domingo, 4 de agosto de 2019

Experimentos in-salada


Experimentos in-salada

1° - A mãe
Mãe, um ser imperfeito investido, temporariamente, de santidade.

Ele desconhecia a própria inocência e a inocência do seu olhar. Olhava lá em cima aquela tantadura de mãe, algumas toneladas podia supor supusesse em colosso de seios e demais apensos; pois a um serzinho assim tudo grandiosando ao palpável quiçá impalpável e absurdo. Não pensava no absurdo não conhecia o absurdo, tão só vendo o direito aleatoriamente escolhido ou ofertado por dois dedos abertos em vê e a empurrar e espremer o alimento leitoso na boca tenra qual broto aparecendo no limiar do solo sem ainda tomar coloração entre o branco puro e o verde promessa. Uma promessa também de santidade que a mãe, ela agora santa, que ela olha terna, feliz, feliz naquele fugaz instante, afugentando o sofrer de horas dias anos, eternos!? Contudo sorri, enquanto elinho não sabe sorrir copia embora a fisionomia materna, aquele colosso de mãe lá em cima com duas enormes saídas espirrantes de leite. Sente-lhe o cheiro, acostumar-se-á por meses com sua fragrância flagrante que raciocinará depois bem depois nem sempre aceitável. Completa a refeição, guloso gruda com unhas e dentes nem unhas tendo a surgir unhinhas apenas mas segura bravo a presa com mãozinha e quer morder sugar chupar cansa esmorece larga solta solta-se arrota não arrota vomita a sobra a sobra escorre pra baixo e o cheiro sobe e ele adormece; ela higieniza cuida ajeita, o bebê some sonha estrebuchinha espanta, todavia pensa a mulher estar o filho a sonhar com os anjos, como toda mãe.
Era o início, um pouquinho depois do início, o começo do Zé.
Doutro lado, houvesse possibilidade separá-los nessa hora, doutro o drama materno na forma de mulher pobre abandonada sofrida esquecida momentaneamente de seus desejos ânsias repugnâncias antipatias e quiçá dos horrores do ódio que algema milênios os seres humanos. Ficara em resguardo o sofrimento bastante, as penalizações da existência e inclusive malquerências nem um pouco veladas aos desafetos na família destroçada e aos inimigos gratuitos; quem sabe o apagamento temporário do crime. O mais próximo fora a tentativa de aborto do teimosinho que agora dorme e vez que outra se remexe ao enternecido e velado olhar dela.
Elinho desconhece. Não poderia saber. Enquanto, cresce. Toma contato com a periferia da dor, dos dramas, dos problemas mundanos, não na profundidade daquele viver.
O Zé agora baderneirinho junto à sua turma de bagunça a barulhar o cortiço.
Nada obstante há alguma beleza naquele inferno social levemente descortinado por uma criança; e demais meninos.

2° - Amenização às dores
O enfeite da Terra fica por conta das flores dos pássaros e das mulheres,
amenizando a aridez da vida. 

Enquanto ele cresce e cresce a algazarra naquela não mais que favela tentando ser vila, a mãe, branca, no dizer dos outros escuros, a mãe põe uma questão básica ao seu sentir – apenas ao seu sentir em vista nada mudar no universo! no universo sim e no exterior ali pertinho – uma questão fundamental, que ela nunca pôde tratar sequer com os íntimos. Quem seria o pai da criança? Dos outros meninos mais fácil saber entre os três companheiros ou só parceiros que tivera, porém do Zezinho, como saber de fato se se entregara aos gêmeos, uns negros que viviam de expedientes filhos de d.Maria Preta; claro se parecer com eles, ter traços comuns. Pouco importando realmente a coisa a outrem, visto não mais vê-los, essa gente circula mais que dinheiro miúdo em mãos do povo. Ia ver, pensou, de nenhum dos homens, homens tantos... sorriu malícias. O moleque já embaralhando melhor os vocábulos indagou o porquê do sorrir. Mamãe responde com sabedoria: por nada; vai brincar com o Paulinho. Mas os dramas não são só internos, externos. O aluguel, a venda na compra ou seja a dívida a dúvida; e sobretudo os novos relacionamentos e como arranjar mais faxinas a custear a casa, sendo que algumas patroas não pagavam direito e ainda seus homens em vez de trazer recursos ao ‘lar’ levando eles sempre alguns trocados, em troca ora duns afagos ora duns murros... A vida era dura. Não obstante aí encontrando-se um exemplar da mulher, no caso pobre e sofrida, um exemplar embora de beleza desgastada, semelhante à flor que embonitece e alivia a feiura do planeta, o planeta com suas intrigas guerras desmandos. Além disso havendo as dores físicas, não só as das agressões machas pra valer, as das moléstias e a via crúcis na saúde pública esta também doente. Vivia a faltar no serviço ao serviço de levar os filhos em posto longe nas imediações – a correria rotineira e a vacinação dos seus. O Zezinho um pouco emperreado e fracote. E foi assim até moço, homem se se quiser.

