Quando as Coisas Falavam
I – Introdução
Para os outros
senhor Alicate da Silva, aos íntimos não sendo flor a se cheirar porém tendo
foro de cidadão a quitar impostos deixando sempre uma porçãozinha ao ano
vindouro, vai que tivesse sorte a gente nunca sabendo quando a hora fatal e aí
a sorte grande em não ter que satisfazer o fisco, pagava sim, sim xingava antes
e depois, um bom cidadão, Zé Alicate... não
é nome tão belo, ele não precisando melhor pior ela que era pra ser
bonita na definição de mulher; pois Alicate não precisando ser feio feia
suficientemente a esposa – o povo ardendo a língua no dizer amásia amante
namorada ou coisa assim, companheira – ele pura e simplesmente medonho. Mas
isto não indo ao caso, fato ocorrido antes, depois era no tempo em que também
os bichos falavam, antes as coisas falavam, ele dessa época. Esta falação
merece inclusive uns parênteses espichados.
II
– Parentes não, Parênteses
Flagrei, ainda
supomos desse tempo, flagrei certa desavença no armário embutido, onde se
guarda toda tranqueira imaginável desde as não ainda inventadas até as de
corrente uso e contumaz abuso; trecos estes a bem da verdade úteis (mesmo que
seja a reclamar da bagunça e, com isso, desenvolver a crítica e por que não
dizer a inteligência; portanto tranqueiras comuns são válidas e merecem
existência).O desentendimento entre um cartucho de tinta preta compatível com
impressora de computador, vazio seco abandonado em lugar de novo em folha, este
andaria cheio se existisse. Embrulhado o contendor num saco plástico, velho
furado sujo aquelas manchas espalhadas aqui ali de tinta, dito seca secada; num
canto do redito reduto ou armário sem embutidos entretanto com várias
separações o móvel a guardar de tudo um pouco, parecença com entulho e de
portas de fechar pra visita não ter o que dizer quando disser o que deve a
outrem, uma vizinha por exemplo, aqui só a fim de complementar a frase. Num
canto, escondido a olhos e nos escuros pertinentes. Doutro lado ela. Ela? a
máquina de tirar retratos. Não se fala nesta página daquelas antigonas com
passarinho barulhento montadas num tripé de pau, o freguês lá na frente fixo
quase sem respirar e quem sabe com água de cheiro a sair bem na foto à
posteridade, se o fotógrafo não falhasse ou que se queimasse a chapa, o caboclo
dizia chapa. Não dessas. Uma moderna, atualizada no tempo e quase raridade nos
dias que correm – marca Olympo Trip, de ferro pesadão e de lente de primeiro
mundo mas sem zoom e então a gente mede distância certinho bate a foto
revela e se envaidece pela obra prima na arte. A rigor este contendor, nada
macho pra valer e sim rompante nos seus rompantes, não passa de belíssima peça
(não: de museu ainda esperará mais um século) uma peça feminina no seu
apresentar e nos seus modos. Aqui sem exageros, pois que trataremos duma
disputa, disputa dir-se-ia a amenizar violência porque de fato briga consumada
na consumação dos tempos nos cantos do armário embutido já apresentado ao
distinto público. Ele com o mérito em achar as falhas dela, ela constatando o
desastre que era, pior: é, o cartucho, mero tinteiro mal acoplado no computador
da casa e feio, disse, e seco, confirmou a linguaruda. Que ela tendo um lascado
na extremidade esquerda, decerto abuso no uso ou pelo descuido humano; e ainda
uma fresta a facilitar a penetração da luz, estragando o filme! Piormente nisso
sem rolo, sem filme, sem imagem portanto, aí a câmera se enraivecendo, pavio
curto, a arrasar o pobre: secou sua secura, encurtou sua pequenura e feiura
consumadas provadas. Estando assim em vias de fato o desentender, um bate-boca
digno de periferia de cidadezinha de interior em terceiro mundo. Estando assim,
ouvimos mais um pouco ou pra rir ou pra chorar ou apenas in-xeretar,
batemos daí as portas (são duas nesse compartimento dedicado à desordem às
tranqueiras aos impedimentos e documentos para nunca se encontrar jamais,
procurados). Fechâmo-las (claro ser as portas) e fechamos também os parênteses,
apenas advertindo isto resquícios dos tempos do tempo em que as coisas falavam,
ocorridos antes daquelas épocas em que falavam os bichos.
