quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Sua Excelência, o Homem Comum


Sua Excelência, o Homem Comum


1° - Origens
 A escarafunchar o melhor pai de burros existente, constatamos suas origens a se perder no mundo do não-saber, mas com alguns acertos nos erros – os acertos por nossa conta é visto, os erros dos etimologistas a nos enganar com erudições mais menos. Contudo sobra algo: o Homem Comum é mamífero, um dos mamíferos, da ordem dos Primatas, caracterizado, dizem etimólogos (existindo etimólogos) em portar cérebro volumoso – aqui uns parênteses desses de atrapalhar quaisquer leituras: sim, aí está o porquê de o animal andar olhando pra baixo, pensamos sempre estar a achar tesouros perdidos por outrem no solo, não: é o peso do cérebro na cabeça a forçar a inclinação. Prossigamos além de ‘cérebro volumoso’. Tendo posição ereta, mãos preênseis, inteligência dotada da faculdade de abstração e generalização, e por fim capacidade a produzir linguagem articulada. Certo, pensamos errado, daí seus u-u-u e a-a-a e poder pegar as coisas, digamos o cigarro que ele segura em vê entre o indicador de limpar na rua descaradamente a fossa nasal e o anular – a tal ponto ficar no meio dos dedos impreganado um fungo esverdeado-escuro do hálito do fumo e da fumaça poluidora; sim, serve a segurar outras coisas também as ditas mãos preênseis.  Quanto às abstrações, uma abstração; isto porque o homem só pode ver o fora e imaginar o interior, quando muito naquilo que faz o sujeito por força interna. Enfim o Homem Comum é isso, quase sem aquilo, só pensa naquilo por sinal. Os estudiosos desde nossa consulta ao inteligente pai de burros dizem ser um Antropo, talvez antropoide, perdido entre outros latinórios dos tais estudiosos como sendo Homo communis, mui próximo, pensamos nós, do Homo sapiens; ou que venha um dia a chegar a uma pequena sapiência. Aguardemos.

2° -  O Nascer
O surgimento: deu-se à luz do sofrer esperar sonhar dar a mãe à luz àquela escuridão berrante esperneante, só mais tarde exigente, ah exigente Excelencinha. O normal do ser, que é apenas o comum. Mamou desesperado! faminto; chorou com rara perfeição; defecou nauseabundamente como ocorre nos outros; e, sobrando um pouco de matéria, cresceu. Agora dá pinotes, aprendera a andar antes e antes ainda a se escorregar no chão igual qualquer outro bicho; corre, cai chora justifica aponta um culpado, se levanta, corre; tardou falar – também pra quê se teria tempo suficiente até velhote a asneirar! Falou isso aquilo, já sempre pensando naquilo, semelhante os outros meninos, uma gracinha. Dessas de mostrar aos outros, a visita precisando rir das bobagens para agradar não desagradar. Virou pilantrinha a fazer coisinhas erradinhas vidracinhas pedradinhas bate-boquinhas chorinhos – sim uma gracinha. Ah, faltando nisto o cachorrinho. Tinha o Peri, todo fofo a infernar ouvidos vizinhos, o mundo já era então uma consumada loucura; loucurinha a acertar o erro da concordância. Olha pra lá pra cá olha, quando vê, vê-se um molecão.

3° - Adolesceu
Adolesceu, não morreu: adolesceu. Quem morreu foram os outros; o ser humano, que seja da vertente Homo communis ou doutra exista, o ser humano só pensa, se pensa, só pensa em si, tudo gira em torno de si e quando muito em volta de sua igrejinha. Daí ele destampa a ouvir seu som. Tudo que berra belíssimos decibéis, o decibel é a medida exata da ignorância por onde periferias se andar, tudo é o ‘som’ se diz, e ele destampa a ouvir o seu som. Escolhe uma página sonora angelical, a religião por exemplo, gospeliza o bairro inteiro, não pensando no bairro; berra seu toque, quando o adolescente não esteja a rouquejar o rock metálico da pesada mas no caso anda bonzinho e ouve pra si e para o planeta o discurso evangélico, o padre fala, brabo, o ouvinte comum escuta mais brabo aquela delícia, então o rádio faz uma série de anúncios reclames propagandas inocentes e após despeja, redespeja música; uns cantores gritam infernam a dar ideia do paraíso – porém sempre alto, estrondosamente altão! Faz mais nesse menos o adolescente communis: contata companheiros, gozam brincam às vezes brigam, aí se reunem amigos num ponto qualquer – digamos a janela ou a porta da vizinhança, as quais não existem: nem janela nem porta nem vizinho, só existem eles e mais piormente aquele projeto de homem comum. Enfim badernam como possível. Já em casa o representante do Homo communis destrata boqueja enfrenta, ah que delícia adolescente! Mamãe chora papai ou num tá nem aí ou fala, chama nos tentos e outras ridiculezas. Passa (não se trata neste ponto de Peri, a cachorro se diz “passa” ou “vai deitar”). O tempo dá à luz um homem adulto consumado.

