sexta-feira, 2 de agosto de 2019

Quando as Coisas Falavam


Quando as Coisas Falavam


I – Introdução
Para os outros senhor Alicate da Silva, aos íntimos não sendo flor a se cheirar porém tendo foro de cidadão a quitar impostos deixando sempre uma porçãozinha ao ano vindouro, vai que tivesse sorte a gente nunca sabendo quando a hora fatal e aí a sorte grande em não ter que satisfazer o fisco, pagava sim, sim xingava antes e depois, um bom cidadão, Zé Alicate... não  é nome tão belo, ele não precisando melhor pior ela que era pra ser bonita na definição de mulher; pois Alicate não precisando ser feio feia suficientemente a esposa – o povo ardendo a língua no dizer amásia amante namorada ou coisa assim, companheira – ele pura e simplesmente medonho. Mas isto não indo ao caso, fato ocorrido antes, depois era no tempo em que também os bichos falavam, antes as coisas falavam, ele dessa época. Esta falação merece inclusive uns parênteses espichados.

II – Parentes não, Parênteses

Flagrei, ainda supomos desse tempo, flagrei certa desavença no armário embutido, onde se guarda toda tranqueira imaginável desde as não ainda inventadas até as de corrente uso e contumaz abuso; trecos estes a bem da verdade úteis (mesmo que seja a reclamar da bagunça e, com isso, desenvolver a crítica e por que não dizer a inteligência; portanto tranqueiras comuns são válidas e merecem existência).O desentendimento entre um cartucho de tinta preta compatível com impressora de computador, vazio seco abandonado em lugar de novo em folha, este andaria cheio se existisse. Embrulhado o contendor num saco plástico, velho furado sujo aquelas manchas espalhadas aqui ali de tinta, dito seca secada; num canto do redito reduto ou armário sem embutidos entretanto com várias separações o móvel a guardar de tudo um pouco, parecença com entulho e de portas de fechar pra visita não ter o que dizer quando disser o que deve a outrem, uma vizinha por exemplo, aqui só a fim de complementar a frase. Num canto, escondido a olhos e nos escuros pertinentes. Doutro lado ela. Ela? a máquina de tirar retratos. Não se fala nesta página daquelas antigonas com passarinho barulhento montadas num tripé de pau, o freguês lá na frente fixo quase sem respirar e quem sabe com água de cheiro a sair bem na foto à posteridade, se o fotógrafo não falhasse ou que se queimasse a chapa, o caboclo dizia chapa. Não dessas. Uma moderna, atualizada no tempo e quase raridade nos dias que correm – marca Olympo Trip, de ferro pesadão e de lente de primeiro mundo mas sem zoom e então a gente mede distância certinho bate a foto revela e se envaidece pela obra prima na arte. A rigor este contendor, nada macho pra valer e sim rompante nos seus rompantes, não passa de belíssima peça (não: de museu ainda esperará mais um século) uma peça feminina no seu apresentar e nos seus modos. Aqui sem exageros, pois que trataremos duma disputa, disputa dir-se-ia a amenizar violência porque de fato briga consumada na consumação dos tempos nos cantos do armário embutido já apresentado ao distinto público. Ele com o mérito em achar as falhas dela, ela constatando o desastre que era, pior: é, o cartucho, mero tinteiro mal acoplado no computador da casa e feio, disse, e seco, confirmou a linguaruda. Que ela tendo um lascado na extremidade esquerda, decerto abuso no uso ou pelo descuido humano; e ainda uma fresta a facilitar a penetração da luz, estragando o filme! Piormente nisso sem rolo, sem filme, sem imagem portanto, aí a câmera se enraivecendo, pavio curto, a arrasar o pobre: secou sua secura, encurtou sua pequenura e feiura consumadas provadas. Estando assim em vias de fato o desentender, um bate-boca digno de periferia de cidadezinha de interior em terceiro mundo. Estando assim, ouvimos mais um pouco ou pra rir ou pra chorar ou apenas in-xeretar, batemos daí as portas (são duas nesse compartimento dedicado à desordem às tranqueiras aos impedimentos e documentos para nunca se encontrar jamais, procurados). Fechâmo-las (claro ser as portas) e fechamos também os parênteses, apenas advertindo isto resquícios dos tempos do tempo em que as coisas falavam, ocorridos antes daquelas épocas em que falavam os bichos.
