Dois
Sonhos contra Um Pesadelo
Cap.1º Dados
Introdutórios
Com
certeza, essa a dúvida, com certeza desejava ele me transferir de residência
sem consultar-me. É o que imediato pensei ao notar-lhe o sorriso matreiro de
sempre. De sempre. Não confiável visto quem vive a deixar transparecer a má-fé
e a usar dissimulação diante das outras pessoas de fora e de dentro da casa,
não pode ser confiável. Assim afirma aqui na cabeça a psicologia de fotografar
outrem durante mais de oito décadas.
Assim
José, meu Zezinho tão belo em menino agora um homem feito feio e a mostrar as
unhas, tanto aos de casa sabedores quanto aos de fora, estes vendo
possivelmente meu filho como respeitável empresário... A dissimulação não bem
dissimulada aos íntimos não deixa mentir nem tergiversar. A mim não enganando.
Deixou
(de propósito, indago, ou ao acaso e sem pensar e pesar a sagacidade
paterna...) deixou que visse o boleto aberto, ao chocalhar indignado o
papelinho na mão e aí meus olhos experientes viram comprovaram provaram até o
objetivo do homem – um verdadeiro homem de negócios, frio e calculista – seu
objetivo contra mim, contra seu próprio genitor ali cadeirante a ouvir-lhe
queixas e explosões sobre familiares e seus problemas comerciais. Então pensei
o mais baixo e inaudível se é que o pensamento possa ter voz, pensei o que ia
naquela mente terrível. Que me importando, falei, em pensamento ainda, não se
entendesse ele com minha nora; ela igualmente nada confiável e das noras a mais
aduladora embora; que brigassem que discutissem que a traísse também – nada
tendo com a coisa um pobre pai-e/ou-sogro às
portas da morte. Contudo me exibia abertamente os podres de casa (diria
"lar" àquilo!) No entanto, falando contando se abrindo, se
desopilando apesar, expunha quem sabe sem perceber a extensão do ato; enfim
mostrava a maldita folha timbrada com "Funerária São Martinho", a
maior, não: praticamente a única da região e com agravante ver acaso meu nome
como reserva... Reserva! pensei imediato defunto titular, então me indignei.
Nada falando.
Fugi
do meu eu; as orelhas aparentemente alertas abertas ao filho mais velho; mais
velho e menos convincente no seu amor filial nestas últimas décadas.
-
- -
Os
outros, exceção da menina hoje solteirona mas de coração, os outros da mesma
laia. Quiçá a concordar com o primogênito nas atitudes, quase nunca amoráveis
ao solitário pai. Certamente bateriam ou bateram palmas a acabar com o pouco
poder que ainda me restando. Aliás é comum em nossa sociedade que os filhos
tenham direito (ou 'direito') aos bens paternos e o pai não possa sequer
questionar sobre os bens de seus próprios herdeiros. Sim herdeiros dos valores,
não dos negativos dos valores dos quais fogem qual o diabo da cruz: ninguém
quererá responder por dívidas que o progenitor porventura ou em desventura haja
contraído. Inclusive usam expressões ambíguas como quando digo "minhas
propriedades" respondem "nossas coisas" digo então "nossas
avolumadas dívidas" a dúvida deles a responder "as dívidas pesadas de
nosso pai"... Enfim acho injusta a sociedade.
Os
outros filhos machos me deram noras e um que outro neto (sem me deixar
carinhar... às vezes até se desvencilham deste velho para não ter o santo
contanto com elinho!) Havendo mais casos entre eles que em vez de netos puseram
em casa gatos e cachorros, os quais carinham e contam como fossem filhos,
esquecendo mesmo a gente de rua, esparramada na frente de seus lares... Delas,
as noras, só uma, a Vera, a ser mais compreensiva e delicada; não isso, isto:
carinhosa e de coração enorme para comigo. Não obstante, ela e meu filho João
não têm filho.
