O Incrível que se
Encolheu
“(...)perder é pior do
que não ter tido.” Lígia Junqueira
1.Introduçãozona exageradinha
Ora ora, não são dois dos três
personagens que deveriam ser apenas um! Porque Mini é o mesmo Zinho – o outro,
o terceiro, o outro companheiro, amigo conhecido achegado ou só íntimo; e os
íntimos vivem a pensar serem os grandes sabedores das coisinhas insignificantezinhas
e quase sempre se enganam enganando também quem possa fazer juízo de valor; então
não passando de mais um entre bilhões de seres indiferentes... ou não. Enfim
assentemos definitivo como amigo o amigo; e amigo é amigo e pronto. Sendo
aqui o terceiro. Os outros dois são um,
dito, ditos Zinho e Mini. Ocorrendo Mindinho ou Mini, realmente mínimo de
Máximo, visto no registro de batismo dado àquela pequenura a berrar o mundo
constrangendo papai mamãe os padrinhos e assustando o padre na hora do batismo,
onde registrou portanto o sacerdote como Máximo ou Maximiliano da Silva. Aqui
nesta atrapalhada chamado José (seria José Maximiliano?) virando depois na rua
costumeiramente Zé e aos íntimos e achegados e desconhecidos somente Zezinho e
mesmo na economia Zinho. Tá embrulhado!? Bem, mal começamos, ainda estamos na
Introdução.
Seja como for houve uma redução. Os
enxeridos em plantão diriam perguntando se Zé deu Zinho e Máxi deu Mini. Certo.
Errado, aqui desejamos dar outra redução – ou que a anterior tenha vindo da
redução posterior! posteriormente explicada. Expliquemos.
Acontece que sem querer, querendo, quem
sabe, aconteceu. Ele foi ficando pequeno pequeno pequeno já pequeno de
compleição num corpinho miúdo de gente grande pequena, isto é adulto encolhido.
Sem querer (quem de sã consciência desejaria reduzir-se! para se ver gozado
pelos gozadores do mundo? absurdo) sem o desejar, porém os deuses quiseram; ou
por bem das necessidades ou por outra razão que não nos compete nem nos diz
respeito. Bem, ficou pequeno, se insignificantou em suma.
Ora bem, façamos ligeira tosca ilógica
comparação tão só a sairmos desta embrulhada na Introduçãozinhona. Num computador,
cegos escrevemos digitando em fonte dezesseis ou vinte, dependendo da cegueira;
depois reduzimos a quatorze normalizando aparências, ou mesmo a doze para economizar
no preço abusivo da tinta e do papel. Para guardar em que guardar, reduzimos
ainda a letra a dez a nove a oito (nossa máquina de fazer loucuras à qual
chamamos Zeburro, carinhosamente, ela possui como mínimo tamanho a fonte oito,
pra se achar e quem sabe conseguir ler depois com ajuda de microscópio lupa ou
telescópio... Enfim o máximo de nosso mínimo é a fonte oito:) aconteceu isso,
ou equivalente em equivalência ao Zé ou ao Máxi, tudinho tadinho. Ficou pequenininho,
encolhendo encolhendo encolhendo...
Na verdade deu-se um fenômeno – raro,
pôr raro nisso – aconteceu de repente, igual num susto quando tão rápido não
dando nem pra ver o susto; quando vê não vê, quase nem se vê!!
Agora o porquê, e apenas saberemos
integralmente o porquê quando outra reforma ortográfica mais louca que a de
hoje puder exigir retirar o chapéu do vocábulo e arrasar causas. Em todo caso
arriscamos em anuência com os deuses, arriscamos haver o pobre, nunca fora rico
pobre no sentido de infeliz, enfim o infeliz terá se encostado cansado atrapalhado
aparvalhado em certa máquina; ou inspirado a fumaceira puluente dela saída,
entrada na sua boca goela entranha estranha. E pronto: de Máximo é Mínimo. Mais
no menos – é insignificante, nem visto! visto quem sabe sim mas não percebido.
