domingo, 11 de agosto de 2019

A Torre


  A Torre


1.Hoje         
Naquele dia o homem indo qual seta impulsionada pra cima não rumo ao céu ao inferno. Pensava falava esbravejava arrasava empecilhos vencia empecilhos no ímpeto de seguir se enroscar se desenroscar vencer derrotado embora.
Busco o cimo deste despenhadeiro posto às avessas em meu caminho, rasgo o caminho, caminho a encurtar o destino, meu destino, o destino que me persegue nesta fuga eterna... Assim me assusto com esta ideia impensável que não obstante penso sofro permaneço rasgo e sigo.
Meu caminho não para; ou por outra, agora paro sim mas sequer posso avaliar meu cansaço, cansaço sinto se bem nesse mal impreciso, a musculatura a gemer a ossatura a doer e o coração dói mais ainda no sentimento que sinto e me tortura.
Ainda bem, o bem nesse mal! ainda que felizmente encontrei esta torre encaracolada serpenteada nas suas teias e na sua escadaria a guinar-me pra cima, as aranhas os insetos a me segurar, quase a me prender e imediato a me empurrar pra baixo como para ver um corpo grande forte pesado que mostro a ir em abismo ao inferno de baixo; visto andar buscando o inferno de cima; e este não chega a ser o paraíso, decantado paraíso. Pois que tenho tal sonho, com o peso das toneladas em minha consciência cobradora... Felizmente sim encontrei a torre o abrigo um coração aberto a me guardar me resguardando na fuga louca. Felizmente a fábrica, felizmente o abandono deste esconderijo. Ou...

2.Chegada
Ao chegar aqui, ao pé no rés do chão envolto no volumoso da vegetação selvagem onde apenas meu barulho até aí único som, o som dum ser rasgando o silêncio a conversar o silêncio com o silêncio dos gritos de mil animálculos a voejar no verde vegetal virgem, virgem! gritei e indaguei afoito medroso na carreira a esmo vencida; porém estaquei; estaria finalmente só, outra vez indaguei a mim mesmo de coração a sair pela boca. Olhei atarantado em volta ainda medroso, sempre temeroso desconfiado desacreditando já pudesse haver uma saída naquela entrada em meio a capins a esconder o prédio que encontrara. Era, percebi examinei constatei tateando, era um edifício e tal edifício com orifício como entrada; um edifício velho como o velho tempo, quem sabe, desejei, quem sabe uma velha construção abandonada, feita para minhas necessidades e as necessidades da fuga. Acheguei-me mais mais afirmei como um achado e isso lembrei no momento como sendo um presente para quem não mais dispondo aniversário e a viver como refugo humano, ainda humano, diziam minhas necessidades. Tornei a olhar examinando aquele achego de felicidade. Vi um amontoado de alvenaria nada medieval porém medieval no aspecto. Não longe havendo uns restos, também abandonados, do que fora uma placa de aviso no habitual ‘vende-se’ ‘aluga-se’ igualmente invadida por vegetação bravia em verão chuvoso e calor medonho, o sítio entretanto no atraente frescor; o resto eram muros desmoronados e em decomposição e sempre a vegetação alta a cobrir e vencedora igual milênios sobre pobres dias. A edificação...
Dava ideia duma fortaleza largada aos caprichos dos anos, não mais que poucos metros embaixo acobertada pelo vegetal selvagem no entanto acima pujava como seta a se dirigir ao firmamento; a custo naquela manhã ensolarada e sempre quieta, a construção muda na impavidez sumia para cima, admiti na fraqueza de meus olhos desacostumados com tanta liberdade. Investia ela para a altura, a sumir de vista, imaginei em minha fragilidade. Insisti no observar em exame e quase a vertigem da altitude a me atingir, como quem se despenca sem defesa para um fosso sem fim mas no caso às nuvens! A custo percebi nesse despenhadeiro em contrário umas janelas miúdas, mais buracos entre rachaduras que de fato aberturas milimetradas esquadrejadas comportadas e com fechos como se exige quando se pode exigir. Pensei, rápido com a velocidade do pensamento, como sendo a torre minha defesa minha casa contra o mundo feroz à sua caça...
Poderia supor uma fábrica abandonada, com seus restos como peças de museu ou ainda a indústria a ser deixada a formar um todo igual sítio arqueológico à posteridade provar o improvável duma civilização de rodas dentadas e esteiras, qual a esteira do tempo se habitua a oferecer; para se saber o que não se pode in totum saber. Não obstante eu via examinava sentia mesmo o cheiro do conjunto no ácido vegetal e no hálito da velharia de cimento e apesar disso não sabia tudo igualmente.
A muito custo a muito conter a muito espreitar ouvi longe, felizmente já mui longe, sons do caçador: os homens investidos em caçadores, que na parte a me concernir achando-os apenas predadores, nisto o pior sendo eu a caça... Atemorizei-me ainda assim e olhei em unhas e dentes para minha salvação ali a se ofertar como abrigo.
Dei antes de adentrar no refúgio uma vista rápida na vida pregressa.

