A Morte
Número Três
Agora,
transanteontem ontem hoje amanhã decerto, tudo dando certo nesse errado, agora
sim consegui ficar só e faço uf! não sei se por desfastio se por satisfação ou
por desfastio a me livrar de todos viventes nesta morte – quisera fosse já a
quarta a última o tudo o nada, contudo é sem sombra de dúvidas a terceira e
mais feroz das ferozes mortes – agora vejo ouço sinto a voz apagada do silêncio
neste recanto. Diria de dor! digo de dor; ora bolas, nem sempre poderemos nesta
insignificância nos livrar do cacófato... deixemos esse ‘dedinho’. Dor? e
decepção não deveria dizer melhor a compor uma realidade que me compõe? digo,
digo sim mais uma vez.
Agora,
a oportunidade em que a dor se vai, sei inda indo um pouco e provisoriamente
mas enfim se vai; fico neste vácuo que é a voz do silêncio; silêncio relativo
pois que ouço o quase imperceptível grito dos insetos pequenos que é o
cricrilar por volta e escuto o manso berrar humano poderoso no seu início e
fraco no findar sua distância e também seus ecos que ecoam rebatem e chegam do
falatório da gente, as catarinas as marias os joões os joões contra as marias
as marias contra os josés, tão só a me chegar aqui leve e a respeitar a minha
solidão nesta terceira morte... Mesmo a Catarina saiu aos seus recados, a
comprar na venda, a segredar seus lances de Estado à boca pequena na vizinhança
e me deixando livre.
Livre!
que é liberdade?
Ponho-me
entretanto ou por causa disso tudo à conexão com a primeira.
A
morte primeira me doeu moralmente mais, sabido que nenhuma dor física
consegue destruir tanto na sua construção da verdade; ou seja a deixar que se
faça e piormente se demonstre a verdade... Ela me deixara. Se cansando
certamente do cônjuge me largara – eu exageraria irreverente como sempre fui no
dizer – me largara com os filhos para criar quiçá educar mas pensei então como
educar sem dar exemplo? Ter-me-ia deixado a esposa após vinte anos de
desentendimentos, apenas se salvando e excetuando o primeiro ano de nove meses
não chegando este aos doze no qual fomos ambos felizes, a contentar a
Carochinha que dizia falastrona “e foram felizes por todo o sempre” aditaria
“amém” não o fazendo por não ser religiosa igualzinho o cônjuge abandonado
tanto quanto ateu ou só descrente, assim a carocha ficando comedida no ‘todo
sempre’. Brigas violências homéricas, ah pobre Homero com tantos feitos a
precisar hoje ter que ‘enfeitar’ desacordos de casados.
Após
tempo a se desfeitearem se deixam, uma me larga enquanto outro a ‘casmurrar’
seu desastre porque a solidão é um desastre que poucos suportam. Sim, chorei
qual menino perdido sem sua goloseima então.
Busco
novamente a carocha – não fiquei com a filharada para criar e educar na
possibilidade da inabilidade paterna não: não tivemos nossa prole.
E
aqui nova sorte nesse azar que foi anos seguidos ela me culpando por não
satisfazer seu instinto maternal; até abrindo o jogo e no inferno daquele céu
perdido em ofensas me tachando incapaz na fertilização. Enquanto que o cônjuge
de minha cônjuge despejava na cara dela ser ela sim a estéril; ainda advertia
citando os casos xis e ipsilone nos quais as empregadas domésticas engravidavam
dos machos patrões... Ora não tínhamos sequer servidora na casa em razão da
falta de numerário e nisto também se segurava um dos pilares da discórdia
conjugal, porque se o dinheiro não fazia não faz ainda a felicidade ao menos dá
a base para que se construa a felicidade. Infelizmente bem mais razões havia a
essa falta de razão que é um homem e uma mulher não se darem debaixo do mesmo
teto.
O
casal viveria num mar de rosas (isto a agradar a fala popular) viveria bem, não
precisando dispensar o regado numerário com a prole, bem sim se se amasse – o
amor se não cobre a multidão dos pecados como falam religiosos, dá ao menos
sustentação para o casal, nosso caso ambos ateus porém com o suposto aporte do
amor. Aqui se encaixa o primero ano de nove meses e não com doze.
Viveria
num mar, admite-se, porém havendo outros empeços, empeços esses ainda mais
ruinosos e bom à ruína e ao desmoronamento dum lar.
E
o que é um lar.
A
casa o casal a prole – mesmo com seus dramas ou só questiúnculas aparentando
problemas. O prédio frio seco pesado abandonado não é o lar é a casa triste na
tristeza do único morador. Esta forma masculina foi posta propositalmente.
Prejudicaram
a harmonia as andanças da mulher... senhora diria se outros fossem os tempos. A
companheira não parando no lar, então um lar, sob pretexto do estudo, do
trabalho, das amizades “seria necessário cuidar amparar fulana e siclano indo o
matrimônio dos amigos por água abaixo”. Existiam as pesquisas os congressos,
havendo a luta o ideal político – vivíamos então naquelas coisas do século
passado, o mal do século consistente no apurar a verdade política; isto bom a
bons irreverentes pensadores (esse mal do bem atingindo ambos cônjuges, daí a
anuência do chefe de família, esta expressão bem abusiva...) Resumindo, com
argumento da necessidade da luta de classes pela verdade política de cores
esquerdizantes, se adverte, em nome disso o cônjuge feminino se ausentava
frequentemente e mesmo eternamente, naquilo que se convencionou dizer as vozes
poéticas enquanto dure; desaparecia por horas nas horas das semanas incluídos
os primeiros e os últimos dias, desaparecia quase desaparecendo... Quando
tornava, tornava no seu melhor ao pior do casamento a mulher, o cônjuge de boca
aberta todavia não de fala fechada. Não. Antes que isso isto: bate-bocas sem
parar, parando no leito por vezes porque o sono e as necessidades não brincam
no serviço. O dia imediato, imediato surgindo com novo serviço aos desserviços
do tempo. O tempo foi passando, não célere, lento como a doença e a morte.
A
morte!
Ela,
evidente não ser a morte, ela chegou um dia ainda a exalar os cheiros de
viagens de congressos de altas relações nas relações sociais dita tidas por
universitárias às pesquisas e aos estudos e anunciou, não afirmando embora a
influência dos altos conselhos e dos conselheiros; ela chegou ao partir.
Meu
bem – este o tratamento dos decênios se pensando e ousando confundir com meros
nove meses e aqui se põe as verdades das palavras nas ideias e mais ainda as
inverdades dos sentimentos – meu bem vou deixá-lo e... A discussão não se completou
na discussão porém no arregalo duns olhos que viam masculinamente o mundo e na
boca quase aberta, a qual... ah para que repisar feridas revolvidas tão só na
chegada da morte, que não fosse, era entretanto a primeira, para quê?
A
primeira não durou mais que umas poucas décadas à paciência impaciente, tolhida
a impaciência pela segunda que será mostrada noutra vez. A primeira se
caracterizando por choro sem velas; mesmo porque toda morte exige que se viva,
ou não se vive o sofrer.
