sexta-feira, 23 de agosto de 2019

Amores de Anita


Amores de Anita

Agora vê-se um monte em escombros de uma construção já quase centenária e quando andava completa mui imponente, quiçá mandona na sua época e no seu meio. Isto tudo dito posto ao bem do exagero. Embora rústica, não tão simples ou sendo apenas grosseira, rústica de fato pois nunca fora no acabamento bela; nunca fora de muita presença como fosse exemplo arquitetônico. Mas um pouco imponente sim dado ser o centro duma atividade hoje em extinção ou já extinta. Porém agora um amontoado apresentando passivamente restos teimosos de construção de muitas décadas atrás. Aqui fora o forno...
Mais além, longe um pouco, nessa área há casas; por volta do escombro a mataria; depois sim o casario pobre e ao gosto do pobre de periferia, portanto sem ordem, ou só tragicamente imitando a civilização dos homens. Nele certa moradia tão pobre quanto outras, a cair em pedaços e velha bastante preste a despencar na sua mistura de alvenaria e madeira, tudo gasto, vendo-se nas rachaduras tufos improvisados de saco de estopa tampando buracos contra impulsos do vento que uiva com frequência e daí o lugar antes ser chamado “Ventania”, hoje conhecido por Parque das Cabreúvas. Nessa imitação de casa reside Donana.
Dona Ana está neste momento fazendo sua limpeza, sua higiene bucal, senhora limpa, foi linda hoje um resto limpo ao menos – e a mulher fá-lo no tanque de lavar roupas; o que não poderia parecer estranho porque o mais comum no homem comum ligado à roça; Ana podendo ser caracterizada roceira, de quando havia lavoura na região. Lava a dentadura postiça, esguicha água da torneira na geringonça, os detritos vão ao fundo do tanque na função de lavatório agora e pairam no ralo os restos do almoço dela, grânulos de arroz com fiapos outros. Em razão da limpeza encontra-se de boca murcha e assim mais feia que de costume pois os dentes postos não a embelezariam mas disfarçam sua feiura de velha maltratada. É mulher gasta e de mãos grosseiras, visto deixando a plantação não deixou de enfrentar a labuta que embrutece um trabalhador – a vida costuma ser dura à família pobre. Morena, diria baia, enfim longe ser branca. Mediana na estatura, magra sem ser ressecada e menos que isso cadavérica. Não venderá vida nem saúde nem alegria. As décadas difíceis cuidam amiúde desgastar aplainar enxugar as carnes da gente. Parece que de nome de família Silva, sem se preocupar com as árvores genealógicas e até a desconhecer tais apegos da cultura. A rigor faz como qualquer pessoa da periferia: pensa no dia de hoje; e hoje tem é muita encrenca e peso nas costas da gente.
Portanto a casa de Ana não dista muito dos escombros que sobraram duma olaria, inclusive dos fundos da residência pode ver tijolos nus deles e agora vendo-se somente partes de três paredes assentadas tijolo a tijolo a projetar uma imponente construção, imponência apenas revelada na rusticidade do lugar, que fora Ventania hoje não sendo; e pela rusticidade da gente ali trabalhadora.
A parede que olha o leste, o leste que recebe o sol por tranquilos milênios ou encobre o sol conforme as necessidades do tempo; essa parede assim como as outras e toda construção foram feitas de tijolos antigos... Aqui necessário um reparo.
Dizer antiguidade para oleiros da época que se levantava o forno é algo um pouco subjetivo, pois que os trabalhadores desse tipo é uma gente sem passado; ora, todos têm passado mas na medida em que se desconhece o passado o passado inexiste. Assim dizer antigo a qualificar tijolo é um tanto vazio de significado também. Em todo caso a indústria quase caseira que se instalava cujo centro seria o forno, ela fazia unidades com peso que até uma criança poderia erguer. Já os tijolos assentados na dita construção eram enormes; porque na época anterior todo material feito sendo grande, exagerado enfim, só podendo ser manuseado por adultos. Isto não vem ao caso, o que interessa é ter-se edificado a fornalha com tijolos vindos de longe. Volta Grande iniciaria a produção com unidades médias; outro aspecto conclusivo aqui decorrente é ser Donana uma voltense, por haver sido criada nessa primeira olaria do município; aliás quando da fundação Volta Grande só tendo o nome e nem município era, sem que isso fosse problema sério à menina Anita.
A parede cujos restos ali estão foi elevada e todo o forno a uma altura de quatro metros, com base de metro e a parede propriamente assentada na espessura de um tijolo, dos antigos. Embaixo três canudos a sair pra fora da construção, chamados “bocas”, onde se alimentaria a fornalha. Um metro e meio acima do chão e apelidando “crivo”, assentaram tijolos em pé deixando entre si vãos para a subida do calor das brasas na combustão das toras, a fim de assar o produto, quer dizer o tijolo a ser vendido; os oleiros não falavam assar sim “queimar”. De tudo não sobrou nada.
Agora estão ali escombros; das paredes restaram meio metro intactos e restos; certamente houve reaproveitamento do material pelos anos afora, com abandono daquela quase ossatura semidesmontada lembrando restos de sepultura de um cemitério abandonado...
Tufos de mato encobrem os tijolos remanescentes no lugar e cacos doutros que se quebraram, ou para esconderijos de insetos ou por descaso do tempo.
Assim, daquele monstrengo abandonado encoberto quase por capim e uma que outra árvore e alguns arbustos que se secam na seca que se enverdecem nas águas anos a fio, daquele monstro outrora poderoso e centro duma atividade importante ao crescimento da urbe – pouco ficou e hoje não passa de alguns dentes podres clamando por dentadura postiça, qual a da velha Ana a se limpar sujando as partes aguardando a roupa de fora para dentro o custeio da família dela; o que restou também dessa família.
O Parque das Cabreúvas – um nome a representar talvez um aceno lírico de manuais em boa obra – não passa dum amontoado típico da pobreza bem distribuída nas faltas, com sobra na má apresentação. E assim poder-se-ia representar a feiura urbana nas periferias pobres. Realmente existem as ‘ricas’ que seriam  remediadas por ter casa mais ou menos decente, garagem, carro (mesmo que velho), água encanada, esgoto, asfalto e demais problemas que todos têm e a compor feição urbana. Porque a periferia pobre nas suas partes podendo esbarrar no favelamento e isto é mais doído e quase doido; embora tais pedaços no conjunto, estes recebem pouco em benefícios e vivem meio por conta própria; daí não ter planejamento e apresentar o casario algo desordenado arquitetonicamente falando, se se pode assim dizer.
