chorar como fosse perda de anjos nesse
pedaço tão podre. Absteve-se a senhora de comentários sobre meras aparências e
ficou tão só na descrição dos flagrantes mais tristes. O que convenceu Ela, a
qual desejava ser convencida, mormente a equilibrar sua jornada no centro
urbano, pobre de vitórias e rica nas suas insatisfações.
Após
isso penetrou o santuário do lar doce lar, que o morto apostrofava esquisito,
entrou na casa e conversou nas próximas horas mansamente quieta baixo com os
filhos um a um a chegar; e com ele apenas o necessário e meio rombuda, enquanto
o marido ainda bicudo para os lados da esposa. E se falaram todos no assunto
principal daquele dia nessa noite, porém o fizeram à boca pequena; falaram do
que ouviram contar desse talvez crime...
14° - Não sendo Ela
uma criatura calculista fria ou só máquina de viver nesse convívio no bairrro,
segundo pensava a oposição cita no imóvel número trinta e três. Não. Apenas embebida
no peso avassalador dos dramas que enfrenta no centro e a suportar outro peso
no ambiente doméstico; neste pisa de general, enquanto no do trabalho na loja
não pisando pisada por considerada mequetrefe pela doida do tolo. Todavia em si
um ser humano frágil como outrem – somos algo no que mostramos, pouco no que
provamos – frágil sensível e mesmo sentimental. Semana antes do Lunatiquinho
ir-se da rua Boa Morte à avenida Saudade para morar com sua velha, flagrou esse
senhor uma cena inusitada. Aliás tudo vindo da casa em frente, Ela ele elinho
Boa Boinha e até Auau, tudo ao velho sendo inusitado; a coisa lhe marcou o ser.
Então
ocorrera ali próximo noutra casa um acidente ou incidente (e que isso importa
nas dores!) um garotinho fora mordido por um cão, motivo sem muita importância
à ideia principal destas linhas. O susto o sangue o grito e os curiosos a
acorrer apenas em curiosidade, mas quantos deles não têm coração ou só não têm
praticidade!?
Também
o morto então vivo foi como os demais salvadores à mãe desesperada e ao
filhinho a sangrar. Sangue, isso, ele sem coragem ver sangue; ficou um pouco
longe a observar, mesmo porque quando a gente nada pode fazer, o melhor mesmo é
não atrapalhar. Nisso espantou-se deveras, pois Ela abriu sua porta, onde
conversava com parente em visita, correu socorrer mãe e filho, desconhecidos de
sua timidez ou arrogância – aí mostrou iniciativa, a iniciativa que faltava a
dezenas de pessoas ali no acidente ou incidente: primeiro acalmou a jovem mãe
com palavras doces e ternas; e incentivou quase impondo como general que os
sofredores entrassem no carro do parente dEla; então ordenou que se levasse
ambos filhinho e genitora ao pronto-socorro. Presença de espírito.
E
se foram a esguichar sangue. Enquanto Ela, calada, voltou à casa, quase a gozar
seu domingo com os seus.
O
morto, vivo, diante desse imprevisto, não tendo forças morais sequer a comentar
em minúcias como o fazia anos à esposa para a esposa. Entrou no seu trinta e
três quem sabe a conversar baixo; ou a pensar...
