Leona
“As grandes dores são mudas.” Fernando Sabino
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“Os
homens são cães: lambem os ossos do dia.” Lêdo Ivo
1° Capítulo
Um
capítulo do meio para iniciar, no encontro com ela... ela? Antes de mais nada é
preciso convir não existir personagens e até a personagem sem o autor, autor
aqui inventado por essas figuras esdrúxulas (os personagens é claro); a fim de
que as mesmas possam ser criadas por ele (é claro o autor). Todavia nisso
aparece novo problema novo drama que é a necessidade em haver, para que existam
eles (claríssimo autor e personagens) a novíssima tão velha se não como o mundo
antigo, a literatura; e ainda necessário mal é haver o leitor. Em suma preciso
ter o autor os personagens a personagem e o leitor. Mas onde a personagem!
Encontro a mesma na multidão, como dito já devendo ser no avanço do tempo no
meio da obra. Pois bem, diriam no lugar do autor criado por seus personagens,
diriam pois mal, após conhecê-la melhor; encontro a mulher perdida nos seus
achados achando-se no ponto de ônibus, na multidão dos seres indiferentes, cada
qual perdido no seu mundo, se bem que muitos entre o povo impaciente a
conversar. Que seria conversar? uma proposta a posterior destrinchamento que o
autor resume como viciadas doses de falação porém distante da troca de ideias
pela ideia preconcebida de só existir no mundo dos mundos o mundo de cada um e
este dispensar a maior parte das vezes a atenção do que venha da boca de
outrem; e assim afirmado afirmando não haver de fato conversa. Em todo caso a
grosso modo se fala nesse ajuntamento humano fortuito, fortuito ver-se-á em tempo. Andam todos
(eis novo abusinho na linguagem popular) todos em volta da personagem.
Entretanto não a veem... O que vemos quando vemos? nada, na melhor das
hipóteses quase nada, melhorando aqui um nadinha a afirmativa. Contudo tudo
poderia gravitar em sua volta e a rigor é o que acontece. Temos águas – águas
poluídas decerto todavia águas – as águas cercando totalmente a senhora.
Acabei, por imprudência literária, de amadurecer a personagem, sem antes
nascê-la batizá-la registrá-la crescê-la para depois envelhecê-la e quase
matá-la; isto quase acontecendo porque um automóvel com álcool no bucho tirou
uma fina (linguagem do povo, bárbaro) passou o veículo enfim a raspar o magote
da gente em volta da personagem, todos ali a esperar a condução coletiva; a
qual em dia de sábado, e domingo sendo pior menor o número de ônibus e a espera
portanto maior; em sábado aguardamos mais tempo que no tempo gasto na semana,
se bem que nos horários de pico tenhamos carros reservas a aceitar excesso da
gente trabalhadora indo à casa ou vindo do lar ao centro desta urbe pequena sim
e se pensando grande imensa até quem sabe aos destinos do orbe e não passa de
cidade de médio porte sem que o bairrismo pense nestes termos. Enfim todos no
aguardo, todos em torno dela; mas curiosamente parece-nos e parece com certeza
para o autor não olharem pros lados dela... Não; isto absurdo porque justamente
estão pondo a mulher na berlinda. Se não, sim o autor. E o santo nome dessa
vítima da sociedade! Leona, pronto, ei-lo. Por quê? Este um dos porquês desta
obra, apressada poderiam falar, com protesto do autor, decerto com restrição
igualmente dos outros personagens no texto comprometidos. Antes que seja tarde
o esclarecimento no protesto autoral. Não pode ser uma vista rápida visto o
autor, aquele, este, o autor já haver-se encontrado anteriormente com Leona por
51 vezes, o que dizem boa ideia, bem antes do poder chamá-la Leona e esta 52ª
vez, agora no meio da turba, quando exatamente alguém conhecido parente vizinho
colega ou amigo a gritar-lhe por esse nome. São portanto 52, o que não é pouco
num encontro reencontro (e diga-se a fortalecer a verdade:) nenhum desencontro!
Sim merece ponto de exclamação; visto os seres humanos, nessa caminhada que é
de todos nós, não terem e ele-autor especificamente se chocado entrando em
conflito com tal personagem (admitamos reclamação em protesto dos outros
personagens pela afirmativa, ou enciumados ou apenas desconfortados e confusos,
porque a verdade confunde antes de contundir e anular a mentira ou somente
imaginação exacerbada da realidade). Trocando em miúdos, o autor é um dos do
povo próximo dela e também a sofrer esperar desesperar na possível – isto uma
ideia terrível! – greve ou só paralisação da empresa circular e aí,
perguntamos, como voltar ao ninho!?
A coisa posta olhamos na direção de
Leona. Ah sim, por quê? Não do olhar – e ver e sentir e sofrer e tentar
compreender esse exemplar em exemplo. Não. O
porquê do apelido Leona. Se fosse forte, a fêmea do leão é leoa, não é? então
não é. Alguém lembra o alvitre Leonilda outro Leonilza outro ainda Leôncia que
o povo abrevia junta reduz deforma transforma e informa errado por alcunha. Em
todo caso, ela da casa dos Silva, Leona Silva. Entretanto isto é inexpressivo
como o leitor paciente verá na descrição da personagem, irmã, confrade ao
menos, pois tanto ela como outros personagens bem como o autor tudo criação dos
personagens, os quais vimos criaram-no para que o autor os criasse e criasse
por sua vez você, leitor.
Capítulo
2°
Abordagem
topográfica da área restrita. Sim restrita acanhada difusa um pouco tendo em vista
que ajuntamento de gente decente ou displicente se mexe se move se atormenta
atormentando quem vê a área e assim sendo difícil, não impossível, contar
apreciar até ao renunciar, no caso do autor (o leitor não, o leitor num
camarote sofrendo embora o sofrimento do autor ou se rindo dele) no caso do
dito autor ao qual direcionemos convencionemos um nome aqui em referência
apenas: Três; portanto na criação o chamamento Um a Leona, lembra-se? leitor;
ela Um, Dois você criado pelo autor o qual criado pelos personagens; o autor
então despencando a criar, após, os personagens da obra. Enfim no caso do
autor, ele observando o vaivém dentro da área restrita da gente a esperar
condução debaixo de uma quase guarita em guarda por exígua em tamanho mas às
escâncaras na beira da rua movimentada; lembra o carro doido alcoolizado
tirando uma fina no público acanhado! garanto autor por pouco não atinge certa
mãe ali com pacotes malas compras a tiracolo e à tiracolo o seu nenê, o
qualzinho se assustou gritou chorou mesmo sem haver entendido o perigo iminente
– tudo isso a espantar o povaréu no lugar aglomerado a esperar ônibus, decerto
este certo no errado da paralisação contentando trabalhadores grevistas
descontentando trabalhadores passageiros desejando ir pra casa temendo não ir
pra casa. Estamos portanto assim reunidos em volta de Leona e vivendo um
ajuntamento quase sem vínculos por esparsas e desataviadas as pessoas ali,
ali sob as vistas de Três. Três é muito
povo, povo é muito bárbaro, bárbaro no sentido de bruto de grosseiro e sem
opção. Claro, quem besta tanto para se pôr bruto e ignorante nas sabedorias?
