segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Meia-Noite


Meia-Noite

Cap.
Meia-noite, noite quente ar pesado suor silêncio... Silêncio! A noite antes da noite após a noite, o quanto possível no dormir no sonho um pesadelo. Porque aquilo que não via ouvia como pesadelo no corpo desarmonizado talvez; na ciência da consciência a velar como num homem enfermo limitado mas desperto e ciente, ciente de sua invalidez ou desvalia, sem que detivesse o curso não apenas de sua vida na existência porém e sobretudo o curso da de outrem, do coletivo que o cercando no agito, o agito nada próprio duma noite, em que a definição exige calma silêncio paz... Não obstante, do seu quarto de sua cama do seu colchão a cheirar seu cheiro e seu suor, ouvindo o crime... Em cada passo em cada desdobramento em cada rotina; se parecendo mais e mais com um carimbo devidamente untado engraxado tintado e – socado no uso intermitente embora e cadenciado – a atingir o papel na folha em branco agora marcada com os dizeres ali grafados gravados prensados ao eterno... E se o eterno durar! será que estou ficando maluco?
Não, ou sim porque o movimento e o som característico das gargantas disciplinadas no mundo do mando ali e tudo prossegue na sua santa paz.
Aqui uns parênteses para indicar a paz. Teria conotação com a santidade a angelitude a harmonia, não essa pobre harmonia conseguida a muito custo por gritos gemedores e dentes cerrados cortantes; quem sabe a desejar semelhar a harmonia universal e eterna; eterna sem a brincadeira de poetas enquanto dure como as crianças nos seus folguedos. Porque se ela lembrar as dores nas quais se alimente não será nem paz nem eterna, muito menos eterna na sua essência e síntese.
É uma santa paz talvez de meninos dormindo; ora a resfolegar ora nos seus pesadelinhos, ah que gracinha os pesadelinhos... É uma paz sinonimizando a quietude pouco mais que momentânea. Assim mesmo guardando uns olhares ora matreiros ora medrosos e sempre desconfiados. Porque quem deve teme e treme!?
O homem ali tão próximo coisa assim de uns cinquenta ou sessenta metros não poderia responder.
Ou poderia?
Quantas e quantas vezes somos postos na berlinda encostados na parede a se exigir que saibamos como se fôramos os responsáveis e assim a explicar questões tão ou mais difíceis ainda. Nessa dúvida ou não poderia responder a contento ou temendo esclarecer concluindo.
Ora, por que motivo temermos a verdade. Coisas da idiossincrasia de alguns se não de toda coletividade. Mormente numa de periferia na periferia da cidade pequena se imaginado tão grande aos destinos da humanidade, esta igualmente perdida na ignorância e afetada pela violência. Sabe-se aqui a violência não só a miúda mas ela posta como um todo, temerosa como sói ocorrer e podendo ser sintetizada na expressão longe apenas do símbolo porém dentro dos ais da verdade: o homem pacato e sua bondosa família, a gente do bem; ele está contido aprisionado na residência; os que podem no grupo investem na segurança com mastins guardas fios e olhares eletrônicos, sem falar nas muralhas com cacos de vidro nas extremas; e não basta. Enquanto o criminoso solto nas ruas; na pior das hipóteses a temer somente colegas mal humorados e dispostos a possuir seu ponto de tráfico; contudo é livre, quando muito poderá temer não o policial, existindo policial não contaminado na corrupção e a este poderia sim temer um pouco; entretanto tendo medo do chefete bandido preso, quando na possibilidade em ser detido e levado e exposto na cadeia diante de outro de outra facção; o que implica não só a bandidagem mas também os familiares da bandidagem.
Assim nascem o temor o horror o terror.
De maneira que o pobre homem, aqui um adjetivo inexpressivo da inexpressiva figura, não figura entre os grandes personagens seja ou não da ficção abusiva ou perversa ou (ah! a pobre ficção:) boba ou inocente ou poética ou ainda lunática morta pelos costumes informáticos de hoje, sem com isto cairmos no bobíssimo saudosismo a traçar rabiscos com pena de ganso na mão. De maneira que o vizinho dos vizinhos ouve nitidamente e reafirma o que escuta ao dia de sua noite nessa meia-noite, esse sujeito que a oposição apressada poderá estigmatizá-lo adoentado mental... pois sonhador seria mui poético; no crime não há poesia, o crime mata a poesia, que dirá o poeta sempre fora da realidade, essa realidade que foi agora faz pouco sintetizada. Ele percebe em todos ângulos os sons naquele sórdido comércio.
Ouve bem a voz dela, a Shirley.
Ela pronuncia sem abusar nos decibéis nessa hora avançada da noite nesse escuro do silêncio em que até poder-se-ia escutar o ressonar dum morador doutra casa ou doutra mais além; ou um utensílio quedado no descuido do descuidado que se levantou sonolento a tomar o cafezinho da garrafa térmica ou para fumar longe da oposição, esta sim roncando horrores e quem dormirá no tremor de terra! então é que derruba inadvertidamente um treco qualquer e aí sim a Shirley podendo igualmente ouvi-lo. Por isso a subcomandante daquele barco longe ser afundado (nisso preciso lembrar a sintetização simbólica feita do caos que domina nossa sociedade) não abusa nos decibéis. Por outro lado não esconde seu falar natural e até educado – bem longe ter o ‘esmero’ da Bruna, bela desbocada gritadora ferina a usar o chulo e a depravação na linguagem de baixaria – não: fala normal, com alcance assim mesmo, atingindo ouvidos atentos ansiosos quase imploradores dos viciados... ora, isto depois será melhor informado; não se pretende convencer mas informar. Fala, põe ordem na casa, visto só ela feito autoridade e é mesmo autoridade no assunto que trata, no momento de pé no portão de entrada da residência; o público, agora nessa meia-noite um publiquinho os outros membros do clã medonho em maior parte já saíram antes no tataratá de suas motocicletas, estas doídas eles cabeças doidas, a se deslocar aos seus pontos de entrega e não propriamente locais para venda: a noite cega o perigo e a vista de quem tenha olhos para ver e por isso facilita o voo rasante pois voam barulhentamente no asfalto irregular da rua Boa Morte a ir por aí entregar material. Portanto são poucos os jovens que restaram como público dela, alguns meninos mesmo e sem barba com baba decerto  sem pelos e a garganta ora a assoprar grosso grave quando a desejar falar fino e fino quando a gente mais quer falar grosso como um homem com ‘o’ maiúsculo sem conseguir; uns entremeio já não podem contar, flagrados, com o estatuto da criança e do adolescente, aborrecente dizem algumas pessoas ou muitas entre adultos impacientes. O publiquinho que se achegara mais estando antes agrupados os indivíduos na guia da rua doutro lado dessa Boa Morte, cuja placa da prefeitura meio solta abalança enjoada ao vento num bater fazendo nhec-nhec na casa da outra esquina, na esquina deles Shirley agora ali, macha pra valer embora no falar manso porém firme e bem direcionado e dessa forma chama cada um pelo nome; não por ser um batalhão diminuto no exército do crime e portanto fácil guardar individualidades, sim por conhecer de fato um por um seus soldados e a capacidade ou temência de cada. Por isso vai pronunciando o nome ou nome de guerra de cada uma dessas criaturas, porque não dizer infelizes criaturas. Chama, dá bronca nos errados e afoitos, nos medrosos e claudicantes, e assim instados a vir receber seu quinhão... Achegam-se, recebem, apertam seus respectivos volumes, calcula ela quem sabe o perigo ou não em que se envolvem; e a seguir exige intimando no olhar saírem de perto, que estejam longe logo e com tendência a correr, um correr de ânsia que atinge mais os novatos, neófitos na batalha e em qualquer empresa, aqui desnecessitando seja em prol do bem... Então somem no silêncio com seus passos ou trotes sem galopar bastante. Um após novo companheiro. Agora sendo a vez de outro colega, alguns a contradizer ordens expressas esperam ali adiante o anterior no instante atendido pela chefe. Ela entrega o pacote, faz ao recebedor recomendações, aqui abaixa a voz, puxa a orelha de alguns, não por ser também gente do povo e o povo fala assim a desejar que se aperte o torniquete a impedir desregramentos desnecessários já não fossem perigosos. Contudo a Shirley fala como é sua normalidade, qual o faz durante o dia a semana o ano com a vizinhança, semelhando a mulher do povo, habituada inclusive nos cânones religiosos da família e tida na condição de mulher séria e boa mãe, sim uns tapas de amor não ferem, as meninas choram um pouco entretanto o que paira é a moral, a força moral dessa doméstica. Em vista disso agora impera diante dos quase recrutas, os quais não há muito tempo aliciados e ainda inseguros. Fala. Ordena. Critica. Dispensa. Saem, saem um a um silenciosos, apenas um que outro a fazer comentário sem tanta brincadeira de moleques no hábito do sol quente e com os disparates costumeiros. Silenciosos. Vão aos seus respectivos destinos; talvez nunca houvessem filosofado o destino, nem se se deve ou não crer nisso. São criaturas jovens e de famílias desestruturadas. Lamentavelmente isto não é afirmativa vã. No entanto – fora o período de aliciamento, claro – no entanto a chefa não se interessa saber dos dramas de tais famílias nem dos membros agora a si presos. Por fim decerto sorri, respira o cansaço (e preocupação é lógico) que a coisa lhe deu por horas, sobretudo a beirar meia-noite. Não obstante foi fazendo a chamada por nome ou apelido nitidamente ouvido nos cinqueta ou sessenta metros onde as orelhas dum velhote curioso nas vizinhanças, graças à mancomunação do silêncio noturno.
