sexta-feira, 9 de agosto de 2019

Leona


Leona
                             
“As grandes dores são mudas.” Fernando Sabino
 -  -  -
 “Os homens são cães: lambem os ossos do dia.” Lêdo Ivo

1° Capítulo
 Um capítulo do meio para iniciar, no encontro com ela... ela? Antes de mais nada é preciso convir não existir personagens e até a personagem sem o autor, autor aqui inventado por essas figuras esdrúxulas (os personagens é claro); a fim de que as mesmas possam ser criadas por ele (é claro o autor). Todavia nisso aparece novo problema novo drama que é a necessidade em haver, para que existam eles (claríssimo autor e personagens) a novíssima tão velha se não como o mundo antigo, a literatura; e ainda necessário mal é haver o leitor. Em suma preciso ter o autor os personagens a personagem e o leitor. Mas onde a personagem! Encontro a mesma na multidão, como dito já devendo ser no avanço do tempo no meio da obra. Pois bem, diriam no lugar do autor criado por seus personagens, diriam pois mal, após conhecê-la melhor; encontro a mulher perdida nos seus achados achando-se no ponto de ônibus, na multidão dos seres indiferentes, cada qual perdido no seu mundo, se bem que muitos entre o povo impaciente a conversar. Que seria conversar? uma proposta a posterior destrinchamento que o autor resume como viciadas doses de falação porém distante da troca de ideias pela ideia preconcebida de só existir no mundo dos mundos o mundo de cada um e este dispensar a maior parte das vezes a atenção do que venha da boca de outrem; e assim afirmado afirmando não haver de fato conversa. Em todo caso a grosso modo se fala nesse ajuntamento humano fortuito, fortuito ver-se-á em tempo. Andam todos (eis novo abusinho na linguagem popular) todos em volta da personagem. Entretanto não a veem... O que vemos quando vemos? nada, na melhor das hipóteses quase nada, melhorando aqui um nadinha a afirmativa. Contudo tudo poderia gravitar em sua volta e a rigor é o que acontece. Temos águas – águas poluídas decerto todavia águas – as águas cercando totalmente a senhora. Acabei, por imprudência literária, de amadurecer a personagem, sem antes nascê-la batizá-la registrá-la crescê-la para depois envelhecê-la e quase matá-la; isto quase acontecendo porque um automóvel com álcool no bucho tirou uma fina (linguagem do povo, bárbaro) passou o veículo enfim a raspar o magote da gente em volta da personagem, todos ali a esperar a condução coletiva; a qual em dia de sábado, e domingo sendo pior menor o número de ônibus e a espera portanto maior; em sábado aguardamos mais tempo que no tempo gasto na semana, se bem que nos horários de pico tenhamos carros reservas a aceitar excesso da gente trabalhadora indo à casa ou vindo do lar ao centro desta urbe pequena sim e se pensando grande imensa até quem sabe aos destinos do orbe e não passa de cidade de médio porte sem que o bairrismo pense nestes termos. Enfim todos no aguardo, todos em torno dela; mas curiosamente parece-nos e parece com certeza para o autor não olharem pros lados dela... Não; isto absurdo porque justamente estão pondo a mulher na berlinda. Se não, sim o autor. E o santo nome dessa vítima da sociedade! Leona, pronto, ei-lo. Por quê? Este um dos porquês desta obra, apressada poderiam falar, com protesto do autor, decerto com restrição igualmente dos outros personagens no texto comprometidos. Antes que seja tarde o esclarecimento no protesto autoral. Não pode ser uma vista rápida visto o autor, aquele, este, o autor já haver-se encontrado anteriormente com Leona por 51 vezes, o que dizem boa ideia, bem antes do poder chamá-la Leona e esta 52ª vez, agora no meio da turba, quando exatamente alguém conhecido parente vizinho colega ou amigo a gritar-lhe por esse nome. São portanto 52, o que não é pouco num encontro reencontro (e diga-se a fortalecer a verdade:) nenhum desencontro! Sim merece ponto de exclamação; visto os seres humanos, nessa caminhada que é de todos nós, não terem e ele-autor especificamente se chocado entrando em conflito com tal personagem (admitamos reclamação em protesto dos outros personagens pela afirmativa, ou enciumados ou apenas desconfortados e confusos, porque a verdade confunde antes de contundir e anular a mentira ou somente imaginação exacerbada da realidade). Trocando em miúdos, o autor é um dos do povo próximo dela e também a sofrer esperar desesperar na possível – isto uma ideia terrível! – greve ou só paralisação da empresa circular e aí, perguntamos, como voltar ao ninho!?
A coisa posta olhamos na direção de Leona. Ah sim, por quê? Não do olhar – e ver e sentir e sofrer e tentar compreender esse exemplar em exemplo. Não. O porquê do apelido Leona. Se fosse forte, a fêmea do leão é leoa, não é? então não é. Alguém lembra o alvitre Leonilda outro Leonilza outro ainda Leôncia que o povo abrevia junta reduz deforma transforma e informa errado por alcunha. Em todo caso, ela da casa dos Silva, Leona Silva. Entretanto isto é inexpressivo como o leitor paciente verá na descrição da personagem, irmã, confrade ao menos, pois tanto ela como outros personagens bem como o autor tudo criação dos personagens, os quais vimos criaram-no para que o autor os criasse e criasse por sua vez você, leitor.

