Meia-Noite
Cap.1°
Meia-noite, noite quente ar pesado suor
silêncio... Silêncio! A noite antes da noite após a noite, o quanto possível no
dormir no sonho um pesadelo. Porque aquilo que não via ouvia como pesadelo no
corpo desarmonizado talvez; na ciência da consciência a velar como num homem
enfermo limitado mas desperto e ciente, ciente de sua invalidez ou desvalia,
sem que detivesse o curso não apenas de sua vida na existência porém e
sobretudo o curso da de outrem, do coletivo que o cercando no agito, o agito
nada próprio duma noite, em que a definição exige calma silêncio paz... Não
obstante, do seu quarto de sua cama do seu colchão a cheirar seu cheiro e seu
suor, ouvindo o crime... Em cada passo em cada desdobramento em cada rotina; se
parecendo mais e mais com um carimbo devidamente untado engraxado tintado e –
socado no uso intermitente embora e cadenciado – a atingir o papel na folha em
branco agora marcada com os dizeres ali grafados gravados prensados ao
eterno... E se o eterno durar! será que estou ficando maluco?
Não, ou sim porque o movimento e o som
característico das gargantas disciplinadas no mundo do mando ali e tudo prossegue
na sua santa paz.
Aqui uns parênteses para indicar a paz.
Teria conotação com a santidade a angelitude a harmonia, não essa pobre
harmonia conseguida a muito custo por gritos gemedores e dentes cerrados
cortantes; quem sabe a desejar semelhar a harmonia universal e eterna; eterna
sem a brincadeira de poetas enquanto dure como as crianças nos seus folguedos.
Porque se ela lembrar as dores nas quais se alimente não será nem paz nem
eterna, muito menos eterna na sua essência e síntese.
É uma santa paz talvez de meninos
dormindo; ora a resfolegar ora nos seus pesadelinhos, ah que gracinha os
pesadelinhos... É uma paz sinonimizando a quietude pouco mais que momentânea.
Assim mesmo guardando uns olhares ora matreiros ora medrosos e sempre
desconfiados. Porque quem deve teme e treme!?
O homem ali tão próximo coisa assim de
uns cinquenta ou sessenta metros não poderia responder.
Ou poderia?
Quantas e quantas vezes somos postos na
berlinda encostados na parede a se exigir que saibamos como se fôramos os
responsáveis e assim a explicar questões tão ou mais difíceis ainda. Nessa
dúvida ou não poderia responder a contento ou temendo esclarecer concluindo.
Ora, por que motivo temermos a verdade.
Coisas da idiossincrasia de alguns se não de toda coletividade. Mormente numa
de periferia na periferia da cidade pequena se imaginado tão grande aos
destinos da humanidade, esta igualmente perdida na ignorância e afetada pela
violência. Sabe-se aqui a violência não só a miúda mas ela posta como um todo,
temerosa como sói ocorrer e podendo ser sintetizada na expressão longe apenas
do símbolo porém dentro dos ais da verdade: o homem pacato e sua bondosa
família, a gente do bem; ele está contido aprisionado na residência; os que
podem no grupo investem na segurança com mastins guardas fios e olhares
eletrônicos, sem falar nas muralhas com cacos de vidro nas extremas; e não
basta. Enquanto o criminoso solto nas ruas; na pior das hipóteses a temer
somente colegas mal humorados e dispostos a possuir seu ponto de tráfico;
contudo é livre, quando muito poderá temer não o policial, existindo policial
não contaminado na corrupção e a este poderia sim temer um pouco; entretanto
tendo medo do chefete bandido preso, quando na possibilidade em ser detido e
levado e exposto na cadeia diante de outro de outra facção; o que implica não
só a bandidagem mas também os familiares da bandidagem.
Assim nascem o temor o horror o terror.
De maneira que o pobre homem, aqui um
adjetivo inexpressivo da inexpressiva figura, não figura entre os grandes personagens
seja ou não da ficção abusiva ou perversa ou (ah! a pobre ficção:) boba ou
inocente ou poética ou ainda lunática morta pelos costumes informáticos de
hoje, sem com isto cairmos no bobíssimo saudosismo a traçar rabiscos com pena
de ganso na mão. De maneira que o vizinho dos vizinhos ouve nitidamente e
reafirma o que escuta ao dia de sua noite nessa meia-noite, esse sujeito que a
oposição apressada poderá estigmatizá-lo adoentado mental... pois sonhador
seria mui poético; no crime não há poesia, o crime mata a poesia, que dirá o
poeta sempre fora da realidade, essa realidade que foi agora faz pouco
sintetizada. Ele percebe em todos ângulos os sons naquele sórdido comércio.
Ouve bem a voz dela, a Shirley.
Ela pronuncia sem abusar nos decibéis
nessa hora avançada da noite nesse escuro do silêncio em que até poder-se-ia
escutar o ressonar dum morador doutra casa ou doutra mais além; ou um utensílio
quedado no descuido do descuidado que se levantou sonolento a tomar o cafezinho
da garrafa térmica ou para fumar longe da oposição, esta sim roncando horrores
e quem dormirá no tremor de terra! então é que derruba inadvertidamente um
treco qualquer e aí sim a Shirley podendo igualmente ouvi-lo. Por isso a
subcomandante daquele barco longe ser afundado (nisso preciso lembrar a
sintetização simbólica feita do caos que domina nossa sociedade) não abusa nos
decibéis. Por outro lado não esconde seu falar natural e até educado – bem
longe ter o ‘esmero’ da Bruna, bela desbocada gritadora ferina a usar o chulo e
a depravação na linguagem de baixaria – não: fala normal, com alcance assim mesmo,
atingindo ouvidos atentos ansiosos quase imploradores dos viciados... ora, isto
depois será melhor informado; não se pretende convencer mas informar. Fala, põe
ordem na casa, visto só ela feito autoridade e é mesmo autoridade no assunto
que trata, no momento de pé no portão de entrada da residência; o público,
agora nessa meia-noite um publiquinho os outros membros do clã medonho em maior
parte já saíram antes no tataratá de suas motocicletas, estas doídas eles cabeças doidas, a se deslocar aos seus
pontos de entrega e não propriamente locais para venda: a noite cega o perigo e
a vista de quem tenha olhos para ver e por isso facilita o voo rasante pois
voam barulhentamente no asfalto irregular da rua Boa Morte a ir por aí entregar
material. Portanto são poucos os jovens que restaram como público dela, alguns
meninos mesmo e sem barba com baba decerto sem pelos e a garganta ora a assoprar grosso
grave quando a desejar falar fino e fino quando a gente mais quer falar grosso
como um homem com ‘o’ maiúsculo sem conseguir; uns entremeio já não podem
contar, flagrados, com o estatuto da criança e do adolescente, aborrecente
dizem algumas pessoas ou muitas entre adultos impacientes. O publiquinho que se
achegara mais estando antes agrupados os indivíduos na guia da rua doutro lado
dessa Boa Morte, cuja placa da prefeitura meio solta abalança enjoada ao vento
num bater fazendo nhec-nhec na casa da outra esquina, na esquina deles Shirley
agora ali, macha pra valer embora no falar manso porém firme e bem direcionado
e dessa forma chama cada um pelo nome; não por ser um batalhão diminuto no
exército do crime e portanto fácil guardar individualidades, sim por conhecer
de fato um por um seus soldados e a capacidade ou temência de cada. Por isso
vai pronunciando o nome ou nome de guerra de cada uma dessas criaturas, porque
não dizer infelizes criaturas. Chama, dá bronca nos errados e afoitos, nos
medrosos e claudicantes, e assim instados a vir receber seu quinhão...
Achegam-se, recebem, apertam seus respectivos volumes, calcula ela quem sabe o
perigo ou não em que se envolvem; e a seguir exige intimando no olhar saírem de
perto, que estejam longe logo e com tendência a correr, um correr de ânsia que
atinge mais os novatos, neófitos na batalha e em qualquer empresa, aqui desnecessitando
seja em prol do bem... Então somem no silêncio com seus passos ou trotes sem
galopar bastante. Um após novo companheiro. Agora sendo a vez de outro colega,
alguns a contradizer ordens expressas esperam ali adiante o anterior no
instante atendido pela chefe. Ela entrega o pacote, faz ao recebedor
recomendações, aqui abaixa a voz, puxa a orelha de alguns, não por ser também
gente do povo e o povo fala assim a desejar que se aperte o torniquete a
impedir desregramentos desnecessários já não fossem perigosos. Contudo a
Shirley fala como é sua normalidade, qual o faz durante o dia a semana o ano
com a vizinhança, semelhando a mulher do povo, habituada inclusive nos cânones
religiosos da família e tida na condição de mulher séria e boa mãe, sim uns
tapas de amor não ferem, as meninas choram um pouco entretanto o que paira é a
moral, a força moral dessa doméstica. Em vista disso agora impera diante dos
quase recrutas, os quais não há muito tempo aliciados e ainda inseguros. Fala.
Ordena. Critica. Dispensa. Saem, saem um a um silenciosos, apenas um que outro
a fazer comentário sem tanta brincadeira de moleques no hábito do sol quente e
com os disparates costumeiros. Silenciosos. Vão aos seus respectivos destinos;
talvez nunca houvessem filosofado o destino, nem se se deve ou não crer nisso.
São criaturas jovens e de famílias desestruturadas. Lamentavelmente isto não é
afirmativa vã. No entanto – fora o período de aliciamento, claro – no entanto a
chefa não se interessa saber dos dramas de tais famílias nem dos membros agora
a si presos. Por fim decerto sorri, respira o cansaço (e preocupação é lógico)
que a coisa lhe deu por horas, sobretudo a beirar meia-noite. Não obstante foi
fazendo a chamada por nome ou apelido nitidamente ouvido nos cinqueta ou sessenta
metros onde as orelhas dum velhote curioso nas vizinhanças, graças à
mancomunação do silêncio noturno.