Porém Três, por povão, se conhece por Treis, quem sabe a abandonar o chapéu
circunflexo no desuso do chapéu de antigamente assim como a fêmea da espécie
hoje abandona de antes a sombrinha. Aqui suposição o que interessando mesmo é
que o brutinho se pensa registrado no cartório Treis, Treis da Silva seu
criado. Perdão oh Dois pela brincadeira; prossigamos na obra séria. Dessa
maneira temos um aglomeradinho a esperar ônibus; e não virá essa... um avexado
xinga o veículo, devera ofender o empresário o qual joga contra o povo seus
funcionários inquietos com pouco ganho, joga os pobres em cima do povo ao
anunciar na janela dos seus ônibus que não aumenta o salário porque na cidade
xis a tarifa é 2,90 e aqui só 2,30 e ainda nesse por baixo a câmara não cede
e... bem quase exige que os subordinados encostem o circular e deixem o
passageiro em ver navios, não literalmente visto verem a rua, uma avenidona
movimentada com carros de passeio burgueses a disparar e aí vimos quase um
deles fazendo o gurizinho berrar; quase não: quase atingiu sacolas compras mãe
e o filhinho, este que de fato fez um escarcéu danado a chorar incomodando
pobre gente a esperar pela condução aflita, aflito o povo. Então nisso entra o
autor, aquele grosseiro Três se bem nos alembremos, o dito cujo a olhar, Leona
é claro sim, mas claro também vendo o povo. Dá uma olhadela no tipo
topográfico.
Sim, percebendo a topografia do lugar e
a gente insubmissa ou paciente no aguardo e no aguardo relembra por associação
de ideias e de sentimentos exatamente a beleza da topografia da Guanabara,
demais conhecida e vista e registrada na mídia; suas linhas, suas curvas, suas
saliências e reentrâncias, o mar o monte, montanhas ares e mares. A relembrar
também a escultura da natureza no nordeste mineiro em seu extremo quase baiano,
onde o Criador nos deixou como fora um gigante gigantesco na enormidade a
atirar num adversário agora criado a abusar da pré-história pedras de todos
tamanhos sobressaindo as colosais em todas formas! Ali, lá naquelas lonjuras só
atingidas ou pela memória ou pela imaginação ou pela ideia de tempo – ficou um
campo de guerra santa em que as formas criaram a beleza extrema com sua
topografia no reflexo do sol, seco sim árido sim quente sim mas belo
integralmente belo para um simples registro de um mortal insignificante num
livro ou foto ou vista direta em campo, mesmo que por um grosseiro bruto
ignorante... Ou ainda na pior dessa melhor hipótese relembra a paisagem que
cerca esta urbe de médio porte se pensando embora grande, pequena e igualmente
bela. Seus contornos geográficos num mostrar vales e montes circundando o todo
como o ali restritinho em povo aflito esdrúxulo inclusive, reunido a esperar ônibus
(e não viria logo! e acaso não viria!?) Assim vendo decerto como todos em volta
dela; dela? Leona... Enquanto, Três percebe duas jovens – ora, duas não é
pouco? e aí depende, uma pode satisfazer que dirá duas delas e quem sabe mais
de duas... – as tais andam igualmente na espera da condução. Seus olhos, olhos
do autor, comparam essa nova, porém velha como o mundo, essa nova linha em seus
belíssimos contornos na topograafia restrita sem restrição (quem poderá com a
liberdade poética?) São duas, uma é pequena como em geral pequeno o ser
feminino em tamanho mas grande em beleza. É morena, isto recurso pra não se
tocar na cor da epiderme e ocasionar crítica acerba desnecessária e
discriminante, enfim de um baio de pele branca, escura pelo trabalho do sol em
raios constantes incidentes marcantes a embelezar a moça. A moça de pé em
aguardo no aguardo de coletivo, circunspecta quase, olha pra lá pra cá nem lá
nem cá ônibus, sim os carros burgueses loucos passando e nos espirrando lama e
a água, água a cair sem parar no chuvisco que não para, para só o circular
parece-nos; a grita é geral agora, agora se avoluma na insatisfação do povo ali
acuado em aguardo, aguarda ela bela morena parada estática mesmo porém logo se
mexe indócil, indócil não por mostrar sua beleza: uns contornos delicados em
sinuosidades perfeitas (pudesse em sinuoso, pode ao poeta tudo pode pode tudo
no todo) e se cansa de olhar não ele ela. Aflita quase se mexe se agita mais e
se encosta por fim na trave de cobertura do ponto da circular cansada a jovem,
os bancos todos ocupados e a gente a disputar lugar no espaço restrito
aglomerado que enche incha cresce no tempo de espera, ela espera e se movimenta
quase imperceptivelmente, é preciso algo fazer, daí toma o celular, a
maquininha de bordo em computador maluco reflete seus ícones, ela preme com o
polegar belo esmaltado pintado o estado de mudança, muda seu mundo no mundo que
vê e vive e sente e cobre cobrindo seu mundo e assim conversa embora de lábios
cerrados mudos com seu particular mundo, interno ao exterior; por fora exibe a
topografia de seus montes, a outra tem quase montanha e mares e oceanos talvez
a sobrepor à planície e ao deserto ali em roda; ela não: é monte é linha é
desenho bem configurado numa pintura que mostra uma área mais restrita no
restrito acanhado do povo calado ajuntado envergonhado quase no quase eterno de
espera em aguardo à condução que não vem. A condução nem cheira nem fede diz o
povo simplório, todavia elas cheiram exalando seu perfume, leve mas penetrante
dela morena de pele na sua beleza topográfica sem exagero de sinuosidades.