O
macho da espécie Homo ejecto iniciou
uma série de horas dias semanas meses anos de soluço, que é o choro contido bom
à mostra social. Apesar, retomando a continuação do labor, dentro do sadio
princípio ‘quem não trabalha não come’, que a sabedoria popular adverte. A
laborterapia não resolve todos problemas, diz-lhe seu íntimo.
Assim
restou uma casa sem lar. Ou seria um lar destroçado com uma residência sem
recuperação na sua externa rachadura e no reboco rústico desgastado sem nova
pintura. Um ponto bom para entrega de contas e volantes de propaganda – a luz a
água a taxa o telefone o compre isto ou aquilo etc., tudinho ao vento buliçoso
espalhar. Mesmo porque nada disso entende um chorão.
Entra
o lenço.
Entra
o trabalho.
Entra
a rotina.
A
rotina até que se não faça mais rotina...
Chega
a segunda como uma visita inesperada.
A
morte segunda. O falecido encontra-se cabisbaixo no relaxo do vencido,
vencida a outra etapa da etapa chamada existência. Esperneara desesperanças,
contudo é preciso viver. Assim relacionou-se com o trabalho (mais uma vez a
laborterapia, do tipo mambembe sem controle, a passar seu tempo:) passando o
tempo no rolo das horas aí por umas poucas décadas, quando o inesperado.
Aliás
tudo quase tudo é inesperado ao inexperiente sobremaneira ao espevitado; isto
inadequação e mera forma de acertar o desacerto de frase porque realmente o
morto calmo lento morno no quefazer, dando assim se não ideia de plenitude a
todos por sua aparente aparência, longe estando entretanto o equilíbrio ainda
às vésperas do inferno das lágrimas, contidas; contidas ou iria molhar
indefinidamente o mundo formar lagos e mares tão só a só lembrar-se da esposa!
não, é claro. E além do mais iria também viver a curtir uma saudade, saudade ainda
sem a formatação no ideário de conceitos justos. Mesmo porque que é saudade;
seria uma lembrança coberta de sentimentos e aqui não mais que mais por ainda sentida
numa rememoração dos sérios desentendimentos do casal nas últimas décadas. Não.
Supõem-se a memória dos bons momentos, não aquela do inferno num lar virando
casa quieta sombra silenciosa machucada em seus compartimentos e por isso muda.
Ora, também a viver um morto não defendendo a lembrança do sofrimento.
Não
defendia o sofrer, suportando apenas o sofrer e aqui fora antes tolhido pela
dor e agora colhido pela rotina e o será depois pela segunda morte, então
convencido de que tudo estando nos conformes do “bom-dia” “obrigado” “passar
bem” “vai chover” ou “o governo é um ladrão” – expressões estas que se não
encantam o homem comum o distrai bem no engolir a vida. Ora, o homem do povo
desentende o entendimento na diferença entre existência e vida, porém aqui não
sendo o espaço a discutir filosofia.
Ela
chega à sorrelfa – não a ex-consorte, Ela aqui é a morte de número dois. Aliás
o homem tratado não passa do ser comum do tipo povão mas com um dado a
confundir a ideia geral dos viventes nesta parte do planeta, sofridos sofrido;
porque controlado seriado metódico em tudo que faz – e isto abuso e desconcerto
no dia a dia do habitante a se pôr sempre qual barata tonta na desordem. É o
único quê que o distingue. Sabe por exemplo quando vence o imposto. Xinga mentalmente
o imposto e o governo e paga; pior nisto: enfrenta, fica na fila quilométrica
do banco ou na da lotérica a fim de quitar limpar o nome não o deixando sujar
com vencimentos vencidos. Alerta ao aluguel e às demais obrigações, como a
pensão advinda do divórcio e devida à mulher e à prole, porém se livrando dessa
complicação por não ter havido briga no desenlace legal, só houvera refletida
nos bate-bocas informais infernais; além de não precisar arcar com pensão aos
filhos em vista não ter tido descendentes, culpando vez por outra a parte
feminina estéril enquanto a pecha equivalente dela sobre a parte masculina.
Embora
estas linhas numa dispersão indesejada, eis que chega a morte!
Andava,
desavisado inexperiente ou esquecido, andava no seu carro comum e usado sem
combustível. Noutras palavras, parando na estrada da estrada da vida sem
combustível, a gasolina regada antes no pouco numerário; andou pouco e parou.
Ia ao compromisso, compromisso não tem o costume de esperar, esperou o táxi e
deixou seu carro morto na beira do caminho. Contudo não se movimentaram mais
que quilômetro, indicara o passageiro ao taxista parar pararam sim aí com estrondo,
acordou na cama de hospital.
Disseram,
disse a bela enfermeira, haver escapado à morte por um triz, o seu chofer não
tivera a mesma sorte nem o do veículo que passara por cima do táxi, a tevê estardalhaçara
bem o estrago e a polícia fizera o boletim oficial de ocorrência. Não pôde
saber, não sabia, não pensara a jovem servidora e informante, estar o paciente
paciente engolindo as dores e iniciando a sua morte segunda segundo a
desinformação. Sequer a moça podendo conceber o doente fosse um colecionador de
mortes, passara pela primeira iniciava a segunda e – aqui nem ela nem ele
esclarecidos – a partir para sua terceira morte.
Isto
posto, positivo ou suposto, caminhemos aos anos como falecido.
Sofreria
meses sem conta faixas gessos exames melhoras nas pioras e sobretudo dores e
limitações, o sangue e o remédio sub-repticiamente embutidos nessas dores e
limitações. Contudo as limitações se ampliaram (ou não seria então dados duma
morte que se preze). Digamos que por anos e anos passou a conviver com tudo
cortado ao meio, decepada a cabeça do desejo e das conquistas, as conquistas
mais comezinhas e simples aos seres simples; agora já bem complexo dadas as
encrencas na sua rotina. Estranho e curioso como a rotina recolha aceite atraia
suporte muitíssimas situações de dores e sofrimento nas dores de um simples
homem.
O vivente da
e na segunda morte era a partir daí
um pedaço de si mesmo. Tudo que lhe sobrara poder fazer era um fazer sofrido e
a desbaste, limitando o próprio fazer; ora, então não é fazer.
Já
não podia trabalhar – e para que um título de doutor por exemplo? Não podia
andar, não sendo com muletas e arranjos técnicos; não podia comer... podia ou
não, sim aqui morrendo e daí como ficaria essa fase da morte!? precisando realmente
ele se conter no pouco mais ou menos mastigável. Não podia apresentar-se (e
para quê! a fim de satisfazer a vaidade doentia, pois é sempre uma doença a
vaidade) ou sim, nisso a espantar um público. Antes ofendera e ofendia um
inocente espelho, porque houvera no acidente ou tragédia automobilística uma
explosão a lhe desfigurar na queima o rosto e as costas, estas podendo ser bem
escondidas, é óbvio. Agora enfrenta o espelho.