Adversão – o
homem também é um bicho.
III
– O Homem da Mulher
Alicate, sr.
José Alicate da Silva, seu criado, dizia sua refinada educação de alicate comum
perdido no todo. Alicate era falante sim inteligente sim sensível sim (na sua
abalizada opinião) mas feio. Feio? medonho medonhamente horroroso, que é o
íssimo nas feiuras. A tanto que passou a partir duma descoberta particular – e
essas coisas não se tem vantagem a divulgar mesmo – uma que demonstrou ser
feioso à beça e isto se dando a olhar o espelho de manhãzinho e se espantando
com o monstro que flagrou refletido no vidro do aço do quadro do armário do
banheiro fedendo a fezes mal descargada de terceiro mundo. Um monstro. Daí
alertou a família e antes de ouvir palpites da consorte trocadilhada sem sorte
por ser ela antes de bela fêmea da espécie coisa feia fêmea da espécie; antes
disso chamou o alicatinho, uma gracinha de temporãozinho desses que a gente
dorme abraçado e quando acorda ela já está grávida e a gente iria encher o
planeta de alicates, hoje tão em desuso! sim, não; não é claro? Martelo, berrou
o pai do alicatinho, aliás o garoto alicate era o que tem de xeretude que mais
se possa imaginar; desses que vivem na barra da saia do pai, era pra ser da mãe
ocupada nos seus afazeres, e aí espantando a cria, esta a viver rodeando seu
deus: o pai é um deus o suprassumo intelectual da sabedoria das coisas coisa e
tal e aí... bem, a três por dois repetia ‘aí’ o aqui filhote parecendo a gente
comum de hoje em dia, agora noite a acabar, manhãzinho quando Alicate flagrou-se
feio horrível espantável espantado. Venha aqui, filhote, imperou Alicate. Que é
pai? indagou a criança. E o genitor ainda assustado com a ‘medonhez’: me quebra
isto! imperou de novo. O martelo, no caso um Martelinho assim de gracinha pois
havia martelo martelão e até marreta em casa; e neste capítulo ou item
mal-posto tem uma escala formidável e inacabável como marretinhas e marretonas
por exemplo. Não, sim sendo o Martelinho. Aí o patriarca Alicate empreendeu
notável obra de destruição. Impunhou o martelinho, para não fazer demais
estardalhaços ou tomaria um martelo ou mesmo a marreta do meio, pesadona pra
valer, não macha pra valer que isto outra coisa, pesada. Não, sim, o
martelinho; e vai daqui vai dali a bater: partiu em dois, os dois pedaços em
quatro e foi minimizando a janela do espelho que via e já quase não via –
detonou o espelhão a virar espelho e após espelhinho, melhormente estilhaços de
vidro! Ainda assim a refletir a feiura
de Alicate! Não se deu por vencido: destroçou cacos e até caquinhos. Uma obra
prima na destruição. Pior, amenizando o quanto pôde pôde pouco entretanto, pior
haver feito um barulhão dos diabos – quebrou quebrou quebrou barulhou barulhou
barulhou e em final acabou com a oposição que enfeiava com o pior admitido ou
seja: fazendo um banzé sonante. Assustou a casa o quarteirão o bairro a
cidadezinha pacata de interior acostumada com a bonomia a paz a pacatez; foi
além: assustou o país o continente o mundo, com ondas deletérias no universo. E
se manteve feio.
Feio, coisa, aleatório a burlar a harmonia,
embora tudo isso Alicate merecedor de um porquê nos porquês que esbanjam
inexplicações no mundo. O seu bendito nome.
A rigor é
nisto que se baseia o comportamento alicático diante as coisas das gentes e das
situações a envolver o todo.
