segunda-feira, 26 de agosto de 2019

O Aeroplano


O Aeroplano

Advertência
Embora 'deslises-zinhos' na linguagem, aqui um quadro faceiro porém grosseiro do roceiro... A narrativa sofre dificuldades porque os personagens falam chulo e um pouco o coloquial ouvido na urbe, enquanto a gente que escreve precisa seguir a língua culta... e afinal de contas quem é que manda no que escrevemos, o povão ou a Academia!

- O Aeroplano
Ainda não haviam acabado o almoço, acabado! nem bem haviam iniciado, a mãe ainda ajeitava melhor os apetrechos no chão em pleno cafezal, viram, vendo primeiro de orelha, o pássaro nas alturas. Primeiro escutaram o estrondo com o teco a intercalar outros tecos a fazer um barulho gozado; sim engraçado até mas se assustaram pelo inaudito – era a debutagem aérea, o primeiro fenômeno semelhante a que assistiam... Aí não tendo refeição que resistisse. Olharam.
Quase sincronicamente olharam o pássaro amarelo de asas compridas como braços retesando extremidades; todos encantados espantados com a maravilha do acontecimento. Outros mais pássaros, quase sempre negros, também enfeitavam o céu com circunvoluções a esmo; e, curioso, sequer se assustando essas pequenuras com a máquina voadora! Ela mais e mais se aproximava naquela distância de altitude inimaginável, agora desfilando bem em cima a refletir o sol, a varar nuvens ingênuas, a vencer o vento, embaixo ventava a levantar as saias das caboclas sem que percebessem, embevecidas. Os machos grandes, boaquiabertos, os machinhos e as menininhas da família uns a gritar de alegria outros a gritar de medo – todos como que hipnotizados na coisa voadora a ziguezaguear no firmamento ao sabor dos sopros e das lufadas, ora mais em cima de cima ora mais em baixo de cima. A tanto o esplendor que anuviou e eclipsou mesmo as aves naturais, criadas por Deus. E o hipnotismo do flagrante obscurecia o almoço ali ao rés do chão, a esfriar e a ser relegado relegando a fome ao segundo plano ou esquecimento; argumentos estes não convencendo o de colo, o qual não entendia igual o resto da família de aeronáutica, ou mais ainda nesse menos, e aí fez um berreiro medonho sem medo do aeroplano lá longe mas com mais apego à comida ali perto. Os adultos e os projetos de gente grande, todos medianos no porte, sequer notavam o ‘buá’ infantil, vidrados antes no aparelho a voar, agora já intentando deixar para eles mera saudade e nesgas da lembrança a se contar em causos de noite com lua no terreiro a par com os causos de assombração.
Mas enquanto, todas mentes todos olhos todas cabeças voltadas para cima na contemplação, absortos todos, do velho pai escorado no cabo da enxada pra ver melhor até sua caçulinha destronada pelo de colo impaciente na tardança do alimento. Todos num fazer exercício de alongamento no pescoço empurrando a cabeça inclinada flagrar as coisas do céu. E todos, todos sendo uma soma de mundos, todos curiosos sim porém a par imaginando sonhando as suas conquistas, a privilegiar tão pouca gente; e a colocar seu próprio mundo naquele mundo enorme em visor do tempo com um aeroplano a circunvoluir ao deus-dará e fazendo um barulho a se guardar na memória do sempre. A donzela mais nova das moças pensando se o namorado estaria a ver o que via; a virgem mais velha e as do meio a, quem sabe, pôr fadas no entremeio; os machos numa espécie de posição de estátua olhadora, outros a comentar a seu modo, o menos velho a sonhar com um dia... ah um dia! Mamãe de boca aberta, quase absorta não fosse a boca aberta da criacinha pedindo reclamando lá na sua língua.
Contudo aquele monstrengo se foi, foi sumindo sumindo a sumir um teco menos outros tecos por entre nuvens ventos ondas e reticências a deixar muita exclamação no meio de enxadas e caldeirões de comida no chão, ah as formigas e as moscas, estas num voar bem mais baixo a nível do cheiro alimentício, sem que ninguém desse por essas 'pequenuras' e insignificâncias. O cachorro da família apenas se preocupava, nervoso, com as insignificâncias, não havendo notado o avião.
