Menino
Capítulo Primeiro
Era menino. Em criança... menino não é criança!
era, então, um ser em sua fase pueril, de pueris, era nesse tempo em que
não havia tempo: mamãe se descabelava e o podia fazer tendo cabeleira farta e
longos e compridos os fios tal que chegavam ao umbigo; atrás do umbigo pois nas
costas que papai tanto apreciava alisar, quando não bêbado neste estado
precisando cuidados como os dispensados a menino, claríssimo sem precisar
trocar as fraldas igual o filhinho mas fazendo assim mesmo xixi, fora o suor em
bica a escorrer em limo pelo corpo amolentado; molhando em suma o lençol, o
colchão embaixo do lençol, a cama embaixo do colchão com seus líquidos
amoniacais; isto quando não defecando sólido em sujidades à coitada limpar
depois, antes esparramando curtindo a bebedeira, enquanto... enquanto isso a
pobre senhora ainda tratando o primogênito, que felizmente permaneceu primogênito
e único, mesmo porque papai, papai tão carinhoso sóbrio, embriagado se
desconectava com a família e com o mundo; esse papai sumiu logo, não por andar
de bar em bar e quem sabe atrás doutras saias; enfim sumiu; sumiu e assim a
possibilidade em continuar a série acabou, fechou a fábrica em falência
aparente e portanto o menino permaneceu mesmo filho único, visto mamãe ser
proba pura prendada pacífica parada, contrária se dar a outros possíveis pês
pesteados pelo povo, o qual não tolera imoralidades (na mulher, e sim no homem
o homem podendo deslizar e ficando apesar disso santo enquanto durando).
Assim o menino pode espernear à vontade. Naquele
momento.
E não é uma gracinha o bebê com pernas no alto as
mãos soltas sem saber onde pô-las e até no chorinho mansinho gordinho e
magricelinho menino nesse estágio, vivendo o nada saber e saber querer o tudo.
O tudo é o pouco a uma criança; de maneira que mamãe tendo que apelar ao sexto
sentido ao sentimento profundo a sentir melhor e compreender também melhor as
necessidades do filho senão seus desejos. Curiosamente adivinha tudo ela, ela
tudo sabe. E faz.
Enquanto mamãe nessa belíssima e angélica atividade
papai fala desconexos mijado mijando no lençol e se, de pé, isto poder-se-ia
traduzir para sóbrio e íntegro e harmônico e com verbo – que faria em lugar
dela a ele! desajeitado a conseguir ao menos trocar panos igualmente urinado
com aquela torneirinha que é uma gracinha? Nada. Todavia não precisando o
‘nada’, porque está de porre, imóvel a babar, miserável.
Enquanto, mamãe desentuba o filho, desenrola os panos
em canudo, as fêmeas em prol das feminhas e dos machinhos promissores ainda
nenês enfaixavam a cria, algumas apertavam qual linguiça espremida socada entre
tecidos por cima. Por baixo a grita a ansiedade o mal-estar da cria, então o menino
no caso não podendo espernear, esperneando apenas na alegria da liberdade
quando mamãe removendo suas melecas e a água fétida a exalar-se por todo quarto
onde a tortura e ato imediato a liberdade enquanto dure das pernas soltas ao
ar; e também ato contínuo a perfumaria do talco e do pó de arroz em moda na
época, a semelhante exalar, agora pra melhor, no ambiente.
Aí mamãe: ah que gracinha!
Menino é uma gracinha. E vêm vovó vovô titio titia
comadre vizinha, tudo no plural porque dificilmente se faz adoração no singular
a um tipo tão singular quanto menino – todos querem ver menino trocado perfumado
no corpo e no pano, bonitinho. Todos sem exceção a confirmar “não é uma gracinha!”
Nesse ponto pacífico ao mundo enquanto o mundo
durar, nesse aparecem as indefectíveis comparações: o narizinho de vovô a
linguinha de vovó os olhinhos da mamãe a feiçãozinha de... ah cada um a puxar a
sardinha para sua brasa, a brasa de seu próprio sangue azul (naquele tempo
ainda azul, hoje é vermelho diz o hemocentro). Esquecem papai! não os parente
do genitor veem de tudo do pai no filho e os maternos têm que admitir nem que
seja o único traço paterno o pipi do nenê, uma gracinha, aqui em repetição
porque gente repete tudo até o repetir e inclusive apenas guarda o próprio nome
não por causa do registro no cartório ou no batismo mas pelo repetir e repetir
do seu santo apelido pelos circunstantes.