Se
o Estado o mantinha com uma aposentadoria pouca, muita ao homem simples; o
mesmo não podendo ocorrer com sua feição: estava ali em exposição não num museu
de fenômenos extraordinários porém na via pública um monstro, um ser deformado
à visitação da curiosidade, apenas tolerado pela gente de enorme coração e
cheia de caridade; ele anteriormente brioso e orgulhoso.
E
quer maior morte!?
A
morte terceira. Mas ei-la que
surge num horizonte sombrio sujeito no fundo a relâmpagos estrondos, anunciantes
da tempestade destruidora... Contudo chegou quase que mansa apresentável
pacífica, apesar anúncios sub-reptícios de engano sem má-fé embora. O que
tapeia inclusive os enganos simplórios dos simplórios... Surge de repente tal
qual aquele parente ou um conhecido-desconhecido (defende-se aqui não se poder
garantir dito amigo tido assim, tão quanto desconhecido quanto nós ignorados
aos ignorantes; extensivo isso por maior boa vontade dos mansos à parentela – a
qual aparece aí no portão o táxi ainda a funcionar:) e a família desembarca
nesse embarque de mala e cuia, assim o chavão caboclo aos desapertadores na
crise que avassala e nos atinge a todos. O macho da espécie, a fêmea da
espécie, a prole dessa espécie quase toda uma parte ficara na cidade grande nos
pequenos compromissos, pequenos aos nossos olhos; a gente e as malas e os
pacotes e... não, não nos presenteando com animais de grande porte a espantar
ladrões da capital só um cachorrinho preso numa caixa de sapatos com uns furinhos
para respiração, a sujidade a fedentina foram depois alimpadas. E o barulho da
tralha e do pessoal a atrair vizinhos desde suas janelas; além da choradeira
das crianças porque menino não sabe mentir cerimônias. E assim Ela chegou. Foi
assim. Assim é.
De
repente, sem que se a esperasse e menos a desejasse por companhia.
Segundo
a Catarina não me disse, diz sempre às minhas visitas, visitas para ela mesma
provou a prova em última análise – afirmando que seu Zé sofreu um derrame nas
coisas lá dentro... sim, corrigiu-se pela correção visitante: o médico falou
AVC, mas não dá no mesmo! Então ficou, fiquei, paralisado bloqueado
atrapalhado... não! dos dois lados ou mesmo de todos lados... Não vê (eu as
vendo) não fala (eu falando) não sente (eu sentindo) um morto (eu vivo) um
boneco de carne e osso; ih o que mais tem é osso, de furar a gente quando a gente
pega, dá até medo mexer nesse corpo sem vida (eu nessa conversa destravada
vivendo sem poder me defender fechei as pálpebras a fingir dormir sumir embora
horrorizado com esse horror). Assim tramelou tramelaram me largaram os presentes
o presente ao seu próprio desespero em não poder comunicar o que comunicar,
isolado do mundo dos vivos, morto.
Assim
intento o intento de provar existir numa prova de existir, sem grandes sucessos
que não o respirar este martírio, após o martírio de já haver vivido duas
mortes antes – como lastro a embasar esta terceira!? pergunto.
A
visita – outros mais visitantes aparecem e se vão também – a visita se foi
fiquei só com a Catarina a qual após isso me cobriu aumentando o calor que
sentia e saiu me deixando sozinho realmente. E aqui questiono a companhia e o
porquê de companhia. Daí se foi ela às suas visitas habituais na tagarelice
constante diária. E o silêncio me ficou a ninar. Aos poucos ouvia catarinas
marias joões por aí, longe do meu perto, perto chegando os sons desbastados ou
desgastados a serem violentos e estrídulos na origem e mansos quase pacíficos
ao vibrar-me as orelhas. Uma delas me dói horrores agora, decerto o peso da
cabeça pesando toneladas por cima da cartilagem... e não posso mover o corpo
com a cabeça a fugir da posição do incômodo e da dor... Ela sumiu, não a dor a
Catarina.
Catarina. É minha
ligação com o mundo dos que se pensam vivos baseados na sabedoria da rotina.
Trata-se duma certa moça – aqui um abuso de anos; com uma conotação cabocla
antiga a qual só dava direito à mulher sê-lo se virgem, independente da idade
cronológica às vezes a mental ficando muito a dever; e também admitia esse
pensar a que passasse de menina mas não fosse adulta ou velha mesmo e aqui
podendo que pudesse haver sido deflorada e devidamente cobertada a mancha pela
família; e portanto sendo moça. Moça então minha cuidadora, hoje há esta profissão
para tratar idosos; meu caso pelo registro civil e mais por haver passado (não
vencido...) por duas mortes já, meu caso me põe como idoso; e bem a propósito
deste despropósito, não sei mais quantos anos tenho. Sabe a Catarina. Todavia
não me adianta indagar quando ao meu lado, agora ausente.
É
moça esperta, ativa, ativa por vezes demais ao meu gosto, ativa como próprio ao
seu físico pequeno magro ágil num fazer tudo rapidamente. Aqui me lembro a mãe
quando menino a dizer lamentar à comadre Dita que empregada que faz tudo
depressa não faz direito, tudo feito pelas metades; e daí justificava não
aceitar em casa domésticas como a... ora, esqueci o nome. Um de meus maiores
dramas é o esquecimento das coisas e mais das palavras que vestem as ideias,
não esqueço a ideia em si. Não
adianta pedir ajudar-me a recordar quando aqui ela, ela a Catarina, agora longe
no seu perto a recolher suponho novidades para reforçar mexericos...
De
baixa estatura sem ser baixa e gorda, a gente sempre une baixo ao barrigudo e
alto ao magro espichado. Catarina nega ideias preconcebidas, contudo rápida na
movimentação, é quase elétrica, elétrica sendo no falar, fala por si e por
outrem na conversa estando ou não presente um de fora; aí dispara a si mesma fazendo
engraçado ambos no diálogo: fala imediato responde. Responde-se. No comum dos
dias (e das noites...) usa-me a boca que não tenho para responder-se.
Entretanto assim age estando não a falar com um boneco sim com um humano ser
que tenha vontade direito e possibilidade se expressar. Isto de sua
personalidade ou próprio de seus defeitos. Agora longe como adiantei no seu
perto.