Aquele som normalmente proferido na escuridão da noite, na paz que o silêncio amplia em proporção inversa na medida em que os seres morrem no sono e até na boca fechada nestes tempos dos galos desaparecidos junto com a roça; ou de um que outro grilo a cricrilar aborrecido – o som percebido e mui mais claro, distinto como fôra fóra no vizinho, no vizinho ali dez metros ao lado, podendo-se ouvir dele até uma briga conjugal abafada para não acordar os filhos. Em razão disso quase a se escutar os passos dela deles mas com certeza o ranger do portão da central acanhada de distribuição de drogas, por ferrugem e nisso gasta. Não as drogas, a ferragem carcomida do portãozinho.
Apesar parecer meio desfecho, aqui apenas um início do trágico; isto caso alguém não aceite como solução dos problemas da existência os alucinógenos e entorpecentes.
Enfim a noite se fecha ou eram os minutos do dia que se abrem.      

Cap.2°
O dia se abre decerto numa ânsia esquecer a noite ou a tragicidade da noite no pedaço, embora longe estando o meio-dia. O sol vivifica rostos como o dela, a Shirley olha meio estremunhada numa espécie de ressaca não obstante não beber como seu exército de poucos homens e muitos meninos porém se admite esteja cansada: não tem escolha quase hora para entregar as filhas à perua, o carro logo vem e as crianças já ali de matulinha e fardadinhas com roupa doutro exército a fim de aprender e mais brincar ou brincar de aprender as letras no parque infantil; estão elinhas indóceis e antes quase do dia sendo trabalhão danado à mãe a fim de prepará-las – não poderia contar com a mana Bruna para esse fim a moça a dormir como uma rica princesa sendo princesa só no físico e medonha na alma e nos ímpetos – então range o portão sem se importar agora com o barulho escandaloso que faz, isso porque têm outros mais escândalos por volta e o barulho das conduções gulosas de sofrimento ou pelo trânsito ou pelo peso com seus condutores malucos. Vozerio humano nas imediações e no movimento matinal; e assim passam todos e todos arruaçam a paz – ah a paz a noite a paz do silêncio da meia-noite – e os carros a disparar numa chiadeira, tem inclusive um vizinho dela a berrar sempre de manhã no fazer pegar a ignição e quando consegue funcionar a máquina esta exige demais tempo demais combustível demais paciência do proprietário ou da oficina e aí acelera acelera e morre; e torna a tentar gasta a partida na bateria esgotada mas finalmente gira o motor e funciona o motor e grita o motor brabo a ensurdecer a gente; por vezes mesmo proibe as conversas paralelas essa conversa de automóvel, remendado sim e ainda veículo digno a levar o vizinho ao ganha-pão e daí só ficando ali nas proximidades outros mais barulhos: os carros outros passando gente passando cães fechados ladrando tanto movimento; e logo os meninos da escola a passar também na Boa Morte com suas mochilas e carriolinhas de transportar o material escolar e sobretudo a cambada a conversar alto narrar seus feitos, a bravatar sua gabolice, mesmo porque filhotes de gente, da gente do povo; os estudantes vão na gritaria a brincar também para a aula e aproveitam por vezes a chutar sacolas de lixo pois dia de recolhimento dos resíduos; e o fazem junto com cães vadios ali na sua função de vira-latas.
A jovem mãe, jovem ainda apesar desgastada e estaria envelhecida precocemente nos abusos do métier, ela finalmente põe a cara na visão da rua, visto parece que a gente olhando vir a condução e torcendo que venha esta se apressa um pouco, temerosa, e porque nessa entrega de suas meninas agora quietas à espera da van barulhenta chegar com as outras coleguinhas ainda mais barulhentas – o  final é sempre o alívio materno e assim a Shirley liberada às altas funções, além é lógico de disciplinar a casa e fazer também como qualquer mequetrefe. Nem que seja para depois comentar com vizinhas e eventuais visitas ou passantes conhecidos o trabalho doméstico difícil e em nunca acabar: a gente está fazendo o almoço já a pensar o que na janta... Ainda comenta o drama constante e geral da falta de dinheiro, é a ministra das finanças no lar embora quem exerça a função com eficiência e com exigência e até com cobranças (sempre indevidas como é do gênero das cobranças) isso é mais erro dos acertos da mãe dela: Nair é na residência a marechala com ares de sargentona. No entanto Shirley aparentemente mansa cordial educada, mesmo assim tem dosagem nas ordens sobretudo nas lides diárias no trato com os meninos... Aqui seria possível ver-se o mundo perdido dos machos mas não: na fase do aliciamento as vozes finas e por vezes agudas gritadas são equivalentes aos que desejam falar grosso e o fazem em falsete. Todos recebem por igual não só admoestações e os ‘presentes’ ou seja doses de maconha para relaxar um pouco, pouco antes de se engajar no eterno, o eterno que no métier costuma demorar pouquíssimo de um modo geral. No exército de Shirley, onde ela serve com boa graduação embora Nair ditando no alto do posto as medidas a tomar (e se não prontamente atendida berra ensurdece o pedaço a esquina o mundo...) Nesse exército perdura quase só a macharia. Além disso apenas houve uma baixa notável e isto em virtude da disputa de ponto junto à freguesia viciada; parecendo um caso de insaldável dívida e muita dúvida: o devedor se foi embora, era um quase menino, assassinado ali na esquina, a dar ‘beó’, o boletim de ocorrência da polícia, e muito serviço aos agentes policiais, estes comumente sem grandes preocupações a encontrar culpados, visto a generalização e o bastardamento das ocorrências desse gênero. Demais todos vivos nessa morte na Boa Morte, mais especificamente na esquina dela, onde canta de galo primeiro a mãe quase invisível, sumida sempre dias, e depois a Shirley.
A jovem mãe é mãe enérgica também dos participantes do seu exército sem armas flagrantes, notados por vistas medrosas – parece que o homem comum, intrincado no drama que foi exposto e simbolizado no capítulo anterior, teme apontar com voz forte o forte daqueles pouco mais que guris apenas armados com droga e língua – ora ¡quem a se munir dedar se complicar ou ainda quem sabe no pior se colocar na posição de testemunha e aí ser eliminado como prova e queima de possível arquivo! Assim perdura meses anos inclusive a baderna que mostra o meio-dia que a meia-noite esconderá ou presenteará o bairro estando os mortos mortos nos sonhos a cumprir mansos e vítimas o pesadelo... Então os jovens, sejam os que tenham talvez juntado pecúlio por meios escusos ou como numerários recebidos ou seriam mesadas dos pais nas famílias desarmonizadas, nas quais o homem que o caboclo tem por fazedor de filhos (já fez e pronto agora a mulher que se vire...) esse pai nunca na casa, abusivo dizer aqui um lar, esse pai nunca em família ou nunca apareceu, sem que se pense a fêmea a gerar sozinha todavia a tratar a cria como pode (ou não pode!) Ele se não em casa ou nunca existindo, como explicar a mesada? Não se explica. O fato é que aparecem por vezes carrões adquiridos por esse ‘milagre’, noutras e o mais das vezes motos devidamente barulhentas, sobretudo quando um jovem deva mostrar sua beleza mostrar sua alta inteligência mostrar sua argúcia ou mostrar outros quesitos próprios dos chegam aos píncaros da cultura cansada e por isso, apenas por isso, aceleram ziguezagueiam empinam suas motos numa só roda como fora um cavalo bravio em espetáculo de rua; esse veículo que os nipônicos quem sabe a se desforrar descontar do episódio de guerra com as bombas nucleares que o ocidente atirou na sua terra, a diminuir os milhões de orientais no oriente; então lançaram as ‘tataradeiras’ motocas a todo escapamento para se mostrar habilidade e se matar no trânsito diz a estatística e matar jovens em contrapartida, compensando o genocídio que o sol nascente experimentou... E, logicamente se houver lógica bastante: a motocicleta como veículo básico adequado e providencial à entrega de mercadoria nos pontos de drogas. O que tanto Shirley quanto Nair consideram, parece, vantajoso à beça.
Contudo a subcomandante é bela, mesmo assim bela. Porém a beleza merece reparos.
O que é beleza para uns nem sempre (ou quase nunca!?) é realmente bonito a outrem. Além do ser humano ter a brotar de si o belo interior, o qual poderá suplantar e até sufocar a feiura externa. Seria bela certa mulher que fosse por dentro e por fora apreciável.
A Shirley sê-lo-á?
Sua beleza tem conotação com apreciação que se possa fazer de um povo ou do grupo étnico ao qual pertence o objeto de análise, sem parecer exótico no próprio país em que vive. Ou vegeta... Ela tem rosto zigomático, olhos escuros em sorrisos ou marotos; nariz aberto um pouco chato sem as preocupações estilísticas europeias; estatura baixa como a maioria; é gordinha; com pele morena, sem que a gente se ponha a tergiversar em torno do que seja moreno, os saxões primeiro-mundistas diriam negro, negra nossa gente investe no escuro e nisto tudo podendo caber – enfim uma pincelada na beleza dessa chefa. Pertence ao grupo racial da maioria nesta nação, com seus traços delineados como orientais por ser indígenas. Ninguém discute ou somente vê tais traços e são os da maior parte da população, mesmo daquelas pessoas cruzadas com europeus mormente os latinos do primeiro mundo. No entanto os detentores dessas características se pensam ou apenas se dizem brancos. A cultura de nossa gente desconhece o caucásico.
Portanto uma senhora comum. Mas os que não apreciam os gordos, não só não sentem simpatia por ela por ser um pouco estufada como também mostram desagrado diante outras mulheres brancas e pesadas. O que certamente valendo aos equivalentes seus companheiros de existência neste mar conturbado que é a vida.
Posto isso nessas condições, porém admitindo que nem todas fêmeas da espécie tenham consorte ou qualquer coisa parecida como seu macho a perpetrar filhos em nome da natureza ou do destino: terá Shirley um homem?
