Amores de Anita
Agora vê-se um monte em escombros de uma
construção já quase centenária e quando andava completa mui imponente, quiçá
mandona na sua época e no seu meio. Isto tudo dito posto ao bem do exagero.
Embora rústica, não tão simples ou sendo apenas grosseira, rústica de fato pois
nunca fora no acabamento bela; nunca fora de muita presença como fosse exemplo
arquitetônico. Mas um pouco imponente sim dado ser o centro duma atividade hoje
em extinção ou já extinta. Porém agora um amontoado apresentando passivamente
restos teimosos de construção de muitas décadas atrás. Aqui fora o forno...
Mais além, longe um pouco, nessa área há
casas; por volta do escombro a mataria; depois sim o casario pobre e ao gosto
do pobre de periferia, portanto sem ordem, ou só tragicamente imitando a
civilização dos homens. Nele certa moradia tão pobre quanto outras, a cair em
pedaços e velha bastante preste a despencar na sua mistura de alvenaria e
madeira, tudo gasto, vendo-se nas rachaduras tufos improvisados de saco de estopa
tampando buracos contra impulsos do vento que uiva com frequência e daí o lugar
antes ser chamado “Ventania”, hoje conhecido por Parque das Cabreúvas. Nessa
imitação de casa reside Donana.
Dona Ana está neste momento fazendo sua
limpeza, sua higiene bucal, senhora limpa, foi linda hoje um resto limpo ao
menos – e a mulher fá-lo no tanque de lavar roupas; o que não poderia parecer
estranho porque o mais comum no homem comum ligado à roça; Ana podendo ser
caracterizada roceira, de quando havia lavoura na região. Lava a dentadura
postiça, esguicha água da torneira na geringonça, os detritos vão ao fundo do
tanque na função de lavatório agora e pairam no ralo os restos do almoço dela,
grânulos de arroz com fiapos outros. Em razão da limpeza encontra-se de boca
murcha e assim mais feia que de costume pois os dentes postos não a
embelezariam mas disfarçam sua feiura de velha maltratada. É mulher gasta e de
mãos grosseiras, visto deixando a plantação não deixou de enfrentar a labuta
que embrutece um trabalhador – a vida costuma ser dura à família pobre. Morena,
diria baia, enfim longe ser branca. Mediana na estatura, magra sem ser
ressecada e menos que isso cadavérica. Não venderá vida nem saúde nem alegria.
As décadas difíceis cuidam amiúde desgastar aplainar enxugar as carnes da
gente. Parece que de nome de família Silva, sem se preocupar com as árvores genealógicas
e até a desconhecer tais apegos da cultura. A rigor faz como qualquer pessoa da
periferia: pensa no dia de hoje; e hoje tem é muita encrenca e peso nas costas
da gente.
Portanto a casa de Ana não dista muito
dos escombros que sobraram duma olaria, inclusive dos fundos da residência pode
ver tijolos nus deles e agora vendo-se somente partes de três paredes
assentadas tijolo a tijolo a projetar uma imponente construção, imponência
apenas revelada na rusticidade do lugar, que fora Ventania hoje não sendo; e
pela rusticidade da gente ali trabalhadora.
A parede que olha o leste, o leste que
recebe o sol por tranquilos milênios ou encobre o sol conforme as necessidades
do tempo; essa parede assim como as outras e toda construção foram feitas de
tijolos antigos... Aqui necessário um reparo.
Dizer antiguidade para oleiros da época
que se levantava o forno é algo um pouco subjetivo, pois que os trabalhadores desse
tipo é uma gente sem passado; ora, todos têm passado mas na medida em que se
desconhece o passado o passado inexiste. Assim dizer antigo a qualificar tijolo
é um tanto vazio de significado também. Em todo caso a indústria quase caseira
que se instalava cujo centro seria o forno, ela fazia unidades com peso que até
uma criança poderia erguer. Já os tijolos assentados na dita construção eram
enormes; porque na época anterior todo material feito sendo grande, exagerado
enfim, só podendo ser manuseado por adultos. Isto não vem ao caso, o que
interessa é ter-se edificado a fornalha com tijolos vindos de longe. Volta
Grande iniciaria a produção com unidades médias; outro aspecto conclusivo aqui
decorrente é ser Donana uma voltense, por haver sido criada nessa primeira
olaria do município; aliás quando da fundação Volta Grande só tendo o nome e
nem município era, sem que isso fosse problema sério à menina Anita.
A parede cujos restos ali estão foi
elevada e todo o forno a uma altura de quatro metros, com base de metro e a parede
propriamente assentada na espessura de um tijolo, dos antigos. Embaixo três
canudos a sair pra fora da construção, chamados “bocas”, onde se alimentaria a
fornalha. Um metro e meio acima do chão e apelidando “crivo”, assentaram
tijolos em pé deixando entre si vãos para a subida do calor das brasas na
combustão das toras, a fim de assar o produto, quer dizer o tijolo a ser
vendido; os oleiros não falavam assar sim “queimar”. De tudo não sobrou nada.
Agora estão ali escombros; das paredes restaram
meio metro intactos e restos; certamente houve reaproveitamento do material
pelos anos afora, com abandono daquela quase ossatura semidesmontada lembrando
restos de sepultura de um cemitério abandonado...
Tufos de mato encobrem os tijolos
remanescentes no lugar e cacos doutros que se quebraram, ou para esconderijos
de insetos ou por descaso do tempo.
Assim, daquele monstrengo abandonado
encoberto quase por capim e uma que outra árvore e alguns arbustos que se secam
na seca que se enverdecem nas águas anos a fio, daquele monstro outrora
poderoso e centro duma atividade importante ao crescimento da urbe – pouco
ficou e hoje não passa de alguns dentes podres clamando por dentadura postiça,
qual a da velha Ana a se limpar sujando as partes aguardando a roupa de fora
para dentro o custeio da família dela; o que restou também dessa família.
O Parque das Cabreúvas – um nome a
representar talvez um aceno lírico de manuais em boa obra – não passa dum amontoado
típico da pobreza bem distribuída nas faltas, com sobra na má apresentação. E
assim poder-se-ia representar a feiura urbana nas periferias pobres. Realmente
existem as ‘ricas’ que seriam remediadas
por ter casa mais ou menos decente, garagem, carro (mesmo que velho), água
encanada, esgoto, asfalto e demais problemas que todos têm e a compor feição
urbana. Porque a periferia pobre nas suas partes podendo esbarrar no
favelamento e isto é mais doído e quase doido; embora tais pedaços no conjunto,
estes recebem pouco em benefícios e vivem meio por conta própria; daí não ter
planejamento e apresentar o casario algo desordenado arquitetonicamente
falando, se se pode assim dizer.
