terça-feira, 27 de agosto de 2019

Dois Sonhos contra Um Pesadelo


Dois Sonhos contra Um Pesadelo

Cap.1º Dados Introdutórios
Com certeza, essa a dúvida, com certeza desejava ele me transferir de residência sem consultar-me. É o que imediato pensei ao notar-lhe o sorriso matreiro de sempre. De sempre. Não confiável visto quem vive a deixar transparecer a má-fé e a usar dissimulação diante das outras pessoas de fora e de dentro da casa, não pode ser confiável. Assim afirma aqui na cabeça a psicologia de fotografar outrem durante mais de oito décadas.
Assim José, meu Zezinho tão belo em menino agora um homem feito feio e a mostrar as unhas, tanto aos de casa sabedores quanto aos de fora, estes vendo possivelmente meu filho como respeitável empresário... A dissimulação não bem dissimulada aos íntimos não deixa mentir nem tergiversar. A mim não enganando.
Deixou (de propósito, indago, ou ao acaso e sem pensar e pesar a sagacidade paterna...) deixou que visse o boleto aberto, ao chocalhar indignado o papelinho na mão e aí meus olhos experientes viram comprovaram provaram até o objetivo do homem – um verdadeiro homem de negócios, frio e calculista – seu objetivo contra mim, contra seu próprio genitor ali cadeirante a ouvir-lhe queixas e explosões sobre familiares e seus problemas comerciais. Então pensei o mais baixo e inaudível se é que o pensamento possa ter voz, pensei o que ia naquela mente terrível. Que me importando, falei, em pensamento ainda, não se entendesse ele com minha nora; ela igualmente nada confiável e das noras a mais aduladora embora; que brigassem que discutissem que a traísse também – nada tendo com a coisa um pobre pai-e/ou-sogro às portas da morte. Contudo me exibia abertamente os podres de casa (diria "lar" àquilo!) No entanto, falando contando se abrindo, se desopilando apesar, expunha quem sabe sem perceber a extensão do ato; enfim mostrava a maldita folha timbrada com "Funerária São Martinho", a maior, não: praticamente a única da região e com agravante ver acaso meu nome como reserva... Reserva! pensei imediato defunto titular, então me indignei. Nada falando.
Fugi do meu eu; as orelhas aparentemente alertas abertas ao filho mais velho; mais velho e menos convincente no seu amor filial nestas últimas décadas.
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Os outros, exceção da menina hoje solteirona mas de coração, os outros da mesma laia. Quiçá a concordar com o primogênito nas atitudes, quase nunca amoráveis ao solitário pai. Certamente bateriam ou bateram palmas a acabar com o pouco poder que ainda me restando. Aliás é comum em nossa sociedade que os filhos tenham direito (ou 'direito') aos bens paternos e o pai não possa sequer questionar sobre os bens de seus próprios herdeiros. Sim herdeiros dos valores, não dos negativos dos valores dos quais fogem qual o diabo da cruz: ninguém quererá responder por dívidas que o progenitor porventura ou em desventura haja contraído. Inclusive usam expressões ambíguas como quando digo "minhas propriedades" respondem "nossas coisas" digo então "nossas avolumadas dívidas" a dúvida deles a responder "as dívidas pesadas de nosso pai"... Enfim acho injusta a sociedade.
Os outros filhos machos me deram noras e um que outro neto (sem me deixar carinhar... às vezes até se desvencilham deste velho para não ter o santo contanto com elinho!) Havendo mais casos entre eles que em vez de netos puseram em casa gatos e cachorros, os quais carinham e contam como fossem filhos, esquecendo mesmo a gente de rua, esparramada na frente de seus lares... Delas, as noras, só uma, a Vera, a ser mais compreensiva e delicada; não isso, isto: carinhosa e de coração enorme para comigo. Não obstante, ela e meu filho João não têm filho.
Os demais próximos – e não digo íntimos – os demais da família são indiferentes ou mesmo desejando abertamente meu desaparecimento a fim de poderem livremente brigarem e disputarem a herança. Aquela questão de propriedades, as que juntei ao longo da vida (aqui uso 'vida' à semelhança do homem comum, aliás sou um homem comum; seria mais adequado existência, ou tempo encarnado, segundo a Vera me diz, ela que é religiosa, o tempo em que devemos pagar erros anteriores ao nascimento; e tentar melhorar nossa combalida moral – porém isso tudo discutível:) enfim disputa pela propriedade, entretanto encaixo aqui a validade da ideia de propriedade, levando em conta ser algo ilícito; ela representaria um roubo, afanação contra os bens que são de todos. Ainda isto dito posto em pouco, suponho sim discutível.
