sexta-feira, 16 de agosto de 2019

Imagem sem Espelho


Imagem sem Espelho

1.Quando saí – nem sei se saí sequer quando saí donde saí - quando, andava tresloucada. Isso me faz pensar, pensasse pouco embora, no quadro que vi de umas fotos divulgadas naquela cidadezinha inexpressiva em que parei meu cansaço a me cansar logo e logo sumir outra vez às objetivas possíveis que me tomassem, desconfiada. No quadro exposto pregado na parede frontal aos curiosos verem na rodoviariazinha mambembe suja pobre esquecida daquela urbe também esquecida – tomei conhecimento de mim mesma. Era eu sem sombra de dúvidas e com certeza a outra que eu deixara onde deixara. Mas agora era mais, era menos ou muito mais por já não ser. O mesmo rosto que me desacostumara ver, a mesma expressão que tivera de ansiedade e de pavor contido ao mostrá-lo para um fotógrafo de rua, apesar do esforço a vender alegria do momento em esconder o horror que era minha vida naquela existência quase inverossímel de tanto me poupar a outrem. Aí me indaguei quem seria outrem.

2.A verdade é que a sombra sem luz me enublando a memória e por mais me esforce, vejo apenas riscos círculos figuras esboços semiapagados do que via, de quem e com quem vivia ou só convivia ou só sobrevivia, sem viver. Ainda hoje anos década talvez ainda mantenho a dúvida. Mesmo porque aprendia não conhecer, ao menos a fundo, os seres humanos, creio, ainda de minha espécie. As outras espécies bem mais definidas e definitivo, a nossa tão só a tentar se conhecer... Seriam os desta espécie – indago agora não na época – seriam esses os que me expuseram com outros doutros desaparecidos igualmente a sofrer suas perdas! e ainda acresço: fui uma perda? Os tresloucados não põem a interrogação acredito. Ah quem foram os que recolheram despojos em fotos e outros objetos e especificamente aquela fotografia amarelecida que vi pregada na rodoviária, extraída decerto dos escombros em que me tornara e do ambiente que deixara, quase nada nos escombros se bem me alembre. Minha mãe meu esposo o filho espúrio outro parente próximo distante um vizinho uma autoridade qualquer? Talvez nunca saiba.

3.Não sei por que neste momento nesta lembrança que luta em não existir a ninguém, não sei por que quase temo em me revelar e me rebelar. Visto não ser mais reconhecida mesmo que porventura nesta má ventura alguém do passado quase remoto me flagrasse agora hoje neste instante sequer saberia quem sou de fato... Penso a sorrir minha tristeza que se eu fosse homem do tipo pra valer seria nesta altura barbudo cabeludo demais ou demais calvo e por cima no por baixo com a pele enrugada nada precocemente e portanto desconhecido assim como eu desconhecida. Engraçadamente não seria mais eu mesmo para não ser eu mesma. Então para que temor!? Posso corajosamente passar por outrem no meio do caminho de outrem. E deixar, quem sabe, que as autoridades sempre preguiçosas a se dispor achar perdido, não apreendendo sequer bêbados contumazes ou contumazes pequenos criminosos – deixá-las procurar-me em vão... sem me preocupar com flagrantes. Enfim talvez qualquer um possa se esconder em si mesmo sem precisar cadeias ou fotos na rodoviária ou o choro dos familiares pela perda.

