terça-feira, 6 de agosto de 2019

Esquema de Sinfonia Inacabada


Esquema de Sinfonia Inacabada

1° MovimentoAllegro com poco brio
Ia pelo caminho do destino, não crendo apesar no destino, ia assim mesmo, por não ter opção. As mais das vezes dispomos pouco em optar, só nos restando viver; vivia. O sol a chuva o vento o tempo o nada em tudo. Desesperançado? A melhor forma para vencer a desesperança é não pensar na perdida esperança. Contudo pensava. Aceitava!?
Ainda a andar curtindo exalações do almoço – pago deglutido eficiente, copioso? exíguo mas suficiente – ainda, topou com ela.
Ou melhor, aconteceu um acidente de percurso no caminho quiçá no destino; certa jovem andava parada cega. Cega! Nem jovem nem cega.  Maria derrubara inadvertidamente seus óculos, óculos do tipo ‘vidro de garrafa’, grossões, a gente vendo lá longe aqueles olhinhos verdes; quebraram-se o dia a luz a vida quem sabe... Olhava o escuro da claridade em volta, em torno passantes volantes possantes veículos a tremer o asfalto alizinho e a tremer o passeio público, a ponto dar medo na pobre; talvez a tremer inclusive os cacos das lentes para ver a realidade, a sua tão só no instante o abismo o profundo o temor, estando no limiar do choro. Tateava tateava sequer a recolher cacos... o caco chegou; antes passara quase a trombar naquela beldade em estado de uso no estado em que se encontrava; passou andou voltou-se e tornou. A senhora está com problema!? Por que será que fazemos perguntas idiotas em cima do óbvio. Não, disse, sim. Daí teve início a maior encrenca ao José; bem mais menos à Maria.
Entenderam-se.
Chegaram à conclusão não haver remédio o remédio dos oculistas, precário e espatifado; ao menos naqueles curtíssimos minutos, os quais poderiam teimar em horas, sem solução.
Eu guio (a pé) a senhora, disse não obstante saber a carteira de condutor vencida e levando em cosideração ainda vencido o tempo útil de vida, já sem viver ou desesperançado ou para não pensar, pensar apenas a fim de não se entregar ao cadafalso do tédio: a forca, a força faltando. Entretanto para alguma serventia um irmão a cruzar na rua com uma desválida da sorte em plena cegueira. Guio, disse. Assim Maria o declarou – que fosse provisoriamente – a luz de sua existência.
A dela também precária como sua vista, vida passada cansada, desesperançada? quase.
Ambos naquele passo existencial em que se conscientiza senão o vácuo o pântano da insegurança.
Nesse momento, nos instantes desse encontro (seria mais um desencontro ainda não consumado!?) nesse momento ele apanhou os destroços do que fora um conjunto de óculos, só a armação de luxo inteira pois os vidros no chão a virar pó depois, cacos naquele agora. Entregou-a para a fêmea, que achou bela mas vendo linda à tanta fome de ex-macho; entregou-lhe os óculos ocos, os quais Maria guardou tateando na bolsa. Encostou-se àquele adão destronado já quase matusalém e indo ao in memoriam aos do sangue; sentiu-o como que por segurança; enquanto José (não pôde, quase, admitir à consciência:) apreciou e sentiu a pele o corpo o coração as fibras naquela maciez de gente (febril?) enfim uma presença feminina... gasta também, também cansada, a tapear quem sabe a esperança. E gostou. Apreciar é verbo descabido e/ou insatisfatório nesse gostar passado; é pouco ao que realmente sentiu; sentiu o homem todo um mundo atrás de si décadas e décadas. Em início combateu rejeitou aquela querência, uma querência senão de recordações machistas num macho murcho a dormir seus anos, ao menos dum saber despertar os sonhos do sono e o sono dos sonhos... Logo afugentou a tentação, entregou-se à tentação: se encostou àquela tepidez prometedora. Ela, a Maria, não se mostrando aversa, antes igualmente achegando-se mais ao homem. Aí se estreitaram, se prometeram sem prometer nem comprometer. Comprometidos.
O guia José entregou Maria em casa de Maria. Porém como deixá-la cega e só. Não podendo deixar a encomenda e tornar aos ‘afazeres’ –  por se haver posto como a luz dos olhos da mulher – assim levou-a para sua residência de solidão, ex-recanto solitário. Aí entenderam-se mais e melhor; os óculos sararam para ela poder enxergar seu caco. Então propuseram, a se falar quase ao mesmo tempo (todo mundo já se pegou a dizer em encontrões com outrem dizendo a mesma coisa ambos e após a sorrir disso) propuseram virar um casal.
Todavia não eram jovens. Ele um homem solitário entregue ao destino ou ao tédio. Ela jovem, pelo menos bela ainda, ainda que idosa também, solitária e esperançosa. Sem que nenhum frequentasse os bailes da terceira idade, seja lá por timidez ou introversão. Ela passada, com sonos regulamentares e regulamentares sonhos; ele passado e desacostumado aos sonhos. Daí ocorreu um pequeno desastre ou somente imprevisto de percurso aos dois membros da espécie: Maria amanheceu grávida!
Ela não queria crer nos enjoos e vômitos, não podia acreditar, embora já sonhando em fazer roupinhas ao bebê. José não cria; não tendo condições sequer para acreditar; por isso mais se espantou. Logo encampando o resultado, cuidou de sua companheira, fê-la acompanhar da orientação pré-natal. Fez mais – casou-se no cartório com a ‘jovem’.
Do consórcio de um matusalém com outra receptora no guichê da previdência, nasceu nova geração, embora a gravidez de alto risco e os cuidados concernentes à gestação. Dois passados a gerar um presente ao futuro sempre interrogativo.