Desejamos –
longe de estar pretendendo justificativas; mesmo porque somos todos
responsáveis tão só por nossos atos e não pelos dos alicates que mais hajam,
havendo; e menos ainda a ser responsáveis pelos que produzem produziram
produzirão as forças sobre a força de um pequeno alicate quase como que
teleguiado ser; e não obstante tentemos explicar ou só narrar a coisa como a
coisa se deu, aqui passado a nos salvar a pele e não precisar explicar o chato
da coisa – desejamos por fim mostrar o porquê das ações de Alicate. Seja no
comezinho barulho em partir a quase fazer virar grânulos e pó, areia ao menos,
os cacos de vidro, de espelho ex-espelho ou numa que outra encrenquinha com a
esposa, esta no pegar diário no pé de Alicate; ou ele a se cansar em ‘dar ordens’
não cumpridas aos seus pupilos, visto que os filhos o são dos pais alicate
martelo chave-de-fenda porca esquadro grosa lima o escambau em matéria de
pupilos enfim. Alicate prosseguia ‘dando’ ordem até velhinho a um passo do
desmanche antes a ferrugem, então só falando às paredes ninguém ouvindo muito
menos alguém a quem e aquém ou além longe que deveria escutar a pregação na
preleção paterna. Bem como prosseguia a conversar (aqui sendo besteirar, falar
abobrinhas) com vizinhos, essas coisas de bom-dia boa-tarde vai chover está frio
e o governo é um ladrão. No entanto... a culpa cabendo a quem!?
Aqui entra a
coisa a explicar a coisa no tempo em que falavam as coisas, dito redito nesta
chatice que antes do tempo em que os animais falavam; fato este ocorrido ainda
antes dos animais racionais apelidados homens falarem. Portanto antes dantes.
IV – A
Mulher do Homem
Contudo e
antes de apresentar os porquês já prometidos, necessário se faz dar umas pinceladas
para dar por sua vez ideia sobre a fêmea da espécie coisa, vivente-e-falante em
questão, o que não ocorrendo antes que os bichos falassem apenas mas
concomitantemente às quebragens de espelhos e encrenquinhas conjugais. A gente
vai dar olhadela no painel de ferramentas para se inspirar melhor a fim de descrever
a fêmea com desenvoltura, essa fêmea parideira da família numerosa de Alicate,
o qual para ela não passava de Zé, nem José merecendo em tratamento e muito
menos Sr. José Alicate da Silva seu Criado como no falar dos de fora; aliás
entre o casal dispensava-se outrinho tratamento, este cheio de nhe nhe nhem que
são os corriqueiros ‘benzinho’ e ‘meu amor’, dada a grosseria sobretudo do
macho da espécie, espécie coisa.
O painel
mostra a sobejo inumeráveis ferramentas, coisa muita do pouco a escolher. Vimos
nele uma safada grosa, a qual voltara olhos antigamente para Alicate casável,
não ela a sobrar para titia porque não podendo fisgar alicate (então seria
chamado à delegacia, ameaçado pelo doutor e se casando com a dedoduro grosa
decerto) não podendo fisgá-lo conversou
serrote ainda com dentes jovens bem afiados e balangando no prego de dependurar
no tal painel: casou-se e se destitiou a fraulein-zinha grosa – e se
desenferrujaram ambos, estando em desuso abandonados no painel dito redito.
Aqui um lembrete: de que escapou Alicate! No entanto caiu noutra armadilha do
destino, caiu nas garras da ex-namorada vassoura e rival de grosa que se
tornaria Senhora Alicate como sabemos.
Em análise e
descrição do painel aludido vemos grosas pequenas grandes médias, todas
distintamente enferrujadas somente os cabos de madeira não comidos por oxidação
faminta. Limas inteiras ou quebradas provando o aço Solingen delas, igualmente enferrujadas dependuradas ali. Ela,
vassoura, a futura consorte, a ser decrita após como prometido. O serrote,
agora cego não corta nem água diz a oposição; aliás grosa tendo sempre afiada
língua, em se tratando de tratar o esposo e a ex-rival grosa, a outra grosa. O
esquadro, sempre a prometer ângulos retos, descumprindo. O arco de aço com serrinha
de aço já sem dentes banguelada a semelhar fita de arco de barril que antanho
segurava as partes de madeira dos corotes de guardar e envelhecer líquidos como
os tonéis de vinho; enfim não cortante e por causa disso a figurar no painel
para enganar bobos, em desuso o arco. Vemos enxó, plaina (esta também uma
desafeto dela, a ex-namorada futura Senhora Alicate; a plaina virou titia,
ninguém quis) martelo, aliás martelos sim marretas não por pesadas e atiradas
numa lata de badulaques, vai que caíssem estando penduradas no painel, nos pés
da gente... lápis, lápis de carpinteiro com grafite grosso pra fazer errado o
risco certo na madeira a ser trabalhada; arco de pua engastalhado noutro prego
sobrante do painel. Que vemos mais? ora, a bancada de trabalho para satisfazer
raivas contidas e furores do martelo quem sabe decepcionado com o descaso de
grosa na guerra de conquista no caso numa espécie de conquista da fêmea ao
macho da espécie e não do macho à fêmea da espécie; porém a bancada não estando
no painel propriamente dito. Por acaso, não: acaso não, enfim o painel fica sim
grudado na parede a facilitar tomar-se quaisquer ferramentas a uso; ele com
suas ferramentas.