De repente tá minúsculo minusculado. Porém não ficou nisto não.
Mais adiante encolheu melhor e mais no
pior, sem desaparecer. Ora bolas, desaparecesse, onde poríamos as linhas desta
Introdução. Sem desaparecer, contudo sem ser visto também.
(Aqui os amigos do alheio, desses tipos
chatos que põem panos quentes dão jeitinho brasileiro a tudo nas aperturas e a
tudo o mais, aqui diriam: e não seria o caso de haver seis biliões no planeta
todinhos cegos! Não importa esta rabugice entre parênteses, importa que o Zé tá
Zinho, que o Máxi tá Mini).
A fechar este Introito, desapareceu desaparecendo
aos olhos mundanos. Daí sem ser visto...
2.O Amigo do Alheio não alheio, antes a sofrer pra burro
Este sim é amigo. Amigo pra ser de fato
amigo desaparece ele para outrem aparecer. No caso o Zinho ele próprio desapareceu
ou se mostrando sem ser percebido. É um tipo que sofre horrores os horrores do
outro (neste espaço com o belo nome Mini). Se apresenta ao sofredor-mor ou
vítima ou móvel da questão, sendo que o tal amigo pronuncia “qüestã” com trema
já liquidado em quantas reformas houverem. Trata-se dum conhecido achegado ao
sofrente. Tanto tanto que nem nome tem, tem mas não publica não revela, mesmo
porque a verdade não precisa nome a existir, bastando-lhe a oportunidade em ser
útil ajudar auxiliar o agente. Chega, sofre o sofrer do outro; se apresenta ao
amigo como amigo e já começa a trabalhar em seu favor; observe-se que Mini
precisando demais o confessionário; o amigo é o sacerdote que nos ouve sem
escutar, isto é: sem poder fazer nada. Nada aqui é tudo como chorar e
participar, semelhando a torcida organizada (sem violência e na santidade)
participar em tudo ao proveito do sofrido amigo; desaparecido às vistas dos
outros todavia existente e lutante num quem sabe a poder tornar ao que era
antes, antes quando já nada sendo. Enfim é a luta do amigo pelo amigo, a
elevá-lo; o que fica dificílimo quando invisível aos olhos grosseiros. Se
apresentou e aí começando um drama. Sim porque drama. O drama de qualquer drama
é drama somente quando conscientizado, pois antes o ser não sabe andar
sofrendo.
Começa. Põe avental chinelos roupa
simples a poder se lambuzar direito. Olha olha consegue senão virtualmente ver
Mini, cada vez mais Minizinho, o qual está no lar a fazer coisas
insignificantes de tão comuns como os quefazeres: escovar os dentes, sentar no vaso,
tomar café com pão quase caindo ele na sopa a fumegar (positivo esse negativo,
aí acabaria o trabalhão do amigo e a novela; prossigamos:) cobrir os pés
gelados, atender o telefone, atender de fato a porta, aqui entrando mil sustos
das espantadas visitas porque a gente de fora a dessaber as sabedorias das
insignificâncias imperceptivas imperceptíveis; varrer o lixo ao lixo o soalho a
poeira o toco de cigarro a cinza a fumaça a subir da bituca entrona no chão;
ouvir pássaros e passantes que ao passarem exportando dores comuns e alegrias
fáceis quiçá mal filtradas; em resumo sua luta para manter o uso e o costume,
como o hábito em ver as plantas, ah aquela flor que não existia ontem hoje
enorme maior mil e uma vez que ele, ele o Minimizado. De repente, em meio disso
e desse trabalhão em tarefa de amigo verdadeiro e portanto confiável... de repente
um drama de graça nada gracioso. O caso é ter ido Mini ao lar do amigo, decerto
a procurá-lo a fim de pedir ajuda confessional ou qualquer parecido, e se
depara com a traição, desfazendo o lar em apenas casa...