3° - Os infalíveis
Motorista de ônibus é como goleiro, se falhar todos os companheiros perdem. 

O Zé tem inúmeros apelidos por onde passe; tem gente parece atrair apelidos e gozações; seria por seu desengonço flagrante e ostensivo! Aliás também Zé apelido de José, José com sobrenome materno. Embora raquítico magro fraco tem boa vontade auxilia quem possa e assim popular e amigo na favela. De repente está de goleiro. De repente aqui força de expressão: sempre envolvido desde menino com bola e a chutar tudo como a vida a chutá-lo. Mamãe no trabalho os manos por aí, agora tendo um novo da velha mãe com certa velha, enfim o nenê aos cuidados da vizinha Maria Velha, o Zé às soltas. Puseram-no a afundar a equipe entre duas traves improvisadas e a rede só imaginária; entretanto a bola murcha passa a rede fura a rede e os meninos, quase homens feitos, feitos gozadores “frangueiro!”gritam. O Zé não briga por isso, sorri aponta o ponto impedido a diminuir a falta, a falta sua na sobra dos melhores. Também nunca fora motorista, teve no entanto intenção e a intenção é o que vale. Contudo dirige e se dirige ao escurinho da noite ajudar no volante dum carro roubado, roubado pelos outros não quer se envolver nisso, lembra a firmeza materna nos conselhos de moral, não participa direto do crime: só auxilia um pouco; escapam às investidas policiais. É pego depois noutras falcatruas em que inocente, dedado por outrem decerto. Chega a ser indiciado fichado solto sem provas; leva a vida. Ou a vida leva sua existência pobre e quase sem direitos. No episódio policial a evidência maior de envolvimento fora por seu escurecimento de pele, como herança dum dos gêmeos. O curioso nisto é haver nunca perguntado, como sói ocorrer com os filhos, nunca demonstrando desejar saber a paternidade; nem mesmo indagando qual fosse dos gêmeos...

4° - Observações técnicas
Já observei que na minha sofisticada arte de fotografar corto sempre ou bunda ou cabeça ou pé;  o que leva o objeto a ser registrado  (sendo já conhecedor de meus méritos)  a esconder a traseira mostrando-se de frente,  perdendo, dentro das grandes possibilidades, apenas cara ou pé, visto o artista nunca haver ceifado ambas partes na mesma foto.  

Num desses achados inexplicáveis mas contundentes de objetos, os amigos estão a examinar certa máquina pequena negra com um pontinho vermelho, uma de tirar retratos... Decerto não sendo nenhum presente ou doação burguesa aos garotões da periferia agressiva ou a se temer... Bem, está ali em mãos, passam mãos, experimentam, tem um rolo dentro (depois poderiam abrir pra ver o que registrado ‘queimando’ o filme certamente, aqui não vai ao caso). O Zé Sorrisos tenta do seu lado e vez aprender focar aplicar eternizar... a imagem que quase não percebe à sua frente: uns mestiços sorridentes, iguais a si, um faz melhor graça outro põe acoplado por trás dum colega os dedos em vê na cabeça do escolhido; tem umas taperas, uma é horrivelmente pintada esdruxulada, os casebres querendo imitar casas ao fundo, o Zé não vê, vê demais menos se mexendo... aperta clica imprime sorri, grita de contentamento o tentamento vitorioso. Ah a posteridade. A posteridade teria alguns corpos decepados ou cabeças com troncos sem pés, os cachorros a xeretar na foto e a xeretar bem mais o casario miserável, um barraco é o da mãe do Zé, outros mais em construções improvisadas e de arquitetura malacafenta; elas igual aos cães a xeretarem e olharem lá no escurinho do rolo no interior da máquina. Lamentavelmente perderam-na, vendido o monstrengo por uns trocados, havendo dentro da mesma a perfeição na arte da fotografia. No entanto valeu a experiência fotográfica para outras conquistas...