Em outras
palavras, é o que agora vimos, vamos agora a ela, futura Senhora Alicate.
O incrível
neste incrível é que a fêmea da espécie coisa, mui tagarela no tempo em que as
coisas falavam a lembrar aqui ter acontecido ainda antes do tempo em que os
bichos falavam; o incrível é que ela não deve normalmente ou só comumente
figurar num painel de uma oficina desarranjada, onde se vê de tudo, além de
tocos e sarrafos de pau em todos tamanhos e quantidades e ainda muita sujeira e
poeira (atchim, obrigado, não tem de quê). Trata-se da Vassourinha de pelos com
haste e buraco a ser presa num prego do painel, ou cai, é claro, no pé igual a
descuidada marreta. Mignon-zinha, pois horroroso até pensar uma vassoura
grandona pendurada na parede no painel atrapalhando tomar outros intrumentos do
instrumental. Pequena, jeitosa, limpa à limpeza dos fragmentos na banca de
trabalho todora suja e mais poeira e mais atchins e mais não tem de quê.
Jeitosa delicada manuseável apetitosa – tanto que atraiu Alicate. Mas
implicante; visto andar limpando todo momento onde sujo às vezes nem bem sujo,
em outras palavras: não havendo sujeira decente e digna desse nome; irritante
inclusive, por irritável; chata, pronto.
Não sabia,
saberia o pobre! não sabia o pobre Alicate, ao desposá-la, aqui com ajudazinha
do causídico fracassado que não passou no exame da ordem porém se enganchou
como delegado tendo ordenança e a lei a seu favor; sim o delegado de polícia
auxiliou a Vassourinha de pelos a casar com o trouxa Alicate. Enfim não sabia
ele que ela iria pegar no seu pé todo minuto todo momento todo dia todo mês
toda vida; somente por causa dos desleixos do consorte. No fim quando fim,
filhos crescidos a rapa do tacho era o Martelinho quebrador de vidros
afrontadores de pai; já a fêmea da espécie mandona e Alicate abaixando a cabeça
admitindo culpas e a porcaria em que se tornara – no fim ela a dizer: macho é
tudo porco! Era. Ou não era, era o que se via pois um alicate que não apertava,
não cortava arame, frouxo, enferrujado, bom pra sucata, a sucata onde fervilham
vermes chupadores de cadáveres. Aí Alicate a pensar, a dormir seus pesadelos,
tremia nas bases... Sem que ela parasse de blasfemar seus ditos e contraditos.
Um dia, isto
em começo da série de filhotes e crias mais, um certo dia berrou a fêmea da
espécie ao macho em espécie, este a abrir a boca sem entender, berrou, barrigão
assim pra dar à luz, “cê pensa que eu devo povoar o mundo!” (No que ele para
melhorar o padrão da briga conjugal poderia corrigir, chato como era Alicate:
“mundo não, mulher, o painel grudado na parede cheio de ferramentas velhas e
usadas quase usáveis ainda”; não disse se calou).
Todavia a
série prosseguiu enriquecendo o lar, vieram pregos martelos porcas chaves-fixas
chaves-de-fenda chaves-inglesas serrotinhos (sem quaisquer conotações de
infidelidade, porque Vassoura íntegra e até mui religiosa ou apenas temente nos
desconhecidos e nas ignorâncias; ou só em vista haver enfeiado, seria ‘enfeado’
a satisfazer a academia! não importa: horrendou e por outro lado Alicate
somente a temer ferrugem e o desuso mais que os vermes cadavéricos; aí não
temeria perder a beldade para serrote); vieram após esquadrinhos, estes
praticamente sem sexo, vieram liminhas, enfim outras peças e instrumentos de
alguma beleza na opinião dos pais.