E agora, se põe Zinho a pensar, nunca
diria ou é que a um amigo íntimo se pode falar, acusar nunca como nunca perder
a ternura no dizer do poeta a filosofar; porém... enfim e agora, como tratar o
outro sem destratá-lo é lógico e também sem esconder a verdade. Ou o flagrante
não é uma ponta do iceberg da verdade! Como? como agir daqui por diante.
Em sua própria residência Mini vê o
amigo em ajuda; e sofre em sua dor a dor do amigo.
3.A Rotina
Isso, aquilo, aquela mancha indigna
lacerante a sangrar no seu ser pelo flagrante doído pesando sobre o amigo, marcou
Mini. Agora, agora! toda hora muitos dias em lembrança de triste recordação vem
a recordação no limiar do pensamento... raspa rasga toca a boca desde o prurido
da garganta e a irritação cerebral daquele marcante acontecimento; quer tornar
mentira essa verdade, quer tornar verdade essa mentira do não pode ser em
retorno à mente a traição sobre ele, ele o amigo; e sobre si: toma pra si as
dores tal qual fora consigo a afronta e vira paciente também. Também! se
pergunta, todavia não posso divulgar contar ofender meu amigo, o amigo que me
pranteia as dores; então sou por suas dores, ou as dores quando forem dores,
pois o pobre não ainda conscientizou. Mas devo contar posso contar é imperioso
fazê-lo também vítima dum sofrer tão aviltante! Acho que me calo, se diz. Calo
a calar fundo em mim, assim como cala suas outras dores (soubesse dessa...)
para não fazer-me sofrer, ainda mais na minha desdita de encolher... sumir! Se
olha, se vê não veem os que não sabem que não veem. Isto é ele, mero ponto perdido
no universo. Contudo o amigo vê, pensa que vê vê fala consigo, luta por si –
são assim as grandes amizades. Todavia ei-la de volta em revolta a remoer por
dentro a lembrança maldita do flagrante criminoso. E ainda não pode desabafar
sem ferir. Não tem condição em fazê-lo, não tem coragem. Além do mais, que
poderia fazer em favor do amigo, do amigo que igualmente tudo nada pode fazer
em benefício a reverter seu encolhimento!
Constatava, a ficar cada vez mais miúdo
digno dum microscópio potente e de última geração, constatava agora que o outro
só podendo notá-lo por sentimento. Sim, não há cegueira no coração; os olhos do
coração atingem mesmo as insignificanturas e veem e enxergam o concreto do
possível. Porém não resolvia seu drama. Zé torna-se mais e mais Zinho. Nem as
continuadas visitas indesejadas do flagrante da traição da esposa do amigo
minimizava o enorme flagrante de seu encolhimento no mundo de relação. Quase
podendo dizer não existir, embora pudesse se servir dos dados estatísticos em
provar a verdade duma mentira. Ele era cada vez mais a mentira em sua verdade.
Essa a realidade das coisas.
Respondeu ao amigo não estar
ensimesmado, apenas um pouco pensativo. O que faria a fazer ‘a’ ou ‘b’ como
quando onde, onde pôr o que pôr. Assim retomou sua rotina.
Agora era rotina o ver sem ser visto.
Flagrar outros crimes; doutros lares e oficinas conspurcados, doutros ambientes
doutros seres desconhecidos, os que não envolvessem (demais, pois não nos
atinge!) pelo menos não mexessem muito com o amigo; e novamente se punha o digo
ou não digo. Andou por aí; viu leu escutou comparou. Numa choupana imitando
casa o casal brigava, noutra se batia no mais fraco, noutra mais se praticava a
pedofilia se ingeria drogas se corrompia em crimezinhos miúdos. O mundo
esbanjava grosserias gritos insultos maldades, machucava feria mostrando o
poder dos fracos a se pensar fortes. O resto era um resto negativo com sangue
com ofensa com desmedida com injustiça; com tentativa boa inclusive; e com
fracassos.
