Oralei
I
– Começo – Aconteceu em
Biafra Bruzundanga Brasil ou qualquer Brasa; o fato é que aconteceu a
valorização do desprestígio da lei. A lei? Bem, a lei fora um dado a
disciplinar, quiçá disciplinador, que se deu no tempo. Tempo em que se
amarravam cachorros com linguiça ou mesmo antes no tempo, no tempo em que os
bichos falavam.
O
homem comum, analfabeto mas sábio na sua ignorância desde a recente época
quando ele migrou da roça para a cidade e virou urbanoide – cheio de desejos e
consumismos mais – então a lei o requisitou, primeiramente contou-o na mentira
estatística depois sim contou o homenzinho para efeitos legais e taxações, mais
legais ainda.
Já
por essa época a lei existia para existir. O homem é quem não sabia. Sabia de seus
desejos e necessidades; ou somente o que o empirismo deixava saber. Embora sem
importância isso, em vista de ninguém saber ler direito nem mesmo os legisladores.
Quando vieram a saber essa sabedoria, souberam antes os políticos e os
advogados, fossem ou não estes políticos ostensivos; o povo não: não sabia não
conhecia não entendia não via por ver sem ver – para enfim entender.
II
– Continuação do começo – Aconteceu em qualquer Brasa antes do antes.
Antes era um qualquer aproveitador de ingênuos a tomar o poder; fazendo talqualmente
o que fizera com a propriedade quando aparecera a propriedade. Assim num belo
dia (belo ao apropriador) nesse belo dia o matuto se pega pego a obedecer o
ricaço dono das terras, o qual não lhe permite ir à escola. Diz que não tem
escola, uma verdade aqui sem estatística para comprovar a mentira. Explora
enrica cresce extrapola domina submete o de pé no chão. Vira agora no ontem o
chefe, se diz governo pra ser rei se precisar ser o ser. É o chefe sim do
bando; este nominal líder legisla, claro, claríssimo, em favor da corporação; e
fará corporativismo sempre que precisar; ou seja: sempre. Os membros do corpo
se revesam no poder nominal (rei presidente primeiro-ministro ou qualquer) se
revesam pra não ficar chato. Mas não ficaria nem chato nem mal, pois o roceiro
não sabe disso. Diria quem nada tendo a falar e fala: por que o da enxada não
consulta a Gazeta ou o Diário a Folha e mesmo o Ontem que era a Manhã daquele
ontem, a fim de saber, saber pra se defender, se defender expulsando a trempe
gozadora, nada engraçado. Simples, não sabe ler, soubesse ainda assim não leria
não tendo fundos. O capiau não tem dinheiro e quando tem compra comida e não
jornal pra ver as propagandas de eleição e compre isto consuma aquilo. Porém,
diz o engraçadinho a atrapalhar aqui a redação, por que motivo não planta, não
tendo dinheiro pra gastar em alimento e periódicos que são mais boletins de
violência; sim, por que não planta colhe e come! Ora bolas, o representante de
plantão dos dominantes não permite mais plantar, além do capim pro gado do
patrão; e se colher alguma coisa, toma parte da coisa em meação ou porcentagem
ou qualquer; caso sobrar algo na coisa taxada, arranca a sobra ao da roça por
dívida. O zebedeu sequer sabe a extensão da dívida, só sabe dúvida. Aí vem a
mulher, dona Muié, senhora parideira gasta e manda (verbo corretamente
empregado) manda o seu homem ir brigar com o patrão. O patrão manda ele
desocupar as terras. A família anda de matula e filhos, anda anda anda sete
dias e sete noites sem parar, pra conseguir sair das terras. Sai. Entra na
cidade. Cidade e caridade; 'urbanoidifica-se'. Sonha virar gente, quem sabe advogado
político legislador juiz governo. Consegue na última alternativa de sonho o
concreto de votar, tendo se alfabetizado é claro. Claro também que isso é
apenas assinar o nome entre as coordenadas de duas linhas, as quais embaralham
não param quietas na hora de pôr o nome no lugar. Isto fá-lo um cumpridor da
lei. Só ele cumpre a lei, pois lei é para existir, na opinião dominadora.
III
– Continuação da continuação – Aí vem de novo dona Muié, de Biafra ou
qualquer, uma senhora que nunca chegará a senhora-cidadã, semelhante ao senhor
que se pensa senhor de sua dona, ele nunca chegará a ser urbano completamente,
ao menos cidadão e coisa e tal, tal qual estando na constituição ou na lei que
existe pra existir. Não conhece, falam lá no boteco que existe. Então, a saber,
procura um advogado. Tem um da penca na prole, o qual a crescer virará nominalmente
advogado, que nunca passará no exame da Ordem e desvirará advogado se
empregando no subemprego e depois no desemprego, garantido na lei que existe.