Bem, as três meninas não foram geradas com ajuda do acaso. Parece que as duas mais velhas oriundas dum ‘namorado’, este termo de uso hoje e pode englobar o eventual ou companheiro um pouco mais paciente ou mais cansado para não fugir de um compromisso; o deste caso sumiu ou fora eliminado nas disputas no tráfico ilegal. O genitor da terceirinha ficou pouco, após a lua inexistente de mel; foi preso continua preso onde ninguém comenta andar, fora dentro do grupo familial ou entre pessoas congêneres; sabendo-se apenas que parte do numerário às despesas de manutenção familial vindo de verbas do governo, próprias aos parentes do detento. Uma questão mui discutível e raramente aceita como se encontra no meio do homem do povo; um pouco semelhando o que afirmam abusos nos direitos da criança e do adolescente, usados tais direitos por quadrilheiros a se safar do peso da lei, pondo sob sua guante jovens, os quais ficam quase imunes à ação da lei e não podem ser detidos mesmo nos crimes gravíssimos praticados além de três anos. O povo não se conforma com esses abusos e tem razão, pois quem é que paga a conta!? Parece que dessa verba espúria ou legal vem uma parte à família visando a terceira neta de Nair. Porém o grosso e o gritantemente de efeito para manter a casa vem mesmo das drogas. A casa repassa as baratinhas e populares como o crack e a maconha; visto as caras serem de consumo e tráfico da elite. Aqui seria dito que o buraco é mais em cima?
No pedaço, não como disputa nem havendo briga com o grupo pobre de Shirley, na Boa Morte existe outro agrupamento, este composto por indivíduos se não milionários e isto absurdo num bairro pouco mais que miserável na periferia, se não rico o ajuntamento ao menos da burguesia, a pequena e aspirante aos desejos e desmandos da média e mais ainda da alta. Este ponto, ou seja o outro extremo na rua, não se oposiciona teoricamente nem há confronto de aparato mas isto sim: ambas extremidades se tocam se conhecem ou não se ferem. Não obstante parece vir dessa rica agremiação abusos auditivos e ferimento da lei do silêncio ou da compostura cidadã. Provavelmente aí a se consumir opiáceos e outras proibições de uso legal.
Enfim os membros de ambos grupos não se conflitam; alguns dos soldados de Shirley não debandam mas participam da outra baderna “numa boa” se diz nas conversas amigas, apesar dos poucos traços que possam ter em comum.
Desse ajuntamento com dramas decerto e quem sabe com mais garantias ou só simpatias por parte dos homens da lei; desse não trata este texto. Só analisando como possível os ‘primos pobres’, no que abarca o mundo da droga.
E disto sabe tratar as comandantes...
Contudo, os raios solares abriram a cortina do teatro do dia, uns pessimistas não reconhecem se não como peça circense. A manhã vai longe já e aquece,  os meninos vêm chegando a brotar de todos lados sobretudo dos inadmissíveis indo para a esquina de Nair. Não é feriado não é fim de semana não é um domingo, o domingo que tanto aprecia macarronada e pizza e vinho e conversa. Não importa: os jovens não têm dia. Entram na noite irreverentemente, não interessa se uma segunda da preguiça se uma quarta se outra feira. Estão sempre dispostos a badernar (isto opinião provável dos homens tidos por ‘gente de bem’, os quais não veem com bons olhos a algazarra:) a badernar estão os garotos. Brincam entre si, gritam horas, falam suas coisas, conversam muito sobre dados pertinentes ao grupo de amizade. Mui frequente ultrapassarem o dia o sol indo com sono e a lua vindo a chegar sorrindo e ainda o time não saiu de campo. Isto poderá não acabar e na prorrogação, não sendo data em que cheguem drogas no pedaço – na entrega todos ali ansiados e na expectativa de trabalho; eles desempregados, com tanto serviço ali ofertado pela Shirley... – não é dia, é dia já na noite de prosseguir a brincadeira interminável mormente se algum entre eles, os quais se põem como “manos”, tenha um carro a ‘bate-estacar’ músicas ou coisa próxima num ritmo frenético com ajuda de atabaques e bumbos eletrônicos a marcar o funk, o qual anda na moda e que os meninos extravasam usando os mais altos decibéis nunca permitidos existentes e executados... Um que outro, viciado ou conhecido por “noia”, na fala de rua ou na da imprensa, esse já mostra descontrole emocional, os olhos avermelhados, crê-se pois o escuro da noite interdita interpretação; e – isto uma curiosidade ao menos nestes dois últimos anos – e espantosamente não se defrontam entre si nem com ninguém na vizinhança a ofender alto pelo menos, audível que seja. Todavia é comum escutar, o velhote lá longe na casa uns sessenta metros de ouvidos atentos e aguçados, sabe que tem sempre um a falar desconexos, só violento na voz apesar sem a dosagem equilibrada de sons, desintegrada a violência nas brincadeiras amistosas em sua volta; até que durma.
Mas um drogado dorme? Ou sua existência é já um sono contínuo com ímpetos de pesadelo! 

Cap.
Exército do crime pode parecer expressão mui abrangente e ao contrário nada indicar, ser conjunto de vocábulos aleatórios. Contudo a ideia apressada muda em presenciando os soldados, alguns podendo ser conhecidos acompanhados e até medidos nos seus atos e passos; enquanto outros penetraram no grupo desconhecidos e após meses ainda não se sabe quem são. Os briguentos logo aparecem, os com presença diária logo também identificáveis; enquanto o pessoal com a faculdade de nunca se ver embora presentes, esse é sempre a interrogação – pois há gente que consegue não ser notada, na multidão nem se fala, inclusive nos grupelhos os quais são ajuntados ao acaso, acaso não havendo e sequer existindo realmente o acaso... Não sendo bem o caso das reuniões centradas no negócio da Shirley e sua exagerada mãe; a qual curiosamente aparece desaparece reaparece às necessidades sem que os militantes possam entender o milagre; daí estarem atentos sempre para o que der e vier; mesmo os tipos indicados agorinha e que são meio sem forma de tanto não ser na sua inexpressividade. Estes elementos estão frequente entre os meninos, alguns dos garotos os chamam por nome, outros pelo apelido vulgar sem certeza alguma terem de fato nome. Alguns entretanto dos comandados pelas duas mulheres robustas ou adiposas, alguns marcam por demais conhecidos. O que desfigura de certa maneira o mister, visto a condição quase sine qua non ser não revelar a identidade; então o participante viraria uma entidade não um combatente de peito aberto e muita coragem. O negócio que envolve drogas ilícitas e tráfico ilegal é mui perigoso a conter alguém na berlinda e na vaidade...
Não obstante é o que acontece faz mais de ano no caso do garotão Bi. Bi até ele deverá já ter esquecido o próprio nome, o oficial e de registro, tanto ser chamado assim e visto pelos colegas, colegas ou amigos para se confundir melhor tais substantivos como é do gosto do nosso povo. O garoto Bi diário participando, enfim um membro ativo no grupo da Shirley. Ativo sem contudo assumir qualquer liderança. Sua psicologia mostra o rapaz sempre submisso e secundando outrem sem nada pleitear pra si, uma espécie de maria vai com as outras, que é frase bem usada e conhecida no pedaço e não só na rua e até na urbe. Para mostrar o sujeito que não sabe impor sua condição mas antes que isso se submete aos caprichos alheios. Ele é desse jeito. Não por isso ou exatamente por isso é mais querido, ao menos aceito. O que característica de adolescente, o qual sente demais a necessidade se enturmar e fazer o que faz seu agrupamento social.
Com isso granjeou certa necessidade entre os seus companheiros recrutas; ele eterno recruta, desse tipo que nunca amadurece nem tem iniciativa, que não seja aquela que dê prejuízo à família; desregrado o suficiente para gastar sem cálculo e estar sempre devendo; piormente sem a esperança ter a mínima independência no campo das finanças visto o desregramento o levar a ser mais e mais dependente porém independente no sentido da irresponsabilidade. É um mal é um bem? Posto nesses termos o Bi é um colaborador ideal às duas chefas e às ideias que se supõem elas defendam, talvez por não conscientizar. Muito menos conscientizado o rapagão alto espichado magro, magro sobretudo por não ter hora para coisa alguma, inclusive à refeição e menos ao trabalho (este improvável ou eventual). Enfim, se um bem ao grupo pobre e distribuidor de drogas baratas, um mal para a família dele, porque sua instabilidade e a intemperança que já duram vinte e poucos anos afetam a harmonia da casa em que dorme; só dorme e desperto desfeiteia a mãe que chora e o pai que resmunga por fora e decerto lamenta por dentro.
A coisa é bem pior que uns simples traços possam revelar... Os pais enfermos do Bi têm que arcar anos após anos com o desregramento do menino: faz negócios e mais negócios compra isso compra aquilo troca devolve perde, toda vez perde e suja o nome paterno até aqui honrado... Sem crédito e sujo na praça o Bi, desempregado com frequência por esquentado e de pavio curto no dizer popular e sem ordenado fixo e sem regra e sem respeito à lei ou às empresas estabelecidas – as dívidas, já não mais as dúvidas, as dívidas crescem e o pai se vê na contingência salvar o irresponsável; este usa abusa perde e se beneficia enfim do sistema perverso do cartão de crédito (crédito paterno). Nos últimos meses adquiriu uma camionete seminova prateada brilhante ao sol da Boa Morte e a reformou dos pés à cabeça; procedeu a transformações ilegais no veículo, tudo com o nome do genitor. Assim já era conhecido ficou conhecidíssimo nos meios policiais por suas encrencas e comum virou a visita de carros oficiais da delegacia na porta com intimações.