Os
demais próximos – e não digo íntimos – os demais da família são indiferentes ou
mesmo desejando abertamente meu desaparecimento a fim de poderem livremente
brigarem e disputarem a herança. Aquela questão de propriedades, as que juntei
ao longo da vida (aqui uso 'vida' à semelhança do homem comum, aliás sou um
homem comum; seria mais adequado existência, ou tempo encarnado, segundo a Vera
me diz, ela que é religiosa, o tempo em que devemos pagar erros anteriores ao
nascimento; e tentar melhorar nossa combalida moral – porém isso tudo
discutível:) enfim disputa pela propriedade, entretanto encaixo aqui a validade
da ideia de propriedade, levando em conta ser algo ilícito; ela representaria
um roubo, afanação contra os bens que são de todos. Ainda isto dito posto em
pouco, suponho sim discutível.
De
fato os demais parentes, de sangue ou sem, sem-sangue, este absurdo dizer;
esses não sendo também confiáveis tanto quanto José...
Cap.2º Primeiro Sonho
Posto
como posto, visto como visto ou suposto ao gosto do homem comum que represento,
avançado num bem entendido na idade e na experiência talvez – a coisa entrou na
fase crítica e desembestou. Se bem que nesse mal, aqui tomado figuradamente,
desembestou porque fugi.
Fugi
avancei estrada venci distâncias e espaços (e/ou dificuldades) em conclusão corri.
Mas... daí se
indaga, não se trata dum cadeirante e ainda por cima (melhor pôr 'por baixo!')
ainda por cima um velhote e portanto lerdo trôpego e inseguro; doente, isto é claro.
Era, é aqui notado um senhor de poucos fios e cabelos brancos; encolhido na sua
cadeira de rodas. E portanto que absurdidade o correr...
Bem, mal se
explica para um homem normal vital novo ou producente à sociedade. Como então
forçar ou só 'forçar' e a gente explicaria vermelho de vergonha com um recurso
literário porém não é recurso nem abuso poético não. Sim, como explicar ou
tentar esclarecer (inventar diria a oposição) como? se difícil inclusive a um
corpo forte pronto válido preso à prisão duma cadeira um doente ou deficiente;
é quase impensável; quase porque assim como a peneira não tapa o sol, o quase
quase inexiste assim como o impensável porque tudo e em tudo se pensa. Vou
além: alguns explicam o inexplicável a afirmar por exemplo o que não vejo não
existe. E existe. Existe tudo que se pensa, mesmo o que não se podendo pegar
apalpar pôr as mãos tateando. Como portanto dizer dessa não-existência então?
O fato é que é
difícil esclarecer com palavras chãs a chãs criaturas sem a capacidade de imaginar.
Já imaginou um
velho numa disparada (rumo ao nada!) a imitar quem sabe um corredor de carros
de fórmula um, um igual se vê na tevê.
Forcemos um
pouco esse entendimento através dos flagrantes.
Realmente
naquele dia após aquela hora, o instante que vi o papel do boleto da prestação
que José pagara (ou não: pagava com dificuldade por ser caloteiro; palavra de
pai – meu primogênito atrasava o quanto podendo e por vezes em cartório a
procrastinar pagamento para trabalhar com o capital assim retardado). Enfim o
filho deveria haver pago a parcela e imagino o quanto de discussão com minha
nora, ele não querendo saldar o compromisso com a Funerária enquanto ela ajeitando
um jeito de quitar sim não prontamente porque nisto o casal se dava
magistralmente... Pago ou não, eu vira a tremer-lhe da mão o documento que me
implicava.
Claro. Lógico.
Certo este errado, pois me mandaria mais cedo ver São Pedro e seu possível
molho de chaves. Ah e nesse pensamento eu embutido e já pensando as falsidades
da festa fúnebre com velório café cachaça anedota e choro na cara dos crocodilos
– ora, como o pensamento voa! alguém dissera ou escrevera e concordo. Num lance
entrevi tudinho e saí e me apressei e me esforcei e corri. Corri como dito aqui
com essas cinco letras.