E não é uma gracinha!
Agora dorme em berço esplêndido. A calma da pureza.
Não importa que noutra encarnação possa ter sido um feroz arruaceiro um ditador
estraçalhador de vidas nem sempre inocentes. Inocente agora, agora dorme um
santo!
Depois? crescerá exigirá falará para mais exigir,
balançará o berço violentamente e quebra-lo-á nas guardas quem sabe ou apenas
pulará a cerca (em adulto especializar-se-á decerto no mister) a cerca do
bercinho, cairá barulhando o ambiente com choros esfolados cuidados etc. e tal.
Tal o menino.
Nesta altura papai já deu no pé e esta é a
expressão adequada porque o pai é chulo popular e tem linguagem coloquial enriquecida
na pobreza da gíria de botequim, tem-na inclusive para se julgar; porém este é
o julgamento de mamãe.
Mamãe de agora em diante mamãe, é claro, e também
papai a criar a cria.
A cria cresce cai cuida, quem cuida a coitada de
fato; o pai sumiu.
Capítulo Segundo
Agora ele, o pai sumindo sumindo e após sumiu! não,
o menino, o menino grande pulou a adolescência mas não quis virar imediato caco
de fraldinha e em pesar nos circunstantes, aquele negócio do “que pena do
velhinho” coitadinho chazinho aizinho uizinho e chorinhos no pré-velório com
corre-corre no hospital essas coisas – não quis ou ainda não havendo ter que
viver essa morte; e se ainda não ‘quis’ ser idoso é portanto adulto, adulto
adultera as coisas do ser... Encontra-se no ringue.
Menino tornou-se lutador? ganhou prêmios medalhas
foi ovacionado e tem holofotes de televisão a focalizá-lo! Alguém no público,
precisa ter público ou a luta emburra embirra teima e não existe, existe alguém
sem público!? alguém no público aplaude e grita seu santo nome em homenagem ao
anjo da vaidade; menino então se estufa orgulhoso e já se imagina o herói ou
semideus ou mesmo deus eterno, enquanto dure. Dura pouco o instante desse
segundo, segundo os olhos que o veem – pois está diante do terrível adversário,
mais que contrário: inimigo, e por que não figadal! isso mesmo, fi-ga-dal.
Porém o opositor, opositor-lutador, ele um gigante, a mostrar cara de
mastodonte musculatura de amedrontar enfim vestido ou nu um macaco mais que
macaco gorila, ele é um gigante. Em rigor não mais que gigantinho, quase um gigante
de papel ¿pois não têm os tigres
de papel ou dragões de papel sem quaisquer valores aos chineses quando os
chineses eram comunistas matadores de criancinhas e velhinhas no seu terrorismo
maoista e assim criticando os inimigos como sendo simulacros de papel e olhando
distorcido o ocidente capitalista e/ou consumista? O gigantinho em força é de papel ao menino.
Isto porque é ele o gigante, enorme, desproporcionalmente quiçá
astronomicamente forte e grande na compleição e no poder. Menino é um gigantão
estratosférico diante não só do universo mas em particular daquele universinho
que é a quadra do ringue. O povo aplaude o confronto. Ou humilhação na cena que
assiste empolgado dum pobre gigantinho contra o poderoso menino, guardião dos
fracos e oprimidos (aqui entram famintos desempregados injustiçados maridos que
apanharam ou só correram da esposa; e mil e um devedores do governo aquele
ladrão; nenhum devedor em sua consciência justa não obstante insatisfeita).
Agora o inimigo muda de posição, estava pra lá,
decerto pensando massacrar menino com um potente murro certeiro a nocauteá-lo –
o oponente se moveu mexeu, ele por isso teve de mexer também os seus pauzinhos
dentro da mente e mente e trapaça virando ao outro lado, contrário a menino.
