Sua Excelência, o Homem
Comum
1°
- Origens
A
escarafunchar o melhor pai de burros existente, constatamos suas origens a se
perder no mundo do não-saber, mas com alguns acertos nos erros – os acertos por
nossa conta é visto, os erros dos etimologistas a nos enganar com erudições
mais menos. Contudo sobra algo: o Homem Comum é mamífero, um dos mamíferos, da
ordem dos Primatas, caracterizado, dizem etimólogos (existindo etimólogos) em
portar cérebro volumoso – aqui uns parênteses desses de atrapalhar quaisquer
leituras: sim, aí está o porquê de o animal andar olhando pra baixo, pensamos
sempre estar a achar tesouros perdidos por outrem no solo, não: é o peso do
cérebro na cabeça a forçar a inclinação. Prossigamos além de ‘cérebro
volumoso’. Tendo posição ereta, mãos preênseis, inteligência dotada da
faculdade de abstração e generalização, e por fim capacidade a produzir
linguagem articulada. Certo, pensamos errado, daí seus u-u-u e a-a-a
e poder pegar as coisas, digamos o cigarro que ele segura em vê entre o indicador
de limpar na rua descaradamente a fossa nasal e o anular – a tal ponto ficar no
meio dos dedos impreganado um fungo esverdeado-escuro do hálito do fumo e da
fumaça poluidora; sim, serve a segurar outras coisas também as ditas mãos
preênseis. Quanto às abstrações, uma
abstração; isto porque o homem só pode ver o fora e imaginar o interior, quando
muito naquilo que faz o sujeito por força interna. Enfim o Homem Comum é isso,
quase sem aquilo, só pensa naquilo por sinal. Os estudiosos desde nossa consulta
ao inteligente pai de burros dizem ser um Antropo, talvez antropoide, perdido
entre outros latinórios dos tais estudiosos como sendo Homo communis,
mui próximo, pensamos nós, do Homo sapiens; ou que venha um dia a chegar
a uma pequena sapiência. Aguardemos.
2° -
O Nascer
O surgimento: deu-se à luz do sofrer
esperar sonhar dar a mãe à luz àquela escuridão berrante esperneante, só mais
tarde exigente, ah exigente Excelencinha. O normal do ser, que é apenas o
comum. Mamou desesperado! faminto; chorou com rara perfeição; defecou
nauseabundamente como ocorre nos outros; e, sobrando um pouco de matéria,
cresceu. Agora dá pinotes, aprendera a andar antes e antes ainda a se
escorregar no chão igual qualquer outro bicho; corre, cai chora justifica
aponta um culpado, se levanta, corre; tardou falar – também pra quê se teria
tempo suficiente até velhote a asneirar! Falou isso aquilo, já sempre pensando
naquilo, semelhante os outros meninos, uma gracinha. Dessas de mostrar aos
outros, a visita precisando rir das bobagens para agradar não desagradar. Virou
pilantrinha a fazer coisinhas erradinhas vidracinhas pedradinhas bate-boquinhas
chorinhos – sim uma gracinha. Ah, faltando nisto o cachorrinho. Tinha o Peri,
todo fofo a infernar ouvidos vizinhos, o mundo já era então uma consumada
loucura; loucurinha a acertar o erro da concordância. Olha pra lá pra cá olha,
quando vê, vê-se um molecão.
3° - Adolesceu
Adolesceu, não morreu: adolesceu. Quem
morreu foram os outros; o ser humano, que seja da vertente Homo communis
ou doutra exista, o ser humano só pensa, se pensa, só pensa em si, tudo gira em
torno de si e quando muito em volta de sua igrejinha. Daí ele destampa a ouvir
seu som. Tudo que berra belíssimos decibéis, o decibel é a medida exata da
ignorância por onde periferias se andar, tudo é o ‘som’ se diz, e ele destampa
a ouvir o seu som. Escolhe uma página sonora angelical, a religião por exemplo,
gospeliza o bairro inteiro, não pensando no bairro; berra seu toque, quando o
adolescente não esteja a rouquejar o rock metálico da pesada mas no caso anda
bonzinho e ouve pra si e para o planeta o discurso evangélico, o padre fala,
brabo, o ouvinte comum escuta mais brabo aquela delícia, então o rádio faz uma
série de anúncios reclames propagandas inocentes e após despeja, redespeja música;
uns cantores gritam infernam a dar ideia do paraíso – porém sempre alto,
estrondosamente altão! Faz mais nesse menos o adolescente communis:
contata companheiros, gozam brincam às vezes brigam, aí se reunem amigos num
ponto qualquer – digamos a janela ou a porta da vizinhança, as quais não existem:
nem janela nem porta nem vizinho, só existem eles e mais piormente aquele
projeto de homem comum. Enfim badernam como possível. Já em casa o representante
do Homo communis destrata boqueja enfrenta, ah que delícia adolescente!
Mamãe chora papai ou num tá nem aí ou fala, chama nos tentos e outras
ridiculezas. Passa (não se trata neste ponto de Peri, a cachorro se diz “passa”
ou “vai deitar”). O tempo dá à luz um homem adulto consumado.