Bem. Isso vou
agora descrever.
- - -
Fá-lo-ei como
posso, posso pouco em tremedeira nas mãos. De manhã é um tormento, até para
segurar um talher a xícara de café, a tal ponto que por vezes sequer consigo
reler depois um escrito meu. De tarde, mais de noite, a coisa despiora e fica
próximo a usar caneta igual velhos tempos este velho. Idoso, se se quiser
'semantizar' um sofrimento, uma verdade.
Engatei
primeira... quando jovem válido dirigia um fordeco e engrenava para sair a
primeira marcha; depois um pouco pisava no acelerador dando rapidez e engatava
a segunda e depois ainda a terceira, só havendo nos veículos da época três marchas.
Engrenei a primeira e já com a língua nos dentes, apressado a segunda, loguinho
estava em terceira, corri – numa cadeira de rodas esse correr e deslocar sendo
absurdamente rápido.
Estava a sair
da Avenida. Nossa cidade tem na parte alta uma avenida central com o nome do
fundador. Demais logradouros se encaminham para baixo rumo à periferia esburacada
e sem asfalto, que fossem paralelepípedos, não: as fraldas da urbe são
descalças e assim as encontrei quando consegui me desvencilhar do pesadelo na
iminência do boleto ser pago à Funerária até chegar ao sonho que fora o fugir.
Fugir!
Os que
porventura me observando na avenidona ou dela na direção da primeira rua,
inclinada falei, da fuga para a primeira rua, a Rua Bento; aqueles que viram
não viram grande coisa apenas o comum do homem comum, deficiente na sua cadeira
de passar por aí e bater papo com os amigos (ora bolas, que amigos! o que temos
são conhecidos que por vezes privam com a gente as coisas da gente, a fim de
poder também contar de suas próprias coisas e isso não sei se é propriamente amigos,
talvez não, entretanto não exageremos igualmente). Tudo, tudinho nos conformes
– ninguém terá ligado; ou ligado a nossa presença e a nossa passagem (eu e a
cadeira, esta meu veículo a me deslocar sempre na urbe). Ao menos não interpretaram
como sendo fuga. Indagariam uns aos outros fuga pra quê? Nós pobres seres
humanos andamos longe de medir a extensão dos dramas dos que passam vez que outra
numa cadeira andante, meu caso, e nem aí iriam avaliar para entender a fuga e
menos uma corrida como fosse a de automóveis. Sim, era bem a velocidade abusada
da pressa...
Contudo ninguém
indagou o porquê. Se acaso notando. É curioso o fato de por vezes a gente ver
algo e não ver; prontamente não vendo, apenas depois ou muitíssimo depois fazendo
a fotografia do visto; quase sempre distorcendo a cena ou só adulterando sem
ter consciência estar 'inventando' um dado; ou então 'vê' ampliando a visão da
hora 'vista' ou cortando aparas do essencial. Aqui um dado válido: geralmente o
ser não desejando adulterar, mentir menos ainda, os fatos sobre a dita cena.
Assim os que
viram, ou sequer perceberam, andavam a flagrar um pai a fugir meio desesperado
do filho, dos filhos, da família que dava mostra querer enterrá-lo antes do
tempo. Isso minha opinião, decerto os meus não sustentariam a afirmativa. Os
transeuntes e os que parados apreciavam o movimento na Avenidona, esses não
posso garantir tal forma de pensar; nem haverem chegado às mesmas conclusões
desta vítima. Sim porque me punha vítima naquele momento.
Talvez hajam
pensado em algo estranho, inusitado, na minha passagem, a cadeira engrenada na
mais rápida velocidade, avesso a quaisquer empecilhos como conduções outras no
caminho e pedras soltas e buracos muitos buracos em vão no asfalto recente mas
já rachado ou carcomido por enxurradas no último tempo das águas. Isto sim foi
problema.