Irá pegá-lo abraçá-lo apertá-lo no mau sentido mal sentindo as dores possíveis
do adversário; enrolá-lo derrubá-lo, sofrer em alegrias a derrota do outro e
receber os louros da vitória nesse embate, receber o aplauso da plateia e... aí
menino investe: pega o gigante de papel desprevenido então a sonhar com luta fácil
dessa do tipo que se diz já antecipadamente ganha. Nisso vira o menino gigante
primeiro para a seguir tornar-se gigantão, que é um hipergigante um gigante sem
tamanho por grande forte macho como nos tempos antigos pra valer; enfim hiperbolicamente
grande! Daí toma o adversário, desfecha nele uma de direita outra de esquerda
alternando socos, soca mil vezes; deixa o oponente caco trapo pouco, nada. É
tudo, isso é tudo apreciam afirmar os mandantes no hemisfério desenvolvido
norte ao sul subedesenvolvido e terceiro-mundista. Pronto!
Pronto, a luta terminou e como só existe de fato um
só vencedor entre partícipes – venceu menino!
Todavia ocorre um desatrezinho, quase imperceptível
se não invisível, visível tão somente ao coração menino. Então ele olha o oponente
– pensava antes xingar, educadamente embora, quem sabe englobar no xingamento a
mãe do sujeito também educadamente porém a ofendê-lo como exige o figurino,
numas questões de relacionamento entre cidadãos quiçá vizinhos amigos ou só conhecidos
ex-amigos ex-íntimos ex-tudo em suma – olha o outro e aquilo e não pode pode só
fazer realmente no pensar, agir apenas dizendo com sufoco na voz “com sua
licença, cavalheiro, devo partir”, recomendações à sua digna esposa.
E segue o caminho da existência.
Capítulo Terceiro
Segue
o caminho de sua existência, ‘sua’ referindo-se à de vovô do menino? à de vovó
à e de titio de titia da comadre e da vizinha muito menos. Não. À de menino.
Mas agora não pensa na vida que leva dentro da vida, pensa no que vê; vê um
casario pobre, só não mais pobre porque tem o alívio em comparação de alguns
casebres miseráveis; e então se pergunta como é que um ser humano admite viver
num tugúrio assim, assim não seria melhor enfrentar nu a fome livre no campo...
ah o dono do campo não permitindo decerto. Olha ‘reolha’ as casas em disputa na
arte do disforme e sem quaisquer preocupações arquitetônicas, a miséria
elevando a pobreza e deixando tão somente o panorama triste, seu ônibus
circular a circular não sabe disso, se preocupando mais com buracos, uns destes
exageram em crateras como resto do chamado tempo das águas e a chuva para volta
vaivém mina o asfalto, ah sim tem o asfalto a dar um toque de civilização porém
o meio é pobre. Balançam, balança também seu lugar com os lugares de outros
passageiros, os passageiros balançam e matracam suas coisas não veem as coisas
que ele vê, não quer e vê, quer, quer sim. Tem uma delas em que os blocos de
cerâmica estão nus como a verdade; tem neles um restante de revestimento a se
despregar das paredes por velho ou semiacabado abandonado e rústico, sem
pintura é claro. Todavia que fazer nisso se o operário fica toda vida a construir
driblando a crise nas sobras das faltas! Fim de semana em bairro de periferia
pobre (tem a rica, se indaga e responde: aquela que se esparrama em volta da
urbe e que é mais pobre ainda por sem nenhuma estrutura e apoio dos poderes
públicos então virando a outra menos pobre como periferia rica; mas sendo
miserável a que aqui se apresenta agora:) na periferia pobre quiçá miserável
nela os moradores batem martelo assentam arrumam despioram na folga do serviço
que se deseja com carteira assinada. Assim fazem o que fazem durante toda uma
vida, melhor dizer aproveitar o desperdício da existência. Dessa forma a casa
cresce e se não se embeleza muda de visual e figura – para continuar pobre feia
e apenas suportável porque os seus precisam teto. Têm os sem-teto. Portanto é
uma saída a viver. Na frente dela, aquela casa vista, têm as latinhas de flor,
tem o cachorro a xingar o coletivo manso embora mas que polui e o povo não
pensa nisso. Têm os meninos, em andrajos! não, alguns até bem vestidos no
entanto sujos porque não se brinca impunemente. Todavia são tantos tantos
meninos que a crise não permite que sejam da mesma casa de janela semiaberta
onde há peças de roupas usadas ou coloridas, as outras enxugam ao sol
dependuradas no exíguo sol aos teimosos raios que a sombra permite desde o
varal de arame a balançar. A algazarra é grande, maior que a de menino se
lembrando menino e gritão a azucrinar mamãe; é tanto assim o barulho que o
barulho da condução não consegue ultrapassar o da gentinha na gentalha ali a
olhar os passantes quase nunca vendo vendo talvez o papagaio lá em cima que a