Adversão – o homem também é um bicho.

III – O Homem da Mulher

Alicate, sr. José Alicate da Silva, seu criado, dizia sua refinada educação de alicate comum perdido no todo. Alicate era falante sim inteligente sim sensível sim (na sua abalizada opinião) mas feio. Feio? medonho medonhamente horroroso, que é o íssimo nas feiuras. A tanto que passou a partir duma descoberta particular – e essas coisas não se tem vantagem a divulgar mesmo – uma que demonstrou ser feioso à beça e isto se dando a olhar o espelho de manhãzinho e se espantando com o monstro que flagrou refletido no vidro do aço do quadro do armário do banheiro fedendo a fezes mal descargada de terceiro mundo. Um monstro. Daí alertou a família e antes de ouvir palpites da consorte trocadilhada sem sorte por ser ela antes de bela fêmea da espécie coisa feia fêmea da espécie; antes disso chamou o alicatinho, uma gracinha de temporãozinho desses que a gente dorme abraçado e quando acorda ela já está grávida e a gente iria encher o planeta de alicates, hoje tão em desuso! sim, não; não é claro? Martelo, berrou o pai do alicatinho, aliás o garoto alicate era o que tem de xeretude que mais se possa imaginar; desses que vivem na barra da saia do pai, era pra ser da mãe ocupada nos seus afazeres, e aí espantando a cria, esta a viver rodeando seu deus: o pai é um deus o suprassumo intelectual da sabedoria das coisas coisa e tal e aí... bem, a três por dois repetia ‘aí’ o aqui filhote parecendo a gente comum de hoje em dia, agora noite a acabar, manhãzinho quando Alicate flagrou-se feio horrível espantável espantado. Venha aqui, filhote, imperou Alicate. Que é pai? indagou a criança. E o genitor ainda assustado com a ‘medonhez’: me quebra isto! imperou de novo. O martelo, no caso um Martelinho assim de gracinha pois havia martelo martelão e até marreta em casa; e neste capítulo ou item mal-posto tem uma escala formidável e inacabável como marretinhas e marretonas por exemplo. Não, sim sendo o Martelinho. Aí o patriarca Alicate empreendeu notável obra de destruição. Impunhou o martelinho, para não fazer demais estardalhaços ou tomaria um martelo ou mesmo a marreta do meio, pesadona pra valer, não macha pra valer que isto outra coisa, pesada. Não, sim, o martelinho; e vai daqui vai dali a bater: partiu em dois, os dois pedaços em quatro e foi minimizando a janela do espelho que via e já quase não via – detonou o espelhão a virar espelho e após espelhinho, melhormente estilhaços de vidro!  Ainda assim a refletir a feiura de Alicate! Não se deu por vencido: destroçou cacos e até caquinhos. Uma obra prima na destruição. Pior, amenizando o quanto pôde pôde pouco entretanto, pior haver feito um barulhão dos diabos – quebrou quebrou quebrou barulhou barulhou barulhou e em final acabou com a oposição que enfeiava com o pior admitido ou seja: fazendo um banzé sonante. Assustou a casa o quarteirão o bairro a cidadezinha pacata de interior acostumada com a bonomia a paz a pacatez; foi além: assustou o país o continente o mundo, com ondas deletérias no universo. E se manteve feio.
Feio, coisa, aleatório a burlar a harmonia, embora tudo isso Alicate merecedor de um porquê nos porquês que esbanjam inexplicações no mundo. O seu bendito nome.
A rigor é nisto que se baseia o comportamento alicático diante as coisas das gentes e das situações a envolver o todo.