Depois
torna, ando acostumado disso, volta prenhe de sabedorias voláteis e pouco
ambiciosas das verdades consumadas, é preciso ser consumada por depuração uma
verdade; volta plena do saber apesar dalgumas reticências alheias que se não
completam por algumas horinhas de conversa de comadre e, pior, pior pra mim, me
despeja o que trouxe visto chegar quase sempre ao ponto de estourar tantos
fatos ali na cabeça por baixo da cabeleira loura. A verdade me acusa
bisbilhoteiro a bisbilhotar a bisbilhoteira por mostrar fios dourados ao sol da
manhã aqui neste quarto claro apenas na sobra dos raios que me chegam; pois que
sei pelo a+b da observação que a cabeleira é branca neve alva da idade da moça,
surgindo aqui ali manchas mechas de fios de algodão por baixo por cima a oxigenação
apócrifa – isto senão. Mais pesando o peso dos fatos que me traz, sem pretender
presentear-me; aliás por toda minha longa existência e até antes já da primeira
morte a chegar nesta destes dias (noites sombras escuros do sofrer!) até aqui
nunca apreciei receber presente; este então, deploro. Catarina não entende e
não entende assim e assim me pondo a par de todos ‘segredos’ (ai como fala
agudo gritado o quase berro!) todos acontecimentos, todos grilos, todos podres
da Boa Esperança, rua funesta para meus ouvidos. E me traz insurgências
demências abrangências até, e outros fatos engraçados, desses para se não rir,
enfim dados corriqueiros, fúteis todos tudo. Ah que fazer?
Sabe
que dona Maricas trai o esposo maricas do 44 com o comportado da Maria do 33?
Respondo com meus olhos a boca fechada só aberta a me impingir ela a colher com
remédio ou pão com leite e café, com olhos a lhe responder que me importa e
afinal sequer conheço tais nomes e menos as pessoas ditas tidas por erradas
segundo a sabedoria oficial boa-esperancense. Nem ouve – ora, como ouvir se não
falo? – nem espera que responda, responde ela mesma pichando criminalizando
justiçando os vilões; ah não existe pra si se não brutos e maus nesse posto de
mau caminho que é nosso bairro. Mas, curioso, eleva às alturas angelicais as
amigas, quer dizer pessoas que concordem com suas expressões e bravatas diante
do público de comadres a esbanjar água com mangueiras de borrachas de plástico
a regar a rua da prefeitura, a ladra, e aqui anuência de ouvidos pró e contra
às verdades catarinescas.
Agora,
neste instante da eternidade que me devora, ela, não a eternidade a moça
autêntica tia por solteirona, ela se despe se veste se troca arrogantemente ou
ingenuamente ou naturalmente havendo perdido a vergonha diante dum macho estranho
por não ser sequer parente, ela mera empregada da casa; ela troca suas vestes
aqui ao lado, vejo sua intimidade passada, passado tudo a limpo não me
interessando o corpo magro as mamas soltas fracas miúdas pobres frouxas nem
outro qualquer adereço feminil numa tia gasta não gasta a língua que se não
gasta; despe o saiote (e me pergunto sem resposta se é saia, não sei nunca
soube roupa de mulher) e se cobre com calças vira homem sem ser macho pra
valer, dentro do costume de agora; e por cima, na parte superior a cobrir as mamas
sem sutiã, uma camiseta de algodão gasto gasta a gosto com sabor consumista
tendo mil legendas e dísticos e desenhos talvez pornográficos, que sei eu da
pureza gringa, tudo em inglês que ela não sabe e que desconheço sem me fazer
falta conhecer; e põe a indumentária falando não para mim pra si mesma, não de
assoprar: meio gritado seu discurso.
Troca-se
me vendo me falando aqui encostado porque meu quarto que é meu refúgio ou meu
mundo é pequeno quase espremido porém ela se ajeita; ajeita a coisa que agora a
veste, sempre sentimos algo a nos incomodar, eu no meu caso toda vida precisei
acomodar mudar de lugar tornar ao lugar anterior o meu chapéu de feltro; assim
também minhas calças minhas camisas de uso diário, a ponto de me perguntarem frequente
se com bicho-carpinteiro, a receberem resposta imediata e adequada ao
entedimento de outrem pois escolhemos o menos ferino aos que nos feriram, se ferindo.
Não agora, no agora de antes, antes e durante as mortes anteriores; agora neste
hoje, não. Não posso sequer emitir sons inteligíveis, de maneira que ela não
poderia neste momento ouvir-me repreensão ou anuência ao seu modo de trajar. E,
me repreendo, não anda como toda gente válida minha cuidadora!
O
que me fere é sua liberdade, não permitindo ferir-me mais ainda pela rotina,
que é se trocar diante meus olhos e até com os olhos abertos arregalados da
janela e da porta deste recinto de sofrimento (ou de finalização! me interponho).
Por fim está vestida, pronta, cheirando; reclamo o exalar suor dormido porque
Catarina não é apurada na limpeza da roupa ou seja na sua higiene... Não
obstante usa desodorante que todos usam a cheirar o que se cheira; e após
complementa aplicando perfumes populares ofensivos ao meu olfato... que horror
o meu horror, porque ainda lhe devo o bem praticado na higiene do seu paciente,
este impaciente ser que sou eu. Daí agradeço-lhe os cuidados. Aliás é aqui que
mais sinto o drama que é meu drama...
Limpeza
da sujeira. Minha cuidadora em cuidados, não se podendo afirmá-la
displicente e piormente desonesta, não desse tipo de profissional que só faz
sendo vitrine ou se vendo na possibilidade a receber promoções (aqui o absurdo
tendo em vista a pobreza e as limitações da família empregadora) desse tipo enfim
que só produz o que produz quando vigiado – não: faz ela correto o seu pouco da
mesma forma com visita vendo ou estando apenas nós dois, o que quer dizer ela
sozinha porque minha passividade não permite ser visto como fiscal ou superior
hierárquico. Portanto ela trabalha por dignidade, inclusive faz refaz repasa
confere circunspecta o que fez o como fez e até que ponto fez e não aceita meia
verdade na verdade, escopo de quem seja honesto. Inclusive nesses momentos fica
muda – enquanto falando pelos cotovelos em todas situações e isto é prova de
sinceridade e respeito na própria arte. Contudo é pilhada, sozinha, a pensar
alto ou seja falando o que pensa; igualzinho a conversar com alguém aí na rua
da Boa Esperança ou vindo ao trabalho me tratar, sem audiência viva: a mulher
fala-e-responde como houvesse alguém não havendo ninguém (isto porque já não
conto, morto).
Trabalha
nos cuidados que são seu desiderato ou a somente satisfazer sua personalidade
sua honra, mas sempre num ritmo. Tem regras e passos formais, já encaixado na
sua doutrina ou rotina, para tudo o que faz aqui – a mim ligado, sou seu objetivo
e não mero sujeito ao seu ganha-pão. Creio mesmo agir sempre assim, agiu sempre
assim, agirá sempre assim; ou seja obedecendo os passos formais no que fizer.