Quanto à pomposa terminologia, assim como se batizam dentro do modismo os ‘Jardins” disto ou daquilo jardins que sequer possuem o verde... e se abandonando o já corriqueiro Vilas e Bairros; em o nome Parque das Cabreúvas, apenas sobrando mesmo as cabreúvas; por sinal extintas no desmatamento desvairado que caracteriza a época atual nos países pobres subdesenvolvidos com pretensão a potência. Não passa duma afirmativa na afirmação labial-oral que raia ao abuso no absurdo, o pôr no atestado de batismo ‘Parque’ a um amontoado sem homogeneidade e sem beleza. Sem avenidas (não ocorreria pensarem bulevares!) sem ruas a rua quase uma porção mal medida e às vezes sem nome; a rua, se rua, da casa, se casa, da velha Donana por exemplo, não tem batismo não tem placa e se tivesse a mulher semianalfabeta não leria. A tal conjunto se conhece por Parque das Cabreúvas. Só recentemente o serviço de ônibus circular foi estendido com um ponto na ponta do Parque, no limiar da cidade propriamente dita; ainda assim os trabalhadores indo ao centro urbano e aos seus empregos necessitam andar todo o bairro para chegar onde a condução para; por sinal alguém arrancou o postezinho de madeira indicativo de parada com as cores da empresa de coletivos.
Enfim os nomes pomposos aos loteamentos geralmente cheiram a blá-blá-blá gabolice bravata dos políticos; enquanto que o tratamento a essas concessões lembram a burocracia a lentidão o esquecimento governamental, fora dos meses que antecedem a eleição. O Parque não dispõe unidade de saúde e até a coleta do lixo é precária. Em compensação têm as moradias muita antena de televisão, algumas com improvisos originalíssimos. Outra nota seria a existência dos dramas e das violências, mas isto assunto de alçada da mesma televisão...
A propósito das cabreúvas, madeira de lei e que havia bastante na região, uma de cerne vermelho com envoltura branca mui usada pelos matutos para cabo de enxada graças à durabilidade praticidade leveza beleza; ela com a peroba e outras espécies foi arrancada e extinta na área. Ficou no batismo do Parque, decerto pelo conservadorismo do caboclo.
No conjunto um conjunto pouco habitacional e muito habitado, em vista do preço do terreno facilitar quando da formação dessa vila.
Aparentemente Donana não iria além da mulher velha pobre desvalida desconhecida, um número na coletividade de periferia; perdida na miséria a aguardar a morte como um alívio no fustigamento e na exigência do viver, aqui seria ‘viver’, apostrofado para mostrar que isso não chega a ser viver. Bem, não há este mal. Donana é um exemplo dos estratos mais baixos e particularmente sofre na sua condição e pelos dramas dos seus – isto sendo desemprego subemprego e até desespero na sua gente, a gente que lhe sobrou na voragem do tempo. Em síntese uma sofredora; porém afirmar uma santa a receber acintes e ofensas miúdas dentro da família de maneira quieta muda passiva é absurdo. Gente, gente embravece discute briga xinga ofende inclusive; ora, a mansidão só frequenta na pobreza as linhas comportadas dum romance; a verdade pega mais no pé e eleva o som da voz quando necessário. Assim Donana, igual a vizinha a comadre a parenta a conhecida ao enfrentar a verdade, mesmo que seja alterando elevando a voz; portanto não é diversa de ninguém. Contudo pode haver tão só aparências visto ela ser algo mais. No trato com seu meio e especialmente com sua gente, ela representa a teimosia a fortaleza o espírito marcante definidor e o exemplo. Semelhando o forno ora no desmanche do tempo, Donana é a fornalha que une dirige orienta luta e dá praticamente a última palavra; sem ofender, sem pretender ofender, no entanto precisando solta os cachorros... esta uma expressão popular. De fato não medirá palavras, ofendida ou experimentada na sua paciência. Entretanto é verdade parecer a liga o grude a cola necessários para unir os seus como família.
E sempre fora assim. Desde jovem, a jovenzinha Anita dava as cartas; a trocar de marido e a formar nova família, ainda assim manteve todo seu sangue ali preso quase como a manter o cabresto na direção.
Agora ao fazer a higienização, ainda grãozinhos de arroz engolidos pelo buraco gradeado onde escorre passa a água servida com detritos outros dos dentes; agora mesmo a pensar nos problemas de filhos netos bisnetos. A pensar! o homem comum, simples, fala o pensar nos seus resmungos. Exato, é uma velha resmungona. E na medida em que pensa alto e resmunga a falar baixo, está como que vivendo ao reviver igualmente suas recordações ligadas à olaria. Donana fora oleira; ora, um oleiro nunca deixa ser oleiro, pode desaparecer a olaria todavia não sua condição, impregnada no ser. Oleira.

Bem, a velha não tendo beleza alguma, se esta informação não for infundada ou pelo menos um pouco exagerada – isto porque de quem não se pode extrair algo de bom e belo? Ora, será que no sofrer diuturno e no desgosto do desgaste de toda uma vida difícil não se encontra um toquezinho de beleza física em Donana! Ela agora já com a dentadura posta correta ajeitada na boca e a se desarcar, pois havia não à limpeza dos dentes mas sim por se abaixando demais ficado com dor na coluna pra empurrar os detritos amontoados no fundo do tanque das roupas no ralinho, aqueles grânulos teimosos de arroz. Fazendo por isso uma careta digna do rir quase a chorar na dor. E nisso – ah como é bom uns raios de sol que a sombra projeta desde a parede da cozinha até o tanque e deixa chegar naquele rosto que é certa máscara enrugada do sofrimento e da idade – nisso mostrando quase no zigoma esquerdo da face dessa índia, Donana é descendente indígena, mostrando então um buraquinho lindo de se ver. Que outro nome dar-se a essa entrância ou reentrância ou mesmo sulco e que o povo diz “buraquinho”! Quando alegre ou rindo duma graça de criança ali perto por exemplo, descontrai a boca contrai a bochecha e na bochecha aparece o sulco que dá um quê todo especial e isto ela herdando da mãe: dona Maria, Maria tinha viva morta já uns buraquinhos que a deixavam faceira charmosa. Até que isso não ficando mal em Donana e dando mais graça à graça de Anita, jovem esperta viva e... aqui caberiam os enfeites nada exagerados que o amor dum Pedro sente nessa atração por jovem tão encantadora como Anita...
Contudo, isso não passa de exagero vocálico e maluqueira poética, visto o homem simples e labutador por mais jovem imaginoso fosse (era) sendo sujeito grosseiro, a grosseria escondida na vergonha e na timidez normal quiçá doentia que caracteriza o homem do campo. Pedro é nesse tempo um oleiro, a olaria encravada na roça, mais exatamente numa fazenda de café; e portanto ele igual um roceiro nos seus dizeres na sua visão na sua psicologia e até nos seus sentimentos.
Anita entrou nos seus sentimentos. Mais que isso: penetrou sub-repticiamente e o tiranizou. Ele via a inocência a angelitude na garota, sem se imaginar andar poetando. Ela no entanto já escolada já experiente e não correspondendo a aquele amor puro do rapaz – assim, a título de passar tempo, brincou meses com o coração masculino.