Desejamos – longe de estar pretendendo justificativas; mesmo porque somos todos responsáveis tão só por nossos atos e não pelos dos alicates que mais hajam, havendo; e menos ainda a ser responsáveis pelos que produzem produziram produzirão as forças sobre a força de um pequeno alicate quase como que teleguiado ser; e não obstante tentemos explicar ou só narrar a coisa como a coisa se deu, aqui passado a nos salvar a pele e não precisar explicar o chato da coisa – desejamos por fim mostrar o porquê das ações de Alicate. Seja no comezinho barulho em partir a quase fazer virar grânulos e pó, areia ao menos, os cacos de vidro, de espelho ex-espelho ou numa que outra encrenquinha com a esposa, esta no pegar diário no pé de Alicate; ou ele a se cansar em ‘dar ordens’ não cumpridas aos seus pupilos, visto que os filhos o são dos pais alicate martelo chave-de-fenda porca esquadro grosa lima o escambau em matéria de pupilos enfim. Alicate prosseguia ‘dando’ ordem até velhinho a um passo do desmanche antes a ferrugem, então só falando às paredes ninguém ouvindo muito menos alguém a quem e aquém ou além longe que deveria escutar a pregação na preleção paterna. Bem como prosseguia a conversar (aqui sendo besteirar, falar abobrinhas) com vizinhos, essas coisas de bom-dia boa-tarde vai chover está frio e o governo é um ladrão. No entanto... a culpa cabendo a quem!?
Aqui entra a coisa a explicar a coisa no tempo em que falavam as coisas, dito redito nesta chatice que antes do tempo em que os animais falavam; fato este ocorrido ainda antes dos animais racionais apelidados homens falarem. Portanto antes dantes.

IV – A Mulher do Homem
Contudo e antes de apresentar os porquês já prometidos, necessário se faz dar umas pinceladas para dar por sua vez ideia sobre a fêmea da espécie coisa, vivente-e-falante em questão, o que não ocorrendo antes que os bichos falassem apenas mas concomitantemente às quebragens de espelhos e encrenquinhas conjugais. A gente vai dar olhadela no painel de ferramentas para se inspirar melhor a fim de descrever a fêmea com desenvoltura, essa fêmea parideira da família numerosa de Alicate, o qual para ela não passava de Zé, nem José merecendo em tratamento e muito menos Sr. José Alicate da Silva seu Criado como no falar dos de fora; aliás entre o casal dispensava-se outrinho tratamento, este cheio de nhe nhe nhem que são os corriqueiros ‘benzinho’ e ‘meu amor’, dada a grosseria sobretudo do macho da espécie, espécie coisa.
O painel mostra a sobejo inumeráveis ferramentas, coisa muita do pouco a escolher. Vimos nele uma safada grosa, a qual voltara olhos antigamente para Alicate casável, não ela a sobrar para titia porque não podendo fisgar alicate (então seria chamado à delegacia, ameaçado pelo doutor e se casando com a dedoduro grosa decerto)  não podendo fisgá-lo conversou serrote ainda com dentes jovens bem afiados e balangando no prego de dependurar no tal painel: casou-se e se destitiou a fraulein-zinha grosa – e se desenferrujaram ambos, estando em desuso abandonados no painel dito redito. Aqui um lembrete: de que escapou Alicate! No entanto caiu noutra armadilha do destino, caiu nas garras da ex-namorada vassoura e rival de grosa que se tornaria Senhora Alicate como sabemos.
Em análise e descrição do painel aludido vemos grosas pequenas grandes médias, todas distintamente enferrujadas somente os cabos de madeira não comidos por oxidação faminta. Limas inteiras ou quebradas provando o aço Solingen delas, igualmente enferrujadas dependuradas ali. Ela, vassoura, a futura consorte, a ser decrita após como prometido. O serrote, agora cego não corta nem água diz a oposição; aliás grosa tendo sempre afiada língua, em se tratando de tratar o esposo e a ex-rival grosa, a outra grosa. O esquadro, sempre a prometer ângulos retos, descumprindo. O arco de aço com serrinha de aço já sem dentes banguelada a semelhar fita de arco de barril que antanho segurava as partes de madeira dos corotes de guardar e envelhecer líquidos como os tonéis de vinho; enfim não cortante e por causa disso a figurar no painel para enganar bobos, em desuso o arco. Vemos enxó, plaina (esta também uma desafeto dela, a ex-namorada futura Senhora Alicate; a plaina virou titia, ninguém quis) martelo, aliás martelos sim marretas não por pesadas e atiradas numa lata de badulaques, vai que caíssem estando penduradas no painel, nos pés da gente... lápis, lápis de carpinteiro com grafite grosso pra fazer errado o risco certo na madeira a ser trabalhada; arco de pua engastalhado noutro prego sobrante do painel. Que vemos mais? ora, a bancada de trabalho para satisfazer raivas contidas e furores do martelo quem sabe decepcionado com o descaso de grosa na guerra de conquista no caso numa espécie de conquista da fêmea ao macho da espécie e não do macho à fêmea da espécie; porém a bancada não estando no painel propriamente dito. Por acaso, não: acaso não, enfim o painel fica sim grudado na parede a facilitar tomar-se quaisquer ferramentas a uso; ele com suas ferramentas.