Quanto à pomposa terminologia, assim
como se batizam dentro do modismo os ‘Jardins” disto ou daquilo jardins que sequer
possuem o verde... e se abandonando o já corriqueiro Vilas e Bairros; em o nome
Parque das Cabreúvas, apenas sobrando mesmo as cabreúvas; por sinal extintas no
desmatamento desvairado que caracteriza a época atual nos países pobres
subdesenvolvidos com pretensão a potência. Não passa duma afirmativa na
afirmação labial-oral que raia ao abuso no absurdo, o pôr no atestado de
batismo ‘Parque’ a um amontoado sem homogeneidade e sem beleza. Sem avenidas
(não ocorreria pensarem bulevares!) sem ruas a rua quase uma porção mal medida
e às vezes sem nome; a rua, se rua, da casa, se casa, da velha Donana por
exemplo, não tem batismo não tem placa e se tivesse a mulher semianalfabeta não
leria. A tal conjunto se conhece por Parque das Cabreúvas. Só recentemente o
serviço de ônibus circular foi estendido com um ponto na ponta do Parque, no
limiar da cidade propriamente dita; ainda assim os trabalhadores indo ao centro
urbano e aos seus empregos necessitam andar todo o bairro para chegar onde a
condução para; por sinal alguém arrancou o postezinho de madeira indicativo de
parada com as cores da empresa de coletivos.
Enfim os nomes pomposos aos loteamentos
geralmente cheiram a blá-blá-blá gabolice bravata dos políticos; enquanto que o
tratamento a essas concessões lembram a burocracia a lentidão o esquecimento
governamental, fora dos meses que antecedem a eleição. O Parque não dispõe
unidade de saúde e até a coleta do lixo é precária. Em compensação têm as
moradias muita antena de televisão, algumas com improvisos originalíssimos.
Outra nota seria a existência dos dramas e das violências, mas isto assunto de
alçada da mesma televisão...
A propósito das cabreúvas, madeira de
lei e que havia bastante na região, uma de cerne vermelho com envoltura branca
mui usada pelos matutos para cabo de enxada graças à durabilidade praticidade
leveza beleza; ela com a peroba e outras espécies foi arrancada e extinta na
área. Ficou no batismo do Parque, decerto pelo conservadorismo do caboclo.
No conjunto um conjunto pouco
habitacional e muito habitado, em vista do preço do terreno facilitar quando da
formação dessa vila.
Aparentemente Donana não iria além da
mulher velha pobre desvalida desconhecida, um número na coletividade de periferia;
perdida na miséria a aguardar a morte como um alívio no fustigamento e na
exigência do viver, aqui seria ‘viver’, apostrofado para mostrar que isso não
chega a ser viver. Bem, não há este mal. Donana é um exemplo dos estratos mais
baixos e particularmente sofre na sua condição e pelos dramas dos seus – isto
sendo desemprego subemprego e até desespero na sua gente, a gente que lhe
sobrou na voragem do tempo. Em síntese uma sofredora; porém afirmar uma santa a
receber acintes e ofensas miúdas dentro da família de maneira quieta muda
passiva é absurdo. Gente, gente embravece discute briga xinga ofende inclusive;
ora, a mansidão só frequenta na pobreza as linhas comportadas dum romance; a
verdade pega mais no pé e eleva o som da voz quando necessário. Assim Donana,
igual a vizinha a comadre a parenta a conhecida ao enfrentar a verdade, mesmo
que seja alterando elevando a voz; portanto não é diversa de ninguém. Contudo
pode haver tão só aparências visto ela ser algo mais. No trato com seu meio e
especialmente com sua gente, ela representa a teimosia a fortaleza o espírito
marcante definidor e o exemplo. Semelhando o forno ora no desmanche do tempo,
Donana é a fornalha que une dirige orienta luta e dá praticamente a última
palavra; sem ofender, sem pretender ofender, no entanto precisando solta os cachorros...
esta uma expressão popular. De fato não medirá palavras, ofendida ou
experimentada na sua paciência. Entretanto é verdade parecer a liga o grude a
cola necessários para unir os seus como família.
E sempre fora assim. Desde jovem, a
jovenzinha Anita dava as cartas; a trocar de marido e a formar nova família, ainda
assim manteve todo seu sangue ali preso quase como a manter o cabresto na
direção.
Agora ao fazer a higienização, ainda
grãozinhos de arroz engolidos pelo buraco gradeado onde escorre passa a água servida
com detritos outros dos dentes; agora mesmo a pensar nos problemas de filhos
netos bisnetos. A pensar! o homem comum, simples, fala o pensar nos seus
resmungos. Exato, é uma velha resmungona. E na medida em que pensa alto e
resmunga a falar baixo, está como que vivendo ao reviver igualmente suas
recordações ligadas à olaria. Donana fora oleira; ora, um oleiro nunca deixa
ser oleiro, pode desaparecer a olaria todavia não sua condição, impregnada no
ser. Oleira.
Bem, a velha não tendo beleza alguma, se
esta informação não for infundada ou pelo menos um pouco exagerada – isto
porque de quem não se pode extrair algo de bom e belo? Ora, será que no sofrer
diuturno e no desgosto do desgaste de toda uma vida difícil não se encontra um
toquezinho de beleza física em Donana! Ela agora já com a dentadura posta
correta ajeitada na boca e a se desarcar, pois havia não à limpeza dos dentes
mas sim por se abaixando demais ficado com dor na coluna pra empurrar os
detritos amontoados no fundo do tanque das roupas no ralinho, aqueles grânulos
teimosos de arroz. Fazendo por isso uma careta digna do rir quase a chorar na
dor. E nisso – ah como é bom uns raios de sol que a sombra projeta desde a
parede da cozinha até o tanque e deixa chegar naquele rosto que é certa máscara
enrugada do sofrimento e da idade – nisso mostrando quase no zigoma esquerdo da
face dessa índia, Donana é descendente indígena, mostrando então um buraquinho
lindo de se ver. Que outro nome dar-se a essa entrância ou reentrância ou mesmo
sulco e que o povo diz “buraquinho”! Quando alegre ou rindo duma graça de
criança ali perto por exemplo, descontrai a boca contrai a bochecha e na
bochecha aparece o sulco que dá um quê todo especial e isto ela herdando da
mãe: dona Maria, Maria tinha viva morta já uns buraquinhos que a deixavam
faceira charmosa. Até que isso não ficando mal em Donana e dando mais graça à
graça de Anita, jovem esperta viva e... aqui caberiam os enfeites nada
exagerados que o amor dum Pedro sente nessa atração por jovem tão encantadora
como Anita...
Contudo, isso não passa de exagero
vocálico e maluqueira poética, visto o homem simples e labutador por mais jovem
imaginoso fosse (era) sendo sujeito grosseiro, a grosseria escondida na
vergonha e na timidez normal quiçá doentia que caracteriza o homem do campo. Pedro
é nesse tempo um oleiro, a olaria encravada na roça, mais exatamente numa fazenda
de café; e portanto ele igual um roceiro nos seus dizeres na sua visão na sua
psicologia e até nos seus sentimentos.
Anita entrou nos seus sentimentos. Mais
que isso: penetrou sub-repticiamente e o tiranizou. Ele via a inocência a angelitude
na garota, sem se imaginar andar poetando. Ela no entanto já escolada já
experiente e não correspondendo a aquele amor puro do rapaz – assim, a título
de passar tempo, brincou meses com o coração masculino.