5° - O homem não é um contrassenso!
É preciso ser tudo diferente para todos serem iguais.

O Zé circula pelo centro grande da cidade pequena em busca dum dinheirinho ou ganho esporádico. A crise do emprego a gerar desemprego e até desespero não atinge os da informalidade nem os quase sem registro civil; porque já vivem, viveriam se já vivessem antes da crise, sem norte e referência senão o dia a dia. Noite torna aos seus, à mãe não, não voltou ela talvez sendo desembarcada mais tarde dalgum carro estranho... Não, aos seus pares. Conversa com seus iguais, inferiores à burguesia temerosa; contam-se as coisas; depois torna ao quarto a trocar uma que outra impressão com a mãe, cansada e de cara esquisita de poucos amigos estendida no sofá gasto que quase não cabe naquilo que pudesse ser sala e quase também abalroa a tevê de vender necessidades e figurar a casa rica; a mulher assistindo a novela das nove enquanto que ele loguinho cochila dorme sonha que não dorme e se vê ricaço e poderoso no centro urbano que viu no dia. E some, vomitado após à manhã, em que só encontra os manos a barulhar o café com pão, a mãe no ganha-pão fora. Parte como os outros da favela a se virar (eles falam nesses termos) a se arranjar por aí, deixa a meninada gritando com os outros, brincando brigando aprendendo a ser Zé igualmente. Cada qual entre todos treinando para não morrer tão cedo como determina a estatística. Eles não sabem disso, não podem saber embora a intuição; não sabem, não sabe o Zé da vizinha das Graças, esta agora pilhada em desgraça e encrencas nas casas ricas ou remediadas no bairro nobre, a tornar nesse dia mais cedo, pra ver a das seis a das sete a das oito que normalmente não assiste. Quanto ao filho, não volta e ela sequer se desespera mas se preocupa sim igual toda mãe; decerto encrencado, diz no pensamento alto sem ser para a filharada ouvir, os pequenos escutam.

6° - O que penso ser?
Quando você prioriza na vida a roupa que veste, você é
a roupa que veste.

Um dia apareceu o Zé, o Zé filho da Maria das Graças, aquela da qual diziam os machos na cidade ser uma gostosura e agora somente a olhá-la a passar indo trabalhar voltar do serviço com feição desagradável (isto porque tem gente cujo pessimismo ultrapassa o pessimismo a virar pessimismo doentio e era já seu caso, ocasionando mesmo asco nos olhos da gente) – um dia o Zé apareceu ao seu povo de roupa nova. Terá comprado com seu dinheiro, ganhara, recebera pelo aniversário dos vinte e cinco ainda janeiros e fazendo anos em fevereiro mês enganoso e mais curto; enfim surge de novo; isto é parecença novo homem. Garboso, estufoso, orgulhoso, vaidoso, bobo. Passa de terno e gravata nos meandros das palafitas por caminhos e ruelas fedorentas nem vê o cheiro, acostumado, nem sente olhares da vizinhança, na sua preocupação de homem importante. Fosse um estranho já todos em guarda ou a falar de orelha em orelha, mas não: o Zé da Graça; todo empetecado talvez cheirando água de cheiro neutralizando os fedores próximos, o Zé parecia presidente doutor essas coisas, se bem que nesse mal não chegaria a seu doutor sendo negro, ou branco tostado de mãe dum lado e tostado mais carregando em negrura do lado de pai (ou seriam pais...) Marcha sim garboso, talvez imaginando ou escutando o rufar e o bumbum dos tambores solenes e aí sorri importância, des-circunspecta a cara. Então se pensa grande, pequeno frouxo frágil magro a balançar os cambitos dentro dessa esquisitura de panos. Porfim entra no seu tugúrio, espanta os irmãos menores xeretando sempre, dá-lhes uma bronca em regra, isto próprio dos generais aos praças; a seguir revira nas caixas velhas sopra a poeira depositada pela ingratidão dos anos, aquelas caixas de sapato claras de papelão, procura documentos mais velhos ainda, bota um num dos bolsos, faz grr ou de valentia ou de irritação, daí faz meia-volta ao estilo militar, sai do ‘palácio’ enfrenta os olhos assinzinho de vontadinha de não ter curiosidadezinha mas sem coragem a indagar. O marechal marcha agora inverso sai daquelas pobrezas ricas em sobrevivências, vomita suas misérias e toma lá longe ares ainda importante e sobe no ônibus da nova linha circular em direção ao centro e à outra extremidade urbana. Noutro dia volta, murcho, chateado, a chutar pedras, a bronquear o barulho da molecada, quieto na expressão, casmurro por dentro, por fora vestes comuns, o feijão com arroz da rotina de todos dias com sabor do sempre; a retomar o de costume nos arranjos financeiros de pernas curtas. Decerto a vaga fora a outrem, quem sabe um branquelo ou filhinho de papai. Nunca disse, nunca fez sequer referência, nunca explicou. No entanto fora deflorado pela fêmea que é a vida e desde então deixou de brincar nas conversas e quase não mais a sorrir; um velhote de cinquenta nos seus vinte e cinco...

