Imagem
sem Espelho
1.Quando saí –
nem sei se saí sequer quando saí donde saí - quando, andava tresloucada. Isso
me faz pensar, pensasse pouco embora, no quadro que vi de umas fotos divulgadas
naquela cidadezinha inexpressiva em que parei meu cansaço a me cansar logo e
logo sumir outra vez às objetivas possíveis que me tomassem, desconfiada. No
quadro exposto pregado na parede frontal aos curiosos verem na rodoviariazinha
mambembe suja pobre esquecida daquela urbe também esquecida – tomei conhecimento
de mim mesma. Era eu sem sombra de dúvidas e com certeza a outra que eu deixara
onde deixara. Mas agora era mais, era menos ou muito mais por já não ser. O
mesmo rosto que me desacostumara ver, a mesma expressão que tivera de ansiedade
e de pavor contido ao mostrá-lo para um fotógrafo de rua, apesar do esforço a
vender alegria do momento em esconder o horror que era minha vida naquela
existência quase inverossímel de tanto me poupar a outrem. Aí me indaguei quem
seria outrem.
2.A verdade é
que a sombra sem luz me enublando a memória e por mais me esforce, vejo apenas
riscos círculos figuras esboços semiapagados do que via, de quem e com quem
vivia ou só convivia ou só sobrevivia, sem viver. Ainda hoje anos década talvez
ainda mantenho a dúvida. Mesmo porque aprendia não conhecer, ao menos a fundo,
os seres humanos, creio, ainda de minha espécie. As outras espécies bem mais
definidas e definitivo, a nossa tão só a tentar se conhecer... Seriam os desta
espécie – indago agora não na época – seriam esses os que me expuseram com
outros doutros desaparecidos igualmente a sofrer suas perdas! e ainda acresço:
fui uma perda? Os tresloucados não põem a interrogação acredito. Ah quem foram
os que recolheram despojos em fotos e outros objetos e especificamente aquela
fotografia amarelecida que vi pregada na rodoviária, extraída decerto dos
escombros em que me tornara e do ambiente que deixara, quase nada nos escombros
se bem me alembre. Minha mãe meu esposo o filho espúrio outro parente próximo
distante um vizinho uma autoridade qualquer? Talvez nunca saiba.
3.Não sei por
que neste momento nesta lembrança que luta em não existir a ninguém, não sei
por que quase temo em me revelar e me rebelar. Visto não ser mais reconhecida
mesmo que porventura nesta má ventura alguém do passado quase remoto me
flagrasse agora hoje neste instante sequer saberia quem sou de fato... Penso a
sorrir minha tristeza que se eu fosse homem do tipo pra valer seria nesta
altura barbudo cabeludo demais ou demais calvo e por cima no por baixo com a
pele enrugada nada precocemente e portanto desconhecido assim como eu desconhecida.
Engraçadamente não seria mais eu mesmo para não ser eu mesma.
Então para que temor!? Posso corajosamente passar por outrem no meio do caminho
de outrem. E deixar, quem sabe, que as autoridades sempre preguiçosas a se
dispor achar perdido, não apreendendo sequer bêbados contumazes ou contumazes
pequenos criminosos – deixá-las procurar-me em vão... sem me preocupar com
flagrantes. Enfim talvez qualquer um possa se esconder em si mesmo sem precisar
cadeias ou fotos na rodoviária ou o choro dos familiares pela perda.
4.Tomei
conhecimento ao longo dos caminhos do caminho que não sou caso único na escola
da vida. E fosse único me contradiria observando a exposição na rodoviária,
creio também noutras rodoviárias doutras cidades pequenas e grandes a divulgar
sumidos do seio social pressuposto formalmente justo harmonioso e feliz. Porque
notava nas feições nas mil fotografias deles, de nós, expressões fisionômicas
as mais diversas desde as circunspectas às alegres descontraídas e plenas de
felicidade no engano proposital ou não da pose feita e da tecnologia que tem no
retoque seus recursos artísticos, se não deformado o original criando quase
nova forma e novo desaparecido, cujas qualidades demais ressaltadas pelos que
ficaram por vezes a sofrer a falta; ou defeitos que se escondem ou pelo
contrário se exaltam a justificar as próprias faltas na família. Ou o caso que
não foi meu caso, caso da ausência e desconhecimento da existência na família.