Enquanto a outra moça bela mais bela um pouco fosse mesmo à poesia e à poesia
tudo pode – um pouco mais, bem mais pensando o sentimento. É pelo menos mais
cheirosa mais branca ou menos escura porém irriquieta, anda em vias de reclamar
em altos brados a demora, ou no relembrar compromissos, ou compromissos que os
grevistas agora desconhecendo, não desconhecendo o reloginho escuro no seu
pulso branco, tão branco que os pelos quase imperceptíveis a refletir a
claridade meio filtrada desde o chuvisco lento firme paciente, paciente demais
aos gostos, preocupados todos ali com espirrados detritos atirados em todos
democraticamente por veículos céleres celerados burgueses fazendo gracinhas às
vezes no grito dos seus sons (o povo diz som ao rádio aberto aberrante em
músicas ou loucas ou santas a desburacar orelhas dos outros e quase sempre num
baticum como que um bate-estaca a enlouquecer até quem já louco...) Assim vê
quem vê, vê o autor e os personagens, e por que não dizer o personagem leitor,
caso não já enfastiado pela descrição duma topografia que ressalta inclusive
duas lindas jovens, as quais uma com pouco mais de vinte e cinco outra com
menos ainda. Contudo tem mais.
Muito mais. Tem a corja masculina e tem
os envelhecidos que pra si ou ao consumo externo vivem sem idade sem beleza e –
diriam os que não sabem por saber demais – sem sexo; sexo definido, isto
definitivo além da permissão.
Elas se movimentam, decerto impacientes
ou ainda mais impacientes que anteriomente pela condução tarda falha ou falta;
assim ainda mais elas oferecem se não ao público e à vista geral o geral da
topografia para o autor, também ele paciente ou se enganando na impaciência a
tapar o sol com a peneira no dizer popular na espera de ir quem sabe pra casa,
assim como Leona, Leona ali no centro esquecido quase diante tanta topografia
da beleza feminina, que se sabe com categoria um conjunto de montes mares
celestes na terra naquela vista... Embora tão restrita tão pouca tão curta tão
em desagrado na impaciência geral. Ora, a impaciência desde que o mundo é mundo
é totalmente cega.
Capítulo
3°
Ali naquele mundo cheio de mundos, em
que chega mais e mais gente filtrada da chuva e a passar por entre carros ricos
burgueses apressados despreocupados na lama que nos espirra sujando a todos
indistintamente; mais e mais chegantes vindos assim de todos lados e doutros
mundos sim mas sobretudo dum supermercado quase hiper que os abusos tacham shopping center a querer modernizar
contemporaneizando uma cidade pequena enorme no desejo, porém de médio porte.
Vêm todos, todos sobrecarregados. Embora a lei proiba sacolas plásticas
poluidoras do meio, no ambiente passam sacolinhas menos poluentes dissolventes
no bucho do solo e estas vêm assim mesmo abarrotadas de compras miúdas (decerto
margarinas bolachas gorduras zero-qualquer-coisa, coisa pouca ao bastante do
atacado comercial) isso aos que se anunciam pobres, ricos nos automóveis de
luxo abarrotados também com suas compras e mais margarinas e mais bolachas e
mais gorduras, e mais coisas poucas. Em suma os que andam – os pobres e os que
assim se dizem a ressaltar em meio à maioria de periferia para onde se vierem
irão os ônibus da circular – os que andam atravessam a rua a lama a gota a chuva
a pressa e vão chegando apinhando se ajuntando com seus apetrechos misturados
ao guarda-chuva aberto a respingar nos outros, para se anexar também à área de
espera no ponto, em ponto já de explosão... Nela a turba, restrita em área
apesar, a turba ajunta se junta formando quase um novelo. E nisso espreme Um,
Leona; Leona encontra-se quase escondida agora, notada embora não só por Três,
que se homologou no costume popular em Treis, Treis da Silva seu criado. Está
comprimida, ele não ela, claro. Ele entretanto a observar a insatisfação dela
quase declarada; não obstante um sujeito cerca seu porte de pouca envergadura,
ela misturada comprimida no meio da turba e mais ainda levando em consideração
seu estado e seu estágio no mundo dos miseráveis; a miséria exposta não tanto
nas finanças num país que é paraíso de banqueiros e corruptos entretanto
miséria no ser, um ser que teme moralmente em ser ser... E aqui ela entra;
entraria no meio da obra já sem ponto avançado porém os personagens criaram o
autor, o autor criou até você Leitor, Dois pois ela Um, o primeiro personagem
criado pelo autor; e os outros personagens que têm aparecido ou que virão, caso
você permita, lendo, que existam. Sim aqui é hora de entrar Leona. Adelante?
Capítulo
4°
Leona olha talvez em desagrado Quatro ;
quatro um daqueles facínoras (ora o que não imagina o homem comum vendo um
outro desconhecido!) exato, um daqueles seres ferozes do exército masculino a
rodeá-la. Claro haver mulheres, mulheres de todas idades, tem uma grávida,
acintosamente grávida daquele tipo de gente que a barriga quase a estourar para
frente a gente paciente impaciente temendo uma luz naquela escuridão que é a
espera do circular e todos ali se espremendo fugindo à chuva debaixo da
cobertura acanhada parecendo guarita e pode que nem todos a esperar, a espera
tão só parar a chuva e a chuva não para, assim uma frequência de quase inflação
inchando o ponto de ônibus, por azar dos sem sorte fincado em frente ao
supermercado e dessa maneira aparecem pessoas mil, mil e um pacotes e sacolas
de compras e mais um e mil objetos e instrumentos e utensílios que não se larga
hoje em dia como as mochilas, algumas destas a estourar nas costas pobres dos
pobres ali. Ali ela, Número Um, a olhar uns maus olhos, olhos maus que a
veem... e por que veem?
Leona escorrraçada desgastada
desprestigiada pisoteada acuada amargurada inferiorizada envilecida envelhecida
antes do tempo de envelhecer, Leona geme no meio...
Tenhamos calma, não atropelando com o
carro os bois... Visto que ainda sobrarão daqui para frente mil folhas a pintar
Um, Leona.
Aquela disputa desvantajosa entre
concorrentes apinhados debaixo do guarda-chuva em guarita como ponto de ônibus
(e será mesmo que os funcionários vão atender os patrões, na sugestão de entrar
em greve e a gente como ir pra casa!): aquela tem outros agravantes fora os
respingos dos pingos gelados de chuva, uma que São Pedro ainda nos manda aqui
pra baixo; fora também respingos da lama fedorenta que desaforados carros
alcoolizados atiram na gente sem dó nem piedade, aliás isso estranho... isso o
quê? os autos particulares vez que outra zumbindo o motor importado vistoso e
de várias cores terem eles piedade da gente passageira indócil quiçá
desesperançada, por não vir nenhuminho circular. De fato tem mais problemas.