7° - Levar vantagem
O esperto explora as necessidades humanas: fantasia sexo dor fome luto – o que redunda tudinho em lucro.   

Não era muito disso não. Nunca procurou tapear sua roda de amizades, nem a vizinhança séria composta de faladeiras lavadeiras faxineiras simpáticas mas doutra faixa de idade, o novo pensa sempre velho o velho novo ainda e fora de suas mais doídas intimidades; nunca. Talvez ocorresse sim com os filhos delas ou com os maridos e companheiros das ‘casadas’. Enfim não abusava confianças e não abusava no sentido de ‘passar a perna’, isto dizer popular e expressão viva durante quase cem anos; não se beneficiava da ingenuidade doutrem. Esse mérito não sendo mui aplicado fora de sua comunidade pois às vezes precisando até mentir ao menos enganar, a fim de obter uns trocados, em quaisquer tarefas para ganho. Atitude corriqueira válida e equivalente aos demais amigos do Zé. Todavia entre os de sua roda o mais comum era ser logrado, houvesse alguém com falta de escrúpulos a lhe passar a mentira como verdade. Não por excesso de bomocismo do rapaz, por excesso de imprudência; em geral entre amigos abaixam-se as guardas... Isso válido também ou sobretudo nos casos amorosos. Nunca fora de se apaixonar (ou fora?) contudo andou requestando algumas garotas na favela, sem grandes resultados; mais sujeito aos hábitos aceitos no seu meio e também pela limitação de crença tendo em vista a realidade em que crescera; enfim pés no chão. Diverso nos negócios, pudesse chamar os arranjos financeiros de pernas curtas de negócios. Porém nas atitudes amorosas... Bem, às vezes ficava a rondar o portão de saída do colégio das freiras; nada interessado nas religiosas, aliás ele nadinha religioso em não ser na superfície e na fugacidade de um que outro ofício na igreja; realmente desejoso em ver apreciar ‘namorar’ certa jovem, a qual nunca soube sequer dum Zé na vida e menos em se tratando dum mulato magricela e mal vestido; se bem que o coração desconhece palavreados e definições taxativas. O rapaz nisso andava, sempre esteve assim, andava mais para levar desvantagem em tudo, como é próprio do pobretão.

8° - Patrulha ‘cultural’ da periferia
Alguém que nada tenha a fazer, a esse alguém sobra-lhe tempo para
ver outrem gastar tempo.  

Dizem que se formaram entre chineses socialistas a patrulha política a punir exigir apurar aplicar os princípios comunistas. Na favela nunca se falou nisso, nunca se viu isso, isto abuso porque sim nas compras: sempre vêm a envolver compras de cebola de batata de carne, aqui em exagero na riqueza e nos gastos, aqueles jornais usados falhos de tipos de tinta grosseiros, às vezes trazendo imagens e fotos doutros lugares do planeta e é lógico o ilogismo da possibilidade em haver nessa imprensa enxerida mulher seminua (indo daí adornar pregado na parede o quarto dum jovem esperançoso...) e então mui claro possa a ‘camarilha dos quatro’ herdeira de Mao ter sorrido em sua seriedade àqueles sub-homens naquelas casas gozadas, em opinião chinesa, elas feitas com restos de construções da burguesia. No entanto não sendo assemelhado!
Certas mulheres – homens também pelas mesmas razões – certas desocupadas se ocupando bem no ver notar observar controlar inclusive a vida dos passantes. Que importa que seja o corriqueiro do ver, mesmos trajes mesmos cheiros mesmos aspectos externos não os interiores porque isto requerendo grau de estudo na psicologia ao menos preciso tendência observadora nata, um talento às vezes para o bem bem visto às vezes para o mal, que é o mal das comadres nas centenas de anos da civilização dos pobres sobretudo e sobretudo os pobres de espírito. Que fossem outros, ou a passagem do Zé. Não é o da Graça? aquela... desancam as ancas sem aparar arestas, próprio dos sem qualquer humildade. Aliás os passantes e os mestres olhantes seriam apenas humildes na deturpação do vocábulo, porque humilde não é quem viva sem dinheiro. O Zé! Não parece enfezado... vai ver que... ah como pesa inventar sem bases. Entretanto a fiscalização devendo ter tanto quanto as razões do filho de Maria das Graças, dizem que é filho do sangue de um daqueles pretinhos que andavam sempre aqui, mataram um deles o outro sumiu. A polícia cruz-credo.