Contudo
voltemos ao patriarca.
V – O Homem
e seus Porquês
A prova mais
cabal do viver de Alicate, Alicate assim chamado a agradar os íntimos mas a
agradar a educação da gente Sr. José Alicate da Silva, seu Criado, a prova sim
ou pra não se entender tal viver encontra-se na ação doutrem sobre outrem;
outrem é cúmplice doutrem – não isentando o comparsa de seus próprios pecados,
sim explicando ou a tentar explicação do(s) motivo(o) daquele agente agindo em
cima do pobre, aqui ‘pobre’, o que é diverso de infeliz como se vê a três por
dois no mundo de relação. Outrem é cúmplice de quem se candidate a feri-lo; a
tanto se comprazer (masoquista?) ao ser ferido!
Isso, diriam,
tema polêmico, além de burrice; e que seja burrice, pronto. Partamos aos
porquês da coisa, à polêmica se for preciso, se se quiser apenas desentendimento.
Antes disso
(estas linhas adoram o vocábulo ‘antes’, a ser repetido desde o começo
enfeiando a redação) antes vejamos, num corte proposital, tudo o que se faz não
fazendo por mero hábito mas vindo como propósito; enfim vejamos algumas
trivialidades do complicado ser. Dona Vassoura, decerto na lua de mel
Vassourinha e beijinhos e outras frescurinhas; após ela vira Vassoura,
pendurada no painel ou limpando restos de trabalho na bancada quiçá no solo
onde o porcalhão derruba demais sujeiras e detritos e restos; Vassourinha pega
em seu pé: já tomou as pílulas, ele que pronuncia “píula”, engoliu as drágeas,
vomitou os comprimidos, e põe interrogação exclamação reticenciando o lembrete
que é mais ordem de fera que delicadezas de esposa-enfermeira. O bruto, não.
Sim, diz não para mostrar machura; como não pega, não faz efeito algum, abaixa
o tom e assopra um ‘não’ dos mais medrosos mansos e de entrega total... Aí
toma. Todavia exagera no positivo, havendo exagerado negativamente não
engolindo o remédio e isto ocorrendo mil vezes, mil e uma. Exagera, come três
unidades, cinco, dez até, duma vez. Não, não morre; nunca morreu. Não, aqui
exagero nosso: morreu mil e uma. Nessa existência encurta um pouco a vida
apenas nesse desregramento. E assim noutras batalhas contra outras moléstias.
Contudo vivo.
Outro corte em
exemplo reside no seu momento futebolístico; aprecia ver jogo na televisão;
Alicate vê um show televisivo, dessas apelações não enlatadas mas ao
vivo, mui comum na telinha: o apresentador, no caso uma belíssima e rica em
cosméticos, o apresentador mostra o entrevistado do dia, brinca com a plateia
que são dezenas de garotas pagas a aplaudir quando exigido a dizer não quando
ordenado e orquestrado e para gritar como de praxe. Trata-se dum ídolo da
seleção do país, um dos onze pernetas selecionados por anos e com glória já em
declínio porém mocinho na terra batida, por pobre e ignorante. Aplaudem o
jogador. Aí vem o sexo, item básico da propaganda e que dá ibope de tevê.
Quantas mulheres já teve. O herói relaciona, conta nos dedos, se esquece
dalgumas, conta os filhos e onde foram fabricados, muita vez no estrangeiro a
valorizar seu machismo. O aparesentador dá a palavra para o auditório, as
moçoilas gritam desejar que o herói as engravide também. O apresentador se
peja, envergonhado quem sabe ou por ser seu papel. Nisto Dona Vassoura vem ver
(leia-se fiscalizar) a sujeira na saleta de tevê. Alicate muda rápido de canal,
pega um religioso e faz o sinal da cruz, enquanto se imagina o herói entrevistado
a agarrar as belezuras jovens do auditório... A esposa varre e procura outras
sujeiras mais sujas noutros compartimentos. Ele volta ao canal anterior, pegar
o restinho; uh, acabou e só vê propaganda e após os reclames aparecendo outra
baboseira. Alicate se decepciona, coitado.