Capítulo 2°
 Abordagem topográfica da área restrita. Sim restrita acanhada difusa um pouco tendo em vista que ajuntamento de gente decente ou displicente se mexe se move se atormenta atormentando quem vê a área e assim sendo difícil, não impossível, contar apreciar até ao renunciar, no caso do autor (o leitor não, o leitor num camarote sofrendo embora o sofrimento do autor ou se rindo dele) no caso do dito autor ao qual direcionemos convencionemos um nome aqui em referência apenas: Três; portanto na criação o chamamento Um a Leona, lembra-se? leitor; ela Um, Dois você criado pelo autor o qual criado pelos personagens; o autor então despencando a criar, após, os personagens da obra. Enfim no caso do autor, ele observando o vaivém dentro da área restrita da gente a esperar condução debaixo de uma quase guarita em guarda por exígua em tamanho mas às escâncaras na beira da rua movimentada; lembra o carro doido alcoolizado tirando uma fina no público acanhado! garanto autor por pouco não atinge certa mãe ali com pacotes malas compras a tiracolo e à tiracolo o seu nenê, o qualzinho se assustou gritou chorou mesmo sem haver entendido o perigo iminente – tudo isso a espantar o povaréu no lugar aglomerado a esperar ônibus, decerto este certo no errado da paralisação contentando trabalhadores grevistas descontentando trabalhadores passageiros desejando ir pra casa temendo não ir pra casa. Estamos portanto assim reunidos em volta de Leona e vivendo um ajuntamento quase sem vínculos por esparsas e desataviadas as pessoas ali, ali  sob as vistas de Três. Três é muito povo, povo é muito bárbaro, bárbaro no sentido de bruto de grosseiro e sem opção. Claro, quem besta tanto para se pôr bruto e ignorante nas sabedorias? Porém Três, por povão, se conhece por Treis, quem sabe a abandonar o chapéu circunflexo no desuso do chapéu de antigamente assim como a fêmea da espécie hoje abandona de antes a sombrinha. Aqui suposição o que interessando mesmo é que o brutinho se pensa registrado no cartório Treis, Treis da Silva seu criado. Perdão oh Dois pela brincadeira; prossigamos na obra séria. Dessa maneira temos um aglomeradinho a esperar ônibus; e não virá essa... um avexado xinga o veículo, devera ofender o empresário o qual joga contra o povo seus funcionários inquietos com pouco ganho, joga os pobres em cima do povo ao anunciar na janela dos seus ônibus que não aumenta o salário porque na cidade xis a tarifa é 2,90 e aqui só 2,30 e ainda nesse por baixo a câmara não cede e... bem quase exige que os subordinados encostem o circular e deixem o passageiro em ver navios, não literalmente visto verem a rua, uma avenidona movimentada com carros de passeio burgueses a disparar e aí vimos quase um deles fazendo o gurizinho berrar; quase não: quase atingiu sacolas compras mãe e o filhinho, este que de fato fez um escarcéu danado a chorar incomodando pobre gente a esperar pela condução aflita, aflito o povo. Então nisso entra o autor, aquele grosseiro Três se bem nos alembremos, o dito cujo a olhar, Leona é claro sim, mas claro também vendo o povo. Dá uma olhadela no tipo topográfico.
Sim, percebendo a topografia do lugar e a gente insubmissa ou paciente no aguardo e no aguardo relembra por associação de ideias e de sentimentos exatamente a beleza da topografia da Guanabara, demais conhecida e vista e registrada na mídia; suas linhas, suas curvas, suas saliências e reentrâncias, o mar o monte, montanhas ares e mares. A relembrar também a escultura da natureza no nordeste mineiro em seu extremo quase baiano, onde o Criador nos deixou como fora um gigante gigantesco na enormidade a atirar num adversário agora criado a abusar da pré-história pedras de todos tamanhos sobressaindo as colosais em todas formas! Ali, lá naquelas lonjuras só atingidas ou pela memória ou pela imaginação ou pela ideia de tempo – ficou um campo de guerra santa em que as formas criaram a beleza extrema com sua topografia no reflexo do sol, seco sim árido sim quente sim mas belo integralmente belo para um simples registro de um mortal insignificante num livro ou foto ou vista direta em campo, mesmo que por um grosseiro bruto ignorante... Ou ainda na pior dessa melhor hipótese relembra a paisagem que cerca esta urbe de médio porte se pensando embora grande, pequena e igualmente bela. Seus contornos geográficos num mostrar vales e montes circundando o todo como o ali restritinho em povo aflito esdrúxulo inclusive, reunido a esperar ônibus (e não viria logo! e acaso não viria!?) Assim vendo decerto como todos em volta dela; dela? Leona... Enquanto, Três percebe duas jovens – ora, duas não é pouco? e aí depende, uma pode satisfazer que dirá duas delas e quem sabe mais de duas... – as tais andam igualmente na espera da condução. Seus olhos, olhos do autor, comparam essa nova, porém velha como o mundo, essa nova linha em seus belíssimos contornos na topograafia restrita sem restrição (quem poderá com a liberdade poética?) São duas, uma é pequena como em geral pequeno o ser feminino em tamanho mas grande em beleza. É morena, isto recurso pra não se tocar na cor da epiderme e ocasionar crítica acerba desnecessária e discriminante, enfim de um baio de pele branca, escura pelo trabalho do sol em raios constantes incidentes marcantes a embelezar a moça. A moça de pé em aguardo no aguardo de coletivo, circunspecta quase, olha pra lá pra cá nem lá nem cá ônibus, sim os carros burgueses loucos passando e nos espirrando lama e a água, água a cair sem parar no chuvisco que não para, para só o circular parece-nos; a grita é geral agora, agora se avoluma na insatisfação do povo ali acuado em aguardo, aguarda ela bela morena parada estática mesmo porém logo se mexe indócil, indócil não por mostrar sua beleza: uns contornos delicados em sinuosidades perfeitas (pudesse em sinuoso, pode ao poeta tudo pode pode tudo no todo) e se cansa de olhar não ele ela. Aflita quase se mexe se agita mais e se encosta por fim na trave de cobertura do ponto da circular cansada a jovem, os bancos todos ocupados e a gente a disputar lugar no espaço restrito aglomerado que enche incha cresce no tempo de espera, ela espera e se movimenta quase imperceptivelmente, é preciso algo fazer, daí toma o celular, a maquininha de bordo em computador maluco reflete seus ícones, ela preme com o polegar belo esmaltado pintado o estado de mudança, muda seu mundo no mundo que vê e vive e sente e cobre cobrindo seu mundo e assim conversa embora de lábios cerrados mudos com seu particular mundo, interno ao exterior; por fora exibe a topografia de seus montes, a outra tem quase montanha e mares e oceanos talvez a sobrepor à planície e ao deserto ali em roda; ela não: é monte é linha é desenho bem configurado numa pintura que mostra uma área mais restrita no restrito acanhado do povo calado ajuntado envergonhado quase no quase eterno de espera em aguardo à condução que não vem. A condução nem cheira nem fede diz o povo simplório, todavia elas cheiram exalando seu perfume, leve mas penetrante dela morena de pele na sua beleza topográfica sem exagero de sinuosidades. Enquanto a outra moça bela mais bela um pouco fosse mesmo à poesia e à poesia tudo pode – um pouco mais, bem mais pensando o sentimento. É pelo menos mais cheirosa mais branca ou menos escura porém irriquieta, anda em vias de reclamar em altos brados a demora, ou no relembrar compromissos, ou compromissos que os grevistas agora desconhecendo, não desconhecendo o reloginho escuro no seu pulso branco, tão branco que os pelos quase imperceptíveis a refletir a claridade meio filtrada desde o chuvisco lento firme paciente, paciente demais aos gostos, preocupados todos ali com espirrados detritos atirados em todos democraticamente por veículos céleres celerados burgueses fazendo gracinhas às vezes no grito dos seus sons (o povo diz som ao rádio aberto aberrante em músicas ou loucas ou santas a desburacar orelhas dos outros e quase sempre num baticum como que um bate-estaca a enlouquecer até quem já louco...) Assim vê quem vê, vê o autor e os personagens, e por que não dizer o personagem leitor, caso não já enfastiado pela descrição duma topografia que ressalta inclusive duas lindas jovens, as quais uma com pouco mais de vinte e cinco outra com menos ainda. Contudo tem mais.
Muito mais. Tem a corja masculina e tem os envelhecidos que pra si ou ao consumo externo vivem sem idade sem beleza e – diriam os que não sabem por saber demais – sem sexo; sexo definido, isto definitivo além da permissão.
Elas se movimentam, decerto impacientes ou ainda mais impacientes que anteriomente pela condução tarda falha ou falta; assim ainda mais elas oferecem se não ao público e à vista geral o geral da topografia para o autor, também ele paciente ou se enganando na impaciência a tapar o sol com a peneira no dizer popular na espera de ir quem sabe pra casa, assim como Leona, Leona ali no centro esquecido quase diante tanta topografia da beleza feminina, que se sabe com categoria um conjunto de montes mares celestes na terra naquela vista... Embora tão restrita tão pouca tão curta tão em desagrado na impaciência geral. Ora, a impaciência desde que o mundo é mundo é totalmente cega.

