Esquema
de Sinfonia Inacabada
1°
Movimento
– Allegro com poco brio
Ia
pelo caminho do destino, não crendo apesar no destino, ia assim mesmo, por não
ter opção. As mais das vezes dispomos pouco em optar, só nos restando viver;
vivia. O sol a chuva o vento o tempo o nada em tudo. Desesperançado? A melhor
forma para vencer a desesperança é não pensar na perdida esperança. Contudo
pensava. Aceitava!?
Ainda
a andar curtindo exalações do almoço – pago deglutido eficiente, copioso?
exíguo mas suficiente – ainda, topou com ela.
Ou
melhor, aconteceu um acidente de percurso no caminho quiçá no destino; certa
jovem andava parada cega. Cega! Nem jovem nem cega. Maria derrubara inadvertidamente seus óculos,
óculos do tipo ‘vidro de garrafa’, grossões, a gente vendo lá longe aqueles
olhinhos verdes; quebraram-se o dia a luz a vida quem sabe... Olhava o escuro
da claridade em volta, em torno passantes volantes possantes veículos a tremer
o asfalto alizinho e a tremer o passeio público, a ponto dar medo na pobre;
talvez a tremer inclusive os cacos das lentes para ver a realidade, a sua tão só
no instante o abismo o profundo o temor, estando no limiar do choro. Tateava
tateava sequer a recolher cacos... o caco chegou; antes passara quase a trombar
naquela beldade em estado de uso no estado em que se encontrava; passou andou
voltou-se e tornou. A senhora está com problema!? Por que será que fazemos
perguntas idiotas em cima do óbvio. Não, disse, sim. Daí teve início a maior
encrenca ao José; bem mais menos à Maria.
Entenderam-se.
Chegaram
à conclusão não haver remédio o remédio dos oculistas, precário e espatifado;
ao menos naqueles curtíssimos minutos, os quais poderiam teimar em horas, sem
solução.
Eu
guio (a pé) a senhora, disse não obstante saber a carteira de condutor vencida
e levando em cosideração ainda vencido o tempo útil de vida, já sem viver ou
desesperançado ou para não pensar, pensar apenas a fim de não se entregar ao
cadafalso do tédio: a forca, a força faltando. Entretanto para alguma serventia
um irmão a cruzar na rua com uma desválida da sorte em plena cegueira. Guio,
disse. Assim Maria o declarou – que fosse provisoriamente – a luz de sua
existência.
A
dela também precária como sua vista, vida passada cansada, desesperançada?
quase.
Ambos
naquele passo existencial em que se conscientiza senão o vácuo o pântano da
insegurança.
Nesse
momento, nos instantes desse encontro (seria mais um desencontro ainda não
consumado!?) nesse momento ele apanhou os destroços do que fora um conjunto de
óculos, só a armação de luxo inteira pois os vidros no chão a virar pó depois,
cacos naquele agora. Entregou-a para a fêmea, que achou bela mas vendo linda à
tanta fome de ex-macho; entregou-lhe os óculos ocos, os quais Maria guardou
tateando na bolsa. Encostou-se àquele adão destronado já quase matusalém e indo
ao in memoriam aos do sangue;
sentiu-o como que por segurança; enquanto José (não pôde, quase, admitir à
consciência:) apreciou e sentiu a pele o corpo o coração as fibras naquela
maciez de gente (febril?) enfim uma presença feminina... gasta também, também
cansada, a tapear quem sabe a esperança. E gostou. Apreciar é verbo descabido
e/ou insatisfatório nesse gostar passado; é pouco ao que realmente sentiu;
sentiu o homem todo um mundo atrás de si décadas e décadas. Em início combateu
rejeitou aquela querência, uma querência senão de recordações machistas num
macho murcho a dormir seus anos, ao menos dum saber despertar os sonhos do sono
e o sono dos sonhos... Logo afugentou a tentação, entregou-se à tentação: se
encostou àquela tepidez prometedora. Ela, a Maria, não se mostrando aversa,
antes igualmente achegando-se mais ao homem. Aí se estreitaram, se prometeram
sem prometer nem comprometer. Comprometidos.
O
guia José entregou Maria em casa de Maria. Porém como deixá-la cega e só. Não
podendo deixar a encomenda e tornar aos ‘afazeres’ – por se haver posto como a luz dos olhos da
mulher – assim levou-a para sua residência de solidão, ex-recanto solitário. Aí
entenderam-se mais e melhor; os óculos sararam para ela poder enxergar seu
caco. Então propuseram, a se falar quase ao mesmo tempo (todo mundo já se pegou
a dizer em encontrões com outrem dizendo a mesma coisa ambos e após a sorrir
disso) propuseram virar um casal.
Todavia
não eram jovens. Ele um homem solitário entregue ao destino ou ao tédio. Ela
jovem, pelo menos bela ainda, ainda que idosa também, solitária e esperançosa.
Sem que nenhum frequentasse os bailes da terceira idade, seja lá por timidez ou
introversão. Ela passada, com sonos regulamentares e regulamentares sonhos; ele
passado e desacostumado aos sonhos. Daí ocorreu um pequeno desastre ou somente
imprevisto de percurso aos dois membros da espécie: Maria amanheceu grávida!
Ela
não queria crer nos enjoos e vômitos, não podia acreditar, embora já sonhando
em fazer roupinhas ao bebê. José não cria; não tendo condições sequer para
acreditar; por isso mais se espantou. Logo encampando o resultado, cuidou de
sua companheira, fê-la acompanhar da orientação pré-natal. Fez mais – casou-se
no cartório com a ‘jovem’.