15° - Dar-se-ia o
caso de Auau ladrar em inglês, visto seu nome importado gringo originalmente
quando veio embalada numa caixinha, mas ficou mesmo Auau por fazer muito barulho
em casa na língua pátria. Como agora num dia já a acabar o dia, a residência
trinta e três ali em frente de olho naquilo, quando um carro de muita estrada
na sua sujeira parou par a par da casa dEla. A cadelinha se desesperou não
apenas no avisar da chegada estranha e aqui negativo ao menos perigoso; na
visão de alegria também dela por a condução trazer-lhe o mano. É preciso convir
que um cão imagina os da família sejam do seu sangue e talvez da tradição;
inclusive Ela armada com chinelos e olhando feio pro lado da cadela, igualmente
por esta reconhecida como familiar; mais neste aspecto pois pensa decerto ser
Ela sua genitora. Então elinho desceu do automóvel – o barulho do som, som
sendo hoje todo o ruído em estardalhaço, o barulho ecoando tum-tum-tum compassado
e brabo dentro do veículo, impedindo quase ouvir-se apresentações – elinho
agora apresenta o amigo ou patrão ou superior ou interessado ou coisa assim à
sua mãe; a Mãe sorri interesse ao estranho ainda ao volante, enquanto a cadela
se desfazendo em agradecimento e alegria pela presença do irmão dela meses
longe. Foi aí notar-se uma faceta desconhecida da mulher vista por orgulhosa na
casa vizinha. Ela iniciou um falar alto (nunca soube conversar baixo inclusive
nos inconfessáveis segredos caseiros sobretudo naqueles entreveros
conjugais...) um falar que atraiu bem mais Lunático que outros vizinhos; bem
entendido: o velhote e demais vizinhos andavam a fazer um estudo sobre Ela e os
seus. Dizia, mansa e igual inocente e cativante criatura, dizia coisas impróprias
segundo a oposição vizinha, dirigindo elogiosas palavras ao estranho, de
maneira melíflua e suspeita, crendo-se forçadamente... a fim de quê! Ora bolas,
a enaltecer em política materna desejando através de elogio e engradecimento
alheio elevar o próprio filho no conceito de outrem. Seria, pensou sem poder
confirmar, seria a conseguir sustentação no emprego ao garoto, o qual entra mês
sai mês vive de expediente, enfim negócio precário!? O esposo também, ele um
dia foi flagrado a defender elinho no telefone a alguém, este decerto a
destruir uma imagem sagrada ao genitor, pois todo filho é caro a um pai. Agora
é Ela quem defende sua prole.
O
fato é que o som o tum ficaram horas alegrando todo bairro, a rua Boa Morte não
necessitando nada superior às suas farras também com tum e com som.
Aqui
no casal fiscalizante talvez em patrulha teria afirmado um membro ao outro:
durma-se com um barulho desses. Contudo o sr.Lunatiquinho arranjou material
para alimentar bem suas conversas dias e dias.
Além
do mais nesse menos vizinho, o som entremeava o chamado pop e o sertanejo, este que Lunático levando em conta a falta de
raízes apelidando aos próximos “sertanojo”.
Em
todo caso desfez-se um bocado a ideia arraigada no bairro de que Ela fosse um
ser fechado e orgulhoso.
16° - Agora Boinha
de certa forma entrou nos eixos, quase se tornou um membro efetivo do lar em que Ela canta. Sem ficar
totalmente prisioneira do silêncio na casa; mesmo porque se ouve fora dentro
quando a menina está uma vitrola ou qualquer semelhança a vitrola aperfeiçoada
pela tecnologia atual; além de ouvir-se ao mesmo tempo os sons exagerados e
extrapoladores dos viciados na esquina a ensurdecer a gente. Não nestes
decibéis. Enfim sons audíveis, certamente se coibindo mesmo esses parcos
avanços quando Ela em casa por qualquer motivo: no chamar atenção no ensinar no
brigar no dormir ou só descansar pois Ela reclama por seus anos a viver
insoniar. Além reclamar por um que outro utensílio a cair ou barulho de
qualquer máquina dessas que hoje abreviam e facilitam os serviços domésticos.
Assim agora.
Antes,
ao chegarem morar sendo estranhos em mudança e fora o escarcéu das brincadeiras
dos ajudantes nessa tarefa, antes a Boinha fora mostrar seus encantos e sua vivacidade
na Boa Morte, seu novo pedaço. Tentou com algum sucesso se enturmar com jovens
já calejados por moradores antigos quiçá de nascimento aqui. Procurou
conquistar e ser aceita também nos grupos adultos vários de senhoras tias ou
comadres, dessas que têm ao menos meio centímetro a mais na língua que o menos
entre os normais ou comuns, vários lhes cederam atenção. Claro o homem sendo
venal esperavam pagamento, como por exemplo o que se faz dentro dum prédio
cercado de paredes por todos lados menos o lado frontal à rua onde adormece a
cadelinha no gradil e na porta enferrujada; como é Ela, ele canta de galo! e
essa mana sua mais velha e de cara fechada, é Boa!? então o que faz a Boa
quantos anos tem quantos namorados tem, visto ver-se vindo mil carros
particulares e, convenhamos, nem todos devem ser do patrão dela trazendo a
funcionária... E a propósito, quanto ganha etc. e tal...
O
preço andava alto, o valor inflacionando o possível.