Quando Anita chegou de mudança na olaria esta funcionava por anos. Chegou junto de sua gente; dona Maria com o esposo, disseram logo destes desconhecidos (a tese aqui é a de que ninguém conhece ninguém mesmo amigos e parentes que dirá estranhos!) disseram ser o casal amigado, o que não diminuindo o valor da família recém-chegada de não se sabe onde, duma fazenda outra talvez; porque nos dias de hoje é o comum do ver a situação mas o apelido que fora ‘amigo’ agora é  dito ‘namorado’ e no fundo não mudou. Seja como for chegaram; imediato a descarregar a mudança pequena e miúda porém a família com grande número de filhos, Anita apenas a mais velha, nova ainda e a mais bela com certeza entre manas, e junto os meninos, com a lógica do barulho de crianças; se percebendo a gritaria ardida da mãe, todo som feminino é agradável de um modo geral entretanto existe o gurutal alto excessivamente fino e isto desagrada muita gente, dona Maria assim e sua ralhação sobre os pequenos parecendo uivos a chocar ouvidos; gritava pela desordem a aumentar desordem e na coisa sobrava a cara feia do chefe de família, um pipeiro baixo e forte ao serviço na pipa e como carroceiro. Feio, aqui ficando emprestado a opinião macha sobre um desconhecido a trazer sua gente ao ganho da olaria, curiosamente parada... O empreiteiro ou dono como afirmava o hábito, o dono andava sem gente ao movimento, o que um prejuízo medonho; quando a pipa não vira, não há verba para custear o negócio; é um negócio. Foi portanto um alívio ver a mudança, o descarregar do caminhão, um Chevrolet enorme na época entretanto para a tonelagem de agora um veiculozinho velho então e constantemente na oficina. O carro sendo do próprio empregador, seu João Italiano. O comum no tempo e nesse negócio era o trabalhador ser trazido à olaria pelo novo patrão, este tendo pago a dívida contraída pelo empregado junto à olaria do chefe anterior. Foi mais ou menos assim a transferência do xará do Italiano, o homem com o mesmo nome do novo patrão. Chegou com seus badulaques de pobres, quase nada de móveis inteiros e muita gente, a família de Anita numerosa e isto bom ao serviço porque a olaria põe todos a trabalhar, mesmo crianças.
A cena da chegada via Pedro, moço mas pouco mais que menino imberbe e retraído. Curiosamente num tempo em que as famílias enormes, a sua apenas ele e a mana como filhos, a tocar a banca; o pai banqueiro, nada do absurdo de serem milionários visto no meio rural os trabalhadores pobretões, o pai fazendo tijolo na bancada, esta uma geringonça tosca de madeira com três pés e uma prancha ao nível da cintura, onde se manuseava a fôrma do tijolo. Essa mesma fôrma manejada pelo garotão Pedro na sua função de “lançador” do pai. Este formando uma bolota de argila no chão, tirada dos montões de barro ou bolotões se se quiser, trazidos pelo pipeiro numa carriola para dentro do rancho, ambiente de trabalho dos banqueiros. O pai alevantava a bolota ou “pastão” como falavam socando isso na fôrma a prensar o tijolo; a seguir cortava aparando sobras. Aqui entrando Pedro. Tirava com duas tabuinhas o tijolo mole da fôrma e o levava ao solo cuidadosamente depositando em pé, a se contar depois e para secar. Dia inteiro assim e nesse dia não fora bem assim: a banca parada, a olaria inteira parada não havendo pipeiro – o João Pipeiro acabara chegar de mudança com os seus e a pequena empresa andava parada, exato pela falta de gente na pipa.
De maneira que o jovem Pedro não precisou deixar seu trabalho nem o pai irritado nisso a operar sozinho pois a olaria somente funciona com a pipa virando, ou não funciona, e só agora vem o profissional a tanto. Não precisou deixar a tarefa e dessa forma sua curiosidade, num misto com a vergonha doentia, pôde manifestar-se em ver a chegada do caminhão de mudança. Acompanhou de longe a descarga a conversa dos estranhos o arrasto de trens de cozinha e móveis, mil plantas nas latinhas, o ladrar do Peri, a grita dos meninos e em meio a essa turbulência – a presença de Anita!
Não queria olhar (queria sim) inamistoso e insocial porém não conseguindo comandar os olhos... Era demais bela a jovem; as outras meio sem graça e mais meninas que mulheres formadas, enquanto não se interessando nos moleques visto que não se punha nas brincadeiras com menino, se considerando homem feito, assim seu pensamento vendo aquilo... oh onde se encontrava! Não se encontrava, foi aproximando-se aos poucos, como nada lhe interessando porém, que diabo: ela sorrira, de si ou pra si?
Tarde da noite ainda as lamparinas iluminavam a meio (o lume é claudicante) sim meio aclarando a nova residência dela na colocação dos utensílios, colchões no lugar provisório e ainda muita conversa numa algaravia com choro de menino. Só então ele se recolheu à sua casa a ouvir a admoestação da mãe pelo atraso.
Foi mais de mês sem precisar parar sonhar com ela, foi um tempo enorme para que tivessem enfim um contato mais próximo ambos sonhadores. Sim porque Anita semelhantemente sonhava, só não sonhando com Pedro. Com Pedro preferia se mostrar desperta, e rir-se dele, ele nos seus desencontros até chegando não concatenar palavra com palavra ou a emudecer (ela acresceria maldosa: por ser tonto). Sonhava ela sim com outro, melhormente com outros... Não estavam eles na olaria ou que fosse viverem noutras olarias ou noutros roçados; uma vez se engraçou dum sujeito, piormente casado, um na cidade, para onde fora com a mãe atrás duns panos e a procurá-los em Volta Grande. Agora, uns dias após chegarem e inclusive a família já engajada no trabalho na olaria do Italiano, agora houve a oportunidade de ambos conversarem. Quer dizer, ela cumprimentou desenvolvida desatrelada debochada mesmo “bom-dia minha gente”; oleiro e roceiro falam de fato “bundia” “batarde”, cumprimentou sorrindo e permaneceu sorrindo a observar aquele matuto mais matuto que ela e aí despencou a falar com o pai dele; indagou da massa (o barro) se no ponto, se o pai dela precisaria trazer acrescer mais uns dois ou três carrinhos, se a mulher não trabalhava na olaria; ao ser comum trabalhar é trabalhar ganhando fora de casa e o de casa não conta... perguntou o nome da irmã do filho, o que ela sabia de sobra, inclusive das estórias sem base a propósito da mocinha, através das mulheres da colônia (da fazenda de café onde a olaria encravada; aliás a terra arrendada ao João Italiano pertencente à fazenda). A colônia dos moradores lá em cima ‘cortara’ num falatório sobre a mãe de Pedro sobre a irmã de Pedro e não sabia da existência de Pedro, soubesse pichá-lo-ia menino mudo, diriam ainda que por baixo do pano... Ora, Anita matracou muito porém se comunicando apenas com o pai, enquanto o filho de coração arrebentando o peito e a boca a engolir a língua; e tremeu mais ainda quando ela achegou-se como uma inexperiente mocinha a examinar apetrechos em cima na banca, como fosse leiga, oleira nascera quase no barro; isso um ardil a experimentar o namorado... Namorado! nunca se haviam falado, dada a ‘coragem’ dele, não as liberdades dela. E – aqui somente pensou Anita não falaria não sendo boa política nem boa estratégia no amor – e para que desgastar-se com um exemplar de mau exemplo de macho da espécie! tendo outro e outros de melhor espécie? Em todo caso, não seria de se desprezar o quase único homem disponível ali. Nesse ponto sorriu meio alto; fosse íntima e para machucá-lo gargalharia daquela frágil porção masculina...
