Experimentos in-salada
1°
- A mãe
Mãe, um ser imperfeito
investido, temporariamente, de santidade.
Ele desconhecia a própria inocência e a
inocência do seu olhar. Olhava lá em cima aquela tantadura de mãe, algumas
toneladas podia supor supusesse em colosso de seios e demais apensos; pois a um
serzinho assim tudo grandiosando ao palpável quiçá impalpável e absurdo. Não
pensava no absurdo não conhecia o absurdo, tão só vendo o direito
aleatoriamente escolhido ou ofertado por dois dedos abertos em vê e a empurrar
e espremer o alimento leitoso na boca tenra qual broto aparecendo no limiar do
solo sem ainda tomar coloração entre o branco puro e o verde promessa. Uma
promessa também de santidade que a mãe, ela agora santa, que ela olha terna,
feliz, feliz naquele fugaz instante, afugentando o sofrer de horas dias anos,
eternos!? Contudo sorri, enquanto elinho não sabe sorrir copia embora a
fisionomia materna, aquele colosso de mãe lá em cima com duas enormes saídas
espirrantes de leite. Sente-lhe o cheiro, acostumar-se-á por meses com sua
fragrância flagrante que raciocinará depois bem depois nem sempre aceitável.
Completa a refeição, guloso gruda com unhas e dentes nem unhas tendo a surgir
unhinhas apenas mas segura bravo a presa com mãozinha e quer morder sugar
chupar cansa esmorece larga solta solta-se arrota não arrota vomita a sobra a
sobra escorre pra baixo e o cheiro sobe e ele adormece; ela higieniza cuida
ajeita, o bebê some sonha estrebuchinha espanta, todavia pensa a mulher estar o
filho a sonhar com os anjos, como toda mãe.
Era o início, um pouquinho depois do início, o
começo do Zé.
Doutro lado, houvesse possibilidade separá-los
nessa hora, doutro o drama materno na forma de mulher pobre abandonada sofrida
esquecida momentaneamente de seus desejos ânsias repugnâncias antipatias e
quiçá dos horrores do ódio que algema milênios os seres humanos. Ficara em
resguardo o sofrimento bastante, as penalizações da existência e inclusive
malquerências nem um pouco veladas aos desafetos na família destroçada e aos
inimigos gratuitos; quem sabe o apagamento temporário do crime. O mais próximo
fora a tentativa de aborto do teimosinho que agora dorme e vez que outra se
remexe ao enternecido e velado olhar dela.
Elinho desconhece. Não poderia saber. Enquanto,
cresce. Toma contato com a periferia da dor, dos dramas, dos problemas
mundanos, não na profundidade daquele viver.
O Zé agora baderneirinho junto à sua turma de
bagunça a barulhar o cortiço.
Nada obstante há alguma beleza naquele inferno
social levemente descortinado por uma criança; e demais meninos.
2° - Amenização às dores
O enfeite da Terra fica por conta das flores dos pássaros e
das mulheres,
amenizando a aridez da vida.
Enquanto ele cresce e cresce a algazarra
naquela não mais que favela tentando ser vila, a mãe, branca, no dizer dos
outros escuros, a mãe põe uma questão básica ao seu sentir – apenas ao seu
sentir em vista nada mudar no universo! no universo sim e no exterior ali
pertinho – uma questão fundamental, que ela nunca pôde tratar sequer com os
íntimos. Quem seria o pai da criança? Dos outros meninos mais fácil saber entre
os três companheiros ou só parceiros que tivera, porém do Zezinho, como saber
de fato se se entregara aos gêmeos, uns negros que viviam de expedientes filhos
de d.Maria Preta; claro se parecer com eles, ter traços comuns. Pouco
importando realmente a coisa a outrem, visto não mais vê-los, essa gente
circula mais que dinheiro miúdo em mãos do povo. Ia ver, pensou, de nenhum dos
homens, homens tantos... sorriu malícias. O moleque já embaralhando melhor os
vocábulos indagou o porquê do sorrir. Mamãe responde com sabedoria: por nada;
vai brincar com o Paulinho. Mas os dramas não são só internos, externos. O
aluguel, a venda na compra ou seja a dívida a dúvida; e sobretudo os novos
relacionamentos e como arranjar mais faxinas a custear a casa, sendo que
algumas patroas não pagavam direito e ainda seus homens em vez de trazer
recursos ao ‘lar’ levando eles sempre alguns trocados, em troca ora duns afagos
ora duns murros... A vida era dura. Não obstante aí encontrando-se um exemplar
da mulher, no caso pobre e sofrida, um exemplar embora de beleza desgastada,
semelhante à flor que embonitece e alivia a feiura do planeta, o planeta com
suas intrigas guerras desmandos. Além disso havendo as dores físicas, não só as
das agressões machas pra valer, as das moléstias e a via crúcis na saúde
pública esta também doente. Vivia a faltar no serviço ao serviço de levar os
filhos em posto longe nas imediações – a correria rotineira e a vacinação dos
seus. O Zezinho um pouco emperreado e fracote. E foi assim até moço, homem se
se quiser.