9° - A persistência do sonho
É possível temer um pequinês ou uma formiga, mas não se tem medo de Poetas,
 engaiolados ou soltos – são mansos e não sabem morder. 

Quando o Zé, a das Graças bem mais cedinho por vezes madrugando, quando saía ao ‘trabalho’ ele ou a caçar o quefazer, já a canzoada sentia sabia latia esbravejando; poucos na matilha aspirando em aceite aquele cheiro de gente negra magra, quem sabe a fazer estalando dedos uma graça agradável como chamarisco ou amizade aos ‘de quatro’ – quando partia era o alvoroço e mais mais nos bichos no trajeto fora do cortiço. Têm sempre os presinhos a avançar no gradil; vez que outra um encardido teimoso atrevido a seguir a presa com sua ferocidade ou selvageria da boca pra fora e daí a se valer ou da pedra ou do pau de faz de conta para assustar a fera. Isso o costumeiro. Tanto que em geral os homens passam, passam suas caravanas, e o cão ladra continuará a ladrar enquanto houver rotinas. Numa outra vez ou por um momento fugaz, fugaz e mais passageiro ainda visto o tempo e o espaço universais, contudo também existente; então o Zé contempla uma bela paisagem com horizonte no entardecer; claro próximo a feiura a miséria da favela, ele tinha dessas bobagens. Mesmo porque não é necessário a universidade o diploma ao talento poético. Vislumbrava algo que não saberia dizer o que fosse; a rigor temeria dizer e ser tomado por ‘ruim da cabeça’; se bem que alguns no bairro miserável pudessem valorizar o saber e o saber dizer sobre o sabor belo dos sons, tão abusados por canetas chãs e concretas do tipo pé no solo. Então sonhava acordado; acordava estivera dormindo... Nem os cães, mesmo eles, nada a temer no moço já velho magro e negro a observar o poente ou a passar pelas imediações. Ou por outra, devem ter os cachorros posto a língua no mundo, o Zé não terá ouvido.

10° - Complicações & desentendimentos
Imagino-me um objeto duma bolsa de mulher... Seria a primeira vez que
um objeto fica louco neste Planeta!   

O filho tornava à mãe, a mãe no entanto não se encontrando no cômodo e meio, o meio sendo o quartinho do Zé e dos manos que sobraram não fugiram nem morreram, a das Graças fora à faxina acompanhada dos ais e uis e dos anos enfeiotando com rugas e desengonços, sequer agora a pobre conseguindo parceiros porque o mundo não é o mundo das acabadas ainda assim porventura mães. O Zé vasculhara já parte da ‘residência’, quieto no silêncio que a manhã permitindo e a pressa quem sabe também; sobrara um pequeno meio grande no espichado da idade ali curioso mas descartara esse entrave com respostas curtas secas rápidas e seguras; e agora sozinho naquelas espremuras de aposentos com badulaques a esforço espalhados entre cadeiras gastas, camas, uma apoiada sua quina nuns tijolos empilhados a se fazer pé; e a televisão; quase a ligou para que o barulho de suas besteiras consumistas colaborassem mancomunado a fim de o afim... Procurava vasculhando nas coisas, coisas, coisas poucas coisinhas miudinhas talvez. Seu comum era o esparramar desordenadamente o que tomasse ou usasse, aí a bronca depois da mãe a mãe então longe. Não. Olhava examinava o todo pra ver a parte, as partesinhas melhor dito, a que procurava; e repunha qual alguém a pisar em ovos não lhes quebrando a casca para não dar na vista. Era exatamente isso... Mais que isso, a meticulosidade junto com os cuidados, como pessoa não desejando deixar sinais do crime ao crime não ser desvendado. Enquanto isso a patrulha camarilhada dos-4 que eram mais de quatro faladeiras, a patrulha houvera visto apenas a entrada dele no sol gritando cores, ao menos a entrada cuidadosa da vítima, o Zé. O Zé agora, após tanto não encontrar coisas, acha a bolsa esquecida da mãe. Decerto levara outra menos usada, indo negociar nova patroa a fazer boa presença; porque não teria ido sem, sendo a bolsa um apenso feminino como seio cabelo e roupa, às mais novas ainda a preocupação com os adereços de enfeite para fazer aparecer maismente a boniteza. Não importava, visto poder encontrar o que encontrar no encontro. Era certa bolsa grande, grandalhona às pequenuras lá dentro, que vistoriava para (se apossar!?) achar. Abriu-a arreganhando desajeitado aquilão; fez mais: examinou na fresta solar a bugiganga nela... Remexeu escolheu manuseou trocou repôs e se decepcionou, atrapalhado abismado, atirando dum lado a tal bolsa com seus pertences, um caiu inadvertidamente no chão. Recolocou o objetinho rebelde, certamente com um nome específico e quase quebrando o espelhinho encolhido medroso no fundo da bolsona; fechou definitivamente essa mala pequena e tentou pôr a mesma onde a encontrara antes. Puxa, se falou, baixo, baixinho, donde... (pronunciava “dindonde”) Saiu qual o assassino em não deixar pistas do crime; se crime.