Ninguém vê.
Aliás ninguém vê mesmo por invisível, em não sendo a observar apenas os atos
dessa ferramenta um bocado velhaca. No entanto atrás àcima embaixo perto longe
de Alicate um ser medonho maquiavélico atrevido esperto ou apenas um adversário
em folga de outras trapaças ou do métier de sua ignorância aparentando
maldade: ei-lo a trançar seus pauzinhos a puxar suas cordas de controle, a
impor sua vontade a outrem. Outrem aqui chama-se Alicate, é um pouco convencido
(ou bobo) e então se põe em fazer o que supõe de sua lavra livre e de espontânea
vontade. Se bem que nisto num pôr culpa em alguém, Vassoura por exemplo, um
vizinho o patrão o juiz (a mãe dele) ou o governo de vastas costas. Quem vê,
observando os atos, vê os atos da enferrujada ferramenta, não as ordens em
mando doutrem, este certamente a rir gargalhar quem sabe pelo ridículo de seu
instrumento, que Vassoura chama Zé e o povo conhece por Alicate.
A rigor nem
Alicate se entende meio teleguiado doutrem; imagina estar a remar tão só contra
a corrente do mar tenebroso do destino. Ele crê no destino, um monstro
fatalista e fatal qual máquina que põe dispõe não propõe: manda. Isto
diminuindo, supõe por sua vez Alicate, suas próprias faltas; não obstante sente
o azedume do amargor na boca santa de xingar o governo, aquele ladrão. Têm
outros pequenos entre os milhares de lances da vida – em que há ação dalguém lá
no distante do perto a agir sobre alguém, alguém aqui afiançado ser Alicate; o
que certamente a influir (negativamente) na esposa e na prole, esta que é
imensa variedade contida no painel na parede e compartimentada no caixote onde
se guarda badulaquinhas úteis, por imediatamente inúteis, inclusive alicates e
martelos porcas e parafusos-de-fenda e chaves-de-fenda etc. e tal. São fatos
que se deram desde que Alicate é Alicate (pra não falar desde que o mundo é
mundo, em vista ser esta expressão mui chã repetitiva e banalizada) desde antes
mesmo, antes de ser Alicatinho bebê. Um deles, desses acontecimentos que ficam
na memória da gente maismente na mente dos adultos as crianças não se lembram.
Lembrassem perceberiam a ação dalguém sobre alguém, aqui uma tantadurinha de
alguém, pois Alicate nenê. Mamãe, uma vassoura ou grosa grossa velha e ruminosa
ou uma caneca ou uma panela no universo das coisas no tempo em que falavam as
coisas, antes se disse que dos bichos; e papai, um alicate ou uma chave de
rosca masculina, mui macha, papai e mamãe estão com Alicatinho, então sabendo
já falar mas falando apenas bá-bá-bá, estão com ele ao colo para o batizado na
Igreja de Santa Grosa, a milagrosa. Realmente diziam ser Catedral, não passava
de Capela embora o padre sendo acessível. Acessível sim e beberrão viciado no
vinho do padre que afirmavam não conter álcool. O casal pagara o serviço de
batismo e o pároco meio amolentado seguro pelo sacristão oficiava no batistério
frente à estátua de barro de Santa Grosa a água-benta, quando rolaram da
cabecinha calva de Alicate gotas salgadas a escorrer até o nariz dele e deste,
após, à boca (a boca é aquela parte que num alicate serve para, fechado,
prender digamos um arame ou uma porca, vai que se tenha esquecido a
chave-de-boca no caso uma um-por-dezesseis e então se valendo da boca aberta
depois fechada do alicate e daí apertada até a porca ringir seu desespero; aí a
função da boca dessa ferramenta). Chegado o líquido santo à bocarrinha do nenê,
ei-lo a chorar gritar e então ‘inconsolar’, aflitando a grosa ou caneca ou
vassoura ou panela ou outra coisa com a qual papai havia se casado nos