Inúmeros expostos semelhavam minha imagem exposta.
Em
toda opção fica claro existir o que não mais existe, por haver desaparecido. E
existir a retaguarda, onde os que sofrem ou só acusam a falta; e registram
boletim de ocorrência, informam ao menos a imprensa do sumiço.
Sem
resolver a questão.
Isto
porque, todos sabemos a formar esta consciência social, porque aumentam
desaparecimentos anos após anos. E a solução ao problema perde de um-a-mil dos
casos insolúveis... Aqui talvez possa incluir-me insolúvel pois nunca
achar-me-ão.
Quais,
indago, possam ser os exemplos doutrem? Sim como andam as pesquisas das
autoridades sobre desaparecimentos, sabido que as dotações orçamentárias ao
setor sejam ínfimas; assim como estatisticamente ínfima a porcentagem dos que
não contam mais ou ainda ou nunca constaram sequer, levando em consideração o
todo na população, a qual tomar-se-ia por 100%. Enfim são meros casos a chegar
aos pouquíssimos milhares nos milhões da população. Supondo aqui válida a
observação aos outros países, uns menos outros menos ainda preocupados com
esses pagadores de impostos agora não-pagadores por desaparecimento (isto um
grave aspecto à burras dos Estados...)
Todavia
não é isso o todo do que acho dos tipos que sumiram.
Creio
mais, sei nisso cada vez menos, porém creio sim haver os que se enquadram em
meu tipo: sumiram e entraram no desconhecido do conhecimento geral, se não do
esquecimento geral (o tempo é nosso inimigo; ou seria exatamente amigo...) –
mas conscientemente uns fugitivos da sociedade.
Há
porém casos graves, pois sair por livre vontade mesmo sem razão é uma coisa;
outra seriam os graves e até gravíssimos, envolvendo também gravidade maior na
retaguarda e é claro na condição atual dos sumidos ainda vivos ou ‘vivos’.
Todos, quem sabe todos, com passado sem futuro. Soube, sempre por alto nunca
ninguém com condições expor uma verdade total por sermos seres parciais ou
incompletos em fuga em desaparecendo em ficando a suportar as exigências da
coletividade. Por exemplo casos em que crianças suposto inocentes e adultos
fracos ou governáveis foram sequestrados com o fim específico servir para venda
inteiros à exploração sexual ou escravidão nacional ou internacional (prato
cheio à imprensa) com possível escape um dia; e os com fim à venda em parte ou
seja de órgãos; aqui talvez ao desmanche a serem vendidos como peças no
açougue: seu coração a tantos dólares para uma entidade inescrupulosa; seu
fígado a outra pago em euros; e a pele os ossos etc., a ‘embelezar’ a feiura de
quem a tenha e em qualquer terra, de preferência longe e desconhecida.
Têm
os casos outros de induções outras e de outras melhores piores consequências,
segundo a compreensão moral desse problema.
E
a condenação. É fácil condenar. Difícil saber tudo, compreender bastante; e quase
nada resolver quem se disponha a isso. Isso é um intrincado...
Têm
casos em que voluntária ou impostamente se muda ou se troca a identidade, sem
trocar de fato o ser, que se não troca e mantém o sofrimento ou com novo sofrer
até, sem relação com o antigo sofrer. Ou seria ter perdido a alegria e pretensa
felicidade para ‘ganhar’ o sofrimento que não ‘desfrutava’...
Enfim
como posso autenticamente saber outrem se não o quê por alto contado do mal
sabido do mal ouvido!
Em
todos casos havendo quase sempre se se não mentir nem abusar da verdade: a
mentira da realidade que são os entorpecentes, pois bebidas e pós entram com
facilidade nessa explicação simples desse complexo. Ao qual não tenho acesso ou
só ouvi dizer.
Contudo
há este meu caso, caso possa interessar.