Em meio ao trânsito doido nesse doido
dia de greve, no meio dos carrões e carros apressados, entre meio vêm as
motocas. O povo apelida moto e motoca, daí motoqueiro, as antigas motocicletas.
Umas inclusive são bonitas, belas não: isto atributo delas belas e belas topograficamente
afirmando. São até bonitinhas, embora lamentavelmente alcoolizadas e drogadas,
quem sabe empregadas muitas no tráfico de entorpecentes ilícitos; o que nunca a
gente prova nem prova a polícia. Contudo elas passam em disparo nos seus voos
rasantes, uma que outra posta como se diz mototáxi; então caminham nessa
loucura do trânsito atrapalhando o trânsito, apressado sim, confuso também. Daí
se acercam dos fregueses aflitos – não, não ofereceriam o serviço a levar pra
casa à Leona, se é que a notam... notam sim, ela notável negativamente notável
– chegam devagar, ouvidos atentos, vai que alguém tapeie a greve e se lucre
alguns reais. Leona não concorda, com a possível antipatia do motoqueiro! não,
não concorda com a concordância. Outro dia mesmo, estando a comprar não sei o
quê e isto sendo noutro hipermercado, não aquele agora ofertando concorrência
de fregueses, clientes falam, e mil pacotes no enroscar a atrapalhar a espera
na espera do coletivo, por quaisquer cargas d’águas emperreado e os
passageiros... Os mototaxistas e suas valentes (ao menos barulhentas em nos
ensurdecer) suas motos de aluguel olham cobiçosas. Uns passageiros nem indagam
sobem já de vez a cavalo na garupa, põem capacete como exige a lei e somem
amenizam a concorrência, diminuem na estatística os desesperados molhados
atrasados espalhados aguardantes do circular. Como dizia, Leona não concorda é
com a concordância “dá um real, não não, disse fanhoso; dá logo de uma vez dois
real” e o moço que pesa fruta e batata aos fregueses, também concordou na
discordância como comum no homem comum.
Naquele dia... qual dia? parece que
terça-feira por haver feirinha com preços abusivamente baixos a atrair a
clientela, naquele não teve sorte seu azar de pobretona. A rigor nunca subiu na
garupa duma motocicleta nem mesmo na dum cavalo e cruz-credo na da besta porque
mula coiceira até a atingir a alma que a gente não vê e a burra tenta acertar
esse errar. Não foi feliz porque deu com a mão para chamar o motoqueiro que ela
via noutro lado da rua, decerto iria pra sua casa e ainda a pé (ela como os
caipiras pronunciam “diapé”) a pé sendo um trecho longo longe o seu lar.
Todavia o moço sorridente pelo próximo ganho fechou a cara já perto de Um: dona
estou comprometido com outro freguês. Isto provável prontamente perdoado pela
eternidade visto a mentirinha poder salvar, inocentemente, mesmo uma
civilização. Não restou outro alvitre à senhora, foi no pé-dois, mancando um
pouco, a carregar os embrulhos; inclusive porque hoje a lei veta e veda o uso
de sacolas plásticas poluidoras do meio; assim se foi a pobre com embrulhos de
papel, não indignada, porque têm as mentiras que são o suprassumo da verdade,
porém entristecida.
Capítulo
5°
O autor, Treis da Silva seu criado, põe
na cabeça a propósito de mais esse fracassinho – miúdo para quem tenha aos
montes os grandões – fracasso de Leona; põe um drama de esquecimento da
lembrança não satisfatoriamente apurada que é se era essa a 49ª ou 47ª vez do
seu encontro com a personagem principal. Notar sabedores todos e inclusive Dois
que lê esta mixórdia todos sermos criados pela mente do autor, este inventado
pelos personagens, que o criaram a fim de que fossem nascidos eles mesmos.
Leona o mais importante desta obra fora por 51ª vezes, a boa ideia? fora vista
cinquenta e uma vezes e agora naquela angústia da confusão na espera e na
paciência contra paralisações mais, sendo 52ª. Seria, se pergunta o lunático,
seria a 47ª seria a 48ª. Mas o que isso vem ao caso se em cada encontro do
desencontro a acumular mais sabedoria mais experiência mais galardão para
retratar a infeliz.
Isto posto advindo
encontros-desencontros, o alinhavo dessa vida; ou somente da existência nessa
vida. A gente nunca de fato tem o alcance de toda uma vida de um ser, mesmo o
ser sendo a gente mesma. Portanto seria desfaçatez falar em termos categóricos,
como a gente transformada num deus. Quer dizer que somos autor personagem
personagens e leitor, Dois, somos forçados a julgar, pior fosse prejulgar, a
compreender enfim apenas as parcas dezenas de anos de uma existência,
teoricamente aqui uma existência pobre marcada massacrada dessa desditosa
figura...
Dos encontros aqui lembrados o autor
ficou no seu conjunto penalizando-se. Se a gente estuda uma qualquer, nisto
tomada a existência por vida, digamos de uma bela jovem cheia de brilhantes
montanhas na topografia; e por isso tendo o povo de um país em vê-la bem em
ressaltar seus encantos e predicados de miss
e aqui já abusando nas classificações inteligentíssimas (o povo acha correto de
o incorreto ser burro por feio se não asqueroso...) e ainda por cima elevando a
moral da bela aos píncaros; fosse a pobre pobre por feia e até desfigurada:
ridicularizada como ser mau!
Dessa forma sobraria o que à Leona sendo
posta, com justa razão, abaixo da linha da feiura...
Pois neste ponto paramos um pouco a
descrever como possível, sendo nós todos seres limitadíssimos, a figura da
senhora.
Não me cabendo alguma culpa – diz
trepado em cima do muro qual o centro político – não me cabendo se um dia fora
Leona se não bela e por que não dizer uma gostosura! se não bela passável em
menina em moça em (isto possível por que não?) em já uma senhora. Visto serem
muitos os exemplares de mulher casada passada até com beleza; então a gente
fica num descuido pronto para notar alguma aliança no dedo da mão esquerda;
momento em que parabenizamos mentalmente a sorte do feliz consorte da boa; isso
porque não deixando ter aos olhos públicos linhas formosas atração acintosa
inclusive. Ah pobres dos corações sentimentais masculinos...