Só meia hora após arranhavam o solo com suas enxadas a limpar ruas de café, embora ao sabor de comentários e até de novas estórias criadas alizinho para engordar causos e luas e as gentes.
Gente.

- A Menina
Sou o namorado dela, dela? da menina Lita. Faz tempo... Curioso, se me perguntarem, sequer sei o nome completo da garota e faz tempo sim nos entendemos, talvez meses. Nunca nos falamos às claras, às escondidas apenas. Passo posso olhar, ela me vê, sorri, já é o bastante nesse pouco do muito; nos entendemos. Passo, ela sorri, bem entendido: não estando próximo seu Benedito pai da jovem. Mesmo assim, não se sabe como a genitora mostrando conhecer tudo entre nós. Coisa de mulher, mulher por dentro de tudo no mundo do amor. Agora, não sei também o que pensa a sogra de mim, um estranho e de outro roçado. O fato é que vamos levando. Ah, as irmãs dela têm o histórico completo...
Quanto ao namorado, não sou do café; a família da Lita cuida do eito para o coronel e mora na colônia da fazenda. Eu trabalho com meu pai e os manos no algodoal. Nosso patrão é japonês, comprou a terra improdutiva e na quiçaça, plantamos e colhemos algodão e dizem que o solo virará areia solta após mais uma colheita; acusam o nipônico do estrago; enfim depois irá para nova região e até outro estado plantar algodão e estragar outras terras... Nós, ou vamos juntos ou pra cidade, expulsos por não ter onde trabalhar.
Enquanto, desejo olho passo pra ver a namorada. Quem sabe se não um dia capine com ela e com sua gente as ruas de café.
Por enquanto sonho.
Sonho com a virgem. Um desejo puro, sem que me considere inocente. Pelo que observo no macho da espécie, inocência não é o encontradiço. Não obstante tenho querências sãs. Só não tendo e não teria coragem bastante ir falar com o sogro, o qual tem fama ser bravo; e menos coragem enfrentar a língua da mãe dela.
Passo olho desejo. Num átimo, num relance, sondo e estudo a beleza dela.
- - -
Com os anos tudo mudou. Estou falando a você sobre uma cena de espanto e até de maravilha quase a nível de milagre – o aparecimento do primeiro aparelho voador à família dela aí pelo ano de... ah não memorizo essas coisas mas creio ser aí por volta de 1936, 37; resumindo, a exibição dum teco-teco por sobre um cafezal e a manifestação dos caboclos na hora do almoço deles. Bem, tem um porém aqui que é o costume roceiro (quando havia roça no país, hoje não tem mais). Em geral o almoço em pleno serviço acontecia pelas 8:30h, o capiau pega cedo na enxada e quando muito toma um café preto e doce ao se levantar; às oito horas com fome. Lita – ela me contaria bem mais tarde – ela disse que o aperto e o excesso do quefazer fizera retardar a comida e portanto o aparecimento do avião nos ares, um aparelho totalmente desconhecido deles, enfim deve ter ocorrido ao meio-dia mais ou menos. O fato de nunca haverem visto um, sabendo apenas por alto, como se conta de fantasmas e outros absurdos – isso é que gerou impacto. Ela narrou tim-tim por tim-tim a reação de sua gente e me afirmou (a me provocar!? ah essas mulheres...) afirmou haver pensado, talvez articulado alto,  "o namorado estaria vendo o que via!"; a resumir, ela chegou pensar em mim, o que me envaideceu deveras. Entretanto coisa alguma vi disso, encontrava-me nas terras do senhor Nakata e o bicho não passeou por lá.
Além do mais e embora a espantar os colonos, o avião não passava dos primeiros teco-tecos; hoje temos inclusive avião a jato conduzindo umas setenta pessoas, suponho. Isto, quer dizer um grande deste, mataria de susto os lavradores.
Temos ainda outra questão. Eu conto, reconto, a você de certa forma desembaraçadamente; na época, fosse falar sobre, fá-lo-ia truncado e numa linguagem desse tempo e lugar, interior agrícola paulista, e é possível não tivesse vocabulário bastante a explicitar com clareza. Eu também era um lavrador inculto.