Isto não o diminuiu no grupo que ora este texto apresenta; pelo contrário: é motivo de engrandecimento entre os pares por sua coragem quase arrojo, no mau sentido, seu quase atrevimento no praticar asneiras, isto conforme a critica da sociedade bem posta; um autêntico ser desmiolado segundo o homem de bem a morar nessa via. Um elemento com todas características que o exército do crime deseja e veladamente defende e mais ainda: enseja e usa. Sim Bi é usado pelos asseclas.
Claro que isso tudo tem um preço e um custo alto que é a desconfiança. O grupo valoriza bem o garoto.
Numa ocasião recente fora usado pelo bando a trazer pequeno contrabando como “mula”, assim designado na imprensa e nos meios policiais, ou a se pôr como “laranja”, outra expressão da imprensa que trata tais desmandos. Preso no Paraguai transportando indevidos e objetos ilegalmente. Foi preciso o pai ir tirá-lo das grades, pois os amigos e mais os chefes do tráfico não foram defender o soldado ferido na batalha... antes que isso é o comum do dizer “não o conheço” “nunca o vi...”
Torna o moço e logo torna às lides escusas.
A família quis casá-lo, aquele negócio de mais de milênio: dar ao filho o remédio do matrimônio deixando o amargor à nora. Depois abaixaram a bola os familiares aceitando ao menos a nora sob o título namorada – que hoje engloba lances como morar, não: ‘ficar’ com a namorada dormir com a namorada fazer nenê na namorada e depois ir passear com os amigos de farra deixando a namorada num ver navios. A família bem que tentou acertá-lo, permitindo que morasse o casal na residência do pai dele sogro emprestado da namorada, apesar da decantada afirmativa do choque sogra e nora; funcionou não funcionando o alvitre, ou ficaram apenas semana e cada um do consórcio sem padre sem cartório indo pro seu lado. Assim o Bi voltou, alegre, feliz, ao colo do seu exército, onde cantam de galo Shirley e Nair.
Agora serenou a coisa: para ficar como antes no castelo de abrantes? Os mentores, mentoras, e possivelmente mais alguém escondido e não aparecendo em público mas poderoso e mandão; enfim a chefia resolveu usar abusando do rapaz ao ordenar o uso da condução do menino, o qual não encontrando nada útil e sério a se dedicar – limpa lava lustra assopra, beija quem sabe sua camionete que está registrada em nome do pai dele. A ocupação na limpeza é diária, o carro é seu deus. Ideia esta defendida por número enorme de cidadãos... Ora, o que pesa na bolsa familial é o abuso do uso do veículo na tarefa ilegal de levar aos destinos incógnitos a mercadoria espúria e perigosa. O carro não para mais agora, mesmo não sendo a serviço do trabalho ilegal a mando dos chefes, sim por conta do próprio ‘dono’-usuário. Reside o rapaz há meia quadra das reuniões da esquina costumeira (existem outros locais além para se badernar não estando ocupados a badernar os jovens na bendita esquina da Shirley) onde a conversa animada o som estupidamente ensurdecedor de varar madrugada e onde ficam todos na expectativa receber das mãos da chefa a mercadoria quase sagrada e entregue um a um a miúdo a beirar meia-noite para os “aviõezinhos”, nome ventilado na imprensa marrom. Pois não é que morando encostado ele, vai de casa ao ‘trabalho’ de língua e escusos montado na caminhonete. Depois, madrugada depois, dá marcha a ré indo para a frente dos pais, decerto eles já no sono do seu pesadelo... Então, semelhando certamente os membros do exército, cansado de tanta entrega ilegal se entrega ao sono como um justo, visto ninguém ser de ferro. É justo!
Talvez as chefas beneficiárias achem que sim.

Cap.
Quando do sumiço do filho, nuns anuviados que nunca ficam claro ao homem comum; aqui entendendo os episódios que o levaram à prisão paraguaia; os pais do Bi andaram até desesperados, o que linguagem do coração, algumas outras pessoas têm possibilidade entender, a maioria não – quando desse desaparecimento e aí iam semanas de procura choro discussão conjugal e insônia; daí resolveram ir atrás de Negritão a fim de saber o paradeiro do seu rapaz; não poderia que pudesse haver sido assassinado ou sequestrado ou ferido, então indo o casal a todos prontos-socorros à polícia e antes a tentar saber nos parentes deles; tudo baldo. O Negritão sendo do tipo carne e unha, na expressão do povo a dizer viverem duas pessoas atraídas não se separando jamais; e no entanto o amigo do amigo enrolou como pôde o pai do outro, desconversou e para se livrar de vez do interrogatório a si constrangedor e certamente comprometedor levantou a hipótese da namorada do Bi saber. A moça tanto quanto os pais dele preocupada, a sugerir algumas ideias que pudessem contatá-lo: o celular cor de rosa dela vivia trabalhando nesse sentido, num até... Bem, foi a namorada, ex-namorada, o primeiro ser a poder falar testa a testa com seu ‘ex’, aqui também se exagerando um pouco visto uma cabeça se ligar à outra pelo satélite de comunicação como todos entendem hoje. O fato é que conversaram. Encontrava-se dias preso e nisto se liga aquela oficial de justiça de fala ardida e alta de ontem... Todavia vamos com calma ou desentendemos o entender.
O Negritão não é bem flor para se cheirar e está sempre onde o grupo se encontra – quase fatalmente na esquina dela, já se afiançou; na esquina conhecida ou como reunião móvel a andar por outras plagas num algazarrar ou beber ou fumar ou se preparar para voar: não se disse serem tomados como aviõezinhos! E como em geral estão os jovens na frente do portão da Shirley, então o amigo do Bi também ali com os outros iguais mais semelhantes que iguais e ambos mais ou menos irmãos gêmeos, todo dia ao lado do que o Bi fazendo, quer dizer: nada, nada além de receber ordens ou a saber se vem hoje mercadoria ou a mercadoria deve logo ser entregue para quem se deve entregar; coisas assim. Os outros chispam nas suas motos, uns tornam rápidos, famintos, pegar nova encomenda ou mais droga a reencaminhá-la. O Bi tem o carro, Negritão que é um lerdo colosso paquidérmico de carnes e mais que as carnes banha, não iria fazer entrega com moto que não tem – tem mãe, recebe dela módicas contribuições num dinheirinho suado, a pobre é pobre e empregada doméstica lutando para sustentar a casa, o pai tendo fugido do lar e por isso as finanças regradas ali na esquina (seu domicílio fica ao lado da esquina, portanto vizinho da chefe) e assim da reuniãozinha dá até para ouvir a lamentação da senhora ao filho “vai trabalhar!” diz e o moço responde “pra que se você trabalha pra mim?” O Negritão é além de tudo irônico debochado escarnecedor nas palavras que profere e naquilo que faz, não faz... Dessa forma consome também drogas e passa a outrem de sua relação nos lugares e horas não divulgados para outros indivíduos desconhecidos, como é anônima geralmente a população viciada e consumidora. Na esquina entre amigos ele vivendo comendo, ah como aprecia mastigar! e bebendo, sobretudo o que uns colegas de famílias abastadas decerto igualmente desestruturadas trazem ou seja bebidas caras como uísque e vodca, às vezes conseguidas por meios escusos; após as reuniões deles ali na esquina sempre sobram garrafas vazias a rolar no chão. O fato é chegar bebidas e se embebedarem e embebedarem o Negritão. Melhor seria tratá-lo Bolão ou Barricão como mais se assemelha, pois vive de bermudas como todos, os outros mostram uns cambitos na magreza, porém ele é estufado e barrigudo tendo dificuldade inclusive para andar no desengonço; daí, como poderia pilotar e mais voar numa motocicleta ligeira e apressada para chegar ao ponto onde entregar droga!? Moreno ou baio semelhante a maioria, ele é mais escuro, donde o apelido. Decerto a pobre e sofrida mãe sabe o verdadeiro nome daquele combatente gozador, assim como os outros soldados dessa causa perdida.
Naquele dia, os pais do amigo cansados virolar por aí, haviam  virado a cidade de cabeça para baixo no dizer caipira, naquele não quis ou não pôde para não se complicar indicar o endereço precário de Bi. Que era no estrangeiro, no país vizinho onde o jovem andava bem complicado; os chefes do tráfico haviam tirado o corpo fora para não se comprometer nem pôr em risco a causa ou até enrolar mais ainda a posição comprometedora de policiais possivelmente aliados. Aqui o corriqueiro no conhecimento público e chover no molhado, outra expressão caipira.
Dito já solto e tornando ao ‘trabalho’, palavra ressaltada porque Bi tem atualmente dois serviços, o que seria ótimo para os frequentes desempregados. Um é decente embora nele não formal e registrado como servente de pedreiro; e isto não seria maneira a santificar o serviço ilegal, uma forma de lavar (esta, palavra de muito uso indicando limpar dinheiro sujo...) O outro ofício se ofício ou só atividade que é a razão do agrupamento no portão da Shirley e a restante tarefa: a de fazer bagunça até ou para despistar o negócio ilícito, mais uma vez santificando as profundas... Enfim escamoteamento da atividade suja com a aparente brincadeira e ajuntamento para conversa-fiada e ouvir som, quiçá som a estourar orelhas com seus exageros nos decibéis...
É uma questão para pensar mas parece tudo o que até aqui exposto algo para mostrar o ser humano como autêntico camaleão. Parecendo também que só se possa mesmo confiar no cavalo de beleza extraordinária e no cão de amizade exemplar, ambos ofertando amor incondicional – não se acreditando no bípede seja qual for seu apelido.
O problema da procura do recruta Bi, o reencontro dele no seu desencontro e demais enrascadas em que se pôs (por culpa dos dedos traficantes, é preciso insistir:) se liga realmente à visita duma oficial de justiça faz pouco.