Em outras palavras, é o que agora vimos, vamos agora a ela, futura Senhora Alicate.
O incrível neste incrível é que a fêmea da espécie coisa, mui tagarela no tempo em que as coisas falavam a lembrar aqui ter acontecido ainda antes do tempo em que os bichos falavam; o incrível é que ela não deve normalmente ou só comumente figurar num painel de uma oficina desarranjada, onde se vê de tudo, além de tocos e sarrafos de pau em todos tamanhos e quantidades e ainda muita sujeira e poeira (atchim, obrigado, não tem de quê). Trata-se da Vassourinha de pelos com haste e buraco a ser presa num prego do painel, ou cai, é claro, no pé igual a descuidada marreta. Mignon-zinha, pois horroroso até pensar uma vassoura grandona pendurada na parede no painel atrapalhando tomar outros intrumentos do instrumental. Pequena, jeitosa, limpa à limpeza dos fragmentos na banca de trabalho todora suja e mais poeira e mais atchins e mais não tem de quê. Jeitosa delicada manuseável apetitosa – tanto que atraiu Alicate. Mas implicante; visto andar limpando todo momento onde sujo às vezes nem bem sujo, em outras palavras: não havendo sujeira decente e digna desse nome; irritante inclusive, por irritável; chata, pronto.
Não sabia, saberia o pobre! não sabia o pobre Alicate, ao desposá-la, aqui com ajudazinha do causídico fracassado que não passou no exame da ordem porém se enganchou como delegado tendo ordenança e a lei a seu favor; sim o delegado de polícia auxiliou a Vassourinha de pelos a casar com o trouxa Alicate. Enfim não sabia ele que ela iria pegar no seu pé todo minuto todo momento todo dia todo mês toda vida; somente por causa dos desleixos do consorte. No fim quando fim, filhos crescidos a rapa do tacho era o Martelinho quebrador de vidros afrontadores de pai; já a fêmea da espécie mandona e Alicate abaixando a cabeça admitindo culpas e a porcaria em que se tornara – no fim ela a dizer: macho é tudo porco! Era. Ou não era, era o que se via pois um alicate que não apertava, não cortava arame, frouxo, enferrujado, bom pra sucata, a sucata onde fervilham vermes chupadores de cadáveres. Aí Alicate a pensar, a dormir seus pesadelos, tremia nas bases... Sem que ela parasse de blasfemar seus ditos e contraditos.
Um dia, isto em começo da série de filhotes e crias mais, um certo dia berrou a fêmea da espécie ao macho em espécie, este a abrir a boca sem entender, berrou, barrigão assim pra dar à luz, “cê pensa que eu devo povoar o mundo!” (No que ele para melhorar o padrão da briga conjugal poderia corrigir, chato como era Alicate: “mundo não, mulher, o painel grudado na parede cheio de ferramentas velhas e usadas quase usáveis ainda”; não disse se calou).
Todavia a série prosseguiu enriquecendo o lar, vieram pregos martelos porcas chaves-fixas chaves-de-fenda chaves-inglesas serrotinhos (sem quaisquer conotações de infidelidade, porque Vassoura íntegra e até mui religiosa ou apenas temente nos desconhecidos e nas ignorâncias; ou só em vista haver enfeiado, seria ‘enfeado’ a satisfazer a academia! não importa: horrendou e por outro lado Alicate somente a temer ferrugem e o desuso mais que os vermes cadavéricos; aí não temeria perder a beldade para serrote); vieram após esquadrinhos, estes praticamente sem sexo, vieram liminhas, enfim outras peças e instrumentos de alguma beleza na opinião dos pais.