11° - O futuro no presente
Quê é o futuro, tomar café de manhã amanhã?!   

Se se quiser é possível ver o Zé vendo os zés que formam sua geração sofrida; sofrida em termos pois sofrer pode ter sentido lato; cada um recebe o que pode, ou deve, e não obstante podendo desconhecer a extensão ou da culpa se culpa ou do pagamento da culpa. O rapaz não se sentindo culpado, o homem comum é pra si mesmo um sábio um anjo um justo e quase sempre essa não é a opinião da oposição, esta quase sempre também feroz em seus ataques. Vê o homem da rua a superfície, a pele, mesmo assim curto e limitadamente ao hoje, amanhã... No dia a dia lutava, senão bravamente, a lutar. Foi um eterno (isto costuma durar pouco às mentes chãs, mais às mentes sãs) foi sempre um desempregado e a viver de expedientes bicos ou biscates falam; portanto sem garantias. Ainda bem – esta expressão cabe quando o ser usando-a para apostrofar o morto garantindo “ainda bem não ter deixado filhos na miséria, a miséria que deixou à família” – ainda bem não se consorciou, quiçá não pensando realmente em padre e cartório, seus pares já a viverem sem essa regularização de papéis, ele idem. É o que aconteceu no caso do emprego formal não tendo qualificação quase nem alfabetização completa. Nadou nos mares grossos lodosos de lago logo compreendido compreendendo não poder competir com os de pele clara da zona urbana, sendo negro; embora se dizendo branco de mãe branca; nos cabelos curtos enrolados quem sabe um dia a cachear, neles certa mecha de branco descolorido qual sinal (ou estigma...) definia o jovem já velho entre seus pares, definindo-o como diferente a receber apelido também por isso. Agora ‘pinta’-lhe um caso de amor para agora. Logo perderia essa consciência: a esposa é a consciência desperta ao homem, mesmo tenha ela de cobrar-lhe as faltas e as sobras. Logo perderia a companheira a outro; quem sabe senão igualmente ela hoje sem amanhã. Enfim morreria solteiro, não solteirão como determina a cartilha social, pois se foi novo, idoso nos vinte-e-seis, após sua magra coleção de fevereiros.

12° - Cidadania
A democracia para o homem da rua, é o regime segundo o qual é preciso brigar para ter o direito de ser obrigado a votar,
sem necessitar força pra esquecer em quem se votou.   

O rapaz é o personagem principal nessa nesga da história e não sabe disso. O Zé tem na época outras participações sem contudo ter consciência bastante, vendo o agora, sem lembrar quase o agora de ontem nem supor possa ter o agora de amanhã. Tudo incerto em si. Mas de repente está eleitor. A custo conseguiu o título às instâncias de interessados no seu voto; pra se desinteressar por ele após o voto; a ingenuidade não permitiu que visse essa faceta da verdade. Enfim rabiscou como pôde seu nome na ficha no cartório, apresentou documentação exigida, mas aqui sobrando à pobre mãe: ele nunca sabendo o local às coisas pra guardar e/ou retirar, encontrando nas caixas-fortes da família onde antes sapatos os documentos para tal. Pronto, eleitor, cidadão, orgulhoso em ser gente. Se enrola como bom jovem em discussões iguais às de futebol e filosofia – intermináveis e sem conclusões. Depois enfrenta paciente a fila, escolhe em tremura o candidato, vota e se desliga após as apurações. Vai mais além: esquecendo ele quem escolheu... Bem brasileiro. Ao menos nesse tempo vaidoso na vaidade como eleitor, parecendo-lhe ele mesmo ser o dado sine qua non da política nacional. Mais pra diante, noutro período eleiçoeiro, se esqueceu de votar, lembrou-se, perdera o título eleitoral. Nunca pagou a multa pela falta nem tornou ao entusiasmo em salvar o país. Logo faleceria sem precisar mais do cumprimento do dever cívico.