Ela parou na frente do lar dos sofridos pais do Bi, bateu palmas fininhas incisivas, já se ia embora quando veio a mãe depois o pai do moço a espreitar a esposa e a visita e depois ainda se metendo e pedindo mais informes. A senhora madura e bela disse ao casal num alto e bom som também aos vizinhos ouvirem, piormente aquele vizinho dos cinquenta ou sessenta metros bem medidos interessado no mandonismo da Shirley, junto aos ansiosos meninos aguardando ordens, em plena meia-noite. Disse a funcionária da justiça com uma intimação a tremular-lhe e refletir o sol do meio-dia, sobre o negócio, o velho negócio, a coisa enrolada à qual o filho deles, do casal, se viu pego num flagrante e preso e solto. Aqui se mete o pai a narrar para alta funcionária como foi como não foi e por fim pagando fiança sem poder por individado gastar e trazendo o filho contraventor ou criminoso de volta. O que a mesma escutou com paciência e educação embora soubesse de sobra os entraves e desentraves; podendo nisto encaixar o quesito de que se não deve ensinar o padre-nosso ao vigário, a boca do povo é mesmo engraçada.
Bem, a mulher resumiu tudo para o que veio; decerto já amolada pela prolixidade ouvida e com isso concluindo a visita; disse que por força da precatória, então o juiz convocando a depor e prosseguir no processo o réu (será réu?) e os pais, mormente o genitor que negociara a liberdade provisória e pagara a fiança lá no Paraguai. Fê-lo trêmulo assinar. Repetiu o endereço indicado na intimação, explicou em que ponto da urbe encontrar o juiz, a hora o dia e... e se foi; ainda quase praticou uma imperdoável barbeiragenzinha nas manobras do carro preto pesado, pesado como a situação escura. E se foi de vez.

Cap.
Coloquemos os pingos nos ii da meia-noite. Isto porque anda parecendo, quer nos parecer, que ela se sobreleve a si mesma – e é quase assim forçosamente, como fugir! – e nisto poderíamos errar qual trem num trilho mal posto chegar num horizonte oposto ao horizonte... Assim alguém acharia que a meia-noite pudesse acontecer todas noites, de fato sendo dessa forma enquanto houver sol houver em consequência planeta; sim mas não em todas noites as meias-noites, como a do tipo dessa noite escura da droga, melhor na pior a da distribuição dela. É isso que a gente quer mostrar. Evitando dar margem a distorções e às distorções dentro do absurdo como por exemplo pensarmos possa ocorrer (a meia-noite) toda hora da noite de todos dias e até no dia; por que não ao meio-dia! Devagar com o andor, o santo é de barro etc. e tal.
A Shirley, também a sua mãe e sua superior hierárquica nesse santo mister a levar para as profundas, aos quintos se se convencionar melhor dizer; a Shirley se dispõe a ordenar aos soldados neófitos inexperientes e aos jovens da velha guarda já experimentados na distribuição desse patrimônio móvel como um pântano sujo como um pântano – ela se dispõe ao comando ostensivo e às vezes apenas pode ficar um pouco nervosa na passagem da noite-madrugada-dia num determinado dia da folhinha, o calendário ignorado às vezes até por ela, até pela marechala com pose de sargentona. Quantas vezes nestes últimos anos não foi pega desprevenida... Ou seja: chega de repente, sem um preparo anterior, o veículo atulhado com maconha e com crack minuciosa e criteriosamente embalados e já prontos não ao uso, à distribuição; ou seria melhor pôr aqui redistribuição, para que os bis os negritões e mais os motoqueiros possam sair imediato escondendo defendendo a presa... não, a imagem não serve pois a noite o escuro o silêncio o sono o sonho do bairro não podendo sentir o pesadelo e aí não havendo necessidade esconder defender; antes que isso, defender protegendo sim os recrutas, enquanto os soldados já graduados mais se defendem é do tempo: o tempo escorre e urge que se dispare, que se ronquem motores. Nisto nada dos dias de brincadeira e conversa mole ao som do ritmo frenético do funk e então os motoqueiros acelerando para executar estourar orelhas da rua Boa Morte, ah que vida! Portanto agora não aceleram com o simples objetivo de irritar ouvidos alheios, não: aceleram sim porém contínuo, a chispar, mormente estando drogados também, num correr chumbados turbinados enlouquecidos rumo ao seu grande destino, que é entregar sub-repticiamente a alguém decerto ansiado no aguardo ou para redistribuir a mercadoria ou para consumir. Ou... ai! para aumentar a dívida, o que ao infortunado podendo trazer perseguição prisão tortura morte; ora, é chover no molhado, diz o povão gozador.
Em razão disso (a gente poderia afiançar na calada da noite!?) por isso ocorrendo apenas na meia-noite, pouco antes pouco depois conforme necessidade do serviço. E mais garantidamente tão só quando chega a encomenda; entrega viciada ou não no calendário, ela quase sempre ocorrendo entra semana sai semana na sexta-feira, seja ou não seja uma sexta treze com gato preto a atravessar a rua da ignorância, portanto do medo.
Aqui entraria uma outra questão, já dentro das raízes do drama ou dentro das causas, que é o cuidado.
Atrás de tudo precisa haver o cuidado ou vai tudo por água abaixo. Decerto, nisto sem prova todavia com boas e honestas suposições, terá havido interrupção no fornecimento do contrabando: ¿não teriam destacado uns funcionários jovens e bobinhos neófitos na burocracia oficial sem conhecer expedientes oficiosos e então barrados e até presos os leais transportadores nos limites comuns entre o território estrangeiro e o nosso país? E ¡¿não podendo ter ocorrido desvios desonestos por desonestas interferências dos desleais traficantes rivais contrários, uma gente sórdida inescrupulosa e mesmo maquiavélica e aí falhando dispositivos, ecoando como ondas até chegar nos chefes de Nair, em Shirley e logicamente nos soldadinhos do seu exército!? Não poderia ainda como alvitre negativo se quebrar a condução e daí como encontrar mecânico a essas horas da noite; ou estourado um pneu e inclusive todos pneumáticos do carro! ou ainda... pera lá, terá nisso ainda mais amigos da onça?
Enfim, o fato é que havendo quaisquer obstruções a droga não chega para redistribuição na esquina sagrada das chefas.
Conclusão, é noite. Em a noite se espera a meia-noite duma corriqueira sexta. Para quê? para entrega normal ou comum, o normal sendo o mastigar qual chiclete que mascam os jovens comuns; acontece o comum, o comum da entrega seja da maconha seja do crack seja ao mesmo tempo a entrega de ambos, para alívio dos que têm o vício.
Contudo, isso não é o comum doutras sextas-feiras e nem dos outros dias da semana nos meses nos anos (ad aeternum?) Não. Os outros dias, dia e noite infelizmente diz a vizinhança e não só os vizinhos que então já puseram a placa “vende-se esta casa”. Dia e noite é a arruaça nos encontros nada fortuitos – ah mas salva-se a manhã de todos dias, na qual os ‘trabalhadores’ andam a descansar, mesmo porque ninguém é de ferro a farrear ininterruptamente tarde noite madrugada – dia e noite nos encontros quase sempre na esquina dela, dela e do Negritão; ou que possa a reunião dos meninos alegres em demasia a gritar dançar ouvir o som que dita o momento na marcação dos seus atabaques; que o ajuntamento possa dar-se nos vários pontos desta mesma periferia da urbe pequena se pensando grande. É farra em qualquer lugar enfim; na forma que o popular lamenta “durma-se com um barulho desse”, o que não atinge as orelhas dos integrantes da juventude alegre.  

Cap.
Não obstante a incógnita o segredo a noite escura além ou aquém da meia-noite que recai sobre a existência da Shirley da Nair e dos chefes dessas chefas do tráfico de drogas baratas nesta periferia – não obstante e curiosamente elas têm um romance. Vamos mais além e sejamos incisivos na afirmação: elas são romances.
Partimos da tese de que todos somos e temos história. Por vezes mal contada e quase se distorcendo em estória; estória frequente com muito lobo mau e pouco chapeuzinho. Contudo a existência que o homem comum teima ser a vida sendo apenas partícula infinitesimal essa existência da vida de uma pessoa, tal pessoa vive um romance sem o saber e também é um romance. Muita vez fragmentado e sem linguagem, inviabilizado à publicação; ou publicável publicado, se contentando com a leitura analfabeta de uns poucos dos muitos seus familiares. Se está mal escrito? se é mal lido? se não é nem conhecido e invendável a curtir poeira na estante da livraria, hoje em extinção o comércio livreiro por causa dos meios informáticos? Não importa: é uma obra, obra essa que pode ser nada lírica e inclusive horrorosamente dramática com dores e ranger de dentes.