Aquele som normalmente proferido na
escuridão da noite, na paz que o silêncio amplia em proporção inversa na medida
em que os seres morrem no sono e até na boca fechada nestes tempos dos galos
desaparecidos junto com a roça; ou de um que outro grilo a cricrilar aborrecido
– o som percebido e mui mais claro, distinto como fôra fóra
no vizinho, no vizinho ali dez metros ao lado, podendo-se ouvir dele até uma
briga conjugal abafada para não acordar os filhos. Em razão disso quase a se
escutar os passos dela deles mas com certeza o ranger do portão da central
acanhada de distribuição de drogas, por ferrugem e nisso gasta. Não as drogas,
a ferragem carcomida do portãozinho.
Apesar parecer meio desfecho, aqui
apenas um início do trágico; isto caso alguém não aceite como solução dos
problemas da existência os alucinógenos e entorpecentes.
Enfim a noite se fecha ou eram os
minutos do dia que se abrem.
Cap.2°
O dia se abre decerto numa ânsia
esquecer a noite ou a tragicidade da noite no pedaço, embora longe estando o
meio-dia. O sol vivifica rostos como o dela, a Shirley olha meio estremunhada
numa espécie de ressaca não obstante não beber como seu exército de poucos
homens e muitos meninos porém se admite esteja cansada: não tem escolha quase
hora para entregar as filhas à perua, o carro logo vem e as crianças já ali de
matulinha e fardadinhas com roupa doutro exército a fim de aprender e mais
brincar ou brincar de aprender as letras no parque infantil; estão elinhas
indóceis e antes quase do dia sendo trabalhão danado à mãe a fim de prepará-las
– não poderia contar com a mana Bruna para esse fim a moça a dormir como uma
rica princesa sendo princesa só no físico e medonha na alma e nos ímpetos –
então range o portão sem se importar agora com o barulho escandaloso que faz,
isso porque têm outros mais escândalos por volta e o barulho das conduções
gulosas de sofrimento ou pelo trânsito ou pelo peso com seus condutores
malucos. Vozerio humano nas imediações e no movimento matinal; e assim passam todos
e todos arruaçam a paz – ah a paz a noite a paz do silêncio da meia-noite – e
os carros a disparar numa chiadeira, tem inclusive um vizinho dela a berrar
sempre de manhã no fazer pegar a ignição e quando consegue funcionar a máquina
esta exige demais tempo demais combustível demais paciência do proprietário ou
da oficina e aí acelera acelera e morre; e torna a tentar gasta a partida na
bateria esgotada mas finalmente gira o motor e funciona o motor e grita o motor
brabo a ensurdecer a gente; por vezes mesmo proibe as conversas paralelas essa
conversa de automóvel, remendado sim e ainda veículo digno a levar o vizinho ao
ganha-pão e daí só ficando ali nas proximidades outros mais barulhos: os carros
outros passando gente passando cães fechados ladrando tanto movimento; e logo
os meninos da escola a passar também na Boa Morte com suas mochilas e
carriolinhas de transportar o material escolar e sobretudo a cambada a
conversar alto narrar seus feitos, a bravatar sua gabolice, mesmo porque
filhotes de gente, da gente do povo; os estudantes vão na gritaria a brincar
também para a aula e aproveitam por vezes a chutar sacolas de lixo pois dia de
recolhimento dos resíduos; e o fazem junto com cães vadios ali na sua função de
vira-latas.
A jovem mãe, jovem ainda apesar
desgastada e estaria envelhecida precocemente nos abusos do métier, ela finalmente põe a cara na
visão da rua, visto parece que a gente olhando vir a condução e torcendo que
venha esta se apressa um pouco, temerosa, e porque nessa entrega de suas
meninas agora quietas à espera da van barulhenta
chegar com as outras coleguinhas ainda mais barulhentas – o final é sempre o alívio materno e assim a
Shirley liberada às altas funções, além é lógico de disciplinar a casa e fazer
também como qualquer mequetrefe. Nem que seja para depois comentar com vizinhas
e eventuais visitas ou passantes conhecidos o trabalho doméstico difícil e em
nunca acabar: a gente está fazendo o almoço já a pensar o que na janta... Ainda
comenta o drama constante e geral da falta de dinheiro, é a ministra das
finanças no lar embora quem exerça a função com eficiência e com exigência e
até com cobranças (sempre indevidas como é do gênero das cobranças) isso é mais
erro dos acertos da mãe dela: Nair é na residência a marechala com ares de
sargentona. No entanto Shirley aparentemente mansa cordial educada, mesmo assim
tem dosagem nas ordens sobretudo nas lides diárias no trato com os meninos...
Aqui seria possível ver-se o mundo perdido dos machos mas não: na fase do
aliciamento as vozes finas e por vezes agudas gritadas são equivalentes aos que
desejam falar grosso e o fazem em falsete. Todos recebem por igual não só
admoestações e os ‘presentes’ ou seja doses de maconha para relaxar um pouco,
pouco antes de se engajar no eterno, o eterno que no métier costuma demorar pouquíssimo de um modo geral. No exército de
Shirley, onde ela serve com boa graduação embora Nair ditando no alto do posto
as medidas a tomar (e se não prontamente atendida berra ensurdece o pedaço a
esquina o mundo...) Nesse exército perdura quase só a macharia. Além disso
apenas houve uma baixa notável e isto em virtude da disputa de ponto junto à
freguesia viciada; parecendo um caso de insaldável dívida e muita dúvida: o devedor
se foi embora, era um quase menino, assassinado ali na esquina, a dar ‘beó’, o
boletim de ocorrência da polícia, e muito serviço aos agentes policiais, estes
comumente sem grandes preocupações a encontrar culpados, visto a generalização
e o bastardamento das ocorrências desse gênero. Demais todos vivos nessa morte
na Boa Morte, mais especificamente na esquina dela, onde canta de galo primeiro
a mãe quase invisível, sumida sempre dias, e depois a Shirley.
A jovem mãe é mãe enérgica também dos
participantes do seu exército sem armas flagrantes, notados por vistas medrosas
– parece que o homem comum, intrincado no drama que foi exposto e simbolizado
no capítulo anterior, teme apontar com voz forte o forte daqueles pouco mais
que guris apenas armados com droga e língua – ora ¡quem a se munir dedar se complicar ou ainda quem sabe no pior se colocar
na posição de testemunha e aí ser eliminado como prova e queima de possível
arquivo! Assim perdura meses anos
inclusive a baderna que mostra o meio-dia que a meia-noite esconderá ou presenteará
o bairro estando os mortos mortos nos sonhos a cumprir mansos e vítimas o
pesadelo... Então os jovens, sejam os que tenham talvez juntado pecúlio por
meios escusos ou como numerários recebidos ou seriam mesadas dos pais nas famílias
desarmonizadas, nas quais o homem que o caboclo tem por fazedor de filhos (já
fez e pronto agora a mulher que se vire...) esse pai nunca na casa, abusivo
dizer aqui um lar, esse pai nunca em família ou nunca apareceu, sem que se
pense a fêmea a gerar sozinha todavia a tratar a cria como pode (ou não pode!)
Ele se não em casa ou nunca existindo, como explicar a mesada? Não se explica.
O fato é que aparecem por vezes carrões adquiridos por esse ‘milagre’, noutras
e o mais das vezes motos devidamente barulhentas, sobretudo quando um jovem
deva mostrar sua beleza mostrar sua alta inteligência mostrar sua argúcia ou
mostrar outros quesitos próprios dos chegam aos píncaros da cultura cansada e
por isso, apenas por isso, aceleram ziguezagueiam empinam suas motos numa só
roda como fora um cavalo bravio em espetáculo de rua; esse veículo que os
nipônicos quem sabe a se desforrar descontar do episódio de guerra com as
bombas nucleares que o ocidente atirou na sua terra, a diminuir os milhões de
orientais no oriente; então lançaram as ‘tataradeiras’ motocas a todo escapamento
para se mostrar habilidade e se matar no trânsito diz a estatística e matar
jovens em contrapartida, compensando o genocídio que o sol nascente
experimentou... E, logicamente se houver lógica bastante: a motocicleta como
veículo básico adequado e providencial à entrega de mercadoria nos pontos de
drogas. O que tanto Shirley quanto Nair consideram, parece, vantajoso à beça.
Contudo a subcomandante é bela, mesmo
assim bela. Porém a beleza merece reparos.
O que é beleza para uns nem sempre (ou
quase nunca!?) é realmente bonito a outrem. Além do ser humano ter a brotar de
si o belo interior, o qual poderá suplantar e até sufocar a feiura externa.
Seria bela certa mulher que fosse por dentro e por fora apreciável.
A Shirley sê-lo-á?
Sua beleza tem conotação com apreciação
que se possa fazer de um povo ou do grupo étnico ao qual pertence o objeto de
análise, sem parecer exótico no próprio país em que vive. Ou vegeta... Ela tem
rosto zigomático, olhos escuros em sorrisos ou marotos; nariz aberto um pouco
chato sem as preocupações estilísticas europeias; estatura baixa como a
maioria; é gordinha; com pele morena, sem que a gente se ponha a tergiversar em
torno do que seja moreno, os saxões primeiro-mundistas diriam negro, negra
nossa gente investe no escuro e nisto tudo podendo caber – enfim uma pincelada
na beleza dessa chefa. Pertence ao grupo racial da maioria nesta nação, com
seus traços delineados como orientais por ser indígenas. Ninguém discute ou
somente vê tais traços e são os da maior parte da população, mesmo daquelas
pessoas cruzadas com europeus mormente os latinos do primeiro mundo. No entanto
os detentores dessas características se pensam ou apenas se dizem brancos. A
cultura de nossa gente desconhece o caucásico.
Portanto uma senhora comum. Mas os que
não apreciam os gordos, não só não sentem simpatia por ela por ser um pouco
estufada como também mostram desagrado diante outras mulheres brancas e
pesadas. O que certamente valendo aos equivalentes seus companheiros de
existência neste mar conturbado que é a vida.
Posto isso nessas condições, porém
admitindo que nem todas fêmeas da espécie tenham consorte ou qualquer coisa
parecida como seu macho a perpetrar filhos em nome da natureza ou do destino:
terá Shirley um homem?
