terça-feira, 6 de agosto de 2019

Oralei


Oralei


I – Começo – Aconteceu em Biafra Bruzundanga Brasil ou qualquer Brasa; o fato é que aconteceu a valorização do desprestígio da lei. A lei? Bem, a lei fora um dado a disciplinar, quiçá disciplinador, que se deu no tempo. Tempo em que se amarravam cachorros com linguiça ou mesmo antes no tempo, no tempo em que os bichos falavam.
O homem comum, analfabeto mas sábio na sua ignorância desde a recente época quando ele migrou da roça para a cidade e virou urbanoide – cheio de desejos e consumismos mais – então a lei o requisitou, primeiramente contou-o na mentira estatística depois sim contou o homenzinho para efeitos legais e taxações, mais legais ainda.
Já por essa época a lei existia para existir. O homem é quem não sabia. Sabia de seus desejos e necessidades; ou somente o que o empirismo deixava saber. Embora sem importância isso, em vista de ninguém saber ler direito nem mesmo os legisladores. Quando vieram a saber essa sabedoria, souberam antes os políticos e os advogados, fossem ou não estes políticos ostensivos; o povo não: não sabia não conhecia não entendia não via por ver sem ver – para enfim entender.

II – Continuação do começo – Aconteceu em qualquer Brasa antes do antes. Antes era um qualquer aproveitador de ingênuos a tomar o poder; fazendo talqualmente o que fizera com a propriedade quando aparecera a propriedade. Assim num belo dia (belo ao apropriador) nesse belo dia o matuto se pega pego a obedecer o ricaço dono das terras, o qual não lhe permite ir à escola. Diz que não tem escola, uma verdade aqui sem estatística para comprovar a mentira. Explora enrica cresce extrapola domina submete o de pé no chão. Vira agora no ontem o chefe, se diz governo pra ser rei se precisar ser o ser. É o chefe sim do bando; este nominal líder legisla, claro, claríssimo, em favor da corporação; e fará corporativismo sempre que precisar; ou seja: sempre. Os membros do corpo se revesam no poder nominal (rei presidente primeiro-ministro ou qualquer) se revesam pra não ficar chato. Mas não ficaria nem chato nem mal, pois o roceiro não sabe disso. Diria quem nada tendo a falar e fala: por que o da enxada não consulta a Gazeta ou o Diário a Folha e mesmo o Ontem que era a Manhã daquele ontem, a fim de saber, saber pra se defender, se defender expulsando a trempe gozadora, nada engraçado. Simples, não sabe ler, soubesse ainda assim não leria não tendo fundos. O capiau não tem dinheiro e quando tem compra comida e não jornal pra ver as propagandas de eleição e compre isto consuma aquilo. Porém, diz o engraçadinho a atrapalhar aqui a redação, por que motivo não planta, não tendo dinheiro pra gastar em alimento e periódicos que são mais boletins de violência; sim, por que não planta colhe e come! Ora bolas, o representante de plantão dos dominantes não permite mais plantar, além do capim pro gado do patrão; e se colher alguma coisa, toma parte da coisa em meação ou porcentagem ou qualquer; caso sobrar algo na coisa taxada, arranca a sobra ao da roça por dívida. O zebedeu sequer sabe a extensão da dívida, só sabe dúvida. Aí vem a mulher, dona Muié, senhora parideira gasta e manda (verbo corretamente empregado) manda o seu homem ir brigar com o patrão. O patrão manda ele desocupar as terras. A família anda de matula e filhos, anda anda anda sete dias e sete noites sem parar, pra conseguir sair das terras. Sai. Entra na cidade. Cidade e caridade; 'urbanoidifica-se'. Sonha virar gente, quem sabe advogado político legislador juiz governo. Consegue na última alternativa de sonho o concreto de votar, tendo se alfabetizado é claro. Claro também que isso é apenas assinar o nome entre as coordenadas de duas linhas, as quais embaralham não param quietas na hora de pôr o nome no lugar. Isto fá-lo um cumpridor da lei. Só ele cumpre a lei, pois lei é para existir, na opinião dominadora.