Na vida pregressa (aqui vida e existência confundidas a satisfazer o homem do povo) na vida da Shirley, bem antes ser a mulher estufada e de andar lento nos pesos dos seus trinta e poucos anos; ou na de Nair também gorducha na sua passada meia-idade; temos duas jovens bonitas pelas quais os interessados se interessaram conquistaram e casaram, embora no padre e no cartório só a mãe a filha entrara mais tarde nos costumes atuais prenhes de namorados; lembrar aqui o tipo tal qual o figurado no rapaz Bi: morar com o namorado fazer filho com o namorado e apreciar depois outros namorados ou sejam conhecidos mais candidatos a amigos para distração... Coisas de uma sociedade que sacrificou matou eliminou o amante, até aí digna criatura da poesia dos tempos antigos (e o que seria antigo?) Nair não, casou-se nos conformes, sofreu nos conformes com belas discussões conjugais, mesmo porque o João era o que hoje picham como “galinha”, enfim um sujeito mulherengo e infiel. E não seria aqui o momento de procurar razões ao destrambelhamento futuro da mulher então presa aos laços esponsais e respeitadora do código de honra de casada e do pensamento católico? Assim mesmo tiveram porção de filhotes que não vingaram sobrando apenas três: a mais velha Shirley, apelido em homenagem à Shirley Temple heroína do cinema quase no tempo que o cinema aprendia a falar; uma bela criança, promessa, que o vizinho próximo distante uns cinquenta ou sessenta metros de sua casa atual afirma haver falhado e deu no que deu com a belinha desvirando promessinha em chefe do tráfico ali na esquina, mas isto ele sabe a rua Boa Morte sabe e a polícia desconfia. Ela, dona Shirley, é o que sabemos sabendo por alto seus comandados no exército quase sem quartel. No entanto foi promessa na juventude, quando a esbanjar beleza e charme e simpatia, agora apenas simpatia aos poucos vizinhos, pois 90% da rua é desconfiada e mais o velho próximo distante; ele igualmente um romance hoje não lido. Shirley cultiva suas páginas, ama, deseja, se engana e não fica pra titia: arranja um quebra-galho, expressão mui curiosa que o povo usa; arranja um homem, dá à luz duas meninas, aí já tendo se envolvido no mundo das drogas, havendo mesmo um lance desagradável que é ser ela jurada de morte no pacto com esse diabo tão bem visto ou tão conhecido hoje em dia; se desvencilhou como pôde e daí foi o companheiro preso e antes perseguido pelos traficantes rivais e pelas autoridades. Encerrado na casa de detenção sumiu. Surgiu novo namorado à namorada e com este nova criança que é a terceira filhinha. Também preso, o mais recente namorado continua preso, foi arranjada forma de por força legal ser enviado pelo presídio auxílio pecuniário ao sustento da menina; o restante da despesa da casa vindo com os negócios ilícitos da agora chefa. De maneira que Shirley desistiu de sonhar com outro príncipe não encantado, vivendo sob o código de honra desse mundo mui falado e pouco conhecido, que são os meandros do crime. Portanto optou em dirigir sob orientação da mãe que a iniciou na coisa, a chefiar seus recrutas e soldados; não se voltando mais para o amor como visto o amor num romance qualquer, banal.
Já a Nair é obra mais volumosa e mais rica como também mais completa em sofrimentos e encrencas. Isto porque temperamental e revoltada; acutilada, ataca se defendendo de língua: é do tipo de mulher que não para de falar, a vencer no grito. A filha não é bem o oposto, oposto só na voz educada e mansa. A mãe é matreira, se esconde no que a sociedade aceita: a sociedade apreciando bem o trabalhador incansável o pagador correto; cutucada com vara curta no dizer caboblo – vira uma fera. Sem pôr por nenhum momento os lances condenáveis ou perigosos em que se enredou, que são questões do tráfico; é uma traficante consumada mas trajando-se como mulher direita; e até religiosa ou seriam religiosos os seus! sim porque os que passam na esquina não estando a malta jovem a ouvir seu som e a se cruzar asneiras e na conversa-fiada, então ouvem a chamada música gospel com sua gritaria, ou somente o volume do aparelho de som da casa com boca mais arreganhada. O fato é que se escuta esse tipo de manifestação religiosa, que ecoa nos corredores da residência. E a chefa? Provável que use também mais esse subterfúgio do natural segundo o homem comum, para esconder e se esconder do proibido ou só comprometedor.
Apesar disso tudo, teve Nair as folhas ora amassadas ora arrancadas nervosamente ou apenas rabiscadas assinaladas sujadas com marquinhas de ponta de caneta a manchar o todo no papel do romance. Sim tem gente que rabisca remarca sublinha fere indicando palavras e frases no livro que lê; uns leitores vão além, conforme sua educação: anotam nas margens ou espaços número de telefone, resumem anedotas pra não se esquecer posteriormente caso precisem lembrar; tudo nas páginas inocentes dum romance e daí não precisando que o mesmo seja de boa cepa e uma boa literatura; inclusive pode ser de escritor mambembe e desconhecido. Bem, a mulher teve emporcalhadas as folhas do romance, em que encerra sua rica pobre história. Onde sobrando amor materno e carinho e desejos e decepções e brigas, brigas até homéricas com seu homem, ao desespero das orelhas vizinhas. Aqui explicável o porquê de tantas mudanças na família, de casa em casa até chegar à casa da esquina na Boa Morte, local dela acumular banha... hoje estufa e se estufa sendo moralmente a chefona duma gangue respeitada inclusive por policiais.
Chegaram no translado com os cacarecos de pobre, criança dando palpite aos adultos e na choradeira; móveis mui arrastados vidro do guarda-roupa quebrado, falação; as plantas nos vasos improvisados ou sejam as latinhas de flor, a flor que se põe como poesia do bem e do bem-estar no pensamento humano. Permaneceram aí na esquina residindo sem mais a desgastante situação de mudanças. Sem com isso mudar a verdade e a realidade. Logo o João se engraçou duma virgem filha do vizinho ao lado e fugiu com ela, deixando Nair furiosa e ferida. Um pouco a situação criticada popularmente que é trocar uma esposa cansada gasta velha por duas mulheres de vinte. A matrona virou mesmo matrona. Mas nisto a coisa complicou, coisa a ser lembrada noutras próximas oportunidades neste texto; a coisa em si pode ser resumida com a Nair ficando semelhante outras consortes (sem sorte, trocadilhemos) abandonadas, instilando seu veneno nas brigas de sua família por causa dos herdeiros, o drama da pensão não paga pelo ex-marido fujão; e com a família e aliados do vizinho ofendido no ‘roubo’, palavra indevida quando entram as miudezas do amor carnal na concepção do povo – enfim bate-bocas meses e anos; até serenar, aqui um ‘serenar’. Logo a matrona envolveu-se em duas frentes: com um namorado (na acepção atual) e com o mundo do crime no trato com droga. Encurtemos: arranjou um namorado traficante. E se complicou na mesma intensidade em que penetrou na cúpula. Tornou-se representante e executiva nessa empresa, porque preso seu homem passou a ser como a voz do presidiário; a ficar sua gente sujeita ao processo que liga o chefão ao seu negócio escuso. Em resumo, uma representante sem representação legal. De fato é uma ‘trabalhadora’ no mostrar serviço e compromisso numa teoricamente casa de família (onde? quando? de quem? como? indagam vizinhos atrevidos...) a sair da periferia diário ao serviço formal no ônibus circular das dezessete horas e a tornar na madrugada na garupa do mototaxista. E... Sim, depois da meia-noite, a meia-noite pertence a outra executiva, a filha mais velha Shirley, aquela que obteve sua graça pela graça do cinema antigo quase mudo. Não a mãe dela.
A mãe teve vingado mais duas crianças hoje moças. A Bruna e o Amadeu, este a copiar como homenagem o nome do pai da mãe quando ele ainda bebê, o preferido do João, sempre o machinho é ansiado tendo já uma porção de fêmeas da espécie no lar; ainda era um lar e por entre desentendimentos havia um sonho a realizar realizável irrealizado.
A promessa masculinazinha virou um jovem ainda agora imberbe mas amorosa; chegou a ser babá das sobrinhas, filhas de Shirley, com categoria e quase se tornou depois um submisso do amigo Bi, a enrabichar com esse soldado do exército perigoso. Amadeu não passando de um garoto, ainda sem destino, ou com um suposto destino sem grandes horizontes.
Quanto à bela Bruna, não se envolveu em compromissos no baixo mundo na mesma intensidade e atrelamento de Shirley, porém não foge ao convívio das más companhias. O meio não permite ser diverso. Se engajou com um namorado mais no estilo de “ficar” como é o palavreado agora, que para constituir família embora também ilegal; portanto solteira e desimpedida, apenas auxiliando as chefas nos cuidados domésticos. Quanto às suas relações é um ser mais ou menos livre, anda por aí sem se prender e como mulher sabe como defender-se. Neste ponto entrando dois dados relativos na visão da sociedade. Primeiro que ela é quase provocante por sua beleza incomum. Tem um perfil que pode ser visto qual obra esquemática bem acabada por artista de valor: todo seu físico é perfeição, bem pincelado pela natureza. De tez morena e feição no padrão europeu – de boca fina nariz afilado olhos buliçosos e conversadores – está longe da mana e da mãe delas, ambas além de gordas dando trabalho à balança e tendo dificuldade para encontrar o número certo nas confecções, as duas com características fisionômicas indígenas, como aliás a maioria na população da periferia; escuras semiclareadas, têm traços grosseiros embora mulheres. A Bruna não: é fina e bem acabada, é um pouco bibelô composto por artista de talento. Parece mais princesa deslocada à periferia bastarda. Em tudo, na voz no timbre na pele doce de porcelana; talvez nas vestes que vão além do bruto e do mau gosto em ser todo mundo trajado igual, o popular hoje trabalhado pelo sabor televisivo. Bela. Bela já basta a sintetizar a moça. No entanto tem a outra vertente na mesma pessoa. Não é que seja destramelada, visto ser contida como tivesse alta educação, não desbocada como a mãe e a irmã a berrar quando descontentes. A mãe a dar espetáculo; a menos que esteja sobreavisada decerto por aliados ou bisbilhoteiros ou polícia ou vizinhança ou por traficantes rivais. Um dia na esquina assustou a rua Boa Morte viva nos sons a se calarem então, assustou com seus gritos e extertores (nesses momentos não mede palavras não modula coisa alguma: avança!) contra inimiga e ex-vizinha num desentender de desmontar o mundo: então soltou os maiores insultos os maiores nomes feios, estando inclusive com uma netinha no colo! Aliás é um dado terrível e frequente o desbocar nesse meio, os jovens por exemplo usam palavreado chão e mais que isso, menos que isso: a baixaria. A Nair a gritar vocábulos de prostíbulos contra a outra no meio da rua. Traduzindo resumindo: “eu dou para um só homem; você, sua nojenta, dá pra todos que encontra!” Não se pegaram em não ser na língua. A Shirley também pega duro num bate-boca bem caracterizado; mas sua força moral força os temerosos e escapulir, ficando uns poucos curiosos constrangidos, nessa situação na qual não sabemos o que fazer o que dizer o que mostrar que não fira uma autoridade (no caso a Shirley). Não fala alto, fere com palavras medidas e dosadas. Em conclusão, não dá como Nair show. Nenhuma nem mãe nem filha se põe na berlinda com ataques verbais de alto som, quando em jogo as questões de tráfico pondo a perder conquistas tão veladas e tão perigosas... Nesta investigação quem sabe apócrifa o mais comum é Nair desaparecer dias até e na volta quase não se mostrando por enfiada na residência; se precisar brigar desfeitear alguém, evita; já a Shirley está na casa diário, mesmo não tendo no dia a meia-noite; e durante o dia quer mostrar mais ser dona de casa, não a dona do tráfico; mais ser mãe e vizinha civilizada; também evita o quanto possa confrontação e mais ainda se precisar berrar impropérios como a mãe dela.