televisão exige que se fale pipa. Já é um sinal de vida contudo não é vida. Tem
a senhora de cor com semblante triste ou só preocupada ou só realmente
sobrecarregada nas tarefas ou, ainda, vivendo a morte na lembrança. Tem um
fusca cansado empoeirado esperando quem sabe um trato ou o trato mecânico para
andar, parado, ou é que os carros velhos usados estão demais exigentes por
combustível caro em entrevero com rendimentos baixos da família. Não tem muro,
ou existe sim apenas meia cerca de varetas com umas ramagens de verdes trepadeiras
selvagens em disputa com o mato bravo. A casa vai sumindo aos poucos – enquanto
o motor do ônibus não aprecia a curva e a subida e lenta no andar, a gente
dentro conversa se pergunta se pesquisa se fala só pra falar ao menos – e assim
a casa pobre na vila pobre com telhado improvisado de telhas de fibra trincadas
e negras do tempo vai andando para trás ou é o veículo que não obstante
insatisfação do acelerador se pensa com freios presos e sobe chorando lerdo,
lerda lerda entretanto sobe e some de vez a casa, se casa, ou engolida por
outras também sem arte e com pobreza a variar o invariável da paisagem quase
fugaz.
Capítulo Quarto
Agora
uiva, uiva interminavelmente... o menino? ora o menino, o menino vê seu cão, um
vira-lata. A chorar seus uivos em lamentação. Naquela hora não uivando mas em
alegria e também a olhar o amo em agradecimento pela iguaria, iguaria nada mais
que o prosaico arroz com feijão em sobra, visto não haver alguém percebido o
pouso de umas atrevidas moscas ou quaisquer outras sujeiras e aí não tem jeito:
a gente joga fora no terreiro sem galinhas pra correr alvoroçadas em disputa do
prêmio e da oferta não tendo aves tem a iguaria que ser oferecida ao cachorro.
Ele olha sem jeito, educado inclusive, com o garfo a gente tirar até o último
grãozinho e depositar a porção enfim na sua vasilha, a bem dizer uma lata
redonda de goiabada sem doce rebatidas as farpas de metal e assim virando prato
sem talher todavia prenhe de comida. Então avança abocanha o bocado, mastiga
imediato de boca aberta qual porco, ainda olha em soslaio o menino a segurar
com a esquerda o prato meio trincado na louça e com outra o garfo na espreita a
apreciar o feito. O bichão daí vai à segunda à terceira porções a deglutir com
gulodice do tamanho e digna da fome a fome que tem de um dia, porém não o faz a
atacar o arroz lustroso e o feijão cheiroso temperado no caldo a escorrer na
lata; menos interessando primeiro umas fitas magricelas de couve afogada (ora,
por que seria afogada! têm certas coisas que a gente morre de velha e não
descobre, contudo não importa) nem interessa a ele umas rodelas de batata
inglesa cozida nem a teimosia rubra do tomate a tentar mostrar sangue em seu
molho. Primeiro mesmo fuça o vira-lata a encontrar carne. De mosquito! de
mosquito ou doutra nojeira que repugna ao fígado humano? Fuça remexe suja o
focinho no vermelho do tomate, empurra pra lá pra cá o arroz, junta-o com as
bagas do feijão, abre caminho e nos meandros encontra a proteína esperada
ansiada desejada e assim avança num definitivo. Abocanha o naco, naquinho e são
vários naquinhos perdidos no achado mar de feijão e no incomensurável oceano de
arroz já com grãos ressecados do tempo e quase a virar pedrinhas brancas desconsoladas
a consolar depois o lixo nem o cão de menino ou doutro qualquer ou qualquer
outro cão aceitando a esmola, a esmola em resto, resto do resto a rigor, o
resto vai ao saco plástico da imundice comunitária, por sorte sendo hoje dia de
lixeiro ou federia horrores certamente. Dessa forma a carne é comida primeiro
que os segundos só aceitáveis se a fome extrapolar o comum o que é normal. O
cão, cão faminto, mastiga feliz da caçada na montanha de arroz branco com
feijão marrom. Por fim não acha mais carne, só o gostinho a embelezar a sujar a
porção de arroz e demais sem-gracices que um cachorro mesmo um vira-lata só
tolerando com a fome de três só faz um dia. Então se senta nas patas traseiras,
olha menino, o rabo solto a conversar com seu deus e não indaga de vovô de vovó
de titia de titio da comadre nem da vizinha, não pergunta se é só isso ou se tem
ali em cima do prato naquela mão do menino mais carne escondida, talvez a ser
ofertada; e fá-lo rindo em boa vontade. Menino não compreende... ou por outra,
entende bem a mensagem e fala, não muito alto nem precisaria que ouvisse todo
um bairro nisso “acabou”. O bicho sorri assim mesmo, torna à sua vasilha e come
um pouco também arroz e feijão, com preferência às partes contaminadas com
cheirinho de carne da carne que não mais existe; logo desistindo indo xereta
atrás de menino; num quem sabe...