4° - O Namorado.
Se pensa grande quiçá enorme aquele
miúdo tamanhinho em tamanha inteligência, que se revela menos ainda nos conhecimentos
formais; tem alguma sensibilidade e mais ainda vaidade. Se pensa o proprietário
do mundo. Belo. O belo sai bellu e in bellicu à caça... Jovens
fêmeas de todo o mundo: uni-vos! Namora aqui ali, flerta com outra, conta vantagem
(está há muito a levar vantagem em tudo; em amor por exemplo) conta estórias,
sempre o herói. Ri a patota. Critica o mundo. Lá de vez em quando entra nos cânones
sociais; inclusive arranja um empreguinho. Pensa sério, se prende a uma louca
qualquer, exatamente a melhor e a mais bonita entre as mulheres do universo.
Noiva (verbo noivar: eu noivo tu foges etc.) noiva nos conformes; ou na
permissividade permitida e admitida e já os tempos não exigem à ‘resolução’
sexual a fuga com a noiva. Fazem festa, levam a efeito o cerimonial abençoado.
O mundo entrega ao mundo um casal adulto, Sua Excelência se encontra no ponto
cidadão.
5° - Enfim o Homo Communis
“A vida de casado é boa” rezava um poeta
mundano e completava “mas a vida de solteiro é melhor...” aliás carregando a
modinha popular num melhor “melhoór” pra ficar mais convincente, coisas
poéticas.
Pois bem, até nesta altura pusemos as
origens do Homo communis. Agora iniciamos de fato Sua Excelência nos
seus andos e desandos...
O Homem Comum aqui pincelado desde suas
origens no passado não sabe ser o outro. O outro necessariamente somos nós
ontem hoje; e hoje os que nos cercam e não sabem igualmente serem outro hoje
ontem. Entretanto hoje, agora, ele é casado, tem caso, um caso! é senhor
honrado que virou ‘namorado’ de alguém; nós pensamos bonitinho amante duma
linda senhora, mulher disponível, dessas com esposo sempre viajando a negócios
e coisa e tal, tal pode não se dar: não poderia nas aberturas atuais ser
‘namorado’ dum ‘namorado’, estoutro a trair sua pobre e indefesa companheira!
Não iremos pôr nossas limpas mãos na fogueira, antes disso caminhemos tratando
de Sua Excelência. Sua Excelência agora atende num escritório. Executivo? Um
mequetrefe a se pensar grande e indispensável, do tipo que imagina se faltar ao
expediente a empresa fecha as portas, indo à falência; além do mundo parar
também. É um senhor excessivamente centralizado, todas ideias todos sentimentos
todas verdades cabem ou estão obrigatoriamente dentro daquele cérebro, o dele,
o qual afirmamos forçá-lo a inclinar para o chão de tanto peso. Em casa o
comportamento do Comum, é o comum. Não entremos nas briguinhas conjugais, sim
casou-se, não dissemos ser honrado portanto comportado e comportado também aos
cânones sociais? Nem tocaremos nas desavenças com a prole; bastando-nos saber
ser amoroso e tentar ser bom pai. Todavia a prática é que o poeta tinha um
carro de razões: “a vida de casado é boa...” Boa sim, mas a de solteiro... Bem,
a cantiga infere com palavras contundentes assim “o solteiro vai aonde quer, o
casado tem de levar a mulher.” E aí, aí as pobres honras e os laços sagrados do
matrimônio. Communis não iria levá-la, muito menos à prole que ficaria a
correr no salão e ainda a considerar ser proibido menores em tal recinto, não
iria levar a cara-metade a jogar sinuca; ou, pior, em locais depravados como rendez-vous
ou casa de prostituição; sequer a levaria tratar de negócios com outros machos
da espécie, mesmo porque considerada tagarela e palpiteira a fêmea consorte.
Confessemos esse absurdo: é absurdo.
Assim mesmo toca a vida, leva como pode;
tem resfriado gripe tosse umas dores aqui lá, trata do falatório da vida torta
dos outros com maestria; os ouvintes, havendo, devolvem na mesma moeda e
destrincham a vida dos outros. Claro, sempre excetuamos destas sujeiras o
ouvinte e mais-mente nossos próprios honrados dias. Sua Excelência é bem assim.
Além do mais muda de emprego a três por dois esquentado e cônscio de seu alto
valor – isto enquanto a situação econômica do país permite, pois vêm a seguir o
desemprego como sistema e o desespero como costume; daí o Homem Comum e sua
casa estarão em maus lençóis. Enfim troca, sempre pela mesma coisa. Aliás a
vida é sempre o mesmo: nós a fazemos diferente conforme os próprios caprichos
limitações desejos e a imaginação. Por isso nada a acrescentar.