No entanto não
contarei todas peripécias dessa corrida mais ou menos maluca que empreendi na
fuga de casa. Algumas. Algumas merecem trato da memória por importantes relembranças
dum sofrimento. De fato aquilo vinha do sofrimento, a insegurança é um sofrer
vazio cheio de preocupações.
O primeiro
drama entre os mais autênticos foi no cruzamento ou cruzamentos, a cena se
repetindo até quase o final do percurso – eu tinha em mente chegar ao Baixadão
tido e dito pela burguesia que meus familiares e amigos ou próximos representavam,
como violento e um inferno à sociedade ocidental. Local de casebres de pessoas
paupérrimas e más aos bons costumes. Ah quanta desgraça ajunta o homem rico ou
assim desejoso de o ser ao pobretão mal vestido para quem se nega emprego e
tratamento digno nos institutos oficiais. Oh, que fazer! é a conclusão da
classe social dominante.
Era isso que me
esperava.
Nas travessas
veículos apressados ou não esbarravam na minha pressa. Pressa por quê? pensamos
que um idoso em fim de carreira não tenha carreira, que faça tudo devagarinho,
devagarinho. Eu tinha pressa. A cadeira não.
Ela se
enroscava. Ela retardava a marcha. Ela trabalhava de bandido contra o chofer,
eu.
Um em tempo:
dois ou três carros frearam a esperar-me a passagem. Agradeci de cabeça, como é
hábito dos condutores e a gente comum a passar – no meu caso uma cadeira de rodas;
a borracha das rodas já também velha e seca, porém maciça a roda, fosse pneu e
câmara quem sabe não furassem e aí aqui um problema que não tive; tive outros.
Num 'belo' instante a bateria arriou, fora enfraquecendo no uso no abuso de não
ter havido trato e daí como falam "pifou" acabou de vez, lerdeando
atrasando meu atraso – atraso porque minha pressa mal contida tinha pressa: não
via a hora de chegar, quiçá ao descanso. Não: queria mais que um descanso
eventual. Pretendia me esconder... desaparecer dos olhares dos meus coveiros!
Que fiz? o
comum do homem comum. Passei a me deslocar empurrando com as mãos, elas a guiar
as rodas. É muito lógico, devagar, o mais lerdamente possível à minha ânsia,
ânsia de escapar, vivo. Porque ao morto o cemitério, admitamos.
Todavia o sonho
não acabou aqui.
Encontrei a gente simples que precisava.
- - -
Agora tinha
outro cenário à minha vista. Desolador? desolador porém mui menos desolador que
o 'lar' me ofertara até ontem, hoje a compreensão o carinho afagando meu cansado
corpo; sobretudo a musculatura dos braços os quais se esfalfaram a empurrar meu
veículo com os membros a doer. As pernas, ah as pernas! as pernas já
descansavam imobilizadas deformadas amiudadas encolhidas por mais de um ano sem
uso, sem se acostumar as pobres.
- - -
Chegara!
Chegara ao fim enfim ao fim do começo de meu sonho... Oh o sonho os sonhos
muitas vezes resultam em nada, igual bolha bela colorida de sabão ao sol a se
rebentar e este o grande drama humano: não contemos nossa expectativa nossa
imaginação sem peias, o sonho vira realidade, num pesadelo. Não. Acabara de
fato pra mim não o sonho – a primeira fase dele e agora me deparava com a área
da tristeza, do horror, da desmoralização, do sub-humano, no pensar do
super-homem como se põe o civilizado, quiçá apenas um burguês bem-posto.
Entrara, chegando, então, no inferno! na vida da vila pobre e a me candidatar a
todo e qualquer sofrimento, à toda e qualquer tristeza, à decomposição moral.
Olhe lá!
pensamento burguês que eu trouxera embutido na minha formação, estando numa
cadeira de rodas que me empurrava eu a empurrando com braços exaustos.