Agora era o agora. Agora via revia
precisava o crime. E o crime não estava em presenciar, porém na insignificância
da fraqueza em não poder fazer nadinha contra o mal: Mini sequer existia, não
podendo ao menos dizer existir; isto pior que não existir.
Num triste momento observa um infeliz
roubar outro infeliz, mais pobre menos necessitado? e a notá-lo entrar na casa
de periferia, pouco abandonada pois o hábito é o muito; penetra a garagem adentra
a residência em plena luz do dia, afaga reúne objetos, sem valor ao rico mas
suntuário ao necessitado, junta pertences, então lhe pertence, sai, foge, some
no mundo, igual Mini é fugido e sumido ao mundo. E não existem. Ele não é
visto, o ladrão sem testemunha. O mundo prossegue, as ocorrências policiais são
registradas a serem registradas; nada muda, tudo o sempre. Zinho não pode
apontar, apenas sofrer. Ah, pode desabafar junto ao amigo, rico em ombros.
Fá-lo, a aumentar uma dor às dores do outro. Só o que pode fazer. Porque o homem
comum é o testemunho do crime todavia não pode com o crime; às vezes se torna
ele o crime, mesmo que seja para sua consciência. Isso é uma solução! indaga às
suas orelhas. O amigo sorri, em sorriso de cor não berrante.
Ah sim, concordam ambos que a corrupção
mundana seja ela insignificante perto da corrupção em larga escala de políticos
na atualidade. A pequena não tem vaidade, quem sabe apenas jactância do tipo
bravata, que desaparece como o som no som das coisas perecíveis. A grande marca
aparece e, pior, eleva...
Então sorri. Agora sorri descolorido
Mini, o invisível.
4.O Retorno
Mini faz o máximo pra si no esforço de
sair-se no impasse. Assim como alguém necessitando mudar o rumo das coisas,
inoperante. Então pensa, fala ao amigo? pensa no como fazer para tornar à sua
forma original de homem pequeno normal ou comum, do homem comum vivendo o dia a
dia, perturbante talvez ingrato quase sempre difícil inquestionavelmente – mas
homem como a pessoa se vê no mundo, o mundo de todos. Isso requerendo esforço
hercúleo dele a pensar o que pensar. Nisto descobre um ganho: o pensamento
independe do tamanho do ser – um piolho poderá pensar tão grande quanto um
dinossauro. Ou seria, se indaga e apenas olha o amigo porém não comunica o pensar
ou ilusão ou loucura, se indaga: não seria ao contrário que o curioso da
situação seja poder ou só tentar poder um dinossauro em sua altura possuir um
pensamentozinho semelhando o piolho lá embaixo... Ora, isso tergiversação a
fugir do principal e o principal não estava resolvido, que era ele ser
praticamente invisível de tão pequeno; como faria para voltar ao que era antes;
e já quase não era, reconheceu, tristonho. Como fazer, como?
Pôs em discussão por fim à congregação
de sua casa (sentia não mais ter lar... aí lembrou relembrou que o do amigo
após a traição da esposa virara tão somente uma casa também, casa de pedras e
aparências, sem graça.) Enfim colocou em discussão seu problema-mor. O que
fácil, não a questão difícil é claro, fácil por serem na dita congregação
apenas duas pessoas amigas a tentar resolver o drama.
De um lado encontrava-se o mundo, com o
pensar do mundo, sua visão (distorcida?) e sequer percebendo a problemática que
envolvia o dinossauro e o piolho, que os mesmos personagens existissem. Doutro
a luta para o retorno, na visão, pequena insignificante se se quiser, nessa
visão dos dois amigos, os maiores interessados no assunto Começaram pela análise
das modificações domésticas.