3° - Os infalíveis
Motorista de ônibus é como goleiro, se falhar todos os
companheiros perdem.
O Zé tem inúmeros apelidos por onde passe; tem
gente parece atrair apelidos e gozações; seria por seu desengonço flagrante e
ostensivo! Aliás também Zé apelido de José, José com sobrenome materno. Embora
raquítico magro fraco tem boa vontade auxilia quem possa e assim popular e
amigo na favela. De repente está de goleiro. De repente aqui força de
expressão: sempre envolvido desde menino com bola e a chutar tudo como a vida a
chutá-lo. Mamãe no trabalho os manos por aí, agora tendo um novo da velha mãe
com certa velha, enfim o nenê aos cuidados da vizinha Maria Velha, o Zé às
soltas. Puseram-no a afundar a equipe entre duas traves improvisadas e a rede
só imaginária; entretanto a bola murcha passa a rede fura a rede e os meninos,
quase homens feitos, feitos gozadores “frangueiro!”gritam. O Zé não briga por
isso, sorri aponta o ponto impedido a diminuir a falta, a falta sua na sobra
dos melhores. Também nunca fora motorista, teve no entanto intenção e a
intenção é o que vale. Contudo dirige e se dirige ao escurinho da noite ajudar
no volante dum carro roubado, roubado pelos outros não quer se envolver nisso,
lembra a firmeza materna nos conselhos de moral, não participa direto do crime:
só auxilia um pouco; escapam às investidas policiais. É pego depois noutras
falcatruas em que inocente, dedado por outrem decerto. Chega a ser indiciado
fichado solto sem provas; leva a vida. Ou a vida leva sua existência pobre e
quase sem direitos. No episódio policial a evidência maior de envolvimento fora
por seu escurecimento de pele, como herança dum dos gêmeos. O curioso nisto é
haver nunca perguntado, como sói ocorrer com os filhos, nunca demonstrando
desejar saber a paternidade; nem mesmo indagando qual fosse dos gêmeos...
4° - Observações técnicas
Já observei que
na minha sofisticada arte de fotografar corto sempre ou bunda ou cabeça ou
pé; o que leva o objeto a ser
registrado (sendo já conhecedor de meus
méritos) a esconder a traseira
mostrando-se de frente, perdendo, dentro
das grandes possibilidades, apenas cara ou pé, visto o artista nunca haver
ceifado ambas partes na mesma foto.
Num desses achados inexplicáveis mas
contundentes de objetos, os amigos estão a examinar certa máquina pequena negra
com um pontinho vermelho, uma de tirar retratos... Decerto não sendo nenhum
presente ou doação burguesa aos garotões da periferia agressiva ou a se
temer... Bem, está ali em mãos, passam mãos, experimentam, tem um rolo dentro
(depois poderiam abrir pra ver o que registrado ‘queimando’ o filme certamente,
aqui não vai ao caso). O Zé Sorrisos tenta do seu lado e vez aprender focar
aplicar eternizar... a imagem que quase não percebe à sua frente: uns mestiços
sorridentes, iguais a si, um faz melhor graça outro põe acoplado por trás dum
colega os dedos em vê na cabeça do escolhido; tem umas taperas, uma é
horrivelmente pintada esdruxulada, os casebres querendo imitar casas ao fundo,
o Zé não vê, vê demais menos se mexendo... aperta clica imprime sorri, grita de
contentamento o tentamento vitorioso. Ah a posteridade. A posteridade teria
alguns corpos decepados ou cabeças com troncos sem pés, os cachorros a xeretar
na foto e a xeretar bem mais o casario miserável, um barraco é o da mãe do Zé,
outros mais em construções improvisadas e de arquitetura malacafenta; elas
igual aos cães a xeretarem e olharem lá no escurinho do rolo no interior da
máquina. Lamentavelmente perderam-na, vendido o monstrengo por uns trocados,
havendo dentro da mesma a perfeição na arte da fotografia. No entanto valeu a
experiência fotográfica para outras conquistas...
5° - O homem não é um contrassenso!
É preciso ser tudo diferente para todos serem iguais.