Capítulo 3°
Ali naquele mundo cheio de mundos, em que chega mais e mais gente filtrada da chuva e a passar por entre carros ricos burgueses apressados despreocupados na lama que nos espirra sujando a todos indistintamente; mais e mais chegantes vindos assim de todos lados e doutros mundos sim mas sobretudo dum supermercado quase hiper que os abusos tacham shopping center a querer modernizar contemporaneizando uma cidade pequena enorme no desejo, porém de médio porte. Vêm todos, todos sobrecarregados. Embora a lei proiba sacolas plásticas poluidoras do meio, no ambiente passam sacolinhas menos poluentes dissolventes no bucho do solo e estas vêm assim mesmo abarrotadas de compras miúdas (decerto margarinas bolachas gorduras zero-qualquer-coisa, coisa pouca ao bastante do atacado comercial) isso aos que se anunciam pobres, ricos nos automóveis de luxo abarrotados também com suas compras e mais margarinas e mais bolachas e mais gorduras, e mais coisas poucas. Em suma os que andam – os pobres e os que assim se dizem a ressaltar em meio à maioria de periferia para onde se vierem irão os ônibus da circular – os que andam atravessam a rua a lama a gota a chuva a pressa e vão chegando apinhando se ajuntando com seus apetrechos misturados ao guarda-chuva aberto a respingar nos outros, para se anexar também à área de espera no ponto, em ponto já de explosão... Nela a turba, restrita em área apesar, a turba ajunta se junta formando quase um novelo. E nisso espreme Um, Leona; Leona encontra-se quase escondida agora, notada embora não só por Três, que se homologou no costume popular em Treis, Treis da Silva seu criado. Está comprimida, ele não ela, claro. Ele entretanto a observar a insatisfação dela quase declarada; não obstante um sujeito cerca seu porte de pouca envergadura, ela misturada comprimida no meio da turba e mais ainda levando em consideração seu estado e seu estágio no mundo dos miseráveis; a miséria exposta não tanto nas finanças num país que é paraíso de banqueiros e corruptos entretanto miséria no ser, um ser que teme moralmente em ser ser... E aqui ela entra; entraria no meio da obra já sem ponto avançado porém os personagens criaram o autor, o autor criou até você Leitor, Dois pois ela Um, o primeiro personagem criado pelo autor; e os outros personagens que têm aparecido ou que virão, caso você permita, lendo, que existam. Sim aqui é hora de entrar Leona. Adelante?