3.Ontem     
Ontem era, dias e dias sendo dia e noite, muitas noites a fugir, ontem andava já em farrapos e a cheirar mui dormidos suores a cambalear na fuga, sempre a fuga, agora a barba mostrando um trapo humano a semelhar nossos monos ancestrais a vencer a tentar vencer agruras em territórios baldios a acumular quilômetros no desespero, a escapar de tudo pudesse representar os algozes que eram toda uma civilização com seus benquistos bem educados bem formados dentro da formatação da existência santificada pela religião e pela lei dos homens, os quais não toleram abusos e mesmo desvios menores erros menores deslizes menores enganos menores, muito menos os de grande expressão – como me acusavam. Ora, não dispunha álibi e menos ainda quem se dispusesse a me defender dos atos da minha imprudência talvez. Num repente virara persona non grata ou apenas bode expiatório nas mazelas corriqueiras dos exploradores; isso em minha opinião, se é que os fracos possam ter opinião e mais corajosamente expô-la. Não podia ficar pra ver resultados nem esperar ameaças: então fugi por muitas cidades, depois por seus arredores permanecendo e após escondi-me como possível na precariedade das situações. Venci o vazio, sempre correndo sempre a me esconder; venci a selva de pedra e poluição fugindo dela e a seguir da selva com seus matos ainda a me refugiar qual um réprobo, a usar mil caminhos até o caminho chegar na torre, no hoje de ontem. Venci tudo, inclusive a fome a sede roubando alimentos dos que os tivessem. Não venci a mim mesmo e assim me entrego hoje de hoje à minha morada na torre amiga.

Anteontem       
Muitíssimos dias separam já anteontem, na perda de seus dias a se perder nas noites deles, em que me perdia a esconder. Mas esconder o quê! indaguei não soubesse sabia. Vivíamos uma vida sem vida já e assim sacrifiquei a vida dela, antes a minha porque após constatei o inferno da indefinição e da fuga; num pior momento a fugir de mim mesmo e a fugir dos outros nem falo: foi o que mais apareceu; praticara na fase anterior ao crime outros crimezinhos e isto não punha como ‘uma gracinha’ a rigor nem pensando nisso – fumar beber as más companhias ou as companhias de merecidos amigos; em suma contravenções que faziam e decerto ainda fazem a alegria da sociedade do bom costume e da moral má. Eram pequenas insignificantes invisíveis mesmo pilhagens que se não conta, ao homem comum não conta, não sabendo o que pensam os que pensam e pesam o fazer como os filósofos religiosos poetas; para nós uma brincadeira, o mundo não passa de brinquedo onde nem sempre se leva a melhor; ou seria quase sempre se levando a pior!? Não punha tais questões nem cheguei a imaginar minha cota aos prejuízos alheios, alheio. Inclusive alguns se não muitas faltas eram graves como admite a sociedade dos homens bons e corretos sobre assassinatos banais praticados por via indireta, ou seja um auxílio pela cumplicidade ao hediondo de outrem. Aqui entrando mil vícios, sobretudo drogas leves e as pesadas. Penso haver sacrificado a companheira por influência da pesada, ou pelo abuso alcoólico, ou por ambos fatores. Contudo isso não explicando o que a norma acredita ser a crueldade. Não explico a volúpia ao sangue, o meu plano ao crime, a execução fria e técnica para chegar ao fim. Sequer imaginava então ser não apenas o dela e sim meu fim... Esse estado afugentou a lembrança, não a memória esta nunca desaparecendo de fato, a lembrança somente do estado anterior ao crime, isto é crimes inexpressivos aos quais fazem vistas grossas os cidadãos tidos decentes. Fixei o maior, desprezei os insignificantes; embora, procurando atirar as culpas na vítima, a virar melhor eu próprio a vítima. Não é esdrúxulo isso, pergunto hoje neste instante na torre. Todavia parei agora pensando: corri anos anteontem.