Contudo voltemos ao patriarca.

V – O Homem e seus Porquês
A prova mais cabal do viver de Alicate, Alicate assim chamado a agradar os íntimos mas a agradar a educação da gente Sr. José Alicate da Silva, seu Criado, a prova sim ou pra não se entender tal viver encontra-se na ação doutrem sobre outrem; outrem é cúmplice doutrem – não isentando o comparsa de seus próprios pecados, sim explicando ou a tentar explicação do(s) motivo(o) daquele agente agindo em cima do pobre, aqui ‘pobre’, o que é diverso de infeliz como se vê a três por dois no mundo de relação. Outrem é cúmplice de quem se candidate a feri-lo; a tanto se comprazer (masoquista?) ao ser ferido!
Isso, diriam, tema polêmico, além de burrice; e que seja burrice, pronto. Partamos aos porquês da coisa, à polêmica se for preciso, se se quiser apenas desentendimento.
Antes disso (estas linhas adoram o vocábulo ‘antes’, a ser repetido desde o começo enfeiando a redação) antes vejamos, num corte proposital, tudo o que se faz não fazendo por mero hábito mas vindo como propósito; enfim vejamos algumas trivialidades do complicado ser. Dona Vassoura, decerto na lua de mel Vassourinha e beijinhos e outras frescurinhas; após ela vira Vassoura, pendurada no painel ou limpando restos de trabalho na bancada quiçá no solo onde o porcalhão derruba demais sujeiras e detritos e restos; Vassourinha pega em seu pé: já tomou as pílulas, ele que pronuncia “píula”, engoliu as drágeas, vomitou os comprimidos, e põe interrogação exclamação reticenciando o lembrete que é mais ordem de fera que delicadezas de esposa-enfermeira. O bruto, não. Sim, diz não para mostrar machura; como não pega, não faz efeito algum, abaixa o tom e assopra um ‘não’ dos mais medrosos mansos e de entrega total... Aí toma. Todavia exagera no positivo, havendo exagerado negativamente não engolindo o remédio e isto ocorrendo mil vezes, mil e uma. Exagera, come três unidades, cinco, dez até, duma vez. Não, não morre; nunca morreu. Não, aqui exagero nosso: morreu mil e uma. Nessa existência encurta um pouco a vida apenas nesse desregramento. E assim noutras batalhas contra outras moléstias. Contudo vivo.
Outro corte em exemplo reside no seu momento futebolístico; aprecia ver jogo na televisão; Alicate vê um show televisivo, dessas apelações não enlatadas mas ao vivo, mui comum na telinha: o apresentador, no caso uma belíssima e rica em cosméticos, o apresentador mostra o entrevistado do dia, brinca com a plateia que são dezenas de garotas pagas a aplaudir quando exigido a dizer não quando ordenado e orquestrado e para gritar como de praxe. Trata-se dum ídolo da seleção do país, um dos onze pernetas selecionados por anos e com glória já em declínio porém mocinho na terra batida, por pobre e ignorante. Aplaudem o jogador. Aí vem o sexo, item básico da propaganda e que dá ibope de tevê. Quantas mulheres já teve. O herói relaciona, conta nos dedos, se esquece dalgumas, conta os filhos e onde foram fabricados, muita vez no estrangeiro a valorizar seu machismo. O aparesentador dá a palavra para o auditório, as moçoilas gritam desejar que o herói as engravide também. O apresentador se peja, envergonhado quem sabe ou por ser seu papel. Nisto Dona Vassoura vem ver (leia-se fiscalizar) a sujeira na saleta de tevê. Alicate muda rápido de canal, pega um religioso e faz o sinal da cruz, enquanto se imagina o herói entrevistado a agarrar as belezuras jovens do auditório... A esposa varre e procura outras sujeiras mais sujas noutros compartimentos. Ele volta ao canal anterior, pegar o restinho; uh, acabou e só vê propaganda e após os reclames aparecendo outra baboseira. Alicate se decepciona, coitado.