Ora, a vítima ali de boca aberta a engolir interjeições andava petrificada, só não sendo pedra por causa da tremura diante da beldade – deixou, sem deixar, cair das mãos uma tabuinha, ao espanto do banqueiro seu pai. Foi embaraçoso. Ela não aceitou uma oferta de café do velho (sogro!!) e muito menos o cigarro, o café como boca de pito. Anita Ana Donana nunca fumaria, nunca pitaria no dizer roceiro. Assim, indo mostrar interesse ou curiosidade noutros setores ali mesmo no rancho; o rancho local onde a maioria dos oleiros, especialmente no feitio e na secagem dos tijolos; então permaneceu mais tempo a bater-papo com outrem.
Assim a jovem manteve longos meses um caso teórico de amor com Pedro. Melhor dizer que enrolou o pobre, dilacerou o coração do pobre; primeiro com olhares instigadores; depois com diálogos prometedores; depois ainda com desprezos arrasadores. Aliás poucos meses passados na contagem dos homens e a família do banqueiro deixou de vez a olaria por outra, ocorrendo o comum: saiu o operário devendo e brigado com o patrão.
Anita não se descabelou por isso; seu namorado sim, despedaçado.

Contudo eu era bonitinha, se fala Donana de Anita, era (no tempo verbal com inteira razão...) era sim nos meus quinze anos, infeliz do Pedro que deve ter sofrido horrores indo embora com a família; diziam que até chorara e os homens naquele tempo não choravam igual o chorão desse Tonho. Tonho está com suas encrencas trazendo à avó muitas preocupações. Não para em serviço algum, que fosse verter suas mágoas e lágrimas no ombro da mãe a mãe sumira anos atrás sobrando à velha criá-lo; não para também com nenhuma companheira, ele diz na linguagem atual “namorada”, traz a namorada a viver às custas da avó e se aparecer menino pois sua última já com barriga estufada, então mais problema a Donana; traz outros desandos e não se sabe se não envolvimentos mais graves com os polícias. Ora, tudo em cima dela, pra ela sustentar e ainda pagar prestação atrasada da casa e impostos da “ladrona”; assim pronuncia e todos no lar doce lar sabendo referência à prefeitura, Donana não distingue nem compreende o que governo, entidade poderosa da qual tem medo apesar distante ‘impegável’. Puxa, tudo por cima dela e além do mais chega até a sustentar o neto safado, no entanto a avó tendo uma atração especial pelo Tonho. Na sua frente frente o rapaz brinca goza alisa abraça beija a velha, malandramente; vez por outra lhe rouba nas fuças alguns trocados a título de empréstimo, compulsório e eterno... Teria – se volta para o interior Donana quase se sentindo e pior se convencendo ser Anita – sim, teria feito melhor na vida caso mantivesse Pedro como namorado, talvez noivado e casado se casavam as mulheres na roça com treze quatorze anos, ela já de quinze; inclusive nisto os familiares temendo a menina ficar para titia e aí lembrou-se de mil casos de solteironas. Ora, era experimentada, vivera vários namoricos – sem compromissos sem as liberdades de hoje em dia, “o mundo está perdido!” pensa não pensava nos quinze anos. E o sujeitinho a amava, mas que diabo: apenas um pé rapado vergonhoso e dependente dos seus e até de seus olhares de morena bonita, se achava linda ao menos sendo bonita, a gente nunca se vê, se vê sim porém não sabe usar certo as medidas e se desproporciona geralmente a pior vendo-se melhor; ou se afunda de vez se enxerga um monstrengo. Enfim sumiu o meninão apareceu o Geraldo Baiano...
Seu João tinha como ajudante no Chevrolet um escurinho um pouco atrevido, porém no ver do patrão Baiano ótimo trabalhador, desse tipo que encara tudo, tudo vencem seus músculos; o tipo de pau para toda obra, isto expressão popular. Inclusive nesse tempo se põe à obra de conquista amorosa. Contavam as línguas despreocupadas que o moço, passado embora ainda jovem, que ele tendo família na Bahia, mulher e filhos, e agora vivia “comendo” (palavra de Anita) comendo a gente com os olhos, dessa gente que olha insidiosamente sempre e em todo momento a deixar a gente nua... O Baiano a seguira mesmo quando antes a menina com o outro e este quase no ponto de “bater o barro”; isto fala gozada oleira a dizer que um amante se declara ao outro amante, quase sempre à amante, a palavra aqui sem qualquer pejo ou malícia tratando-se só de querência pura e se houver alguma pendência e tendência menos angelical, lavam-se as mãos... Tudo válido a esse tempo que é o tempo de Anita não de Ana muito menos de Donana.
Todavia esse novo e sofrido caso amoroso – por que sofrido se do gosto de Anita! – esse tendo conotações mais baixas: o rapaz claramente não pretendia ser mero namorado visando virar depois esposo da bela, ele com tanta culpa no cartório decerto; pretendia outras mais vantagens. A psicologia feminina adivinhava facilmente e assim Anita pôs um pé atrás nessa frente. Quase o rapaz ‘namorou’ (considerando aqui a superficial ligação dela com Pedro) quase a namorou junto com o titular (mais uma vez a superfície). E não seria aqui então o batido gasto esfarrapado triângulo amoroso?  Entretanto Baiano um experiente nos meandros do sentimento, enquanto o outro um inocente e quem sabe puro. Quanto ao terceiro membro da tríade, uma jovem se conscientizando bela desejada e a manter quiçá com malícia quatro olhos presos em si. Pedro deixou o tablado quase na lona, Baiano bateu palmas e se considerou o único. Sabia perfeitamente que a mulher não era uma presa fácil; ainda assim deu de cima da vítima, se vítima, semanas, desejando facilidade e felicidade, felicidade segundo o pensamento do que seja felicidade no ideal comum, uma felicidade trabalhada certamente pela sua consciência ou embotada ou conspurcada. Por morar num bairro de Volta Grande e só aparecendo quando vindo o caminhão buscar tijolos ou a trazer lenha para o forno – também o risco da jovem era menor. Um dia, uma noite que ficara a ajudar os oleiros na queima, nesse dia tentou abordá-la, se supondo o príncipe encantado da moçoila. Escapou dos trabalhadores entre uma embocada e outra na operação do fogo-forte, a supor poder praticar atos libidinosos, imaginando Anita fosse como as suas prostitutas e não uma jovem de família; diziam dele ser comum visitar na cidade lupanares. O homem a procurou investiu. Ela entretanto não caindo na conversa, se defendeu gritou, inclusive despertando os seus: o pai quisera mostrar honra e valentia se pondo fazer justiça como imagina a justiça um homem comum; tomou sua espingarda... Nisso os outros oleiros intervieram e amansaram João Pipeiro. No dia imediato, inteirado o patrão sobre os abusos, o Geraldo tornou à cidade a fim de acertar as contas. Esse homem sumiu também, decerto indo procurar outra anita ou voltando à esposa. Enquanto Anita ou aprendera uma lição, ou não... ficando ao menos temerosa e de olhos mais atentos.