Capítulo 4°
Leona olha talvez em desagrado Quatro; quatro um daqueles facínoras (ora o que não imagina o homem comum vendo um outro desconhecido!) exato, um daqueles seres ferozes do exército masculino a rodeá-la. Claro haver mulheres, mulheres de todas idades, tem uma grávida, acintosamente grávida daquele tipo de gente que a barriga quase a estourar para frente a gente paciente impaciente temendo uma luz naquela escuridão que é a espera do circular e todos ali se espremendo fugindo à chuva debaixo da cobertura acanhada parecendo guarita e pode que nem todos a esperar, a espera tão só parar a chuva e a chuva não para, assim uma frequência de quase inflação inchando o ponto de ônibus, por azar dos sem sorte fincado em frente ao supermercado e dessa maneira aparecem pessoas mil, mil e um pacotes e sacolas de compras e mais um e mil objetos e instrumentos e utensílios que não se larga hoje em dia como as mochilas, algumas destas a estourar nas costas pobres dos pobres ali. Ali ela, Número Um, a olhar uns maus olhos, olhos maus que a veem... e por que veem?
Leona escorrraçada desgastada desprestigiada pisoteada acuada amargurada inferiorizada envilecida envelhecida antes do tempo de envelhecer, Leona geme no meio...
Tenhamos calma, não atropelando com o carro os bois... Visto que ainda sobrarão daqui para frente mil folhas a pintar Um, Leona.
Aquela disputa desvantajosa entre concorrentes apinhados debaixo do guarda-chuva em guarita como ponto de ônibus (e será mesmo que os funcionários vão atender os patrões, na sugestão de entrar em greve e a gente como ir pra casa!): aquela tem outros agravantes fora os respingos dos pingos gelados de chuva, uma que São Pedro ainda nos manda aqui pra baixo; fora também respingos da lama fedorenta que desaforados carros alcoolizados atiram na gente sem dó nem piedade, aliás isso estranho... isso o quê? os autos particulares vez que outra zumbindo o motor importado vistoso e de várias cores terem eles piedade da gente passageira indócil quiçá desesperançada, por não vir nenhuminho circular. De fato tem mais problemas.
Em meio ao trânsito doido nesse doido dia de greve, no meio dos carrões e carros apressados, entre meio vêm as motocas. O povo apelida moto e motoca, daí motoqueiro, as antigas motocicletas. Umas inclusive são bonitas, belas não: isto atributo delas belas e belas topograficamente afirmando. São até bonitinhas, embora lamentavelmente alcoolizadas e drogadas, quem sabe empregadas muitas no tráfico de entorpecentes ilícitos; o que nunca a gente prova nem prova a polícia. Contudo elas passam em disparo nos seus voos rasantes, uma que outra posta como se diz mototáxi; então caminham nessa loucura do trânsito atrapalhando o trânsito, apressado sim, confuso também. Daí se acercam dos fregueses aflitos – não, não ofereceriam o serviço a levar pra casa à Leona, se é que a notam... notam sim, ela notável negativamente notável – chegam devagar, ouvidos atentos, vai que alguém tapeie a greve e se lucre alguns reais. Leona não concorda, com a possível antipatia do motoqueiro! não, não concorda com a concordância. Outro dia mesmo, estando a comprar não sei o quê e isto sendo noutro hipermercado, não aquele agora ofertando concorrência de fregueses, clientes falam, e mil pacotes no enroscar a atrapalhar a espera na espera do coletivo, por quaisquer cargas d’águas emperreado e os passageiros... Os mototaxistas e suas valentes (ao menos barulhentas em nos ensurdecer) suas motos de aluguel olham cobiçosas. Uns passageiros nem indagam sobem já de vez a cavalo na garupa, põem capacete como exige a lei e somem amenizam a concorrência, diminuem na estatística os desesperados molhados atrasados espalhados aguardantes do circular. Como dizia, Leona não concorda é com a concordância “dá um real, não não, disse fanhoso; dá logo de uma vez dois real” e o moço que pesa fruta e batata aos fregueses, também concordou na discordância como comum no homem comum.
Naquele dia... qual dia? parece que terça-feira por haver feirinha com preços abusivamente baixos a atrair a clientela, naquele não teve sorte seu azar de pobretona. A rigor nunca subiu na garupa duma motocicleta nem mesmo na dum cavalo e cruz-credo na da besta porque mula coiceira até a atingir a alma que a gente não vê e a burra tenta acertar esse errar. Não foi feliz porque deu com a mão para chamar o motoqueiro que ela via noutro lado da rua, decerto iria pra sua casa e ainda a pé (ela como os caipiras pronunciam “diapé”) a pé sendo um trecho longo longe o seu lar. Todavia o moço sorridente pelo próximo ganho fechou a cara já perto de Um: dona estou comprometido com outro freguês. Isto provável prontamente perdoado pela eternidade visto a mentirinha poder salvar, inocentemente, mesmo uma civilização. Não restou outro alvitre à senhora, foi no pé-dois, mancando um pouco, a carregar os embrulhos; inclusive porque hoje a lei veta e veda o uso de sacolas plásticas poluidoras do meio; assim se foi a pobre com embrulhos de papel, não indignada, porque têm as mentiras que são o suprassumo da verdade, porém entristecida.