Assim
Boinha pôs sua viola no saco e partiu em viagem para dentro da cadeia; cadeia?
o nome daquela residência criado por Lunatiquinho à Lunatiquinha gargalhar.
Foi
pra cela e nunca mais por meses muitos ofertou sorrisos – esses sorrisos fáceis
em meninos – em não ser aos parentes e um que outro colega a gritar-lhe da rua
“Boinha, estamos atrasados, o portão da escola vai fechar”.
Saindo
os estudantes às carreiras a se gozar.
17° - “Ah... sim senhora, vou agora
mesmo...” Desliga o telefone, confere imediato se não deixou qualquer errado no
manuseio, os filhos usam o celular todo momento com facilidade, Ela apanha um
pouco da tecnologia. Na mesma hora grita enfurecida o abuso da patroa, olha
para os lados da Boinha único membro da família em casa Auau não contando
nisso e comenta braba. Aquela vaca gorducha atrevida e mandona, pensa a
fia-da-p. (aí rasga o verbo, não sendo verbo, como diz o povo) aquela indecente
que mande no seu chifrudo, vai lá! entretanto em mim, cheguei agorinha do
trabalho e a ordinária exige que eu torne e cubra e dobre o período da noite!!
Lá
fora a Boa Morte movimentada, todo entardecer assim: carros motocas gente a
gritar a passar ao descanso do serviço. Enquanto isso Ela? não tem descanso não
merece descanso. Olha feio para Boinha como fosse a menina culpada e vocifera
“pensa que sou máquina!” Daí chega ele, Ela desenrola novamente todo sofrimento
da jornada, expõe a exploração a que está sujeita, xinga os patrões aproveita
xingar a outra filha: a Boa fica nesse vai não vai, por que já não monta de vez
casa com o amante!? Acha também alguns errados no esposo ali atarantado com o
desabafo da mulher, critica a rua os vizinhos os parentes a prefeitura
relaxada; xinga de novo os patrões, em brados, investe alto, e neste ponto se
lembra agora uma evangélica, abaixa o tom, vai que a vizinha evangélica tenha
ouvido seus disparates... ele ouviu e a Boinha de sobra ouvira antes e escuta
outra vez. Encontra-se demais enraivecida com os abusos lá e cá, aqui diz andar
até ao nariz com a nora; curiosamente sob suas instigações “que diabo, dissera
várias vezes ao filho, ou você paga pensão ou traz de mudança a mãe do bebê
morar nesta casa” falara assim num rompante como a panela de pressão preste a
estourar. O pior nisso é que elinho trouxe mesmo de fora para dentro sua familiazinha
para atravancar a pequena residência dos pais e agora Ela não aguenta a nora.
Não vieram da cidade ainda e chegarão breve, elinho na motoca e a nora na
traseira segurando o neto chorãozinho, o qual não deixará com certeza mais uma
noite sua Avó curtir a própria insônia. Ora, dormir para quê! já já torno ao
trabalho quase sem ter chegado, a mando daquela exploradora abusiva...
Por
fim Ela fecha a boca, papai pretexta fumar, Boinha fica a sorrir; o filho chega
com a ‘namorada’ e o filhote. Posteriormente se separa da companheira vira
solteiro a tataratar sua moto como espécie de motobói a serviço da casa: ora levando
um ora outro, como levava a ‘esposa’ ao serviço dela; a carregar o pai ao hotel
a maninha à escola a mais velha ao trabalho e até a Mãe na garupa ao patrão
contentar a patroa – indo e voltando num vice-versa bom no seu contrário e
ótimo à confusão. Ou se transportando elinho mesmo às suas tarefas desconhecidas
(desconhecidas do Lunático quando vivo, por exemplo). Até na família brigarem,
brigarem inclusive por isso e daí usarem os membros ou caronas respectivas ou
ônibus de carreira com horários devidamente adiantados ou quase sempre
atrasados...
Nem
por essas razões ou exatamente por causa dessas razões Ela cala sua boca no
vozeirão a assustar a via pública. Propõe-se calar definitivo? Só a morte seria
o definitivo.
Enfim
esse o ambiente, que a gente só encontra na paz da Boa Morte e que registro
antes que me seque a tinta; cubro-me com a tampa, paro, parei, caneta preguiçosa.
Marília novembro
2012
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