Capítulo Quinto
O curioso nesse estado curioso é não ter menino
entendido o entendimento, fosse vovó, notaria imediato, vovó em fim de carreira
como mulher e mulher percebendo insignificância longe do observar do macho da
espécie em extinção – porque menino desconhecia a diferença na diferença dos
diferentes, pois dizem não haver identidade realmente nos idênticos irmãos. Daí
olha ao outro, experimenta vez que outra o rosto no espelho, frio sóbrio
metálico lógico estrambótico embora, e o espelho também não sabe das sabedorias
de saber: o mano é igualzinho. E não ocorreu? ocorreu sim, terá ocorrido o
contrário do contrário e então se olharam ambos e nisso ficaria dificílimo
fossem três quatro e se a humanidade no todo se parecendo! Não: apenas os dois,
os dois pequenos a se medir a se confrontar a se comparar nessa loucurinha e...
ah não seria uma gracinha? Contudo não chega à maluquice outrem, toda
vizinhança sabendo, vovó então! vovó mais que vovô que papai sumindo sumiu mais
que a comadre, não: mais que a comadre só a vizinha a distinguir quem fez a
arte; visto o não visto ser dito em termos de “não fui eu” mas o outro mano e
todos no bairro sabendo ambos bem servidos nas artimanhas e a infernizar senão
o globo ao menos a vila. Porém isso, isso tudo, isso a ser escondido pelos avós
aos pais quando mamãe tornando do trabalho onde tem é muito serviço e vem no
caminho já pensando nas tarefas de casa, não iria deixar tudo à vovó fazer
porque o velho não faz mesmo nunca fez e papai claro sumiu. Até ao infausto – o
outro faleceu; de repente falaram assim e assim menino virou ele mesmo, embora
tanto haver sentido a falta. Ora, não há falta que se não corrija em criança.
Ou haveria?