Capítulo 5°
O autor, Treis da Silva seu criado, põe na cabeça a propósito de mais esse fracassinho – miúdo para quem tenha aos montes os grandões – fracasso de Leona; põe um drama de esquecimento da lembrança não satisfatoriamente apurada que é se era essa a 49ª ou 47ª vez do seu encontro com a personagem principal. Notar sabedores todos e inclusive Dois que lê esta mixórdia todos sermos criados pela mente do autor, este inventado pelos personagens, que o criaram a fim de que fossem nascidos eles mesmos. Leona o mais importante desta obra fora por 51ª vezes, a boa ideia? fora vista cinquenta e uma vezes e agora naquela angústia da confusão na espera e na paciência contra paralisações mais, sendo 52ª. Seria, se pergunta o lunático, seria a 47ª seria a 48ª. Mas o que isso vem ao caso se em cada encontro do desencontro a acumular mais sabedoria mais experiência mais galardão para retratar a infeliz.
Isto posto advindo encontros-desencontros, o alinhavo dessa vida; ou somente da existência nessa vida. A gente nunca de fato tem o alcance de toda uma vida de um ser, mesmo o ser sendo a gente mesma. Portanto seria desfaçatez falar em termos categóricos, como a gente transformada num deus. Quer dizer que somos autor personagem personagens e leitor, Dois, somos forçados a julgar, pior fosse prejulgar, a compreender enfim apenas as parcas dezenas de anos de uma existência, teoricamente aqui uma existência pobre marcada massacrada dessa desditosa figura...
Dos encontros aqui lembrados o autor ficou no seu conjunto penalizando-se. Se a gente estuda uma qualquer, nisto tomada a existência por vida, digamos de uma bela jovem cheia de brilhantes montanhas na topografia; e por isso tendo o povo de um país em vê-la bem em ressaltar seus encantos e predicados de miss e aqui já abusando nas classificações inteligentíssimas (o povo acha correto de o incorreto ser burro por feio se não asqueroso...) e ainda por cima elevando a moral da bela aos píncaros; fosse a pobre pobre por feia e até desfigurada: ridicularizada como ser mau!
Dessa forma sobraria o que à Leona sendo posta, com justa razão, abaixo da linha da feiura...
Pois neste ponto paramos um pouco a descrever como possível, sendo nós todos seres limitadíssimos, a figura da senhora.
Não me cabendo alguma culpa – diz trepado em cima do muro qual o centro político – não me cabendo se um dia fora Leona se não bela e por que não dizer uma gostosura! se não bela passável em menina em moça em (isto possível por que não?) em já uma senhora. Visto serem muitos os exemplares de mulher casada passada até com beleza; então a gente fica num descuido pronto para notar alguma aliança no dedo da mão esquerda; momento em que parabenizamos mentalmente a sorte do feliz consorte da boa; isso porque não deixando ter aos olhos públicos linhas formosas atração acintosa inclusive. Ah pobres dos corações sentimentais masculinos...
 Com tais digressões não se candidata autor, diz o autor candidato, enfim não quer desviar a atenção do leitor, realçando a bela contrapondo Leona, a feiura, a...
Ora, tenhamos coragem: a monstruosidade dela.
Numa das mil e uma vezes, terá sido a 7ª? Três flagrou Leona na sua integridade, na integridade das formas. Nós, seres humanos, somos formas, figuras contendo atributos ou particularidades individuais que nos distinguem das outras pessoas e Leona também uma forma, a forma que se apresentou diante do autor – se indaga não assustaria o próprio leitor! Estava a senhora na calçadinha em aguardo de ônibus, não como guarita espremida mas um ponto simples, simples pau fincado no chão em cores da empresa circular, ali a rua com seu trânsito, o trânsito com sua confusão, a confusão nos seu desentender e vento e poeira e ainda os seus desencontrados de motores e buzinas e o barulho de rolar e exalar cheiros de combustível dos veículo. Então meu ônibus, diz o autor ainda ferido pelo que viu... O coletivo parou pegar a passageira, passageira, Leona, sozinha, diria a melhor machucar “e mal acompanhada”. Fez proft puft plá de parar abriu portas aguardar que em dificuldade a infeliz subisse, subiu, sentou-se se aboletando num banco da frente. Ela considerada deficiente físico, poderia afirmar psíquico? ela se ajeitou. Daí fez o que fez sempre e sempre fez e sabe-se lá se não se portando assim frente a oposição antes disso não sabido pelo escrevinhador, sim tudo, todos: é oposição à fraqueza e debilidade dela. Encolheu-se no seu eu; uma como “me dá licença em existir?” tentou esconder-se embora na berlinda. Horrorizei-me, narra Treis, horrorizaram-se os outros passageiros em volta da passageira: ela tem gratuidade legal por deficiente físico, tal um idoso que mostra na saída ou entrada como dinheiro fosse a carteirinha de identificação. Não pude deixar observar esse efeito sobre o motorista, o cobrador passou desde aquela chocante entrada da passageira a fazer micagens semelhando a linguagem de libra entre surdos, por trás da pobre que não percebia a gozação; correspondido pelo chofer e um que outro passageiro mais chegado e que por isso com direito a pichar outrem embora usando a mímica, e a falar quando fala pelos cotovelos... Todos, literalmente todo mundo abismado com o fenômeno extraordinário próximo de si, aquele abuso visual; um abuso em que o abusador nunca certamente aceitando, pois é duro a gente aguentar a gente mesma, quanto mais nos flagrantes de defeito ostensivo. Têm os não ostensivos que guardamos a sete chaves em nosso interior, como Hitler, devendo ter mil outros mais que nós os homens comuns e não percebemos; os nossos políticos devem guardar não só em suas cuecas seus defeitos, escondidos. Mas em Leona o interior aflora flagrante e ostensivamente ao exterior, pela exteriorização do ser...
Se enclausurou em seu lugar, quase dando pra notar o esforço hercúleo da leoa ferida nesse exercício. Assim mesmo todos vimos o que vimos.
Mais o autor viu, por traquejo na arte de observar as falhas humanas e isto nos leva crer que um escritor tenha ser necessariamente sofredor. Você não pode remover o sofrimento de outrem, mesmo esse outrem seja o próprio e dito Três.
Era certa mulherinha magra morena arcada encolhida implodida, imediato podendo notar a infelicidade que os débeis, os débeis com alguma inteligência e muito sentimentalismo, devem exprimir. Era um negativo feito e apresentado como mulher, solitária. Era um fisicamente medonho deformado impreciso incapaz, tolerável e tolerada!? Eram braços pernas mãos desfigurados como derretidos fundidos em si mesmos e com certeza inferiores diante da normalidade da gente em ver no comum observar. Era um rosto ostensivamente horrendo! Era como alguém que fora pelo senhor dos mundos atirado ao entulho do vazio de inferioridade do buraco dos atormentados e dementados como peça defeituosa por imprestável; marcados pra ser o não-ser. Era, parece, a criação abusou da força e por isso acertou-lhe um soco gigantesco da gigantesca força no rosto se rosto. Era um afundado nas saliências e tudo a virar reentrâncias de qualidades duvidosas. Era, não era um nariz para fora para dentro. Eram lábios leporinos asquerosos e contrários ao beijo do amor. Eram uns dentes partidos carunchados ausentes uns, presentes os defeituosos, e nisto vêm outras coisas ou anomalias supostas como o mau hálito. Eram bochechas que se negavam, viradas para o interior da face e não a rir pra fora em alegria. Eram uns olhos de gritar pavor, de lacrimar a existência, de sofrer o sofrer não mais que o sofrer! Era embaixo o queixo ponteagudo a gozar os outros defeitos de fabricação. Era um resto no restante com epiderme manhosa teimosa porosa, grosseira e com rugas, as antecipadas que só respondem presença à chamada do sofrimento.
Era isso nessa 7ª, seria a sétima vez? que Três viu de relance e após minuciar por próprio do seu métier nesse tal encontro, o qual não terá sido chocante a um desconhecido? Um, ela desconhecida conhecida pelo senhor Treis da Silva, seu criado.

Capítulo 6°
Agora – estamos todos nós fritos, comentam os pessimistas – agora espremidos qual sardinha em lata ou com medo do chuvisco, o chuvisco parará com certeza; ou somente teimando a greve do circular; vivemos nossa expectativa, expectativa tendo também Leona, não exprime o pensar mas expectante tanto quanto. Agora já me acostumei, ah quanto abuso de linguagem pois não se aceita nunca uma visão tal qual agora vejo-a no meio da turba neste encontro-desencontro que forço como sendo o 52° sem nenhuma boa ideia, antes que isso todos querendo pegar os funcionários da empresa circular, deveriam sim espremer o pescoço do empresário chegando à reunião no seu importado e observando a matracação e impasses dos seus subordinados, sequer alembrando o povo aguardando ansioso nos pontos. Agora, qual fosse um alívio um presente um maravilhoso e enganoso acontecer, agora aponta lá no fim, na curva que faz a avenida Tiradentes, que passará regateira ou curiosa a olhar o ajuntamento na guarida lotada de gente de chuva de pacotes de mochilas e de apreensões, vem lá um coletivo! Quase temos coletivo uivo do viver vivo ao mortos de impaciência e cansaço. Contudo alarme falso, a Leona e aos outros que aguardam horas porque um veículo suburbano de outra empresa não paralisada, por enquanto grita baixinho fraquinho o cansaço dos insubmissos, dependentes e por dependentes fracos. Aproxima-se para abre a um punhadinho envergonhado de passageiros; os quais olham pela janela do veículo com pena do magote que se espreme no seu exíguo espaço no lugar de espera de Leona. O carro atira mais poluição de óleo cru nos próximos e sai a gemer o peso. As motos e eventuais automóveis de boa vontade passam ou à carona, um ingresso nunca descartado desde a garupa da égua ou da carroça do compadre antanho; tecnicamenete aliviando um pouco a concorrência e a espremeção no ponto frente ao hipermercado, o dos fregueses clientes dos pacotes das sacolas das mochilas, todos devidamente molhados ou apenas reunidos agora sim e estafados.