O Zé circula pelo
centro grande da cidade pequena em busca dum dinheirinho ou ganho esporádico. A
crise do emprego a gerar desemprego e até desespero não atinge os da
informalidade nem os quase sem registro civil; porque já vivem, viveriam se já
vivessem antes da crise, sem norte e referência senão o dia a dia. Noite torna
aos seus, à mãe não, não voltou ela talvez sendo desembarcada mais tarde dalgum
carro estranho... Não, aos seus pares. Conversa com seus iguais, inferiores à
burguesia temerosa; contam-se as coisas; depois torna ao quarto a trocar uma
que outra impressão com a mãe, cansada e de cara esquisita de poucos amigos
estendida no sofá gasto que quase não cabe naquilo que pudesse ser sala e quase
também abalroa a tevê de vender necessidades e figurar a casa rica; a mulher
assistindo a novela das nove enquanto que ele loguinho cochila dorme sonha que
não dorme e se vê ricaço e poderoso no centro urbano que viu no dia. E some,
vomitado após à manhã, em que só encontra os manos a barulhar o café com pão, a
mãe no ganha-pão fora. Parte como os outros da favela a se virar (eles falam
nesses termos) a se arranjar por aí, deixa a meninada gritando com os outros,
brincando brigando aprendendo a ser Zé igualmente. Cada qual entre todos
treinando para não morrer tão cedo como determina a estatística. Eles não sabem
disso, não podem saber embora a intuição; não sabem, não sabe o Zé da vizinha
das Graças, esta agora pilhada em desgraça e encrencas nas casas ricas ou
remediadas no bairro nobre, a tornar nesse dia mais cedo, pra ver a das seis a
das sete a das oito que normalmente não assiste. Quanto ao filho, não volta e
ela sequer se desespera mas se preocupa sim igual toda mãe; decerto encrencado,
diz no pensamento alto sem ser para a filharada ouvir, os pequenos escutam.
6° - O que penso ser?
Quando você prioriza na vida a roupa que veste, você é
a roupa que veste.
Um dia apareceu o Zé, o Zé filho da Maria das
Graças, aquela da qual diziam os machos na cidade ser uma gostosura e agora
somente a olhá-la a passar indo trabalhar voltar do serviço com feição
desagradável (isto porque tem gente cujo pessimismo ultrapassa o pessimismo a
virar pessimismo doentio e era já seu caso, ocasionando mesmo asco nos olhos da
gente) – um dia o Zé apareceu ao seu povo de roupa nova. Terá comprado com seu
dinheiro, ganhara, recebera pelo aniversário dos vinte e cinco ainda janeiros e
fazendo anos em fevereiro mês enganoso e mais curto; enfim surge de novo; isto
é parecença novo homem. Garboso, estufoso, orgulhoso, vaidoso, bobo. Passa de
terno e gravata nos meandros das palafitas por caminhos e ruelas fedorentas nem
vê o cheiro, acostumado, nem sente olhares da vizinhança, na sua preocupação de
homem importante. Fosse um estranho já todos em guarda ou a falar de orelha em
orelha, mas não: o Zé da Graça; todo empetecado talvez cheirando água de cheiro
neutralizando os fedores próximos, o Zé parecia presidente doutor essas coisas,
se bem que nesse mal não chegaria a seu doutor sendo negro, ou branco tostado
de mãe dum lado e tostado mais carregando em negrura do lado de pai (ou seriam
pais...) Marcha sim garboso, talvez imaginando ou escutando o rufar e o bumbum
dos tambores solenes e aí sorri importância, des-circunspecta a cara. Então se
pensa grande, pequeno frouxo frágil magro a balançar os cambitos dentro dessa
esquisitura de panos. Porfim entra no seu tugúrio, espanta os irmãos menores
xeretando sempre, dá-lhes uma bronca em regra, isto próprio dos generais aos
praças; a seguir revira nas caixas velhas sopra a poeira depositada pela
ingratidão dos anos, aquelas caixas de sapato claras de papelão, procura
documentos mais velhos ainda, bota um num dos bolsos, faz grr ou de valentia ou
de irritação, daí faz meia-volta ao estilo militar, sai do ‘palácio’ enfrenta
os olhos assinzinho de vontadinha de não ter curiosidadezinha mas sem coragem a
indagar. O marechal marcha agora inverso sai daquelas pobrezas ricas em
sobrevivências, vomita suas misérias e toma lá longe ares ainda importante e
sobe no ônibus da nova linha circular em direção ao centro e à outra
extremidade urbana. Noutro dia volta, murcho, chateado, a chutar pedras, a
bronquear o barulho da molecada, quieto na expressão, casmurro por dentro, por
fora vestes comuns, o feijão com arroz da rotina de todos dias com sabor do
sempre; a retomar o de costume nos arranjos financeiros de pernas curtas.