Bem, as três meninas não foram geradas
com ajuda do acaso. Parece que as duas mais velhas oriundas dum ‘namorado’,
este termo de uso hoje e pode englobar o eventual ou companheiro um pouco mais
paciente ou mais cansado para não fugir de um compromisso; o deste caso sumiu
ou fora eliminado nas disputas no tráfico ilegal. O genitor da terceirinha
ficou pouco, após a lua inexistente de mel; foi preso continua preso onde
ninguém comenta andar, fora dentro do grupo familial ou entre pessoas congêneres;
sabendo-se apenas que parte do numerário às despesas de manutenção familial
vindo de verbas do governo, próprias aos parentes do detento. Uma questão mui
discutível e raramente aceita como se encontra no meio do homem do povo; um
pouco semelhando o que afirmam abusos nos direitos da criança e do adolescente,
usados tais direitos por quadrilheiros a se safar do peso da lei, pondo sob sua
guante jovens, os quais ficam quase imunes à ação da lei e não podem ser
detidos mesmo nos crimes gravíssimos praticados além de três anos. O povo não
se conforma com esses abusos e tem razão, pois quem é que paga a conta!? Parece
que dessa verba espúria ou legal vem uma parte à família visando a terceira
neta de Nair. Porém o grosso e o gritantemente de efeito para manter a casa vem
mesmo das drogas. A casa repassa as baratinhas e populares como o crack e a maconha;
visto as caras serem de consumo e tráfico da elite. Aqui seria dito que o
buraco é mais em cima?
No pedaço, não como disputa nem havendo
briga com o grupo pobre de Shirley, na Boa Morte existe outro agrupamento, este
composto por indivíduos se não milionários e isto absurdo num bairro pouco mais
que miserável na periferia, se não rico o ajuntamento ao menos da burguesia, a
pequena e aspirante aos desejos e desmandos da média e mais ainda da alta. Este
ponto, ou seja o outro extremo na rua, não se oposiciona teoricamente nem há
confronto de aparato mas isto sim: ambas extremidades se tocam se conhecem ou
não se ferem. Não obstante parece vir dessa rica agremiação abusos auditivos e
ferimento da lei do silêncio ou da compostura cidadã. Provavelmente aí a se
consumir opiáceos e outras proibições de uso legal.
Enfim os membros de ambos grupos não se
conflitam; alguns dos soldados de Shirley não debandam mas participam da outra
baderna “numa boa” se diz nas conversas amigas, apesar dos poucos traços que
possam ter em comum.
Desse ajuntamento com dramas decerto e
quem sabe com mais garantias ou só simpatias por parte dos homens da lei; desse
não trata este texto. Só analisando como possível os ‘primos pobres’, no que
abarca o mundo da droga.
E disto sabe tratar as comandantes...
Contudo, os raios solares abriram a
cortina do teatro do dia, uns pessimistas não reconhecem se não como peça
circense. A manhã vai longe já e aquece,
os meninos vêm chegando a brotar de todos lados sobretudo dos
inadmissíveis indo para a esquina de Nair. Não é feriado não é fim de semana
não é um domingo, o domingo que tanto aprecia macarronada e pizza e vinho e conversa. Não importa:
os jovens não têm dia. Entram na noite irreverentemente, não interessa se uma segunda
da preguiça se uma quarta se outra feira. Estão sempre dispostos a badernar
(isto opinião provável dos homens tidos por ‘gente de bem’, os quais não veem
com bons olhos a algazarra:) a badernar estão os garotos. Brincam entre si,
gritam horas, falam suas coisas, conversam muito sobre dados pertinentes ao
grupo de amizade. Mui frequente ultrapassarem o dia o sol indo com sono e a lua
vindo a chegar sorrindo e ainda o time não saiu de campo. Isto poderá não
acabar e na prorrogação, não sendo data em que cheguem drogas no pedaço – na
entrega todos ali ansiados e na expectativa de trabalho; eles desempregados,
com tanto serviço ali ofertado pela Shirley... – não é dia, é dia já na noite
de prosseguir a brincadeira interminável mormente se algum entre eles, os quais
se põem como “manos”, tenha um carro a ‘bate-estacar’ músicas ou coisa próxima
num ritmo frenético com ajuda de atabaques e bumbos eletrônicos a marcar o funk, o qual anda na moda e que os
meninos extravasam usando os mais altos decibéis nunca permitidos existentes e
executados... Um que outro, viciado ou conhecido por “noia”, na fala de rua ou
na da imprensa, esse já mostra descontrole emocional, os olhos avermelhados,
crê-se pois o escuro da noite interdita interpretação; e – isto uma curiosidade
ao menos nestes dois últimos anos – e espantosamente não se defrontam entre si
nem com ninguém na vizinhança a ofender alto pelo menos, audível que seja.
Todavia é comum escutar, o velhote lá longe na casa uns sessenta metros de
ouvidos atentos e aguçados, sabe que tem sempre um a falar desconexos, só
violento na voz apesar sem a dosagem equilibrada de sons, desintegrada a violência
nas brincadeiras amistosas em sua volta; até que durma.
Mas um drogado dorme? Ou sua existência
é já um sono contínuo com ímpetos de pesadelo!
Cap.3°
Exército do crime pode parecer expressão
mui abrangente e ao contrário nada indicar, ser conjunto de vocábulos aleatórios.
Contudo a ideia apressada muda em presenciando os soldados, alguns podendo ser
conhecidos acompanhados e até medidos nos seus atos e passos; enquanto outros
penetraram no grupo desconhecidos e após meses ainda não se sabe quem são. Os
briguentos logo aparecem, os com presença diária logo também identificáveis;
enquanto o pessoal com a faculdade de nunca se ver embora presentes, esse é
sempre a interrogação – pois há gente que consegue não ser notada, na multidão
nem se fala, inclusive nos grupelhos os quais são ajuntados ao acaso, acaso não
havendo e sequer existindo realmente o acaso... Não sendo bem o caso das
reuniões centradas no negócio da Shirley e sua exagerada mãe; a qual curiosamente
aparece desaparece reaparece às necessidades sem que os militantes possam
entender o milagre; daí estarem atentos sempre para o que der e vier; mesmo os
tipos indicados agorinha e que são meio sem forma de tanto não ser na sua
inexpressividade. Estes elementos estão frequente entre os meninos, alguns dos
garotos os chamam por nome, outros pelo apelido vulgar sem certeza alguma terem
de fato nome. Alguns entretanto dos comandados pelas duas mulheres robustas ou
adiposas, alguns marcam por demais conhecidos. O que desfigura de certa maneira
o mister, visto a condição quase sine qua
non ser não revelar a identidade; então o participante viraria uma entidade
não um combatente de peito aberto e muita coragem. O negócio que envolve drogas
ilícitas e tráfico ilegal é mui perigoso a conter alguém na berlinda e na vaidade...
Não obstante é o que acontece faz mais
de ano no caso do garotão Bi. Bi até ele deverá já ter esquecido o próprio
nome, o oficial e de registro, tanto ser chamado assim e visto pelos colegas,
colegas ou amigos para se confundir melhor tais substantivos como é do gosto do
nosso povo. O garoto Bi diário participando, enfim um membro ativo no grupo da
Shirley. Ativo sem contudo assumir qualquer liderança. Sua psicologia mostra o
rapaz sempre submisso e secundando outrem sem nada pleitear pra si, uma espécie
de maria vai com as outras, que é frase bem usada e conhecida no pedaço e não
só na rua e até na urbe. Para mostrar o sujeito que não sabe impor sua condição
mas antes que isso se submete aos caprichos alheios. Ele é desse jeito. Não por
isso ou exatamente por isso é mais querido, ao menos aceito. O que característica
de adolescente, o qual sente demais a necessidade se enturmar e fazer o que faz
seu agrupamento social.
Com isso granjeou certa necessidade
entre os seus companheiros recrutas; ele eterno recruta, desse tipo que nunca
amadurece nem tem iniciativa, que não seja aquela que dê prejuízo à família;
desregrado o suficiente para gastar sem cálculo e estar sempre devendo;
piormente sem a esperança ter a mínima independência no campo das finanças
visto o desregramento o levar a ser mais e mais dependente porém independente
no sentido da irresponsabilidade. É um mal é um bem? Posto nesses termos o Bi é
um colaborador ideal às duas chefas e às ideias que se supõem elas defendam,
talvez por não conscientizar. Muito menos conscientizado o rapagão alto
espichado magro, magro sobretudo por não ter hora para coisa alguma, inclusive
à refeição e menos ao trabalho (este improvável ou eventual). Enfim, se um bem
ao grupo pobre e distribuidor de drogas baratas, um mal para a família dele,
porque sua instabilidade e a intemperança que já duram vinte e poucos anos
afetam a harmonia da casa em que dorme; só dorme e desperto desfeiteia a mãe
que chora e o pai que resmunga por fora e decerto lamenta por dentro.
A coisa é bem pior que uns simples
traços possam revelar... Os pais enfermos do Bi têm que arcar anos após anos
com o desregramento do menino: faz negócios e mais negócios compra isso compra
aquilo troca devolve perde, toda vez perde e suja o nome paterno até aqui
honrado... Sem crédito e sujo na praça o Bi, desempregado com frequência por
esquentado e de pavio curto no dizer popular e sem ordenado fixo e sem regra e
sem respeito à lei ou às empresas estabelecidas – as dívidas, já não mais as
dúvidas, as dívidas crescem e o pai se vê na contingência salvar o
irresponsável; este usa abusa perde e se beneficia enfim do sistema perverso do
cartão de crédito (crédito paterno). Nos últimos meses adquiriu uma camionete
seminova prateada brilhante ao sol da Boa Morte e a reformou dos pés à cabeça;
procedeu a transformações ilegais no veículo, tudo com o nome do genitor. Assim
já era conhecido ficou conhecidíssimo nos meios policiais por suas encrencas e
comum virou a visita de carros oficiais da delegacia na porta com intimações.