Contudo tudo às
avessas, nada certo nesse errado. Fui bem recebido.
Já no limiar
disso que chamo provisoriamente vila da miséria; à entrada dessa sem-saída os
meninos (vistos como visto pela
burguesia) tais meninos me descobrem – e que novidade e tanto em sua rotina! –
me notam e avançam ao brinquedo... a uma criança, qualquer criança todas
crianças, tudinho é brincadeira; e o conjunto velho-e-cadeira tornando-se
brinquedo na supernovidade. Naturalmente houve os moleques ariscos e a
espreitar apenas mas estes logo se uniram à turma da bagunça a me empurrar,
auxiliando aliviando as minhas mãos que pediam cansadas socorro. Fizeram aos
gritos com imensa alegria uma farra simples e benfazeja a nós ambos, ela
cadeira com rodas já meio estropiadas e eu um velho aventureiro. Sim, sempre
tive espírito de aventura e sentindo uma atração ao desconhecido e isto mostrarei
melhor no Segundo Sonho. Agora o Primeiro, a chegada.
Suas mães
mestiças ou escuras, elas – aflitas umas preocupadas outras por seus filhos,
aquela velha questão do temor pelos abusos do filho e no filho que as genitoras
sentem e creio seja instintivo – suas mães berravam as crias, sem saber se as
continham se as incentivavam. Cedo compreenderam aquela nova realidade, a de
meu aparecimento esdrúxulo na rotina delas e dos seus. Homens adultos e válidos
quase nenhum vi, ou trabalhando lá em cima na urbe com sua civilização endinheirada,
ou a biscatear eles qualquer ganho na sua costumeira perda. Dois ou três meio
cadeirantes ou somente contidos na sua deficiência física percebi ali, aqui
assustando este velhote pela novidade; nunca pensara no sofrimento de meus
iguais desigualados, desigualados porque o cadeirante chegado presumivelmente
rico eles pobretões sem recursos. Todavia quase como que imediato deu-se a
harmonização e daí conversamos e nos convencemos sermos tão só irmãos melhor
vestidos e mal vestidos na exigência do traje.
Bem, expliquei
por alto minha desdita, sem tocar na síndrome do meu para-enterro é óbvio.
Narrei a fuga mais no sentido da necessidade de fugir de minha rotina; diria,
pensei não disse, que a cadeira despencara correr e... ah não me atrevi, não
minto; também não exercito o ódio – essas duas condições admito como positivo
nesta minha estada na Terra; sei entretanto que ainda tenho de sobra outros
mais defeitos. Não menti – narrrei o trajeto e pus um que outro aspecto nesse
caminhar; puxei mais ao hilário, bem dentro do meu proceder porque não é de meu
hábito explorar cenas desagradáveis para ter público.
O público
aumentava, de repente toda a vila ao meu redor e quase à minha disposição. Os
meninos gritavam alegres o acontecimento sui
generis, afinal não é comum aparecer um veículo daquele e choferado por um
quase-morto, vivo em sua própria defesa. Uma farra autêntica, um carnaval alegre
naquela tristeza a mim desconhecida. Fui bem recebido e mais que isso, isto
conta demais, e mais que isso fui bem compreendido!
Assinalo enfim
que ali naquele sonho real iniciava e vivia e convivia com uma família. Família
sim, com briguinhas e até bate-bocas infindáveis e lágrima e choro; mas com o
mando da alegria e a naturalidade dos bons e desinteressados (eu que fugira
literalmente dos interessados distorcidos... assim avaliava bem).
A tristeza a
violência a luta terrível na opinião do conservadorismo quem sabe – a crença da
oposição ali agora se punha presente: me lembrava constante o porquê da fuga e
sabia que essa oposição não se entregaria... Logo fiz aos novos amigos (ou
poria novos familiares!?) fi-los saber que tendo ao meu encalço a família
burguesa. Não desci a pormenores desnecessários; os novos amigos nunca saberiam
desejarem meus filhos me enterrar vivo! eu me sentindo vivíssimo. Por alto contei
ser perseguido e assim se tornaram além de amigos protetores e inclusive meus
cúmplices; defensores com certeza, praticamente me adotaram qual filho.