O tempo passou, fomos para a cidade, primeiro a residir num vilarejo e depois sim numa urbe média. Fui à escola, mas à escola da vida, pois na roça com as dificuldades e falta de unidades de ensino não passara do terceiro ano fundamental. É sempre a mesma coisa: distância da cidade, falta de professor, e quando com mestre a falta dele na aula; e mais a falta dos alunos. Eu mesmo na época da colheita do algodão ficava retido no eito, não ia à escola e isso era o comum dos outros colegas. Aliás devo dizer que fugi do estudo... sim, me amparei na necessidade da mão de obra para não voltar às lições. Um dia tornei da escola e não mais tornei a ela; crescidinho, não adiantando a mãe insistir no valor da instrução; o pai semianalfabeto não se importava tanto, não valorizava.
Contudo, já morando na cidade, apanhei gosto pela leitura; nem me lembro como aconteceu; aconteceu haver lido um livro e depois outros mais, cheguei, pode acreditar, cheguei a ler por ano entre sessenta e setenta obras literárias, vivia com o cartão da biblioteca pública toda vez que indo ao centro. Trabalhava como qualquer mortal e me atraía muito a leitura imortal. Não cheguei a doutor, vê-se...
É com esse cabedal que hoje posso praticamente fotografar a cena narrada por Lita sobre as reações dos familiares, o teco-teco a brilhar lá em cima no céu.
Falou a moça até do cachorro e do maninho bebê... Naturalmente já tendo ela meses depois disso mais liberdade comigo. Uso agora a linguagem que posso dominar, sobre a dita cena e reproduzindo o que me disse, visto não haver estado na plantação e sequer vira um aparelho voador então. Bem mais tarde entrei na febre dos garotões de minha idade, isso já no tempo da Segunda Guerra Mundial, quando havia o interesse de todo menino por máquinas e desejar ser aviador.
- - -
Como vi a menina. Ah, a um molecão querendo um dia ser homem, uma fêmea assim no alvorecer atrai induz seduz faz sonhar, faz mais ainda exagerar na imaginação... Não cheguei perceber como vestida, vestido tecido cor feitio moda, moda! o macho não vê isso não vê roupa vê a escultura do corpo – sente atração pelo soma em soma de gostosuras... O macho é e sempre foi um ser perigoso! 'Via' embora de longe ao passar, 'via' até o cheiro dela. Quer dizer, é ponto tranquilo que tivesse exalando além do seu o azedo por suada e suja na limpeza da rua de café – o café já colhido e nisso se prepara o solo, no caso se capinava (carpia, no linguajar caboclo) enfim a família dela combatia ali a erva daninha. Outros grupos de lavradores trabalhando semelhante aquela gente; os seus operavam juntos e andavam prestes à hora da refeição, por sinal atrasados no adianto do amanho da terra; e foi então surgir lá em cima no firmamento aquele pássaro barulhento no seu tá-tá-tá-tá.
Via o rosto cativante os lábios de se beijar os olhos a cintilar e os cabelos compridos soltos – tudo belo. Observava o pescoço um pouco volumoso, não me arriscaria pintá-lo perfeito apenas agradável. Os seios em promessa. O ventre notando bem feito (apesar da roupa gasta solta grande, a satisfazer as necessidades do trabalho agrícola). Eu tinha já nesse tempo queda, uma pendência, para este particular na anatomia feminina. As nádegas sem exagero porém atraindo. As pernas grossas – Lita nunca fora magra, nunca exageraria no futuro nenhum aspecto físico, meus olhos é que exageravam, ou talvez fosse pela fome da idade. Inclusive me agradava pela altura, a jovem eu enquadraria como cabendo seu porte nos meus braços, ela a olhar pra cima o namorado, o namorado a olhar para baixo. E ainda registrava muito mais pedaços, os quais eu, ajudado pela escola do populacho, nomeando as coisas na língua do calão; que fazer se o macho da espécie desde cedo é irreverente mesmo. Além de, oh pobre das nossas fêmeas, sermos inconstantes instáveis imaturos e... bem machistas; eu demonstrava com isso muito dos defeitos dessas 'qualidades'. Em resumo, sonhei uma deusa!