13° - Primeiro a saber
Marido entre nós, na pobreza é um mata-fome da passa-fome; nas classes
abastadas é o sem-sorte da consorte.  

O Zé era um novo velho. Após deflorado pela vida no fim da existência curta, experimentava um viver quase esdrúxulo não fosse já dever estar acostumado com insucessos em todos níveis; mormente em contato com outros jovens – quem sabe não fossem tais pessoas ainda mais idosas cansadas de tantas juventudes – e nesse contato perdendo na cor na pobreza na beleza de sua feiura fora os aninhos em que mamou e engraçou sem encantar demais o ninho no cortiço. Ora, não se acostuma, pelo menos facilmente, não se acostuma com fracassos; mesmo criaturas que nascem pessimistas e se aperfeiçoam nesta miséria do pensamento, mesmo essas envelhecem morrem sem aceitar, e num pior sem se aceitar, aceitando as coisas como as coisas são. O Zé lutou contra esse seu contra. Dentro de casa com os seus; com os seus dentro do grupo de seus pares no coleguismo; e mui mais com os de fora, dentro de sua existência de pouca duração, sabendo-se a juventude a promessa... Mas um dia exagerou na sua luta a desancar o negativo, ou fora isso uma crise de acreditança.
Isto porque o ser humano morre de velhice e ainda sonha e pensa um engano a perda no ver a realidade.
Foi assim na questão amorosa com ele. Debalde se pusera em conquistador, no bairro e no centro; aqui bastante ajudado pela timidez e pelo espelho. O espelho tem o mau gosto de mostrar uma cara feia, o jovem exagera o exagero do vidro. Se se visse, viu-se algumas vezes nos espelhões das lojas, se se visse por inteiro perceberia a pequenura a finura a magrura quase esquelética e mais a negrura de pele, esta disfarçando nos escuros. E ainda a falta crônica de meio para sobrevivência. Tendo portanto tudo para não vencer, restando a sorte grande da idade, esta conspirava contra si a torná-lo aos vinte e seis anos um jovem adentrado já na senectude...  Embora, tentou formar sua própria família. Contatou certa negra retinta e bela como esposa sem papel, num ajuntamento para convivência. Das Graças deu contra o a favor, sendo de seu métier e experiência. Não ouviu. Ouviu, fez que não. Então gastou mundos e fundos; isto fácil a quem não tenha tostão; enfim seus trocados obtidos a duras penas; não chegou a mês o consórcio. Logo encontrou a amada, ou pretendida ou postulante às brigas conjugais, logo com outro...
Aí mais uma razão da ranzinzice do Zé na sua comunidade e por onde a passar: irritava-se com barulhos, não mais agradava um vira-latinha seu amigo, arengava por um simples chiclé grudado na sola de seu tênis gasto, ruminava resmungava velho qual jovem desencantado.

14° - Crença na descrença
Nós estamos caminhando no país por mãos seguras dos especuladores e
pelas inseguras dos economistas.  