Para existir. Entretanto ainda não cresceu ditinho advogado e joga bola na rua
com os moleques quebra vidraça atiça o cachorro da vizinha pra Muié discutir
com a vizinha ou só virar a cara para a outra. Daí o urbanoide tem mesmo de
contar agora com o advogado de plantão, o qual não sabe a lei, sabe que sabe ou
pensa que sabe e sabe existir mil e uma versões dela. Talvez não lhe tenha
passado pela cabeça que a lei existe para existir; enquanto isso se beneficia
dela. Agora tosse importância, olha lá embaixo o urbanoide, explica o
inexplicável da lei, defende o cliente. O capiau matuto caipira urbanoide
entrega o quanto cobra em honorários iniciais, a dar andamento nos papéis, a
papelama em soma a ajudar no fim do mundo; na outra vez foi em água e Noé não
gostou. Entrega o dinheiro e fica duro. Daqui por diante trabalhará ele e a
família em expedientes possíveis a sustentar o conhecedor da lei que existe pra
existir. O Doutor não ganha quanto pode, quanto quer. No final desta continuação
da continuação restam dúvidas; agora não é somente dívida pela dúvida na dona
Muié, que pega no pé do seu homem e fá-lo fugir pro botequim ou ir pedir
satisfações com o conhecedor de leis. Aceita, em troca de não mover a lei contra
si e ir pro xilindró, aceita o matuto murcho manso quieto (antesinho passa na
venda a enriquecer o pindura e ficar bêbado a acertar a personalidade
bravatando o como ‘entortou’ o tal causídico em causa própria) torna portanto
ao lar. Doce lar. Dorme. Não é o fim, é o fim da continuação.
IV
– Continuação do fim – O urbanoide em Bruzundanga ouve endoidado a matracação
da legítima esposa na legítima lei do padre, após acordar arrotar levantar
andar achar e fazer. Faz esquece a descarga e vai pra vida. A vida é a
continuação do fim. Está enrascado com a justiça, lembra-lhe o dizer do
advogado. A justiça num tá nem aí, nem ela sabe bem a lei, sabe contudo que é
para existir; e ajudar o promotor a defesa e o meritíssimo a existir (ora, só a
lei a existir! não é ela tão fominha e deixa a justiça e a parafernália e a
papelama condizente a existir também para existir o fim do mundo em fogo desta
vez – todos existem. Para existir). Para existir ou apenas para mostrar
existir. Ou para condenar; todavia antes há toneladas de papel. Ele rói a unha,
isto pode sim nem precisa consultar a lei, rói réu. Vegonhoso no ver o juiz os
jurados o público os advogados em causa própria – está na berlinda. Não ele, um
da prole: afanara uma galinha.
V
– Continuação ao fim – Ah, em Biafra ou em qualquer Brasa é isso crime
de lesa-majestade. No julgamento, após processos e preventivas. Provaram,
estando nos autos, por a+b haver pena em casa, a envergonhar Muié o marido e
todos, todos aqui incluindo vizinhança, esta mais afoita e interessada e curiosa no desenlace da trama, não fosse
que sobrasse testemunhar e ter a dizer não estar em casa no dito agora dia, o
dia do crime ou da pena. Precisam em plenário ler àquele analfabeto a lei, em
provar ser preciso cumprir a lei que existe para existir, mostrar serviço,
facilitar concessão legal da aposentadoria da classe alta a serviço de mando.
Alguém deve pagar o pato. O pato sorri constrangido e amarelo, uma cor quase
branca e que não ofende. Sorri. Cumpre. A pena pela pena, a coxa o peito
deglutiram os seus, o pescoço magro não: jogaram ao Lulu e os ossos outros
também – comeu o criminoso decerto a carne e a pena valeu a pena. Sai no semiaberto,
volta na condicional; e depois quem sabe preso, represo. A lei continua
imponente a existir. Ao submundo. Não ao imundo do alto no mando, onde só
existe para existir.
VI
– O fim para ser fim – Tendo acontecido em Bruzundanga ou noutra Brasa,
mesmo com voto sujo de poleiro e analfabetismo, o povo (ah mas quem será o
povo!) o povo elegeu o mandante. O presidente faz e desfaz em boa ditadura, ou
velado pela lei a mostrar que lei é para existir: revesam-se no governo os
homens, como os urinóis que se estragam e se mudam, substituídos por novos, os
velhos homens ficando no poder – o presidente troca de nome, aí já a serviço
não só do poder estreito, do poder econômico internacional. Esta nova
nomenclatura apenas exige que a lei permaneça. Que ela tenha a qualidade de
existir para existir. O urbanoide também continua a existir na Brasa, no espeto
andam a prole e inclusive a faladeira Muié. Ela manda o dono da casa ir tirar
satisfação, agora não mais com o fazendeiro o patrão ou o advogado, este rico
defensor não da lei mas de sua lei em causa própria – agora sim falar com o
mandatário nominal da lei, na execução da lei ou só no mostruário da lei. Não
chega o homenzinho ao homenzarrão; recebe apesar disso um recado do que ele
pensa como rei nacional: a lei? ora a lei... aqui não tem lei, o que tem é rei.
Aqui, lá, devendo ser Biafra Bruzundanga ou outra Brasa. Tem rei pra não existir.
Marília novembro
2006
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