4.Tomei conhecimento ao longo dos caminhos do caminho que não sou caso único na escola da vida. E fosse único me contradiria observando a exposição na rodoviária, creio também noutras rodoviárias doutras cidades pequenas e grandes a divulgar sumidos do seio social pressuposto formalmente justo harmonioso e feliz. Porque notava nas feições nas mil fotografias deles, de nós, expressões fisionômicas as mais diversas desde as circunspectas às alegres descontraídas e plenas de felicidade no engano proposital ou não da pose feita e da tecnologia que tem no retoque seus recursos artísticos, se não deformado o original criando quase nova forma e novo desaparecido, cujas qualidades demais ressaltadas pelos que ficaram por vezes a sofrer a falta; ou defeitos que se escondem ou pelo contrário se exaltam a justificar as próprias faltas na família. Ou o caso que não foi meu caso, caso da ausência e desconhecimento da existência na família. Inúmeros expostos semelhavam minha imagem exposta.
Em toda opção fica claro existir o que não mais existe, por haver desaparecido. E existir a retaguarda, onde os que sofrem ou só acusam a falta; e registram boletim de ocorrência, informam ao menos a imprensa do sumiço.
Sem resolver a questão.
Isto porque, todos sabemos a formar esta consciência social, porque aumentam desaparecimentos anos após anos. E a solução ao problema perde de um-a-mil dos casos insolúveis... Aqui talvez possa incluir-me insolúvel pois nunca achar-me-ão.
Quais, indago, possam ser os exemplos doutrem? Sim como andam as pesquisas das autoridades sobre desaparecimentos, sabido que as dotações orçamentárias ao setor sejam ínfimas; assim como estatisticamente ínfima a porcentagem dos que não contam mais ou ainda ou nunca constaram sequer, levando em consideração o todo na população, a qual tomar-se-ia por 100%. Enfim são meros casos a chegar aos pouquíssimos milhares nos milhões da população. Supondo aqui válida a observação aos outros países, uns menos outros menos ainda preocupados com esses pagadores de impostos agora não-pagadores por desaparecimento (isto um grave aspecto à burras dos Estados...)
Todavia não é isso o todo do que acho dos tipos que sumiram.
Creio mais, sei nisso cada vez menos, porém creio sim haver os que se enquadram em meu tipo: sumiram e entraram no desconhecido do conhecimento geral, se não do esquecimento geral (o tempo é nosso inimigo; ou seria exatamente amigo...) – mas conscientemente uns fugitivos da sociedade.
Há porém casos graves, pois sair por livre vontade mesmo sem razão é uma coisa; outra seriam os graves e até gravíssimos, envolvendo também gravidade maior na retaguarda e é claro na condição atual dos sumidos ainda vivos ou ‘vivos’. Todos, quem sabe todos, com passado sem futuro. Soube, sempre por alto nunca ninguém com condições expor uma verdade total por sermos seres parciais ou incompletos em fuga em desaparecendo em ficando a suportar as exigências da coletividade. Por exemplo casos em que crianças suposto inocentes e adultos fracos ou governáveis foram sequestrados com o fim específico servir para venda inteiros à exploração sexual ou escravidão nacional ou internacional (prato cheio à imprensa) com possível escape um dia; e os com fim à venda em parte ou seja de órgãos; aqui talvez ao desmanche a serem vendidos como peças no açougue: seu coração a tantos dólares para uma entidade inescrupulosa; seu fígado a outra pago em euros; e a pele os ossos etc., a ‘embelezar’ a feiura de quem a tenha e em qualquer terra, de preferência longe e desconhecida.
Têm os casos outros de induções outras e de outras melhores piores consequências, segundo a compreensão moral desse problema.
E a condenação. É fácil condenar. Difícil saber tudo, compreender bastante; e quase nada resolver quem se disponha a isso. Isso é um intrincado...
Têm casos em que voluntária ou impostamente se muda ou se troca a identidade, sem trocar de fato o ser, que se não troca e mantém o sofrimento ou com novo sofrer até, sem relação com o antigo sofrer. Ou seria ter perdido a alegria e pretensa felicidade para ‘ganhar’ o sofrimento que não ‘desfrutava’...
Enfim como posso autenticamente saber outrem se não o quê por alto contado do mal sabido do mal ouvido!
Em todos casos havendo quase sempre se se não mentir nem abusar da verdade: a mentira da realidade que são os entorpecentes, pois bebidas e pós entram com facilidade nessa explicação simples desse complexo. Ao qual não tenho acesso ou só ouvi dizer.
Contudo há este meu caso, caso possa interessar.