Trasanteontem  
 Acho agora, não quando se dá deu-se a coisa trasanteontem, creio ter vindo ao planeta como um endividado, ao menos distorcido nas verdades. Pois que em pequeno ainda figurando mera e inocente criatura já mostrava certas más tendências: espremer insetos próximos, ou bater em quem me cercasse; e dirão disso tudo a normalidade no comportamento infantil, não posso discutir a assertiva. Mais tarde sendo o terror dos manos no lar, e já não tendo lar constituído e com a formação que mesmo na pobreza quiçá na miséria se espera; entretanto minhas tendências eram no mau sentido; depois piorou todos a crescer, crescendo na mesma proporção o desentendimento entre irmãos na família numerosa. Fora do lar atraía péssimas companhias e isto manteve-se em adulto. Ajuntei-me muitas vezes e muitas vezes deixando as companheiras mas sem justificativas válidas, como o fazia no trabalho, onde não me fixava, amiúde pondo a culpa nos colegas e demais conviventes. Enfim sempre fui um ser problemático para os que dividiam comigo as oportunidades. Vivi precariamente tive precariamente filhos e lamentavelmente seguidores. Contudo a rigor nunca os amei, antes tive não mais que querências fugidias, querências por mulheres filhos e conhecidos. Um coração frio e despojado quase de sentimentos nobres... Parecia não fosse apenas um reflexo da família mal formada e do meio em que vivíamos: era mais como que um produto que saíra da produção com defeito, desses que hoje em dia o consumidor briga e devolve. Porém a peça social continuou – não propriamente livre mesmo porque a liberdade integral não existe – continuou ela, a defeituosa, a conviver entre ‘peças perfeitas’, fossem perfeitas as pessoas numa coletividade. Enfim destoava. Até achegar-me por inexplicáveis caminhos à mulher; diria consorte essa infeliz sem sorte, porém nunca me casei legalmente e sequer na igreja. A criatura me deu certa estabilidade e alegria; cheguei por isso considerar-me feliz, este termo infeliz na sua expressão e incompreensivel ao comum dos mortais. De maneira que inclusive surpreendeu o meu próprio ser, quando me deparo comigo mesmo parado a faca o sangue e quase sem saber o como justificar meu ato! Daí acordei corri corri corri até hoje.

Hoje       
Agora demoro meus dias nestas noites e dias na torre, este abrigo que suponho e antes de supor desejo que seja intransponível. A poder curtir meu viver sem me engaiolarem minha precária liberdade. A rigor podendo ver isto como prisão, uma prisão de escolha diante da escolha que faz a civilização consumista da prisão em limpeza da sociedade a ficar livre dos elementos impuros e podres. Rompo desde lá debaixo no rés até aqui em cima os empeços. Comecei a subir vencendo degraus falhos quebráveis quebrados, a vencer aranhas pachorrentas pacientes a tecer redes e as venci, sujei-me e me embaracei porém venci; afugentei mil ratazanas espantei mil e um insetos e a poeira acumulada milênios em minha vadiação a vadear este rio seco trincado e em caracol rumo ao cimo onde me encontro no penúltimo andar deste mirante em vigília, que me permite um pouco mesmo o sono reparador. No entanto não durmo, porque a consciência é desperta – e cobradora! Dia e noite na noite deste dia de hoje ando desperto, maculado pela memória mais e mais clara como nunca experimentei e apenas sou um velho matusalém de barbas esbranquiçadas a certamente mostrar o bodum com o qual o hábito releva o costume e ter o passível para o possível viver – a se mostrar um macaco e a ser ao mesmo tempo um homem, fugitivo resguardado embora mas em fuga sempre para... não sei!
Afugento embaraços cobradores, revejo constato não só a grita dos homens, o policiamento feroz da ferocidade da lei e dos que servem a lei a me fustigarem; não só isso, não isso apenas, a imagem tal qual fotografia acoplada a meus olhos, debalde fechados apertados noite adentro nesta madrugada interminável, revendo o quadro da tragédia dela, mais de minha tragédia: o ato do crime. Limpo ‘relimpo’ olho, olho a examinar em temor os testemunhos dum crime perfeito em volta; atiro longe depois retomo ajunto escondo os pedaços do que fora uma linda mulher, mulher de me fazer carinho e de servir como anteparo às minhas mazelas e fracassos; e os pedaços não podem ajuntados refazer o todo. Escondo a seguir as partes num saco a conter um todo esquartejado, limpo o todo no seu aparato externo com um pano branco que se avermelha, escondo o volume para que o tecido esconda de vez o crime, saio semelhando um justo na via pública escura silenciosa desconhecida e ganho a liberdade e ganho a prisão, a prisão minha que os dias das noites querem virar eternidades de lembrança.
Tento. Tento dormir, esquecer, passar uma borracha no crime e nos dias do crime que se foram.
Acordo não tendo relaxado.
Engano. Engano o medo que sinto no medo que o medo dá a quem tenha medo. Engambelo os olhos entorto as orelhas, aguço o ser em ver o perigo apenas lá fora, fora do improviso de janelinhas aqui do alto vendo lá embaixo. Escondo-me na visão dos escombros que avisto lá no solo; para distração e não me convenço.
Tudo em vão: os pedaços não querem virar gente e querem lembrar a gente. Nem o vento lá fora a fustigar dentro, nem o relâmpago a estrondar bravio com a chuva selvagem e depois acomodada também ela nos costumes – sequer eles conseguem asserenar os gritos que são mesmo decerto meus gritos no silêncio e na possível paz que dá o abandono da gente à gente que está em seu próprio abandono. Nem mesmo a fome a custo toureada com restos, nem a dor física dum estropiado e em esfolões nos torniquetes de improvisos vencem a dor dos gritos. O grito é a solidão, a solidão é meu grito.

Marília   janeiro  2010





         



             

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