João Ninguém
1° - Terceira Noite do Primeiro Dia
Prelúdio Preâmbulo Pretudo Prenada de um engano
literário
João. Não dito sujeito perfeito nasceu nos
conformes. Não consta não se conta a conta da mãe. Suposto seios, seios fortes
fartos frouxos fracos secos. Mamadeiras leites caldinhos papinhas papinho,
crescidinho; crescido trabalho dobrado diz ditado do povo linguarudo nas
esquinas da vida na existência em vida e daí os dramas da vida: estudo desejo
amor sonho pesadelo emprego desemprego seguro-desemprego desespero novo
emprego, de mais de menos, cansado esgotado aposentado. Nem se pense já pensando
embora na segunda noite o dia de andar desandar andando por aí, a fala mole
conversa-fiada os amigos ou desconhecidos-conhecidos e à noite – a noite não
inventada a dormir! não dormindo dormiu sua insônia, ah nem queria alembrar,
alegar alentar alegrar mui menos nesse mais cansativo por negativo sem aprender
e apreender o em torno. Até amanhã. Não, não se despedindo, vai um cafezinho?
Café pede fumo, fuma, fumo pede café, o café de despertar a gente. Pra gente
sofrer o terceiro dia da noite doente (a noite sã, a gente não:) doente na
velhice e no desgaste idoso. Queixa lamento leito descanso; descanso? não tem
descanso tem remédios febres recuperação, sem recuperação “não tem remédio!”; o
médico a atendente PA pronto-atendimento agora, antes era PS pronto-socorro ah
que saudade saudosista do sofrer de antigamente; médico clínico cínico, a
atendente ao menos bonita ou mais ao menos ainda assim simpática o doutor não –
candidato ao curso de carrasco real, aí ai ai ai como doeu! clínico geral, o
especialista; a lista... mais dia menos dia a lista dos convidados à festa;
festa fúnebre flores café ah o café presente aos presentes à festa, em
conversa, negócios, reviver no encontro reencontro desencontro, encontra-se no
centro: chorou a viúva os filhos os parentes os amigos... eles “ah parece que
está dormindo...” Dorme em berço esplêndido a pátria amada idolatrada salve
salve sem vida na existência – ninguém. Ninguém.
2° - Primeira Noite
Até bem primeira mas não bem noite; a questão em
certos dias de chumbo, o cinzento não permitindo saber se dia se noite,
chuvinha chuvisco chuva a molhar molhar e mais molhar deixando se não a
tristeza a firmeza a desejar. Enfim foi quando veio ao mundo certa máquina de
chorar de fazer xixi de molhar a ninar. Todos, quase todos à espera da cegonha
veio a parteira; feia enrugada arcada acabada ranzinza medonha mas lindo o
garoto. Opinião dos pais, da mãe com certeza o pai com dúvida. Dona Maria teve
paciência em criar aquilo que o cartório registrou como João. Dizer que além da
genitora e dos parentes e dos conhecidos, muito além o fisco tenha ele
apreciado a noite a morte desconhecendo esse vivo, novo vivo – não é
verdadeiro. Verdadeiro só a invenção. Contudo o garoto era faminto, o que base
para crescer vicejar, depois construir antes de destruir. Sendo faminto logo
secou o pote. Os seios maternos não deram conta do recado e assim se puseram as
mamadeiras. Primeiro improvisaram, isto é as comadres que auxiliavam Maria
improvisaram uma garrafinha com um bicão de borracha imitando seios; assim se
alimentou o menino; só depois compraram mamadeira decente de gente quente
demais frio ainda no pensar do enjoado. O leite também foi escolhido mil vezes
escolhido, visto o rapazinho ser chato; chato não: os intestinos o fígado etc.
é que eram e assim desandava. Até andar. Caía tentava equilibrava caía chorava
acudiam aprendeu. Uma gracinha em passinhos. Aí cresceu no corpo e no saber, um
sábio ignorantezinho. Porém e o trabalho! O povão que diz “filho criado trabalho
dobrado” e deve ter razão porque a voz do povo não é a voz de Deus? Mesmo assim
considerar era o menino moleque: só andava perdido na rua a blasfemar, que é
uma de xingação educada. Além da boca a boca do povo – olhe o povo de novo! – e
ela, criteriosa como sempre e se apegando à verdade mentia que o pobre atirava
pedras nas janelas vizinhas e na vidraça da igreja, o pároco já nervoso (era
neurótico por definição). Mamãe cansou ouvir reclamações e sugestões pelas
agressões do pimpolho. Nessa altura só ela a escutar insultos, o pai dera no pé
ao bar ou a fugir com duas de vinte. A pobre senhora não aguentando envelheceu
prematuramente; ou a justificar a escolha das de vinte. É nessa altura que João
se torna adolescente e imediato adulto.
3° - Adolesce Amadurece sem Perceber
Sombrinha aberta tristeza desperta caminhada
incerta na chuva certa certa moça não moça mais mas moça ainda, passada embora,
caminha. Ele... ele? o João Adolescente ora (sequer reza, não confundir) ora
bolas, vai atrás. Persegue? ora bolas de novo, que é que a gente tem com isso!