Somou Mini o quanto houvera se alterado
o ambiente nas suas coisas. Ora, não podia se pôr ele sequer a impedir a gota
pingando na torneira – tudo era enorme e até gigantesco para sua fraqueza, a
gota mesma sendo maior que seu corpinho; o piso escorregadio ou sujo ou
trincado ou solto ou ponteagudo em impedimento monstruoso embora comum aos
mortais era agora seu comum de grandiosidade, portanto intransponível
irremovível irreparável obstáculo e não objeto de uso corrente. Tudo para si
naquele hoje seria então volumoso e obstaculante. Porém havia outro empecilho,
este de ordem moral. É que agora em sua própria residência não era ele quem
tomava decisões – das grandes importantes imperiosas até descer às pequenas
quase não percebidas por repetitivas quiçá banais. Estava como que prostrado
amarrado e sem ‘direito’ (que seria direito?) sem poder tomar decisão alguma,
resolver com um simples ato ou movimento. Enfim aquilo que todos fazemos nas
questões mundanas e mormente nas domésticas, ele não podia executar, nem quase
dar palpite. Sim, dava todavia a educação meneia a cabeça aceitante e faz ela
como achar que deve... às vezes contrariando, contrariando sempre, às vezes
realmente fazendo o oposto no desejo do chamado ‘dono da casa’ e isto cheirando
a humor negro. Dessa forma se sentia: sem interferência de fato, até sem preferência,
com anuência forçada, sem a iniciativa que nos faz homens; sem nada disso em
sua própria casa. Que poderia, dizendo das coisas miúdas, dizer e que dizer
então das graúdas como móveis pesadões que a esforço o amigo desalojava! Era,
no fundo, gente, gente dentro da casa da gente com outra gente tomando
decisões. O amigo já se cansava em fornecer explicaçõezinhas ao amigo; ou
porque tomara de qualquer forma conhecimento das podridões vindas de seu
próprio lar, então mera casa de pedras sem alma... Mini sequer tinha coragem a
abordar o assunto tão melindroso e a ofender seu amigo. Em suma estava como
numa gangorra da harmonia, sem harmonia ora sofrendo seu sofrer ora sofrendo o
sofrer do outro. Contudo ia vivendo, se vida, e levando e enchendo seu tempo.
Isto internamente. Mas o que pensava a vizinhança.
5.O que não é da conta dos outros
Enquanto na casa vizinha, a do portão
quebrado e com garagem sem carro, e, pior, sem mulher a um dedinho de prosa no
dizer popular, que é a situação própria a dar o serviço isto igualmente
popularesco, dizer por exemplo os desmandos do macho da casa, que dizer da casa
sem macho e sem fêmea de um solitário e homem mui esquisito... Enquanto na casa
do silêncio, porque falar baixo é uma paz que incomoda à gente certa, enquanto...
certa vizinha comenta aquele esdrúxulo. E dizem, diz à outra e a outra olha
pros lados em prova ou a provar as coisas; dizem até que tem um moço,
moço-velho pois de cabelos assim florando prata, tem desses, que vem todos
santos dias. Aí silenciam... fazem suas coisas na calada da noite e vai que...
bem, o mundo tá virado: tem mulher com mulher tem macho com macho tem marido
com muitas esposas e essas coisas; falta de religião, não acha? acha concorda
discorda conversam se entendem e entendem de tudo. Não se vê vivalma, só o
visitante; será que o outro, o dono da casa, será que mudou fugiu sumiu! é
sumiu, não se vê mais e vivia varrendo a frente punha lixo chamava o homem do
gás voltava com sacola de supermercado sumiu. Sumiu. O amigo vem sempre, atende
cobradores; falam que...
6.Um Mundo do mundinho
Enquanto isso Mini curte seu
encurtamento físico e tenta administrar o encolhimento, quiçá a invisibilidade.
