Torre sem
Marfim
1° - Na verdade
sequer se assustou com o edifício de quarenta e quatro andares, espantou-se foi
com o fato ter que subir os quarenta e quatro a pé pela escada, esta a
serpentear o miolo do prédio desde a entrada até o fim, dito de quarenta e
quatro pavimentos! Não, o sujeito sujeito a crises de otimismo – o que grave
num país que entra ano sai ano vive a do pessimismo, o dólar sobe desce, desce
a confiança embora cresça a burra do fisco bem mais que a violência – bem grave
ter otimismo ainda na portaria com porteiro novo e tendo a encarar a escada infindável
(que se garantiu findar no 44° lá em cima). O novo e desconhecido funcionário,
ao seu chocalho de chaves a mostrar-lhe aquela do seu apartamento 4201, aceitou
que fosse tal o morador porém esclareceu o elevador estar quebrado – que
subisse os 44 lance a lance na escada de todos, ou esperasse... a empresa dera
uma semana à regularização; esperasse os sete dias podendo alargar para nove
dez onze dias; “o senhor sabe como são as coisas...” Sabia. Tanto assim que
resolveu encarar a escadaria. Já antes do primeiro pavimento olhou pessimista
lá pra cima sequer vendo em cima, a imagem se grudando à imagem ‘nebulando’
tudo; com tudo deu mais passos para o alto, agora limitando pois conscientizou não
precisar chegar no 44° morando no 42°, o que dá uma economia energética não
havendo desgaste nos dois últimos andares, bem uns vinte metros a menos no
esforço.
Quê
podia fazer! Tinha de chegar em casa descansar comer descansar mais um pouco;
quiçá enganar o computador e a tevê emendando o descanso em sono e sonho. O pesadelo
era agora, nos primeiros lances da escada.
A
gente nunca pensa nessa desagradável situação, pois que diário e várias vezes
no dia desce à rua sobe da rua, por desfastio e por vezes para no meio a
visitar um vizinho, desses que não sabem parar de contar sua rica vida, todo o
universo voltado a si interessado nessa suculenta estória que é a história dum
homem comum. Enfim mata-se o tempo que nos mata na distração duma conversa sem
fim; visto o vizinho já quase no final da narrativa se lembrar o par de orelhas
ali na sua frente ter igualmente boca e/ou história ou estória. Se falam se
ouvem e as horas têm paciência.
Sim
desce sobe desce outra vez porque sempre nos esquecemos dalgumas coisas ou
compradas no supermercado ou esquecidas no supermercado ou desce por causa da
porcaria, que é ir trabalhar: porcaria porque o chefe é chato e exigente embora
o salário bem pouco exigente ou a inflação que não é nada exigente, nem
exigente o fisco que engorda esbanja e se satisfaz na corrupção – tudo nas
costas da gente, dele por extensão, dele um sujeito sujeito a subir os 44, ou
optar esperar dormir na casa dos outros ou até no hotel, visto nos parentes ser
dose aguentar: a gente quer esquecer, o parente quer lembrar; e lembra mais
outra e outra coisa vende seu peixe a gente nem descansa nem dorme; daí é outro
dia, dia de trabalho. Por que não dormiu ali no sagão do edifício o edifício
parecendo arranhar o céu lá em cima, no 44° andar! ah pobres dos que moram no
43 no 44 ele só no 42 pensou otimista. Ou porque não dormiu na rua mesmo; por
que motivo não na via pública se os moradores de rua não têm escolha, tenho escolha
se disse o sujeito sujeito a ter que tornar ao apartamento, isso pensando
conversando consigo mesmo nos primeiros lances, já resolvido enfrentar a
escadaria se enroscando feito serpente pra cima.
2° - Contudo
começou a subir, até rápido, otimista, corajoso, forte, leve, leve! qual o quê,
logo descobriu, descobrira fazia muitos anos pesar um pouco... bastante, com o
ventre pronunciado grande volumoso pesadão – desses que a gente olha e não vê,
vê banha e massa a cobrir os olhos quando a gente querendo enxergar vendo
apenas as pontas dos pés calçados naqueles chinelos de borracha dentro de casa;
ora, fora agora ora, visto ter saído ao trabalho na empresa; o chefe quer só
ele ser chato não deixar aos outros funcionários serem chatos mais chatos que
ele – e tendo ido trabalhar voltando nessa hora fora de hora do trabalho e não
estando em chinelos (o chefe dizia “chinelas”, ainda a cantar no falar, só
mesmo a irritar irritá-lo) sim, não estando de chinelos e que horror subir com
chinelos enganchar chinelos nas sobrinhas do mármore nos degraus da escada a
ser serpente se enrolando se encaracolando a subir sumir lá em cima... lá no
44° andar. Bem, mal começara, andou pra cima mais uma das curvas do corpo da
cobra feito escada: tinha pela frente pro altão mais 40 andares, não mais.
