sexta-feira, 9 de agosto de 2019

As Mãos


As Mãos

I – Alguém desavisado ou no seu ganha-pão nas proximidades de todas orelhas martela desvairadamente o mundo, decibeliza pra cima o estrondo, quebranta o silêncio perfeito de até então, então a iniciar quebrar mas quebrar o quê? o silêncio que até aí mandava no mundo após o desaguar das nuvens pesadas negras e lacrimosas. Continua a bater talvez se pensando marreta por mania de vaidade e levar vantagem em tudo, continua a bater, a tempestade amaina entretanto o martelo continua bater, como que a bater na verdade. Oh a verdade se torce porém não distorce sua linha por mais que se bata, ela existe e se mostra cruamente. Às vezes faz concessão e poetiza o verbo para não ferir; e nisto ainda fere! O jeito é harmonizar-se à verdade a dizer a verdade. Sem medo sem modismo sem camuflagem sem medida para não medir... Assim surgem as mãos.
Mas como se as mãos não existem!
Cortaram-nas?
 Pior que isso – elas não nasceram quando nasceram as outras partes da bela, pior sim: uma bela. O que seria pior que uma bela, duas ou mais belas. Contudo é só uma bela.
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A rodoviária andava movimentada. Ora, o terminal interurbano é uma porta. De saída? de entrada? aqui para entrar. Os sons característicos, as cores no espetáculo comum; odores o hálito do mundo o mundo que se perfuma igual e globalmente tanto quanto fede igual confundindo o natural cheiro da gente, a gente no seu prosaico ir-e-vir-e-ir-não-parar. Uns tantos chegavam, apressados lerdos enroscantes em ondas em cordões humanos; as malas e as malas de rodinhas a rodar gozado; os carrinhos de carregar excessos de malas e pacotes intrometidos e disponíveis; os encontrões, malas malas malas e gente. Gentinhas a gritar ou amedrontadas dependuradas nas mãos maternas a olhar curiosas o movimento inusitado, porque a uma criança tudo é surpresa e num descuido podendo virar brinquedo. Sério. As mães as mãos atentas e responsáveis, sobretudo as de muitas mãos pequeninhas e de avisantes boquinhas... Autoridades por todo lado, funcionários espertos ou sonolentos e servidores mais a fiscalizar e a servir o público se remexendo tal qual carnaval espremido a ser cuspido dos ônibus e a se espirrar pelos corredores e vias internas do logradouro pra fora dele – sempre em busca aflita como quem nascera em pouco para o mundo ali a esperar. A saída a rua afluxo refluxo o fluxo à urbe; a qual longe perto em promessa de engolir todo ser todo o movimento da gente e da massa da gente. No meio da gente ela.
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Todos querendo aparecer no desaparecer naquela bocarra imensa e gulosa que era a cidade; todos para o centro urbano (quem sabe se não) ou todos aos seus afazeres 'esperantes' – o vulgo não diz ao estranho o que faz ou fará de sua existência – e todos somem sugados lá do colosso arquitetônico para a via pública nos táxis nos carros particulares de seus amigos e parentes ou nos coletivos-circulares em demanda provisoriamente ao perímetro citadino. Inclusive ela. Mais ela. Sobretudo ela.
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Ela não portando mala sequer embrulhos de pequenos badulaques ou a indefectível bolsa com bolsinha dentro e dentro do dentro mixordinhas, não levando piormente pacotes grandes incarregáveis – e não se espera mesmo que uma jovem bela chegue às portas da cidade estranha como estrangeira sobrecarregada. E se? não poderia por não ter mãos a abarcar alças e pesos!
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 Num melhor nisso um pior: não são as linhas uma figuração poética. Quem dera fosse!
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Ora, horas muitas a curiosidade andou a prestar atenção, quiçá a seguir a moça. A moça sem mãos. Terá chegado às suas conclusões...
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Agora ela, a bela, sobe desenvolta a escada paciente da portinhola arregaçada dessanfonada arreganhada como a sorrir quiçá engolir a gente o mundo chegante. Sobe como a dona do pedaço, perdida embora no desconhecido conhecido dos passageiros. Senta-se sem preocupações. Sem? que sabemos do que vai pelo cérebro doutrem. Olha o todo vê a parte, vê a parte olha o todo; o todo se perde. Mas investe investiga apupa persegue percebe mostra aponta e ela se contrai. Ela a bela. O carro se movimenta, venta a venta na venta alheia alheio à necessidade pública. O público no aparecer em seus problemas; decerto o certo sendo que também a bela a sentir assim, assim agir. Contudo não diz: desloca-se com o deslocar do veículo em desloco. Louco o motorista que não vê buracos  entraves! talvez. E pisa, acelera o acelerador, pisa o pedal freia em brusco o correr cruzar a curva a reta a lombada a depressão a balançar incautos em ais ou em aperto nas alças de segurança naquele comboio rumo ao centro urbano. Ela se apega ao assento vê a janela, a janela mostra, remostra, o vaivém nervoso dos automóveis e nos passeios-públicos o público andante uns em alegro outros mais pianíssimo a lerdar passagem e então ela sorri, contidamente mas sorri. Certamente da gente porque no fundo gente é um drama em comédia qual formigas a se cruzar a se encontrar a se beijar e sumir no buraco de seus eus todopoderosos. Ela não diz. Melhor maneira a dizer é calar. Olha, some vez que outra também no seu eu e volta correndo ao ônibus ao assento ao lugar à rua desvairada semelhante o martelo a bater socar sonar ferir a verdade. Acorda dormisse ouve buzinas a grita da gente e o estertor absurdo do silêncio. Está muda. Não é muda. Fala baixo manso delicado a alguém algo que se não ouve houve por bem não ferir o mundo com estrondo da gritaria que é o mundo. Em razão disso se diz andar silenciosa, os outros seres badernam orelhas na condução a exportar as suas coisas, não somente as crianças que não têm papas na língua mas todos querem falar para existir e tudo se perde no burburinho e se cala embora nas micagens e preocupações. Assim chegam.
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Quê é chegar? O terminal urbano mostra em oferta o mesmo carnaval em espetáculo o mesmo festival de cores e sons e também é uma porta semelhando o terminal intermunicipal receptor; porém é uma porta aberta de passagem e sem pretensão a ser de entrada ou de saída. Os carros se abrem lá dentro e de dentro da barriga despejam sua carga de papagaios falantes de burros carregados avestruzes sem interrogações pavões emplumados ou reles galináceos chãos de só piar trabalhar comer e ser comida à terra faminta famintos vermes na sua hora e vez; sem que seja a vez e hora naquela hora. Hora de viver de mostrar de operar de prosear de passear de... de entrar em intermináveis filas. Filas pra nascer fila pra viver fila pra morrer! não sendo hora agora. Ela também. A bela.
Desce. Suga a vida a esperar é sugada pela multidão dos desencontrados em desencontros. É nesse ponto que a curiosidade consegue vê-la in totum.