5° Quando saí da
consciência coletiva – quem não atento à consciência não existe só existindo
quem ela tome conhecimento – quando, naquela madrugada fria escura silenciosa
nem os cães a me perceber ou que delirando eu é que não os ouvira, então escondi-me
nas horas presentes virando futuro que agora é meu passado, difuso embora;
quando, entrei no desconhecimento social e me transformei noutra. Andei, desvairadamente,
dias noites nos meses subsequentes e espichei minha fuga (fora uma fuga sim)
espichei-a nos anos, anos até hoje; ontem flagrara-me na exposição das fotos na
rodoviarinha. Ainda hoje lembro-me dos fatos mais marcantes e guardo perfis,
agora quase perdidos e marcados apenas no nebuloso...
Fugi.
Fugi de meu esposo e de suas bravatas ou das bravatas de suas conquistas; de
sua traição anos; e sobretudo da violência além da traição, a violência física
concreta ululante que se vê ou se se não pode ver ou que se finge que se não
vê. Apanhara de vez em quando no começo da vida conjugal e diário no fim;
quando desertei. Esta uma figura, o marido, uma de grande hipocrisia: não vi
mas sei haver-se postado como vítima, quem sabe a chorar nos ombros parentes,
até nos de minha genitora – a perda. Ora, qual perda devendo afirmar ganho,
liberado às suas falcatruas e amantes... Terá dado declaração ao rádio; nossa
cidade não dispondo estação televisiva; falado à imprensa escrita, um jornaleco
faminto nos mil sábados sem notícia da urbe acanhada.
A
mãe, e a mãe dele também, órfão de pai enquanto que eu desconhecendo o meu, o
que pior; a mãe chorou seus desesperos em minha falta, sei. Quase favas
contadas. Poderia afirmar agora desse ontem: era a preferida entre as manas dela;
também fora preferência à sua violência diária desde menina à mulher casada,
mal-casada melhor diria. Havendo então um complô familial ou só acordo entre a
genitora e o genro contra mim. Em tudo. Ela a fechar olhos ou aceitar escandalosamente
o “filho” chamava-o seu filho (nunca Deus lhe dera um machinho). Não perdoava
deslizes possíveis desta filha do seu sangue. Mesmo num episódio desagradável
que foram os meses em que a sogra fora morar com o genro e a filha, ainda aí o
correto do erro sendo os conflitos pertinentes e admitidos no jargão popular:
assim tinha eu agora dois inimigos a me descadeirar diariamente; inclusive
achava minha mãe certo que me corrigisse o homem a pancadas para educar a
esposa.
E
o filho? meu único herdeiro virou logo após sua compreensão e já um escolar meu
adversário gratuito! nunca se posicionou favorável a mim; ou trabalhado pelo
pai ou dirigido pela avó, até pelas tias, porque como falei parece ter havido
um complô na família a me destruir.
Ora,
concluí após anos que o choro é arma de brinquedo e ineficaz. Pelo menos em meu
problema.
Amanhecia,
assim, derrotada e flagrantemente indesejável no próprio lar, um lar que não
passava pra mim de apenas uma casa, fria, um inferno.
Optei
por chás caseiros a amortecer meu drama, sabido que todas comadres sejam boas
médicas; tomava garrafadas também por conta própria. Até chegar a experimentar
drogas vindas da vizinhança, compradas com dinheiro roubado do bolso do
consorte, aqui trocadilhando sem sorte...
Então
fugi igualmente dos cobradores traficantes do bairro. Não tivesse melhores
razões a fugir...
6° Preguei certa
peça no mundo a viver no esquecimento do mundo e no mundo do esquecimento.
Agora levo meus andrajos por aí; penso inclusive cruzar fronteiras ir ao
estrangeiro, onde todos são desconhecidos a perambular na miséria na pobreza da
população. Me ocorre neste momento: não somos todos alienígenas?
Diante
desse quadro e não mais temendo ser reconhecida, parto atrás do meu futuro sem
futuro e me escondo, preciso for, não me mostrando a um público que me desconhece.
Me escondo dentro de mim mesma.
Marília novembro 2012
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