Ninguém vê. Aliás ninguém vê mesmo por invisível, em não sendo a observar apenas os atos dessa ferramenta um bocado velhaca. No entanto atrás àcima embaixo perto longe de Alicate um ser medonho maquiavélico atrevido esperto ou apenas um adversário em folga de outras trapaças ou do métier de sua ignorância aparentando maldade: ei-lo a trançar seus pauzinhos a puxar suas cordas de controle, a impor sua vontade a outrem. Outrem aqui chama-se Alicate, é um pouco convencido (ou bobo) e então se põe em fazer o que supõe de sua lavra livre e de espontânea vontade. Se bem que nisto num pôr culpa em alguém, Vassoura por exemplo, um vizinho o patrão o juiz (a mãe dele) ou o governo de vastas costas. Quem vê, observando os atos, vê os atos da enferrujada ferramenta, não as ordens em mando doutrem, este certamente a rir gargalhar quem sabe pelo ridículo de seu instrumento, que Vassoura chama Zé e o povo conhece por Alicate.
A rigor nem Alicate se entende meio teleguiado doutrem; imagina estar a remar tão só contra a corrente do mar tenebroso do destino. Ele crê no destino, um monstro fatalista e fatal qual máquina que põe dispõe não propõe: manda. Isto diminuindo, supõe por sua vez Alicate, suas próprias faltas; não obstante sente o azedume do amargor na boca santa de xingar o governo, aquele ladrão. Têm outros pequenos entre os milhares de lances da vida – em que há ação dalguém lá no distante do perto a agir sobre alguém, alguém aqui afiançado ser Alicate; o que certamente a influir (negativamente) na esposa e na prole, esta que é imensa variedade contida no painel na parede e compartimentada no caixote onde se guarda badulaquinhas úteis, por imediatamente inúteis, inclusive alicates e martelos porcas e parafusos-de-fenda e chaves-de-fenda etc. e tal. São fatos que se deram desde que Alicate é Alicate (pra não falar desde que o mundo é mundo, em vista ser esta expressão mui chã repetitiva e banalizada) desde antes mesmo, antes de ser Alicatinho bebê. Um deles, desses acontecimentos que ficam na memória da gente maismente na mente dos adultos as crianças não se lembram. Lembrassem perceberiam a ação dalguém sobre alguém, aqui uma tantadurinha de alguém, pois Alicate nenê. Mamãe, uma vassoura ou grosa grossa velha e ruminosa ou uma caneca ou uma panela no universo das coisas no tempo em que falavam as coisas, antes se disse que dos bichos; e papai, um alicate ou uma chave de rosca masculina, mui macha, papai e mamãe estão com Alicatinho, então sabendo já falar mas falando apenas bá-bá-bá, estão com ele ao colo para o batizado na Igreja de Santa Grosa, a milagrosa. Realmente diziam ser Catedral, não passava de Capela embora o padre sendo acessível. Acessível sim e beberrão viciado no vinho do padre que afirmavam não conter álcool. O casal pagara o serviço de batismo e o pároco meio amolentado seguro pelo sacristão oficiava no batistério frente à estátua de barro de Santa Grosa a água-benta, quando rolaram da cabecinha calva de Alicate gotas salgadas a escorrer até o nariz dele e deste, após, à boca (a boca é aquela parte que num alicate serve para, fechado, prender digamos um arame ou uma porca, vai que se tenha esquecido a chave-de-boca no caso uma um-por-dezesseis e então se valendo da boca aberta depois fechada do alicate e daí apertada até a porca ringir seu desespero; aí a função da boca dessa ferramenta). Chegado o líquido santo à bocarrinha do nenê, ei-lo a chorar gritar e então ‘inconsolar’, aflitando a grosa ou caneca ou vassoura ou panela ou outra coisa com a