Firmou-se, firmou equilibrando a paciência a coragem a disposição e prosseguiu
lentamente. Claro, não ia correr num afogadilho engatilhado a desembestar qual
garoto: tendo à retaguarda bem uns cinquenta anos de vida na existência;
repensou o pensar a pesar meses, em setembro sim faria cinquenta, recontou usou
dedos a fixar melhor a operação na mente e concluiu ser de fato 50 mas,
aliviado e otimista, sentiu ainda ter 49 apenas. E um homem de quarenta e nove
por mais barrigudo e pesado ainda novo e forte, forte a superar escada comprida
encaramujada qual serpente se enrolando até sumir no escuro do longe. Forte e
corajoso foi assim lento, não a disparar, mesmo porque não era mais moleque
porém homem feito nos 49 anos; necessário, se disse, respeitar a limitação que
os anos exigem. Devagar. Devagar somando. Somava já (lembrou o otimismo) cinco
pavimentos, os sons da rua amenizavam diminuíam, os carros em velocidade no
sábado sem problemas de trânsito na cidade grande poluída barulhenta semana
toda, agora livres os condutores a pisar tranquilos no acelerador; até pedestres
poucos a passar a falar a barulhar pouco e, melhormente, ele se distanciava disso,
segundo afirmação da distância lá pra cima quase no sexto. Subiu mais um pouco,
bastante conforme o otimismo presente. O pessimismo de colher torta gritou-lhe
o peso do cansaço da semana e o cansaço de agora para agora no fim na conscientização
do cansaço também lembrar na balança a barriga. Ah que pança atrevida! Tirou a
exclamação para diminuir o pessimismo e prosseguiu. Assim se elevando ao nível
do solo bem uns dez pavimentos, dos bem medidos e dos bem a se esquecer jurando
o otimismo apenas restarem 34 andares, 32 lembraram mais bem ainda seu
otimismo. Aí, lá nessa altura das alturas, se reconheceu cansado, não entregue
porque não se entregaria e melhormente desceria os 10, mostraria a língua ao novo
porteiro e se estivesse na portaria o ascensorista com seu elevador quebrado e
por isso descansando mostraria duas vezes o bico ao inoperante; desceria dez,
andaria mais dez, agora dez quarteirões a procurar um conhecido (e que chato, ter
de contar explicar nos mínimos o sofrimento e o porquê do sofrimento ao
conhecido; não:) não, nada disso, se prostraria na rua na frente do prédio a
arranhar os céus nos seus 44 andares parados feito torre – ora ora por que não
se excluiu do concerto dos homens, ficando quieto na sua torre de marfim
isolado sem problemas; mas se nós procuramos encontramos problemas; com ou sem
marfim olharia o prédio vetusto de 44! Se entregaria prostrado no chão, quem
sabe a inculpar o funcionário novo desconhecido que ao desconhecido, ele,
garantiu defeituosa a maquinaria do elevador, sugerindo e induzindo o morador a
subir pela escada. Não importa e daí se amontoou, na visão da imaginação, como
corpo inerte prostrado pelo cansaço extenuado isso sim na frente do frontal do
asa... Tinha o asa-sul e o gêmeo asa-norte e isto senão disso, daquele trabalho
lento e cansativo de subir 44 andares, andando a subir os degraus da escada
enrolando dando voltas a cada andar subido e que ele já descansado, em parte
havendo parado, podendo refeito enfim prosseguir, ou não chegava à casa. Aqui o
pessimismo gritou-lhe: “tem mais 34 pra cima, seu burro!” o otimismo berrou-lhe
mais alto que o alto “34 a chegar” (sim, um dia,
talvez, mordiscou o pessimismo) “não senhor... e além do mais sendo 32 apenas,
contando com essas pernas fortes, esses pés sãos!” Sãos coisa alguma: “estão”
por enquanto sãos, fala o anjo mau a irritar.
O
sujeito sujeito a crises de otimismo abalançou a cabeça aos brigões e se pôs,
então de pé estava sentado na escada, se colocou a andar sempre pra cima,
deixou de lado a maluqueira que seria descer dez mostrar dez línguas ao
funcionário novato e vinte ao ascensorista e ainda ganhando não ter que explicar
tudinho no tim-tim por tim-tim ao amigo lá dez quarteirões distante do asa
(imagine andar dez quadras para achar a casa do outro!)
Não,
chega de tró-ló-ló. Olhou em volta e pôs o dedo indicador na ponta do nariz
como haste pra cima tapando um pouco a boca e falou, agora mansinho, “vocês
dois parem de brigar!”