Agora, após tanto discutir consigo mesmo, o amigo mostra-se desgastado quem
sabe comido engolido tomado pelo seu drama, drama maior compreensivelmente
maior que o drama de Mini, pois amara anos a companheira e está só; mal acompanhado
por um ponto praticamente imperceptível e que responde por Maximiliano da
Silva, lembrando aqui o pároco a escrever no registro do chorão, hoje um
chorador de mágoas. Estão os amigos ‘de mal’. Em meninos brigavam não mais se
falavam até se falar. Grandes, o outro é de estatura normal e Zinho quase não
existe para as vistas grosseiras mundanas; adultos estariam de mal? mudos,
convivendo mas são dois mundos mudos com suas caixas de abelhas a ferver...
Sorriem a um nada, tudo torna ao normal na amizade sincera, sem ser angélica
sem ser santa porém a viver os problemas que lhes compete. Então o amigo vê (ou
‘vê’) o amigo e pensa em suas necessidades, nas premências do pobrezinho;
imediato se põe a ajudá-lo. Corre a fechar a veneziana, encosta a porta, obstando
o vento o frio a noite o mundo e as ofensas do mundo. Compõe a seu jeito, ora o
macho da espécie é desajeitada espécie porque em tudo sua mulher quem cuidava e
agora como acertar com o amigo em processo de encolher e de sumir! Encontra
enfim um trapinho adequado para sustar a friagem e cobri-lo a contento;
primeiro experimentou um lenço de discutível brancura e mais discutível limpeza
– o outrinho tem lá suas gasturas e caprichos não quer se encostar sequer no
tecido possivelmente enodoado com resfriados... por fim toma um trapo sem forma
mas ilibado na higiene, ‘involucra’ o invólucro de gentinha, a gentinha sorri
pelo carinho e agradece. E têm outros óbices como o dormir o comer o banhar-se
o defecar o se distrair, ah como criança dá trabalho. Aí o amigo se lembra relembrando
aquele útero que escapuliu com um falso-amigo e se conscientiza de o planeta
estar desfalcado com um menos-um habitante e se fosse gêmeos e se... daí acorda
com os gritos de Mini, mininho gritinho pois só ele a ouvir porque a vizinhança
dorme o sono dos justos fora alguém dentro a escutar altão o devedê que assiste
na madrugada e têm os cães que ladram um passar qualquer, ouve corre chega
apregunta... não seria absurdo que Mini pedisse aquela canção de ninar! Após o
absurdinho torna ao seu triste pensar, agora em certa monoideia teimosa
cobrante...
7.Mundinho e Mundão
Zinho não quer nem saber o que o outro
pensa ou sofre, egocêntrico e a imaginar naquele momento que todo universo gire
em sua volta e pra si. Quer comer.
O amigo se desdobra o quanto pode, pode
pouco, a tratá-lo. Mais e mais não sabe como alimentar aquela coisinha microscópica.
O que dar, qual regime, e se fizer mal, e se... ah... Bem, ministra gotas,
gotas cada vez mais gotículas, através de mamadeira diminuta ela também, para
aquele bebê exigente e cobrador; um que o caboclo irascível diria não valer a
comida que ingere e então praticamente nadinha prestando. A criaturinha come
satisfaz-se dorme e o amigo tenta se alimentar também. Revira o prato, enrola
não engole: a lembrança volta arrasadora em sua mente, quer enlouquecê-lo...
mas já não vivendo num mundo surrealista sem precisar endoidar para usar camisa
de força! Ela, a esposa, reaparece e destrói seu idílio que anteriormente
cultivara, ou o enganara para enganá-lo mais tarde... Não sabia.
Enquanto pois o amiguinho miúdo
invisível dorme, ou foge do seu drama desperto; enquanto isso o amigo briga
luta com seu interior contra suas más tendências...
8.A Prisão
O amigo andava cada vez mais macambúzio.