Quando Anita chegou de mudança na olaria
esta funcionava por anos. Chegou junto de sua gente; dona Maria com o esposo,
disseram logo destes desconhecidos (a tese aqui é a de que ninguém conhece
ninguém mesmo amigos e parentes que dirá estranhos!) disseram ser o casal
amigado, o que não diminuindo o valor da família recém-chegada de não se sabe
onde, duma fazenda outra talvez; porque nos dias de hoje é o comum do ver a
situação mas o apelido que fora ‘amigo’ agora é
dito ‘namorado’ e no fundo não mudou. Seja como for chegaram; imediato a
descarregar a mudança pequena e miúda porém a família com grande número de
filhos, Anita apenas a mais velha, nova ainda e a mais bela com certeza entre
manas, e junto os meninos, com a lógica do barulho de crianças; se percebendo a
gritaria ardida da mãe, todo som feminino é agradável de um modo geral
entretanto existe o gurutal alto excessivamente fino e isto desagrada muita
gente, dona Maria assim e sua ralhação sobre os pequenos parecendo uivos a chocar
ouvidos; gritava pela desordem a aumentar desordem e na coisa sobrava a cara
feia do chefe de família, um pipeiro baixo e forte ao serviço na pipa e como
carroceiro. Feio, aqui ficando emprestado a opinião macha sobre um desconhecido
a trazer sua gente ao ganho da olaria, curiosamente parada... O empreiteiro ou
dono como afirmava o hábito, o dono andava sem gente ao movimento, o que um
prejuízo medonho; quando a pipa não vira, não há verba para custear o negócio;
é um negócio. Foi portanto um alívio ver a mudança, o descarregar do caminhão,
um Chevrolet enorme na época
entretanto para a tonelagem de agora um veiculozinho velho então e
constantemente na oficina. O carro sendo do próprio empregador, seu João
Italiano. O comum no tempo e nesse negócio era o trabalhador ser trazido à
olaria pelo novo patrão, este tendo pago a dívida contraída pelo empregado
junto à olaria do chefe anterior. Foi mais ou menos assim a transferência do
xará do Italiano, o homem com o mesmo nome do novo patrão. Chegou com seus
badulaques de pobres, quase nada de móveis inteiros e muita gente, a família de
Anita numerosa e isto bom ao serviço porque a olaria põe todos a trabalhar,
mesmo crianças.
A cena da chegada via Pedro, moço mas
pouco mais que menino imberbe e retraído. Curiosamente num tempo em que as
famílias enormes, a sua apenas ele e a mana como filhos, a tocar a banca; o pai
banqueiro, nada do absurdo de serem milionários visto no meio rural os
trabalhadores pobretões, o pai fazendo tijolo na bancada, esta uma geringonça
tosca de madeira com três pés e uma prancha ao nível da cintura, onde se
manuseava a fôrma do tijolo. Essa mesma fôrma manejada pelo garotão Pedro na
sua função de “lançador” do pai. Este formando uma bolota de argila no chão,
tirada dos montões de barro ou bolotões se se quiser, trazidos pelo pipeiro
numa carriola para dentro do rancho, ambiente de trabalho dos banqueiros. O pai
alevantava a bolota ou “pastão” como falavam socando isso na fôrma a prensar o
tijolo; a seguir cortava aparando sobras. Aqui entrando Pedro. Tirava com duas
tabuinhas o tijolo mole da fôrma e o levava ao solo cuidadosamente depositando
em pé, a se contar depois e para secar. Dia inteiro assim e nesse dia não fora
bem assim: a banca parada, a olaria inteira parada não havendo pipeiro – o João
Pipeiro acabara chegar de mudança com os seus e a pequena empresa andava
parada, exato pela falta de gente na pipa.
De maneira que o jovem Pedro não
precisou deixar seu trabalho nem o pai irritado nisso a operar sozinho pois a
olaria somente funciona com a pipa virando, ou não funciona, e só agora vem o
profissional a tanto. Não precisou deixar a tarefa e dessa forma sua
curiosidade, num misto com a vergonha doentia, pôde manifestar-se em ver a
chegada do caminhão de mudança. Acompanhou de longe a descarga a conversa dos
estranhos o arrasto de trens de cozinha e móveis, mil plantas nas latinhas, o
ladrar do Peri, a grita dos meninos e em meio a essa turbulência – a presença
de Anita!
Não queria olhar (queria sim) inamistoso
e insocial porém não conseguindo comandar os olhos... Era demais bela a jovem;
as outras meio sem graça e mais meninas que mulheres formadas, enquanto não se
interessando nos moleques visto que não se punha nas brincadeiras com menino,
se considerando homem feito, assim seu pensamento vendo aquilo... oh onde se
encontrava! Não se encontrava, foi aproximando-se aos poucos, como nada lhe
interessando porém, que diabo: ela sorrira, de si ou pra si?
Tarde da noite ainda as lamparinas
iluminavam a meio (o lume é claudicante) sim meio aclarando a nova residência
dela na colocação dos utensílios, colchões no lugar provisório e ainda muita
conversa numa algaravia com choro de menino. Só então ele se recolheu à sua
casa a ouvir a admoestação da mãe pelo atraso.
Foi mais de mês sem precisar parar
sonhar com ela, foi um tempo enorme para que tivessem enfim um contato mais
próximo ambos sonhadores. Sim porque Anita semelhantemente sonhava, só não
sonhando com Pedro. Com Pedro preferia se mostrar desperta, e rir-se dele, ele
nos seus desencontros até chegando não concatenar palavra com palavra ou a
emudecer (ela acresceria maldosa: por ser tonto). Sonhava ela sim com outro,
melhormente com outros... Não estavam eles na olaria ou que fosse viverem
noutras olarias ou noutros roçados; uma vez se engraçou dum sujeito, piormente
casado, um na cidade, para onde fora com a mãe atrás duns panos e a procurá-los
em Volta Grande. Agora, uns dias após chegarem e inclusive a família já
engajada no trabalho na olaria do Italiano, agora houve a oportunidade de ambos
conversarem. Quer dizer, ela cumprimentou desenvolvida desatrelada debochada
mesmo “bom-dia minha gente”; oleiro e roceiro falam de fato “bundia” “batarde”,
cumprimentou sorrindo e permaneceu sorrindo a observar aquele matuto mais
matuto que ela e aí despencou a falar com o pai dele; indagou da massa (o
barro) se no ponto, se o pai dela precisaria trazer acrescer mais uns dois ou
três carrinhos, se a mulher não trabalhava na olaria; ao ser comum trabalhar é
trabalhar ganhando fora de casa e o de casa não conta... perguntou o nome da
irmã do filho, o que ela sabia de sobra, inclusive das estórias sem base a
propósito da mocinha, através das mulheres da colônia (da fazenda de café onde
a olaria encravada; aliás a terra arrendada ao João Italiano pertencente à
fazenda). A colônia dos moradores lá em cima ‘cortara’ num falatório sobre a
mãe de Pedro sobre a irmã de Pedro e não sabia da existência de Pedro, soubesse
pichá-lo-ia menino mudo, diriam ainda que por baixo do pano... Ora, Anita
matracou muito porém se comunicando apenas com o pai, enquanto o filho de
coração arrebentando o peito e a boca a engolir a língua; e tremeu mais ainda
quando ela achegou-se como uma inexperiente mocinha a examinar apetrechos em
cima na banca, como fosse leiga, oleira nascera quase no barro; isso um ardil a
experimentar o namorado... Namorado! nunca se haviam falado, dada a ‘coragem’
dele, não as liberdades dela. E – aqui somente pensou Anita não falaria não
sendo boa política nem boa estratégia no amor – e para que desgastar-se com um
exemplar de mau exemplo de macho da espécie! tendo outro e outros de melhor
espécie? Em todo caso, não seria de se desprezar o quase único homem disponível
ali. Nesse ponto sorriu meio alto; fosse íntima e para machucá-lo gargalharia
daquela frágil porção masculina...