Naquele dia daquela noite a menina aparecera no forno, talvez por curiosidade ou fosse por exibir seu sorriso... Dizem os que dizem ser a mulher nos dezesseis anos aberta a todos sóis hajam, ela nos quinze janeiros; e procurava sempre mostrar-se aos homens como dona Maria criticava, verdade que Baiano andava ali de plantão... Eram três os que alimentavam as bocarras do forno, o patrão deixara nesse propósito o seu ajudante indo ele sozinho descarregar o caminhão na urbe; porque no fogo-forte, quer dizer a fase de empanturrar rápido as bocas com lenha mais amiudadas vezes, a manter contínuo o calor; a fase do esquente mais demorado e mais demorado o tempo gasto a intercalar uma para outra “embocada” (alimentação no modo de falar oleiro) e assim um único homem dando conta, enquanto que durante o fogo-forte necessário muito trabalho e não descuidar-se da manutenção da temperatura. Ela, não a temperatura é lógico, ela semelhante no episódio da banca quando para se aproximar de Pedro ficou a virolar nas imediações e até se fazendo de neófita no métier a indagar dos movimentos e objetos na bancada, ao pai do rapaz; agora também pergunta de tudo e tudo examina olha interessada, interessada mesmo sim naquele ser corpulento, a exalar fétido suor com a roupa molhada grudando na pele escura (ah pode-se supor que mulher não sinta demais asco nisso... e Anita parecia até sentir atração...) O fato é que, se não houvesse antes notado o ajudante mil vezes visto, fazia parecer ser pra ela a primeira vez. Coisas de menina. E não foi num sem querer mostrar partes do vestido desvestidas, para assim expor o que desejando, se desejasse. Os outros dois trabalhadores igualmente perceberam a amostragem, isso atraindo sobretudo aquele sujeito tido pelos colegas que privavam consigo como um pouco o tipo de garanhão em plantão... Sobremaneira o ajudante  percebeu as intenções nada veladas daquela joia ali próximo. Mais que isso: incentivou sua afloração não esperada provavelmente desejada. O jogo amoroso se estendeu e só foi interrompido pelo chamamento da mãe dela, num recado trazido por uma das manas, a caçulinha, Maria também como a mãe delas. Nesse ponto Donana pôs-se a recordar a mortinha viva, com saudade, quase todos os seus haviam partido. Quando se pegou em si, havia já ido atender a genitora e de volta ao pátio onde a lenha ao fogo, ela ainda xeretando perto dos homens, tentando instigar Baiano, o que não era nada difícil...
Empurravam com um cano de ferro longuíssimo toras semiqueimadas, empurravam brasas vivas ao fundo para o faminto forno, o calor era extremo, subia a tremer fumaça quase transparente lá em cima naquelas alturas. Um dos trabalhadores pôs uma escada rústica encostada na parede subiu e pulou na cobertura no meio daquele calor enorme, na verificação da cor dos tijolos; então eles também como brasa, vistos por frestas na capa, a capa eram tijolos deitados a fim de segurar embaixo de si a alta temperatura. Aí, com ajuda doutro colega, cobriu de pá com areia a fim de vedar ainda mais aquela cobertura. Teria dito o homem lá de cima andar no ponto ideal a “queima”, termo oleiro para o assamento do tijolo. Então se fechando as três bocas com folha de zinco, escorada por uma vara mesmo assim ocorrendo o risco de se incendiar a ponta da vara e se calçando por isso com metade de tijolo quebrado. Só daí a dispensa dos trabalhadores ao descanso.
Sabendo-se que Baiano, por razões escusas, já havia desertado bem antes na madrugada, quem sabe à caça de alguma raposa...
Foi nesse contexto o pai da moça examinar se a espingarda ainda funcionando...
         
Dizem oposições que mulher trabalha mais que homem. Em que pesem abusos da língua, a verdade é que no geral enquanto seu companheiro descansa após o horário no horário de papear sem compromisso, ela, sua companheira, na lida a tentar resolver os dramas do lar depois do trabalho dela árduo pesado duro na olaria ou na enxada; sendo que mesmo na hipótese de se tornar cidadã mudando-se à urbe, ainda lhe perdura a dupla jornada... ou inclusive se acresce a terceira, quando espremida no interior duma condução coletiva. Para Donana, velha acabada (diz assim o exagero verbal mundano) raro o peso do ônibus nela pois opera no bairro mesmo, a complementar ingressos insuficientes da pensão que recebe por seu último homem morto. Quase sempre faz dentro de casa os serviços pegos de fora, como lavar roupa das freguesas. Enquanto nesse trabalho, rumina pensamentos simples (ou seria que os símplices pensassem complexamente!) E nisto quase sempre também não é Donana, quase sempre não é Ana, quase sempre e fatalmente sendo Anita. Anita a bela morena, sofrimento dos rapazes – e agora onde andaria Dico! – sofrimento sim em virtude a jovem ser um ser difícil de conquistar, fácil aos sonhos deles; porque a ninguém é dado ficar e impedir o sonho de outrem e dessa forma os moços almejam Anita. Anita? aquela mocinha irrequieta da olaria do Italiano. A mãe? xi, sempre vendo com maus olhos a ‘xeretice’ de todos homens em cima da imprudente filha.