2° MovimentoAdagio
Mamãe permaneceu de molho um século de eternidade antes e após dar cria à cria. Papai, papai in-vovô, ficou milênio sem sair da eternidade; em expectativa à nova vida e temia virar novamente viúvo, solitário de novo e ter o antigo drama; ainda nesse estado a cria já esperneando e vagindo. Mamãe morria naquela vida a nascer e assim venceu seu século; enquanto papai-vovô renasceu de seu milênio. A eternidade chorou na alegria de todo um hospital na maternidade vitoriosa. Com isso não foi derrotada Maria, mas lentizou muitíssimo na recuperação e quase matou seu matusalém, ele a temer um fracasso dos dois novos entes do lar – agora eram três nos dois e a felicidade quase não apenas rompante poético.    
Um ano durando o século e o milênio.
Os cabelos, uns poucos e teimosos fios milenares, embranqueceram fosse possível sendo neve já no episódio dos óculos e da luz e do guia. Agora se acentuava a brancura na cabeça, justo quando mais precisando seus cuidados ao lar, mais ainda acentuava o declínio do chefe de família. Isso num crescendo no rumo ao destino que a todos é destino, mormente aos idosos. Também a fêmea dessa espécie, ora tão estranha parideira além da hora, também ela a envelhecer nada precocemente. No entanto Juninho dava-lhe e impunha coragem: a natureza sábia por natureza. Mamãe, mamãe quase vovó, enrugou mais, menos a se importar em falsificações cosméticas tinturas  esticamentos e fantasias – era toda mamãe. Papai então sentia-se renascer, apesar de cambaleante arrastava-se com denodo; a tanto que não mais fazia coro no coro de ai e de ui; ou apenas não sendo lamentoso. Teria descoberto que o lamento é o forte do fraco! A família – puxa, era uma família constituída, possuindo duas fatias encanecidas de pão e no meio uma fatiazinha cada vez mais temperada de mortadela, semelhando sanduíche – essa família prosseguia no comum, muito embora lerda no sem-tempo do tempo.
Até se improvisavam sonhos ilusões e fantasias no sono desperto.
Casa casal lar gente. Sobretudo gentinha em meio à gentalha na sociedade. Ora, não se propôs riqueza e imaginação de poderio e muito menos vitórias estrondosas no sonho do real.
Verdade, tão só a verdade.
Ah, a verdade não tem pressa.

3° MovimentoScherzo: allegro molto agitato
O jovenzito com muita pressa.
Muita assim, assim era o bebê menino moleque púbere adolescente indo a adulto cheio de cheio – o dono do mundo; com mistura de carinho, amor excessivo, apego temporão mas doentio e psicologia demais moderna para os contemporâneos mais conservadores. Uns não o suportavam. Ninguém o segurava. Nem eles, os pais os avós.
É seu netinho!? Não era, ele que sim, envergonhado de tanta novura na sua velheira; mamãe que não, não mesmo. Filhinho de cá filhinho de lá; lá iam os três. Família que faz tudo unida permanece unida. Refeição descanso missa visita, a visita não aguentando aqueles abusos. Agora Maria e José estão a almoçar no restaurante por quilo – José come umas gramas e não suporta mais; mais um pouco Maria porém comendo pouco; muito, muito mesmo o Júnior. Quer comer o mundo, não só mexer e revirar o mundo. Ainda no tempo de bebê e não fala, fala com os bracinhos: mamãe a cuidar de sua bandeja papai a dele, o nenê acha lindo o copo de refrigerante laranja – puxa empurra derruba espalha parte espatifa molha, molha mesa bandeja cadeira chão roupa materna, sorriem gracinha. Em casa cresce mandãozinho, tudo é dele, remexe revira empina quebra; quebra a cara dum menino ele moleque já. Pedras vidraças vizinhos lamentações embromações desculpas e vergonhas. Nas lojas... oh as compras!
Contudo cresce adolescencia precocemente.
Enquanto vovô mais vovô; vovó menos mamãe; Maria não vai com as outras entretanto se envergonha e põe maternamente panos quentes a defender a cria. José não possui tanta coragem a esconder o sol nem a peneira; não tem voz ativa, sequer voz. Caduca? quem ensina educa? Nem José nem Maria sabem mais.
Juninho vira Júnior, um José com quem ninguém pode, muito menos José; ou Maria. Se envolve com más companhias e... melhor retincenciar para final.

4° MovimentoFinale lento(com direito a:) Trauermarsch
Não tem coro! Se houvesse seria uma sinfonia acabada e completa.
José ganhou oportunidade a hospitalização. Recupera-se lento, lento até não se recuperar.
Ex-papai, vovô está no velório. É a peça mais importante daquela festa fúnebre. Ex-mamãe, vovó chora a viuvez outra vez, lamenta; José tornara-se esposo e vivera como guia de cego; agora Maria se sente sozinha, nem o filho a consolar sua velhice da velhice; os policiais impediram a visita ao caixão paterno. Ela fica definitivamente cega, ninguém mais a comparecer no asilo para lhe devolver a armação, menos os cacos os vidros o pó. Mesmo sua imagem tende a virar pó.
 Marília   outubro  2006
         
         
         
         
         


         



           

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