Como exposto até aqui, aqui a se imaginar estivesse o filho, um dos, a ser bem dito, o filho de Maria das Graças a viver no morrer na ilusão diária do fim. Isto sim ilusão. Claro todos terem, que seja por alto e sem aprofundamento, a noção da perecibilidade e constatando sempre ou só de vez em quando o envelhecimento. Essa ideia não seduz totalmente nem condiz com a rotina do homem comum. O Zé também a pensar pouco e pensar viver muito no seu ramerrão como outrem, na busca do ganho e do trabalho, ou vice-versa a dizer melhor. Pensar em si em seus dramas em problemas familiais e nos das amizades e dos conviventes. Nisto é que talvez extrapolando um pouco.
Ou em vendo na tevê o que se vê; ou vendo com os olhos que a terra há de comer, cruz-credo terá pensado. Mas sobretudo pondo as questões nacionais. Nada nesta afirmativa a lembrar o crítico de horizontes profundos. Não. Um homem pequeno de tamanho e de tamanho pouco no universo curto da mente limitada, apenas. O que observando. A corrupção política costumeira; os desmandos e abusos, os que se comenta e até se banaliza, como a indústria da taxação sobre o povo por exemplo; as catástrofes da cheia ou da seca tudo longe e longe no sentir também; a catástrofe maior da fome que sentia não comparando à de outrem distante, e aquela tão perto dos olhos nos ouvidos televisivos que é a ofensa do trânsito, o qual aleija desfigura mata consequencia e assusta (ou na pior das hipóteses: dopa por exagero nos exemplares em exemplo, mau exemplo...) Com isso se espantando. Espantando-se também com o caminho rápido e num crescer vertiginoso em que opera a droga, as miúdas de seu mundo como a maconha o crack e as dos ricos – todos ricos e pobres irmanados no prejuízo e na loucura, ou na loucura da ilusão. A droga, ah que droga de país! lamentou um dia noite em conversa com os de seu mundo.
Curiosamente no item maconha, tão corriqueiro, o Zé não passou de inocentes ‘pitadas’ como fossem cigarros para ficar bem com os colegas; assim como nem passou no mundo político de ‘eleitor’ duma só experiência, não sendo entretanto o irrisório voto dum zezinho qualquer razão bastante para mudar uma nação.

15° - A mãe in eterno
O ventre feminino vale uma eternidade. 

Tinha um poeta, ah mas a gente sempre um pé atrás com poetas... tinha um a cantar o desejo em ter a paz da criança dormindo. Não é um encanto o dizer! Aplicando no Zé a questão, ganha ele duplamente agora – dorme e dorme pela mãe. Os outros não, ninguém em volta a inteiramente compreender o abarcar dum coração materno chorando; desde sua fase santa e pura a amar o bebê mamando gulosinho. Mesmo aí não deixando ser mulher a mãe, com os dramas da mulher e suas necessidades enquanto fêmea e suas desditas enquanto esposa – das Graças não teve essa graça e o trocadilho vindo do fato triste de pertencer a muitos homens e a nenhum, a rigor não pertencendo quase a si mesma...
Contudo é preciso abstrair tais considerações para ver o visto, triste constrangedor compungente quadro visto.
Mamãe descem-lhe as lágrimas nada para efeito e amostra externa; trata-se duma senhora nesta altura gasta embora nova velha nos seus enrugos e cansaços expostos e por demais conhecidos da gente na favela então espremida nesse velório simples em casa simples e menos que residência, por fracassada em ser um lar autêntico. O Zé olha de olhos fechados o céu e de mãos postas, boca queixo nariz presos por uma tira, um trapo de pano que fora parte do vestido duma vizinha, isso para não ficar arreganhado e exalando mais facilmente o cheiro pútrido cadavérico, o pobre estourou decerto por dentro e a catinga não recomenda; os meninos perguntam às mães o porquê do malcheiro e elas lhes tapam antes a boca pelos indevidos em voz alta e depois os levam pra fora para fazer comentários educativos quiçá de piedosa religiosidade. Dentro prossegue o calor e a conversa baixa em respeito; alguns, algumas a melhor conceituar, carinham em compadecimento das Graças inconsolável.
Ela vê um quadro lindo do garoto a sugar seu seio, passa rápido com instantes anos de luta até chegar naquela morte estúpida impensada impensável; felizmente nessa tristeza nenhum desafeto dele a colaborar direto ao passamento, nem armas entrando nem polícia nem coisa alguma; quase se candidatando o morto em vivo à santidade também igual em nenezinho. Enfim a mãe numa dor respeitável a matar o vivo morto, agora a olhar de cara de cera pra cima com mãos juntas no peito magro e cansado de respirar com dificuldade por vinte e seis anos. Então chora ela este agora da partida dele.
O Zé não pode se despedir. Das flores em arranjo simples no pobre velório, das velas se comendo derretidas, da gente pobre quase miserável, do seu cortiço, dos amigos, dos desafetos poucos mas nem a eles se dirigir em perdão. Poderia quem sabe consolar sua mãe então mais fragilizada, não pode. Inclusive quando as mãos solidárias a tomar o caixão comunitário comprado na praxe da ‘vaquinha entre amigos’, nem consolá-la quando da saída sem volta e a pobre a chorar desesperar desmaiar.

Marília   dezembro  2008



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