II – A curiosidade vê não sabe se vê ver vai mais além de olhar porém vê um femeão... Ih péra-lá, será a curiosidade lésbica![1] Não vai ao caso, caso possa interessar, interessa a bela. A bela tem um andar de fada, uns trejeitos feminis simples mas diretos a mexer com os homens no terminal; trocadilharia a dizer até mexer com um terminal, desse tipo de velhinho que bravata machuras conquistas e charmes, desse que tem muita goela na falta de vamos-ver e tudo o mais. Não interessa importa que a curiosidade se esbalda em vê-la (o ‘la’ é a bela, claro). Que colosso, que mercadoria, que mulherão! Uma tez amorenada da cor da gente da nação, sem quaisquer enganações, inclusive ela tem também cabelos ao natural – não oxida não pinta não tinge não finge não gringa o ver. Sem chegar ao ideal romântico; não, é um feijãozinho com arroz gostoso por bem temperado. Observa (não diz é lógico, pois a curiosidade é civilizada, só olha pensa deduz aprecia ‘come’ de vista porém não fala, mudinha mudinha) observa aquelas nádegas, sem que a bela as mostre; aquelas pernas roliças de dança; aqueles seios pequenos de virgem não deturpada pelos abusos nem usados pelos beiços chorões de um chorãozinho; claríssimo ser a bela solteira pura intacta porém bela, bela não só no papel do cartório e da taxação do governo aquele sem-vergonha. Todavia a curiosidade diz xô aos pensamentos impuros e volta à bela, à figura da bela. Seu ventre, ah o ventre, a curiosidade é louquinha por ventre, não o ventre caído decaído cansado usado abusado por mil partos, isto válido igualmente aos seios da bela. Não: um ventre que se conservou por mil anos incontáveis belo na bela. Seu porte é o da nobreza estudada e simples no ser; seu nariz não fere o todo; suas sobrancelhas aparadas na simplicidade da vaidade necessária somente; seus olhos são escuros como a pele mansa e bela; sua expressão não tem um quê sequer de arrogância, antes tendo aparência de sofrimento, sofrimento contido... Enfim parece dizer ao mundo que sabe de sobra sua própria beleza e o quanto vale como bela; do tipo de conhecimento que pode dar a segurança o equilíbrio a esperança, sem precisar dizer. A bela tem entretanto consciência que a consciência da vaidade a acha bela, ambas com razão. Mas também não diz, dissesse não seria bela. A bela no meio do povo não passaria de mais uma jovem bonita, não fosse linda. A completar, e nunca poder-se-ia ter a vanglória em completar algo, especialmente em se tratando de beleza feminina a qual não foi possível até hoje criar adjetivo a contento; a completar, o traje.  Ora, a curiosidade não tem cabedal a descrever vestes. Dirá, curiosamente a curiosidade, dirá sim que se traja bem a bela, no suficiente para, sendo como toda mulher moça, ser moça mulher diferente. Contudo a afiançar com garantia a limpeza o bom gosto em ser bem vestida, mais que as outras para ser apenas ela e conseguir sobressair-se às outras. Mais não tem a curiosidade, somente curiosidade mais nisso; e talvez ignorância. Todavia agradando. A bela agradando... Diria a falar ainda dos pés os pezinhos delicados, do corpo leve de modelo sem precisar passar fome em anorexia para se distinguir e virar miss qualquer coisa; das curvas, das linhas, das mãos. Ah as mãos – a bela não tem mãos! Teria o povo aloucado no terminal com suas filas seus cheiros suas cores seu confundir mexer cruzar enroscar trombar furtar furtado mesmo as mãos da pobre... A bela não as tem, literalmente não possui mãos!