Do
consórcio de um matusalém com outra receptora no guichê da previdência, nasceu
nova geração, embora a gravidez de alto risco e os cuidados concernentes à
gestação. Dois passados a gerar um presente ao futuro sempre interrogativo.
2°
Movimento
– Adagio
Mamãe
permaneceu de molho um século de eternidade antes e após dar cria à cria.
Papai, papai in-vovô, ficou milênio
sem sair da eternidade; em expectativa à nova vida e temia virar novamente
viúvo, solitário de novo e ter o antigo drama; ainda nesse estado a cria já
esperneando e vagindo. Mamãe morria naquela vida a nascer e assim venceu seu
século; enquanto papai-vovô renasceu de seu milênio. A eternidade chorou na
alegria de todo um hospital na maternidade vitoriosa. Com isso não foi
derrotada Maria, mas lentizou muitíssimo na recuperação e quase matou seu
matusalém, ele a temer um fracasso dos dois novos entes do lar – agora eram
três nos dois e a felicidade quase não apenas rompante poético.
Um
ano durando o século e o milênio.
Os
cabelos, uns poucos e teimosos fios milenares, embranqueceram fosse possível
sendo neve já no episódio dos óculos e da luz e do guia. Agora se acentuava a
brancura na cabeça, justo quando mais precisando seus cuidados ao lar, mais
ainda acentuava o declínio do chefe de família. Isso num crescendo no rumo ao
destino que a todos é destino, mormente aos idosos. Também a fêmea dessa espécie,
ora tão estranha parideira além da hora, também ela a envelhecer nada
precocemente. No entanto Juninho dava-lhe e impunha coragem: a natureza sábia
por natureza. Mamãe, mamãe quase vovó, enrugou mais, menos a se importar em
falsificações cosméticas tinturas esticamentos
e fantasias – era toda mamãe. Papai então sentia-se renascer, apesar de
cambaleante arrastava-se com denodo; a tanto que não mais fazia coro no coro de
ai e de ui; ou apenas não sendo lamentoso. Teria descoberto que o lamento é o
forte do fraco! A família – puxa, era uma família constituída, possuindo duas
fatias encanecidas de pão e no meio uma fatiazinha cada vez mais temperada de
mortadela, semelhando sanduíche – essa família prosseguia no comum, muito
embora lerda no sem-tempo do tempo.
Até
se improvisavam sonhos ilusões e fantasias no sono desperto.
Casa
casal lar gente. Sobretudo gentinha em meio à gentalha na sociedade. Ora, não
se propôs riqueza e imaginação de poderio e muito menos vitórias estrondosas no
sonho do real.
Verdade,
tão só a verdade.
Ah,
a verdade não tem pressa.
3°
Movimento
– Scherzo: allegro molto agitato
O
jovenzito com muita pressa.
Muita
assim, assim era o bebê menino moleque púbere adolescente indo a adulto cheio
de cheio – o dono do mundo; com mistura de carinho, amor excessivo, apego
temporão mas doentio e psicologia demais moderna para os contemporâneos mais
conservadores. Uns não o suportavam. Ninguém o segurava. Nem eles, os pais os
avós.
É
seu netinho!? Não era, ele que sim, envergonhado de tanta novura na sua
velheira; mamãe que não, não mesmo. Filhinho de cá filhinho de lá; lá iam os
três. Família que faz tudo unida permanece unida. Refeição descanso missa visita,
a visita não aguentando aqueles abusos. Agora Maria e José estão a almoçar no
restaurante por quilo – José come umas gramas e não suporta mais; mais um pouco
Maria porém comendo pouco; muito, muito mesmo o Júnior. Quer comer o mundo, não
só mexer e revirar o mundo. Ainda no tempo de bebê e não fala, fala com os
bracinhos: mamãe a cuidar de sua bandeja papai a dele, o nenê acha lindo o copo
de refrigerante laranja – puxa empurra derruba espalha parte espatifa molha,
molha mesa bandeja cadeira chão roupa materna, sorriem gracinha. Em casa cresce
mandãozinho, tudo é dele, remexe revira empina quebra; quebra a cara dum menino
ele moleque já. Pedras vidraças vizinhos lamentações embromações desculpas e vergonhas.
Nas lojas... oh as compras!
Contudo
cresce adolescencia precocemente.
Enquanto
vovô mais vovô; vovó menos mamãe; Maria não vai com as outras entretanto se
envergonha e põe maternamente panos quentes a defender a cria. José não possui
tanta coragem a esconder o sol nem a peneira; não tem voz ativa, sequer voz.
Caduca? quem ensina educa? Nem José nem Maria sabem mais.
Juninho
vira Júnior, um José com quem ninguém pode, muito menos José; ou Maria. Se
envolve com más companhias e... melhor retincenciar para final.
4°
Movimento
– Finale lento(com direito a:) Trauermarsch
Não
tem coro! Se houvesse seria uma sinfonia acabada e completa.
José
ganhou oportunidade a hospitalização. Recupera-se lento, lento até não se
recuperar.
Ex-papai,
vovô está no velório. É a peça mais importante daquela festa fúnebre. Ex-mamãe,
vovó chora a viuvez outra vez, lamenta; José tornara-se esposo e vivera como
guia de cego; agora Maria se sente sozinha, nem o filho a consolar sua velhice
da velhice; os policiais impediram a visita ao caixão paterno. Ela fica
definitivamente cega, ninguém mais a comparecer no asilo para lhe devolver a
armação, menos os cacos os vidros o pó. Mesmo sua imagem tende a virar pó.
Marília outubro
2006
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