Decerto a vaga fora a outrem, quem sabe um branquelo ou filhinho de papai. Nunca
disse, nunca fez sequer referência, nunca explicou. No entanto fora deflorado
pela fêmea que é a vida e desde então deixou de brincar nas conversas e quase
não mais a sorrir; um velhote de cinquenta nos seus vinte e cinco...
7° - Levar vantagem
O esperto explora as necessidades humanas: fantasia sexo
dor fome luto – o que redunda tudinho em lucro.
Não era muito disso
não. Nunca procurou tapear sua roda de amizades, nem a vizinhança séria
composta de faladeiras lavadeiras faxineiras simpáticas mas doutra faixa de
idade, o novo pensa sempre velho o velho novo ainda e fora de suas mais doídas
intimidades; nunca. Talvez ocorresse sim com os filhos delas ou com os maridos
e companheiros das ‘casadas’. Enfim não abusava confianças e não abusava no sentido
de ‘passar a perna’, isto dizer popular e expressão viva durante quase cem
anos; não se beneficiava da ingenuidade doutrem. Esse mérito não sendo mui
aplicado fora de sua comunidade pois às vezes precisando até mentir ao menos
enganar, a fim de obter uns trocados, em quaisquer tarefas para ganho. Atitude
corriqueira válida e equivalente aos demais amigos do Zé. Todavia entre os de
sua roda o mais comum era ser logrado, houvesse alguém com falta de escrúpulos
a lhe passar a mentira como verdade. Não por excesso de bomocismo do rapaz, por
excesso de imprudência; em geral entre amigos abaixam-se as guardas... Isso
válido também ou sobretudo nos casos amorosos. Nunca fora de se apaixonar (ou
fora?) contudo andou requestando algumas garotas na favela, sem grandes
resultados; mais sujeito aos hábitos aceitos no seu meio e também pela
limitação de crença tendo em vista a realidade em que crescera; enfim pés no
chão. Diverso nos negócios, pudesse chamar os arranjos financeiros de pernas curtas
de negócios. Porém nas atitudes amorosas... Bem, às vezes ficava a rondar o
portão de saída do colégio das freiras; nada interessado nas religiosas, aliás
ele nadinha religioso em não ser na superfície e na fugacidade de um que outro
ofício na igreja; realmente desejoso em ver apreciar ‘namorar’ certa jovem, a
qual nunca soube sequer dum Zé na vida e menos em se tratando dum mulato
magricela e mal vestido; se bem que o coração desconhece palavreados e
definições taxativas. O rapaz nisso andava, sempre esteve assim, andava mais
para levar desvantagem em tudo, como é próprio do pobretão.
8° - Patrulha
‘cultural’ da periferia
Alguém que nada tenha a fazer, a esse alguém sobra-lhe
tempo para
ver outrem gastar tempo.
Dizem que se formaram entre chineses
socialistas a patrulha política a punir exigir apurar aplicar os princípios
comunistas. Na favela nunca se falou nisso, nunca se viu isso, isto abuso
porque sim nas compras: sempre vêm a envolver compras de cebola de batata de
carne, aqui em exagero na riqueza e nos gastos, aqueles jornais usados falhos
de tipos de tinta grosseiros, às vezes trazendo imagens e fotos doutros lugares
do planeta e é lógico o ilogismo da possibilidade em haver nessa imprensa
enxerida mulher seminua (indo daí adornar pregado na parede o quarto dum jovem
esperançoso...) e então mui claro possa a ‘camarilha dos quatro’ herdeira de
Mao ter sorrido em sua seriedade àqueles sub-homens naquelas casas gozadas, em
opinião chinesa, elas feitas com restos de construções da burguesia. No entanto
não sendo assemelhado!
Certas mulheres – homens também pelas mesmas
razões – certas desocupadas se ocupando bem no ver notar observar controlar
inclusive a vida dos passantes. Que importa que seja o corriqueiro do ver,
mesmos trajes mesmos cheiros mesmos aspectos externos não os interiores porque
isto requerendo grau de estudo na psicologia ao menos preciso tendência
observadora nata, um talento às vezes para o bem bem visto às vezes para o mal,
que é o mal das comadres nas centenas de anos da civilização dos pobres sobretudo
e sobretudo os pobres de espírito. Que fossem outros, ou a passagem do Zé. Não
é o da Graça? aquela... desancam as ancas sem aparar arestas, próprio dos sem
qualquer humildade. Aliás os passantes e os mestres olhantes seriam apenas
humildes na deturpação do vocábulo, porque humilde não é quem viva sem
dinheiro. O Zé! Não parece enfezado... vai ver que... ah como pesa inventar sem
bases. Entretanto a fiscalização devendo ter tanto quanto as razões do filho de
Maria das Graças, dizem que é filho do sangue de um daqueles pretinhos que
andavam sempre aqui, mataram um deles o outro sumiu. A polícia cruz-credo.