Capítulo 7°
Uma tarde mansa de outono, não obstante um ventinho gélido e o povo a passar atrás do seu passar, talvez indo ao destino nem crendo no destino; a se entregar ziguezagueando alguns a atrapalhar o movimento bobo; bobo em vista andar chocando-se os que vão com os que vêm não veem um palmo a mais mas isso de menos, não sendo a irritação de Quatro ou Cinco, o primeiro facínora e a temer Leona o outro quem sabe; isto para ficar com um pé atrás e em prontidão. Seja como for trombavam ambos personagens contra os que andam de contramão na rua mais ainda na calçada estreita e mais mais nas portas da loja e ambos ou um só deles notando uma bela farta de montes montanhas ares e mares, a sorrir aos fregueses, de vez enquando de soslaio a espreitar o gerente. Assim naquela tarde na urbe pequena ou quando muito de médio porte se pensando embora grande quiçá megalópole em vícios e população. Antes de mais nada é preciso avaliar como falha a observação e a conclusão no homem da rua. Pois bem, desse jeito encontraram, supostamente, Leona.
Leona andava na calma do vaivém, parecendo igualmente querer esconder-se. A multidão se presta a esse desiderato e assim ela pouco notada se vista. Necessário saber que gente atrás de gente em cordões à frente ou no meio da gente – só pensa em si. Outrem não existe em não ser a comunicar um veredicto: ah que mulher feia! horrenda acresceram e foram mais nisso – despojaram Leona de gênero, substituindo por uma ‘véia’ horrorosa, uma deformação bem conservadora a qual não substituiram por velha por idosa, é véia mesmo. E todos – todos aqui os próximos próximo, não o integral do povo – sim todos se consideram feridos ofendidos humilhados quem sabe ter diante das vistas uma vista medonha que é o espaço que Leona carrega consigo ao descadenciar passos e a mancar um pouco, não: bastante. O autor, está lembrado de Três? o autor arregala os olhões; nisto quer superar os dela e mais ainda manchando o pensamento pelo pensamento de observá-la tão só. Olha estatelado, aqui um abusinho visto não querer ele ser visto só ver, ver observar analisar anotar e quem sabe... espera-se de um tudo nas atitudes de escritores desocupados circulando pelo meio do povaréu, este mesmo notou o letrado ou iletrado, também espantados com aquela visão doutro planeta, seria a pobre uma etê a afrontar a beleza de nosso povo!? Em todo caso percebe que a personagem Um carrega um esparadrapo ou coisa assim no nariz ou ausência dele. Nada mais que isso; nem leva os apetrechos obrigatórios ao elemento feminino e outros instrumentos como bolsona à tiracolo e nesta a bolsinha com espelhinhos – aliás estas linhas querem mostrar à Leona um monstro da espécie na sua apresentação mulher? Nem perfumes agressivos ofensivos à sensibilidade de algumas pessoas; um dia certa beleza rara subiu no meu circular, o motorista não pôde não pôde igualmente o cobrador fugir, quase o restante desceu antes de nossos respectivos pontos de parada. E não era o caso, ela sequer usa cosméticos a despiorar nos desodorantes em não feder mais que o feder gente. Todavia o esparadrapo como tapume das fossas nasais demais a mais a chocar a urbe andante, a multidão é uma cidade que se mexe. Daí restava ao obtuso intruso excuso interpretador unir pontas extremidades a compor se não uma estória de valor uns rabiscos literários formais. Estaria se indagando o abelhudo nesse talvez nono encontro (um flerte é brabo, melhor:) no desencontro inventou inventar que a senhora não tendo nariz – aquele soco nas fuças por algum ser divino enraivecido – não tendo, não teria acaso a andar promovendo cirurgia plástica, implante de despiora! seria então se pôr a infeliz agora nesse reencontro na berlinda a propor: olhe minha gente como fiquei ou ficarei menos feia. Enfim parecendo estar em tratamento para melhora, uma melhora portanto.
Leona fugiu entretanto dos olhares facínoras e do público circulante, se escondendo novamente num vãozinho, sumiu.