Capítulo Sexto
O menino acabou por ficar
para titio, disse titio por instância de titia, titia sim ela que não parava de
falar quando parando parando só a respirar após novamente a falar mas pondo a
coisa tal como coisa de gozação; para titio falar meio tímido, era titio um
desse tipo que fica uma hora no telefone sem desembuchar a conversa e o outro
lá no fim do fio em agonia quase a espremê-lo sugerir ajudar pondo os sinônimos
das palavras a serem ditas não bem ditas e assim ficando em asfixia sufoco
essas coisas; piormente em frente da gente presente presente no passado para em
futuro ao menos ouvir, não escutando bem; até que no até que enfim expondo sua
ideia por conta da conta do telefone celular com preço naquelas alturas. Ela
não, titia detentora de uma invejável verbalidade, uma tia que era de uma beleza
no matracar e aí dizia ao freguês ‘na lata’ isto expressão não de titia de
titio a criticar a coragem em dizer as coisas, a coragem de titia; esta que uma
vez ficando velha ou somente passada a família dizendo haver ficado porém só
ficou mesmo ‘titia’ por conta e azar do titio que era apenas titio do sobrinho,
casando com ela, o tio casou-se com a
jovem madura a se tornar ela titia de menino de uma vez por todas. Esse, ela
falou, sobrou para titio, e caindo na gargalhada, dessas gargalhadas que
contaminam os outros em volta até chegar ao ponto em que já não sabermos rindo
por que motivo ou então sabendo sim mas dando aquela dorzinha aqui embaixo num
indicativo da extravagância. Contudo o sobrinho virou titio... Quer dizer, não
que teve sobrinhos pois titia estéril segundo ele dela falando ela dele a
pichá-lo no casal – o fato é que ambos sem filhos; não teve sobrinhos, apenas
não se casando ultrapassou o limite, o qual nos titios e viúvos só tem valor se
tiver no meio algum tesouro seja herança em esperança seja por algum salário
percebido no tipo executivo de multinacional. Ao pobre não tem jeito, vira
mesmo titio sem piedade sem complacência da sociedade de então; então tacanha e
mais feroz com suas belas fêmeas sempre casadoiras ou ‘esperadoiras’ eternamente
amém. De maneira que ao pobre menino pobre, rico tão só no avançado da idade,
não lhe apareceu uma só que fosse não precisando as sete pretendidas no direito
macho, uma só princesa encantada, mulher que seria entrave para mamãe, disse
mamãe à vovó, mamãe que assim imperou sozinha no coração de menino sem o perigo
de uma aventureira do tipo caça-marido tão comum na época, sem o temor portanto
em ser menino surrupiado de seu estado de super-mãe para o que der e vier, daí
despencando a contar à mãe, mãe de mamãe, o desastre que é ter um esposo mulherengo
bebum perdulário falso e sem-vergonha – o que nada tendo que ver com
matrimônios tardios ou dos que nunca se completam para que as línguas se comprazam.
O
caso deste caso, entretanto, é haver não acontecido sequer namoro visto menino
ser meio enrustido vergonhoso ou completamente tímido; não feio, feio apenas o
suficiente, o que não vindo ao caso deste caso pois dizem inclusive que as
mulheres somente não casam com o sapo por não descobrir qual o macho; e nisto
convenhamos menino infinitamente menos horroroso que um sapo, mesmo tomando o
mais bonito macho entre sapos. O caso certo neste caso – o de menino ser
pichado titio por titio a mando sub-reptício de titia – o caso é que não soube
do caso e aí ficou em cara de bobo vendo outrem rir e rindo também em imitação
do riso, sem saber por quê. O sobrinho não sabia ser um tio.
Capítulo Sétimo
Ainda bem que não me casei,
menino constrói a frase “ainda bem que não casei” porque comum e o homem comum
não usa e se usa não flexiona o pronome ou dá um espetáculo em contrário usando
demais o pronome; ou desconhece o pronome realmente e assim não precisa brigar
com a língua. Por quê. O pronome? não, não haver se consorciado. Ele afiança a
razão da falta de razão dos vizinhos, e isto esconde direitinho não ser um
macho conquistador. Não vê, diria melhor não escuta, não vê os barulhos deles!
Primeiro o quê chega, quem? sabe-se lá, chega de madrugada,
menino levantou-se apalpando peredes trombando móveis e indevidos para não ter
que acender a luz; aí acordaria de vez e seria a vez da insônia; então vai
pelos escuros ver que hora o bruto chega, a fim de poder noutro dia explicar
que o vizinho chegou da balada decerto da balada e ninguém tem nada com isso,
mas chegou acordando a gente. Depois barulha o barulho manso da noite, ébrio
certamente não acerta a garagem; derruba isso enrosca naquilo, conversa ah a
conversa o tom da conversa a altura da conversa conversa de mil decibéis à
sensibilidade da gente! e dispara a conversa dos cães, o meu grita grito com
ele para loguinho depois voltando a ladrar; os outros imitam ninguém sabe quem
imita quem; e têm os carros a disparar também, quem a dormir com um barulho desses!