conformes; antigamente só davam os conformes, com padre e cartório e baile tudo
bonitinho, não sendo que os namorados fugissem tomassem um cavalo, que este
fosse roubado isto não importante: ele na sela a comandar como bom macho e ela
a futura esposa e mãe de Alicatinho na garupa; depois do ‘não tem jeito’, quer
dizer: Alicate já engravidado na barriga dela, aí o durão sogro aceita a filha
de volta, fazem o casório e pronto; no caso em questão o matrimônio se deu
certinho inclusive com festa tendo no fim o baile, embora neste tenha havido
senãozinho: saiu facada entre convidados pela tábua (assim se dizia o
enjeitamento duma dama a um cavalheiro matuto nas festanças de roça) a tábua
duma jovem pedida a dançar na última valsa, a sanfona já indicando a melodia e
o ritmo aos pares. Enfim o caso aqui tratado é que Alicatezinho fez blululuf a
assoprar o sal da água a aprontar um berreiro medonho, acordando inclusive o religioso
e seu ajudante. Dirão apressados: o que isso tem a ver com a ação dalguém sobre
alguém, este um babaquinha de colo!? Aqui é que a porca torce o rabo, no dizer
da filosofia da poética caipira. Pois que o invisível quem sugeriu primeiro ao
santo bebum tremer despejar o oceano na cabeça ainda com moleira de Alicate; e
a seguir sugeriu-mandou abrisse mais que costume as duas pontas da boquinha de
alicate de Alicate. Um autêntico porquê. Ainda assim existem outros senões no
senão ora levantado. Seguinte. Dalguém, chamemo-lo obsessor e à porcaria
batizada pelo sugestivo nome de José Alicate da Silva, Silva do genitor é
visto; a ela chamaremos obsedado, pois na ativa negativo por sofrer
indicação-sugestão-ordem da entidade obsessora sem o saber; enfim o obsessor
guardava um rancorzinho do vigário, agora em cabelos brancos a coroar a calva
alumienta, o sacristão não: demais cabeludo e bobo. Por causa dumas desfeitas
do chefe dele (obsessor) quando coroinha noutro tempo noutro templo, então o
padre jovem e o menino mais novo ainda
sendo ajudante e coroinha; este faleceu duma morte-morrida qualquer mas não
desgrudou do religioso, como não ficaria longe doutros rivais, inclusive de
Alicate que recebia naquela hora o batismo. Foi fácil trabalhar o sacerdote já
trêmulo na idade avançada e no avançado do vinho: ploc, derrubou, escorreu
engoliu soprou o outrinho e abriu um desconsolo de gritaria! Tem mais – o
obsessor também agindo contra a madrinha, antiga desafeto no tempo em que
privaram ambos. Ora, a tal madrinha nesse batismo, juntamente fazendo par com
um tio emprestado no lugar de padrinho, já que a fêmea da espécie coisa em
questionamento ficara para tia, uma solteirona carola, essa era um
serrinha-de-ferro de arco-de-aço, sem arco acoplado pois titia; era dessas
serrinhas que novas vêm pintadas de amarelo da loja a provar virgindade
zero-quilômetro... bem ela fora mui usada, perdera em fragmentos de tinta a
coloração, a qual se impregnaram na madeira no corte de madeira (nunca aceitara
serrar barras de ferro, para as quais fora ‘fabricada’) de forma que gasta no
tempo e na beleza agora servindo na pia batismal de Alicate, aquele do
berreiro. Quando mamãe entregou o filho chorão à madrinha para consolá-lo,
ocorreu de mais uma vez o obsessor comum agir sobre ambos a aumentar a confusão
e o desespero: quase foram expulsos da igreja pelo terceiro obsedado, o
consumidor de vinho. Enfim Alicate estava batizado, não morreria pagão, horror
terror dos pais aflitos antes por isto e depois por aquilo, isto é – o
berreiro.