Com
tais digressões não se candidata autor, diz o autor candidato, enfim não quer
desviar a atenção do leitor, realçando a bela contrapondo Leona, a feiura, a...
Ora, tenhamos coragem: a monstruosidade
dela.
Numa das mil e uma vezes, terá sido a
7ª? Três flagrou Leona na sua integridade, na integridade das formas. Nós,
seres humanos, somos formas, figuras contendo atributos ou particularidades
individuais que nos distinguem das outras pessoas e Leona também uma forma, a
forma que se apresentou diante do autor – se indaga não assustaria o próprio
leitor! Estava a senhora na calçadinha em aguardo de ônibus, não como guarita
espremida mas um ponto simples, simples pau fincado no chão em cores da empresa
circular, ali a rua com seu trânsito, o trânsito com sua confusão, a confusão
nos seu desentender e vento e poeira e ainda os seus desencontrados de motores
e buzinas e o barulho de rolar e exalar cheiros de combustível dos veículo.
Então meu ônibus, diz o autor ainda ferido pelo que viu... O coletivo parou pegar
a passageira, passageira, Leona, sozinha, diria a melhor machucar “e mal
acompanhada”. Fez proft puft plá de parar abriu portas aguardar que em
dificuldade a infeliz subisse, subiu, sentou-se se aboletando num banco da
frente. Ela considerada deficiente físico, poderia afirmar psíquico? ela se
ajeitou. Daí fez o que fez sempre e sempre fez e sabe-se lá se não se portando
assim frente a oposição antes disso não sabido pelo escrevinhador, sim tudo,
todos: é oposição à fraqueza e debilidade dela. Encolheu-se no seu eu; uma como
“me dá licença em existir?” tentou esconder-se embora na berlinda.
Horrorizei-me, narra Treis, horrorizaram-se os outros passageiros em volta da
passageira: ela tem gratuidade legal por deficiente físico, tal um idoso que
mostra na saída ou entrada como dinheiro fosse a carteirinha de identificação.
Não pude deixar observar esse efeito sobre o motorista, o cobrador passou desde
aquela chocante entrada da passageira a fazer micagens semelhando a linguagem
de libra entre surdos, por trás da pobre que não percebia a gozação;
correspondido pelo chofer e um que outro passageiro mais chegado e que por isso
com direito a pichar outrem embora usando a mímica, e a falar quando fala pelos
cotovelos... Todos, literalmente todo mundo abismado com o fenômeno
extraordinário próximo de si, aquele abuso visual; um abuso em que o abusador
nunca certamente aceitando, pois é duro a gente aguentar a gente mesma, quanto
mais nos flagrantes de defeito ostensivo. Têm os não ostensivos que guardamos a
sete chaves em nosso interior, como Hitler, devendo ter mil outros mais que nós
os homens comuns e não percebemos; os nossos políticos devem guardar não só em
suas cuecas seus defeitos, escondidos. Mas em Leona o interior aflora flagrante
e ostensivamente ao exterior, pela exteriorização do ser...
Se enclausurou em seu lugar, quase dando
pra notar o esforço hercúleo da leoa ferida nesse exercício. Assim mesmo todos
vimos o que vimos.
Mais o autor viu, por traquejo na arte
de observar as falhas humanas e isto nos leva crer que um escritor tenha ser
necessariamente sofredor. Você não pode remover o sofrimento de outrem, mesmo
esse outrem seja o próprio e dito Três.
Era certa mulherinha magra morena arcada
encolhida implodida, imediato podendo notar a infelicidade que os débeis, os
débeis com alguma inteligência e muito sentimentalismo, devem exprimir. Era um
negativo feito e apresentado como mulher, solitária. Era um fisicamente medonho
deformado impreciso incapaz, tolerável e tolerada!? Eram braços pernas mãos
desfigurados como derretidos fundidos em si mesmos e com certeza inferiores
diante da normalidade da gente em ver no comum observar. Era um rosto
ostensivamente horrendo! Era como alguém que fora pelo senhor dos mundos
atirado ao entulho do vazio de inferioridade do buraco dos atormentados e
dementados como peça defeituosa por imprestável; marcados pra ser o não-ser.
Era, parece, a criação abusou da força e por isso acertou-lhe um soco
gigantesco da gigantesca força no rosto se rosto. Era um afundado nas
saliências e tudo a virar reentrâncias de qualidades duvidosas. Era, não era um
nariz para fora para dentro. Eram lábios leporinos asquerosos e contrários ao
beijo do amor. Eram uns dentes partidos carunchados ausentes uns, presentes os
defeituosos, e nisto vêm outras coisas ou anomalias supostas como o mau hálito.
Eram bochechas que se negavam, viradas para o interior da face e não a rir pra
fora em alegria. Eram
uns olhos de gritar pavor, de lacrimar a existência, de sofrer o sofrer não
mais que o sofrer! Era embaixo o queixo ponteagudo a gozar os outros defeitos
de fabricação. Era um resto no restante com epiderme manhosa teimosa porosa,
grosseira e com rugas, as antecipadas que só respondem presença à chamada do
sofrimento.
Era isso nessa 7ª, seria a sétima vez?
que Três viu de relance e após minuciar por próprio do seu métier nesse tal encontro, o qual não terá sido chocante a um
desconhecido? Um, ela desconhecida conhecida pelo senhor Treis da Silva, seu
criado.
Capítulo
6°
Agora – estamos todos nós fritos,
comentam os pessimistas – agora espremidos qual sardinha em lata ou com medo do
chuvisco, o chuvisco parará com certeza; ou somente teimando a greve do
circular; vivemos nossa expectativa, expectativa tendo também Leona, não
exprime o pensar mas expectante tanto quanto. Agora já me acostumei, ah quanto
abuso de linguagem pois não se aceita nunca uma visão tal qual agora vejo-a no
meio da turba neste encontro-desencontro que forço como sendo o 52° sem nenhuma
boa ideia, antes que isso todos querendo pegar os funcionários da empresa
circular, deveriam sim espremer o pescoço do empresário chegando à reunião no
seu importado e observando a matracação e impasses dos seus subordinados,
sequer alembrando o povo aguardando ansioso nos pontos. Agora, qual fosse um
alívio um presente um maravilhoso e enganoso acontecer, agora aponta lá no fim,
na curva que faz a avenida Tiradentes, que passará regateira ou curiosa a olhar
o ajuntamento na guarida lotada de gente de chuva de pacotes de mochilas e de
apreensões, vem lá um coletivo! Quase temos coletivo uivo do viver vivo ao
mortos de impaciência e cansaço. Contudo alarme falso, a Leona e aos outros que
aguardam horas porque um veículo suburbano de outra empresa não paralisada, por
enquanto grita baixinho fraquinho o cansaço dos insubmissos, dependentes e por
dependentes fracos. Aproxima-se para abre a um punhadinho envergonhado de
passageiros; os quais olham pela janela do veículo com pena do magote que se
espreme no seu exíguo espaço no lugar de espera de Leona. O carro atira mais
poluição de óleo cru nos próximos e sai a gemer o peso. As motos e eventuais
automóveis de boa vontade passam ou à carona, um ingresso nunca descartado
desde a garupa da égua ou da carroça do compadre antanho; tecnicamenete
aliviando um pouco a concorrência e a espremeção no ponto frente ao
hipermercado, o dos fregueses clientes dos pacotes das sacolas das mochilas,
todos devidamente molhados ou apenas reunidos agora sim e estafados.