Entre esses machos e especificamente entre os colonos havia, aqui se conta Donana sobre as falcatruas de Anita e falando a velha às suas próprias orelhas pacientes, havia no meio dos famintos seres... (ah e sorri ao se lembrar ao narrar ao se ouvir e ouvir lá dentro, a tanto que se pega num resmungo; claro a resmungar sem a chateação que é se saber uma senhora gasta resmungona) enfim entre a rapaziada o Dico, e o Dico também lhe despertava cobiça, cobiça honesta pura direita ingênua mansa, Anita ainda virgem por essa altura e desconhecedora dos abusos do mundo e assim aquele antigo Baiano ficava para trás; somente depois viria o atrevido filho do fazendeiro... – o Dico um jovem alto, escuro de pele igual ela mesma, nunca tivera sorte com brancos e ainda o fazendeiro iria logo provar por a+b o acerto do erro. O Dico viera umas vezes tentar namoro e se aproximara sorrateiro, lera nos olhos daquele belíssimo exemplar fêmeo da espécie uma espécie de atração que só os olhares sabem falar; e desse jeito mantiveram um caso. Não um caso amoroso cheio de imprudências e escândalos desses que Donana vê hoje agora ali junto dos seus e dos seus vizinhos a horrorizar o decoro e a honra. Não. Um caso se não santo aceito pelo seu tempo, até por seu pai, o João Pipeiro sendo secarrão brabo na sua grosseria e bom na espingarda de apreciar guardar a honra familial. Tanto assim que Dico nunca teve coragem perante o presuntivo sogro e nunca se declarou, declarou-se claro à pretendente, nunca chegando de fato às barbas do velho, sem contudo poder, agora ambos namorados, se safarem então à então vista arguta de Maria. Ora, Maria de língua atenta na defesa da integridade da filha, das filhas; um pouco a expressão cabocla a afirmar necessário a prisão de sua cadela havendo tantos cachorros soltos nas imediações...
Dico por mais de ano frequentara a olaria, por razões óbvias. Às vezes fugindo da roça para vê-la (não a olaria, lógico) e no fim de semana era visita certa a convidar Anita à prosa só cabível nos que se amam. Na época, por meados do século anterior, em geral o roceiro não trabalhando no sábado e na segunda, no domingo é claro descansar a enxada; então nesses dias indo muito às compras na cidade ou à venda de beira de estrada, inclusive os patrões se não entendendo nem aceitando a situação podendo pouco evitar o costume desastroso às suas finanças. Assim o caso do Dico, quando então indo namorar sua oleira. Uma vez nesse fim de semana tentou levá-la em passeio a Volta Grande, um pedido negado por João e Maria despertos na defesa da filha.
Mas e o pensar da filha.
Anita fizera de tudo para contrariar a família não contrariando os desejos do seu amor. Sim, amor, chegou a amá-lo; até nesses impedimentos sugeriu ao namorado a formalidade de conversar acertar com o velho, João Pipeiro não chegava a ser um velhote e menos um “velho acabado” no falar da sociedade – entretanto bem desgastado tal o serviço duro na pipa. Dico não se animara no propósito, embora disposto quem sabe inclusive a desposar um dia Anita, levá-la como requerendo o hábito sertanejo exigia a dividir consigo o puxar enxada no eito, quem sabe conseguir na colônia uma casa para morarem; tem sempre uma disponível pela saída de alguém ou, e aqui em último recurso, morar com o pai sogro da pretendida e a fim de se chocar a nora com a futura sogra, como também exige o mesmo hábito.
Enfim ela nem foi assistir com o namorado uma peça circense na Volta Grande como desejava tanto, aqui lembrando os impeços dos pais. Nem o recebeu como esposo, embora aceitando aquele roceiro vestido de príncipe encantado; pois que nunca formalizaram ambos no par um namoro sério a encarar o sério compromisso do matrimônio. Nesse ínterim ele acabou consorciando-se, meio às pressas, com uma jovem filha de pai mais brabo e de melhor pontaria no trabuco, um lá da colônia da fazenda. O que magoou demais a jovem Anita; por isso chorou sem vela...
Numa outra vertente, mas sem direito ao uso do costumeiro triângulo amoroso porém mui mais marcante em sua tumultuada existência – ocorrendo um episódio ou dramático ou grotesco, dada a conclusão imprevista, ou seria prevista? Até chegar a isso foram a si as lágrimas sentidas por causa da perda do namorado no casamento dele com a outra, Anita aguardava o príncipe, ainda que travessa virgem ou quase intacta... Esta vertente a torna mulher: apareceu-lhe um Francisco, rico fazendeiro.
Enquanto, agora na boca da pipa ela sofre a perda do roceiro – praticamente opera a ajudar o pai como autômato, essas coisas da gente estar a dar os passos formais qual máquina através da máquina que é o corpo todavia longe no seu perto do coração a chorar com lágrima de sangue! Dico imprevistamente a si mesma, Dico se unira a outra mulher e não lhe restava mais nada (ah como uma jovem é extremada a expressar o pensamento absurdo no absurdo!) nada mais lhe restava; se não a rotina familial e familiar, como ouvir gritaria das crianças e da mãe em casa e os “eia!” aos burros, aliás mulas, ali em volta a virar a pipa presos na haste que fazia girar o mastro pra remexer a misturar o barro e, então, lá ali embaixo o cuspir a argila revirada trabalhada pronta no ponto a formar pelotas de barro... Anita ou quem auxiliando João Pipeiro agora ela, mais precisamente o corpo dela, ela estando a sofrer perto longe a perda do namorado – Anita toma porções consideráveis do barro pronto a sujar enlamear as graciosas mãos e vai pondo enchendo o carrinho, o carrinho cheio até às alturas além do seu pequeno e gracioso ser, Anita é menina baixa e aparentemente frágil, forte nos seus ímpetos e assim alevanta o material somando à soma já posta em cima da carriola... Aí grita não os burros, o pai, “pai!” e completa: o carro está lotado. O que equivale a dizer: pare com seu trabalho nos pés quase as pernas enterrados na lama, a pipa passara curtindo noite inteira o saibro e o barro mais consistente na água depositado dentro dum retângulo chamado por eles “picadeiro” e agora o homem se afunda nisso, não se afunda de todo por haver como lastro e ponto de apoio posto uma tábua a pisar se firmar; e daí com a pá grudenta de lama toma ora parte de saibro ora de barro de melhor qualidade, atira no alto da pipa propriamente dita, a qual, cheia e pela pressão do movimento dos “facões” (assim falam oleiros) a matéria prima vai se misturando até à fase de sair cuspida por baixo na boca – onde mãos franzinas recolhem o barro e o coloca no carrinho.
João Pipeiro vem junto à filha, examina tudo acostumado com o carrinho e com a montanha de barro, ‘ranheta’ ranzinzando com a menina alguma coisa apenas para não deixar passar em branco sua autoridade, toma a seguir as pontas dos varais da carriola, já lustrados gastos no trabalho diário, quase gemem os varais com tanto peso não gemem nem geme o homem musculoso apesar cansado e faminto pois pegara de madrugada no serviço o sol já alto – assim alevanta o carro e o barro, força equilibra empurra leva a geringonça a fazer rastro no chão afundando o chão no peso e grita gritinhos de chiados a roda única em que o peso pesa e desse jeito o conjunto de barro-carro-pipeiro, o pipeiro como combustível e motor ao mesmo tempo, esse conjunto sai da pipa entra no rancho debaixo do rancho rumo aos banqueiros, os quais à espera ou na torcida que se repita a cena muitas vezes (os ansiosos por mais trabalho e mais ganho) ou que pare e seja a última carrinhada; isto válido aos prreguiçosos ou doentes banqueiros a torcer pelo acabar depressa o sofrimento do trabalho pesado. Isto porque a labuta se serve de duas interpretações contrárias mui próximas do bem e do mal, como entende o comum dos homens. Depois volta. João torna à pipa à filha, esta não o vê sequer, por estar sofrendo uma perda amorosa enrustida sem que o genitor se dê conta... Torna, vem de frente, nas costas puxa o carrinho vazio já despejada no chão dos banqueiros a carga, trá-lo segurando pelos varais agora em sentido contrário, ao gosto e costume dos oleiros, e assim o carrinho chia sim mas contente leve solto. O homem até sorri como um vitorioso ser, provisoriamente vitorioso na etapa. Para, para recomeçar: pula no picadeiro na tábua na lama e toma a pá, pesada vazia com o grude do barro; e grita os burros, grita eventualmente a filha servidora a encher outra vez o mesmo veículo de madeira rústica, a sonhar ela de novo houvesse parado o sonho da perda daquele ganho que fora um Dico... e já não mais é.