qual papai havia se casado nos conformes; antigamente só davam os conformes, com padre e cartório e baile tudo bonitinho, não sendo que os namorados fugissem tomassem um cavalo, que este fosse roubado isto não importante: ele na sela a comandar como bom macho e ela a futura esposa e mãe de Alicatinho na garupa; depois do ‘não tem jeito’, quer dizer: Alicate já engravidado na barriga dela, aí o durão sogro aceita a filha de volta, fazem o casório e pronto; no caso em questão o matrimônio se deu certinho inclusive com festa tendo no fim o baile, embora neste tenha havido senãozinho: saiu facada entre convidados pela tábua (assim se dizia o enjeitamento duma dama a um cavalheiro matuto nas festanças de roça) a tábua duma jovem pedida a dançar na última valsa, a sanfona já indicando a melodia e o ritmo aos pares. Enfim o caso aqui tratado é que Alicatezinho fez blululuf a assoprar o sal da água a aprontar um berreiro medonho, acordando inclusive o religioso e seu ajudante. Dirão apressados: o que isso tem a ver com a ação dalguém sobre alguém, este um babaquinha de colo!? Aqui é que a porca torce o rabo, no dizer da filosofia da poética caipira. Pois que o invisível quem sugeriu primeiro ao santo bebum tremer despejar o oceano na cabeça ainda com moleira de Alicate; e a seguir sugeriu-mandou abrisse mais que costume as duas pontas da boquinha de alicate de Alicate. Um autêntico porquê. Ainda assim existem outros senões no senão ora levantado. Seguinte. Dalguém, chamemo-lo obsessor e à porcaria batizada pelo sugestivo nome de José Alicate da Silva, Silva do genitor é visto; a ela chamaremos obsedado, pois na ativa negativo por sofrer indicação-sugestão-ordem da entidade obsessora sem o saber; enfim o obsessor guardava um rancorzinho do vigário, agora em cabelos brancos a coroar a calva alumienta, o sacristão não: demais cabeludo e bobo. Por causa dumas desfeitas do chefe dele (obsessor) quando coroinha noutro tempo noutro templo, então o padre jovem e o menino  mais novo ainda sendo ajudante e coroinha; este faleceu duma morte-morrida qualquer mas não desgrudou do religioso, como não ficaria longe doutros rivais, inclusive de Alicate que recebia naquela hora o batismo. Foi fácil trabalhar o sacerdote já trêmulo na idade avançada e no avançado do vinho: ploc, derrubou, escorreu engoliu soprou o outrinho e abriu um desconsolo de gritaria! Tem mais – o obsessor também agindo contra a madrinha, antiga desafeto no tempo em que privaram ambos. Ora, a tal madrinha nesse batismo, juntamente fazendo par com um tio emprestado no lugar de padrinho, já que a fêmea da espécie coisa em questionamento ficara para tia, uma solteirona carola, essa era um serrinha-de-ferro de arco-de-aço, sem arco acoplado pois titia; era dessas serrinhas que novas vêm pintadas de amarelo da loja a provar virgindade zero-quilômetro... bem ela fora mui usada, perdera em fragmentos de tinta a coloração, a qual se impregnaram na madeira no corte de madeira (nunca aceitara serrar barras de ferro, para as quais fora ‘fabricada’) de forma que gasta no tempo e na beleza agora servindo na pia batismal de Alicate, aquele do berreiro. Quando mamãe entregou o filho chorão à madrinha para consolá-lo, ocorreu de mais uma vez o obsessor comum agir sobre ambos a aumentar a confusão e o desespero: quase foram expulsos da igreja pelo terceiro obsedado, o consumidor de vinho. Enfim Alicate estava batizado, não morreria pagão, horror terror dos pais aflitos antes por isto e depois por aquilo, isto é – o berreiro.