Capítulo
7°
Uma tarde mansa de outono, não obstante
um ventinho gélido e o povo a passar atrás do seu passar, talvez indo ao
destino nem crendo no destino; a se entregar ziguezagueando alguns a atrapalhar
o movimento bobo; bobo em vista andar chocando-se os que vão com os que vêm não
veem um palmo a mais mas isso de menos, não sendo a irritação de Quatro ou
Cinco, o primeiro facínora e a temer Leona o outro quem sabe; isto para ficar
com um pé atrás e em
prontidão. Seja como for trombavam ambos personagens contra
os que andam de contramão na rua mais ainda na calçada estreita e mais mais nas
portas da loja e ambos ou um só deles notando uma bela farta de montes
montanhas ares e mares, a sorrir aos fregueses, de vez enquando de soslaio a
espreitar o gerente. Assim naquela tarde na urbe pequena ou quando muito de
médio porte se pensando embora grande quiçá megalópole em vícios e população.
Antes de mais nada é preciso avaliar como falha a observação e a conclusão no
homem da rua. Pois bem, desse jeito encontraram, supostamente, Leona.
Leona andava na calma do vaivém,
parecendo igualmente querer esconder-se. A multidão se presta a esse desiderato
e assim ela pouco notada se vista. Necessário saber que gente atrás de gente em
cordões à frente ou no meio da gente – só pensa em si. Outrem não existe
em não ser a comunicar um veredicto: ah que mulher feia! horrenda acresceram e
foram mais nisso – despojaram Leona de gênero, substituindo por uma ‘véia’
horrorosa, uma deformação bem conservadora a qual não substituiram por velha
por idosa, é véia mesmo. E todos – todos aqui os próximos próximo, não o
integral do povo – sim todos se consideram feridos ofendidos humilhados quem
sabe ter diante das vistas uma vista medonha que é o espaço que Leona carrega
consigo ao descadenciar passos e a mancar um pouco, não: bastante. O autor,
está lembrado de Três? o autor arregala os olhões; nisto quer superar os dela e
mais ainda manchando o pensamento pelo pensamento de observá-la tão só. Olha
estatelado, aqui um abusinho visto não querer ele ser visto só ver, ver
observar analisar anotar e quem sabe... espera-se de um tudo nas atitudes de
escritores desocupados circulando pelo meio do povaréu, este mesmo notou o
letrado ou iletrado, também espantados com aquela visão doutro planeta, seria a
pobre uma etê a afrontar a beleza de nosso povo!? Em todo caso percebe que a
personagem Um carrega um esparadrapo ou coisa assim no nariz ou ausência dele.
Nada mais que isso; nem leva os apetrechos obrigatórios ao elemento feminino e
outros instrumentos como bolsona à tiracolo e nesta a bolsinha com espelhinhos
– aliás estas linhas querem mostrar à Leona um monstro da espécie na sua
apresentação mulher? Nem perfumes agressivos ofensivos à sensibilidade de
algumas pessoas; um dia certa beleza rara subiu no meu circular, o motorista
não pôde não pôde igualmente o cobrador fugir, quase o restante desceu antes de
nossos respectivos pontos de parada. E não era o caso, ela sequer usa
cosméticos a despiorar nos desodorantes em não feder mais que o feder gente.
Todavia o esparadrapo como tapume das fossas nasais demais a mais a chocar a
urbe andante, a multidão é uma cidade que se mexe. Daí restava ao obtuso
intruso excuso interpretador unir pontas extremidades a compor se não uma
estória de valor uns rabiscos literários formais. Estaria se indagando o abelhudo
nesse talvez nono encontro (um flerte é brabo, melhor:) no desencontro inventou
inventar que a senhora não tendo nariz – aquele soco nas fuças por algum ser
divino enraivecido – não tendo, não teria acaso a andar promovendo cirurgia
plástica, implante de despiora! seria então se pôr a infeliz agora nesse
reencontro na berlinda a propor: olhe minha gente como fiquei ou ficarei menos
feia. Enfim parecendo estar em tratamento para melhora, uma melhora portanto.
Leona fugiu entretanto dos olhares
facínoras e do público circulante, se escondendo novamente num vãozinho, sumiu.
Capítulo
8°
Contudo, e seria a oitava vez nos
desencontros há um dado suficiente a espantar inteira uma reencarnação – sim
Leona arranjou um amor! Nessa vez Treis percebendo mais um erro nos desacertos
feito mulher; ou seja os olhos um verde outro castanho indo para nuanças
escuras. Sim porque todos temos dois na mesma cor e isso remetendo o personagem
autor à infância. Em menino, menino tem o péssimo costume abraçar por aí
animais e depois levando para casa o bicho a bater o pé nessa propriedade e...
deixa pra lá. Lá naqueles idos encontrou um gato numa visita dos pais aos
compadres, na noite cerrada. Demais o gato miou talvez a imitar grosso como
taquara rachada um cão ou qualquer outro irracional. Já assustando um pouco,
depois descobririam ter três pernas, patas, e ter um olho verde outro preto! ah
barbaridade disseram genitores, isso é arte do maligno imundo. Ninguém na época
não temesse o diabo, mesmo dito na forma caipira diacho. Sumiram com aqueles
dedos do demônio na casa! Bem, e agora descobrimos um verde outro escuro e aí
como ficamos. Mandamo-la ao inferno, Leona? Todavia arranjou um amor...