III – Num hiato miúdo pode a curiosidade, numa crise da insensatez, afirmar que não tendo a bela mãos impossível o possível. Isto possível. Ora, sem belas mãos a bela lhe faltando o essencial – as mãos criam fazem defendem apontam ajudam ajuntam limpam mexem desinfetam recolhem escondem inclusive e perfazem o perfazer na sua perfeição ou colocam tudo ao caminho da perfeição por milênios passados e prometem séculos vindouros ainda mais aperfeiçoar o fazer – faltando enfim esse dado essencial, que fosse tão somente a completar a imagem duma bela: não tem a bela como ser bela nem fazer o que deve fazer uma bela. Embora, a bela tem suas mãos: uma acompanhante. Bonita? o óbvio pois toda mulher é bonita. Com a agravante de sendo a bela linda a sobrepujar as outras, a acompanhante limita-se apenas em ser bonita. Porém útil. Ou não seria as mãos da companheira. A curiosidade menos atacada de curiosidade mas com curiosidade bastante a segui-las desde as portas da cidade no alvoroço nas cores nos cheiros nos empurrões nos cordões a entrar na ganância do circular a levá-las ao centro urbano, a curiosidade notou que a bela apenas pôde, então já na loucura do terminal no centro, apenas pôde se coçar e se coçou graciosamente nas costas – ah como eram belas as costas! – apenas se coçando, sem o sem-gracismo da gente comum, a usar duma delicadeza e um torcer para conseguindo o coto no fim do antebraço tocar o prurido ou que fosse um cisco a sujar a vestimenta. Apenas isso. Pois de resto sobrou à amiga todos trabalhos: carrego de mochila pacotes a bolsa; não esta: esta se encontrando dependurada em alça longa nos ombros da bela; o transportar e os cuidados mais a amparar a bela, desde o avanço da turba feroz perdida em seu eu; e o indicar caminho à bela. Seriam as mãos o cicerone da bela, indagou a curiosidade então serena e sem bestialidades só em ver uma pessoa, bela, e outra pessoa, bonita. Foi a acompanhante quem em sorrisos caridosos pajeou a bela em todo trajeto e nas coisas pertinentes e necessárias, as mãos precisas que devem executar a quem não possa ter mãos. Eram duas mulheres, uma com quatro mãos, as suas e as inexistentes; outra mulher, bela embora apesar sem mãos, possuindo uns braços roliços terminados numa ponta fina pela inércia e desuso por bem uns dezenove anos. Então a curiosidade no ver a acompanhante viu como pormenor o final dos cotos enrugados a fazer supor um bebê sem mãos! Desse fugir no entanto, tornou a curiosidade à bela.

