A Torre
1.Hoje
Naquele dia o homem indo qual seta impulsionada pra
cima não rumo ao céu ao inferno. Pensava falava esbravejava arrasava empecilhos
vencia empecilhos no ímpeto de seguir se enroscar se desenroscar vencer
derrotado embora.
Busco o cimo deste despenhadeiro posto às avessas
em meu caminho, rasgo o caminho, caminho a encurtar o destino, meu destino, o
destino que me persegue nesta fuga eterna... Assim me assusto com esta ideia
impensável que não obstante penso sofro permaneço rasgo e sigo.
Meu caminho não para; ou por outra, agora paro sim
mas sequer posso avaliar meu cansaço, cansaço sinto se bem nesse mal impreciso,
a musculatura a gemer a ossatura a doer e o coração dói mais ainda no
sentimento que sinto e me tortura.
Ainda bem, o bem nesse mal! ainda que felizmente encontrei
esta torre encaracolada serpenteada nas suas teias e na sua escadaria a
guinar-me pra cima, as aranhas os insetos a me segurar, quase a me prender e
imediato a me empurrar pra baixo como para ver um corpo grande forte pesado que
mostro a ir em abismo ao inferno de baixo; visto andar buscando o inferno de
cima; e este não chega a ser o paraíso, decantado paraíso. Pois que tenho tal
sonho, com o peso das toneladas em minha consciência cobradora... Felizmente
sim encontrei a torre o abrigo um coração aberto a me guardar me resguardando
na fuga louca. Felizmente a fábrica, felizmente o abandono deste esconderijo.
Ou...
2.Chegada
Ao chegar aqui, ao pé no rés do chão envolto no volumoso
da vegetação selvagem onde apenas meu barulho até aí único som, o som dum ser
rasgando o silêncio a conversar o silêncio com o silêncio dos gritos de mil
animálculos a voejar no verde vegetal virgem, virgem! gritei e indaguei afoito
medroso na carreira a esmo vencida; porém estaquei; estaria finalmente só,
outra vez indaguei a mim mesmo de coração a sair pela boca. Olhei atarantado em
volta ainda medroso, sempre temeroso desconfiado desacreditando já pudesse
haver uma saída naquela entrada em meio a capins a esconder o prédio que encontrara.
Era, percebi examinei constatei tateando, era um edifício e tal edifício com
orifício como entrada; um edifício velho como o velho tempo, quem sabe,
desejei, quem sabe uma velha construção abandonada, feita para minhas necessidades
e as necessidades da fuga. Acheguei-me mais mais afirmei como um achado e isso
lembrei no momento como sendo um presente para quem não mais dispondo
aniversário e a viver como refugo humano, ainda humano, diziam minhas
necessidades. Tornei a olhar examinando aquele achego de felicidade. Vi um
amontoado de alvenaria nada medieval porém medieval no aspecto. Não longe
havendo uns restos, também abandonados, do que fora uma placa de aviso no habitual
‘vende-se’ ‘aluga-se’ igualmente invadida por vegetação bravia em verão chuvoso
e calor medonho, o sítio entretanto no atraente frescor; o resto eram muros
desmoronados e em decomposição e sempre a vegetação alta a cobrir e vencedora
igual milênios sobre pobres dias. A edificação...
Dava ideia duma fortaleza largada aos caprichos dos
anos, não mais que poucos metros embaixo acobertada pelo vegetal selvagem no
entanto acima pujava como seta a se dirigir ao firmamento; a custo naquela
manhã ensolarada e sempre quieta, a construção muda na impavidez sumia para
cima, admiti na fraqueza de meus olhos desacostumados com tanta liberdade. Investia
ela para a altura, a sumir de vista, imaginei em minha fragilidade. Insisti no
observar em exame e quase a vertigem da altitude a me atingir, como quem se
despenca sem defesa para um fosso sem fim mas no caso às nuvens! A custo
percebi nesse despenhadeiro em contrário umas janelas miúdas, mais buracos
entre rachaduras que de fato aberturas milimetradas esquadrejadas comportadas e
com fechos como se exige quando se pode exigir. Pensei, rápido com a velocidade
do pensamento, como sendo a torre minha defesa minha casa contra o mundo feroz
à sua caça...
Poderia supor uma fábrica abandonada, com seus
restos como peças de museu ou ainda a indústria a ser deixada a formar um todo
igual sítio arqueológico à posteridade provar o improvável duma civilização de
rodas dentadas e esteiras, qual a esteira do tempo se habitua a oferecer; para
se saber o que não se pode in totum saber. Não obstante eu via examinava
sentia mesmo o cheiro do conjunto no ácido vegetal e no hálito da velharia de
cimento e apesar disso não sabia tudo igualmente.
A muito custo a muito conter a muito espreitar ouvi
longe, felizmente já mui longe, sons do caçador: os homens investidos em
caçadores, que na parte a me concernir achando-os apenas predadores, nisto o
pior sendo eu a caça... Atemorizei-me ainda assim e olhei em unhas e dentes
para minha salvação ali a se ofertar como abrigo.