Contudo, com
todo o exposto, é possível o possível se se pensar na maldade dalguém
injustamente. Sim, por que a oposição sempre tem de ser má! O governo – aquele
ladrão no pensar do patriarca Alicate em ótimo exemplo educativo à prole, como
martelinhos quebradores de vidro curiosos em ver a feiura do pai deles;
serrinhas liminhas esquadrinhos etc. e tal, tal a caber, sucessivamente embora,
no ventre da Vassoura de cabo com furo a ser dependurada no painel – o governo
tinha então nos oposicionistas (leia-se os que não aceitavam a cartilha
política do PG, ou seja Partido do Governo) tinha o governo nos adversários a quem
pôr a culpa, inclusive pelos possíveis roubos governistas e demais corrupções;
mesmo porque profundos conhecedores as coisas governamentais, em matéria de
oposição política, visto antes serem a oposição, agora virando situação das
coisas de governo. Alicate contra (sempre sugerido pelo seu obsessor) contra o
governo, aquele ladrão. De fato, Alicate se impressionava com os dólares nas
cuecas das ferramentas do governo, onde se encontravam serrotes faltando um
dente, traçadores, bigornas e outras coisas duras e toscas. Não aceitava os
desfalques que se fazia em nome do povo, das coisas do povo, para que a conta
fosse paga pelo povo trabalhador, trabalhador ou safado igualmente até prova em
contrário. Todavia estas linhas não estão querendo ou sugerindo desejar querer
fugir da explicação do problema da possível maldade obsessora. Não.
Sim, vamos à
coisa dessa coisa tida má na conduta de obsedar Alicate, Zé à patroa
reclamenta, sr.José ao povo educado e de fora dentro da oficina onde o painel.
Em verdade essa entidade não passando dum ser brincalhão apenas. Não feria,
feria sim mas sem planejar sem quase pensar no mal bem feito, pois tratava com
seriedade e mesmo meticulosidade a ação. Se mau sujeito, insuflaria o crime a
droga o assassinato, não o fazendo. Somente para rir-se de Alicate metido nas
encrencas e confusões em que se metia essa ferramenta, agora com mais ferrugem
e sem voz ativa que realmente uma ferramenta.
Inclusive
passou pela mente obsessora o impor um nome, o nome de alguém, alguém a ser
lembrado aqui por Alicate da Silva. Pensou que houvera sugerido à genitora do
instrumento o belíssimo apelido Alicate. E aqui, mais a explicar esta nova,
velha quase como o mundo, esta nova confusão.
Seguinte. Um
dia, já tarde em a noite de sua existência, pegou-se Alicate bonzinho mansinho
bom vizinho bom esposo bom cidadão (aí não xingava mais o governo, só o queria
mal no pensamento) já não olhava as coisas jovens a passar na rua rebolando as
coisas; não criticava mais os errados por envelhotando ou consumadamente idoso,
não podendo errar direito e a contento os errados. Enfim bonomia mansidão e
muito catarro pois que a ferrugem entrando até na boca gasta dele; nesse ponto
partiu a frequentar a igreja. Dirão a nos lembrar: que diabo, se parecia ateu
ao menos anticlerical! Não se explica isso ou aparece nova confusão em cima da
confusão desta explicação e aqui seria uma novíssima na família das confusões,
confusas igual as coisas: chega, pô! Então Alicate anda contrito; e mais ainda
– faz uma pregação a um auditório imenso de mais de meia dúzia de adeptos
acompanhantes numa sessão com muita reza, alguma até braba. Diz coisas belas,
engrandece a moral das coisas a deixar as coisas de boca aberta abismadas
emudecidas. Conclui a peroração o orador: não pensem que estas santas palavras
são de minha lavra, não: recebi inspiração e sugestão dos santos, desejosos em
atingir os irmãos!
Era verdade
essa mentira das coisas. Senão que de fato um iluminado falando por sua boca, a
assustar o obsessor traquinas ali presente porém invisível ao público; ao menos
aqui se configurando alguém a falar através e por outro alguém. Eu, disse José,
o irmão José, eu sou somente um alicate a prender com os lábios os sons, o
pensamento é do santo, o qual move as pernas-hastes do alicate para que este,
pressionado, feche sua boca e prenda por sua vez o prego o parafuso a porca
inanimados...
O pensamento
dalguém ouvindo alguém caiu de costas com a surpresa. Não disse, disse o
obsessor apenas a pensar ‘fui enganado’.
Fomos
enganados.
Mesmo porque
ninguém nunca viu coisa aprontar tantas coisas. E muito menos falar. Em não
sendo no tempo em que as coisas falavam, advertindo e assegurando ter ocorrido
antes que os bichos falassem.
Marília maio 2008
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