Ora, a vítima ali de boca aberta a
engolir interjeições andava petrificada, só não sendo pedra por causa da
tremura diante da beldade – deixou, sem deixar, cair das mãos uma tabuinha, ao
espanto do banqueiro seu pai. Foi embaraçoso. Ela não aceitou uma oferta de
café do velho (sogro!!) e muito menos o cigarro, o café como boca de pito.
Anita Ana Donana nunca fumaria, nunca pitaria no dizer roceiro. Assim, indo
mostrar interesse ou curiosidade noutros setores ali mesmo no rancho; o rancho
local onde a maioria dos oleiros, especialmente no feitio e na secagem dos
tijolos; então permaneceu mais tempo a bater-papo com outrem.
Assim a jovem manteve longos meses um
caso teórico de amor com Pedro. Melhor dizer que enrolou o pobre, dilacerou o
coração do pobre; primeiro com olhares instigadores; depois com diálogos
prometedores; depois ainda com desprezos arrasadores. Aliás poucos meses
passados na contagem dos homens e a família do banqueiro deixou de vez a olaria
por outra, ocorrendo o comum: saiu o operário devendo e brigado com o patrão.
Anita não se descabelou por isso; seu
namorado sim, despedaçado.
Contudo eu era bonitinha, se fala Donana
de Anita, era (no tempo verbal com inteira razão...) era sim nos meus quinze
anos, infeliz do Pedro que deve ter sofrido horrores indo embora com a família;
diziam que até chorara e os homens naquele tempo não choravam igual o chorão
desse Tonho. Tonho está com suas encrencas trazendo à avó muitas preocupações.
Não para em serviço algum, que fosse verter suas mágoas e lágrimas no ombro da
mãe a mãe sumira anos atrás sobrando à velha criá-lo; não para também com
nenhuma companheira, ele diz na linguagem atual “namorada”, traz a namorada a
viver às custas da avó e se aparecer menino pois sua última já com barriga
estufada, então mais problema a Donana; traz outros desandos e não se sabe se
não envolvimentos mais graves com os polícias. Ora, tudo em cima dela, pra ela
sustentar e ainda pagar prestação atrasada da casa e impostos da “ladrona”;
assim pronuncia e todos no lar doce lar sabendo referência à prefeitura, Donana
não distingue nem compreende o que governo, entidade poderosa da qual tem medo
apesar distante ‘impegável’. Puxa, tudo por cima dela e além do mais chega até
a sustentar o neto safado, no entanto a avó tendo uma atração especial pelo
Tonho. Na sua frente frente o rapaz brinca goza alisa abraça beija a velha,
malandramente; vez por outra lhe rouba nas fuças alguns trocados a título de
empréstimo, compulsório e eterno... Teria – se volta para o interior Donana
quase se sentindo e pior se convencendo ser Anita – sim, teria feito melhor na
vida caso mantivesse Pedro como namorado, talvez noivado e casado se casavam as
mulheres na roça com treze quatorze anos, ela já de quinze; inclusive nisto os
familiares temendo a menina ficar para titia e aí lembrou-se de mil casos de
solteironas. Ora, era experimentada, vivera vários namoricos – sem compromissos
sem as liberdades de hoje em dia, “o mundo está perdido!” pensa não pensava nos
quinze anos. E o sujeitinho a amava, mas que diabo: apenas um pé rapado
vergonhoso e dependente dos seus e até de seus olhares de morena bonita, se
achava linda ao menos sendo bonita, a gente nunca se vê, se vê sim porém não
sabe usar certo as medidas e se desproporciona geralmente a pior vendo-se
melhor; ou se afunda de vez se enxerga um monstrengo. Enfim sumiu o meninão apareceu
o Geraldo Baiano...
Seu João tinha como ajudante no Chevrolet um escurinho um pouco
atrevido, porém no ver do patrão Baiano ótimo trabalhador, desse tipo que
encara tudo, tudo vencem seus músculos; o tipo de pau para toda obra, isto
expressão popular. Inclusive nesse tempo se põe à obra de conquista amorosa.
Contavam as línguas despreocupadas que o moço, passado embora ainda jovem, que
ele tendo família na Bahia, mulher e filhos, e agora vivia “comendo” (palavra
de Anita) comendo a gente com os olhos, dessa gente que olha insidiosamente
sempre e em todo momento a deixar a gente nua... O Baiano a seguira mesmo
quando antes a menina com o outro e este quase no ponto de “bater o barro”;
isto fala gozada oleira a dizer que um amante se declara ao outro amante, quase
sempre à amante, a palavra aqui sem qualquer pejo ou malícia tratando-se só de
querência pura e se houver alguma pendência e tendência menos angelical,
lavam-se as mãos... Tudo válido a esse tempo que é o tempo de Anita não de Ana
muito menos de Donana.
Todavia esse novo e sofrido caso amoroso
– por que sofrido se do gosto de Anita! – esse tendo conotações mais baixas: o
rapaz claramente não pretendia ser mero namorado visando virar depois esposo da
bela, ele com tanta culpa no cartório decerto; pretendia outras mais vantagens.
A psicologia feminina adivinhava facilmente e assim Anita pôs um pé atrás nessa
frente. Quase o rapaz ‘namorou’ (considerando aqui a superficial ligação dela
com Pedro) quase a namorou junto com o titular (mais uma vez a superfície). E
não seria aqui então o batido gasto esfarrapado triângulo amoroso? Entretanto Baiano um experiente nos meandros
do sentimento, enquanto o outro um inocente e quem sabe puro. Quanto ao
terceiro membro da tríade, uma jovem se conscientizando bela desejada e a
manter quiçá com malícia quatro olhos presos em si. Pedro deixou o tablado
quase na lona, Baiano bateu palmas e se considerou o único. Sabia perfeitamente
que a mulher não era uma presa fácil; ainda assim deu de cima da vítima, se vítima,
semanas, desejando facilidade e felicidade, felicidade segundo o pensamento do
que seja felicidade no ideal comum, uma felicidade trabalhada certamente pela
sua consciência ou embotada ou conspurcada. Por morar num bairro de Volta
Grande e só aparecendo quando vindo o caminhão buscar tijolos ou a trazer lenha
para o forno – também o risco da jovem era menor. Um dia, uma noite que ficara
a ajudar os oleiros na queima, nesse dia tentou abordá-la, se supondo o
príncipe encantado da moçoila. Escapou dos trabalhadores entre uma embocada e
outra na operação do fogo-forte, a supor poder praticar atos libidinosos,
imaginando Anita fosse como as suas prostitutas e não uma jovem de família;
diziam dele ser comum visitar na cidade lupanares. O homem a procurou investiu.