Sobretudo um grupo de mulheres e mais ainda a Maria, que agora a mim se elevara
à condição santa de mãe, essas me defenderam, literalmente escondendo-me e a
deixar os meninos de plantão monitorando a área; entre os meninos destacaria o
Tiquinho mais empenhado na minha defesa; todos atentos à possível presença de
gente estranha que chegasse, atentos aos barulhos outros como o do helicóptero
a farfalhar hélices curioso com o que lá embaixo, aqui embaixo – à procura duma
cadeira fugitiva, que escapara da exploração da família original e bem posta. A
geringonça de hélice sonante vasculhava as imediações de lá do alto – umas
poucas vezes baixando quase no terreiro malvisto da vila de periferia. Contudo
nada anormal constataram, em não ser moleques pulando e berrando. Anteriormente
houvera uma caçada desse tipo a averiguar-prender um fora da lei; agora não
podiam as vistas da polícia vigilante determinar este fora da lei e ofensor dos
bons costumes...
O Estado
desperdiçou com a queima de combustível e a deslocação da aeronave com homens
fardados à disposição muito a me procurar... e não achar. Até ao fim do sonho
não me encontraram. Embora o ridículo a que se expuseram, de varejarem
inclusive pastos e capoeiras nas imediações longe donde me acobertavam os
amigos da vila, mais a Maria a liderar os companheiros, insisto nisso por dever
muitíssimo a ela. Com respeito a essa criatura, pratico quase um desrespeito
não narrando mais profundo, sua vida por exemplo. Precisaria também elevar
outras e outros companheiros ali. Não o faço porque o texto viraria romance; e
não passa de uma simples novela, gênero em que não se aborda profundamente, em
não ser uma que outra questão.
Sobre os
policiais ainda, cansaram na procura. E, acreditei, desistiram de vez.
Toquei no
aspecto ridículo da procura na mata largada perto-longe da vila pobre porque
realmente seria um absurdo que um velhote numa cadeira também velha, que ele
pudesse correr e se esconder na vegetação, não podendo direito sequer deslizar
por vias esburacadas asfaltadas da urbezinha lá em cima, a cidade se imaginando
metrópole.
Apesar de tudo
convivi bem na pobreza; a vila me tratou como seu filho como seu pai como seu
parente, com deferência com boa vontade.
Pensei,
naturalmente os meus não devem ter desistido. Imaginei as lágrimas das noras
mais dissimuladas e até choro dos filhos; decerto todos constrangidos diante
dos seus iguais e a dar explicações, inventadas. Isso se é que os parentes não
contabilizaram ganhos como vítimas... (e seria então vítimas desta vítima...)
Mas o sonho
acabou. Parti, agora condoído pela dor e o sentimento com a sinceridade dos
meus pobretões; os quais dividiram por meses comigo seu alimento, por vezes
tirando da boca de seus meninos a me tratar. Dignamente. Parti ao Segundo
Sonho.
Cap.3º Segundo Sonho
Estranhamente
me dispus, ainda no 'lar' burguês, diante do filho José, dos outros entes mais
ou menos queridos, me dispus em mostrar meu pesadelo, e deveria ser dele o
último ao acordar. Parti logo em Primeiro Sonho na fuga e na estada no meu lar
provisório, pobre sim, o que não choca por ser o mais encontradiço num país
grande e também pobre. Agora o sonho continua; ou antes que isso – o novo sonho
se concatena àquele Primeiro; tal qual (e foi o caso) alguém indormido que
sonha dormir, com todas benesses que um sonho proveja a um poeta cansado
desgastado embromado na vigília amarga e insegura; para, assustado, acordar;
para finalmente, ah nunca existiu o final de coisa alguma, para em final
dormir, 'redormir', e experimentar novo sonho, gostoso bom harmonioso e... ai
meu Deus! por que deve haver um acordar e este definitivo ('definitivo' porque
os poetas nunca completam e estão sempre a dever...) Sim, digo, por que deverá
a gente acordar e viver definitivo pesadelo!!!