De fato os demais parentes, de sangue ou sem, sem-sangue, este absurdo dizer; esses não sendo também confiáveis tanto quanto José...

Cap.2º Primeiro Sonho
Posto como posto, visto como visto ou suposto ao gosto do homem comum que represento, avançado num bem entendido na idade e na experiência talvez – a coisa entrou na fase crítica e desembestou. Se bem que nesse mal, aqui tomado figuradamente, desembestou porque fugi.
Fugi avancei estrada venci distâncias e espaços (e/ou dificuldades) em conclusão corri.
Mas... daí se indaga, não se trata dum cadeirante e ainda por cima (melhor pôr 'por baixo!') ainda por cima um velhote e portanto lerdo trôpego e inseguro; doente, isto é claro. Era, é aqui notado um senhor de poucos fios e cabelos brancos; encolhido na sua cadeira de rodas. E portanto que absurdidade o correr...
Bem, mal se explica para um homem normal vital novo ou producente à sociedade. Como então forçar ou só 'forçar' e a gente explicaria vermelho de vergonha com um recurso literário porém não é recurso nem abuso poético não. Sim, como explicar ou tentar esclarecer (inventar diria a oposição) como? se difícil inclusive a um corpo forte pronto válido preso à prisão duma cadeira um doente ou deficiente; é quase impensável; quase porque assim como a peneira não tapa o sol, o quase quase inexiste assim como o impensável porque tudo e em tudo se pensa. Vou além: alguns explicam o inexplicável a afirmar por exemplo o que não vejo não existe. E existe. Existe tudo que se pensa, mesmo o que não se podendo pegar apalpar pôr as mãos tateando. Como portanto dizer dessa não-existência então?
O fato é que é difícil esclarecer com palavras chãs a chãs criaturas sem a capacidade de imaginar.
Já imaginou um velho numa disparada (rumo ao nada!) a imitar quem sabe um corredor de carros de fórmula um, um igual se vê na tevê.
Forcemos um pouco esse entendimento através dos flagrantes.
Realmente naquele dia após aquela hora, o instante que vi o papel do boleto da prestação que José pagara (ou não: pagava com dificuldade por ser caloteiro; palavra de pai – meu primogênito atrasava o quanto podendo e por vezes em cartório a procrastinar pagamento para trabalhar com o capital assim retardado). Enfim o filho deveria haver pago a parcela e imagino o quanto de discussão com minha nora, ele não querendo saldar o compromisso com a Funerária enquanto ela ajeitando um jeito de quitar sim não prontamente porque nisto o casal se dava magistralmente... Pago ou não, eu vira a tremer-lhe da mão o documento que me implicava.
Claro. Lógico. Certo este errado, pois me mandaria mais cedo ver São Pedro e seu possível molho de chaves. Ah e nesse pensamento eu embutido e já pensando as falsidades da festa fúnebre com velório café cachaça anedota e choro na cara dos crocodilos – ora, como o pensamento voa! alguém dissera ou escrevera e concordo. Num lance entrevi tudinho e saí e me apressei e me esforcei e corri. Corri como dito aqui com essas cinco letras.
Bem. Isso vou agora descrever.
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Fá-lo-ei como posso, posso pouco em tremedeira nas mãos. De manhã é um tormento, até para segurar um talher a xícara de café, a tal ponto que por vezes sequer consigo reler depois um escrito meu. De tarde, mais de noite, a coisa despiora e fica próximo a usar caneta igual velhos tempos este velho. Idoso, se se quiser 'semantizar' um sofrimento, uma verdade.
Engatei primeira... quando jovem válido dirigia um fordeco e engrenava para sair a primeira marcha; depois um pouco pisava no acelerador dando rapidez e engatava a segunda e depois ainda a terceira, só havendo nos veículos da época três marchas. Engrenei a primeira e já com a língua nos dentes, apressado a segunda, loguinho estava em terceira, corri – numa cadeira de rodas esse correr e deslocar sendo absurdamente rápido.
