terça-feira, 13 de agosto de 2019

João Ninguém


 João Ninguém

1° - Terceira Noite do Primeiro Dia
Prelúdio Preâmbulo Pretudo Prenada de um engano literário
João. Não dito sujeito perfeito nasceu nos conformes. Não consta não se conta a conta da mãe. Suposto seios, seios fortes fartos frouxos fracos secos. Mamadeiras leites caldinhos papinhas papinho, crescidinho; crescido trabalho dobrado diz ditado do povo linguarudo nas esquinas da vida na existência em vida e daí os dramas da vida: estudo desejo amor sonho pesadelo emprego desemprego seguro-desemprego desespero novo emprego, de mais de menos, cansado esgotado aposentado. Nem se pense já pensando embora na segunda noite o dia de andar desandar andando por aí, a fala mole conversa-fiada os amigos ou desconhecidos-conhecidos e à noite – a noite não inventada a dormir! não dormindo dormiu sua insônia, ah nem queria alembrar, alegar alentar alegrar mui menos nesse mais cansativo por negativo sem aprender e apreender o em torno. Até amanhã. Não, não se despedindo, vai um cafezinho? Café pede fumo, fuma, fumo pede café, o café de despertar a gente. Pra gente sofrer o terceiro dia da noite doente (a noite sã, a gente não:) doente na velhice e no desgaste idoso. Queixa lamento leito descanso; descanso? não tem descanso tem remédios febres recuperação, sem recuperação “não tem remédio!”; o médico a atendente PA pronto-atendimento agora, antes era PS pronto-socorro ah que saudade saudosista do sofrer de antigamente; médico clínico cínico, a atendente ao menos bonita ou mais ao menos ainda assim simpática o doutor não – candidato ao curso de carrasco real, aí ai ai ai como doeu! clínico geral, o especialista; a lista... mais dia menos dia a lista dos convidados à festa; festa fúnebre flores café ah o café presente aos presentes à festa, em conversa, negócios, reviver no encontro reencontro desencontro, encontra-se no centro: chorou a viúva os filhos os parentes os amigos... eles “ah parece que está dormindo...” Dorme em berço esplêndido a pátria amada idolatrada salve salve sem vida na existência – ninguém. Ninguém.

2° - Primeira Noite
Até bem primeira mas não bem noite; a questão em certos dias de chumbo, o cinzento não permitindo saber se dia se noite, chuvinha chuvisco chuva a molhar molhar e mais molhar deixando se não a tristeza a firmeza a desejar. Enfim foi quando veio ao mundo certa máquina de chorar de fazer xixi de molhar a ninar. Todos, quase todos à espera da cegonha veio a parteira; feia enrugada arcada acabada ranzinza medonha mas lindo o garoto. Opinião dos pais, da mãe com certeza o pai com dúvida. Dona Maria teve paciência em criar aquilo que o cartório registrou como João. Dizer que além da genitora e dos parentes e dos conhecidos, muito além o fisco tenha ele apreciado a noite a morte desconhecendo esse vivo, novo vivo – não é verdadeiro. Verdadeiro só a invenção. Contudo o garoto era faminto, o que base para crescer vicejar, depois construir antes de destruir. Sendo faminto logo secou o pote. Os seios maternos não deram conta do recado e assim se puseram as mamadeiras. Primeiro improvisaram, isto é as comadres que auxiliavam Maria improvisaram uma garrafinha com um bicão de borracha imitando seios; assim se alimentou o menino; só depois compraram mamadeira decente de gente quente demais frio ainda no pensar do enjoado. O leite também foi escolhido mil vezes escolhido, visto o rapazinho ser chato; chato não: os intestinos o fígado etc. é que eram e assim desandava. Até andar. Caía tentava equilibrava caía chorava acudiam aprendeu. Uma gracinha em passinhos. Aí cresceu no corpo e no saber, um sábio ignorantezinho. Porém e o trabalho! O povão que diz “filho criado trabalho dobrado” e deve ter razão porque a voz do povo não é a voz de Deus? Mesmo assim considerar era o menino moleque: só andava perdido na rua a blasfemar, que é uma de xingação educada. Além da boca a boca do povo – olhe o povo de novo! – e ela, criteriosa como sempre e se apegando à verdade mentia que o pobre atirava pedras nas janelas vizinhas e na vidraça da igreja, o pároco já nervoso (era neurótico por definição). Mamãe cansou ouvir reclamações e sugestões pelas agressões do pimpolho. Nessa altura só ela a escutar insultos, o pai dera no pé ao bar ou a fugir com duas de vinte. A pobre senhora não aguentando envelheceu prematuramente; ou a justificar a escolha das de vinte. É nessa altura que João se torna adolescente e imediato adulto.