Não obstante não trouxe na bagagem referências diplomas certificados, não fez
curso algum, sendo do tipo de gente disposta como se diz por aí: pau para toda
obra; espécie de cabocla que trata de questões difíceis aos médicos e
enfermeiros e o faz na altura desses profissionais. Mesmo sendo pouco mais que
alfabetizada, de língua e mão. Isto porque até não só o que ouço proferido por
ela e mais o que vejo escrito nos bilhetes e recados que registra a passar a
outrem é de me arrepiar, de massacrar o que o ensino acadêmico me transmitiu;
algo digno de arrasar os conselhos dos letrados... Pior, no meu caso pior: não
posso corrigir aquilo que vem arranhar minhas orelhas e barbarizar textos de sua
lavra, que não me mostra e sim vejo ao sofrimento de meus olhos! no entanto tem
letra esquadrejada e quase caprichada, longe dos garranchos da plebe ignara; um
cursivo bem feminino. O maior drama (de quem? de quem observa os desvios ou
ignorância) o maior não sendo a escrita mas o som, sua voz um pouco fanhosa
sempre refriada a escorrer ela a se limpar porém a voz um pouco estridente, o
que se perdoa não perdoo é seu linguajar chulo a gíria cortante constante e os
erros bastantes nunca bastando. O homem comum, fêmeo ou macho, não se cansa
proferir asneiras e – pasmo-me aqui – inventar vocábulos a vestir suas
ideiasitas. Outro dia mesmo deu-me nó na garganta ouvindo certa crítica dela a
alguém por algo, sem ferir-me tanto o conteúdo, a veste do conteúdo. Engasguei!
e nisso tome água e tome remédio a um mal que não é meu é dela, sem berço ou
quem sabe nunca tendo visto berço. Quando me desengasgado olhei-a com pena,
pois sofrera meu sofrimento lutando e a ajudar-me sem atinar com a causa que
era a língua; não a língua fisica, de falar as abobrinhas na disputa com a
língua das comadres aí da Esperança; a língua dela sem peias sem esperança,
pois morrerá, depois de mim embora, falecerá sem saber tourear o básico no
vernáculo. Quando vivo, antes da primeira antes da segunda antes desta terceira
morte, era isso para mim um crime de lesa-majestade.
Todavia
Catarina é prática, exerce com certa normalidade a profissão é mui atenta e uma
cuidadora cuidadosa. Inclusive só me deixa, não deixando ao deus-dará, apenas
nos instantes que durmo; ou que lê estar seu paciente relaxado no sono. O que
triste engano da moça. Então é que se pega na rua cuidando das amarguras das
outras moradoras sem esperança na Boa; após me traz as novidades, as quais não
desejo não pedi, deploro e sou obrigado engolir; ainda por cima nesse por baixo
em baixo linguajar a ofender a língua padrão; que os bastardos não sabem andar
infringindo e o soubessem talvez sequer a ficar de consciência pesada demais.
O
boneco vivo. A cuidadora sai viva como sempre no corredor de casa às
vezes tropeçando descuidada – rumo à Esperança, na esperança concretizada quase
sempre, após ver rever seu boneco, eu, se morto, descansada, em paz e por via
de dúvidas torna olha olha-me o corpo desgastado se dormindo; e aí, livre, é só
delas: as vizinhas. Ouço, morto a se pensar vivo, vivo a se pensar morto, o
barulho na rua, costumeiramente zangada nos seus alardes. São veículos a gritar
são cães a gritar são meninos a gritar no grito das mães. Tanto tanto som lá a
torpedear o silêncio amedrontado aqui; tanto gritar, que o som rouquenho da voz
de Catarina quase não me chega, chega manso a meus ouvidos, mansos e também
vivos. Nisso destampa lá fora a improperar seus impropérios o alto-falante dum
vendedor; são mil os vendedores aí na rua na esperança do lucro tão caro ao
mundo consumista de agora, como de ovos de aves de peixes de frutas de verduras
e mais ainda o de porcariada, amiga dos estufamentos humanos. No meio sempre
tem alguém a ninguém especial comprar a vender panos de prato, a dar panos pra
manga e Catarina já a indagar o preço por conta da conta ou à vista no perder
de vista do prazo e do salário atrasado que garante andar sem receber aqui no
emprego. Ela me fustigara ontem ou anteontem que a família não lhe paga faz
meses; foi além: se não... “sim senhor Zé vou voltar pra dona Maria, era chata
mas não atrasava o ganho na perda e...” tapei meu entendimento a desconversar e
será mesmo ter razão!? não me responde, eu me respondo tentando me convencer
num quem sabe poder dormir apagar incapacidades, até a de defender a classe
patronal que represento ou da qual sou objeto talvez abjeto. Fechei já fechados
os olhos, cerrei pálpebras para sumir à afronta sem o conseguir. Enquanto, a
Boa me entrava barulhenta abusiva pelos ouvidos sem pálpebras vedatórias. Grito
na grita geral, então com mero arremedo da voz dela a me lembrar insultos de minutos
quiçá segundos a ecoar milênios teimosos no ouvido de meu outro ouvido.
Descobri
que o ser humano, eu ainda humano, tem além das orelhas e da audição interna
dos sons, sejam alegres ou ferinos; tem a gente a escutar também a voz que ecoa
manda e inferniza lá dentro dos miolos e essa voz não se cala. Vou além nessa
escravidão da sonância interna: sequer a morte cala! Ficaremos calados
entregues aos vermes famintos, ela permanecerá cobradora; até o último ceitil,
dizem os escritos ditos tidos sagrados; seriam aqui os tais processos em julgado? – ah vênia, diz certo torto
o direito.
Contudo
ando embora morto no pensamento da cuidadora, vivo.
Contudo
morto.
Ela
retorna, não a morte não a vida, ela a Catarina, séculos depois. Me metralha
não o ajeito pronominal – isto um pensamento, não sujeito à norma culta escrita
e coloquial – me fuzila me tiroteia mexericos lá de fora trazidos aqui dentro.
Seu Chico caiu da escada, minucia o contar esbanja o falar, indago quem é esse
Chico qual a escada quebrada de que menos sei e menos ainda conheço do lance
partido que levou a vítima ser vítima ao pronto-socorro, ela corrige se
corrigindo “não é mais PS, agora é PA” e lamenta à sua maneira “pronto, um
pouco sim” o que não atende bem é o A da sigla, diz mais ou menos nestes
termos; quero meter colher torta e diria: você, menina (iria feri-la moça tia
velha acabada! não, acabada é dose forte visto viva elétrica a se movimentar
qual formiga rapidamente igual correição na mudança de tempo) você pagou seus
impostos para manter o serviço público ao público e daí o pronto o bom
atendimento? No entanto calei-me, calei-me antes mesmo pudesse constatar que já
não falo. Falo do que ouço.
Ouço
anos – nos últimos tempos antes desta terceira morte, a andar no capengar aos
pedaços de meus pedaços, andava não só na Esperança então Boa e sim por todas
ruas deste bairro da periferia sofrida. E vi e ouvi e falei e bronqueei com os
dignos a serem bronqueados por sua ignorância quase genética, enfim oportunos
importunos a sujar a via e as ruas já sujas outras, ou sujas do lixo ou sujas
da poluição dos abusos mundanos na periferia pobre. E que se não mostre
indignação por existir também a rica, longe embora do centro da cidade grande
pequena na expressão. Rica é a periferia que tem moradores com casa automóvel
esbanjo de torneiras, mas tudo velho remendado usado todavia com asfalto, antes
era calcetamento de paralelepípedos agora sim asfalto negro rachado esburacado
remendado merejado de água limpa de cano trincado e na guia onde acúmulo de
sujeira por outros líquidos fétidos empurrados (não ou sim? com a barriga) por
vassouras gastas de piaçava ao terreno ou área (pública também) da vizinha,
aquela... não: ladra é a prefeitura e todos adversários concordam. Essa a
periferia rica. Tem a pobre com isso e sem isso tudo que engrandeça o homem
pobre a desejar de maneira consumista ser burguês, ao menos um pequeno-burguês.