Numa quinta ou sexta vez que a
encontrou, isso no bairro de periferia rica da personagem... Cabe uma leve
explicação a propósito da afirmativa. Existe o centro, onde o comércio a igreja
e nele também moradias abastadas vetustas, apresentáveis; ora ninguém de sã
consciência vai levar um visitante ilustre ao sanitário público, aliás o dessa megalópole
que não passa de urbe de médio porte, o do centro é uma fedentina um cheiro
horroroso, além da exposição de poesia de latrina. Não interessa. No arrabalde
entretanto temos duas periferias. A pobre se confunde fácil com favela onde
mereja água servida a correr de si mesma e para fora do perímetro urbano; e tem
a periferia rica, não milionária e aqui sendo o centro, a rica pobre igualmente
nas construções acabadas ou mal acabadas mas dispõe de certa estrutura como
asfalto e sobretudo garagem! ah o carro, o carro é o deus desta civilização
discutível por progredir tecnologicamente e quase regredir moralmente. Nessa
vive numa casinha despretenciosa alugada parece encravada para horror da gente
entre residências se bem pensando de gente de bem, por bens. Sim, ali tem
dívida bate-boca diz que dizem. E o carro fulgura não ao desleixo porém
lustroso; verdade com essa ventania diária a varrer fustigar Ventania – alguns
a apelidam Ventania City, mas não
sabemos com que propósito, talvez só por esnobismo. É com certeza a periferia
rica, onde flagramos a estender roupa no varal do quintalinho, peças de roupa
que criticam as vizinhas trapos, porque as mulheres do povo não têm
contemplação com outras mulheres; assim atingem nossa Leona. O autor andava a
xeretar? parece mas isto não interessa, ele a viu e precisou inventar mil e um
artifícios a continuar seu estudo; até porque ela o principal personagem dos
seus garranchos, e por garranchos ilegíveis. Sim, em quantas oportunidades
precisou jogar no lixo o sulfite que é caro pra valer, por causa de
ilegibilidade. Agora não, saiu inclusive num cursivo bem esquadrejado, a
vaidosamente poder ser mostrado à oposição.
Pois é, aí reside a infeliz, infeliz e
também pobre não miserável porque veio da assistência pública e estatal, ou não
sobreviveria a coitada.
Então, aqui entra o amor; não a
desfaçatez dum feio pleitear lugar ao sol, piormente sendo comprometido com a
mansa temeridade... Um dia, me conta a olhar pra lá pra cá dona Seis, vizinha,
um dia foi estuprada a pobre! aqui se condoendo a vizinha. Num beco desses à
noitinha, ela fora comprar algo no supermercado; neste ponto Seis destrambelha
prolixando a contar o desnecessário e o necessário de sua vizinha, picha um
velho falador do bairro e diz e mesmo os parentes dela tendo vindo defendê-la e
vieram em visita por sua língua, retoma o crime: um crime horroroso contra a
horrorosa, pois ela o senhor bem sabe um canhão estragado. Encurtando, diz a
prolixa criatura, encurtando um advogado daqui da vila, aí no 75, ele pendeu por
sua defesa, sem nada ganhar! E não é que a bruta conseguiu provar pelo
causídico a paternidade e assim recebeu pensão; morreu o sujeito e mais uma vez
seu Nestor, doutor Nestor conseguiu pleitear aposentadoria; por invalidez, ela
tem inclusive carteira da circular. (O autor fez sim com medo do prolongamento
espichamento da estória da mulherinha); já sei falou dona Seis ainda: quer
saber o fim do fruto daquele ventre nunca anteriormente usado, e até que não
anda aqui nenhum absurdo: viu como amedronta assusta qualquer na rua por sua
decantada feiura, uma feiura original pelo menos. Pois o garoto nasceu como a
genitora deformado, filho de peixe peixinho é, não é? Era. Então viveu por dois
ou três anos e graças a Deus falecendo ou... Ah, tem um dado desastroso e de
capital importância à Leona, sabe que se chama Leona da Silva! O negócio é que
é ateia a atoa. Andou por igrejas crentes por aí assustando a freguesia dos
fiéis, nem eles a aceitaram enfear seus cultos – andou a frequentar as missas
mas o Padre Germano com aquele sotaque horrível de alemão deu as contas pra
ela. De maneira que vive encafifada encafuada no seu presídio, saindo do
tugúrio apenas a ofender a gente no circular ou indo receber proventos no
banco, assim mesmo ainda sempre alguém a ajuda sacar para se livrar da
indesejável. Nas coisas oficiais sempre também auxiliada pelo Doutor, aliás um
santo homem, só a mulher dele que nem é mulher sim amante, hoje se fala
namorada não é? Era. Só ela que não presta e vive corneando o pobre; não
senhor: a Leona de jeito nenhum, nenhum estroina ou louco a fazer-lhe a corte,
por motivos óbvios. Assim vai vivendo minha vizinha; e aqui no bairro é sempre
gozada pelos moleques, mas criança não tem mesmo piedade.
Ah que beleza
é o amor.
Capítulo
9°
Sim, que beleza o amor os namorados a lua dos
namorados...
A
lua é um sol de saia, a iludir inocentes namorados na fase cheia.
Nossa pobre Leona porém não teve em si
esse arrebatamento, não teve na experiência vivida os sopros perfumados que
agradam e sempre agradaram os corações que se encantam nos próprios passos,
pobre dela. Não viveu a situação como os pares desfrutam e – se supõe –
desfrutam a andar cadenciado, sem tempo sem hora pra chegar, sem precisar em
não perder tempo pensando na coisa a viver a viver na coisa o instante a
oportunide em fazer o outro feliz e felicitar-se da presença do coração ao
lado, tão puro tão prometedor e enfim desfrutando lembretes divinos postos no
íntimo lá no fundo do peito. Ir pra lá, o par não querendo e desejando muito...
voltar pra cá, sem projeto, sem projeto sem prancheta sem conscientizar um fazer
a fazer: mostrar somente ao namorado a flor, a flor roubada por ele e por ele
mesmo ofertada como fosse propriedade milenar em suas mãos – enfim tudo mera
ninharia, e o perfume da ninharia, tudo se eleva não só no conjunto como em
cada uma das migalhas de um jardim público, ou mesmo no condenável afanar algo
para seu amor num muro particular – e parece que todos dormem ou foram ao
cinema... – ah o cinema, as pétalas postas a secar pela noite ao esparramo de
vento! E se vai pra lá se vem de lá, os casais se cruzam; ele por homem e homem
de memória curta ele não vê, vê ela que a outra é filha da senhora Cotinha, o
namorado? aquele... todos passam e mais passam, os bancos alí expostos
gratuitamente, os namorados não se cansam e os jovens se cheiram se espreitam
se afagam se achegam... não dá tempo olhar se a chefia moral por ali: se beijam
e mais se beijam por ordem do coração.