3° - Adolesce Amadurece sem Perceber
Sombrinha aberta tristeza desperta caminhada incerta na chuva certa certa moça não moça mais mas moça ainda, passada embora, caminha. Ele... ele? o João Adolescente ora (sequer reza, não confundir) ora bolas, vai atrás. Persegue? ora bolas de novo, que é que a gente tem com isso! Lances do amor. Contudo sequer tem coragem abordá-la, estando par a par, em enfrentá-la. Dirá mais tarde aos amigos, que são os conhecidos desconhecidos mais chegados, dirá teimando em pés firmes haver conquistado a feminha que estigma femeão, em pô-la aos seus pés e os ouvidos e os olhos amigos que nada viram ou creem ou aceitam ou se calam em lugar da boca, pois amigo é assim mesmo que se há de fazer. Fará João mil vezes assim amadurecendo e por fim não casa com ninguém, ninguém aqui na época é sempre mulher ao homem homem à mulher e neste caso ficando pra titia; o macho sem espécie vira solteirão; uns melhorando a forma a dizer “solteirão empedernido”. Por fim o herói desta novela fracassada se amarra se amasia com certa mulherinha, não existia o embelezamento das relações com o atual ‘namorado’ nem distorções de hoje em dia: só as distorções da época. Porém tem também o bem do mal – a luta pela sobrevivência. Começara com o estudo em que João Cabeçadura sofreu bastante colou bastante passou pouco de ano, de série, e por final com ajudazinha do conselho de professores se formou  colou, agora grau, pôs o diploma de vaidoso enfeite na sala num quadro ao lado da fotografia, daquelas ovais de antigamente, a foto do pai e da mãe nas bênçãos do padre, isto embora não tenha sequer conhecido o genitor fugido, ele nenê ainda, ao bar da mãe ou com duas outras de vinte da mãe dele. Estava portanto pronto ao mercado de trabalho, um que extravasava de tanta concorrência. Em suma adquiriu experiência vasta colecionando pedidos de emprego (hoje tem o famigerado curriculum vitae) colecionou horas de experiência nas empresas e mais colecionou demissões; se esperasse, mas impaciente, algumas dezenas de anos não chegando a centena teria a si coleção de seguro-desemprego. Até que velhinho, não tão velhão velho aos jovens de então, até que enfim teve direito a recolher aqui acolá retalhos de tempo de serviço e se aposentou; nisto despendeu desperdiçou desembestou dinheiro a ‘escrupulosos’ advogados; aguardou menos de século apenas dezenas de anos e se aposentou. Aí fez milagres... Estas linhas se esqueceram dizer que o personagem da novela era santo daí os milagres, os milagres de com um salário mínimo se sustentar e à companheira e aos filhos que ela trouxe de consórcios por aí e unzinho atribuído a João se não por ele por ela. Ainda tendo diário a casa cheia dos parentes dela a comer, sobretudo a sogra, para ele ficar cheio. Se era muita gente a sustentar e se muita a despesa? era. Ora, e os milagres prometidos! De forma que podemos de sã consciência encerrarar o capítulo com a afirmativa nada vã de que ninguém morreu de fome na sua casa. Exceto o João.

4° - Terceiro Dia da Primeira Noite Conclusio
Ninguém. Ninguém a pensar nisso, não obstante andava velho; quer dizer não andava, ‘bengalava’ em saudáveis e sonantes ais. Assim não começa, prossegue indo em via-sacra aos institutos preparatórios – agora não a ser doutor e pôr senhor vaidoso diploma com valor, valor de certificado comprado aguardado posto à visita na sala junto com os ovais mostrando à posteridade o doutorado e os pais casados – se ‘sacrilegia’ indo a todas instituições (inclusive às de caridade induzido pela aposentadoria com mínimo em salário) a todas mesmo, mesmo que não atendido, visto a concorrência aposentada e as frequentes greves dos clínicos cínicos: do posto mais próximo até ao hospital mais distante; o hospício ficando mais longe ainda. Farmácias e curandeiros ‘virge’! experimentou de tudo nas andanças por estarem doentes, ele e o bolso ou a carteira. No entanto não sarou. Experimentou numa das noites após a primeira noite do terceiro dia e subsequentes noites dos dias a insônia. Insônia é ótima se não conselheira (nem sendo bons conselheiros os carneiros certeiros contados) ao menos lembradeira. Lembrava-se do que fizera no terceiro dia e nos outros dias os quais quase não foram dias na sua cinzenta noite em claro; lembrava-se apenas para se lembrar ou para conquistar o prêmio em ser chato. O que coisa alguma resolvendo: nem para enganar a insônia e dormir nem para tapear a dor. Sofria horrores, horrores engolia de comprimidos cápsulas drágeas ou para variar comprando ou ganhando como amostra grátis os medicamentos em forma de líquido, que derrama sim um pouco e suja o chão pra gente ouvir admoestação e lamentação e falação da companheira esposa amásia ou qualquer, não poderia da namorada porque na época namorada era apenas aquela prometida pelo futuro sogro passado depois pelo padre às vezes pelo cartório: não era o caso. Assim mesmo a mulher falava pegava pé do pobre e dando briga; não demais, o herói enfraquecendo fraco e quase pé na cova e isso trazendo pena na pena que a companheira tinha. Contudo morreu. O resto a gente já sabe do preâmbulo prelúdio pretudo prenada, nada ficando não sobrando pedra sobre pedra, pedra só do túmulo. No velório conversa invenção café, vai um cafezinho aí? Defunto não bebe; nem os que bebem, bebuns, tomam. Uma festa fúnebre de segunda categoria. A viúva as crianças choraram e mais ninguém. A quem? João.
Marília   março  2011



         



           

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