O caso deste caso que é nosso caso, a freguesia de Catarina no seu gritar lá
fora, aqui dentro já ela me olha estupefata! Não em virtude de minha
argumentação da qual não tomou conhecimento, porque os mudos não falam. Não.
Porque na volta da Esperança e numa Boa como é corrente o dizer – descobriu a
defecação desenfreada no seu paciente, eu. Então gritou não sei para quem, sei
por motivo de quem: o boneco se sujou outra vez!
Boneco
morto vivo ainda. Sou neste quarto de um quarto de cômodo
incômodo um boneco, boneco inanimado qual espantalho de pau à gente de fora e
mesmo à de dentro se pensando a intimidade do sujeito externo; ‘boneco’ metralhado
também por dentro de dentro; havendo antes dito dentro vindo os sons externos
mas escutando formalmente tais sons que vibram nas orelhas de abano minhas; e
azucrinado ainda por outra audição infernal dentro do miolo: dentro ouço e falo
e sinto e me movimento sem mexer-me, não apenas a criar ideia na cuidadora que
esteja seu paciente ciente com o que ela me traga e fale. Daí estar vivo morto.
A
minha cuidadora está agora inusitadamente de boca fechada, sentada na cadeira
de pau que lhe serve de descanso e também objeto ao descanso dos objetos e
apetrechos pertinentes aos cuidados a ‘desembonecar’ o boneco inerte a ser
tratado. Não sei o que pensa. Meus noventa dezembros que um dia se iniciaram em
graciosos janeiros não me ensinaram a ler pensamentos de fora, fora o meu é claro;
e assim Catarina quase ela também uma boneca, ou a bonecar cansaço ou a bonecar
planos que me incluam ou me excluam; porém vejo a boneca, não pranchada à minha
semelhança, sentada intacta pedra nula parada estátua. A rua igualmente parada,
talvez não tristonha acabrunhada qual Catarina entretanto sem sua balbúrdia que
é seu típico modo de apresentação ou representação diária. Estará a Esperança
sem esperança quanto vejo prevejo ensejo ver ainda no que dará o paradeiro
dela!? Não sei, não posso afirmar não posso dizer, os mudos não falam; quando
muito não sendo cegos veem e daí leem. Leio aqui na minha frente dramas numa
fisionomia feia, horrorosa decerto às mulheres do pedaço suas companheiras lá
fora, se é que não fugiram de seus próprios gritos e da gritaria alheia, alheias;
conquanto seja bela pra mim pelos cuidados que me dedica na atenção essa minha
servidora, a moça que se desdobra no fazer tudo que já não sei nem consigo
fazer; executando em meu lugar o mais simples dos atos que se exige e se espera
num homem. O que seria de um boneco inanimado por natureza já sem natureza! o
que seria dele sem esse ser petrificado numa cadeira de pau?
A
fugir de tanto embaraço, grito em lágrima sem som pelos meus a nos defender – a
mim um indefeso invento de brinquedo, a ela uma elétrica desligada...
No
entanto, tal qual num fiat lux
inesperado ela acorda revive se levanta empurra o móvel de pau meio desconjuntado
pra lá, se estica se espreguiça se lava (ah, grito, preocupado rabugento, não
me esqueça aí a torneira aberta a escorrer exagerado o sangue da humanidade
morta de sede! não ouve, se escuta não se importa:) toma rápido isto reserva
aquilo cheira os panos, separa o sabonete, faz um ultimato ao descanso e ao
esquecimento e uma fiscalização em regra e portanto minuciosa dos apetrechos de
me limpar. Balança a me intrigar pra lá pra cá sua cabeçorra, pois enorme e desproporcional
ao seu corpo magro diminuto diminuindo ano após ano somando tão só experiência
creio; criando-me a curiosidade por que ela não concorda e a concordar com o
quê! comigo ou com ela mesma no caso ter havido certo esquecimento
desnecessário aos sérios e honestos. No fim sorri uma amargura qualquer (dessas
que escapam à compreensão alheia) – daí se põe ao serviço. Debalde alguém
bate-palmas talvez aí em nosso portão: não atende, atente atenta ao paciente
inerte malcheiroso atraente de todas moscas disponíveis subalimentadas ou famintas
por costume. Alevanta lençóis panos cobertores antes do depois, depois faz cara
de asco, balança novamente a cabeça a remexer esvoaçar fios da cor apócrifa a
dourar o ambiente. O ambiente nada agradável.
Boneco
vivo morto, ainda. A mulherinha elétrica se propôs de vez a me
higienizar e tomou seu instrumental de trabalho, uma parafernália incrível, uma
de impressionar o ser comum ou doutra profissão aqui nos observando. Bacia
caneca toalhas e outros panos, esparadrapo faixas gazes algodão remédios mil e
mil desinfetantes cremes pomadas apensos líquidos gelatinosos ela dizendo “gel”
e espremendo a boca a beijar o nada, além de tesouras e alfinetes – em suma
toda sorte de expedientes que a medicina e a enfermagem caseiras recomendam e
os órgãos oficiais da saúde exigem. Aliás seguindo por alto e nas linhas gerais
especificações do posto de saúde da periferia rica próximo da pobre. Tanto
assim que volta e meia recebemos visitas de funcionários das entidades que
mantemos na saúde pública com nossos impostos; uma vez eles se deslocando aqui
em não caber no interior do quartinho do paciente, eles como equipe de
profissionais e seus estagiários; os quais mais enchendo fichas com teorias que
não comportam a prática, ou tão só as enchendo a fim de volumar o entulho do
planeta com papéis (sempre advoguei quando válido que o fim do mundo não seja
agora no excesso de água que falta mas na sobra do papel, numa fogueira linda
de se ver). Resumindo, todo um exército do pessoal teórico porém dedicado nas
suas respectivas especialidades, a também teoricamente dar apoio técnico para
minha cuidadora matuta, a qual só frenquentou a escola da prática no mundo.
Agora
Catarina indo direto ao assunto e o assunto é o paciente, eu. Começa continua
conclui depois ou depois concluiria ao rigor do mais ou menos a me tratar a
praticar o exercício de limpeza e curativo ao doente; decerto antes antevendo a
delicadeza e o cuidado a abordar um monte de pele encolhida a cobrir ossos que
lhe provocam arrepios... e depois se põe como todo popular diz com acerto na
“mão à massa”; e de lambuja e consequência a série de ais e de gritos
inaudíveis nos mudos, ainda a reação natural do corpo morno a esfriar a tremer
como que num espasmo – a arrancar de dentro do coração da moça, não diria
jovem, moça apenas; do seu profundo sentir o sentir a dor que forçada a
provocar no velho feito boneco vivo, embora a morrer!