Não obstante não passando dum tímido entre meninos a contar vantagem numa roda moleca. Eu um consumado vergonhoso e moloide diante das mulheres. Não fosse a iniciativa delas, nunca chegaria a namorado da Lita. Ainda assim, ou seja o estágio namorado, pautava-me pela distância (não chegaria aos abraços e beijos na demonstração dos sentimentos e nos carinhos). Limitado também pela contenção das palavras. A parte do diálogo que me tocava não fluía; tendo mais retórica que discurso e quase engolia a língua perto dela. Apesar, ela me possuía como fosse seu tesouro... Resumindo, via Lita como jovem atraente, eu exagerava por belíssima princesa, essas coisas abusivas. Branca de pele e queimada do sol, em que pesem os cuidados que as roceiras têm, ou tinham: se defendem com mangas compridas de camisa e com chapelão de palha, a fim de permanecerem bonitas por baixo dos panos. No episódio do voo do aeroplano chegaram as moças, e alguns dos manos, a tirarem o chapéu para ver melhor aquela exibição de minutos. Ah que pena, digo hoje, não haver assistido à cena.

- O Mais Velho
Olhando estupefatos aquilo amarelo no ar, todos disparados no sonho, embevecidos; Manuel entre os adultos, lembra se esquecendo da tarefa no eito uma possibilidade talvez no voo da máquina e punha a questão: não se espantavam os urubus a imitarem o aeroplano! Não, o contrário – a geringonça é que imitava as aves no céu. E questionava ainda não pudesse ocorrer de se chocarem todos a planar... Num absurdo, pôs rápido o chapelão de palha a cobrir a cabeça os cabelos volumosos dum possível respingo do sangue das pobres aves negras feridas nos ferros do avião... imediato sorriu do absurdo de sua imaginação; a imaginação roubou-lhe um segundo do espetáculo no ar ao ar do vago na lembrança dum boi defunto na beira da estrada a apodrecer então chegando a contar quantos urubus pulavam engraçado em torno da carniça, mas retornou no mesmo segundo à exibição daquela espécie de planador nos céus. Agora ele subia descia planava em apresentação com muito público. Os manos todos fora o gritãozinho de berço a esticar a cabeça para o alto como fora o queixo a boca vendo mais que o olho a ouvir a zoada, decerto, pensou, as aves se espantando com o cheiro de combustível – seria gasolina cheirosa e perigosa igual a do fordeco do coronel! seria o quê – e os carniceiros não fugiriam enojados do tal cheiro a trocá-lo pelo fedor a si gostoso (pensou fedor pronunciando na fala do cheiro "fedô") aquele cheiro do boi a desmanchar na estradinha. Contudo manteve-se voltado para as nuvens: o maquinário fazia nessa altura circunvoluções engraçadas no alto, toda família ali querendo e podendo livremente ver o melhor possível, até contra os raios solares ardentes do meio-dia, nisso arcando os dedos da mão direita a fazer concha em defesa da vista. Era, estava sendo, uma sugestão de conversa para a tarde inteirinha, mesmo empunhando a enxada; e assunto para noite a enfrentar e vencer o das almas penadas. Quase Manuel esqueceu que minutos antes se desentendera com o irmão também entre os mais velhos e seu desafeto na família por causa de questão de amor, amor ou querência ou qualquer apego parecido, com respeito à mesma mulher pretendida desde o baile do sábado passado. Não se falavam em via de regra desde o episódio – mas eis que voa ali lá em cima o monstrengo amarelo e cala a fala da memória cala até outras falas, falas atinentes ao serviço (eles pronunciavam "trabáio") e outras falas mais, menos interessantes e dando tudinho lugar ao avião. Olhavam atônitos pra cima e se esqueciam pra baixo da terra firme e das tralhas da lavoura até do almoço posto na toalha feito cobertura de mesa no solo.