Dentro do amigo o inferno dos prós e contras, aquela impiedosa ideia que torna
os criminosos criminosos e também impiedosos. Demais tomado pela ideia,
enceguece e por mais procurasse, não o procura nem enxerga o pobre Mini, então
diminuto e desaparecido inclusive do foco dum microscópio. Contudo não é por
isso que não o vê: vê a traidora. E seria traidora! não põe a questão; menos nesses
termos. Um belo dia, isto uma idiotia em linguagem e não embeleza sequer a
linguagem chã, um dia resolve ir à desforra. Procura acha encantona aponta mata
a infeliz, e infeliz torna ao lar de Zinho, lar aqui exagero necessário...
chega como não sendo consigo os dramas do mundo. No entanto foi visto e
flagrado pelo seu rabichinho – o amigo invisível. Antes fosse o invisível da
brincadeira social em que os amigos trocam presentes e alegrias. Tristezas.
Mini presenciara o tiro a dor o sangue o medo a fuga a volta do outro à sua
casa. Conversa vai conversa vem deu o serviço; sequer pensando na possibilidade
medonha e monstruosa de o amigo ‘apagá-lo’ em queima de arquivo como ocorre na
crônica policial e igual se vê na tevê quando da briga eterna entre ‘mocinhos e
bandidos’. O outro chora o sofrimento e pela descoberta dessa dor e da
vergonha. Se entrega finalmente como um puro faria às autoridades. Agora
aparece a mini-testemunha... Realmente quer testemunhar para diminuir a culpa
do amigo. Aqui um problema à testemunhinha: ninguém creria nele! o juiz
incrédulo ou sem óculos daquele tipo ‘garrafa’ para alcançar o pontinho
possível e com nome formal José Maximiliano da Silva e aí Mini mostraria a
prova de existir com o registro de batismo; pior o delegado grandão brutamontes
bruto e até grotesco igual macacão gritando com o nada invisível. Manda por via
das dúvidas encarcerar o pretenso assassino, fecha tranca as grades e tilinta o
molho de chaves. Bem. Mal saiu o agente carcereiro já a testemunhinha trabalha de
bandido contra os policiais e a favor do bandido, amigo para o que der e vier.
Consegue mexendo remexendo derrubar o molho, o amigo se apossa dessa posse e
foge, fogem na noite escura, nem a madrugada nem depois mesmo o brilho do dia
ensolarado poderiam expor Mini, correndo feito cachorrinho atrás do foragido...
aqui um fato novo como o mundo: ambos desde o acontecimento fugirão sempre! Em
verdade Mini sequer precisando se esconder; esconde-se em respeito ao amigo
sentenciado.
9.Mastigação da memória dum fugitivo da lei
Sim, agora, poderíamos pôr agorinha a
diminuir direito o diminuir do diminuído invisível – agora, escondido a tremer
e temer com medo mesmo dum sinal desapercebido pelo mundo, agora teme, teme por
ele e isto absurdo, absurdinho tratando-se delinho pois quem veria quem acharia
o achar! agora a temer por si e pelo amigo assassino (assassino com os descontos
prosaicos como por exemplo a defesa da honra ofendida; a lei naquele tempo –
qual tempo! sabe-se lá... – a lei protegendo o macho em espécie na desonra e
mancha no santo nome essas coisas). Agora Mini esconde e se esconde. Isto é,
tenta ludibriar as aparências para ninguém encontrar encarcerar o amigo. E se
esconde também ele numa autêntica e colossal medorreia. Não quer dormir, em
vigília sempre; não quer comer, vai que descubram os farejantes investigadores
que alguém ingira alimentos e portanto exista, ele no caso. Enfim não querendo
nem que o outro mostre a cara, nem ele mesmo mostra; oh santa ingenuidade pois
quem vê-lo-ia!! A burrice não pensa ou então não é mais burra. Teme. Enquanto
pensa existe imagina regurgita seu antigo estado de ser. Homem da rua,
‘grande’, visto, bom-dia dona maria. E sua vida pregressa, era então solitário
porém a solidão não surge do nada; de fato tivera mulher filhos parentes,
inimigos talvez e muitos amigos e é claro o amigo íntimo agora pichado fichado
assassino até prova em contrário; no país todos temos à ignorância que provar
nossa inocência: ou somos sem contradita criminosos! Era nesse país, era também
esse pensar imaginar conversar por dentro dentro delinho. Decerto ela o deixou,
fugindo com um homem mais novo menos feio ou só a trocar escapando da rotina
caseira!? não interessa aqui; aqui a distração de Zinho a passar o tempo
enquanto os polícias... aí ai a polícia ai o medo ai o ai aí. E
os filhos. Um dia um dos quatro apareceu reapareceu a beijar papai. Bateu bateu
bateu outra vez palmas, o criminoso curiosamente escondido não estava no
esconderijo a atender; no entanto o pai correu afoito aflito esquecido lembrado
para ver quem era. Esquecido em ser ‘procurado’ com cartaz afixado na delegacia
e pela cidade no habitual ‘gratifica-se etc.’, talvez no inglês idioma-pátrio.