Estava a sair da Avenida. Nossa cidade tem na parte alta uma avenida central com o nome do fundador. Demais logradouros se encaminham para baixo rumo à periferia esburacada e sem asfalto, que fossem paralelepípedos, não: as fraldas da urbe são descalças e assim as encontrei quando consegui me desvencilhar do pesadelo na iminência do boleto ser pago à Funerária até chegar ao sonho que fora o fugir. Fugir!
Os que porventura me observando na avenidona ou dela na direção da primeira rua, inclinada falei, da fuga para a primeira rua, a Rua Bento; aqueles que viram não viram grande coisa apenas o comum do homem comum, deficiente na sua cadeira de passar por aí e bater papo com os amigos (ora bolas, que amigos! o que temos são conhecidos que por vezes privam com a gente as coisas da gente, a fim de poder também contar de suas próprias coisas e isso não sei se é propriamente amigos, talvez não, entretanto não exageremos igualmente). Tudo, tudinho nos conformes – ninguém terá ligado; ou ligado a nossa presença e a nossa passagem (eu e a cadeira, esta meu veículo a me deslocar sempre na urbe). Ao menos não interpretaram como sendo fuga. Indagariam uns aos outros fuga pra quê? Nós pobres seres humanos andamos longe de medir a extensão dos dramas dos que passam vez que outra numa cadeira andante, meu caso, e nem aí iriam avaliar para entender a fuga e menos uma corrida como fosse a de automóveis. Sim, era bem a velocidade abusada da pressa...
Contudo ninguém indagou o porquê. Se acaso notando. É curioso o fato de por vezes a gente ver algo e não ver; prontamente não vendo, apenas depois ou muitíssimo depois fazendo a fotografia do visto; quase sempre distorcendo a cena ou só adulterando sem ter consciência estar 'inventando' um dado; ou então 'vê' ampliando a visão da hora 'vista' ou cortando aparas do essencial. Aqui um dado válido: geralmente o ser não desejando adulterar, mentir menos ainda, os fatos sobre a dita cena.
Assim os que viram, ou sequer perceberam, andavam a flagrar um pai a fugir meio desesperado do filho, dos filhos, da família que dava mostra querer enterrá-lo antes do tempo. Isso minha opinião, decerto os meus não sustentariam a afirmativa. Os transeuntes e os que parados apreciavam o movimento na Avenidona, esses não posso garantir tal forma de pensar; nem haverem chegado às mesmas conclusões desta vítima. Sim porque me punha vítima naquele momento.
Talvez hajam pensado em algo estranho, inusitado, na minha passagem, a cadeira engrenada na mais rápida velocidade, avesso a quaisquer empecilhos como conduções outras no caminho e pedras soltas e buracos muitos buracos em vão no asfalto recente mas já rachado ou carcomido por enxurradas no último tempo das águas. Isto sim foi problema.
No entanto não contarei todas peripécias dessa corrida mais ou menos maluca que empreendi na fuga de casa. Algumas. Algumas merecem trato da memória por importantes relembranças dum sofrimento. De fato aquilo vinha do sofrimento, a insegurança é um sofrer vazio cheio de preocupações.
O primeiro drama entre os mais autênticos foi no cruzamento ou cruzamentos, a cena se repetindo até quase o final do percurso – eu tinha em mente chegar ao Baixadão tido e dito pela burguesia que meus familiares e amigos ou próximos representavam, como violento e um inferno à sociedade ocidental. Local de casebres de pessoas paupérrimas e más aos bons costumes. Ah quanta desgraça ajunta o homem rico ou assim desejoso de o ser ao pobretão mal vestido para quem se nega emprego e tratamento digno nos institutos oficiais. Oh, que fazer! é a conclusão da classe social dominante.
Era isso que me esperava.
Nas travessas veículos apressados ou não esbarravam na minha pressa. Pressa por quê? pensamos que um idoso em fim de carreira não tenha carreira, que faça tudo devagarinho, devagarinho. Eu tinha pressa. A cadeira não.
Ela se enroscava. Ela retardava a marcha. Ela trabalhava de bandido contra o chofer, eu.