9° - A persistência do sonho
É possível temer um pequinês ou uma formiga, mas não se tem
medo de Poetas,
engaiolados ou
soltos – são mansos e não sabem morder.
Quando o Zé, a das
Graças bem mais cedinho por vezes madrugando, quando saía ao ‘trabalho’ ele ou
a caçar o quefazer, já a canzoada sentia sabia latia esbravejando; poucos na
matilha aspirando em aceite aquele cheiro de gente negra magra, quem sabe a
fazer estalando dedos uma graça agradável como chamarisco ou amizade aos ‘de
quatro’ – quando partia era o alvoroço e mais mais nos bichos no trajeto fora
do cortiço. Têm sempre os presinhos a avançar no gradil; vez que outra um
encardido teimoso atrevido a seguir a presa com sua ferocidade ou selvageria da
boca pra fora e daí a se valer ou da pedra ou do pau de faz de conta para
assustar a fera. Isso o costumeiro. Tanto que em geral os homens passam, passam
suas caravanas, e o cão ladra continuará a ladrar enquanto houver rotinas. Numa
outra vez ou por um momento fugaz, fugaz e mais passageiro ainda visto o tempo
e o espaço universais, contudo também existente; então o Zé contempla uma bela
paisagem com horizonte no entardecer; claro próximo a feiura a miséria da
favela, ele tinha dessas bobagens. Mesmo porque não é necessário a universidade
o diploma ao talento poético. Vislumbrava algo que não saberia dizer o que
fosse; a rigor temeria dizer e ser tomado por ‘ruim da cabeça’; se bem que
alguns no bairro miserável pudessem valorizar o saber e o saber dizer sobre o
sabor belo dos sons, tão abusados por canetas chãs e concretas do tipo pé no solo.
Então sonhava acordado; acordava estivera dormindo... Nem os cães, mesmo eles,
nada a temer no moço já velho magro e negro a observar o poente ou a passar
pelas imediações. Ou por outra, devem ter os cachorros posto a língua no mundo,
o Zé não terá ouvido.
10° - Complicações
& desentendimentos
Imagino-me um objeto duma bolsa de mulher... Seria a
primeira vez que
um objeto fica louco neste Planeta!
O filho tornava à mãe, a mãe no entanto não se
encontrando no cômodo e meio, o meio sendo o quartinho do Zé e dos manos que
sobraram não fugiram nem morreram, a das Graças fora à faxina acompanhada dos
ais e uis e dos anos enfeiotando com rugas e desengonços, sequer agora a pobre
conseguindo parceiros porque o mundo não é o mundo das acabadas ainda assim
porventura mães. O Zé vasculhara já parte da ‘residência’, quieto no silêncio
que a manhã permitindo e a pressa quem sabe também; sobrara um pequeno meio
grande no espichado da idade ali curioso mas descartara esse entrave com
respostas curtas secas rápidas e seguras; e agora sozinho naquelas espremuras
de aposentos com badulaques a esforço espalhados entre cadeiras gastas, camas,
uma apoiada sua quina nuns tijolos empilhados a se fazer pé; e a televisão;
quase a ligou para que o barulho de suas besteiras consumistas colaborassem
mancomunado a fim de o afim... Procurava vasculhando nas coisas, coisas, coisas
poucas coisinhas miudinhas talvez. Seu comum era o esparramar desordenadamente
o que tomasse ou usasse, aí a bronca depois da mãe a mãe então longe. Não.