Ela entretanto não caindo na conversa, se defendeu gritou, inclusive
despertando os seus: o pai quisera mostrar honra e valentia se pondo fazer
justiça como imagina a justiça um homem comum; tomou sua espingarda... Nisso os
outros oleiros intervieram e amansaram João Pipeiro. No dia imediato, inteirado
o patrão sobre os abusos, o Geraldo tornou à cidade a fim de acertar as contas.
Esse homem sumiu também, decerto indo procurar outra anita ou voltando à
esposa. Enquanto Anita ou aprendera uma lição, ou não... ficando ao menos
temerosa e de olhos mais atentos.
Naquele dia daquela noite a menina
aparecera no forno, talvez por curiosidade ou fosse por exibir seu sorriso...
Dizem os que dizem ser a mulher nos dezesseis anos aberta a todos sóis hajam,
ela nos quinze janeiros; e procurava sempre mostrar-se aos homens como dona
Maria criticava, verdade que Baiano andava ali de plantão... Eram três os que
alimentavam as bocarras do forno, o patrão deixara nesse propósito o seu ajudante
indo ele sozinho descarregar o caminhão na urbe; porque no fogo-forte, quer
dizer a fase de empanturrar rápido as bocas com lenha mais amiudadas vezes, a
manter contínuo o calor; a fase do esquente mais demorado e mais demorado o
tempo gasto a intercalar uma para outra “embocada” (alimentação no modo de
falar oleiro) e assim um único homem dando conta, enquanto que durante o
fogo-forte necessário muito trabalho e não descuidar-se da manutenção da
temperatura. Ela, não a temperatura é lógico, ela semelhante no episódio da
banca quando para se aproximar de Pedro ficou a virolar nas imediações e até se
fazendo de neófita no métier a
indagar dos movimentos e objetos na bancada, ao pai do rapaz; agora também
pergunta de tudo e tudo examina olha interessada, interessada mesmo sim naquele
ser corpulento, a exalar fétido suor com a roupa molhada grudando na pele
escura (ah pode-se supor que mulher não sinta demais asco nisso... e Anita
parecia até sentir atração...) O fato é que, se não houvesse antes notado o
ajudante mil vezes visto, fazia parecer ser pra ela a primeira vez. Coisas de
menina. E não foi num sem querer mostrar partes do vestido desvestidas, para
assim expor o que desejando, se desejasse. Os outros dois trabalhadores igualmente
perceberam a amostragem, isso atraindo sobretudo aquele sujeito tido pelos
colegas que privavam consigo como um pouco o tipo de garanhão em plantão...
Sobremaneira o ajudante percebeu as
intenções nada veladas daquela joia ali próximo. Mais que isso: incentivou sua
afloração não esperada provavelmente desejada. O jogo amoroso se estendeu e só
foi interrompido pelo chamamento da mãe dela, num recado trazido por uma das
manas, a caçulinha, Maria também como a mãe delas. Nesse ponto Donana pôs-se a
recordar a mortinha viva, com saudade, quase todos os seus haviam partido.
Quando se pegou em si, havia já ido atender a genitora e de volta ao pátio onde
a lenha ao fogo, ela ainda xeretando perto dos homens, tentando instigar
Baiano, o que não era nada difícil...
Empurravam com um cano de ferro
longuíssimo toras semiqueimadas, empurravam brasas vivas ao fundo para o
faminto forno, o calor era extremo, subia a tremer fumaça quase transparente lá
em cima naquelas alturas. Um dos trabalhadores pôs uma escada rústica encostada
na parede subiu e pulou na cobertura no meio daquele calor enorme, na verificação
da cor dos tijolos; então eles também como brasa, vistos por frestas na capa, a
capa eram tijolos deitados a fim de segurar embaixo de si a alta temperatura.
Aí, com ajuda doutro colega, cobriu de pá com areia a fim de vedar ainda mais
aquela cobertura. Teria dito o homem lá de cima andar no ponto ideal a
“queima”, termo oleiro para o assamento do tijolo. Então se fechando as três
bocas com folha de zinco, escorada por uma vara mesmo assim ocorrendo o risco
de se incendiar a ponta da vara e se calçando por isso com metade de tijolo
quebrado. Só daí a dispensa dos trabalhadores ao descanso.
Sabendo-se que Baiano, por razões
escusas, já havia desertado bem antes na madrugada, quem sabe à caça de alguma
raposa...
Foi nesse contexto o pai da moça
examinar se a espingarda ainda funcionando...
Dizem oposições que mulher trabalha mais
que homem. Em que pesem abusos da língua, a verdade é que no geral enquanto seu
companheiro descansa após o horário no horário de papear sem compromisso, ela,
sua companheira, na lida a tentar resolver os dramas do lar depois do trabalho
dela árduo pesado duro na olaria ou na enxada; sendo que mesmo na hipótese de
se tornar cidadã mudando-se à urbe, ainda lhe perdura a dupla jornada... ou
inclusive se acresce a terceira, quando espremida no interior duma condução
coletiva. Para Donana, velha acabada (diz assim o exagero verbal mundano) raro
o peso do ônibus nela pois opera no bairro mesmo, a complementar ingressos
insuficientes da pensão que recebe por seu último homem morto. Quase sempre faz
dentro de casa os serviços pegos de fora, como lavar roupa das freguesas.
Enquanto nesse trabalho, rumina pensamentos simples (ou seria que os símplices
pensassem complexamente!) E nisto quase sempre também não é Donana, quase
sempre não é Ana, quase sempre e fatalmente sendo Anita. Anita a bela morena,
sofrimento dos rapazes – e agora onde andaria Dico! – sofrimento sim em virtude
a jovem ser um ser difícil de conquistar, fácil aos sonhos deles; porque a
ninguém é dado ficar e impedir o sonho de outrem e dessa forma os moços almejam
Anita. Anita? aquela mocinha irrequieta da olaria do Italiano. A mãe? xi, sempre
vendo com maus olhos a ‘xeretice’ de todos homens em cima da imprudente filha.
Entre esses machos e especificamente
entre os colonos havia, aqui se conta Donana sobre as falcatruas de Anita e
falando a velha às suas próprias orelhas pacientes, havia no meio dos famintos
seres... (ah e sorri ao se lembrar ao narrar ao se ouvir e ouvir lá dentro, a
tanto que se pega num resmungo; claro a resmungar sem a chateação que é se
saber uma senhora gasta resmungona) enfim entre a rapaziada o Dico, e o Dico também
lhe despertava cobiça, cobiça honesta pura direita ingênua mansa, Anita ainda
virgem por essa altura e desconhecedora dos abusos do mundo e assim aquele
antigo Baiano ficava para trás; somente depois viria o atrevido filho do fazendeiro...