Na vila pobre
que chamei meu lar, ali cobriram-me de cuidados e carinhos, estes que são
manifestações da tolerância e da compreensão, da caridade; na vila como vimos
em meio à molecada, sobressaía o garoto Tiquinho – estando em idade com seus
quatorze anos de existência porém pequeno de tamanho por mirrado encolhido
retardado no crescimento físico. Tiquinho, após mês entre os seus aquele velho
dependente e escondido defendido por todos, Tiquinho me propôs com aceitação
imediata uma forma de não ficar exposto e ao mesmo tempo fugir dos meus
caçadores. Na hipótese do alvitre aceito, ficaria como ganho também não pesar
meu custo aos seus, deixando que as autoridades burguesas só entrassem naquele
gueto à procura de bandidos ou apenas os fora da lei ali escondidos, com mais
razão do que eu, um velhote que passava o tempo como clandestino e velado ou
abertamente a brincar com os garotos. Propôs, aceitei, que 'comprássemos' uma
carroça a despencar ou algo parecido a uma charrete tosca a descambar e também
seu motor: um burro velho manso, dum tal de seu Januário que vivia próximo.
Negócio aceito feito sem preconceito e com vantagem.
Neste ponto
entra uma questão séria, seríssima. O dinheiro.
Partira afobado
e numa velocidade espantosa e astronômica a mera cadeira de rodas, na ânsia de
fugir do filho, de seu boleto, de sua Funerária, de minha morte lógica quanto
dois mais dois quatro. E me esqueci pegar dinheiro; tinha de reserva umas notas
grandes em pequeno volume debaixo de pastas com papéis imprestáveis, escondidas
portanto. Sequer me ocorreu pegá-las; e também não pensara correr ao banco; onde
ia sempre como distração ver o saldo e azucrinar funcionários, pois dinheiro
pra quê! vivendo o velhote em casa e sendo tratado por sua gente. Verdade que
José andava a reclamar pela crise e a me pedir sacar numerário para cobrir gastos
que exagerava e a esposa inventava me sorrindo falsidades. Enfim por uma ou
outra saída, saí correndo fugindo me escondendo mas sem o vil metal. E agora!
Bem, mal
percebi isso, estando semanas entre meus companheiros pobres e necessitados e,
pior, a viver às suas custas. Agora o alento de fugir acobertado fingindo-me
carroceiro ou charreteiro – que policial iria desconfiar?
E o dinheiro!
Adquirimos o veículo e seu combustível, não o combustível, o motor (um animal
manso e velho próprio a ir ao matadouro virar mortadela, tadinho) – tudo com promessa
de pagar a compra e a despesa que acarretei aos amigos na vila; um dia "um
dia" garanti a Januário; o Tiquinho como testemunha.
Assim partimos
certa madrugada. Uma em que a polícia dormia a se preparar ao trabalho do dia
seguinte. Aliás em cidade pequena do interior nem a delegacia dá plantão noturno.
O ideal pra escapar do flagrante.
Partimos. Tive,
meu coração teve, tive de beijar as crianças meio dormindo meio acordadas e
sonolentas; e chorar até copiosamente na despedida da Maria pela afeição, minha
mãe adotiva; e senti no instante como a que perdera dezenas de anos atrás ao
caixão...
Chuviscava.
Até, pensei, os céus se comoveram nessa segunda fuga ao Segundo Sonho. Partimos
a esmo. Andamos até o clarear ainda a esmo; a mim o escuro indefinido desconhecido,
ao meu guia o mais ou menos do conhecimento. Passamos por automóveis notívagos,
passamos por andarilhos perdidos – sempre contra a direção que tomávamos.