Um em tempo: dois ou três carros frearam a esperar-me a passagem. Agradeci de cabeça, como é hábito dos condutores e a gente comum a passar – no meu caso uma cadeira de rodas; a borracha das rodas já também velha e seca, porém maciça a roda, fosse pneu e câmara quem sabe não furassem e aí aqui um problema que não tive; tive outros. Num 'belo' instante a bateria arriou, fora enfraquecendo no uso no abuso de não ter havido trato e daí como falam "pifou" acabou de vez, lerdeando atrasando meu atraso – atraso porque minha pressa mal contida tinha pressa: não via a hora de chegar, quiçá ao descanso. Não: queria mais que um descanso eventual. Pretendia me esconder... desaparecer dos olhares dos meus coveiros!
Que fiz? o comum do homem comum. Passei a me deslocar empurrando com as mãos, elas a guiar as rodas. É muito lógico, devagar, o mais lerdamente possível à minha ânsia, ânsia de escapar, vivo. Porque ao morto o cemitério, admitamos.
Todavia o sonho não acabou aqui.
  Encontrei a gente simples que precisava.
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Agora tinha outro cenário à minha vista. Desolador? desolador porém mui menos desolador que o 'lar' me ofertara até ontem, hoje a compreensão o carinho afagando meu cansado corpo; sobretudo a musculatura dos braços os quais se esfalfaram a empurrar meu veículo com os membros a doer. As pernas, ah as pernas! as pernas já descansavam imobilizadas deformadas amiudadas encolhidas por mais de um ano sem uso, sem se acostumar as pobres.
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Chegara! Chegara ao fim enfim ao fim do começo de meu sonho... Oh o sonho os sonhos muitas vezes resultam em nada, igual bolha bela colorida de sabão ao sol a se rebentar e este o grande drama humano: não contemos nossa expectativa nossa imaginação sem peias, o sonho vira realidade, num pesadelo. Não. Acabara de fato pra mim não o sonho – a primeira fase dele e agora me deparava com a área da tristeza, do horror, da desmoralização, do sub-humano, no pensar do super-homem como se põe o civilizado, quiçá apenas um burguês bem-posto. Entrara, chegando, então, no inferno! na vida da vila pobre e a me candidatar a todo e qualquer sofrimento, à toda e qualquer tristeza, à decomposição moral.
Olhe lá! pensamento burguês que eu trouxera embutido na minha formação, estando numa cadeira de rodas que me empurrava eu a empurrando com braços exaustos.
Contudo tudo às avessas, nada certo nesse errado. Fui bem recebido.
Já no limiar disso que chamo provisoriamente vila da miséria; à entrada dessa sem-saída os meninos (vistos como  visto pela burguesia) tais meninos me descobrem – e que novidade e tanto em sua rotina! – me notam e avançam ao brinquedo... a uma criança, qualquer criança todas crianças, tudinho é brincadeira; e o conjunto velho-e-cadeira tornando-se brinquedo na supernovidade. Naturalmente houve os moleques ariscos e a espreitar apenas mas estes logo se uniram à turma da bagunça a me empurrar, auxiliando aliviando as minhas mãos que pediam cansadas socorro. Fizeram aos gritos com imensa alegria uma farra simples e benfazeja a nós ambos, ela cadeira com rodas já meio estropiadas e eu um velho aventureiro. Sim, sempre tive espírito de aventura e sentindo uma atração ao desconhecido e isto mostrarei melhor no Segundo Sonho. Agora o Primeiro, a chegada.
Suas mães mestiças ou escuras, elas – aflitas umas preocupadas outras por seus filhos, aquela velha questão do temor pelos abusos do filho e no filho que as genitoras sentem e creio seja instintivo – suas mães berravam as crias, sem saber se as continham se as incentivavam. Cedo compreenderam aquela nova realidade, a de meu aparecimento esdrúxulo na rotina delas e dos seus. Homens adultos e válidos quase nenhum vi, ou trabalhando lá em cima na urbe com sua civilização endinheirada, ou a biscatear eles qualquer ganho na sua costumeira perda. Dois ou três meio cadeirantes ou somente contidos na sua deficiência física percebi ali, aqui assustando este velhote pela novidade; nunca pensara no sofrimento de meus iguais desigualados, desigualados porque o cadeirante chegado presumivelmente rico eles pobretões sem recursos. Todavia quase como que imediato deu-se a harmonização e daí conversamos e nos convencemos sermos tão só irmãos melhor vestidos e mal vestidos na exigência do traje.