Olhava examinava o todo pra ver a parte, as partesinhas melhor dito, a que
procurava; e repunha qual alguém a pisar em ovos não lhes quebrando a casca
para não dar na vista. Era exatamente isso... Mais que isso, a meticulosidade
junto com os cuidados, como pessoa não desejando deixar sinais do crime ao
crime não ser desvendado. Enquanto isso a patrulha camarilhada dos-4 que eram
mais de quatro faladeiras, a patrulha houvera visto apenas a entrada dele no
sol gritando cores, ao menos a entrada cuidadosa da vítima, o Zé. O Zé agora,
após tanto não encontrar coisas, acha a bolsa esquecida da mãe. Decerto levara
outra menos usada, indo negociar nova patroa a fazer boa presença; porque não
teria ido sem, sendo a bolsa um apenso feminino como seio cabelo e roupa, às
mais novas ainda a preocupação com os adereços de enfeite para fazer aparecer
maismente a boniteza. Não importava, visto poder encontrar o que encontrar no
encontro. Era certa bolsa grande, grandalhona às pequenuras lá dentro, que
vistoriava para (se apossar!?) achar. Abriu-a arreganhando desajeitado aquilão;
fez mais: examinou na fresta solar a bugiganga nela... Remexeu escolheu
manuseou trocou repôs e se decepcionou, atrapalhado abismado, atirando dum lado
a tal bolsa com seus pertences, um caiu inadvertidamente no chão. Recolocou o
objetinho rebelde, certamente com um nome específico e quase quebrando o
espelhinho encolhido medroso no fundo da bolsona; fechou definitivamente essa
mala pequena e tentou pôr a mesma onde a encontrara antes. Puxa, se falou,
baixo, baixinho, donde... (pronunciava “dindonde”) Saiu qual o assassino em não
deixar pistas do crime; se crime.
11° - O futuro no presente
Quê é o futuro, tomar café de manhã amanhã?!
Se se quiser é possível ver o Zé vendo os zés
que formam sua geração sofrida; sofrida em termos pois sofrer pode ter sentido
lato; cada um recebe o que pode, ou deve, e não obstante podendo desconhecer a
extensão ou da culpa se culpa ou do pagamento da culpa. O rapaz não se sentindo
culpado, o homem comum é pra si mesmo um sábio um anjo um justo e quase sempre
essa não é a opinião da oposição, esta quase sempre também feroz em seus
ataques. Vê o homem da rua a superfície, a pele, mesmo assim curto e limitadamente
ao hoje, amanhã... No dia a dia lutava, senão bravamente, a lutar. Foi um
eterno (isto costuma durar pouco às mentes chãs, mais às mentes sãs) foi sempre
um desempregado e a viver de expedientes bicos ou biscates falam; portanto sem
garantias. Ainda bem – esta expressão cabe quando o ser usando-a para
apostrofar o morto garantindo “ainda bem não ter deixado filhos na miséria, a
miséria que deixou à família” – ainda bem não se consorciou, quiçá não pensando
realmente em padre e cartório, seus pares já a viverem sem essa regularização
de papéis, ele idem. É o que aconteceu no caso do emprego formal não tendo
qualificação quase nem alfabetização completa. Nadou nos mares grossos lodosos
de lago logo compreendido compreendendo não poder competir com os de pele clara
da zona urbana, sendo negro; embora se dizendo branco de mãe branca; nos
cabelos curtos enrolados quem sabe um dia a cachear, neles certa mecha de
branco descolorido qual sinal (ou estigma...) definia o jovem já velho entre
seus pares, definindo-o como diferente a receber apelido também por isso. Agora
‘pinta’-lhe um caso de amor para agora. Logo perderia essa consciência: a
esposa é a consciência desperta ao homem, mesmo tenha ela de cobrar-lhe as
faltas e as sobras. Logo perderia a companheira a outro; quem sabe senão
igualmente ela hoje sem amanhã. Enfim morreria solteiro, não solteirão como
determina a cartilha social, pois se foi novo, idoso nos vinte-e-seis, após sua
magra coleção de fevereiros.
12° - Cidadania
A democracia para o homem da rua, é o regime segundo o qual
é preciso brigar para ter o direito de ser obrigado a votar,
sem necessitar força pra esquecer em quem se votou.
O rapaz é o personagem
principal nessa nesga da história e não sabe disso. O Zé tem na época outras
participações sem contudo ter consciência bastante, vendo o agora, sem lembrar
quase o agora de ontem nem supor possa ter o agora de amanhã. Tudo incerto em
si. Mas de repente está eleitor. A custo conseguiu o título às instâncias de
interessados no seu voto; pra se desinteressar por ele após o voto; a
ingenuidade não permitiu que visse essa faceta da verdade. Enfim rabiscou como
pôde seu nome na ficha no cartório, apresentou documentação exigida, mas aqui
sobrando à pobre mãe: ele nunca sabendo o local às coisas pra guardar e/ou
retirar, encontrando nas caixas-fortes da família onde antes sapatos os
documentos para tal. Pronto, eleitor, cidadão, orgulhoso em ser gente. Se
enrola como bom jovem em discussões iguais às de futebol e filosofia –
intermináveis e sem conclusões. Depois enfrenta paciente a fila, escolhe em
tremura o candidato, vota e se desliga após as apurações. Vai mais além:
esquecendo ele quem escolheu... Bem brasileiro. Ao menos nesse tempo vaidoso na
vaidade como eleitor, parecendo-lhe ele mesmo ser o dado sine qua non da
política nacional. Mais pra diante, noutro período eleiçoeiro, se esqueceu de
votar, lembrou-se, perdera o título eleitoral. Nunca pagou a multa pela falta
nem tornou ao entusiasmo em salvar o país. Logo faleceria sem precisar mais do
cumprimento do dever cívico.