Dei antes de adentrar no refúgio uma vista rápida
na vida pregressa.
3.Ontem
Ontem era, dias e dias sendo dia e noite, muitas
noites a fugir, ontem andava já em farrapos e a cheirar mui dormidos suores a
cambalear na fuga, sempre a fuga, agora a barba mostrando um trapo humano a
semelhar nossos monos ancestrais a vencer a tentar vencer agruras em
territórios baldios a acumular quilômetros no desespero, a escapar de tudo
pudesse representar os algozes que eram toda uma civilização com seus
benquistos bem educados bem formados dentro da formatação da existência
santificada pela religião e pela lei dos homens, os quais não toleram abusos e
mesmo desvios menores erros menores deslizes menores enganos menores, muito menos
os de grande expressão – como me acusavam. Ora, não dispunha álibi e menos
ainda quem se dispusesse a me defender dos atos da minha imprudência talvez.
Num repente virara persona non grata ou apenas bode expiatório nas
mazelas corriqueiras dos exploradores; isso em minha opinião, se é que os
fracos possam ter opinião e mais corajosamente expô-la. Não podia ficar pra ver
resultados nem esperar ameaças: então fugi por muitas cidades, depois por seus
arredores permanecendo e após escondi-me como possível na precariedade das situações.
Venci o vazio, sempre correndo sempre a me esconder; venci a selva de pedra e
poluição fugindo dela e a seguir da selva com seus matos ainda a me refugiar
qual um réprobo, a usar mil caminhos até o caminho chegar na torre, no hoje de
ontem. Venci tudo, inclusive a fome a sede roubando alimentos dos que os
tivessem. Não venci a mim mesmo e assim me entrego hoje de hoje à minha morada
na torre amiga.
4° Anteontem
Muitíssimos dias separam já anteontem, na perda de
seus dias a se perder nas noites deles, em que me perdia a esconder. Mas
esconder o quê! indaguei não soubesse sabia. Vivíamos uma vida sem vida já e
assim sacrifiquei a vida dela, antes a minha porque após constatei o inferno da
indefinição e da fuga; num pior momento a fugir de mim mesmo e a fugir dos
outros nem falo: foi o que mais apareceu; praticara na fase anterior ao crime
outros crimezinhos e isto não punha como ‘uma gracinha’ a rigor nem pensando
nisso – fumar beber as más companhias ou as companhias de merecidos amigos; em
suma contravenções que faziam e decerto ainda fazem a alegria da sociedade do
bom costume e da moral má. Eram pequenas insignificantes invisíveis mesmo
pilhagens que se não conta, ao homem comum não conta, não sabendo o que pensam
os que pensam e pesam o fazer como os filósofos religiosos poetas; para nós uma
brincadeira, o mundo não passa de brinquedo onde nem sempre se leva a melhor;
ou seria quase sempre se levando a pior!? Não punha tais questões nem cheguei a
imaginar minha cota aos prejuízos alheios, alheio. Inclusive alguns se não
muitas faltas eram graves como admite a sociedade dos homens bons e corretos
sobre assassinatos banais praticados por via indireta, ou seja um auxílio pela
cumplicidade ao hediondo de outrem. Aqui entrando mil vícios, sobretudo drogas
leves e as pesadas. Penso haver sacrificado a companheira por influência da
pesada, ou pelo abuso alcoólico, ou por ambos fatores. Contudo isso não
explicando o que a norma acredita ser a crueldade. Não explico a volúpia ao
sangue, o meu plano ao crime, a execução fria e técnica para chegar ao fim.
Sequer imaginava então ser não apenas o dela e sim meu fim... Esse estado
afugentou a lembrança, não a memória esta nunca desaparecendo de fato, a
lembrança somente do estado anterior ao crime, isto é crimes inexpressivos aos
quais fazem vistas grossas os cidadãos tidos decentes. Fixei o maior, desprezei
os insignificantes; embora, procurando atirar as culpas na vítima, a virar
melhor eu próprio a vítima. Não é esdrúxulo isso, pergunto hoje neste instante
na torre. Todavia parei agora pensando: corri anos anteontem.
5° Trasanteontem
Acho agora,
não quando se dá deu-se a coisa trasanteontem, creio ter vindo ao planeta como
um endividado, ao menos distorcido nas verdades. Pois que em pequeno ainda
figurando mera e inocente criatura já mostrava certas más tendências: espremer
insetos próximos, ou bater em quem me cercasse; e dirão disso tudo a normalidade
no comportamento infantil, não posso discutir a assertiva. Mais tarde sendo o
terror dos manos no lar, e já não tendo lar constituído e com a formação que
mesmo na pobreza quiçá na miséria se espera; entretanto minhas tendências eram
no mau sentido; depois piorou todos a crescer, crescendo na mesma proporção o
desentendimento entre irmãos na família numerosa. Fora do lar atraía péssimas
companhias e isto manteve-se em adulto. Ajuntei-me muitas vezes e muitas vezes
deixando as companheiras mas sem justificativas válidas, como o fazia no
trabalho, onde não me fixava, amiúde pondo a culpa nos colegas e demais conviventes.