Bem, expliquei por alto minha desdita, sem tocar na síndrome do meu para-enterro é óbvio. Narrei a fuga mais no sentido da necessidade de fugir de minha rotina; diria, pensei não disse, que a cadeira despencara correr e... ah não me atrevi, não minto; também não exercito o ódio – essas duas condições admito como positivo nesta minha estada na Terra; sei entretanto que ainda tenho de sobra outros mais defeitos. Não menti – narrrei o trajeto e pus um que outro aspecto nesse caminhar; puxei mais ao hilário, bem dentro do meu proceder porque não é de meu hábito explorar cenas desagradáveis para ter público.
O público aumentava, de repente toda a vila ao meu redor e quase à minha disposição. Os meninos gritavam alegres o acontecimento sui generis, afinal não é comum aparecer um veículo daquele e choferado por um quase-morto, vivo em sua própria defesa. Uma farra autêntica, um carnaval alegre naquela tristeza a mim desconhecida. Fui bem recebido e mais que isso, isto conta demais, e mais que isso fui bem compreendido!
Assinalo enfim que ali naquele sonho real iniciava e vivia e convivia com uma família. Família sim, com briguinhas e até bate-bocas infindáveis e lágrima e choro; mas com o mando da alegria e a naturalidade dos bons e desinteressados (eu que fugira literalmente dos interessados distorcidos... assim avaliava bem).
A tristeza a violência a luta terrível na opinião do conservadorismo quem sabe – a crença da oposição ali agora se punha presente: me lembrava constante o porquê da fuga e sabia que essa oposição não se entregaria... Logo fiz aos novos amigos (ou poria novos familiares!?) fi-los saber que tendo ao meu encalço a família burguesa. Não desci a pormenores desnecessários; os novos amigos nunca saberiam desejarem meus filhos me enterrar vivo! eu me sentindo vivíssimo. Por alto contei ser perseguido e assim se tornaram além de amigos protetores e inclusive meus cúmplices; defensores com certeza, praticamente me adotaram qual filho. Sobretudo um grupo de mulheres e mais ainda a Maria, que agora a mim se elevara à condição santa de mãe, essas me defenderam, literalmente escondendo-me e a deixar os meninos de plantão monitorando a área; entre os meninos destacaria o Tiquinho mais empenhado na minha defesa; todos atentos à possível presença de gente estranha que chegasse, atentos aos barulhos outros como o do helicóptero a farfalhar hélices curioso com o que lá embaixo, aqui embaixo – à procura duma cadeira fugitiva, que escapara da exploração da família original e bem posta. A geringonça de hélice sonante vasculhava as imediações de lá do alto – umas poucas vezes baixando quase no terreiro malvisto da vila de periferia. Contudo nada anormal constataram, em não ser moleques pulando e berrando. Anteriormente houvera uma caçada desse tipo a averiguar-prender um fora da lei; agora não podiam as vistas da polícia vigilante determinar este fora da lei e ofensor dos bons costumes...
O Estado desperdiçou com a queima de combustível e a deslocação da aeronave com homens fardados à disposição muito a me procurar... e não achar. Até ao fim do sonho não me encontraram. Embora o ridículo a que se expuseram, de varejarem inclusive pastos e capoeiras nas imediações longe donde me acobertavam os amigos da vila, mais a Maria a liderar os companheiros, insisto nisso por dever muitíssimo a ela. Com respeito a essa criatura, pratico quase um desrespeito não narrando mais profundo, sua vida por exemplo. Precisaria também elevar outras e outros companheiros ali. Não o faço porque o texto viraria romance; e não passa de uma simples novela, gênero em que não se aborda profundamente, em não ser uma que outra questão.
Sobre os policiais ainda, cansaram na procura. E, acreditei, desistiram de vez.
Toquei no aspecto ridículo da procura na mata largada perto-longe da vila pobre porque realmente seria um absurdo que um velhote numa cadeira também velha, que ele pudesse correr e se esconder na vegetação, não podendo direito sequer deslizar por vias esburacadas asfaltadas da urbezinha lá em cima, a cidade se imaginando metrópole.
Apesar de tudo convivi bem na pobreza; a vila me tratou como seu filho como seu pai como seu parente, com deferência com boa vontade.
Pensei, naturalmente os meus não devem ter desistido. Imaginei as lágrimas das noras mais dissimuladas e até choro dos filhos; decerto todos constrangidos diante dos seus iguais e a dar explicações, inventadas. Isso se é que os parentes não contabilizaram ganhos como vítimas... (e seria então vítimas desta vítima...)