Lances do amor. Contudo sequer tem coragem abordá-la, estando par a par, em
enfrentá-la. Dirá mais tarde aos amigos, que são os conhecidos desconhecidos
mais chegados, dirá teimando em pés firmes haver conquistado a feminha que
estigma femeão, em pô-la aos seus pés e os ouvidos e os olhos amigos que nada
viram ou creem ou aceitam ou se calam em lugar da boca, pois amigo é assim
mesmo que se há de fazer. Fará João mil vezes assim amadurecendo e por fim não
casa com ninguém, ninguém aqui na época é sempre mulher ao homem homem à mulher
e neste caso ficando pra titia; o macho sem espécie vira solteirão; uns
melhorando a forma a dizer “solteirão empedernido”. Por fim o herói desta
novela fracassada se amarra se amasia com certa mulherinha, não existia o
embelezamento das relações com o atual ‘namorado’ nem distorções de hoje em
dia: só as distorções da época. Porém tem também o bem do mal – a luta pela sobrevivência.
Começara com o estudo em que João Cabeçadura sofreu bastante colou bastante passou
pouco de ano, de série, e por final com ajudazinha do conselho de professores
se formou colou, agora grau, pôs o
diploma de vaidoso enfeite na sala num quadro ao lado da fotografia, daquelas
ovais de antigamente, a foto do pai e da mãe nas bênçãos do padre, isto embora
não tenha sequer conhecido o genitor fugido, ele nenê ainda, ao bar da mãe ou
com duas outras de vinte da mãe dele. Estava portanto pronto ao mercado de
trabalho, um que extravasava de tanta concorrência. Em suma adquiriu
experiência vasta colecionando pedidos de emprego (hoje tem o famigerado curriculum vitae) colecionou horas de
experiência nas empresas e mais colecionou demissões; se esperasse, mas
impaciente, algumas dezenas de anos não chegando a centena teria a si coleção
de seguro-desemprego. Até que velhinho, não tão velhão velho aos jovens de
então, até que enfim teve direito a recolher aqui acolá retalhos de tempo de
serviço e se aposentou; nisto despendeu desperdiçou desembestou dinheiro a
‘escrupulosos’ advogados; aguardou menos de século apenas dezenas de anos e se
aposentou. Aí fez milagres... Estas linhas se esqueceram dizer que o personagem
da novela era santo daí os milagres, os milagres de com um salário mínimo se
sustentar e à companheira e aos filhos que ela trouxe de consórcios por aí e
unzinho atribuído a João se não por ele por ela. Ainda tendo diário a casa
cheia dos parentes dela a comer, sobretudo a sogra, para ele ficar cheio. Se
era muita gente a sustentar e se muita a despesa? era. Ora, e os milagres
prometidos! De forma que podemos de sã consciência encerrarar o capítulo com a
afirmativa nada vã de que ninguém morreu de fome na sua casa. Exceto o João.
4° - Terceiro Dia da Primeira Noite Conclusio
Ninguém. Ninguém a pensar nisso, não obstante
andava velho; quer dizer não andava, ‘bengalava’ em saudáveis e sonantes ais.
Assim não começa, prossegue indo em via-sacra aos institutos preparatórios –
agora não a ser doutor e pôr senhor vaidoso diploma com valor, valor de
certificado comprado aguardado posto à visita na sala junto com os ovais mostrando
à posteridade o doutorado e os pais casados – se ‘sacrilegia’ indo a todas
instituições (inclusive às de caridade induzido pela aposentadoria com mínimo
em salário) a todas mesmo, mesmo que não atendido, visto a concorrência aposentada
e as frequentes greves dos clínicos cínicos: do posto mais próximo até ao
hospital mais distante; o hospício ficando mais longe ainda. Farmácias e curandeiros
‘virge’! experimentou de tudo nas andanças por estarem doentes, ele e o bolso
ou a carteira. No entanto não sarou. Experimentou numa das noites após a
primeira noite do terceiro dia e subsequentes noites dos dias a insônia.
Insônia é ótima se não conselheira (nem sendo bons conselheiros os carneiros
certeiros contados) ao menos lembradeira. Lembrava-se do que fizera no terceiro
dia e nos outros dias os quais quase não foram dias na sua cinzenta noite em
claro; lembrava-se apenas para se lembrar ou para conquistar o prêmio em ser
chato. O que coisa alguma resolvendo: nem para enganar a insônia e dormir nem
para tapear a dor. Sofria horrores, horrores engolia de comprimidos cápsulas drágeas
ou para variar comprando ou ganhando como amostra grátis os medicamentos em
forma de líquido, que derrama sim um pouco e suja o chão pra gente ouvir admoestação
e lamentação e falação da companheira esposa amásia ou qualquer, não poderia da
namorada porque na época namorada era apenas aquela prometida pelo futuro sogro
passado depois pelo padre às vezes pelo cartório: não era o caso. Assim mesmo a
mulher falava pegava pé do pobre e dando briga; não demais, o herói
enfraquecendo fraco e quase pé na cova e isso trazendo pena na pena que a companheira
tinha. Contudo morreu. O resto a gente já sabe do preâmbulo prelúdio pretudo
prenada, nada ficando não sobrando pedra sobre pedra, pedra só do túmulo. No
velório conversa invenção café, vai um cafezinho aí? Defunto não bebe; nem os
que bebem, bebuns, tomam. Uma festa fúnebre de segunda categoria. A viúva as
crianças choraram e mais ninguém. A quem? João.
Marília março 2011
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