Capítulo 8°
Contudo, e seria a oitava vez nos desencontros há um dado suficiente a espantar inteira uma reencarnação – sim Leona arranjou um amor! Nessa vez Treis percebendo mais um erro nos desacertos feito mulher; ou seja os olhos um verde outro castanho indo para nuanças escuras. Sim porque todos temos dois na mesma cor e isso remetendo o personagem autor à infância. Em menino, menino tem o péssimo costume abraçar por aí animais e depois levando para casa o bicho a bater o pé nessa propriedade e... deixa pra lá. Lá naqueles idos encontrou um gato numa visita dos pais aos compadres, na noite cerrada. Demais o gato miou talvez a imitar grosso como taquara rachada um cão ou qualquer outro irracional. Já assustando um pouco, depois descobririam ter três pernas, patas, e ter um olho verde outro preto! ah barbaridade disseram genitores, isso é arte do maligno imundo. Ninguém na época não temesse o diabo, mesmo dito na forma caipira diacho. Sumiram com aqueles dedos do demônio na casa! Bem, e agora descobrimos um verde outro escuro e aí como ficamos. Mandamo-la ao inferno, Leona? Todavia arranjou um amor...
Numa quinta ou sexta vez que a encontrou, isso no bairro de periferia rica da personagem... Cabe uma leve explicação a propósito da afirmativa. Existe o centro, onde o comércio a igreja e nele também moradias abastadas vetustas, apresentáveis; ora ninguém de sã consciência vai levar um visitante ilustre ao sanitário público, aliás o dessa megalópole que não passa de urbe de médio porte, o do centro é uma fedentina um cheiro horroroso, além da exposição de poesia de latrina. Não interessa. No arrabalde entretanto temos duas periferias. A pobre se confunde fácil com favela onde mereja água servida a correr de si mesma e para fora do perímetro urbano; e tem a periferia rica, não milionária e aqui sendo o centro, a rica pobre igualmente nas construções acabadas ou mal acabadas mas dispõe de certa estrutura como asfalto e sobretudo garagem! ah o carro, o carro é o deus desta civilização discutível por progredir tecnologicamente e quase regredir moralmente. Nessa vive numa casinha despretenciosa alugada parece encravada para horror da gente entre residências se bem pensando de gente de bem, por bens. Sim, ali tem dívida bate-boca diz que dizem. E o carro fulgura não ao desleixo porém lustroso; verdade com essa ventania diária a varrer fustigar Ventania – alguns a apelidam Ventania City, mas não sabemos com que propósito, talvez só por esnobismo. É com certeza a periferia rica, onde flagramos a estender roupa no varal do quintalinho, peças de roupa que criticam as vizinhas trapos, porque as mulheres do povo não têm contemplação com outras mulheres; assim atingem nossa Leona. O autor andava a xeretar? parece mas isto não interessa, ele a viu e precisou inventar mil e um artifícios a continuar seu estudo; até porque ela o principal personagem dos seus garranchos, e por garranchos ilegíveis. Sim, em quantas oportunidades precisou jogar no lixo o sulfite que é caro pra valer, por causa de ilegibilidade. Agora não, saiu inclusive num cursivo bem esquadrejado, a vaidosamente poder ser mostrado à oposição.
Pois é, aí reside a infeliz, infeliz e também pobre não miserável porque veio da assistência pública e estatal, ou não sobreviveria a coitada.
Então, aqui entra o amor; não a desfaçatez dum feio pleitear lugar ao sol, piormente sendo comprometido com a mansa temeridade... Um dia, me conta a olhar pra lá pra cá dona Seis, vizinha, um dia foi estuprada a pobre! aqui se condoendo a vizinha. Num beco desses à noitinha, ela fora comprar algo no supermercado; neste ponto Seis destrambelha prolixando a contar o desnecessário e o necessário de sua vizinha, picha um velho falador do bairro e diz e mesmo os parentes dela tendo vindo defendê-la e vieram em visita por sua língua, retoma o crime: um crime horroroso contra a horrorosa, pois ela o senhor bem sabe um canhão estragado. Encurtando, diz a prolixa criatura, encurtando um advogado daqui da vila, aí no 75, ele pendeu por sua defesa, sem nada ganhar! E não é que a bruta conseguiu provar pelo causídico a paternidade e assim recebeu pensão; morreu o sujeito e mais uma vez seu Nestor, doutor Nestor conseguiu pleitear aposentadoria; por invalidez, ela tem inclusive carteira da circular. (O autor fez sim com medo do prolongamento espichamento da estória da mulherinha); já sei falou dona Seis ainda: quer saber o fim do fruto daquele ventre nunca anteriormente usado, e até que não anda aqui nenhum absurdo: viu como amedronta assusta qualquer na rua por sua decantada feiura, uma feiura original pelo menos. Pois o garoto nasceu como a genitora deformado, filho de peixe peixinho é, não é? Era. Então viveu por dois ou três anos e graças a Deus falecendo ou... Ah, tem um dado desastroso e de capital importância à Leona, sabe que se chama Leona da Silva! O negócio é que é ateia a atoa. Andou por igrejas crentes por aí assustando a freguesia dos fiéis, nem eles a aceitaram enfear seus cultos – andou a frequentar as missas mas o Padre Germano com aquele sotaque horrível de alemão deu as contas pra ela. De maneira que vive encafifada encafuada no seu presídio, saindo do tugúrio apenas a ofender a gente no circular ou indo receber proventos no banco, assim mesmo ainda sempre alguém a ajuda sacar para se livrar da indesejável. Nas coisas oficiais sempre também auxiliada pelo Doutor, aliás um santo homem, só a mulher dele que nem é mulher sim amante, hoje se fala namorada não é? Era. Só ela que não presta e vive corneando o pobre; não senhor: a Leona de jeito nenhum, nenhum estroina ou louco a fazer-lhe a corte, por motivos óbvios. Assim vai vivendo minha vizinha; e aqui no bairro é sempre gozada pelos moleques, mas criança não tem mesmo piedade.
Ah que beleza é o amor. 

Capítulo 9°
 Sim, que beleza o amor os namorados a lua dos namorados...
 A lua é um sol de saia, a iludir inocentes namorados na fase cheia.
Nossa pobre Leona porém não teve em si esse arrebatamento, não teve na experiência vivida os sopros perfumados que agradam e sempre agradaram os corações que se encantam nos próprios passos, pobre dela. Não viveu a situação como os pares desfrutam e – se supõe – desfrutam a andar cadenciado, sem tempo sem hora pra chegar, sem precisar em não perder tempo pensando na coisa a viver a viver na coisa o instante a oportunide em fazer o outro feliz e felicitar-se da presença do coração ao lado, tão puro tão prometedor e enfim desfrutando lembretes divinos postos no íntimo lá no fundo do peito. Ir pra lá, o par não querendo e desejando muito... voltar pra cá, sem projeto, sem projeto sem prancheta sem conscientizar um fazer a fazer: mostrar somente ao namorado a flor, a flor roubada por ele e por ele mesmo ofertada como fosse propriedade milenar em suas mãos – enfim tudo mera ninharia, e o perfume da ninharia, tudo se eleva não só no conjunto como em cada uma das migalhas de um jardim público, ou mesmo no condenável afanar algo para seu amor num muro particular – e parece que todos dormem ou foram ao cinema... – ah o cinema, as pétalas postas a secar pela noite ao esparramo de vento! E se vai pra lá se vem de lá, os casais se cruzam; ele por homem e homem de memória curta ele não vê, vê ela que a outra é filha da senhora Cotinha, o namorado? aquele... todos passam e mais passam, os bancos alí expostos gratuitamente, os namorados não se cansam e os jovens se cheiram se espreitam se afagam se achegam... não dá tempo olhar se a chefia moral por ali: se beijam e mais se beijam por ordem do coração.
Quem não participou dessa experiência não vai querer ter direito a deixar o planeta impunemente.
Pois Leona nunca viveu passagens tão excitantes, tão oferentes, tão ricas em substâncias do coração. E aí, isto fá-la ainda mais pobre, não fosse já a pobreza, miséria mesmo, no físico deformado a expor muito asco nas vias públicas. A precisar viver (e isso será vida!) a viver entrincheirada na guerra da existência. Pior nisto é a sociedade como um todo entender precise ser assim... enfim é mais grave que toda gravidade que possa ferir a normalidade. Sim temos parcelas sociais conscientes, esclarecidas, que lhes basta um toque para correr ao sofredor salvar defender, limpar as sujidades do sereno os detritos ofensivos dos anos fogueteados rumo a esse ser fraco; mas em geral não é assim; é o massacre sobre sua face, o do fraco, o qual não tem como defender-se. Somente uma vez poderia ter sentido ela um pouco desse vivenciamento no amor; porém fora num estupro, portanto a violência! a violência que fere o homem de boa vontade.
Assim não tem lua, o sol mais forte por machão nem ele, não existe compensação que possa serenar poetas nesse caso tão marcante.