13° - Primeiro a saber
Marido entre nós, na pobreza é um mata-fome da passa-fome;
nas classes
abastadas é o sem-sorte da consorte.
O Zé era um novo velho. Após deflorado pela
vida no fim da existência curta, experimentava um viver quase esdrúxulo não
fosse já dever estar acostumado com insucessos em todos níveis; mormente em contato
com outros jovens – quem sabe não fossem tais pessoas ainda mais idosas
cansadas de tantas juventudes – e nesse contato perdendo na cor na pobreza na
beleza de sua feiura fora os aninhos em que mamou e engraçou sem encantar
demais o ninho no cortiço. Ora, não se acostuma, pelo menos facilmente, não se
acostuma com fracassos; mesmo criaturas que nascem pessimistas e se aperfeiçoam
nesta miséria do pensamento, mesmo essas envelhecem morrem sem aceitar, e num
pior sem se aceitar, aceitando as coisas como as coisas são. O Zé lutou contra
esse seu contra. Dentro de casa com os seus; com os seus dentro do grupo de
seus pares no coleguismo; e mui mais com os de fora, dentro de sua existência
de pouca duração, sabendo-se a juventude a promessa... Mas um dia exagerou na
sua luta a desancar o negativo, ou fora isso uma crise de acreditança.
Isto
porque o ser humano morre de velhice e ainda sonha e pensa um engano a perda no
ver a realidade.
Foi assim na questão amorosa com ele. Debalde
se pusera em conquistador, no bairro e no centro; aqui bastante ajudado pela
timidez e pelo espelho. O espelho tem o mau gosto de mostrar uma cara feia, o
jovem exagera o exagero do vidro. Se se visse, viu-se algumas vezes nos
espelhões das lojas, se se visse por inteiro perceberia a pequenura a finura a
magrura quase esquelética e mais a negrura de pele, esta disfarçando nos
escuros. E ainda a falta crônica de meio para sobrevivência. Tendo portanto
tudo para não vencer, restando a sorte grande da idade, esta conspirava contra
si a torná-lo aos vinte e seis anos um jovem adentrado já na senectude... Embora, tentou formar sua própria família.
Contatou certa negra retinta e bela como esposa sem papel, num ajuntamento para
convivência. Das Graças deu contra o a favor, sendo de seu métier e
experiência. Não ouviu. Ouviu, fez que não. Então gastou mundos e fundos; isto
fácil a quem não tenha tostão; enfim seus trocados obtidos a duras penas; não
chegou a mês o consórcio. Logo encontrou a amada, ou pretendida ou postulante
às brigas conjugais, logo com outro...
Aí mais uma razão da ranzinzice do Zé na sua
comunidade e por onde a passar: irritava-se com barulhos, não mais agradava um
vira-latinha seu amigo, arengava por um simples chiclé grudado na sola de seu
tênis gasto, ruminava resmungava velho qual jovem desencantado.
14° - Crença na descrença
Nós estamos caminhando no país por mãos seguras dos
especuladores e
pelas inseguras dos economistas.
Como exposto até aqui, aqui a se imaginar
estivesse o filho, um dos, a ser bem dito, o filho de Maria das Graças a viver
no morrer na ilusão diária do fim. Isto sim ilusão. Claro todos terem, que seja
por alto e sem aprofundamento, a noção da perecibilidade e constatando sempre
ou só de vez em quando o envelhecimento. Essa ideia não seduz totalmente nem
condiz com a rotina do homem comum. O Zé também a pensar pouco e pensar viver
muito no seu ramerrão como outrem, na busca do ganho e do trabalho, ou
vice-versa a dizer melhor. Pensar em si em seus dramas em problemas familiais e
nos das amizades e dos conviventes. Nisto é que talvez extrapolando um pouco.