4° - O Namorado.
Se pensa grande quiçá enorme aquele miúdo tamanhinho em tamanha inteligência, que se revela menos ainda nos conhecimentos formais; tem alguma sensibilidade e mais ainda vaidade. Se pensa o proprietário do mundo. Belo. O belo sai bellu e in bellicu à caça... Jovens fêmeas de todo o mundo: uni-vos! Namora aqui ali, flerta com outra, conta vantagem (está há muito a levar vantagem em tudo; em amor por exemplo) conta estórias, sempre o herói. Ri a patota. Critica o mundo. Lá de vez em quando entra nos cânones sociais; inclusive arranja um empreguinho. Pensa sério, se prende a uma louca qualquer, exatamente a melhor e a mais bonita entre as mulheres do universo. Noiva (verbo noivar: eu noivo tu foges etc.) noiva nos conformes; ou na permissividade permitida e admitida e já os tempos não exigem à ‘resolução’ sexual a fuga com a noiva. Fazem festa, levam a efeito o cerimonial abençoado. O mundo entrega ao mundo um casal adulto, Sua Excelência se encontra no ponto cidadão.

5° - Enfim o Homo Communis
“A vida de casado é boa” rezava um poeta mundano e completava “mas a vida de solteiro é melhor...” aliás carregando a modinha popular num melhor “melhoór” pra ficar mais convincente, coisas poéticas.
Pois bem, até nesta altura pusemos as origens do Homo communis. Agora iniciamos de fato Sua Excelência nos seus andos e desandos...
O Homem Comum aqui pincelado desde suas origens no passado não sabe ser o outro. O outro necessariamente somos nós ontem hoje; e hoje os que nos cercam e não sabem igualmente serem outro hoje ontem. Entretanto hoje, agora, ele é casado, tem caso, um caso! é senhor honrado que virou ‘namorado’ de alguém; nós pensamos bonitinho amante duma linda senhora, mulher disponível, dessas com esposo sempre viajando a negócios e coisa e tal, tal pode não se dar: não poderia nas aberturas atuais ser ‘namorado’ dum ‘namorado’, estoutro a trair sua pobre e indefesa companheira! Não iremos pôr nossas limpas mãos na fogueira, antes disso caminhemos tratando de Sua Excelência. Sua Excelência agora atende num escritório. Executivo? Um mequetrefe a se pensar grande e indispensável, do tipo que imagina se faltar ao expediente a empresa fecha as portas, indo à falência; além do mundo parar também. É um senhor excessivamente centralizado, todas ideias todos sentimentos todas verdades cabem ou estão obrigatoriamente dentro daquele cérebro, o dele, o qual afirmamos forçá-lo a inclinar para o chão de tanto peso. Em casa o comportamento do Comum, é o comum. Não entremos nas briguinhas conjugais, sim casou-se, não dissemos ser honrado portanto comportado e comportado também aos cânones sociais? Nem tocaremos nas desavenças com a prole; bastando-nos saber ser amoroso e tentar ser bom pai. Todavia a prática é que o poeta tinha um carro de razões: “a vida de casado é boa...” Boa sim, mas a de solteiro... Bem, a cantiga infere com palavras contundentes assim “o solteiro vai aonde quer, o casado tem de levar a mulher.” E aí, aí as pobres honras e os laços sagrados do matrimônio. Communis não iria levá-la, muito menos à prole que ficaria a correr no salão e ainda a considerar ser proibido menores em tal recinto, não iria levar a cara-metade a jogar sinuca; ou, pior, em locais depravados como rendez-vous ou casa de prostituição; sequer a levaria tratar de negócios com outros machos da espécie, mesmo porque considerada tagarela e palpiteira a fêmea consorte. Confessemos esse absurdo: é absurdo.
Assim mesmo toca a vida, leva como pode; tem resfriado gripe tosse umas dores aqui lá, trata do falatório da vida torta dos outros com maestria; os ouvintes, havendo, devolvem na mesma moeda e destrincham a vida dos outros. Claro, sempre excetuamos destas sujeiras o ouvinte e mais-mente nossos próprios honrados dias. Sua Excelência é bem assim. Além do mais muda de emprego a três por dois esquentado e cônscio de seu alto valor – isto enquanto a situação econômica do país permite, pois vêm a seguir o desemprego como sistema e o desespero como costume; daí o Homem Comum e sua casa estarão em maus lençóis. Enfim troca, sempre pela mesma coisa. Aliás a vida é sempre o mesmo: nós a fazemos diferente conforme os próprios caprichos limitações desejos e a imaginação. Por isso nada a acrescentar.        
Nada a acrescentar na vida comum do Comum. Em não ser acidentes. Sofre acidente, é um dia hospitalizado; depois ou antes pego quase (puxa que força tem ‘quase’!) em flagrante num encontro amoroso, aí não troca de lugar, troca de ‘namorada’ – não iria trocar de esposa. Mais para diante sim, no outro século com banalização à vontade, aí realmente casaria descasaria casar-se-ia divorciar-se-ia ou só ajuntaria os trapos; e ajuntaria bem os males da desarmonização dos filhos nos vários casamentos, fora a bastardice com encrencas de DNA e pensões – não entremos em encrenca, a encrenca poderia voltar-se contra nós, nós os criadores de encrenqueiros e suas encrencas. Melhor ficar no ‘nada a acrescentar’ e no ‘cumpra-se às vistas do processo’.
Por fim o fim.