Contudo
o trabalho, meticuloso sério honesto, se faz por ela sozinha, sem quaisquer ajudas,
mesmo o interessado, numa suposta inconsciência dos mortos, mesmo ele não a auxilia,
não a impedir a dor que o remexer feridas provoca em quem sente; ele não cede
não se vira não facilita o manejo para aplicação. Ela vai atirando a esmo, sem
ordem alguma não sendo ordeira embora meticulosidades, joga as partes ou usadas
ou sujas ou imprestáveis ou demais purulentas sangrentas repugnantes no chão;
posteriormente irá juntar o entulho num saco plástico e este pondo na lata de
plástico de lixo; sequer imagina possa separá-lo e põe-no a lutar com o lixo
comum da casa; e noutro dia colocará o sacolão do lixeiro recolher na caçamba
sendo tempo de coleta, no caso da Esperança nos dias pares da semana.
No
entanto não chega a terminar a tortura, ao paciente que já não tem forças ao
menos a gritar pela dor as ardiduras de medicamentos e higienização, a ele, eu,
uma sessão de tortura, que se renova várias vezes nas horas claras e noturnas
nesse nunca acabar. Não chega a terminar ou apenas findará hora depois, porque
chega uma das comadres, as marias já têm intimidade e empurram o portãozinho,
por vezes sem aviso sem nada e penetram o corredor que serve a levar Catarina
espreitar os podres da Boa e trazê-los para comentar com os olhos do morto para
aumentar a cultura inútil. Agora o corredor traz é uma das vizinhas que tantas
vezes sentiram aquele pruridozinho que dá a curiosidade nos curiosos e assim
ali está na janela aberta arregalada para o mundo. Sorriem ambas amigas, a
cuidadora deixa uma atadura no meio da pensagem, toca somente a mosca também
curiosa ou faminta das sujidades das limpezas; e se desarca arcada, a melhor
ver comunicar-se conversar com a visitante. Esta olha arregala impressionada,
sem qualquer falsidade sem lastro da periferia de sentimento ou para banalizar
o sentir com entuito a depois também ter argumentos na alimentação da rua –
longe disso: anda de fato interessada ver aquelas feridas enormes e o conjunto
dos hematomas enegrecidos e o estouro de pele humana velha a arrebentar que me
compõe o ser. Comenta baixo audível horrorizada aquele sofrimento exposto à sua
frente na cama pobre, quase nem aspira aquele ar pestilento deletério que exalo
e está preste às lágrimas. Catarina explica na natural sua tagarelice as coisas
atinentes àquele monte de ossos rodeados com pele seca, eu. Fala explica
detalha inculca seu saber dentro do métier
numa aula à comadre compungida; que logo se vai, quem sabe a ruminar desgostos.
Logo também mas isso noutro doído curativo chega outra, esta do tipo
irreverente, aliás contumaz pois vem sempre ver-me para não enxergar o defunto
que quase se mexe, mais para contar à outra um fato picante que acabou receber
– e se põem a trocar informes, os anteriores e os de agora que serão
posteriores e virarão verdade enquanto durarem tal qual a felicidade dita pelo
poeta. Conversam conversam conversam a cansar o despertador solene lento lógico
matemático lá na cozinha aqui encostada à dependência em acanho que me abriga,
nos abriga, e me deixaram a ferida aberta alerta insetos atrevidos, tento
tocá-los espantá-los xingá-los até: não consigo, a língua se mexe o sopro
assopra e a voz se nega embrulha descolore a fala dos normais e – me horrorizo!
– não me ouvem. Ambas sorriem, a daqui gargalha e a comadre ri sem peias, não
sei se pra mim se de mim. A de fora, suspenso o sonho de sua realidade, a de
fora se acalma e se põe da janela ainda a analisar o doente como vê o doente, a
descrevê-lo à cuidadora como fosse a primeira vez vendo um paciente tão acabado
e sem mostrar ser impaciente ou cheio do seu próprio sofrimento. Puxa como está
acabado o velho, véio ela
pronuncia, antes vivia capengando sua muleta aí na Boa Esperança, embora não mostrasse
esperança nenhuma; entretanto brincava com os meninos, cumprimentava vizinhos
e... (aí berrou baixinho para que o objeto não escutasse, contou um episódio
podre talvez bem mais podre que os em baila entre marias catarinas joões do
bairro hoje). Confesso, não ouvi nem pela metade, decerto também minhas orelhas
já negam fogo.
Quando
a cuidadora tornou ao meu martírio, precisando refazer o que fizera, limpar
líquidos a escorrer purulentos sanguinolentos e a colocar novos apensos. Fê-lo
no entanto a rir, certamente de meus deslizes quando tinha ainda direito a errar...
Esses
não foram os únicos exemplos de exposição forçada, pois que estava sem querer
na berlinda sem sequer poder dar opinião; e sem ter capacidade de justificação!
Noutras ocasiões no decorrer dos meses de meu milênio interminável vieram
ver-me vizinhas mais chegadas e outras desconhecidas pessoas, quase sempre
mulheres, os machos ou sem coragem bastante a olhar restos humanos ou sendo
isto desinteressante a eles. Inclusive visitas dessas indesejáveis, por mim
desconhecidas, estiveram na janela ou mesmo entraram pela porta sempre aberta
da casa. Umas dos próprios aparentados meus, a me decepcionar, outras mais de
gente de fora encarando aqui dentro um pagamento cerimonioso como espécie de
condolências, próprio aos mortos nas visitas num velório. As ligações de meu sangue
conversaram seus blá-blá-blás mais entre si, esqueceram até o enfermo, eu.
Falaram de seus dramas e de suas conquistas, riram a valer como que numa festa
e não uma festa mortuária ou arremedo de quarto de hospital. Se foram felizes
por pagar o imposto da sociedade hipócrita ou só ignorante ou só desligada. Não
é bem assim que os seres podem ajudar diminuir o sofrimento alheio, alheios.
Assim a cera que cobre (e defende) os estratos da sociedade.
Contudo,
tais visitantes não me atiraram a vergonha na minha vergonha.
Devo
mais nesse menos às comadres ocasionalmente vindo ver o paciente. Elas,
felizmente em número irrisório, me feriram o ser e me rebaixaram à condição de
coisa. Uma chegou a descrever-me por alta voz como me observando aqui deitado
na cama, nu! Elevou os baixos da moral dum ser passivo e inofensivo inclusive a
apodrecer entre lençóis baratos com exalação de humores fétidos e com o fétido
dos medicamentos. E aí também – isto me doendo – aí a cuidadora ajudando a
realçar o destroço que sou... Nunca me despi perante o público, não sendo diante
a esposa que me levou à primeira morte; qual intimidade que existe dentro do
casal, mesmo que com entreveros por anos. Nunca. No entanto aquela comadre com
ajuda explícita de minha cuidadora, passou a indicar as partes pudendas do
velhote ali à mercê das aves de rapina, com seu olhar ferino. Essa deixou-me,
já antes nu, mais nu ainda, pondo-me em trapo o trapo que já sou, fiquei mais
em trapos.