Ou em vendo na tevê o que se vê; ou vendo com
os olhos que a terra há de comer, cruz-credo terá pensado. Mas sobretudo pondo
as questões nacionais. Nada nesta afirmativa a lembrar o crítico de horizontes
profundos. Não. Um homem pequeno de tamanho e de tamanho pouco no universo
curto da mente limitada, apenas. O que observando. A corrupção política
costumeira; os desmandos e abusos, os que se comenta e até se banaliza, como a
indústria da taxação sobre o povo por exemplo; as catástrofes da cheia ou da
seca tudo longe e longe no sentir também; a catástrofe maior da fome que sentia
não comparando à de outrem distante, e aquela tão perto dos olhos nos ouvidos
televisivos que é a ofensa do trânsito, o qual aleija desfigura mata consequencia
e assusta (ou na pior das hipóteses: dopa por exagero nos exemplares em
exemplo, mau exemplo...) Com isso se espantando. Espantando-se também com o
caminho rápido e num crescer vertiginoso em que opera a droga, as miúdas de seu
mundo como a maconha o crack e as dos ricos – todos ricos e pobres
irmanados no prejuízo e na loucura, ou na loucura da ilusão. A droga, ah que
droga de país! lamentou um dia noite em conversa com os de seu mundo.
Curiosamente no item maconha, tão corriqueiro,
o Zé não passou de inocentes ‘pitadas’ como fossem cigarros para ficar bem com
os colegas; assim como nem passou no mundo político de ‘eleitor’ duma só
experiência, não sendo entretanto o irrisório voto dum zezinho qualquer razão
bastante para mudar uma nação.
15° - A mãe in eterno
O ventre feminino vale uma eternidade.
Tinha um poeta, ah mas a gente sempre um pé
atrás com poetas... tinha um a cantar o desejo em ter a paz da criança
dormindo. Não é um encanto o dizer! Aplicando no Zé a questão, ganha ele
duplamente agora – dorme e dorme pela mãe. Os outros não, ninguém em volta a
inteiramente compreender o abarcar dum coração materno chorando; desde sua fase
santa e pura a amar o bebê mamando gulosinho. Mesmo aí não deixando ser mulher
a mãe, com os dramas da mulher e suas necessidades enquanto fêmea e suas
desditas enquanto esposa – das Graças não teve essa graça e o trocadilho vindo
do fato triste de pertencer a muitos homens e a nenhum, a rigor não pertencendo
quase a si mesma...
Contudo
é preciso abstrair tais considerações para ver o visto, triste constrangedor
compungente quadro visto.
Mamãe descem-lhe as lágrimas nada para efeito e
amostra externa; trata-se duma senhora nesta altura gasta embora nova velha nos
seus enrugos e cansaços expostos e por demais conhecidos da gente na favela
então espremida nesse velório simples em casa simples e menos que residência,
por fracassada em ser um lar autêntico. O Zé olha de olhos fechados o céu e de
mãos postas, boca queixo nariz presos por uma tira, um trapo de pano que fora
parte do vestido duma vizinha, isso para não ficar arreganhado e exalando mais
facilmente o cheiro pútrido cadavérico, o pobre estourou decerto por dentro e a
catinga não recomenda; os meninos perguntam às mães o porquê do malcheiro e
elas lhes tapam antes a boca pelos indevidos em voz alta e depois os levam pra
fora para fazer comentários educativos quiçá de piedosa religiosidade. Dentro
prossegue o calor e a conversa baixa em respeito; alguns, algumas a melhor
conceituar, carinham em compadecimento das Graças inconsolável.
Ela vê um quadro lindo do garoto a sugar seu
seio, passa rápido com instantes anos de luta até chegar naquela morte estúpida
impensada impensável; felizmente nessa tristeza nenhum desafeto dele a
colaborar direto ao passamento, nem armas entrando nem polícia nem coisa
alguma; quase se candidatando o morto em vivo à santidade também igual em
nenezinho. Enfim a mãe numa dor respeitável a matar o vivo morto, agora a olhar
de cara de cera pra cima com mãos juntas no peito magro e cansado de respirar
com dificuldade por vinte e seis anos. Então chora ela este agora da partida
dele.
O Zé não pode se despedir. Das flores em
arranjo simples no pobre velório, das velas se comendo derretidas, da gente
pobre quase miserável, do seu cortiço, dos amigos, dos desafetos poucos mas nem
a eles se dirigir em perdão. Poderia quem sabe consolar sua mãe então mais
fragilizada, não pode. Inclusive quando as mãos solidárias a tomar o caixão
comunitário comprado na praxe da ‘vaquinha entre amigos’, nem consolá-la quando
da saída sem volta e a pobre a chorar desesperar desmaiar.
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