Aí não enxerga direito, enxerga sim vultos e silhuetas mas não confia no
luminoso fraco na sombra da madrugada de seu despertador preso num móvel pra
não fazer nem tique nem taque aos inimigos do sono; contudo não vê a contento e
acende a luz, sorte que nessa noite não cortaram a energia porque volta e meia
apagam por conta do apagão que o governo nega existir. Então vê, prova por a+b
ser duas horas da madrugada, a bem da verdade 2h:14’ e assim está constatado o
infringir horário: ninguém mais respeita ninguém, menos o silêncio em que a lei
silencia. Daí tenta dormir, já acordou mesmo com essa luz na cara da gente,
volta ao lençol, escolhe seu buraco no colchão, se ajeita: não tem jeito! Não
por outra coisa.
É que o vizinho não exagera na chegada quase noutro
dia na noite de menino, não exagera apenas nisso – é que é hora de brigar.
Enquanto
isso chegam mais outros casais e pensam que é meio-dia é meia-noite, pior duas
da madrugada já quase três e não se concilia o sono com o desregramento: uma
conversa com choro de criança no meio, vozes grossas em cima de vozes finas,
uma é agudíssima parecendo o som da voz da mulher da venda, do boteco, não
devendo ser ela ela agora dormindo comportada educada. Não importa, fere assim
mesmo. Não chegam a consenso e estoura no ouvido de menino, empurra o
travesseiro, cobre a orelha com o travesseiro ou com o oco da mão em concha,
não dorme. Ainda mais os cães alerta, aliás ainda assustados pela chegada do
vizinho anterior, o das duas, duas não 2:14. Então parece todo mundo sossegar,
quem sabe num descanso pelo cansaço mas não: tem início a sessão de luta livre
na casa do sujeito que chegou depois que é o antes da gente reencetar o sono;
no entanto semelha tão longe a briga, a noite trá-los em coro na quarta-voz e
na segunda-voz, esta por meio rouca a da esposa ao seu quarto, o quarto de
menino dormir então acordado e tentando debalde reencetar um anterior sonho: o
pesadelo não permite. Ele grita, ela fala, ele rebate, ela desafora, ele
estrila, ela derruba não se sabe o quê lá longe na esquina, embora a ofensa
adentre a rua o terreno a casa o quarto a cama a orelha de menino...
No até que enfim. Dormem na santa paz ou apenas
param também cheios da batalha na luta da guerra conjugal. Param lá horas antes
ou desaforos depois, param, recomeça seu indormir ou a consciência menina da
insônia.
Noutro abrir boca no café matinal com gosto amargo
garante: por isso não me casei; todavia ele insiste contra o pronome “não
casei”. Não casou.
Capítulo Oitavo
Desse jeito como estão as
coisas, afirma, os dias andam parados, sem graça. Daí surge uma luzinha no fim
do túnel ou qualquer coisa parecida: o esquadrão dos pernetas entra em campo,
vaivém pensa decide vai ver o campo. Estão todos em calções, mesmo o árbitro,
um sujeito muito amigo da gente no boteco mas agora é juiz de futebol e mesmo
ele de calças curtas igual ele no tempo em que menino era menino, só que não
usava chuteira e a bola era de meia. Então o time perde. Antes a turma em
torcida na beira do campinho improvisado grita xinga como exige a regra e a
educação. Não sabendo ele se melhor a equipe dos casados se a dos solteiros e entre
os jogadores tem um militar desengajado pra correr atrás da pelota, a enfurecer
alguém menos contido e língua presa que menino; o sujeitinho, pois que
centímetro maior que a altura de menino, esse berra sobretudo a fustigar um dos
jogadores: “oh cabo, você é bom só pra bater em bêbado pra apanhar da mulher
pra bater errado na bola e apanhar certo dela!” ainda pôs exclamação pra ferir
melhor, melhor ou pior ao perneta dos pernetas em campo, então a olhar tentar
conseguir perceber o francoatirador com língua brava e não vê, vê a multidãozinha
na torcida de várzea... chuta de novo erra outra vez. Noutra vez ele, o menino,
torcerá pelos casados, cansado em ser solteirão.