– o Dico um jovem alto, escuro de pele igual ela mesma, nunca tivera sorte com
brancos e ainda o fazendeiro iria logo provar por a+b o acerto do erro. O Dico
viera umas vezes tentar namoro e se aproximara sorrateiro, lera nos olhos daquele
belíssimo exemplar fêmeo da espécie uma espécie de atração que só os olhares
sabem falar; e desse jeito mantiveram um caso. Não um caso amoroso cheio de
imprudências e escândalos desses que Donana vê hoje agora ali junto dos seus e
dos seus vizinhos a horrorizar o decoro e a honra. Não. Um caso se não santo
aceito pelo seu tempo, até por seu pai, o João Pipeiro sendo secarrão brabo na
sua grosseria e bom na espingarda de apreciar guardar a honra familial. Tanto assim
que Dico nunca teve coragem perante o presuntivo sogro e nunca se declarou,
declarou-se claro à pretendente, nunca chegando de fato às barbas do velho, sem
contudo poder, agora ambos namorados, se safarem então à então vista arguta de
Maria. Ora, Maria de língua atenta na defesa da integridade da filha, das
filhas; um pouco a expressão cabocla a afirmar necessário a prisão de sua
cadela havendo tantos cachorros soltos nas imediações...
Dico por mais de ano frequentara a
olaria, por razões óbvias. Às vezes fugindo da roça para vê-la (não a olaria,
lógico) e no fim de semana era visita certa a convidar Anita à prosa só cabível
nos que se amam. Na época, por meados do século anterior, em geral o roceiro
não trabalhando no sábado e na segunda, no domingo é claro descansar a enxada;
então nesses dias indo muito às compras na cidade ou à venda de beira de
estrada, inclusive os patrões se não entendendo nem aceitando a situação
podendo pouco evitar o costume desastroso às suas finanças. Assim o caso do
Dico, quando então indo namorar sua oleira. Uma vez nesse fim de semana tentou
levá-la em passeio a Volta Grande, um pedido negado por João e Maria despertos
na defesa da filha.
Mas e o pensar da filha.
Anita fizera de tudo para contrariar a
família não contrariando os desejos do seu amor. Sim, amor, chegou a amá-lo;
até nesses impedimentos sugeriu ao namorado a formalidade de conversar acertar
com o velho, João Pipeiro não chegava a ser um velhote e menos um “velho
acabado” no falar da sociedade – entretanto bem desgastado tal o serviço duro
na pipa. Dico não se animara no propósito, embora disposto quem sabe inclusive
a desposar um dia Anita, levá-la como requerendo o hábito sertanejo exigia a
dividir consigo o puxar enxada no eito, quem sabe conseguir na colônia uma casa
para morarem; tem sempre uma disponível pela saída de alguém ou, e aqui em
último recurso, morar com o pai sogro da pretendida e a fim de se chocar a nora
com a futura sogra, como também exige o mesmo hábito.
Enfim ela nem foi assistir com o
namorado uma peça circense na Volta Grande como desejava tanto, aqui lembrando
os impeços dos pais. Nem o recebeu como esposo, embora aceitando aquele roceiro
vestido de príncipe encantado; pois que nunca formalizaram ambos no par um
namoro sério a encarar o sério compromisso do matrimônio. Nesse ínterim ele acabou
consorciando-se, meio às pressas, com uma jovem filha de pai mais brabo e de
melhor pontaria no trabuco, um lá da colônia da fazenda. O que magoou demais a
jovem Anita; por isso chorou sem vela...
Numa outra vertente, mas sem direito ao
uso do costumeiro triângulo amoroso porém mui mais marcante em sua tumultuada
existência – ocorrendo um episódio ou dramático ou grotesco, dada a conclusão
imprevista, ou seria prevista? Até chegar a isso foram a si as lágrimas
sentidas por causa da perda do namorado no casamento dele com a outra, Anita
aguardava o príncipe, ainda que travessa virgem ou quase intacta... Esta
vertente a torna mulher: apareceu-lhe um Francisco, rico fazendeiro.
Enquanto, agora na boca da pipa ela
sofre a perda do roceiro – praticamente opera a ajudar o pai como autômato,
essas coisas da gente estar a dar os passos formais qual máquina através da
máquina que é o corpo todavia longe no seu perto do coração a chorar com
lágrima de sangue! Dico imprevistamente a si mesma, Dico se unira a outra
mulher e não lhe restava mais nada (ah como uma jovem é extremada a expressar o
pensamento absurdo no absurdo!) nada mais lhe restava; se não a rotina familial
e familiar, como ouvir gritaria das crianças e da mãe em casa e os “eia!” aos
burros, aliás mulas, ali em volta a virar a pipa presos na haste que fazia
girar o mastro pra remexer a misturar o barro e, então, lá ali embaixo o cuspir
a argila revirada trabalhada pronta no ponto a formar pelotas de barro... Anita
ou quem auxiliando João Pipeiro agora ela, mais precisamente o corpo dela, ela
estando a sofrer perto longe a perda do namorado – Anita toma porções consideráveis
do barro pronto a sujar enlamear as graciosas mãos e vai pondo enchendo o
carrinho, o carrinho cheio até às alturas além do seu pequeno e gracioso ser,
Anita é menina baixa e aparentemente frágil, forte nos seus ímpetos e assim
alevanta o material somando à soma já posta em cima da carriola... Aí grita não
os burros, o pai, “pai!” e completa: o carro está lotado. O que equivale a
dizer: pare com seu trabalho nos pés quase as pernas enterrados na lama, a pipa
passara curtindo noite inteira o saibro e o barro mais consistente na água depositado
dentro dum retângulo chamado por eles “picadeiro” e agora o homem se afunda
nisso, não se afunda de todo por haver como lastro e ponto de apoio posto uma
tábua a pisar se firmar; e daí com a pá grudenta de lama toma ora parte de
saibro ora de barro de melhor qualidade, atira no alto da pipa propriamente
dita, a qual, cheia e pela pressão do movimento dos “facões” (assim falam oleiros)
a matéria prima vai se misturando até à fase de sair cuspida por baixo na boca
– onde mãos franzinas recolhem o barro e o coloca no carrinho.
João Pipeiro vem junto à filha, examina
tudo acostumado com o carrinho e com a montanha de barro, ‘ranheta’ ranzinzando
com a menina alguma coisa apenas para não deixar passar em branco sua
autoridade, toma a seguir as pontas dos varais da carriola, já lustrados gastos
no trabalho diário, quase gemem os varais com tanto peso não gemem nem geme o
homem musculoso apesar cansado e faminto pois pegara de madrugada no serviço o
sol já alto – assim alevanta o carro e o barro, força equilibra empurra leva a
geringonça a fazer rastro no chão afundando o chão no peso e grita gritinhos de
chiados a roda única em que o peso pesa e desse jeito o conjunto de
barro-carro-pipeiro, o pipeiro como combustível e motor ao mesmo tempo, esse
conjunto sai da pipa entra no rancho debaixo do rancho rumo aos banqueiros, os
quais à espera ou na torcida que se repita a cena muitas vezes (os ansiosos por
mais trabalho e mais ganho) ou que pare e seja a última carrinhada; isto válido
aos prreguiçosos ou doentes banqueiros a torcer pelo acabar depressa o
sofrimento do trabalho pesado. Isto porque a labuta se serve de duas interpretações
contrárias mui próximas do bem e do mal, como entende o comum dos homens.