Lembrado lembrando a cria e então iria dizer melodramaticamente “ah quanta
saudade, meu filho!” e despencaria a perguntar de fulano de beltrano e como
estaria siclaninho, quantos anos terá meu neto? Contudo nada disso ocorreu:
Mini aparece no seu desaparece desaparecendo, olha lá encimão aquela beleza de
filha, normal em tamanho e vida, ela não vê o genitor não vê ninguém – se vai
desapontada. Desapontado volta o pai para dentro do esconderijo. Ah, antes
disso olha pra ver se vê não vê nenhum a sherlockar perto. Mesmo assim se
assusta, entra espantadiço por baixo na fresta da porta de sua própria
residência e se esconde melhor na invisibilidade.
10.O tamanho dum caminho...
Andava a marchar o invisibilinho já não
visto sequer pelo amigo se escondendo e toureando certamente seu próprio
tormento; aí não poderia nem ele perceber Mini. Mini no entanto marchava... a
rigor perdido escondido amedrontado a fazer cavalo de batalha dum simples
ladrar ou dum passar passantes, os passantes sempre em defesa de si mesmos. Marchava
em sua pequenura e sua estrada sendo longa a sumir ela também nas reticências,
porque o gráfico das margens dum caminho não tem somente interrogação e
exclamação, também os pontos dos pontos das reticências, os quais apenas se encontram
na visão distorcida da ilusão, a ilusão por exemplo de encontro união fusão
numa só e única linha. Porém o sujeitinho encontrando-se no limiar do começo
donde vê o gráfico; e no seu caso vendo temeroso, até ao ponto de se esquecer
invisível por diminuindo diminuindo diminuído. De repente se lembra ponto,
nada, quase, quase por ainda pensar. Pensa nos quilômetros que tem à frente no
tal gráfico da estrada que vê. Então o metro, o metro! o centímetro o milímetro,
o metro é o quilômetro a medir o futuro, em medidas siderais imedíveis ou
ininteligíveis a um ser do tamanho do ser normal, como o amigo que já não vê
certamente escondido fugindo. Todavia lhe sobrando um ganho em ser e ter ideia.
Assim indagou, antes de se responder examinou cuidadosamente com os faroletes
de uns olhinhos perscrutadores imperceptíveis e não vistos se via alguém que o
procurasse – daí partiu a tentar resposta: terá tamanho o pensamento! pode
alguém – e se comparou o Mini de agora com o Máxi antigo, se comparou
igualmente com os homens comuns da época na qual era também homem comum, que
via ouvia sabia – pode alguém ser realmente maior que outrem? ou haveria
somente a insignificância em quem quer que pudesse avaliar... enfim quem pesa
mais na balança da vida!?
O mundo olhou desde a extremidade da
linha no gráfico do horizonte; e talvez apenas se vendo não vendo; e não vendo,
não sabendo. E não sabendo, então indagar para quê.
Marília fevereiro 2009
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