Quando saí da consciência coletiva – quem não atento à consciência não existe só existindo quem ela tome conhecimento – quando, naquela madrugada fria escura silenciosa nem os cães a me perceber ou que delirando eu é que não os ouvira, então escondi-me nas horas presentes virando futuro que agora é meu passado, difuso embora; quando, entrei no desconhecimento social e me transformei noutra. Andei, desvairadamente, dias noites nos meses subsequentes e espichei minha fuga (fora uma fuga sim) espichei-a nos anos, anos até hoje; ontem flagrara-me na exposição das fotos na rodoviarinha. Ainda hoje lembro-me dos fatos mais marcantes e guardo perfis, agora quase perdidos e marcados apenas no nebuloso...
Fugi. Fugi de meu esposo e de suas bravatas ou das bravatas de suas conquistas; de sua traição anos; e sobretudo da violência além da traição, a violência física concreta ululante que se vê ou se se não pode ver ou que se finge que se não vê. Apanhara de vez em quando no começo da vida conjugal e diário no fim; quando desertei. Esta uma figura, o marido, uma de grande hipocrisia: não vi mas sei haver-se postado como vítima, quem sabe a chorar nos ombros parentes, até nos de minha genitora – a perda. Ora, qual perda devendo afirmar ganho, liberado às suas falcatruas e amantes... Terá dado declaração ao rádio; nossa cidade não dispondo estação televisiva; falado à imprensa escrita, um jornaleco faminto nos mil sábados sem notícia da urbe acanhada.
A mãe, e a mãe dele também, órfão de pai enquanto que eu desconhecendo o meu, o que pior; a mãe chorou seus desesperos em minha falta, sei. Quase favas contadas. Poderia afirmar agora desse ontem: era a preferida entre as manas dela; também fora preferência à sua violência diária desde menina à mulher casada, mal-casada melhor diria. Havendo então um complô familial ou só acordo entre a genitora e o genro contra mim. Em tudo. Ela a fechar olhos ou aceitar escandalosamente o “filho” chamava-o seu filho (nunca Deus lhe dera um machinho). Não perdoava deslizes possíveis desta filha do seu sangue. Mesmo num episódio desagradável que foram os meses em que a sogra fora morar com o genro e a filha, ainda aí o correto do erro sendo os conflitos pertinentes e admitidos no jargão popular: assim tinha eu agora dois inimigos a me descadeirar diariamente; inclusive achava minha mãe certo que me corrigisse o homem a pancadas para educar a esposa.
E o filho? meu único herdeiro virou logo após sua compreensão e já um escolar meu adversário gratuito! nunca se posicionou favorável a mim; ou trabalhado pelo pai ou dirigido pela avó, até pelas tias, porque como falei parece ter havido um complô na família a me destruir.
Ora, concluí após anos que o choro é arma de brinquedo e ineficaz. Pelo menos em meu problema.
Amanhecia, assim, derrotada e flagrantemente indesejável no próprio lar, um lar que não passava pra mim de apenas uma casa, fria, um inferno.
Optei por chás caseiros a amortecer meu drama, sabido que todas comadres sejam boas médicas; tomava garrafadas também por conta própria. Até chegar a experimentar drogas vindas da vizinhança, compradas com dinheiro roubado do bolso do consorte, aqui trocadilhando sem sorte...
Então fugi igualmente dos cobradores traficantes do bairro. Não tivesse melhores razões a fugir...

Preguei certa peça no mundo a viver no esquecimento do mundo e no mundo do esquecimento. Agora levo meus andrajos por aí; penso inclusive cruzar fronteiras ir ao estrangeiro, onde todos são desconhecidos a perambular na miséria na pobreza da população. Me ocorre neste momento: não somos todos alienígenas?
Diante desse quadro e não mais temendo ser reconhecida, parto atrás do meu futuro sem futuro e me escondo, preciso for, não me mostrando a um público que me desconhece. Me escondo dentro de mim mesma.
Marília   novembro 2012



         



           

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