- Dois Pequenos
Em terra firme os restos da rabeira de filhos Zinho, decerto Joãozinho; e Zeca, decerto José; ambos suspenderam os insultos triviais da rotina em disputa pela mesma genitora e atentos à carranca do mesmo pai, suspendem-nos agora pelo interesse comum. Quase antes dos manos grandes – e notando o pai carrancudo e ensimesmado talvez ruminando desentendimento conjugal ou pela falta de sal ou pelo sal na comida demais e demais bobagenzinhas – os garotos primeiro que a família já ouviam o zunir do motor do avião e, assim, também foram os primeiros a deixar ao deus-dará o que fazendo de útil ou exatamente não fazendo ou por isso mesmo – sendo os primeiros a descobrir no meio dos urubus no alto em especulação de possível carne lá embaixo, aqui embaixo, foram os primeiros a pressentir a chegada do aeroplano. Daí gritam chamam atenção, a atenção inclusive de todos a trabalhar (até o velho desemburra instantes a chamar-lhes aos cuidados com a tarefa; aliás mais brincavam ora atrás da arapuca ora atrás do passarinho, mais ainda que no trabalho, um a insultar o outro). Depois, durante a exibição e mais após o espetáculo, imitam o ronco da ave de ferro... ah, deve ser todinha de aço, "num é Zeca!" Zeca: "craro seu burro", elogia o irmão, craro tudinho de ferro e deve ser pesado pra burro... quer ver ela cair na sua cabeça! Não deu tempo de o pai ralhar tapar a boca da briga, de mais um episódio no desentendimento, pois que todos, menos o gritãozinho-bebê, a se postarem olhar lá em cima, assustados surpresos curiosos por aquilo. Aquilo zune gostoso, ou apenas diferente do mugir da vaca do zurrar do burro do gritar humano no caos humano. Zune. Faz tá-tá-tá-tá afirma Zinho; mentira seu burro ele faz sem parar tecotecoteco. Não chegam a acordo. Por fim se olham e se olham todos na família também, admirados. Admirados demais.

- Três Meninas-Moças
Entremeio, quer dizer no meio das extremidades dos filhos da família, a família agora a olhar extasiada aquele passarão – viam de fato um pássaro descomunal metálico amareno em voo a cansar as cabeças de tanto estar pra cima – esse passarão a debutar aos debutantes, sim debutantes porque essa gente da roça nunca tendo enxergado avião e assim a olhar admirada lá em cima. Todos? o nenê chorava não via; e o cão coçava pulgas não via igualmente; contudo todos sequer imaginando que o filho do coronel estivesse ao lado do piloto a examinar lá embaixo sua propriedade, além ser o único a haver fretado tal voo naquelas plagas, isto senão aos olhos e ouvidos roceiros. Ah se Teresa no meio das outras irmãs do meio e ainda a desfrutar da inocência a se saber meninas e a se pensar moças feitas, ah soubesse ela estar o rapaz lá em cima vendo aqui embaixo a terra a gente ali reunida a bisbilhotar o céu, soubesse o coronelinho a examiná-las (decerto com inocentes interesses...) então se extremeceria, choraria a garota talvez de tanta felicidade... Isto porque numa teimosia podendo que exagerasse nos sonhos, sonhos impossíveis à pobretona, diziam em repreensão as realidades. Assim a meninota olhava o aeroplano, ela deixara a pouco de estar amuada e desenfunara-se perante as duas irmãs, as três sempre em conflito. As outras também logo esqueceram as querelas, diante daquele quadro inusitado vistoso que se abria no firmamento ao sol a pino, todas três com seus olhinhos a piscar a lacrimejar pela claridade extrema para se abrir ao sonho. A realidade gritava aos comentários deles todos, não todos pois a mãe fugira e se furtara a alegria de flagrar o voo em detrimento da responsabilidade materna ou necessidade de apaziguar consolar, não o Duque pulguento e ladrador mas o seu bebê. Todavia a curiosidade logo falou mais alto nela e voltou-se igual o restante dos seus a vista para o alto: a máquina roncava seus teco-tecos planava subia descia e... ai! um dos meninos nisso lembrou altão (à criança todo pensamento berra): será que o bicho não despenca aqui no chão!? Uma opção bem inteligível à curiosidade dos seus...