6° - O Fim, mas Não Fim
O Sr. Communis excelente é agora um convalescente. Convalescente coisa alguma: está malzinho, está mesmo por um fio, ninguém iria dizer algo nesse sentido num quarto hospitalar; geralmente a visita 'inverdadeia' com um futuro promissor ao paciente, fá-lo até sorrir crendo. Anda parado entre sondas injeções remédios numa cama branquíssima como a santidade; o ambiente é todo silêncio, apenas se ouve sons abafados e as rodinhas das padiolas pelos corredores; os visitantes mesmo eles abaixam seus decibéis apropriados a gritar em suas respectivas periferias pobres os rocks e outros apelos patrióticos para não deixar o vizinho dormir e graças a isso perder a hora noutro dia. Não, falam baixo baixinho esbanjando educação e piedade. Mais baixo fala, quase inaudível, a voz da consciência communis; ela dispara a memória nos inconvenientes e bondades, aquela memória que se escondia no cérebro pesado de tão grande por haver grande sabedoria e ter um cabedal enorme de experiências e conhecimentos. Se vê Homo Cummunis fumando sem parar nervoso (e agora esse médico novinho não permite sequer um, que dirá acender um noutro cigarro...) Liga o cineminha e contempla as rodadas etílicas nos bares com amigos, já no leito não pode enxugar uma caixa em proibição clínica. Assiste ao seriado em que o bandido cai de seu cavalo mortinho ou por flexada ou por seu tiro certeiro; vê mais a série de mentirinhas ditas reditas tresditas por ele a levar vantagem em tudo: na garganta por exemplo; revê sua posição no trabalho e aí pensa desesperado “será que entregaram o documento, terão pago a conta xis?” Será, se diz com medo de confessar-se, será porventura irão me aposentar! Lembra-se dos amigos, mais colegas e conhecidos que amigos de fato, pensa (com bastante boa vontade nisto:) o bem praticado; deduz possível deslize no mal porém faz desconto na nota fiscal; ainda assim não consegue enublar ódios e desavenças. Daí vem uma força salvadora: rememora a caridade. Dá até para somar – os dízimos, a quermesse onde ajudou o padre, um dinheirinho extra a um pedinte.
Nisso aparecem o esculápio e uma enfermeira, bela sim todavia já não lhe importa, importa o que dizem.
Os familiares assinam a alta, ele não pode em baixa, trêmulo fraco e entregue à sorte. O hospital não deseja somar na estatística mais um falecimento – manda Sua Excelência pra casa.

7° - Se não o Fim, o Acabar
Umas poucas semanas a se convencer de que as visitas não tinham razão nas coisas que diziam baixinho ao pé do leito hospitalar; e não se pode mais engrandecer; quase nem ver, vê tão só a esposa (as amantes não apareceram não apreciando cacos) ela a chorar, os filhos constrangidos, o entra e sai, a luz, a menos-luz, a treva. Agora só pode pensar, pesar o pesar, somar quem sabe, subtrair com certeza. Não mais aguentando a prova dos nove que dirá a prova real. Contudo se convence do bem que foi ao planeta, ah pobrezinho do planeta a perdê-lo. Sim, tem noção do final. Se acaba de vez; levado às pressas de volta ao hospital, fica na UTI dias, em que acaso se lembra das boas ações, condescendente consigo mesmo. De repente, quando os espertos sabem da inexistência dos derrepentes no estado em que se acha o paciente a representar o Homo Communis, de repente deixa por ordem da vida cerebral a vida.
Ritual e cerimonial. Aqui jaz Sua Excelência, que a terra lhe seja leve, descanso à sua alma e coisa e tal.

8° - O Céu
Acorda Sua Excelência, o Homem Comum. Constata o paraíso não ser o sonhado céu de brigadeiro. No entanto – mercê da memória curta e de seus direitos imaginários ao bem feito e ao sofrimento indevido, somados a cansar na existência terrena, e ainda por força da caridade que pensa haver praticado – fica no aguardo... Espera que os santos os anjos os deuses, quiçá Deus, venham acarinhá-lo coroá-lo aquinhoá-lo, quem sabe a indicar acolher intervir opor nunca, a indicar-lhe um lugar, o lugar merecido após tanto sofrer e fazer o bem; enfim a guiá-lo às benesses. Mas...
Marília   março  2007


         



           

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