E o tempo passou... ou não passou, o ponteiro para engripa empedra quando a gente sofre, sofria a pobre Anita e nisso não há medida. Contudo passou, a mocinha se perdeu ou se prendeu em novos amores, talvez não bem amores mas distrações. A olaria ganhou-perdeu mais gente, novas famílias com outros machos jovens da espécie, e além de tudo o mais se apresenta uma nova situação ou condição à jovem Anita: os pais veem a filha se tornando moça; no campo ao perceber a jovem apontar os seios a tomam por adulta e aí, a se garantir a família que esse membro não vire tia, aí os genitores ou facilitam ou liberaram a menina no caso Anita, aos bailes, nem sempre perto da olaria, o que de grande valor aos interesses dos jovens. Até nessa altura ela ficara mais ou menos presa aos hábitos de sua gente, apenas congraçando nos bate-papos do lugar e participando de encontros religiosos. Dificilmente a gente da roça pode frequentar igreja, exceto quando na cidade casamentos ou batizados e raramente havendo oportunidade de encontro no campo, não sendo esporádicos terços ou a festividade junina; já a vida urbana tem facilidade nas reuniões na maioria católica desse tempo. Nas aproximações a moça de olho e de coração esperto. É quando também se põe em dia assuntos, inclusive o amoroso, as pessoas se interagem. Anita só tendo como empecilho em tais ajuntamentos a língua da mãe. Maria criticava na filha a tendência do ver homem em todo lugar; o que um exagero um pouco acertado... De fato seu coração não perdeu oportunidade, mesmo apenas quando agrilhoada no trabalho oleiro, na sua rotina. Nas poucas vezes a irem familiares para Volta Grande viu ela com alegria de jovem casadoira a gente, ficando apenas desgastada constrangida pelo ver da genitora a criticar o que achava que a filha via. Via sim muitos jovens numa relação mais de acaso que duma duração efetiva.
Enquanto nas horas oportunas e ao acaso vivendo sua rotina de trabalho na cozinha e na olaria, Anita tendia a esquecer Dico, sobretudo Dico. Aí foi colhida pela torrente do viver. Numa visita familiar a uma comadre da mãe, madrinha da irmã mais nova, isso na colônia da fazenda onde até poderia encontrar e não encontrou o ex-namorado, sua vista flagrou um belo exemplar macho em visita aos fazendeiros, ele também rico e provavelmente estudante da capital ali em férias. Seu ser foi como que chocalhado e assim disparou seu sonho. Entretanto tinha ali início um pesadelo...
Dois ou três dias após aventurou-se sob qualquer pretexto tornar à comadre; todavia sequer chegou à residência da comadre Benedita, aceitou os acenos do rapaz estranho e quase estrangeiro por branco e do mundo dos ricos.
Não poderia nisso garantir haver sucumbido a um amor porém sucumbiu por cair seduzida no cafezal onde se encontraram; ali cedeu, não sendo propriamente estuprada como a gente aprecia dizer, no entanto sequer fora enganada: mais se forçou a se enganar.
O comum aconteceu como mil vezes já o mundo registra. Nem precisou ‘enganar’ a família escondendo haver ido procurar encrenca pois logo os genitores, mais a mãe, não se enganando. Caso enganasse, a gravidez não permitiria tergiversações.
Assim mais um estudante tornou das férias à rotina sem alterar a rotina da sociedade. E uma jovem morena tornou-se mãe mais cedo e sem as bênçãos do matrimônio e da igreja. Entretanto não foi fácil para Anita enfrentar e entrar no mundo da responsabilidade e dos compromissos na luta pela prole; ela teria mais alguns filhos, não ficaria somente nesse rebento sem pai, o Pedrinho; curiosamente batizado com o nome do mais tímido dos seus apaixonados, o qual nem se poderia afirmar conquistador.
Descoberta a primeira gravidez, desenrolaram-se fatos doídos no lar. Em geral os pais na época expulsavam de casa a filha desonrada ou castigavam mais levemente a infratora. E/ou tentavam acertar a mira no conquistador fujão; no caso mui poderoso e inatingível por rico e longe das garras do pai da moça, ex-moça no falar do homem comum. Enfim tabus desse tempo. Por essa causa Anita teve contra si mil ralhações e participou de muita discussão no lar; pela hipervalorização da opinião da sociedade, que picha uma pobre mulher, diminuída em razão pôr um novo serzinho no planeta. Nisto entrando a crítica fácil de comadres vizinhos e parentes, todos sequiosos de assunto apimentado. Resumindo, parece que Anita sujara a honra da família, isto o pensar do tempo nesse tempo; por isso os primeiros anos após foram o inferno. No entanto felizmente houve ajuste logo: João depois e Maria antes, se apegaram ao neto Pedrinho.
Posteriormente Anita já Ana segura e resolvida, talvez não amadurecida e que será amadurecer! posteriomente teve ao longo dos anos novas concepções novos namorados, quase ‘namorados’ conforme o dizer dos tempos de agora; e portanto novos filhos. Alguns o mundo sacrificou, uns enterrados outros cresceram sumiram. Nunca, embora, se casaria segundo os ritos oficiais. Uma só e única e última vez conseguiu viver mais de ano com um homem, um senhor idoso e doente, numa espécie de ajuntamento. Desde teve um filho apenas; além de poder requerer benefício numa pensão como viúva. Então já nem era Ana, virara Donana, um pouco encarquilhando.
Apesar dessas atribulações e de haver se mudado muitas vezes – quase sempre viveu na olaria do Italiano, este já falecido, ou viveu ela nas imediações da olaria. Parecendo inclusive estar ligada como que ao cordão umbelical dessa pequena indústria, agora extinta e em escombros.
Donana ali hoje vê o monstrengo dessa ruína, desde sua casa. E pensa e lembra, rememorando Ana e Anita...