Capítulo Nono
Torna à casa – lar menino já não tendo, terá tido
um nalgum dia! se indaga com resposta insatisfatória – torna murcho, que
importando se os pernetas perderam mais uma vez mais uma partida, se tudo
perdido; isto ótimo em tês aos pessimistas. Mesmo porque parecendo nessa fase
da vida haver sido inaugurada a temporada de caça da morte, senhora pra si
tétrica roxa com laivos negros medonha encardida teimosa impaciente ditadora
mas não obstante impessoal, do tipo que se esconde aparece nos indevidos
momentos da existência: para pôr fim na existência; sem respeito inclusive pela
moléstia, beldade menos medonha que ela por lenta e paciente e também
impessoal. Assim menino nessa altura de seus centímetros imaginando. E não
teria razão! A vizinha, a outra, não: a outra ainda pois que todos apreciam se
mudar de lugar não podendo mudar a si mesmos, em pôr culpa da culpa na geografia,
para no final não resolver a coisa. A vizinha, ela morrera, não dava portanto
mais palpite sobre o ‘titiismo’ nele a comentar titia. A comadre também, ah a comadre,
já não mais comadre por estar nos pés juntos, fora fazer companhia ao compadre,
tumba 4 quadra 5 alameda 6. Vovó não ouvia mais mamãe, mamãe não se queixando
mais de papai, papai? sumira sumiu. Não por haver sumido, desaparecera igualmente
e igualmente vovó já viúva antes do depois sendo vovô mais apressado e ela
enterrada; titia não dirigindo mais gozações pichando menino ‘titio’ ou a
sugerir a titio nas coisas a dizer a menino, então também este não aguardando
mais a princesa encantada: titia pedira conseguindo um dia o divórcio num fato
consumado. A princesa? ninguém dando informação nem vovó já enterrada nem mamãe
que se aposentara antes de falecer e mesmo antes da hospitalização. Titio deixara
o sobrinho para titio e arranjou nova tia a sumirem no mundo. Tem parente que a
gente nunca sabe mais, mais possível morto. Quanto aos outros parentes podendo
menino afiançar sem parente e só no mundo. Restava realmente as orelhas dos
amigos e mais as dos conhecidos sendo os amigos conhecidos mais desconhecidos
que os conhecidos. De maneira que menino não mais contando com ninguém após mil
decepções mil enganos e quem sabe mil das coisas; mil e uma. Um dia acordou,
não sem acordar pois conscientizou andar desperto. Nem menino mais conhecendo
menino.
Capítulo Décimo
Procurou lembrar-se puxou
pela memória, não tinha mais memória. Sentia-se como um disco virgem, virgem
santa! Tudo de si desaparecera, não havia nada de si.
Nem fraldas nem papai papai sumira sumindo, nem
mamãe cansada mamãe em ser super, nem vovó nem vovô ou titio ou titia uma
comadrinha em vizinha que fosse: nada; tudo virgem zerado no computador lá de
dentro; ou não, sim tivera decerto isso tudo um dia e fora deletado, sabe-se lá
não sendo por virus faminto e alguma praga, algum caso temeroso de horroroso
corromper ou mesmo corrupção desvairada mais próprio de políticos que de gente
gente mesmo. Enfim rebuscou, não achando coisa alguma. Ou melhor nesse pior:
desconfiando ser menino e isso é tudo, portanto pouco às necessidades. Ainda
assim não se contentou desejoso conhecer meandros e caminhos e entrelaçamentos
mais, história de fato não estória pra boi dormir; aliás desejava mesmo era
acordar desse pesadelo.
Foi
no auge de tal pensamento dramático que resolveu examinar arquivos, quem sabe
estando os documentos no arquivo morto dele vivo.
Então ligou o micro, acionou mil megabaites, destrinchou
esse deus de plástico com suas mil pecinhas, mil e uma; compulsou documentos em
gringo puro e aí é que não mais podia saber... enveredou pela internet comparou
dados gastou o teclado nem dando mais para ler as letras; em suma quebrou a
cabeça a desmistificar as sabedorias das ignorâncias; gastou semanas nesse dia.
O resultado não foi propriamente nulo mas pobre – descobriu ter ficado nervoso
à beça, ao ponto de quase xingar, quase pois que um ser educado, não podendo
usar de baixaria para desabafar e não precisar depois psiquiatras e demais
charlatães e assim mesmo continuar um pouco encucado e manso.
Nesse dito ponto foi descobrir que o computador
andava travado, não lhe adiantara teclar digitar tanto...
Contudo chegou de fato a uma conclusão básica: não
tendo se achado porém teve certeza em ser menino, o que todo mundo já sabia.
Marília janeiro 2010
Nenhum comentário :
Postar um comentário