Horas
permaneci naquela dissecação e a repensar a vergonha a que fui imposto por
exposto a público tão desclassificado e sem qualquer respeito e sequer tendo o
mínimo na caridade do silêncio. Concluí, sem poder dizer, a tônica do não poder
expressar-me se não com olhos quase sempre inexpressivos também; concluí que se
Catarina se despindo diante de homem (eu fora tempos e tempos macho!) e se
trocando de janela e porta abertas ao planeta inteiro – sem se pejar! – então
que mancha insignificante essa mostra obrigada de minha genitália, agora
desusada encolhida ao gosto da gozação daqueles dois seres sem princípio e sem
piedade e certamente sem religião, a religião que esfola seus joelhos na hora
de comer a hóstia que garantem ser sagrada!
Todavia,
esse desabafo não resolve um problema, talvez acresça mais problema, insolúvel
problema.
Inusitado. Toureara um
pouco minhas escaras agora quentinhas e pela imobilidade do corpo cansado – é
em momento como esse que posso melhor observar e até me assustar com imprevistos,
com um grito por exemplo – foi quando sorri para Catarina em verdade sorri
dela, ela no seu feitio espevitado e imprevisível. O caso, de interpretação
contrária e até absurda, esse caso foi no qual me assustei no grito dela a uma
vizinha, a vizinha lá fora atendendo vendedor desses que vêm bater palmas de
porta em porta e a comadre atendia lá gritando aqui a companheira numas altas
negociações – quando a cuidadora estando na costura a tratar distraída um
remendo sentada a meu lado berra respondendo à outra: “vê se ele deixa por dez
real...” Catarina semelhante
o comum da gente comum que nos rodeia não concorda com a concordância culta e o
faz fazendo afirmar um real, duzentos real
como qualquer. Não aguentei, ri, riso que seu exagero elevou à diminuição (sou
um doente terminal daí o diminuir) para um desbragado gargalhar, próprio ao
exagero do povão. Depois, decerto, não ouvi pranchado sem esperança neste leito
enquanto elas na Esperança, depois terão comentado esse gargalhar do enfermo;
inclusive ouvindo aqui minha servidora a completar seu pensamento “vou já, já
aí examinar (o quê? não sei) aproveito agora que minha estátua anda bem pois
até gargalha” e se levantou, o trapo que cosia foi ao chão não viu vi gritei o
escorregar da roupa ao solo não ouviu saiu na disparada ver o que ver na rua.
Naturalmente mesmo eu não escutando o aviso que lhe dei. Isso não o maior
imprevisto, dada a frequência da situação; o inusitado vindo no imediato dia,
uma terça era segunda-feira.
Noutro
dia passo sozinho. Catarina não chega às oito da manhã ao trabalho, dentro do
atraso habitual? me indaguei. Nem nas outras oito e após outros atrasos,
interrompendo inclusive os atrasos. Apareceu uma senhora negra grandalhona
gorda risonha (não estando risonha, antes circunspecta talvez solene) e disse
ao morto então de olho arregalado mesmo assim quase não vendo; comunicou-me
nestes termos: “Senhor Zé, não é Zé! dona Catarina morreu”. Decerto crendo na
morte sem descrer na vida pois se pôs imediato ao trabalho, aqui fazendo cara
de nojo explícito, visto existirem situações nas quais não consegue o ser
humano esconder seus sentimentos, qual aprecia a sociedade dos homens. No
entanto a mulher só ruminando baixo seu desgosto como que a me esconder o asco
pelo estrago que experimentando...
Via
um morto sem expressão, arrasado mudo cego talvez e o resto um depósito
provisório ou abandonado de excrementos de cheiros de mosquitos de outros
insetos voejantes ou a se escorregar na lama.
Um
quadro bem desanimador.
Limpo,
menos sujo após operar as mãos incertas e inábeis da senhora volumosa; e agora
no possível desse possível, ela não a chorar nem a se desesperar, mas sem
estabilizar e harmonizar completamente as coisas; enfim limpo o velho, a
servidora eventual mostrou ao quarto acanhado antes abandonado a faceta do seu
ânimo no sorriso leve e amigo. E o fez a explicar para uma vizinha ali com a
gente a oferecer seus préstimos. Encontrei aqui seu Zé como que numa latrina a
feder e a sofrer, diante o falecimento da cuidadora – daí se estenderam na
morte repentina num contar de eternidade sobre o infausto desaparecimento, num
descrever e repisar minuciosamente os fatos ambas, ao gosto do homem comum, e somente
depois torna a nova e substituta cuidadora para meu lado: ele quase dois dias
sem alimento nenhum e misturado à sujeira. Daí veio um parente, aquele homem, e
me pediu tratar apenas ontem, hoje ainda não sei para quem entregar este fardo...
Em
conclusão o fim? Não sei por que cargas-d’água me interromperam
o saber, a consciência, o olho, a escuta, o sentir – noutra eternidade do tempo
medido e curto, curtíssimo suponho, a senhora gorda a Catarina magra as
catarinas e marias e joões outros não passando de meras lembranças. Alguns
itens sendo recordações doídas e marcantes, terríveis quase todas, como a
inabilidade da última cuidadora, longe das mãos de fada de Catarina, com ambas
sofrendo a agulha na dor física entretanto a gorda me dilacerando mais as
feridas sem o desejar, garanto. Então aí me lembrar as compensações que a magra
praticou em desconto pela dor moral daquele infeliz duplo gargalhar ao sabor de
minha nudez.
Esclarece
alguém para meu conhecimento a afirmar que eu já morto, portanto caso de
convocar autoridades a fim de evitar complicações; e narrando também a outro
desconhecido, todos agora à minha volta desconhecidos: a família não sabia o que
fazer com o corpo sofrido, não podendo enterrá-lo vivo, supunha-se ainda o
coração a pulsar o sangue a correr e quem sabe até de consciência desperta, “a
gente nunca sabe dessas coisas” enfatizou. Antes, meses, mais de ano no estado
que todos viram. Nenhum asilo aceitando idoso nesse estrago, pobres os parentes
responsáveis, pois exigindo-se acompanhantes de salários altos para suportar
essa quase múmia dentro do asilo. O jeito encontrado foi esse, o do ajuste da
cuidadora, a qual não esperou o infeliz morrer, faleceu...
Aguardemos
as autoridades competentes, não compliquemos mais as coisas...
Enquanto
isso eu percebendo que lá fora a Boa Esperança silenciava.
Quis
interferir no discurso, de fato interferi: não tomaram conhecimento os
presentes. Diria que não, sim prostrado estragado eliminado quase, não morto.
Mesmo que todos me tomassem por múmia inerte muda seca velha perdida encostada,
morta não.
Daí
me lembrei que múmia pode cheirar mal pode gerar indignação e pode inclusive
despertar pena – porém não fala.
Marília março 2015
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