Isto não o diminuiu no grupo que ora
este texto apresenta; pelo contrário: é motivo de engrandecimento entre os
pares por sua coragem quase arrojo, no mau sentido, seu quase atrevimento no
praticar asneiras, isto conforme a critica da sociedade bem posta; um autêntico
ser desmiolado segundo o homem de bem a morar nessa via. Um elemento com todas
características que o exército do crime deseja e veladamente defende e mais
ainda: enseja e usa. Sim Bi é usado pelos asseclas.
Claro que isso tudo tem um preço e um
custo alto que é a desconfiança. O grupo valoriza bem o garoto.
Numa ocasião recente fora usado pelo
bando a trazer pequeno contrabando como “mula”, assim designado na imprensa e
nos meios policiais, ou a se pôr como “laranja”, outra expressão da imprensa
que trata tais desmandos. Preso no Paraguai transportando indevidos e objetos
ilegalmente. Foi preciso o pai ir tirá-lo das grades, pois os amigos e mais os
chefes do tráfico não foram defender o soldado ferido na batalha... antes que
isso é o comum do dizer “não o conheço” “nunca o vi...”
Torna o moço e logo torna às lides
escusas.
A família quis casá-lo, aquele negócio
de mais de milênio: dar ao filho o remédio do matrimônio deixando o amargor à
nora. Depois abaixaram a bola os familiares aceitando ao menos a nora sob o
título namorada – que hoje engloba lances como morar, não: ‘ficar’ com a
namorada dormir com a namorada fazer nenê na namorada e depois ir passear com
os amigos de farra deixando a namorada num ver navios. A família bem que tentou
acertá-lo, permitindo que morasse o casal na residência do pai dele sogro
emprestado da namorada, apesar da decantada afirmativa do choque sogra e nora;
funcionou não funcionando o alvitre, ou ficaram apenas semana e cada um do
consórcio sem padre sem cartório indo pro seu lado. Assim o Bi voltou, alegre,
feliz, ao colo do seu exército, onde cantam de galo Shirley e Nair.
Agora serenou a coisa: para ficar como
antes no castelo de abrantes? Os mentores, mentoras, e possivelmente mais alguém
escondido e não aparecendo em público mas poderoso e mandão; enfim a chefia
resolveu usar abusando do rapaz ao ordenar o uso da condução do menino, o qual
não encontrando nada útil e sério a se dedicar – limpa lava lustra assopra,
beija quem sabe sua camionete que está registrada em nome do pai dele. A
ocupação na limpeza é diária, o carro é seu deus. Ideia esta defendida por
número enorme de cidadãos... Ora, o que pesa na bolsa familial é o abuso do uso
do veículo na tarefa ilegal de levar aos destinos incógnitos a mercadoria
espúria e perigosa. O carro não para mais agora, mesmo não sendo a serviço do
trabalho ilegal a mando dos chefes, sim por conta do próprio ‘dono’-usuário.
Reside o rapaz há meia quadra das reuniões da esquina costumeira (existem
outros locais além para se badernar não estando ocupados a badernar os jovens
na bendita esquina da Shirley) onde a conversa animada o som estupidamente
ensurdecedor de varar madrugada e onde ficam todos na expectativa receber das
mãos da chefa a mercadoria quase sagrada e entregue um a um a miúdo a beirar
meia-noite para os “aviõezinhos”, nome ventilado na imprensa marrom. Pois não é
que morando encostado ele, vai de casa ao ‘trabalho’ de língua e escusos
montado na caminhonete. Depois, madrugada depois, dá marcha a ré indo para a
frente dos pais, decerto eles já no sono do seu pesadelo... Então, semelhando
certamente os membros do exército, cansado de tanta entrega ilegal se entrega
ao sono como um justo, visto ninguém ser de ferro. É justo!
Talvez as chefas beneficiárias achem que
sim.
Cap.4°
Quando do sumiço do filho, nuns
anuviados que nunca ficam claro ao homem comum; aqui entendendo os episódios
que o levaram à prisão paraguaia; os pais do Bi andaram até desesperados, o que
linguagem do coração, algumas outras pessoas têm possibilidade entender, a
maioria não – quando desse desaparecimento e aí iam semanas de procura choro
discussão conjugal e insônia; daí resolveram ir atrás de Negritão a fim de
saber o paradeiro do seu rapaz; não poderia que pudesse haver sido assassinado
ou sequestrado ou ferido, então indo o casal a todos prontos-socorros à polícia
e antes a tentar saber nos parentes deles; tudo baldo. O Negritão sendo do tipo
carne e unha, na expressão do povo a dizer viverem duas pessoas atraídas não se
separando jamais; e no entanto o amigo do amigo enrolou como pôde o pai do
outro, desconversou e para se livrar de vez do interrogatório a si constrangedor
e certamente comprometedor levantou a hipótese da namorada do Bi saber. A moça
tanto quanto os pais dele preocupada, a sugerir algumas ideias que pudessem
contatá-lo: o celular cor de rosa dela vivia trabalhando nesse sentido, num
até... Bem, foi a namorada, ex-namorada, o primeiro ser a poder falar testa a
testa com seu ‘ex’, aqui também se exagerando um pouco visto uma cabeça se
ligar à outra pelo satélite de comunicação como todos entendem hoje. O fato é
que conversaram. Encontrava-se dias preso e nisto se liga aquela oficial de
justiça de fala ardida e alta de ontem... Todavia vamos com calma ou
desentendemos o entender.
O Negritão não é bem flor para se
cheirar e está sempre onde o grupo se encontra – quase fatalmente na esquina
dela, já se afiançou; na esquina conhecida ou como reunião móvel a andar por
outras plagas num algazarrar ou beber ou fumar ou se preparar para voar: não se
disse serem tomados como aviõezinhos! E como em geral estão os jovens na frente
do portão da Shirley, então o amigo do Bi também ali com os outros iguais mais
semelhantes que iguais e ambos mais ou menos irmãos gêmeos, todo dia ao lado do
que o Bi fazendo, quer dizer: nada, nada além de receber ordens ou a saber se
vem hoje mercadoria ou a mercadoria deve logo ser entregue para quem se deve
entregar; coisas assim. Os outros chispam nas suas motos, uns tornam rápidos,
famintos, pegar nova encomenda ou mais droga a reencaminhá-la. O Bi tem o carro,
Negritão que é um lerdo colosso paquidérmico de carnes e mais que as carnes
banha, não iria fazer entrega com moto que não tem – tem mãe, recebe dela
módicas contribuições num dinheirinho suado, a pobre é pobre e empregada doméstica
lutando para sustentar a casa, o pai tendo fugido do lar e por isso as finanças
regradas ali na esquina (seu domicílio fica ao lado da esquina, portanto
vizinho da chefe) e assim da reuniãozinha dá até para ouvir a lamentação da
senhora ao filho “vai trabalhar!” diz e o moço responde “pra que se você trabalha
pra mim?” O Negritão é além de tudo irônico debochado escarnecedor nas palavras
que profere e naquilo que faz, não faz... Dessa forma consome também drogas e
passa a outrem de sua relação nos lugares e horas não divulgados para outros
indivíduos desconhecidos, como é anônima geralmente a população viciada e
consumidora. Na esquina entre amigos ele vivendo comendo, ah como aprecia
mastigar! e bebendo, sobretudo o que uns colegas de famílias abastadas decerto
igualmente desestruturadas trazem ou seja bebidas caras como uísque e vodca, às
vezes conseguidas por meios escusos; após as reuniões deles ali na esquina
sempre sobram garrafas vazias a rolar no chão. O fato é chegar bebidas e se embebedarem
e embebedarem o Negritão. Melhor seria tratá-lo Bolão ou Barricão como mais se
assemelha, pois vive de bermudas como todos, os outros mostram uns cambitos na
magreza, porém ele é estufado e barrigudo tendo dificuldade inclusive para
andar no desengonço; daí, como poderia pilotar e mais voar numa motocicleta
ligeira e apressada para chegar ao ponto onde entregar droga!? Moreno ou baio
semelhante a maioria, ele é mais escuro, donde o apelido. Decerto a pobre e
sofrida mãe sabe o verdadeiro nome daquele combatente gozador, assim como os
outros soldados dessa causa perdida.
Naquele dia, os pais do amigo cansados
virolar por aí, haviam virado a cidade
de cabeça para baixo no dizer caipira, naquele não quis ou não pôde para não se
complicar indicar o endereço precário de Bi. Que era no estrangeiro, no país
vizinho onde o jovem andava bem complicado; os chefes do tráfico haviam tirado
o corpo fora para não se comprometer nem pôr em risco a causa ou até enrolar
mais ainda a posição comprometedora de policiais possivelmente aliados. Aqui o
corriqueiro no conhecimento público e chover no molhado, outra expressão
caipira.
Dito já solto e tornando ao ‘trabalho’,
palavra ressaltada porque Bi tem atualmente dois serviços, o que seria ótimo
para os frequentes desempregados. Um é decente embora nele não formal e
registrado como servente de pedreiro; e isto não seria maneira a santificar o
serviço ilegal, uma forma de lavar (esta, palavra de muito uso indicando limpar
dinheiro sujo...) O outro ofício se ofício ou só atividade que é a razão do
agrupamento no portão da Shirley e a restante tarefa: a de fazer bagunça até ou
para despistar o negócio ilícito, mais uma vez santificando as profundas...
Enfim escamoteamento da atividade suja com a aparente brincadeira e ajuntamento
para conversa-fiada e ouvir som, quiçá som a estourar orelhas com seus exageros
nos decibéis...
É uma questão para pensar mas parece
tudo o que até aqui exposto algo para mostrar o ser humano como autêntico camaleão.
Parecendo também que só se possa mesmo confiar no cavalo de beleza
extraordinária e no cão de amizade exemplar, ambos ofertando amor incondicional
– não se acreditando no bípede seja qual for seu apelido.
O problema da procura do recruta Bi, o
reencontro dele no seu desencontro e demais enrascadas em que se pôs (por culpa
dos dedos traficantes, é preciso insistir:) se liga realmente à visita duma
oficial de justiça faz pouco.