Nada a acrescentar na vida comum do
Comum. Em não ser acidentes. Sofre acidente, é um dia hospitalizado; depois ou
antes pego quase (puxa que força tem ‘quase’!) em flagrante num encontro
amoroso, aí não troca de lugar, troca de ‘namorada’ – não iria trocar de
esposa. Mais para diante sim, no outro século com banalização à vontade, aí
realmente casaria descasaria casar-se-ia divorciar-se-ia ou só ajuntaria os
trapos; e ajuntaria bem os males da desarmonização dos filhos nos vários
casamentos, fora a bastardice com encrencas de DNA e pensões – não entremos em
encrenca, a encrenca poderia voltar-se contra nós, nós os criadores de
encrenqueiros e suas encrencas. Melhor ficar no ‘nada a acrescentar’ e no ‘cumpra-se
às vistas do processo’.
Por fim o fim.
6° - O Fim, mas Não Fim
O Sr. Communis excelente é agora um
convalescente. Convalescente coisa alguma: está malzinho, está mesmo por um
fio, ninguém iria dizer algo nesse sentido num quarto hospitalar; geralmente a
visita 'inverdadeia' com um futuro promissor ao paciente, fá-lo até sorrir
crendo. Anda parado entre sondas injeções remédios numa cama branquíssima como
a santidade; o ambiente é todo silêncio, apenas se ouve sons abafados e as
rodinhas das padiolas pelos corredores; os visitantes mesmo eles abaixam seus
decibéis apropriados a gritar em suas respectivas periferias pobres os rocks
e outros apelos patrióticos para não deixar o vizinho dormir e graças a isso perder
a hora noutro dia. Não, falam baixo baixinho esbanjando educação e piedade.
Mais baixo fala, quase inaudível, a voz da consciência communis; ela
dispara a memória nos inconvenientes e bondades, aquela memória que se escondia
no cérebro pesado de tão grande por haver grande sabedoria e ter um cabedal
enorme de experiências e conhecimentos. Se vê Homo Cummunis fumando sem
parar nervoso (e agora esse médico novinho não permite sequer um, que dirá
acender um noutro cigarro...) Liga o cineminha e contempla as rodadas etílicas
nos bares com amigos, já no leito não pode enxugar uma caixa em proibição
clínica. Assiste ao seriado em que o bandido cai de seu cavalo mortinho ou por
flexada ou por seu tiro certeiro; vê mais a série de mentirinhas ditas reditas
tresditas por ele a levar vantagem em tudo: na garganta por exemplo; revê sua
posição no trabalho e aí pensa desesperado “será que entregaram o documento,
terão pago a conta xis?” Será, se diz com medo de confessar-se, será porventura
irão me aposentar! Lembra-se dos amigos, mais colegas e conhecidos que amigos
de fato, pensa (com bastante boa vontade nisto:) o bem praticado; deduz
possível deslize no mal porém faz desconto na nota fiscal; ainda assim não consegue
enublar ódios e desavenças. Daí vem uma força salvadora: rememora a caridade.
Dá até para somar – os dízimos, a quermesse onde ajudou o padre, um dinheirinho
extra a um pedinte.
Nisso aparecem o esculápio e uma
enfermeira, bela sim todavia já não lhe importa, importa o que dizem.
Os familiares assinam a alta, ele não
pode em baixa, trêmulo fraco e entregue à sorte. O hospital não deseja somar na
estatística mais um falecimento – manda Sua Excelência pra casa.
7° - Se não o Fim, o Acabar
Umas poucas semanas a se convencer de
que as visitas não tinham razão nas coisas que diziam baixinho ao pé do leito
hospitalar; e não se pode mais engrandecer; quase nem ver, vê tão só a esposa (as
amantes não apareceram não apreciando cacos) ela a chorar, os filhos constrangidos,
o entra e sai, a luz, a menos-luz, a treva. Agora só pode pensar, pesar o
pesar, somar quem sabe, subtrair com certeza. Não mais aguentando a prova dos
nove que dirá a prova real. Contudo se convence do bem que foi ao planeta, ah
pobrezinho do planeta a perdê-lo. Sim, tem noção do final. Se acaba de vez;
levado às pressas de volta ao hospital, fica na UTI dias, em que acaso se
lembra das boas ações, condescendente consigo mesmo. De repente, quando os
espertos sabem da inexistência dos derrepentes no estado em que se acha o
paciente a representar o Homo Communis, de repente deixa por ordem da
vida cerebral a vida.
Ritual e cerimonial. Aqui jaz Sua
Excelência, que a terra lhe seja leve, descanso à sua alma e coisa e tal.
8° - O Céu
Acorda Sua Excelência, o Homem Comum.
Constata o paraíso não ser o sonhado céu de brigadeiro. No entanto – mercê da
memória curta e de seus direitos imaginários ao bem feito e ao sofrimento
indevido, somados a cansar na existência terrena, e ainda por força da caridade
que pensa haver praticado – fica no aguardo... Espera que os santos os anjos os
deuses, quiçá Deus, venham acarinhá-lo coroá-lo aquinhoá-lo, quem sabe a
indicar acolher intervir opor nunca, a indicar-lhe um lugar, o lugar merecido
após tanto sofrer e fazer o bem; enfim a guiá-lo às benesses. Mas...
Marília março
2007
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