Foi assombrada que Donana se pegou a falar sozinha, sozinha estando não no ganhar o pão lavando no tanque de roupa, mas na cozinha pobre como toda moradia. Da janela via vendo o monturo em que se transformara o forno da olaria. Não se conteve a velha, deixou a janela a cebola de chorar a faca de ponta e outros talheres ainda sujos mal usados – saiu entrar na memória e... não, antes voltou ver se não esquecera o fogo ligado, a gente idosa nunca mais confia na memória; e não: mero engano o fogão apagado e aí, aí sim, vai de encontro àquilo que são os restos do coração duma olaria no seu tempo, tempo de Anita.
Achegou-se já no meio dia – sequer lembrando nesse esquecimento ser horário de almoço, o almoço atrasado e sua gente logo chegaria comer falar comendo correndo para ainda correndo tornar ao compromisso, aquele Tonho não engrenava não parava não parava sequer com namorada e a namorada ameaçando vir às custas da avó do emprenhador curtir sua gravidez – o sol aquecia o escombro que um dia, ah há quantos anos! um dia queimavam tijolos e se vendia tijolos ao ganha-pão dos seus (aí enumerou sem ajuda dos dedos das mãos a parentela e mais os seus amores, por vezes sacrificados).
O sol a pino incidia nos cacos e nos poucos tijolos inteiros na claridade a deixar sulcos ensombrecidos e dali da sombra subiu uma lagartixa, quem sabe em sonho de lagarto ou mesmo de dinossauro; olhou curiosa aquela velha a olhar também, também sorriu Donana e logo fechou a cara, pois vai (pensou) vai que tenha baratas aranhas cobras nessa mataria. Tocou um dos cacos, como a sentir-se no sentir ao choque da lembrança com o concreto; cheirou quase cheirou. Ia dali donde se encontrava dezenas em anos bem contados a sua vida moça; e moça estouvada, se picou e a lembrar num relance fugidio os seus netos as filhas mais ou menos irresponsáveis e então lembrou o mais irresponsável, aquele Tonho arranjador de problemas mas isto num lance do relance em átimo apressado para voltar a si mesma, já não sendo mais Donana. Anita engravidara duas vezes e a família não aceitara o que chamando abuso; mui se desentenderam, até que deixou a olaria do Italiano e sua família.
A partir de rusgas com tendência a descontrole e rompimento esteve ao deus-dará, ora com um companheiro ora com outro ora até sozinha, nunca só visto a sua prole numerosa pois que povoara bem o planeta. Reviu cada uma das relações amorosas, sofreu de novo gravidez e desaparecimento dos rebentos; reviu ainda outros dramas quais discussões e até violências maiores, como encrenca na lei e visita à polícia, uma vez queriam encarcerá-la. Enfim sofreu tudo isso de novo, porque recordar é sofrer outra vez o mesmo sofrimento, teimoso em sumir de vez duma existência cansada.
Se fixando, reviu Anita no forno pujante cheio lotado até em cima com tijolos rosados e quentíssimos. Certo domingo ao descanso, todos sabem disso, disso não se apercebendo o Italiano a convocar todo mundo a postos pra desenfornar os tijolos quentes ainda, a aproveitar venda fácil e preço bom, inclusive o Chevrolet quebrador dera descanso à oficina. Aí tocou mesmo à Maria dar mãozinha; e ela, Anita, então suou se sujou se empoeirou a encher os carrinhos com o material para ir à carroceria do caminhão. Isto não saindo da cabeça por um acidente: tomou macetada no indicador, por dois tijolos que se enfrentavam a rasgar carnes do dedinho da menina! Chorou sim, parou sua participação no trabalho extra. Ah, lembrava também que o patrão não lhe pagara o serviço; talvez houvesse pago ao pai, xará do Italiano. Ela não viu a cor do dinheiro.
Prosseguiu no pensar, ali encostado daquele representante de sua velha olaria, agora ele também a morrer se desfazendo e a cheirar sepultura; prosseguiu a reviver seu tempo de moça espevitada e depois o tempo de uma Ana lutadora para sobreviver sem João sem Maria, ele primeiro depois sua viúva, disseram à filha haverem falecido enquanto ela corria mundo, oh o mundo, ora atrás dos seus homens ora eles atrás dela e ainda problemas maiores como perseguição dalguns companheiros mais violentos e vingativos, um chegara ao crime ostensivo. Aproveitou a chorar os filhos desaparecidos; ih, perdia a conta quantos...
Até chegar ser a moradora do Parque das Cabreúvas, agora... Agora lembrou-se da refeição da sua gente.

Gostava dos seus, apesar dos pesares. Entrou em casa, parara, forçadamente é verdade, parara retida por dona Rica, uma vizinha pobre da rua debaixo. Um pouco do tipo especula a mulher também velha. Não pôde livrar-se de narrar igualmente seus achaques diante da falação da vizinha. Não obstante não achava jeito encerrar a prosa, lembrando aflita precisar ainda fazer tudo, sequer iniciara a comida – e a mulherinha não largava. Tem gente que não desconfia dos problemas de outrem e espicha espicha espicha detalha pormenoriza suas coisinhas, adentra no falar mal bem intencionada se supõe – e Donana querendo anteriormente fugir da beleza de Anita e da vida encrencada e de lutas quase inglórias de Ana; pensando na chegada do neto, das filhas, ela mesma perdera já a fome diante o discurso inacabável inacabado da senhora. Até que enfim a intimou parar:
“Dona Rica!” disse e completou o “não cortando sua conversa...” cortou, fez rápidas recomendações aos dela, dela mesma não os da outra – assim partiu rápido com a rapidez permitida a uma idosa doente... De fato sentia um peso por dentro, o coração nesse dia já cedinho disparara depois lentara depois ainda experimentou como que certa tendência e iminência a vertigem; nada que uma pessoa tomada por anos muitos não saiba. Por final adentrou o lar, nem um pouco doce lar, ia à cozinha reencetar serviço o mais depressa possível, realmente iniciar a comida, porém preferiu ir à cama descansar antes um pouco. De quê! seria da aflição em que ouvira a vizinha?
Enfim deitou-se, pensou até engolir algum comprimido tomar algum chá, se encolheu, se ajeitou e teve daí uma sensação estranha mas boa de relaxamento e mais que isso: a ansiedade que sentira antes de tornar à casa passara. Experimentou um alívio.
Nessa altura tomou coragem e se levantou. Ainda se espreguiçava, como sempre fizera manhãzinha ao se erguer para o dia. Nisso ouviu a chegada do seu povo. O primeiro a adentrar a residência pobre foi o Tonho, os outros e mais bem dito as outras atrás dele, até a namorada barriguda com as outras mulheres numa conversa banal. Foi quando o neto examinando aquele corpo velho embodocado gritou, choroso – “a vó está dura! acho que a vó morreu!!” Os outros penetraram assustados o recinto em alarde e dúvidas e lágrimas e gritos e consternação. Até Donana ali ao pé de si mesma se espantou com esse espanto.
Marília    outubro  2013

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