Mas o sonho acabou. Parti, agora condoído pela dor e o sentimento com a sinceridade dos meus pobretões; os quais dividiram por meses comigo seu alimento, por vezes tirando da boca de seus meninos a me tratar. Dignamente. Parti ao Segundo Sonho.

Cap.3º Segundo Sonho
Estranhamente me dispus, ainda no 'lar' burguês, diante do filho José, dos outros entes mais ou menos queridos, me dispus em mostrar meu pesadelo, e deveria ser dele o último ao acordar. Parti logo em Primeiro Sonho na fuga e na estada no meu lar provisório, pobre sim, o que não choca por ser o mais encontradiço num país grande e também pobre. Agora o sonho continua; ou antes que isso – o novo sonho se concatena àquele Primeiro; tal qual (e foi o caso) alguém indormido que sonha dormir, com todas benesses que um sonho proveja a um poeta cansado desgastado embromado na vigília amarga e insegura; para, assustado, acordar; para finalmente, ah nunca existiu o final de coisa alguma, para em final dormir, 'redormir', e experimentar novo sonho, gostoso bom harmonioso e... ai meu Deus! por que deve haver um acordar e este definitivo ('definitivo' porque os poetas nunca completam e estão sempre a dever...) Sim, digo, por que deverá a gente acordar e viver definitivo pesadelo!!!
Na vila pobre que chamei meu lar, ali cobriram-me de cuidados e carinhos, estes que são manifestações da tolerância e da compreensão, da caridade; na vila como vimos em meio à molecada, sobressaía o garoto Tiquinho – estando em idade com seus quatorze anos de existência porém pequeno de tamanho por mirrado encolhido retardado no crescimento físico. Tiquinho, após mês entre os seus aquele velho dependente e escondido defendido por todos, Tiquinho me propôs com aceitação imediata uma forma de não ficar exposto e ao mesmo tempo fugir dos meus caçadores. Na hipótese do alvitre aceito, ficaria como ganho também não pesar meu custo aos seus, deixando que as autoridades burguesas só entrassem naquele gueto à procura de bandidos ou apenas os fora da lei ali escondidos, com mais razão do que eu, um velhote que passava o tempo como clandestino e velado ou abertamente a brincar com os garotos. Propôs, aceitei, que 'comprássemos' uma carroça a despencar ou algo parecido a uma charrete tosca a descambar e também seu motor: um burro velho manso, dum tal de seu Januário que vivia próximo. Negócio aceito feito sem preconceito e com vantagem.
Neste ponto entra uma questão séria, seríssima. O dinheiro.
Partira afobado e numa velocidade espantosa e astronômica a mera cadeira de rodas, na ânsia de fugir do filho, de seu boleto, de sua Funerária, de minha morte lógica quanto dois mais dois quatro. E me esqueci pegar dinheiro; tinha de reserva umas notas grandes em pequeno volume debaixo de pastas com papéis imprestáveis, escondidas portanto. Sequer me ocorreu pegá-las; e também não pensara correr ao banco; onde ia sempre como distração ver o saldo e azucrinar funcionários, pois dinheiro pra quê! vivendo o velhote em casa e sendo tratado por sua gente. Verdade que José andava a reclamar pela crise e a me pedir sacar numerário para cobrir gastos que exagerava e a esposa inventava me sorrindo falsidades. Enfim por uma ou outra saída, saí correndo fugindo me escondendo mas sem o vil metal. E agora!
Bem, mal percebi isso, estando semanas entre meus companheiros pobres e necessitados e, pior, a viver às suas custas. Agora o alento de fugir acobertado fingindo-me carroceiro ou charreteiro – que policial iria desconfiar?
E o dinheiro! Adquirimos o veículo e seu combustível, não o combustível, o motor (um animal manso e velho próprio a ir ao matadouro virar mortadela, tadinho) – tudo com promessa de pagar a compra e a despesa que acarretei aos amigos na vila; um dia "um dia" garanti a Januário; o Tiquinho como testemunha.
Assim partimos certa madrugada. Uma em que a polícia dormia a se preparar ao trabalho do dia seguinte. Aliás em cidade pequena do interior nem a delegacia dá plantão noturno. O ideal pra escapar do flagrante.