Ela parou na frente do lar dos sofridos
pais do Bi, bateu palmas fininhas incisivas, já se ia embora quando veio a mãe
depois o pai do moço a espreitar a esposa e a visita e depois ainda se metendo
e pedindo mais informes. A senhora madura e bela disse ao casal num alto e bom
som também aos vizinhos ouvirem, piormente aquele vizinho dos cinquenta ou
sessenta metros bem medidos interessado no mandonismo da Shirley, junto aos
ansiosos meninos aguardando ordens, em plena meia-noite. Disse a funcionária da
justiça com uma intimação a tremular-lhe e refletir o sol do meio-dia, sobre o
negócio, o velho negócio, a coisa enrolada à qual o filho deles, do casal, se
viu pego num flagrante e preso e solto. Aqui se mete o pai a narrar para alta
funcionária como foi como não foi e por fim pagando fiança sem poder por
individado gastar e trazendo o filho contraventor ou criminoso de volta. O que
a mesma escutou com paciência e educação embora soubesse de sobra os entraves e
desentraves; podendo nisto encaixar o quesito de que se não deve ensinar o
padre-nosso ao vigário, a boca do povo é mesmo engraçada.
Bem, a mulher resumiu tudo para o que
veio; decerto já amolada pela prolixidade ouvida e com isso concluindo a visita;
disse que por força da precatória, então o juiz convocando a depor e prosseguir
no processo o réu (será réu?) e os pais, mormente o genitor que negociara a
liberdade provisória e pagara a fiança lá no Paraguai. Fê-lo trêmulo assinar.
Repetiu o endereço indicado na intimação, explicou em que ponto da urbe
encontrar o juiz, a hora o dia e... e se foi; ainda quase praticou uma
imperdoável barbeiragenzinha nas manobras do carro preto pesado, pesado como a
situação escura. E se foi de vez.
Cap.5°
Coloquemos os pingos nos ii da
meia-noite. Isto porque anda parecendo, quer nos parecer, que ela se sobreleve
a si mesma – e é quase assim forçosamente, como fugir! – e nisto poderíamos
errar qual trem num trilho mal posto chegar num horizonte oposto ao
horizonte... Assim alguém acharia que a meia-noite pudesse acontecer todas
noites, de fato sendo dessa forma enquanto houver sol houver em consequência
planeta; sim mas não em todas noites as meias-noites, como a do tipo dessa
noite escura da droga, melhor na pior a da distribuição dela. É isso que a
gente quer mostrar. Evitando dar margem a distorções e às distorções dentro do
absurdo como por exemplo pensarmos possa ocorrer (a meia-noite) toda hora da
noite de todos dias e até no dia; por que não ao meio-dia! Devagar com o andor,
o santo é de barro etc. e tal.
A Shirley, também a sua mãe e sua
superior hierárquica nesse santo mister a levar para as profundas, aos quintos
se se convencionar melhor dizer; a Shirley se dispõe a ordenar aos soldados
neófitos inexperientes e aos jovens da velha guarda já experimentados na
distribuição desse patrimônio móvel como um pântano sujo como um pântano – ela
se dispõe ao comando ostensivo e às vezes apenas pode ficar um pouco nervosa na
passagem da noite-madrugada-dia num determinado dia da folhinha, o calendário
ignorado às vezes até por ela, até pela marechala com pose de sargentona.
Quantas vezes nestes últimos anos não foi pega desprevenida... Ou seja: chega
de repente, sem um preparo anterior, o veículo atulhado com maconha e com crack
minuciosa e criteriosamente embalados e já prontos não ao uso, à distribuição;
ou seria melhor pôr aqui redistribuição, para que os bis os negritões e mais os
motoqueiros possam sair imediato escondendo defendendo a presa... não, a imagem
não serve pois a noite o escuro o silêncio o sono o sonho do bairro não podendo
sentir o pesadelo e aí não havendo necessidade esconder defender; antes que
isso, defender protegendo sim os recrutas, enquanto os soldados já graduados
mais se defendem é do tempo: o tempo escorre e urge que se dispare, que se ronquem
motores. Nisto nada dos dias de brincadeira e conversa mole ao som do ritmo
frenético do funk e então os motoqueiros acelerando para executar estourar
orelhas da rua Boa Morte, ah que vida! Portanto agora não aceleram com o simples
objetivo de irritar ouvidos alheios, não: aceleram sim porém contínuo, a
chispar, mormente estando drogados também, num correr chumbados turbinados
enlouquecidos rumo ao seu grande destino, que é entregar sub-repticiamente a
alguém decerto ansiado no aguardo ou para redistribuir a mercadoria ou para
consumir. Ou... ai! para aumentar a dívida, o que ao infortunado podendo trazer
perseguição prisão tortura morte; ora, é chover no molhado, diz o povão
gozador.
Em razão disso (a gente poderia afiançar
na calada da noite!?) por isso ocorrendo apenas na meia-noite, pouco antes
pouco depois conforme necessidade do serviço. E mais garantidamente tão só
quando chega a encomenda; entrega viciada ou não no calendário, ela quase
sempre ocorrendo entra semana sai semana na sexta-feira, seja ou não seja uma
sexta treze com gato preto a atravessar a rua da ignorância, portanto do medo.
Aqui entraria uma outra questão, já
dentro das raízes do drama ou dentro das causas, que é o cuidado.
Atrás de tudo precisa haver o cuidado ou
vai tudo por água abaixo. Decerto, nisto sem prova todavia com boas e honestas
suposições, terá havido interrupção no fornecimento do contrabando: ¿não teriam destacado uns funcionários
jovens e bobinhos neófitos na burocracia oficial sem conhecer expedientes
oficiosos e então barrados e até presos os leais transportadores nos limites
comuns entre o território estrangeiro e o nosso país? E ¡¿não podendo ter
ocorrido desvios desonestos por desonestas interferências dos desleais traficantes
rivais contrários, uma gente sórdida inescrupulosa e mesmo maquiavélica e aí
falhando dispositivos, ecoando como ondas até chegar nos chefes de Nair, em
Shirley e logicamente nos soldadinhos do seu exército!? Não poderia ainda como alvitre negativo se quebrar a condução e
daí como encontrar mecânico a essas horas da noite; ou estourado um pneu e inclusive
todos pneumáticos do carro! ou ainda... pera lá, terá nisso ainda mais amigos
da onça?
Enfim, o fato é que havendo quaisquer
obstruções a droga não chega para redistribuição na esquina sagrada das chefas.
Conclusão, é noite. Em a noite se espera
a meia-noite duma corriqueira sexta. Para quê? para entrega normal ou comum, o
normal sendo o mastigar qual chiclete que mascam os jovens comuns; acontece o
comum, o comum da entrega seja da maconha seja do crack seja ao mesmo tempo a
entrega de ambos, para alívio dos que têm o vício.
Contudo, isso não é o comum doutras
sextas-feiras e nem dos outros dias da semana nos meses nos anos (ad aeternum?) Não. Os outros dias, dia e
noite infelizmente diz a vizinhança e não só os vizinhos que então já puseram a
placa “vende-se esta casa”. Dia e noite é a arruaça nos encontros nada
fortuitos – ah mas salva-se a manhã de todos dias, na qual os ‘trabalhadores’
andam a descansar, mesmo porque ninguém é de ferro a farrear ininterruptamente
tarde noite madrugada – dia e noite nos encontros quase sempre na esquina dela,
dela e do Negritão; ou que possa a reunião dos meninos alegres em demasia a
gritar dançar ouvir o som que dita o momento na marcação dos seus atabaques;
que o ajuntamento possa dar-se nos vários pontos desta mesma periferia da urbe
pequena se pensando grande. É farra em qualquer lugar enfim; na forma que o
popular lamenta “durma-se com um barulho desse”, o que não atinge as orelhas
dos integrantes da juventude alegre.
Cap.6°
Não obstante a incógnita o segredo a
noite escura além ou aquém da meia-noite que recai sobre a existência da Shirley
da Nair e dos chefes dessas chefas do tráfico de drogas baratas nesta periferia
– não obstante e curiosamente elas têm um romance. Vamos mais além e sejamos
incisivos na afirmação: elas são romances.
Partimos da tese de que todos somos e
temos história. Por vezes mal contada e quase se distorcendo em estória; estória
frequente com muito lobo mau e pouco chapeuzinho. Contudo a existência que o
homem comum teima ser a vida sendo apenas partícula infinitesimal essa
existência da vida de uma pessoa, tal pessoa vive um romance sem o saber e também
é um romance. Muita vez fragmentado e sem linguagem, inviabilizado à
publicação; ou publicável publicado, se contentando com a leitura analfabeta de
uns poucos dos muitos seus familiares. Se está mal escrito? se é mal lido? se
não é nem conhecido e invendável a curtir poeira na estante da livraria, hoje
em extinção o comércio livreiro por causa dos meios informáticos? Não importa:
é uma obra, obra essa que pode ser nada lírica e inclusive horrorosamente
dramática com dores e ranger de dentes.
Na vida pregressa (aqui vida e
existência confundidas a satisfazer o homem do povo) na vida da Shirley, bem
antes ser a mulher estufada e de andar lento nos pesos dos seus trinta e poucos
anos; ou na de Nair também gorducha na sua passada meia-idade; temos duas
jovens bonitas pelas quais os interessados se interessaram conquistaram e
casaram, embora no padre e no cartório só a mãe a filha entrara mais tarde nos
costumes atuais prenhes de namorados; lembrar aqui o tipo tal qual o figurado
no rapaz Bi: morar com o namorado fazer filho com o namorado e apreciar depois
outros namorados ou sejam conhecidos mais candidatos a amigos para distração...