Contudo, com todo o exposto, é possível o possível se se pensar na maldade dalguém injustamente. Sim, por que a oposição sempre tem de ser má! O governo – aquele ladrão no pensar do patriarca Alicate em ótimo exemplo educativo à prole, como martelinhos quebradores de vidro curiosos em ver a feiura do pai deles; serrinhas liminhas esquadrinhos etc. e tal, tal a caber, sucessivamente embora, no ventre da Vassoura de cabo com furo a ser dependurada no painel – o governo tinha então nos oposicionistas (leia-se os que não aceitavam a cartilha política do PG, ou seja Partido do Governo) tinha o governo nos adversários a quem pôr a culpa, inclusive pelos possíveis roubos governistas e demais corrupções; mesmo porque profundos conhecedores as coisas governamentais, em matéria de oposição política, visto antes serem a oposição, agora virando situação das coisas de governo. Alicate contra (sempre sugerido pelo seu obsessor) contra o governo, aquele ladrão. De fato, Alicate se impressionava com os dólares nas cuecas das ferramentas do governo, onde se encontravam serrotes faltando um dente, traçadores, bigornas e outras coisas duras e toscas. Não aceitava os desfalques que se fazia em nome do povo, das coisas do povo, para que a conta fosse paga pelo povo trabalhador, trabalhador ou safado igualmente até prova em contrário. Todavia estas linhas não estão querendo ou sugerindo desejar querer fugir da explicação do problema da possível maldade obsessora. Não.
Sim, vamos à coisa dessa coisa tida má na conduta de obsedar Alicate, Zé à patroa reclamenta, sr.José ao povo educado e de fora dentro da oficina onde o painel. Em verdade essa entidade não passando dum ser brincalhão apenas. Não feria, feria sim mas sem planejar sem quase pensar no mal bem feito, pois tratava com seriedade e mesmo meticulosidade a ação. Se mau sujeito, insuflaria o crime a droga o assassinato, não o fazendo. Somente para rir-se de Alicate metido nas encrencas e confusões em que se metia essa ferramenta, agora com mais ferrugem e sem voz ativa que realmente uma ferramenta.
Inclusive passou pela mente obsessora o impor um nome, o nome de alguém, alguém a ser lembrado aqui por Alicate da Silva. Pensou que houvera sugerido à genitora do instrumento o belíssimo apelido Alicate. E aqui, mais a explicar esta nova, velha quase como o mundo, esta nova confusão.
Seguinte. Um dia, já tarde em a noite de sua existência, pegou-se Alicate bonzinho mansinho bom vizinho bom esposo bom cidadão (aí não xingava mais o governo, só o queria mal no pensamento) já não olhava as coisas jovens a passar na rua rebolando as coisas; não criticava mais os errados por envelhotando ou consumadamente idoso, não podendo errar direito e a contento os errados. Enfim bonomia mansidão e muito catarro pois que a ferrugem entrando até na boca gasta dele; nesse ponto partiu a frequentar a igreja. Dirão a nos lembrar: que diabo, se parecia ateu ao menos anticlerical! Não se explica isso ou aparece nova confusão em cima da confusão desta explicação e aqui seria uma novíssima na família das confusões, confusas igual as coisas: chega, pô! Então Alicate anda contrito; e mais ainda – faz uma pregação a um auditório imenso de mais de meia dúzia de adeptos acompanhantes numa sessão com muita reza, alguma até braba. Diz coisas belas, engrandece a moral das coisas a deixar as coisas de boca aberta abismadas emudecidas. Conclui a peroração o orador: não pensem que estas santas palavras são de minha lavra, não: recebi inspiração e sugestão dos santos, desejosos em atingir os irmãos!
Era verdade essa mentira das coisas. Senão que de fato um iluminado falando por sua boca, a assustar o obsessor traquinas ali presente porém invisível ao público; ao menos aqui se configurando alguém a falar através e por outro alguém. Eu, disse José, o irmão José, eu sou somente um alicate a prender com os lábios os sons, o pensamento é do santo, o qual move as pernas-hastes do alicate para que este, pressionado, feche sua boca e prenda por sua vez o prego o parafuso a porca inanimados...
O pensamento dalguém ouvindo alguém caiu de costas com a surpresa. Não disse, disse o obsessor apenas a pensar ‘fui enganado’.
Fomos enganados.
Mesmo porque ninguém nunca viu coisa aprontar tantas coisas. E muito menos falar. Em não sendo no tempo em que as coisas falavam, advertindo e assegurando ter ocorrido antes que os bichos falassem.
Marília   maio  2008
     


Nenhum comentário :

Postar um comentário