Depois volta. João torna à pipa à filha, esta não o vê sequer, por estar
sofrendo uma perda amorosa enrustida sem que o genitor se dê conta... Torna,
vem de frente, nas costas puxa o carrinho vazio já despejada no chão dos
banqueiros a carga, trá-lo segurando pelos varais agora em sentido contrário,
ao gosto e costume dos oleiros, e assim o carrinho chia sim mas contente leve
solto. O homem até sorri como um vitorioso ser, provisoriamente vitorioso na
etapa. Para, para recomeçar: pula no picadeiro na tábua na lama e toma a pá,
pesada vazia com o grude do barro; e grita os burros, grita eventualmente a
filha servidora a encher outra vez o mesmo veículo de madeira rústica, a sonhar
ela de novo houvesse parado o sonho da perda daquele ganho que fora um Dico...
e já não mais é.
E o tempo passou... ou não passou, o
ponteiro para engripa empedra quando a gente sofre, sofria a pobre Anita e
nisso não há medida. Contudo passou, a mocinha se perdeu ou se prendeu em novos
amores, talvez não bem amores mas distrações. A olaria ganhou-perdeu mais
gente, novas famílias com outros machos jovens da espécie, e além de tudo o
mais se apresenta uma nova situação ou condição à jovem Anita: os pais veem a
filha se tornando moça; no campo ao perceber a jovem apontar os seios a tomam
por adulta e aí, a se garantir a família que esse membro não vire tia, aí os
genitores ou facilitam ou liberaram a menina no caso Anita, aos bailes, nem
sempre perto da olaria, o que de grande valor aos interesses dos jovens. Até
nessa altura ela ficara mais ou menos presa aos hábitos de sua gente, apenas
congraçando nos bate-papos do lugar e participando de encontros religiosos.
Dificilmente a gente da roça pode frequentar igreja, exceto quando na cidade
casamentos ou batizados e raramente havendo oportunidade de encontro no campo,
não sendo esporádicos terços ou a festividade junina; já a vida urbana tem
facilidade nas reuniões na maioria católica desse tempo. Nas aproximações a
moça de olho e de coração esperto. É quando também se põe em dia assuntos,
inclusive o amoroso, as pessoas se interagem. Anita só tendo como empecilho em
tais ajuntamentos a língua da mãe. Maria criticava na filha a tendência do ver
homem em todo lugar; o que um exagero um pouco acertado... De fato seu coração
não perdeu oportunidade, mesmo apenas quando agrilhoada no trabalho oleiro, na
sua rotina. Nas poucas vezes a irem familiares para Volta Grande viu ela com
alegria de jovem casadoira a gente, ficando apenas desgastada constrangida pelo
ver da genitora a criticar o que achava que a filha via. Via sim muitos jovens
numa relação mais de acaso que duma duração efetiva.
Enquanto nas horas oportunas e ao acaso
vivendo sua rotina de trabalho na cozinha e na olaria, Anita tendia a esquecer
Dico, sobretudo Dico. Aí foi colhida pela torrente do viver. Numa visita
familiar a uma comadre da mãe, madrinha da irmã mais nova, isso na colônia da
fazenda onde até poderia encontrar e não encontrou o ex-namorado, sua vista flagrou
um belo exemplar macho em visita aos fazendeiros, ele também rico e
provavelmente estudante da capital ali em férias. Seu ser foi como que
chocalhado e assim disparou seu sonho. Entretanto tinha ali início um
pesadelo...
Dois ou três dias após aventurou-se sob
qualquer pretexto tornar à comadre; todavia sequer chegou à residência da comadre
Benedita, aceitou os acenos do rapaz estranho e quase estrangeiro por branco e
do mundo dos ricos.
Não poderia nisso garantir haver
sucumbido a um amor porém sucumbiu por cair seduzida no cafezal onde se encontraram;
ali cedeu, não sendo propriamente estuprada como a gente aprecia dizer, no
entanto sequer fora enganada: mais se forçou a se enganar.
O comum aconteceu como mil vezes já o
mundo registra. Nem precisou ‘enganar’ a família escondendo haver ido procurar
encrenca pois logo os genitores, mais a mãe, não se enganando. Caso enganasse,
a gravidez não permitiria tergiversações.
Assim mais um estudante tornou das
férias à rotina sem alterar a rotina da sociedade. E uma jovem morena tornou-se
mãe mais cedo e sem as bênçãos do matrimônio e da igreja. Entretanto não foi
fácil para Anita enfrentar e entrar no mundo da responsabilidade e dos
compromissos na luta pela prole; ela teria mais alguns filhos, não ficaria somente
nesse rebento sem pai, o Pedrinho; curiosamente batizado com o nome do mais
tímido dos seus apaixonados, o qual nem se poderia afirmar conquistador.
Descoberta a primeira gravidez,
desenrolaram-se fatos doídos no lar. Em geral os pais na época expulsavam de
casa a filha desonrada ou castigavam mais levemente a infratora. E/ou tentavam
acertar a mira no conquistador fujão; no caso mui poderoso e inatingível por
rico e longe das garras do pai da moça, ex-moça no falar do homem comum. Enfim
tabus desse tempo. Por essa causa Anita teve contra si mil ralhações e
participou de muita discussão no lar; pela hipervalorização da opinião da
sociedade, que picha uma pobre mulher, diminuída em razão pôr um novo serzinho
no planeta. Nisto entrando a crítica fácil de comadres vizinhos e parentes,
todos sequiosos de assunto apimentado. Resumindo, parece que Anita sujara a
honra da família, isto o pensar do tempo nesse tempo; por isso os primeiros
anos após foram o inferno. No entanto felizmente houve ajuste logo: João depois
e Maria antes, se apegaram ao neto Pedrinho.
Posteriormente Anita já Ana segura e
resolvida, talvez não amadurecida e que será amadurecer! posteriomente teve ao
longo dos anos novas concepções novos namorados, quase ‘namorados’ conforme o
dizer dos tempos de agora; e portanto novos filhos. Alguns o mundo sacrificou,
uns enterrados outros cresceram sumiram. Nunca, embora, se casaria segundo os
ritos oficiais. Uma só e única e última vez conseguiu viver mais de ano com um
homem, um senhor idoso e doente, numa espécie de ajuntamento. Desde teve um
filho apenas; além de poder requerer benefício numa pensão como viúva. Então já
nem era Ana, virara Donana, um pouco encarquilhando.
Apesar dessas atribulações e de haver se
mudado muitas vezes – quase sempre viveu na olaria do Italiano, este já
falecido, ou viveu ela nas imediações da olaria. Parecendo inclusive estar
ligada como que ao cordão umbelical dessa pequena indústria, agora extinta e em
escombros.
Donana
ali hoje vê o monstrengo dessa ruína, desde sua casa. E pensa e lembra,
rememorando Ana e Anita...