Tiquinho a meu lado na boleia e a rosnar pela lerdeza do burro paciente e
vagaroso. Horas. Horas? sei lá. Lá chegamos num onde ignorado a nós ambos
humanos; para o animal não, sim conhecia e guiado pela fome se pôs a mastigar
ervas no primeiro dos descansos. Não primeiro, no último e definitivo, definitivo
enquanto dure lembra o poeta ao poetastro...
O sol e todo o
tempo a nosso favor. Dias. Meses! não tínhamos calendário; a cultura analfabeta
do mocinho-menino afirmava meses. Ah até os meses têm fim...
No correr desse
tempo fizemos – eu mais que meu amigo e guia – fizemos grandes pescarias.
Sempre o menino agora velho cadeirante pescara. Em criança trabalhava sim com a
família, pobre então; mas todos dias à tarde e emendando a noite vivia na beira
dos córregos, morávamos na roça. Uma delícia, uma felicidade. Sem pensar que
era feliz e não sabia, sabia do contentamento que me dava a pesca de peixes
miúdos; sozinho e a ouvir a mãe me chamar contra os perigos, a cobra por
exemplo. Agora retomo essa deliciosa atividade; deliciosa e também com objetivo
de alimentação.
Realmente é
preciso comer. Não se vive apenas de prováveis lambaris a pratear no anzol. Os
apetrechos trouxera Tiquinho, eu não poderia de bolsos vazios comprar ou encomendar
aos amigos da vila nada. Já disse fugira ao Primeiro Sonho tão só com a roupa
do corpo e meu documento de identidade o qual sempre andava escondido nos meus
bolsos. Contudo, ainda falhei porque não trouxera na fuga e ânsia da fuga os
documentos relacionados ao banco. Portanto andava tal qual Adão, sem nada;
embora identificado.
Não caçava. Disse
ao meu comandado; Tiquinho era espécie de meu empregado; a receber o salário
quando "Deus quiser" afirmara – disse estar proibida a caça pois os
animaizinhos puros... ora, não eram igualmente puros os peixes! Enfim vivíamos
da provisão na matula trazida por meu guia e submisso amigo. Aí a reserva
trazida se acabara...
Agora um novo
drama: como comprar alimento. Não dispunha centavo. Resolvi irmos à cidadezinha
mais próxima, longe da ponte da estrada que passava por cima do rio. Assim fizemos.
Procuramos a
única casa bancária, por sorte a de meu banco; falei ao gerente, me
identifiquei; e mesmo sem a documentação própria ao saque, o funcionário me
permitiu retirar por cheque avulso uma importância. Mês depois, nas mesmas
condições, novo saque. E mais outros.
Que fiz? mandei
Tiquinho ir pagar Januário pela compra da carroça e do burro; e a rever os seus
parentes (nossos digo, nossos de coração) instruí deixar numerário suficiente
com eles em auxílio e ainda ficamos com certa soma, para termos na ponte o caixa
a eventualidades. Ora, nessas eventualidades não entrando remédios, em não ser
um xarope ao garoto, o velho deixara 'mocificado' de todo e qualquer veneno que
a máfia de branco receitava e impunha à família burguesa e que o velhote
ingeria, então um burguês e apto aos bons costumes.
Mas... no
entanto todavia entretanto porém contudo – tudo aqui foram os dias felizes em
que passamos retirados da suposta civilização; vivendo fortes e alegres e
seguros... Então eis que o pesadelo me atropela!!
Decerto o banco
e minhas visitas ao dinheiro me identificaram e me localizaram.
Ainda noite a
receber claridade e o sol do dia – para, nos assustando, uma viatura lá em cima
na estrada na ponte na ligação com a civilização de bons costumes e maus agouros...
São Paulo julho
2018
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