Partimos. Tive, meu coração teve, tive de beijar as crianças meio dormindo meio acordadas e sonolentas; e chorar até copiosamente na despedida da Maria pela afeição, minha mãe adotiva; e senti no instante como a que perdera dezenas de anos atrás ao caixão...
Chuviscava. Até, pensei, os céus se comoveram nessa segunda fuga ao Segundo Sonho. Partimos a esmo. Andamos até o clarear ainda a esmo; a mim o escuro indefinido desconhecido, ao meu guia o mais ou menos do conhecimento. Passamos por automóveis notívagos, passamos por andarilhos perdidos – sempre contra a direção que tomávamos. Tiquinho a meu lado na boleia e a rosnar pela lerdeza do burro paciente e vagaroso. Horas. Horas? sei lá. Lá chegamos num onde ignorado a nós ambos humanos; para o animal não, sim conhecia e guiado pela fome se pôs a mastigar ervas no primeiro dos descansos. Não primeiro, no último e definitivo, definitivo enquanto dure lembra o poeta ao poetastro...
O sol e todo o tempo a nosso favor. Dias. Meses! não tínhamos calendário; a cultura analfabeta do mocinho-menino afirmava meses. Ah até os meses têm fim...
No correr desse tempo fizemos – eu mais que meu amigo e guia – fizemos grandes pescarias. Sempre o menino agora velho cadeirante pescara. Em criança trabalhava sim com a família, pobre então; mas todos dias à tarde e emendando a noite vivia na beira dos córregos, morávamos na roça. Uma delícia, uma felicidade. Sem pensar que era feliz e não sabia, sabia do contentamento que me dava a pesca de peixes miúdos; sozinho e a ouvir a mãe me chamar contra os perigos, a cobra por exemplo. Agora retomo essa deliciosa atividade; deliciosa e também com objetivo de alimentação.
Realmente é preciso comer. Não se vive apenas de prováveis lambaris a pratear no anzol. Os apetrechos trouxera Tiquinho, eu não poderia de bolsos vazios comprar ou encomendar aos amigos da vila nada. Já disse fugira ao Primeiro Sonho tão só com a roupa do corpo e meu documento de identidade o qual sempre andava escondido nos meus bolsos. Contudo, ainda falhei porque não trouxera na fuga e ânsia da fuga os documentos relacionados ao banco. Portanto andava tal qual Adão, sem nada; embora identificado.
Não caçava. Disse ao meu comandado; Tiquinho era espécie de meu empregado; a receber o salário quando "Deus quiser" afirmara – disse estar proibida a caça pois os animaizinhos puros... ora, não eram igualmente puros os peixes! Enfim vivíamos da provisão na matula trazida por meu guia e submisso amigo. Aí a reserva trazida se acabara...
Agora um novo drama: como comprar alimento. Não dispunha centavo. Resolvi irmos à cidadezinha mais próxima, longe da ponte da estrada que passava por cima do rio. Assim fizemos.
Procuramos a única casa bancária, por sorte a de meu banco; falei ao gerente, me identifiquei; e mesmo sem a documentação própria ao saque, o funcionário me permitiu retirar por cheque avulso uma importância. Mês depois, nas mesmas condições, novo saque. E mais outros.
Que fiz? mandei Tiquinho ir pagar Januário pela compra da carroça e do burro; e a rever os seus parentes (nossos digo, nossos de coração) instruí deixar numerário suficiente com eles em auxílio e ainda ficamos com certa soma, para termos na ponte o caixa a eventualidades. Ora, nessas eventualidades não entrando remédios, em não ser um xarope ao garoto, o velho deixara 'mocificado' de todo e qualquer veneno que a máfia de branco receitava e impunha à família burguesa e que o velhote ingeria, então um burguês e apto aos bons costumes.
Mas... no entanto todavia entretanto porém contudo – tudo aqui foram os dias felizes em que passamos retirados da suposta civilização; vivendo fortes e alegres e seguros... Então eis que o pesadelo me atropela!!
Decerto o banco e minhas visitas ao dinheiro me identificaram e me localizaram.
Ainda noite a receber claridade e o sol do dia – para, nos assustando, uma viatura lá em cima na estrada na ponte na ligação com a civilização de bons costumes e maus agouros...
São Paulo   julho  2018



         



             

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