III – Continuação da continuação – Aí vem de novo dona Muié, de Biafra ou qualquer, uma senhora que nunca chegará a senhora-cidadã, semelhante ao senhor que se pensa senhor de sua dona, ele nunca chegará a ser urbano completamente, ao menos cidadão e coisa e tal, tal qual estando na constituição ou na lei que existe pra existir. Não conhece, falam lá no boteco que existe. Então, a saber, procura um advogado. Tem um da penca na prole, o qual a crescer virará nominalmente advogado, que nunca passará no exame da Ordem e desvirará advogado se empregando no subemprego e depois no desemprego, garantido na lei que existe. Para existir. Entretanto ainda não cresceu ditinho advogado e joga bola na rua com os moleques quebra vidraça atiça o cachorro da vizinha pra Muié discutir com a vizinha ou só virar a cara para a outra. Daí o urbanoide tem mesmo de contar agora com o advogado de plantão, o qual não sabe a lei, sabe que sabe ou pensa que sabe e sabe existir mil e uma versões dela. Talvez não lhe tenha passado pela cabeça que a lei existe para existir; enquanto isso se beneficia dela. Agora tosse importância, olha lá embaixo o urbanoide, explica o inexplicável da lei, defende o cliente. O capiau matuto caipira urbanoide entrega o quanto cobra em honorários iniciais, a dar andamento nos papéis, a papelama em soma a ajudar no fim do mundo; na outra vez foi em água e Noé não gostou. Entrega o dinheiro e fica duro. Daqui por diante trabalhará ele e a família em expedientes possíveis a sustentar o conhecedor da lei que existe pra existir. O Doutor não ganha quanto pode, quanto quer. No final desta continuação da continuação restam dúvidas; agora não é somente dívida pela dúvida na dona Muié, que pega no pé do seu homem e fá-lo fugir pro botequim ou ir pedir satisfações com o conhecedor de leis. Aceita, em troca de não mover a lei contra si e ir pro xilindró, aceita o matuto murcho manso quieto (antesinho passa na venda a enriquecer o pindura e ficar bêbado a acertar a personalidade bravatando o como ‘entortou’ o tal causídico em causa própria) torna portanto ao lar. Doce lar. Dorme. Não é o fim, é o fim da continuação.

IV – Continuação do fim – O urbanoide em Bruzundanga ouve endoidado a matracação da legítima esposa na legítima lei do padre, após acordar arrotar levantar andar achar e fazer. Faz esquece a descarga e vai pra vida. A vida é a continuação do fim. Está enrascado com a justiça, lembra-lhe o dizer do advogado. A justiça num tá nem aí, nem ela sabe bem a lei, sabe contudo que é para existir; e ajudar o promotor a defesa e o meritíssimo a existir (ora, só a lei a existir! não é ela tão fominha e deixa a justiça e a parafernália e a papelama condizente a existir também para existir o fim do mundo em fogo desta vez – todos existem. Para existir). Para existir ou apenas para mostrar existir. Ou para condenar; todavia antes há toneladas de papel. Ele rói a unha, isto pode sim nem precisa consultar a lei, rói réu. Vegonhoso no ver o juiz os jurados o público os advogados em causa própria – está na berlinda. Não ele, um da prole: afanara uma galinha.

V – Continuação ao fim – Ah, em Biafra ou em qualquer Brasa é isso crime de lesa-majestade. No julgamento, após processos e preventivas. Provaram, estando nos autos, por a+b haver pena em casa, a envergonhar Muié o marido e todos, todos aqui incluindo vizinhança, esta mais afoita e interessada  e curiosa no desenlace da trama, não fosse que sobrasse testemunhar e ter a dizer não estar em casa no dito agora dia, o dia do crime ou da pena. Precisam em plenário ler àquele analfabeto a lei, em provar ser preciso cumprir a lei que existe para existir, mostrar serviço, facilitar concessão legal da aposentadoria da classe alta a serviço de mando. Alguém deve pagar o pato. O pato sorri constrangido e amarelo, uma cor quase branca e que não ofende. Sorri. Cumpre. A pena pela pena, a coxa o peito deglutiram os seus, o pescoço magro não: jogaram ao Lulu e os ossos outros também – comeu o criminoso decerto a carne e a pena valeu a pena. Sai no semiaberto, volta na condicional; e depois quem sabe preso, represo. A lei continua imponente a existir. Ao submundo. Não ao imundo do alto no mando, onde só existe para existir.

VI – O fim para ser fim – Tendo acontecido em Bruzundanga ou noutra Brasa, mesmo com voto sujo de poleiro e analfabetismo, o povo (ah mas quem será o povo!) o povo elegeu o mandante. O presidente faz e desfaz em boa ditadura, ou velado pela lei a mostrar que lei é para existir: revesam-se no governo os homens, como os urinóis que se estragam e se mudam, substituídos por novos, os velhos homens ficando no poder – o presidente troca de nome, aí já a serviço não só do poder estreito, do poder econômico internacional. Esta nova nomenclatura apenas exige que a lei permaneça. Que ela tenha a qualidade de existir para existir. O urbanoide também continua a existir na Brasa, no espeto andam a prole e inclusive a faladeira Muié. Ela manda o dono da casa ir tirar satisfação, agora não mais com o fazendeiro o patrão ou o advogado, este rico defensor não da lei mas de sua lei em causa própria – agora sim falar com o mandatário nominal da lei, na execução da lei ou só no mostruário da lei. Não chega o homenzinho ao homenzarrão; recebe apesar disso um recado do que ele pensa como rei nacional: a lei? ora a lei... aqui não tem lei, o que tem é rei. Aqui, lá, devendo ser Biafra Bruzundanga ou outra Brasa. Tem rei pra não existir.
 Marília   novembro  2006



         
         
         



         



           

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