Coisas de uma sociedade que sacrificou matou eliminou o amante, até aí digna
criatura da poesia dos tempos antigos (e o que seria antigo?) Nair não,
casou-se nos conformes, sofreu nos conformes com belas discussões conjugais,
mesmo porque o João era o que hoje picham como “galinha”, enfim um sujeito
mulherengo e infiel. E não seria aqui o momento de procurar razões ao
destrambelhamento futuro da mulher então presa aos laços esponsais e
respeitadora do código de honra de casada e do pensamento católico? Assim mesmo
tiveram porção de filhotes que não vingaram sobrando apenas três: a mais velha
Shirley, apelido em homenagem à Shirley
Temple heroína do cinema quase no tempo que o cinema aprendia a falar; uma
bela criança, promessa, que o vizinho próximo distante uns cinquenta ou
sessenta metros de sua casa atual afirma haver falhado e deu no que deu com a
belinha desvirando promessinha em chefe do tráfico ali na esquina, mas isto ele
sabe a rua Boa Morte sabe e a polícia desconfia. Ela, dona Shirley, é o que
sabemos sabendo por alto seus comandados no exército quase sem quartel. No
entanto foi promessa na juventude, quando a esbanjar beleza e charme e
simpatia, agora apenas simpatia aos poucos vizinhos, pois 90% da rua é
desconfiada e mais o velho próximo distante; ele igualmente um romance hoje não
lido. Shirley cultiva suas páginas, ama, deseja, se engana e não fica pra
titia: arranja um quebra-galho, expressão mui curiosa que o povo usa; arranja
um homem, dá à luz duas meninas, aí já tendo se envolvido no mundo das drogas,
havendo mesmo um lance desagradável que é ser ela jurada de morte no pacto com
esse diabo tão bem visto ou tão conhecido hoje em dia; se desvencilhou como
pôde e daí foi o companheiro preso e antes perseguido pelos traficantes rivais
e pelas autoridades. Encerrado na casa de detenção sumiu. Surgiu novo namorado
à namorada e com este nova criança que é a terceira filhinha. Também preso, o
mais recente namorado continua preso, foi arranjada forma de por força legal
ser enviado pelo presídio auxílio pecuniário ao sustento da menina; o restante
da despesa da casa vindo com os negócios ilícitos da agora chefa. De maneira
que Shirley desistiu de sonhar com outro príncipe não encantado, vivendo sob o
código de honra desse mundo mui falado e pouco conhecido, que são os meandros
do crime. Portanto optou em dirigir sob orientação da mãe que a iniciou na
coisa, a chefiar seus recrutas e soldados; não se voltando mais para o amor
como visto o amor num romance qualquer, banal.
Já a Nair é obra mais volumosa e mais
rica como também mais completa em sofrimentos e encrencas. Isto porque temperamental
e revoltada; acutilada, ataca se defendendo de língua: é do tipo de mulher que
não para de falar, a vencer no grito. A filha não é bem o oposto, oposto só na
voz educada e mansa. A mãe é matreira, se esconde no que a sociedade aceita: a
sociedade apreciando bem o trabalhador incansável o pagador correto; cutucada
com vara curta no dizer caboblo – vira uma fera. Sem pôr por nenhum momento os
lances condenáveis ou perigosos em que se enredou, que são questões do tráfico;
é uma traficante consumada mas trajando-se como mulher direita; e até religiosa
ou seriam religiosos os seus! sim porque os que passam na esquina não estando a
malta jovem a ouvir seu som e a se cruzar asneiras e na conversa-fiada, então
ouvem a chamada música gospel com sua
gritaria, ou somente o volume do aparelho de som da casa com boca mais
arreganhada. O fato é que se escuta esse tipo de manifestação religiosa, que
ecoa nos corredores da residência. E a chefa? Provável que use também mais esse
subterfúgio do natural segundo o homem comum, para esconder e se esconder do
proibido ou só comprometedor.
Apesar disso tudo, teve Nair as folhas
ora amassadas ora arrancadas nervosamente ou apenas rabiscadas assinaladas sujadas
com marquinhas de ponta de caneta a manchar o todo no papel do romance. Sim tem
gente que rabisca remarca sublinha fere indicando palavras e frases no livro
que lê; uns leitores vão além, conforme sua educação: anotam nas margens ou
espaços número de telefone, resumem anedotas pra não se esquecer posteriormente
caso precisem lembrar; tudo nas páginas inocentes dum romance e daí não
precisando que o mesmo seja de boa cepa e uma boa literatura; inclusive pode
ser de escritor mambembe e desconhecido. Bem, a mulher teve emporcalhadas as
folhas do romance, em que encerra sua rica pobre história. Onde sobrando amor
materno e carinho e desejos e decepções e brigas, brigas até homéricas com seu
homem, ao desespero das orelhas vizinhas. Aqui explicável o porquê de tantas
mudanças na família, de casa em casa até chegar à casa da esquina na Boa Morte,
local dela acumular banha... hoje estufa e se estufa sendo moralmente a chefona
duma gangue respeitada inclusive por policiais.
Chegaram no translado com os cacarecos
de pobre, criança dando palpite aos adultos e na choradeira; móveis mui arrastados
vidro do guarda-roupa quebrado, falação; as plantas nos vasos improvisados ou
sejam as latinhas de flor, a flor que se põe como poesia do bem e do bem-estar
no pensamento humano. Permaneceram aí na esquina residindo sem mais a desgastante
situação de mudanças. Sem com isso mudar a verdade e a realidade. Logo o João
se engraçou duma virgem filha do vizinho ao lado e fugiu com ela, deixando Nair
furiosa e ferida. Um pouco a situação criticada popularmente que é trocar uma
esposa cansada gasta velha por duas mulheres de vinte. A matrona virou mesmo
matrona. Mas nisto a coisa complicou, coisa a ser lembrada noutras próximas
oportunidades neste texto; a coisa em si pode ser resumida com a Nair ficando
semelhante outras consortes (sem sorte, trocadilhemos) abandonadas, instilando
seu veneno nas brigas de sua família por causa dos herdeiros, o drama da pensão
não paga pelo ex-marido fujão; e com a família e aliados do vizinho ofendido no
‘roubo’, palavra indevida quando entram as miudezas do amor carnal na concepção
do povo – enfim bate-bocas meses e anos; até serenar, aqui um ‘serenar’. Logo a
matrona envolveu-se em duas frentes: com um namorado (na acepção atual) e com o
mundo do crime no trato com droga. Encurtemos: arranjou um namorado traficante.
E se complicou na mesma intensidade em que penetrou na cúpula. Tornou-se
representante e executiva nessa empresa, porque preso seu homem passou a ser
como a voz do presidiário; a ficar sua gente sujeita ao processo que liga o
chefão ao seu negócio escuso. Em resumo, uma representante sem representação
legal. De fato é uma ‘trabalhadora’ no mostrar serviço e compromisso numa
teoricamente casa de família (onde? quando? de quem? como? indagam vizinhos
atrevidos...) a sair da periferia diário ao serviço formal no ônibus circular
das dezessete horas e a tornar na madrugada na garupa do mototaxista. E... Sim,
depois da meia-noite, a meia-noite pertence a outra executiva, a filha mais
velha Shirley, aquela que obteve sua graça pela graça do cinema antigo quase
mudo. Não a mãe dela.
A mãe teve vingado mais duas crianças
hoje moças. A Bruna e o Amadeu, este a copiar como homenagem o nome do pai da
mãe quando ele ainda bebê, o preferido do João, sempre o machinho é ansiado
tendo já uma porção de fêmeas da espécie no lar; ainda era um lar e por entre
desentendimentos havia um sonho a realizar realizável irrealizado.
A promessa masculinazinha virou um jovem
ainda agora imberbe mas amorosa; chegou a ser babá das sobrinhas, filhas de
Shirley, com categoria e quase se tornou depois um submisso do amigo Bi, a
enrabichar com esse soldado do exército perigoso. Amadeu não passando de um
garoto, ainda sem destino, ou com um suposto destino sem grandes horizontes.
Quanto à bela Bruna, não se envolveu em
compromissos no baixo mundo na mesma intensidade e atrelamento de Shirley, porém
não foge ao convívio das más companhias. O meio não permite ser diverso. Se
engajou com um namorado mais no estilo de “ficar” como é o palavreado agora,
que para constituir família embora também ilegal; portanto solteira e
desimpedida, apenas auxiliando as chefas nos cuidados domésticos. Quanto às
suas relações é um ser mais ou menos livre, anda por aí sem se prender e como
mulher sabe como defender-se. Neste ponto entrando dois dados relativos na
visão da sociedade. Primeiro que ela é quase provocante por sua beleza incomum.
Tem um perfil que pode ser visto qual obra esquemática bem acabada por artista
de valor: todo seu físico é perfeição, bem pincelado pela natureza. De tez morena
e feição no padrão europeu – de boca fina nariz afilado olhos buliçosos e
conversadores – está longe da mana e da mãe delas, ambas além de gordas dando
trabalho à balança e tendo dificuldade para encontrar o número certo nas confecções,
as duas com características fisionômicas indígenas, como aliás a maioria na
população da periferia; escuras semiclareadas, têm traços grosseiros embora
mulheres. A Bruna não: é fina e bem acabada, é um pouco bibelô composto por
artista de talento. Parece mais princesa deslocada à periferia bastarda. Em tudo,
na voz no timbre na pele doce de porcelana; talvez nas vestes que vão além do
bruto e do mau gosto em ser todo mundo trajado igual, o popular hoje trabalhado
pelo sabor televisivo. Bela. Bela já basta a sintetizar a moça. No entanto tem
a outra vertente na mesma pessoa. Não é que seja destramelada, visto ser
contida como tivesse alta educação, não desbocada como a mãe e a irmã a berrar
quando descontentes. A mãe a dar espetáculo; a menos que esteja sobreavisada
decerto por aliados ou bisbilhoteiros ou polícia ou vizinhança ou por
traficantes rivais. Um dia na esquina assustou a rua Boa Morte viva nos sons a
se calarem então, assustou com seus gritos e extertores (nesses momentos não
mede palavras não modula coisa alguma: avança!) contra inimiga e ex-vizinha num
desentender de desmontar o mundo: então soltou os maiores insultos os maiores
nomes feios, estando inclusive com uma netinha no colo! Aliás é um dado
terrível e frequente o desbocar nesse meio, os jovens por exemplo usam
palavreado chão e mais que isso, menos que isso: a baixaria. A Nair a gritar
vocábulos de prostíbulos contra a outra no meio da rua. Traduzindo resumindo:
“eu dou para um só homem; você, sua nojenta, dá pra todos que encontra!” Não se
pegaram em não ser na língua. A Shirley também pega duro num bate-boca bem caracterizado;
mas sua força moral força os temerosos e escapulir, ficando uns poucos curiosos
constrangidos, nessa situação na qual não sabemos o que fazer o que dizer o que
mostrar que não fira uma autoridade (no caso a Shirley). Não fala alto, fere
com palavras medidas e dosadas. Em conclusão, não dá como Nair show. Nenhuma nem mãe nem filha se põe
na berlinda com ataques verbais de alto som, quando em jogo as questões de
tráfico pondo a perder conquistas tão veladas e tão perigosas... Nesta investigação
quem sabe apócrifa o mais comum é Nair desaparecer dias até e na volta quase
não se mostrando por enfiada na residência; se precisar brigar desfeitear
alguém, evita; já a Shirley está na casa diário, mesmo não tendo no dia a meia-noite;
e durante o dia quer mostrar mais ser dona de casa, não a dona do tráfico; mais
ser mãe e vizinha civilizada; também evita o quanto possa confrontação e mais
ainda se precisar berrar impropérios como a mãe dela.