Foi assombrada que Donana se pegou a
falar sozinha, sozinha estando não no ganhar o pão lavando no tanque de roupa,
mas na cozinha pobre como toda moradia. Da janela via vendo o monturo em que se
transformara o forno da olaria. Não se conteve a velha, deixou a janela a
cebola de chorar a faca de ponta e outros talheres ainda sujos mal usados –
saiu entrar na memória e... não, antes voltou ver se não esquecera o fogo
ligado, a gente idosa nunca mais confia na memória; e não: mero engano o fogão
apagado e aí, aí sim, vai de encontro àquilo que são os restos do coração duma
olaria no seu tempo, tempo de Anita.
Achegou-se já no meio dia – sequer
lembrando nesse esquecimento ser horário de almoço, o almoço atrasado e sua
gente logo chegaria comer falar comendo correndo para ainda correndo tornar ao
compromisso, aquele Tonho não engrenava não parava não parava sequer com
namorada e a namorada ameaçando vir às custas da avó do emprenhador curtir sua
gravidez – o sol aquecia o escombro que um dia, ah há quantos anos! um dia
queimavam tijolos e se vendia tijolos ao ganha-pão dos seus (aí enumerou sem
ajuda dos dedos das mãos a parentela e mais os seus amores, por vezes sacrificados).
O sol a pino incidia nos cacos e nos
poucos tijolos inteiros na claridade a deixar sulcos ensombrecidos e dali da
sombra subiu uma lagartixa, quem sabe em sonho de lagarto ou mesmo de
dinossauro; olhou curiosa aquela velha a olhar também, também sorriu Donana e
logo fechou a cara, pois vai (pensou) vai que tenha baratas aranhas cobras
nessa mataria. Tocou um dos cacos, como a sentir-se no sentir ao choque da
lembrança com o concreto; cheirou quase cheirou. Ia dali donde se encontrava
dezenas em anos bem contados a sua vida moça; e moça estouvada, se picou e a
lembrar num relance fugidio os seus netos as filhas mais ou menos irresponsáveis
e então lembrou o mais irresponsável, aquele Tonho arranjador de problemas mas
isto num lance do relance em átimo apressado para voltar a si mesma, já não sendo
mais Donana. Anita engravidara duas vezes e a família não aceitara o que
chamando abuso; mui se desentenderam, até que deixou a olaria do Italiano e sua
família.
A partir de rusgas com tendência a
descontrole e rompimento esteve ao deus-dará, ora com um companheiro ora com
outro ora até sozinha, nunca só visto a sua prole numerosa pois que povoara bem
o planeta. Reviu cada uma das relações amorosas, sofreu de novo gravidez e
desaparecimento dos rebentos; reviu ainda outros dramas quais discussões e até
violências maiores, como encrenca na lei e visita à polícia, uma vez queriam
encarcerá-la. Enfim sofreu tudo isso de novo, porque recordar é sofrer outra
vez o mesmo sofrimento, teimoso em sumir de vez duma existência cansada.
Se fixando, reviu Anita no forno pujante
cheio lotado até em cima com tijolos rosados e quentíssimos. Certo domingo ao
descanso, todos sabem disso, disso não se apercebendo o Italiano a convocar
todo mundo a postos pra desenfornar os tijolos quentes ainda, a aproveitar
venda fácil e preço bom, inclusive o Chevrolet quebrador dera descanso à oficina.
Aí tocou mesmo à Maria dar mãozinha; e ela, Anita, então suou se sujou se
empoeirou a encher os carrinhos com o material para ir à carroceria do
caminhão. Isto não saindo da cabeça por um acidente: tomou macetada no indicador,
por dois tijolos que se enfrentavam a rasgar carnes do dedinho da menina!
Chorou sim, parou sua participação no trabalho extra. Ah, lembrava também que o
patrão não lhe pagara o serviço; talvez houvesse pago ao pai, xará do Italiano.
Ela não viu a cor do dinheiro.
Prosseguiu no pensar, ali encostado
daquele representante de sua velha olaria, agora ele também a morrer se desfazendo
e a cheirar sepultura; prosseguiu a reviver seu tempo de moça espevitada e
depois o tempo de uma Ana lutadora para sobreviver sem João sem Maria, ele
primeiro depois sua viúva, disseram à filha haverem falecido enquanto ela
corria mundo, oh o mundo, ora atrás dos seus homens ora eles atrás dela e ainda
problemas maiores como perseguição dalguns companheiros mais violentos e
vingativos, um chegara ao crime ostensivo. Aproveitou a chorar os filhos
desaparecidos; ih, perdia a conta quantos...
Até chegar ser a moradora do Parque das
Cabreúvas, agora... Agora lembrou-se da refeição da sua gente.
Gostava dos seus, apesar dos pesares.
Entrou em casa, parara, forçadamente é verdade, parara retida por dona Rica,
uma vizinha pobre da rua debaixo. Um pouco do tipo especula a mulher também
velha. Não pôde livrar-se de narrar igualmente seus achaques diante da falação
da vizinha. Não obstante não achava jeito encerrar a prosa, lembrando aflita precisar
ainda fazer tudo, sequer iniciara a comida – e a mulherinha não largava. Tem
gente que não desconfia dos problemas de outrem e espicha espicha espicha
detalha pormenoriza suas coisinhas, adentra no falar mal bem intencionada se
supõe – e Donana querendo anteriormente fugir da beleza de Anita e da vida
encrencada e de lutas quase inglórias de Ana; pensando na chegada do neto, das
filhas, ela mesma perdera já a fome diante o discurso inacabável inacabado da
senhora. Até que enfim a intimou parar:
“Dona Rica!” disse e completou o “não
cortando sua conversa...” cortou, fez rápidas recomendações aos dela, dela
mesma não os da outra – assim partiu rápido com a rapidez permitida a uma idosa
doente... De fato sentia um peso por dentro, o coração nesse dia já cedinho
disparara depois lentara depois ainda experimentou como que certa tendência e
iminência a vertigem; nada que uma pessoa tomada por anos muitos não saiba. Por
final adentrou o lar, nem um pouco doce lar, ia à cozinha reencetar serviço o
mais depressa possível, realmente iniciar a comida, porém preferiu ir à cama
descansar antes um pouco. De quê! seria da aflição em que ouvira a vizinha?
Enfim deitou-se, pensou até engolir
algum comprimido tomar algum chá, se encolheu, se ajeitou e teve daí uma sensação
estranha mas boa de relaxamento e mais que isso: a ansiedade que sentira antes
de tornar à casa passara. Experimentou um alívio.
Nessa altura tomou coragem e se levantou.
Ainda se espreguiçava, como sempre fizera manhãzinha ao se erguer para o dia.
Nisso ouviu a chegada do seu povo. O primeiro a adentrar a residência pobre foi
o Tonho, os outros e mais bem dito as outras atrás dele, até a namorada
barriguda com as outras mulheres numa conversa banal. Foi quando o neto examinando
aquele corpo velho embodocado gritou, choroso – “a vó está dura! acho que a vó
morreu!!” Os outros penetraram assustados o recinto em alarde e dúvidas e
lágrimas e gritos e consternação. Até Donana ali ao pé de si mesma se espantou
com esse espanto.
Marília outubro 2013
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