Enfim sempre fui um ser problemático para os que dividiam comigo as
oportunidades. Vivi precariamente tive precariamente filhos e lamentavelmente
seguidores. Contudo a rigor nunca os amei, antes tive não mais que querências
fugidias, querências por mulheres filhos e conhecidos. Um coração frio e
despojado quase de sentimentos nobres... Parecia não fosse apenas um reflexo da
família mal formada e do meio em que vivíamos: era mais como que um produto que
saíra da produção com defeito, desses que hoje em dia o consumidor briga e
devolve. Porém a peça social continuou – não propriamente livre mesmo porque a
liberdade integral não existe – continuou ela, a defeituosa, a conviver entre
‘peças perfeitas’, fossem perfeitas as pessoas numa coletividade. Enfim destoava.
Até achegar-me por inexplicáveis caminhos à mulher; diria consorte essa infeliz
sem sorte, porém nunca me casei legalmente e sequer na igreja. A criatura me
deu certa estabilidade e alegria; cheguei por isso considerar-me feliz, este
termo infeliz na sua expressão e incompreensivel ao comum dos mortais. De
maneira que inclusive surpreendeu o meu próprio ser, quando me deparo comigo
mesmo parado a faca o sangue e quase sem saber o como justificar meu ato! Daí
acordei corri corri corri até hoje.
6° Hoje
Agora demoro meus dias nestas noites e dias na
torre, este abrigo que suponho e antes de supor desejo que seja intransponível.
A poder curtir meu viver sem me engaiolarem minha precária liberdade. A rigor
podendo ver isto como prisão, uma prisão de escolha diante da escolha que faz a
civilização consumista da prisão em limpeza da sociedade a ficar livre dos
elementos impuros e podres. Rompo desde lá debaixo no rés até aqui em cima os
empeços. Comecei a subir vencendo degraus falhos quebráveis quebrados, a vencer
aranhas pachorrentas pacientes a tecer redes e as venci, sujei-me e me
embaracei porém venci; afugentei mil ratazanas espantei mil e um insetos e a
poeira acumulada milênios em minha vadiação a vadear este rio seco trincado e
em caracol rumo ao cimo onde me encontro no penúltimo andar deste mirante em
vigília, que me permite um pouco mesmo o sono reparador. No entanto não durmo,
porque a consciência é desperta – e cobradora! Dia e noite na noite deste dia
de hoje ando desperto, maculado pela memória mais e mais clara como nunca experimentei
e apenas sou um velho matusalém de barbas esbranquiçadas a certamente mostrar o
bodum com o qual o hábito releva o costume e ter o passível para o possível
viver – a se mostrar um macaco e a ser ao mesmo tempo um homem, fugitivo
resguardado embora mas em fuga sempre para... não sei!
Afugento embaraços cobradores, revejo constato não
só a grita dos homens, o policiamento feroz da ferocidade da lei e dos que
servem a lei a me fustigarem; não só isso, não isso apenas, a imagem tal qual
fotografia acoplada a meus olhos, debalde fechados apertados noite adentro
nesta madrugada interminável, revendo o quadro da tragédia dela, mais de minha
tragédia: o ato do crime. Limpo ‘relimpo’ olho, olho a examinar em temor os
testemunhos dum crime perfeito em volta; atiro longe depois retomo ajunto
escondo os pedaços do que fora uma linda mulher, mulher de me fazer carinho e
de servir como anteparo às minhas mazelas e fracassos; e os pedaços não podem
ajuntados refazer o todo. Escondo a seguir as partes num saco a conter um todo
esquartejado, limpo o todo no seu aparato externo com um pano branco que se
avermelha, escondo o volume para que o tecido esconda de vez o crime, saio
semelhando um justo na via pública escura silenciosa desconhecida e ganho a
liberdade e ganho a prisão, a prisão minha que os dias das noites querem virar
eternidades de lembrança.
Tento. Tento dormir, esquecer, passar uma borracha
no crime e nos dias do crime que se foram.
Acordo não tendo relaxado.
Engano. Engano o medo que sinto no medo que o medo
dá a quem tenha medo. Engambelo os olhos entorto as orelhas, aguço o ser em ver
o perigo apenas lá fora, fora do improviso de janelinhas aqui do alto vendo lá
embaixo. Escondo-me na visão dos escombros que avisto lá no solo; para
distração e não me convenço.
Tudo em vão: os pedaços não querem virar gente e
querem lembrar a gente. Nem o vento lá fora a fustigar dentro, nem o relâmpago
a estrondar bravio com a chuva selvagem e depois acomodada também ela nos
costumes – sequer eles conseguem asserenar os gritos que são mesmo decerto meus
gritos no silêncio e na possível paz que dá o abandono da gente à gente que
está em seu próprio abandono. Nem mesmo a fome a custo toureada com restos, nem
a dor física dum estropiado e em esfolões nos torniquetes de improvisos vencem
a dor dos gritos. O grito é a solidão, a solidão é meu grito.
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