Tornemos à bela Bruna. No meio disso
vive a trabalhar, como varrer a calçada por exemplo ou a chamar nos tentos o
jovem irmão ou as sobrinhas pequenas. Um pouco discreta, parece, como a
esconder sua beleza ostensiva. Recebe e convive com conhecidos e cultiva
relações femininas assim como conversa com alguns parentes e nisto claro
chocar-se com estes. A velha questãozinha de parentes língua e dentes. Não é
dada a bate-papo com a vizinhança. Contudo – por semelhante educação aos olhos
do homem comum e mais levando em conta a aparência de grande beleza na mulher pequena
magra – é um despropósito de boca aberta! se irritada ou piormente num
confronto com desafeto, seja por entrevero de amor e namorisco seja com rivais;
estes não necessariamente ligados às drogas, ela a que menos dá mostra estar nesse
drama imundo. Quando assim, vomita todo um prostíbulo e não só os vocábulos de
prostíbulos! É como ter um vaso de finíssimo cristal da Boêmia, a se espatifar
num sopro com força de tufão...
É mais ou menos assim uma princesa,
perdida ou engajada na casa cheia de interrogações da esquina; no pensar dum de
seus vizinhos, aquele longe perto de cinquenta ou sessenta metros.
Cap.7°
Ele vê, digamos que não queira ver nem
ouvir mas vê inúmeras pessoas que chegam na dita redita casa, umas são suspeitas,
outras já são dessas que não nos pejamos exibi-las, mormente quando tem junto
crianças a fazer barulho enquanto os adultos se cumprimentam; ainda outras são
contumazes, apesar frequentes ali na casa da Shirley nada amistosas (quem sabe
não por serem apenas insociáveis, a gente pensa coisas...)
Vem mui a miúdo o Triângulo. É um
sujeito jovem destrambelhado de cabeça e desengonçado de corpo e no andar, anda
numa ginga característica que o define bem aos olhos apressados. Realmente
semelha um triângulo com seu vértice virado pra baixo, seria assim num desenho
feito no papel. Alto e escuro, não um escuro africanizado, Triângulo vive ora
no hospício tomando drogas lícitas mas do tipo tarja preta, ora solto
abobalhado e a falar desconexos pelas vias públicas. Suas visitas à casa são
quase de passagem somente, vetada sua introdução no interior da residência.
Aliás, qual outras quaisquer dos lares desta época demais violenta e insegura,
a casa de esquina das chefas é gradeada acorrentada cadeada – numa espécie de
‘saudável’ presídio a fim de que a bandidagem possa viver livre. Assim,
quisesse, essa espigada criatura não entraria... Dizem os que falam afirmando
que aparece à procura de droga para fumar ou cheirar, com certo impedimento:
não possui dinheiro! e os fornecedores não têm por costume entregar a
mercadoria num pagamento à prestação nem usam o expediente do sine die. Uma vez, necessitando urgente
desesperado quase, agrediu uma da casa quando negado o pedido e então saiu a
esbravejar numa repetição em blasfêmia de calão gritado contra Bruna. Um
espetáculo e tanto para quem tendo janela portão e orelhas como por exemplo o
velho.
O velhote vizinho próximo, Distante, sr.
Distante Cinquenta, alguns na área garantem que ele corrige ser Sessenta –
enfim a esdrúxula figura se pôs nesse episódio em que observou o rapaz, a
soluçar. Toda vez que tem algo inexplicável ou de surpresa, ocorre dar-lhe
soluços; tem gente que tosse que engasga que funga que engole a língua em belo
disfarce – o velho soluça. Nesse dia das ofensas de Triângulo soluçou.
O velhote vizinho é um homem estranho ou
apenas interessante. De compleição miúda, é do tipo fino e magro, a tanto vive
o homenzinho sujeito a ser levado pelo vento – a Boa Morte (deveria por isso
apelidada Ventania e parece ter assim ocorrido nos tempos imemoriais) a Boa
Morte fica num ponto geográfico sujeito a tufões; preciso admitir que o ser comum
não distingue tufão tornado brisa nivelando tudo no sopro mais forte da boca da
natureza; e por causa dos tufões frequentes eis o perigo do pobre. Ainda assim
vive na Morte se deslocando qual garoto e não passa dum idoso num fim de
carreira. Conhece todo mundo mexe a brincar com toda vizinhança, menos com a
vizinhança, quer dizer a casa da esquina sem alma penada nem assombração ainda,
que evita por razões mortas da vida. Apesar, cumprimenta todos, não sejam os
indiferentes ou alheados ali no aguardo ou na participação do pertinente ao seu
negócio “escuso!” grita o pensamento dele; no entanto dá o bom-dia a boa-tarde
(não boa-noite nem à meia-noite, não se aventurando passar nesses perigos no
escuro) enfim cumprimenta tanto Shirley, esta indaga coisinhas mansas desse
vizinho, tanto dela quanto de Nair, visto serem conhecidos faz anos no pedaço.
Aqui e noutro lugar qualquer a palavra conhecido é realmente desconhecida embora
abusivamente empregada pelo povo. Em suma se saúdam os vizinhos velhos, o velho
e as jovens mesmo considerando a matrona bem passada tidas como jovens da
esquina. O menino da família só responde o cumprimento num “oi” que nada diz;
enquanto Bruna olha o homem que a olha e só vê nele más intenções e mesquinhos
interesses, estes escusos de fato... e por isso sequer responde, vira o rosto
para outro lado que não o lado dele. As menininhas, toda criança salvo exceção
nem responderia nem se exige esteja ligada à presença ausente ou seja estranha
a si; elinhas não contam. De maneira que indo ou vindo das compras ou
pretextando o nada somente a patrulhar fiscalizar ou descobrir ou se inteirar
do que há naquele antro, então o vizinho passa por ali, vez por outra ensaia
uma conversa com passantes, exclusivamente para ver o que ver...
O vizinho Distante, em pleno trabalho de
investigação contínua, conta com dois instrumentos mui possantes e desenvolvidos:
olhos para ver, orelhas de escutar. Ah, e um cérebro de absorver de guardar de
entender e mesmo de interpretar. Curiosamente não tem boca. Tem. Porém mui
prudentemente usada, abusada só entre os pouquíssimos íntimos. De resto,
havendo necessidade a expor o que viu
ouviu e interpretou precisa contar apenas com seu cachorro. Mesmo nessa hipótese
não se dá bem, pois digamos que saia com o Lulu na Boa Morte viva de cães
presos ou soltos: não teria sossego na ladração, ora deles contra o seu ora do
seu contra os outros. Na casa da esquina não tem ele esse desconforto, o da
latição infernal, visto não haver irracionais ali só nesse porte os pobres
hávidos de alimento no vício. Em resumo, se vale do cão para desafogar os
contidos podres da rua, a narrar e ouvir para o animal; o animalzinho entende e
sorri como anuência de rabo. Isto porque nessa serventia, miúda ou graúda, não
pode contar realmente com a esposa, senhora até mais velha que seu velho e
apenas fala disparates, na opinião macha além de manter somente conversinha chocha de mulher
para mulher; desinteressante a Distante. Ela também a carregar Distante no seu
nome de casada no padre e no registro de cartório. O curioso nisto é ser o
casal o contrário dos casais do povo, em que a mulher fala se interessa e até
enreda, o que servindo bem a municiar entreveros conjugais; enquanto o macho
não abre a boca no tagarelar (aqui não abrir, num abuso de linguagem). Talvez
Próximo não tenha confiança a passar para a esposa os confidenciais que
descobre extrai e expurga e esconde, não dos íntimos e do Lulu é claro. Vai
que, diz assim a gente do povo, vai que ela dê com a língua nos dentes... Além
disso, nunca o senhor Cinquenta (ocorre usar ainda a palavra cinquenta tremada,
conservador e para aberrar a reforma ortográfica, esta nunca vigente em país
instável; feita a fim de o povo inculto não obedecê-la) nunca também o homem
desejou nisso atrito com as autoridades, atrito? nem relação sequer
amistosamente com a lei. Verdadeiro igualmente que dispense intimidade com o
pessoal ligado ao crime, por mais banalize a tevê ainda assim tem certas
reservas, não passando do bom-dia como afirmado.
No entanto o sr. Sessenta tem uma arma
terrível, mais achando isso grave os que vivem no mundo dos desmemoriados, o
que parece são muitos hoje. Ou seja a memória de elefante. Será verdade que um
mastodonte nunca esqueça!? Sua casa de lembranças é deveras bem guarnecida bem
servida. Para azar dos que pratiquem o azar. Muita vez uma recordação é útil
podendo até salvar vida; porém o velhote abusa desse depósito. Isto sendo quem
sabe importante à questão ligada à chefia de Nair e Shirley.