Tornemos à bela Bruna. No meio disso vive a trabalhar, como varrer a calçada por exemplo ou a chamar nos tentos o jovem irmão ou as sobrinhas pequenas. Um pouco discreta, parece, como a esconder sua beleza ostensiva. Recebe e convive com conhecidos e cultiva relações femininas assim como conversa com alguns parentes e nisto claro chocar-se com estes. A velha questãozinha de parentes língua e dentes. Não é dada a bate-papo com a vizinhança. Contudo – por semelhante educação aos olhos do homem comum e mais levando em conta a aparência de grande beleza na mulher pequena magra – é um despropósito de boca aberta! se irritada ou piormente num confronto com desafeto, seja por entrevero de amor e namorisco seja com rivais; estes não necessariamente ligados às drogas, ela a que menos dá mostra estar nesse drama imundo. Quando assim, vomita todo um prostíbulo e não só os vocábulos de prostíbulos! É como ter um vaso de finíssimo cristal da Boêmia, a se espatifar num sopro com força de tufão...
É mais ou menos assim uma princesa, perdida ou engajada na casa cheia de interrogações da esquina; no pensar dum de seus vizinhos, aquele longe perto de cinquenta ou sessenta metros.

Cap.
Ele vê, digamos que não queira ver nem ouvir mas vê inúmeras pessoas que chegam na dita redita casa, umas são suspeitas, outras já são dessas que não nos pejamos exibi-las, mormente quando tem junto crianças a fazer barulho enquanto os adultos se cumprimentam; ainda outras são contumazes, apesar frequentes ali na casa da Shirley nada amistosas (quem sabe não por serem apenas insociáveis, a gente pensa coisas...)
Vem mui a miúdo o Triângulo. É um sujeito jovem destrambelhado de cabeça e desengonçado de corpo e no andar, anda numa ginga característica que o define bem aos olhos apressados. Realmente semelha um triângulo com seu vértice virado pra baixo, seria assim num desenho feito no papel. Alto e escuro, não um escuro africanizado, Triângulo vive ora no hospício tomando drogas lícitas mas do tipo tarja preta, ora solto abobalhado e a falar desconexos pelas vias públicas. Suas visitas à casa são quase de passagem somente, vetada sua introdução no interior da residência. Aliás, qual outras quaisquer dos lares desta época demais violenta e insegura, a casa de esquina das chefas é gradeada acorrentada cadeada – numa espécie de ‘saudável’ presídio a fim de que a bandidagem possa viver livre. Assim, quisesse, essa espigada criatura não entraria... Dizem os que falam afirmando que aparece à procura de droga para fumar ou cheirar, com certo impedimento: não possui dinheiro! e os fornecedores não têm por costume entregar a mercadoria num pagamento à prestação nem usam o expediente do sine die. Uma vez, necessitando urgente desesperado quase, agrediu uma da casa quando negado o pedido e então saiu a esbravejar numa repetição em blasfêmia de calão gritado contra Bruna. Um espetáculo e tanto para quem tendo janela portão e orelhas como por exemplo o velho.
O velhote vizinho próximo, Distante, sr. Distante Cinquenta, alguns na área garantem que ele corrige ser Sessenta – enfim a esdrúxula figura se pôs nesse episódio em que observou o rapaz, a soluçar. Toda vez que tem algo inexplicável ou de surpresa, ocorre dar-lhe soluços; tem gente que tosse que engasga que funga que engole a língua em belo disfarce – o velho soluça. Nesse dia das ofensas de Triângulo soluçou.
O velhote vizinho é um homem estranho ou apenas interessante. De compleição miúda, é do tipo fino e magro, a tanto vive o homenzinho sujeito a ser levado pelo vento – a Boa Morte (deveria por isso apelidada Ventania e parece ter assim ocorrido nos tempos imemoriais) a Boa Morte fica num ponto geográfico sujeito a tufões; preciso admitir que o ser comum não distingue tufão tornado brisa nivelando tudo no sopro mais forte da boca da natureza; e por causa dos tufões frequentes eis o perigo do pobre. Ainda assim vive na Morte se deslocando qual garoto e não passa dum idoso num fim de carreira. Conhece todo mundo mexe a brincar com toda vizinhança, menos com a vizinhança, quer dizer a casa da esquina sem alma penada nem assombração ainda, que evita por razões mortas da vida. Apesar, cumprimenta todos, não sejam os indiferentes ou alheados ali no aguardo ou na participação do pertinente ao seu negócio “escuso!” grita o pensamento dele; no entanto dá o bom-dia a boa-tarde (não boa-noite nem à meia-noite, não se aventurando passar nesses perigos no escuro) enfim cumprimenta tanto Shirley, esta indaga coisinhas mansas desse vizinho, tanto dela quanto de Nair, visto serem conhecidos faz anos no pedaço. Aqui e noutro lugar qualquer a palavra conhecido é realmente desconhecida embora abusivamente empregada pelo povo. Em suma se saúdam os vizinhos velhos, o velho e as jovens mesmo considerando a matrona bem passada tidas como jovens da esquina. O menino da família só responde o cumprimento num “oi” que nada diz; enquanto Bruna olha o homem que a olha e só vê nele más intenções e mesquinhos interesses, estes escusos de fato... e por isso sequer responde, vira o rosto para outro lado que não o lado dele. As menininhas, toda criança salvo exceção nem responderia nem se exige esteja ligada à presença ausente ou seja estranha a si; elinhas não contam. De maneira que indo ou vindo das compras ou pretextando o nada somente a patrulhar fiscalizar ou descobrir ou se inteirar do que há naquele antro, então o vizinho passa por ali, vez por outra ensaia uma conversa com passantes, exclusivamente para ver o que ver...
O vizinho Distante, em pleno trabalho de investigação contínua, conta com dois instrumentos mui possantes e desenvolvidos: olhos para ver, orelhas de escutar. Ah, e um cérebro de absorver de guardar de entender e mesmo de interpretar. Curiosamente não tem boca. Tem. Porém mui prudentemente usada, abusada só entre os pouquíssimos íntimos. De resto, havendo necessidade a expor o que  viu ouviu e interpretou precisa contar apenas com seu cachorro. Mesmo nessa hipótese não se dá bem, pois digamos que saia com o Lulu na Boa Morte viva de cães presos ou soltos: não teria sossego na ladração, ora deles contra o seu ora do seu contra os outros. Na casa da esquina não tem ele esse desconforto, o da latição infernal, visto não haver irracionais ali só nesse porte os pobres hávidos de alimento no vício. Em resumo, se vale do cão para desafogar os contidos podres da rua, a narrar e ouvir para o animal; o animalzinho entende e sorri como anuência de rabo. Isto porque nessa serventia, miúda ou graúda, não pode contar realmente com a esposa, senhora até mais velha que seu velho e apenas fala disparates, na opinião macha além de  manter somente conversinha chocha de mulher para mulher; desinteressante a Distante. Ela também a carregar Distante no seu nome de casada no padre e no registro de cartório. O curioso nisto é ser o casal o contrário dos casais do povo, em que a mulher fala se interessa e até enreda, o que servindo bem a municiar entreveros conjugais; enquanto o macho não abre a boca no tagarelar (aqui não abrir, num abuso de linguagem). Talvez Próximo não tenha confiança a passar para a esposa os confidenciais que descobre extrai e expurga e esconde, não dos íntimos e do Lulu é claro. Vai que, diz assim a gente do povo, vai que ela dê com a língua nos dentes... Além disso, nunca o senhor Cinquenta (ocorre usar ainda a palavra cinquenta tremada, conservador e para aberrar a reforma ortográfica, esta nunca vigente em país instável; feita a fim de o povo inculto não obedecê-la) nunca também o homem desejou nisso atrito com as autoridades, atrito? nem relação sequer amistosamente com a lei. Verdadeiro igualmente que dispense intimidade com o pessoal ligado ao crime, por mais banalize a tevê ainda assim tem certas reservas, não passando do bom-dia como afirmado.
No entanto o sr. Sessenta tem uma arma terrível, mais achando isso grave os que vivem no mundo dos desmemoriados, o que parece são muitos hoje. Ou seja a memória de elefante. Será verdade que um mastodonte nunca esqueça!? Sua casa de lembranças é deveras bem guarnecida bem servida. Para azar dos que pratiquem o azar. Muita vez uma recordação é útil podendo até salvar vida; porém o velhote abusa desse depósito. Isto sendo quem sabe importante à questão ligada à chefia de Nair e Shirley.

Cap.