 

IV – A curiosidade se mostra a pensar, sem pretender o abuso filosófico pois nem um pouquinho teórica apenas idealista. A pensar apenas. Até nesta marca vimos uma bela amparada por mãos postiças, quiçá satisfatórias, chegando à cidade e observando atarantada o povão atarantado em confusão nada ideal e inclusive espantosa. Ela a se mostrar em beleza incomum metida e quase perdida em meio à beleza comum. Aí constatou – constatou a curiosidade, não chegando a perguntar a opinião da bela nisso – constatou a bela não ter mãos! Se cega, teria um guia a bengala ou ombro amigo para ver; se surda, uma voz dos sinais ou alguém versado em libra; se sem pés ou sem pernas, teria carregador ou uma cadeira de rodas com motor a se deslocar; mas não: não tem a bela as mãos! Daí percebeu a curiosidade a ajuda da ajudante auxiliando e fazendo as vezes das mãos da bela em falta das mãos. A carregar, a fazer o fazer à bela, a ser quem sabe a confidente da bela. Ou não poderia ser perfeitamente bela a bela. Não poderiam estas linhas despojar, despojando a extraordinária valia das mãos à bela, ficar além de tudo despojada inclusive de alguém a quem além dividir as dores os queixumes possíveis os problemas os dramas do dia a dia. Então a guia a ciceronear um caminho à bela.

Contudo a bela tem o seu eu. Seu íntimo, levemente mostrado qual a ponta de iceberg no mar na sua expressão de sofrimento contido.
Aparente à paz aparente, à aparente harmonia em aparentando equilíbrio e mesmo desnecessidade das faltas; em suma a parecer um ser normal e tão somente comum: embaixo da cinza mansa a brasa que queima e fere!
A bela, bela até na harmonia da superfície humana, tem humano sofrer, sofrer profundo. A curiosidade simplificaria num grito, fosse passível condensar num vocábulo a dor humana.
Sabe-se que lá fora, por sorte do conhecimento e demais curiosidades e sua prima ignorância, lá fora lá longe bem longe é a guerra a fome o desentendimento, a barafunda no ser. Em focos e mais focos no planeta os homens se xingam se ofendem se enfrentam se trucidam se matam, matam a paz a harmonia o bem. Guerra! a guerra é o coletivo do pensamento individual desarmonizado instado pelo egoísmo e o desmando, ela destroça ofende desarticula separa irmãos em detrimento de poucos irmãos se pensando mais iguais; sangra irmãos. Os desastres miúdos crescem somam em grupo a dor e a incompreensão; imedível, incomputável e é sequer de compreensão abrangente para ser inteligível; mais sendo matéria dos sentimentos do coração e do impegável. Contudo não deixando (infelizmente, lastima a curiosidade) não deixando pedra sobre pedra e um sofrer imenso; e sobrando a desolação como butim após a batalha na peleja; deixando o refazer, quiçá o nada ao tudo! Bem, esse o mal a dor a perda. Pois, diz a pensar a curiosidade vendo o mundo que é o mundo, um mundo de sofrer – pois a dor da bela, não obstante aparências normalidades e harmonias é ainda maior que todo o exposto da soma computada possível das dores individuais explodindo na coletiva na guerra na sofrência não obstante ignorância. Ah a pobreza da linguagem da curiosidade humana! Maior.
Ela é um grito. Que a moça bela deixa escapar sem querer mostrar no semblante. Só um grito. Como o abafado no pronto-socorro e no velório; como o da feira de quarta-feira a instar pelo freguês arredio; como o do adolescente e o da criança irresponsáveis; como o do som abusivo do carro que passa, o da celerada que estertora o rock a tilintar miúdos utensílios na vizinhança; o do manicômio ou o da superlotação carcerária; como o do pentecostal a impor milagres; como o do político em showmício a salvar desvalidos eleitores; como o do escândalo escandalizando indignações; como o do extrovertido no rodeio e no leilão televizados; como o do preço e o do desespero no desemprego; como o do machão pisoteando o lar; como o da vizinha que fala sem parar seus segredos em alta voz do ontem do hoje do amanhã do sempre!? como o da caixa de som destravada do vendedor ambulante ou do rádio escancarado na madrugada sonolenta; como o da marreta martelando a bigorna da verdade; como o do temor e o do silêncio da consciência pesada; como o da negrura silente do inconsciente exaltado; como o do animal ferido na jaula; como o da locomotiva na morte do trem; como o do inaudível do para-suicida no limiar da insanidade; como o do fraco que não pode segurar o lamento; como o do traído envergonhado  na vingança insatisfeita; como o da criança a nascer e o do velho ao morrer, ambos indefesos; como o do que clama no deserto e o do que é eliminado na solidão em plena multidão; como o do homem comum que pensa na gritaria macabra do inferno ofendendo o silêncio do paraíso; como o incomodável da consciência culpada; como o do bêbado no bar do torcedor no campo do náufrago a afundar; como o grito distinto do indistinto, um grito que morre no tempo; ou como o da boneca que grita sim mas não ouve a curiosidade surda. Por dentro dela, da bela, é o grito que se não escuta...