Capítulo 10°
Ora, parece-nos que a vida sonegou numa existência as flores as cores as fragrâncias do amor.
Sim, caro Dois, leitor paciente, parece de fato que a vida fora ingrata com essa Leona; não comigo. Saiba que bem ao contrário recebi certa inspiração nesse operar, mais ainda quando parecendo desafio invencível, visto me deslanchar: Quando estou criando, como hoje, me dá febre volúpia loucura quase, ao rolar da caneta. E me sinto como agora satisfeito, mesmo que a estória vire porcaria. Não é a coisa que me alimenta e sim a explosão no escrever a coisa. Sou assim, assim serei. Quanto à sina da pobre lamento; acho devesse ela mesma lamentar seus escarmentos, não lamenta; nunca fez isso no percurso e com isto trazendo atraindo a si mais problemas e dramas mais dores mais vexames e, daí, mais necessidade em se esconder; e menos aparecer para outras pessoas e mostrar-se à sociedade cobradora. Além do exposto, não lamenta por costume e por costume igualmente não xinga não fere outrem, sofre apenas.
Agora, acreditando piamente que outrem não esteja a entender afirmativas, é que parto a se não palmilhar passos seguir passadas dela no seu bairro, precisando ir atrás – isto em virtude de felizmente o resto da urbe pequena de médio porte desconhecer realmente sua cidadã; sim paga impostos taxas sem falar na contribuição financeira que faz ao supermercado o qual cobra para que leve cebolinha ou salsa, batatinha ou cebola e algum enlatado, cidadã de fato porém desconhecida no resto da Ventania. Não disse não-percebida desse resto pois onde vai vai o olho curioso no ver e eventualmente lastimar e ainda o habitual pichar a senhora.
Um belo dia, ah que expressão safada mentirosa feia ao menos, enfim certo dia ei-la a varrer aquelas folhas e os planfletos atrevidos que entram por baixo por cima e sujam, ei-la nesse trabalho digno mas... ah surge o deslize o escorrego desnecessário cometido: dona Seis, a senhora não queira saber as consequências que carrego desde aquele fatídico dia de paralisação da circular, a greve, a guarita o guarda-chuva, a gente, a mochila, a chuva sem parar... Fiquei horas aguardando e ainda tendo lá mal encarado um senhor Quatro, facínora, olhar medonho, oh me arrepio lembrar inclusive neste instante; e tinha concorrência de muita gente havendo pouco ponto e nenhuma circular, carona! Dessa maneira depois de horas e horas pus os pés na lama e marchei rumo de casa que foram mais horas andando a encurtar engolir os dez quilômetros até aqui. A senhora pensa que alguém me ofereceu ajuda! chegaram quase parar perto, olharam e não abriram a boca a porta prosseguiram e então precisei ainda caminhar a pé na chuva. Cheguei fiquei doente dias, já faz mês a greve não faz? continuo com sequelas. Nas sequelas admitiu o relembrar dia e noite o barulho compassado da chuva e pior nesse pior – neste pior do pior dela um melhor na curiosidade da vizinha, tanto perguntar espicaçar a extrair inclusive o último caldinho. É o seguinte – além dos travamentos e dores normais a um ser humano (Leona não obstante se considera normal, o comum discorda?) realmente, além disso tudo ficou-me um pensamento com som todas horas, horas de sono horas despertas: o barulhão da chuva na cabeça, faça escuro ameaçante e até no sol do meio dia. Como agora que narro para a senhora esta desdita!
A outra não mais abriu a língua, imediato pediu licença ver os estragos do Lulu, teria derrubado qualquer objeto com parentesco à louça na cozinha... Tornou à rua logo que a curiosidade permitiu exigindo a procurar outras orelhas vizinhas. Dona Oito, Leona tem visões! me declarou agorinha; tem escutas... do demônio interfere Oito, decerto... Contam-se coisas como as coisas devem parecer ao homem comum sem presilhas na língua das orelhas, soltas livremente mas à boca pequena, pois sendo decentes e figuras bem postas na periferia rica. Contudo, não dá negar – a coisa disparou sem controle como tiro de canhão no seu trajeto recocheteando em volta, impregnando em torno, para o bem da verdade.
E para o bem da verdade testifica a mentira, timbrada classificada carimbada no poder da lei do povo. Assim Leona passa por aí sem ser vista e já diferente de antes: agora uma perigosa mancomunada com a gente feia sim e também com a feia gente do outro mundo, a fazer parelha na sua feiura insustentável em ter no seu time agora os insuspeitos feios do mundo da malignidade.
 Por final, mesmo Seis a infernar o marido em pôr na imobiliária para troca a casa; o carro bastando o padre benzê-lo. Dessa forma uma das poucas vias a escutar Leona, tornou-se em poucos meses rara e logo sumiu, sumiu às insinuações do medo.
Marília  junho 2012



Nenhum comentário :

Postar um comentário