A avantajada memória dele facilita entrelaçar fatos (ou suposições?) observados nas idas e vindas no passeio do velhinho Cinquenta, cinquenta embora este insista no sessenta, parecendo o mais certo nesse errado 50 visto cinquenta encurtar mais o menos que vê-ouve da casa espúria na esquina, onde jovens quase sempre machos da espécie comprometida se reunem a fazer suas farrinhas ou somente a aguardá-las, e raramente as fêmeas da mesma inditosa espécie tentam neutralizar com sua beleza desgastada a feiura dos atos comuns mascarados com atitudes tidas na sociedade por normais, porém apenas comuns de tanto ocorrer. Assim inventaram os que inventaram a esconder o que esconder duas atividades limpas e santas. Aqui a santificação do trabalho, o qual engrandece os seres terrenos.  Uma um ‘lava-rápido’ mais rápido ainda sendo o ‘lava-jato’, serviço que se encontra em toda esquina da cidade e muito conhecido numa coletividade que endeusa veículos motorizados; a geringonça com seu barulho e vapores e cheiros, com os zunidos de aspiradores de pó e a conversa cruzada dos improvisados ajudantes, desajeitados também esses da esquina porque parecendo sua queda mais para mexer com drogas ilícitas que desajolar graxas e outras sujeiras grudadas na lataria. Enfim conseguem essas incautas criaturas gastar horas e horas a esfregar encerar lustrar deixando como espelho a lata de carros e motocicletas. Não raramente alguém encosta de ré o automóvel afundando em plena luz do dia parte do fundo na frente da casa de Shirley; enquanto a parte dianteira decerto aquentada no tanto friccionar dos pseudosprofissionais com seus esguichos e panos; uns se traem, neófitos no mister, a olhar toda hora espantadiços e medrosamente donde possa vir vistas perigosas, quem sabe saibam ou imaginam alguém não mais distante que o próximo distante Sessenta, quiçá cinquenta mais perto ainda... Ou temeriam tão só a consciência, a lei estando ainda mais distante desse perto...
A outra atividade escamoteadora tão frequente quanto a primeira é o comércio com ares igualmente clandestinos que é a das confecções. Umas pessoas teimam a se garantir ou justificar a tarefa na troca ou venda de roupas usadas. Outras menos medrosas ou na força do desespero do desemprego a fome bastante, então comerciam, sempre ilegalmente o que mais gostoso pensam muitos pés de chinelo, trocam em troca de lucro provável com recebimento improvável da parte compradora – as peças novas. Novas por serem sem uso, supõe-se, velhas tendo viajado muito tal qual o cigarro e a droga mais perigosa desde as regiões que sobrevivem do contrabando; este aqui na Boa Morte dá preferência ao do Paraguai da Bolívia da Colômbia. É neste ponto entrar Shirley, a qual camufla muito bem o passar crack e maconha aos desventurados jovens “aviõezinhos”, isto na linguagem dessa rua da periferia. Assim vêm os fregueses, as mais das vezes freguesas com as quais trocam a chefa e a compradora além da mercadoria os ais domésticos a insegurança familiar as crianças e as doenças de casa e mais, muito mais, as atrapalhações dos seus maridos ou namorados, dada a instabilidade macha atualmente ou desde que o mundo é mundo...
Com isso a droga campeia quase legalmente. Dito quase porque o medo costuma sujar a roupagem da lei.

Cap.
Tem mais um quesito ligado ao ‘comércio’ droguista. Não um, dois, para fazer par com a exposição anterior.
A droga, seja a leve destruidora dos pobres seja a pesada destruidora dos ricos, a obtenção dela depende do fornecedor é lógico e bem mais do dinheiro; o dinheiro que compra tudo na venalidade do homem. Se a classe rica tem facilmente meio na riqueza das famílias, os indivíduos pobres precisam antes de roubar o sossego da sociedade e até o pão dos filhos, antes disso necessitam a qualquer preço uns trocados. Ora, é um pulo daí ao roubo ou afanaçãozinha que seja, se apropriando dos bens do homem de bem (ou assim tratado).
Apresentado nestes termos, fácil fica entender os oportunistas dos descuidados – a decantada insegurança que atinge primeiro os incautos depois até os que se fecham em correntes gradis e cachorros, estes nas camadas pobres não passando de vira-latas barulhentos e por vezes inclusive dormindo suas pulgas sequer percebendo intrusos estranhos no domicílio. Os milionários preferem mastins buldogues e guardas, numa segurança também discutível; mesmo porque nem a polícia pode segurar ladrões profissionais e só tem vez com os pés de chinelo a visitar lares ricos e pobres.
Desse jeito na rua Boa Morte sequer precisando seja à meia-noite, qualquer escuro lhes convêm e mesmo no meio-dia de sol, passam os ladrões a mão no que não lhes pertenciam pertencendo agora... Ora, esse negócio gasto de ladrão entrar na casa de pobre e só levar susto é algo furado: entram os amadores necessitados de ilusões e moedas às ilusões e carregam desde toalha e panos usados e qualquer outro bem material, torcendo aqui seja valioso – para trocar por drogas ou comprar entorpecentes.
Todavia há outros senões neste ponto, de interpretação capital. Ocorre de o gatuno ou ser de moral duvidosa pensar ou temer alheios ou até (conscientemente) a complicar seu grupo de mercadoria ilegal e por essa razão evitam entrarem nas propriedades próximas. Aqui diríamos que cinquenta e mais sessenta seja distância garantida contra esses infelizes!? Em geral não roubam bens nas imediações, preferindo os de longe. No entanto quando a fome de alucinógenos ou a oportunidade se oferece, deixam de lado resquícios de cuidados e levam por exemplo botijões de gás ou o que possa ser vendido a adquirir ingresso para comprar a ilusão de que a vida não lhes possa parecer tão vazia tão chata tão sem perspectiva. Isto nos dá impressão ser o sonho que tem uma pessoa no mundo do crime.
O segundo aspecto nesta abordagem atinge em cheio não só a meia-noite mas o centro atrativo de Shirley e Nair, Nair primeiramente se se pesar mais a chefia. Trata-se do guarda-noturno.
Muitos moradores não colaboram com o serviço do profissional, ou não querem ou não podem sequer quererem, querem mais manter os seus com parcos ganhos no emprego ou subemprego, nesta sociedade cada vez mais precária. Seja como for, um grupo de residentes pagando e mantendo o guarda. Ele passa das vinte e três horas, portanto antes da meia-noite, a apitar na sua motocicleta pelas horas a dentro até às cinco horas da madrugada; aí entregando decerto a vigília ao galo, havendo ainda algum no pedaço; ou aos habitantes despertos se preparando ao trabalho. Então são carros motos bicicletas passos no asfalto estragado da rua.
Aqui um ‘complicômetro’, palavra esta da gente comum nesta cidade pequena se pensando grande talvez culta. É o seguinte: parece a um dos moradores, mais especificamente o sr. Sessenta, que o guarda anda mancomunado com o pessoal da droga ali na esquina. Pois apita seu apito duas vezes e não uma na intercalação ao se aproximar do esconderijo. Isso mesmo, é proposital o vocábulo por abrigar o escuso e o perigo; ou a maldade; questão apenas interpretativa visto o mal se encontrar onde, sempre, esteja o mal no pensamento de alguém. Contudo parece de fato o motoqueiro da noite assoprar duas vezes e não uma vez como nas vias outras para avisar: ou que se encontra ao que der e vier; ou o ladrão que se esconda; ou a lei que possa estar na sua ronda; ou a chegada de material estranho; ou andar livre o caminho ao negócio. Oh, isto não é mais uma vez chover no molhado?

Cap.10°
 Naquele dia naquela hora, apesar não ser meia-noite sendo um pouco antes e decerto ligando a curiosidade inocente; o sr. Sessenta deixara sua companheira de anos melhorada na piora de saúde, já não temendo em razão disso a morte da esposa e assim se desanuviava passando na esquina da Boa Morte sem nada especial, a esmo enfim. Mesmo porque não era bem o momento a aguardar inesperados, visto a banalidade da rotina com chegadas e saídas de fregueses aviõezinhos e o pessoal de retaguarda no centro ou sob direção direta de Shirley; Nair presente nessa hora e um pouco avantajada no tom alegre, portanto fora do comum, no ponto xis em que o povo diz a gozar outrem a pessoa ter visto passarinho verde; um inusitado porque a chefona nunca passando a mão na cabeça de mequetrefes abusava então a falar-lhes gracinhas, assim forçando para agradá-la todo mundo a rir, inclusive os que acaso não estivessem drogados. É o que observou Cinquenta ali a passar como quem nada quer... O movimento na rua era de normalidade com veículos indo outros vindo, uns poucos pedestres a circular e as crianças já recolhidas na cama pelas famílias – quando chegou certa moto a ziguezaguear bêbada ou alucinada... Decerto seu condutor ainda mais. Foi para o velhote a última visão desse conjunto e do ato específico, que aliás provocou boletim de ocorrência policial e fez se aproximar o populacho do pedaço, curioso e horrorizado. A última porque o condutor rumo à esquina a fim de participar do conclave cheio de ilícitos e escusos, onde a juventude dopada a escutar funk num estourar ouvidos e a se julgar no paraíso mesmo no inferno; esse motoqueiro a estar além da realidade e vivendo seu sonho louco, subiu inadvertidamente no passeio público esburacado e sujo, passando por cima do velho vizinho de Shirley!
O que deu certamente trabalho à lei e aos ilegais explicar. Provocando choro nos mais emotivos. A consequência mais séria a este texto já torto já fastidioso já cansado, sendo a eliminação dos olhos e das orelhas bem informados. Assim, por falta de mais dados, o antro semelhante a mil outros antros na cidade pequena se imaginando megalópole prosseguiu e prossegue na sua faina, embora pichada; enquanto a mentira desta verdade não pode continuar, se encerra. Olhos e orelhas se foram para outra dimensão, sem pelo menos ouvir insoniando (não o ronco da velha esposa:) a entrega dos escusos pela chefia na meia-noite.
Marília    março  2013




         



           


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