Quem não participou dessa experiência
não vai querer ter direito a deixar o planeta impunemente.
Pois Leona nunca viveu passagens tão
excitantes, tão oferentes, tão ricas em substâncias do coração. E aí, isto
fá-la ainda mais pobre, não fosse já a pobreza, miséria mesmo, no físico
deformado a expor muito asco nas vias públicas. A precisar viver (e isso será
vida!) a viver entrincheirada na guerra da existência. Pior nisto é a sociedade
como um todo entender precise ser assim... enfim é mais grave que toda
gravidade que possa ferir a normalidade. Sim temos parcelas sociais
conscientes, esclarecidas, que lhes basta um toque para correr ao sofredor
salvar defender, limpar as sujidades do sereno os detritos ofensivos dos anos
fogueteados rumo a esse ser fraco; mas em geral não é assim; é o massacre sobre
sua face, o do fraco, o qual não tem como defender-se. Somente uma vez poderia
ter sentido ela um pouco desse vivenciamento no amor; porém fora num estupro,
portanto a violência! a violência que fere o homem de boa vontade.
Assim não tem lua, o sol mais forte por
machão nem ele, não existe compensação que possa serenar poetas nesse caso tão
marcante.
Capítulo
10°
Ora, parece-nos que a vida sonegou numa
existência as flores as cores as fragrâncias do amor.
Sim, caro Dois, leitor paciente, parece
de fato que a vida fora ingrata com essa Leona; não comigo. Saiba que bem ao
contrário recebi certa inspiração nesse operar, mais ainda quando parecendo
desafio invencível, visto me deslanchar: Quando estou criando, como hoje, me dá
febre volúpia loucura quase, ao rolar da caneta. E me sinto como agora
satisfeito, mesmo que a estória vire porcaria. Não é a coisa que me alimenta e
sim a explosão no escrever a coisa. Sou assim, assim serei. Quanto à sina da
pobre lamento; acho devesse ela mesma lamentar seus escarmentos, não lamenta;
nunca fez isso no percurso e com isto trazendo atraindo a si mais problemas e
dramas mais dores mais vexames e, daí, mais necessidade em se esconder; e menos
aparecer para outras pessoas e mostrar-se à sociedade cobradora. Além do
exposto, não lamenta por costume e por costume igualmente não xinga não fere
outrem, sofre apenas.
Agora, acreditando piamente que outrem
não esteja a entender afirmativas, é que parto a se não palmilhar passos seguir
passadas dela no seu bairro, precisando ir atrás – isto em virtude de
felizmente o resto da urbe pequena de médio porte desconhecer realmente sua
cidadã; sim paga impostos taxas sem falar na contribuição financeira que faz ao
supermercado o qual cobra para que leve cebolinha ou salsa, batatinha ou cebola
e algum enlatado, cidadã de fato porém desconhecida no resto da Ventania. Não
disse não-percebida desse resto pois onde vai vai o olho curioso no ver e
eventualmente lastimar e ainda o habitual pichar a senhora.
Um belo dia, ah que expressão safada
mentirosa feia ao menos, enfim certo dia ei-la a varrer aquelas folhas e os
planfletos atrevidos que entram por baixo por cima e sujam, ei-la nesse
trabalho digno mas... ah surge o deslize o escorrego desnecessário cometido:
dona Seis, a senhora não queira saber as consequências que carrego desde aquele
fatídico dia de paralisação da circular, a greve, a guarita o guarda-chuva, a
gente, a mochila, a chuva sem parar... Fiquei horas aguardando e ainda tendo lá
mal encarado um senhor Quatro, facínora, olhar medonho, oh me arrepio lembrar
inclusive neste instante; e tinha concorrência de muita gente havendo pouco
ponto e nenhuma circular, carona! Dessa maneira depois de horas e horas pus os
pés na lama e marchei rumo de casa que foram mais horas andando a encurtar
engolir os dez quilômetros até aqui. A senhora pensa que alguém me ofereceu
ajuda! chegaram quase parar perto, olharam e não abriram a boca a porta
prosseguiram e então precisei ainda caminhar a pé na chuva. Cheguei fiquei
doente dias, já faz mês a greve não faz? continuo com sequelas. Nas sequelas
admitiu o relembrar dia e noite o barulho compassado da chuva e pior nesse pior
– neste pior do pior dela um melhor na curiosidade da vizinha, tanto perguntar
espicaçar a extrair inclusive o último caldinho. É o seguinte – além dos
travamentos e dores normais a um ser humano (Leona não obstante se considera
normal, o comum discorda?) realmente, além disso tudo ficou-me um pensamento
com som todas horas, horas de sono horas despertas: o barulhão da chuva na
cabeça, faça escuro ameaçante e até no sol do meio dia. Como agora que narro
para a senhora esta desdita!
A outra não mais abriu a língua,
imediato pediu licença ver os estragos do Lulu, teria derrubado qualquer objeto
com parentesco à louça na cozinha... Tornou à rua logo que a curiosidade
permitiu exigindo a procurar outras orelhas vizinhas. Dona Oito, Leona tem
visões! me declarou agorinha; tem escutas... do demônio interfere Oito,
decerto... Contam-se coisas como as coisas devem parecer ao homem comum sem
presilhas na língua das orelhas, soltas livremente mas à boca pequena, pois
sendo decentes e figuras bem postas na periferia rica. Contudo, não dá negar –
a coisa disparou sem controle como tiro de canhão no seu trajeto recocheteando
em volta, impregnando em torno, para o bem da verdade.
E para o bem da verdade testifica a
mentira, timbrada classificada carimbada no poder da lei do povo. Assim Leona
passa por aí sem ser vista e já diferente de antes: agora uma perigosa
mancomunada com a gente feia sim e também com a feia gente do outro mundo, a
fazer parelha na sua feiura insustentável em ter no seu time agora os
insuspeitos feios do mundo da malignidade.
Por
final, mesmo Seis a infernar o marido em pôr na imobiliária para troca a casa;
o carro bastando o padre benzê-lo. Dessa forma uma das poucas vias a escutar
Leona, tornou-se em poucos meses rara e logo sumiu, sumiu às insinuações do
medo.
Marília junho 2012
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