- A Mãe
Dona Dina – uma vizinha e bom desafeto dizia à boca pequena "danadinha"... – agora ela tem o pequerrucho no seio grudado e olha de novo o voo no fim de festa; sobra-lhe mais os comentários dos da família, pois sacrificara um tempo à criancinha; esta daí come, bebe chupa engole esganada o leite natural adocicado embora o nenê já podendo mastigar amassado arroz e feijão; e não lhe interessa ainda o aeroplano, um aeroplano dos bons e bem caracterizado diga-se de passagem. A genitora tem o pescoço o queixo a face a se esticar para flagrar aquele voo, o voo em viagem agora só de ida sem volta; enfim vê um restinho da viagem ou exposição ou exibição, o suficiente a dominar a matéria para manter uma hora de conversa sobre o assunto com a comadre moradora doutra casa na colônia, aliás casas geminadas grudadas qual linguiça e não tão longe da residência senhorial do coronel e onde também o coroleninho quando na roça a gozar férias da faculdade. Tudo serve de objeto a elas, as comadres; isso é claro e também se queixam tais mulheres dos consortes, elas sem sorte, a se queixarem semelhante dos seus meninos, uns três entre eles bem respondõezinhos. Porém retornam ao principal no bate-papo do dia: a máquina maravilhosa voadora voando no céu ao sol – "quase me cegou, comadre!" Contudo é mesmo o secular conflito conjugal suplantando até aquele colosso de exibição no ar, esse conflito é que toma mais o tempo na conversa comadre.

- O pai
Benedito, seu Dito é um sujeito irascível em casa sobremodo havendo engolido antes uma cachaça; calmo ou controlado diante dos de fora e aí quando muito grita com um que outro dos seus moleques e com o Duque naturalmente pois este não para de ladrar gente que chega bate palma. Dona Dina chama no tento os meninos-homens (na roça tem disso, tinha quando havia roça, de classificar menino-homem menina-mulher a distinguir); pega no pé, expressão também popular até na cidade, a senhora pega enfim puxa as orelhas dos meninos e também dos filhos já adultos, tendo um deles se casado mas fala meio brabo com esse, o que insultozinho à nora; não escapa de admoestação inclusive a filha casada a morar longe, isso sem entrar em choque com o genro. Ralha com Benedito, não na frente de estranhos parentes ou compadres ou conhecidos, porém pertinho e meio em particular quase no ouvido ou enfim baixo. No entanto se desmancha e carinha a mulher seu netinho, um que virará mais tarde colega de brinquedo do seu caçula ainda de colo e de seio. Já o marido de Dina fala pouco e é um pouco enfezado, emburrado, parece que brigou com o mundo; só se desentendendo de fato com os seus e no dia a dia; uma exceção nisso ao Zeca. A maior parte do tempo é azedo e/ou quietarrão; rumina a fumar sua palha a contar parecendo como pra si mesmo. Apenas desemburra o Dito quando vai receber o minguado dinheiro na casa da fazenda, o coronel fazendo questão descontar algo indevido na soma do 'salário'. Então ou bebe mais ou fala mais e desengripa a língua. Todavia agora após o voo daquela águia de lata amarela solta a boca; quase discursa como um douto, um profundo conhecedor na aeronáutica. Não obstante, tal qual outros da família, viu pela primeira vez um avião.
A conversa em torno se prolonga semana mês meses. Daí, acabado a matéria conhecida, preciso se faz criatividade invenção imaginação. Felizmente são brasileiros, portanto com riquíssimo cabedal nos miolos.
Gente.

- Existe Fim?
Aquele por todos ali dito Dito, onde Dito esteja ali ou lá, lá num asilo, portentoso e tido "Casa de Repouso" etc. e tal, esse um – se ajeita na cadeira de rodas, se mexe se remexe se estica olha vê, até que enfim consegue ver agora porque antes só ouvia o ronco e sonhava além de tantas noites sonhando ruim seus pesadelos, sonhava poder ver o jato a singrar o mar do céu; até aí lhe sobrando tão só flagrar os rastros da caminhada da máquina a deixar o risco da fumaça; a finalmente plasmar o desejo desse velhote moreno enrugado. Agora vê em carne e osso (claro, isto imagem, nenhum supersônico com carne e sangue e no máximo restando dele o esqueleto de ferro num desmanche no cemitério de naves a enfeitar ilustrar negativamente um filme no cinema) sim, agora vê porém não é o aeroplano de lata amarela que desejava ver, a fazer medo decerto nos urubus andejos ou voadores. Daí por associação de ideias e sentimentos recorda aquele antigo seu quando... quando era moço e muito macho. Então reconta reconta reconta pra quem por má ventura esteja próximo. Dito adora orelhas... Ora, isso o comum nos idosos.