Cap.8°
A avantajada memória dele facilita
entrelaçar fatos (ou suposições?) observados nas idas e vindas no passeio do velhinho
Cinquenta, cinquenta embora este insista no sessenta, parecendo o mais certo
nesse errado 50 visto cinquenta encurtar mais o menos que vê-ouve da casa
espúria na esquina, onde jovens quase sempre machos da espécie comprometida se
reunem a fazer suas farrinhas ou somente a aguardá-las, e raramente as fêmeas
da mesma inditosa espécie tentam neutralizar com sua beleza desgastada a feiura
dos atos comuns mascarados com atitudes tidas na sociedade por normais, porém
apenas comuns de tanto ocorrer. Assim inventaram os que inventaram a esconder o
que esconder duas atividades limpas e santas. Aqui a santificação do trabalho,
o qual engrandece os seres terrenos. Uma
um ‘lava-rápido’ mais rápido ainda sendo o ‘lava-jato’, serviço que se encontra
em toda esquina da cidade e muito conhecido numa coletividade que endeusa veículos
motorizados; a geringonça com seu barulho e vapores e cheiros, com os zunidos
de aspiradores de pó e a conversa cruzada dos improvisados ajudantes,
desajeitados também esses da esquina porque parecendo sua queda mais para mexer
com drogas ilícitas que desajolar graxas e outras sujeiras grudadas na lataria.
Enfim conseguem essas incautas criaturas gastar horas e horas a esfregar
encerar lustrar deixando como espelho a lata de carros e motocicletas. Não raramente
alguém encosta de ré o automóvel afundando em plena luz do dia parte do fundo
na frente da casa de Shirley; enquanto a parte dianteira decerto aquentada no
tanto friccionar dos pseudosprofissionais com seus esguichos e panos; uns se
traem, neófitos no mister, a olhar toda hora espantadiços e medrosamente donde
possa vir vistas perigosas, quem sabe saibam ou imaginam alguém não mais
distante que o próximo distante Sessenta, quiçá cinquenta mais perto ainda...
Ou temeriam tão só a consciência, a lei estando ainda mais distante desse
perto...
A outra atividade escamoteadora tão
frequente quanto a primeira é o comércio com ares igualmente clandestinos que é
a das confecções. Umas pessoas teimam a se garantir ou justificar a tarefa na
troca ou venda de roupas usadas. Outras menos medrosas ou na força do desespero
do desemprego a fome bastante, então comerciam, sempre ilegalmente o que mais
gostoso pensam muitos pés de chinelo, trocam em troca de lucro provável com
recebimento improvável da parte compradora – as peças novas. Novas por serem
sem uso, supõe-se, velhas tendo viajado muito tal qual o cigarro e a droga mais
perigosa desde as regiões que sobrevivem do contrabando; este aqui na Boa Morte
dá preferência ao do Paraguai da Bolívia da Colômbia. É neste ponto entrar
Shirley, a qual camufla muito bem o passar crack e maconha aos desventurados
jovens “aviõezinhos”, isto na linguagem dessa rua da periferia. Assim vêm os
fregueses, as mais das vezes freguesas com as quais trocam a chefa e a
compradora além da mercadoria os ais domésticos a insegurança familiar as crianças
e as doenças de casa e mais, muito mais, as atrapalhações dos seus maridos ou
namorados, dada a instabilidade macha atualmente ou desde que o mundo é
mundo...
Com isso a droga campeia quase
legalmente. Dito quase porque o medo costuma sujar a roupagem da lei.
Cap.9°
Tem mais um quesito ligado ao ‘comércio’
droguista. Não um, dois, para fazer par com a exposição anterior.
A droga, seja a leve destruidora dos
pobres seja a pesada destruidora dos ricos, a obtenção dela depende do fornecedor
é lógico e bem mais do dinheiro; o dinheiro que compra tudo na venalidade do
homem. Se a classe rica tem facilmente meio na riqueza das famílias, os
indivíduos pobres precisam antes de roubar o sossego da sociedade e até o pão
dos filhos, antes disso necessitam a qualquer preço uns trocados. Ora, é um
pulo daí ao roubo ou afanaçãozinha que seja, se apropriando dos bens do homem
de bem (ou assim tratado).
Apresentado nestes termos, fácil fica
entender os oportunistas dos descuidados – a decantada insegurança que atinge
primeiro os incautos depois até os que se fecham em correntes gradis e
cachorros, estes nas camadas pobres não passando de vira-latas barulhentos e
por vezes inclusive dormindo suas pulgas sequer percebendo intrusos estranhos
no domicílio. Os milionários preferem mastins buldogues e guardas, numa segurança
também discutível; mesmo porque nem a polícia pode segurar ladrões
profissionais e só tem vez com os pés de chinelo a visitar lares ricos e
pobres.
Desse jeito na rua Boa Morte sequer
precisando seja à meia-noite, qualquer escuro lhes convêm e mesmo no meio-dia
de sol, passam os ladrões a mão no que não lhes pertenciam pertencendo agora...
Ora, esse negócio gasto de ladrão entrar na casa de pobre e só levar susto é
algo furado: entram os amadores necessitados de ilusões e moedas às ilusões e
carregam desde toalha e panos usados e qualquer outro bem material, torcendo
aqui seja valioso – para trocar por drogas ou comprar entorpecentes.
Todavia há outros senões neste ponto, de
interpretação capital. Ocorre de o gatuno ou ser de moral duvidosa pensar ou
temer alheios ou até (conscientemente) a complicar seu grupo de mercadoria
ilegal e por essa razão evitam entrarem nas propriedades próximas. Aqui
diríamos que cinquenta e mais sessenta seja distância garantida contra esses
infelizes!? Em geral não roubam bens nas imediações, preferindo os de longe. No
entanto quando a fome de alucinógenos ou a oportunidade se oferece, deixam de
lado resquícios de cuidados e levam por exemplo botijões de gás ou o que possa
ser vendido a adquirir ingresso para comprar a ilusão de que a vida não lhes
possa parecer tão vazia tão chata tão sem perspectiva. Isto nos dá impressão
ser o sonho que tem uma pessoa no mundo do crime.
O segundo aspecto nesta abordagem atinge
em cheio não só a meia-noite mas o centro atrativo de Shirley e Nair, Nair primeiramente
se se pesar mais a chefia. Trata-se do guarda-noturno.
Muitos moradores não colaboram com o
serviço do profissional, ou não querem ou não podem sequer quererem, querem
mais manter os seus com parcos ganhos no emprego ou subemprego, nesta sociedade
cada vez mais precária. Seja como for, um grupo de residentes pagando e
mantendo o guarda. Ele passa das vinte e três horas, portanto antes da
meia-noite, a apitar na sua motocicleta pelas horas a dentro até às cinco horas
da madrugada; aí entregando decerto a vigília ao galo, havendo ainda algum no
pedaço; ou aos habitantes despertos se preparando ao trabalho. Então são carros
motos bicicletas passos no asfalto estragado da rua.
Aqui um ‘complicômetro’, palavra esta da
gente comum nesta cidade pequena se pensando grande talvez culta. É o seguinte:
parece a um dos moradores, mais especificamente o sr. Sessenta, que o guarda
anda mancomunado com o pessoal da droga ali na esquina. Pois apita seu apito
duas vezes e não uma na intercalação ao se aproximar do esconderijo. Isso
mesmo, é proposital o vocábulo por abrigar o escuso e o perigo; ou a maldade;
questão apenas interpretativa visto o mal se encontrar onde, sempre, esteja o
mal no pensamento de alguém. Contudo parece de fato o motoqueiro da noite assoprar
duas vezes e não uma vez como nas vias outras para avisar: ou que se encontra
ao que der e vier; ou o ladrão que se esconda; ou a lei que possa estar na sua
ronda; ou a chegada de material estranho; ou andar livre o caminho ao negócio.
Oh, isto não é mais uma vez chover no molhado?
Cap.10°
Naquele
dia naquela hora, apesar não ser meia-noite sendo um pouco antes e decerto
ligando a curiosidade inocente; o sr. Sessenta deixara sua companheira de anos
melhorada na piora de saúde, já não temendo em razão disso a morte da esposa e
assim se desanuviava passando na esquina da Boa Morte sem nada especial, a esmo
enfim. Mesmo porque não era bem o momento a aguardar inesperados, visto a banalidade
da rotina com chegadas e saídas de fregueses aviõezinhos e o pessoal de
retaguarda no centro ou sob direção direta de Shirley; Nair presente nessa hora
e um pouco avantajada no tom alegre, portanto fora do comum, no ponto xis em
que o povo diz a gozar outrem a pessoa ter visto passarinho verde; um inusitado
porque a chefona nunca passando a mão na cabeça de mequetrefes abusava então a
falar-lhes gracinhas, assim forçando para agradá-la todo mundo a rir, inclusive
os que acaso não estivessem drogados. É o que observou Cinquenta ali a passar
como quem nada quer... O movimento na rua era de normalidade com veículos indo
outros vindo, uns poucos pedestres a circular e as crianças já recolhidas na
cama pelas famílias – quando chegou certa moto a ziguezaguear bêbada ou alucinada...
Decerto seu condutor ainda mais. Foi para o velhote a última visão desse
conjunto e do ato específico, que aliás provocou boletim de ocorrência policial
e fez se aproximar o populacho do pedaço, curioso e horrorizado. A última porque
o condutor rumo à esquina a fim de participar do conclave cheio de ilícitos e
escusos, onde a juventude dopada a escutar funk num estourar ouvidos e a se
julgar no paraíso mesmo no inferno; esse motoqueiro a estar além da realidade e
vivendo seu sonho louco, subiu inadvertidamente no passeio público esburacado e
sujo, passando por cima do velho vizinho de Shirley!
O que deu certamente trabalho à lei e
aos ilegais explicar. Provocando choro nos mais emotivos. A consequência mais
séria a este texto já torto já fastidioso já cansado, sendo a eliminação dos
olhos e das orelhas bem informados. Assim, por falta de mais dados, o antro
semelhante a mil outros antros na cidade pequena se imaginando megalópole
prosseguiu e prossegue na sua faina, embora pichada; enquanto a mentira desta
verdade não pode continuar, se encerra. Olhos e orelhas se foram para outra
dimensão, sem pelo menos ouvir insoniando (não o ronco da velha esposa:) a
entrega dos escusos pela chefia na meia-noite.
Marília março
2013
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