V - É o grito que não se ouve e no entanto a bela olha a multidão in-loucura consumada e não sabe a curiosidade se a bela vê, olhar não é ver. Em contrapartida também o povo olha pros lados da bela, talvez percebendo um lindo exemplar fêmeo, sobretudo no pensar da macharia desocupada necessitante; olha igualmente a femearia analisando a vestimenta daquela estrangeira no meio estranho – ambos grupos apenas olhando igual ela, sem ver... ora, por que somente a curiosidade com direito ao dever da limitação nas profundidades em perceber as coisas! Olha a bela o fora, vê o dentro; sente o grito escuta o grito bem nítido e é um grito que se avoluma mais e mais, fazendo já dezenove janeiros dezenove fevereiros dezenove abris e já temendo dezenove dezembros... Num átimo que o segundo se esqueceu de registrar – sente.
A dor volta, como que em vômito ferino do alimento estragado que deglutiu, forçadamente que seja mas engoliu e agora lhe torna em sabor especial: o gosto da amargura!
A guia a ciceronear o caminho e a fiscalizar objetos a elas pertencentes, em vista o medo que a cultura popular criou por causa dos aproveitadores e exploradores, dos maus e dos inconscientes, a guia se aproxima olha sente pressente o estourar da crise na amiga bela sim, frágil e sofredora decerto, então no limiar do descontrole e da ingovernabilidade... Toca-lhe, cicia, defende um patrimônio. A bela neste ponto chora e lava a alma. A outra tão só pode oferecer-lhe o lenço e o carinho de sua presença; não sendo uma solução mas razoável paliativo. Prosseguem.
Andam observam comparam compram combinam saem voltam, se perdem na multidão. A bela inclusive sorri, não sabendo o gargalhar, gargalhar ainda assim seria um educado e apresentável, sem macular a delicadeza de seu ser.
Nessa altura, com todos cansaços pertinentes e inteligíveis, se recolhem à hospedaria, uma nada cheia de estrelas porém ambiente de aceitável moral e satisfatória às bolsas.
A bela finge dormir. A guia sai em busca de algo. A bela embaralha sua cabeça, cheia, a estourar. Vomita o vômito, agora pensamentos lamentos excrementos dos sofrimentos. Vê, vê claramente o dia de ontem, o qual extrapolou as vinte e quatro horas esbarrando nos dezenove dezembros em beleza pura de janeiros inocentes e anteriores promesssas. Olha em relance os cotos em tocos de mãos, o que seriam mãos, as mãos de carinhar primeiro seu grande amor e depois o filhinho do grande amor; emporcalham-na as discriminações as limitações diárias ano após ano; olha em relance o futuro sem futuro. Entrevê exloradores estupradores aproveitadores a fustigar-lhe o ser. Chora, se desespera, não tem arrimo nem lenço agora. Chora abafa chora.
Por fim, a emotividade no estouro, abre empurrando a porta, esta é de fato em saída, sem volta quem sabe sabe menos a curiosidade temerosa... Ganha o fora ganha a rua, abre os braços; quereria pegar o mundo sem as mãos!? ou a abarcar a liberdade (que seria a liberdade?) sai, liberta, sai a correr no movimento do movimento impensado e impensável da gente; todos olham, todos vêem? atravessa com as forças da desarmonia a via pública, a rua o carro o choque o grito a morte.
Marília   abril  2008











         



           


[1]  Cabe aqui uma desexplicação, visto a explicação nunca explicar. Seguinte: somos machos ou fêmeos e na pior das hipóteses macho-e-fêmea ao mesmo tempo. Posto isso, não é isso é aquilo.  Embora nome feminino a curiosidade é ‘o’ curiosidade por viver para conviver cinquenta anos como homem, macho pra valer grita o caipira e o resto da macharia existente. Assim cabe aqui aí em cima direito e valor à descrição da bela, bela do tipo de fechar o comércio e daí todo mundo, até as mulheres balconistas, a correr ver a dita cuja passando. Sem, note-se, sem a curiosidade precisar ser lésbica bicha transsexual etc. e tal.

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