Conta narra expõe no possível tim-tim por tim-tim os lances daquela visão, ele na época não demais novo, tinha a mulher briguenta (na sua opinião) tinha a penca quase cacho de meninos; tinha um deles casado, tinha neto, tinha... ah não consegue sequer lembrar todos, de todos se lembrando entretanto embaralhando os nomes, a trocar João por Zé, ih como apreciava o Zeca! pobrezinho, disseram que morreu na rua no trânsito louco da grande cidade e nisso chorou... sem se preocupar mais com o fato de que homem não chora. Reconta aquele preciso dia, ele extasiado sem dar demonstração da fraqueza, amparado no cabo da enxada, a enxada no chão o cabo lustroso indicando o céu – uh um mundão do quefazer no cafezal! apertara na crítica aos filhos não produzindo a contento; o coronel pegando no seu pé, a carpa atrasada mas eis que surge o momento de descanso meio forçado: aquele bichão voando a refletir o sol na cara da gente. Dina cuidava do de colo e olhava só furtivamente pra nuvem – todos menos o nenê chorão a se entusiasmar com aquilo voador! Uma cena em não se tirar mais do miolo e... Dito conta o contado como fosse ontem anteontem para alguém de plantão ouvir ou não ouvir, enjoado da lenga-lenga. Explica tudinho nos mínimos detalhes nos pormenores e desce à minúcia julgando preciosos os miúdos do que fala (ou pensa falar...) Não se lembra de alguma coisa nas muitas coisas.
E tem mais. Num dia, sabe-se lá qual dia... aí lhe deu um negócio esquisito, escureceu a vista, rodou, caiu, dormiu, acordou nesta infame cadeira de rodas. As moças ainda lhe amarram o corpo cansado dolorido na guarda da cadeira de suplício com lençóis feito corda e o largam... isso mesmo, largam a gente, a gente a ficar ter ouvir no salão coletivo de gritos de ais de sofrer de dormir antes do dormir no túmulo como e tal qual boneco inanimado a imitar gente. Gente. Assim, permanece o dito Dito ali lá aqui junto aos demais fregueses da casa a ouvir desaforos e blasfêmias ora do rádio naquelas alturas ora da tevê de xingar por cima da gente shows e propaganda – sem escolha. Agora escolhe num descuido, quando é empurrado ao sol de fora do prédio e... oh milagre: não apenas escuta, vê o avião e o rastro do avião nas nuvens; um novo jato e quase imediato a outro de outro jato e aí milagre mesmo: um dos foguetes brilha ao sol lá em cima; todavia não é nem amarelo nem o teco-teco a 'tecotecar' exibição no ano de ... ih não lembra. E afinal que importa lembrar se a orelha plantonista desconhece a coisa e nem dá valor ao que valorizamos!?
No entanto desembesta desanda a relembrar nesgas não só da cena do aeroplano. Dina falaram que morreu na casa da filha Lita; a Lita foi namoradeira e não casou com ninguém só amigou. A Teresa teve foi sorte grande, o coronelinho se engraçou dela, não casou casou com outra ricaça porém pôs casa pra ela, fez dois filhos nela, que vive como princesa. As demais filhas casaram largaram recasaram, uma somente vive com o marido e é até boa católica indo à missa e tudo o mais. Um dia me trouxe numa visita aqui meus netos! Ai a visita...
Dito reconta também o que repete muito que é viver abandonado: ninguém dos seus aparece, nem os compadres vindo. Ninguém! Debalde lhe esclarecem que ontem mesmo vieram dois filhos, um o Manuel, vindo além uma nora um neto vê-lo, não se lembra.
Nisso o sol também havendo se recolhido, ele é recolhido para assistir impositivamente a novela das seis a das sete, a das oito horas não pois será lavado levado à cama, a arrotar quem sabe a sopa aquosa (ele terá reclamado por sem sal sem tempero ou por muito sal e assim faz sempre, todos dias, todas noites:) Isto não chega a um fim...
Itapecerica da Serra   janeiro  2018


Nenhum comentário :

Postar um comentário