3° - Os brigões
em briga pararam, mesmo que temporariamente. Ele prosseguiu na sua jornada para
cima; para cima somando mais dez chegando ao 20° andar. 20° constatou provando
a si mesmo a olhar a porta, fechada, do elevador aberto aos consertos, segundo
aquele instigador de raivas lá embaixo na portaria, novato e já sabendo,
lógico, de algo sério errado terrível que era o estrago no elevador; ora, ele
não estaria já de velho no seu apartamento não fosse o elevador avariado se o
elevador funcionando!! Mas provou-se o vencimento do 20° andar olhando o
anúncio morto de quando vivo o elevador: o botão comutador indicava
subir-descer do 20° para o 21° ou 19° se se quisesse pra baixo; não tinha
escolha. Examinou sim estar no 20° pavimento. Então aproveitou no retorno às
lides da escada na curva olhar pela janelinha. Ali e dali vendo o panorama
urbano: uma cidade em movimento nessa tarde, tardinha e ele ainda no meio do trajeto
na escada! O anjo bom falou um cala a boca ao pessimismo, o sujeito sorriu
disso e para sua defesa – continuando a subir. Olhara pela vidraça da janelinha
de quase bordo a vista panorâmica de uma cidade cansada tanto trabalho
violência poluição e violências outras durante longa semana, mais calma agora
nesse fim de semana no descanso... Descanso! tenho ainda 24 pavimentos pra
cima! cutucou-lhe em sorrisos o otimismo só 24, e não 24 propriamente sim 22
andares já venceu 20 longos andares!! Exato, 22 pois moro no apartamento 4201,
se bem me alembro. Assim mais dez, agora mais devagar mais cansado, mais
desalentado lembrou o diabo, “não caro colega: apenas um pouquinho cansado,
pô”, redarguiu o otimismo. Estou no 34° nesta altura da altura, o visor na
janela ao vento uivante, só este com força a cidade lá embaixo fustigada e decerto
parada cansada preste ao domingo sem compromisso, o visor mostra isso disso.
Realmente verdadeiro, eu por meu lado sei (pensou não disse ninguém ouvindo)
sim é verdade que me encontro entregue... que ao menos me tivesse sumido a
barriga neste esforço a vencer cansar suar cheirar, certamente ando a feder
horrores e cadê o desodorante que esqueci de comprar! que ao menos ela já
estivesse emurchecida ou desaparecida melhor seria e seria menos peso aos pés
às pernas bambas carregar...
Então
me curvo ao cansaço e me sento na escada, o condomínio deveria ter pensado que
mesmo não fosse o estrago do elevador mas um apagão elétrico na cidade lá em
baixo afetando aqui em cima – daí necessário um banco uma cadeira aos
condôminos descansarem, pois na hipótese o elevador sem energia, mudo no seu
barulho descer-subir-enganchar-abrir-fechar portas engastalhar portas e o
plim-plim do aviso da sineta ou da chegada ou das portas a fechar-se e... ah
que bobagem: o elevador parado! Não pensaram na gente precisando botar a bunda
do cansaço por falta de luz e sobra caminhar pela escadaria...
Só
aí se pôs – sentado num lance da serpente – só aí pensando lembrando, se
distraindo ou enganando o cansaço.
4° - Que diabo,
eles, o síndico é uma síndica velha gorda solteirona e chata, ela não imaginou
o meu caso agora cansado em deixar na saída da entrada do elevador quando
funcionava um banco pra quem necessitado descansar, os velhinhos eu não, tenho
quarenta e nove somente e agora subindo 34 andares não mereço o prêmio dum
banco e o descanso num banco! não, não pensa, ela não imagina. Um síndico só
quer cobrar cobrar cobrar e pôr na rua o condômino inadimplente. Mas têm outras
encrencas nesta torre tão alta. Não digo os moradores não, não, digo sim. Tem apartamento
que nunca vi, vi e nem conheço os moradore, desconheço por não saber igual
outros moradores, é claro: como privar com mil habitantes; neste asa de 44
andares residem tantos que muitas cidadezinhas não o superam. Então, conhecer
todos, talvez ver todos sim e saber todos? Aqui no 34° mesmo... não no 34°
nunca ouvi nada porém no 30° quando vez por outra paro escuto o brigar, parece
um casal violento entra ano sai ano discute – entretanto ambos passam pela
gente no sagão lá embaixo e cumprimentam e se beijam como santos... Tem noutros
andares outras encrenquinhas, como as crianças no 21°; uma vez parei curioso
ali ouvindo a grita e os desaforos, coisas de família e tudo o mais, hoje não
escutei coisa alguma; mais drama devem existir nas casas bem constituídas
contudo não me meto, sou só e o só me basta. Lá no meu apartamento é o
silêncio, ah que saudade de minha vida tranquila. Bem, bem tranquila não é, é
inclusive irritante a festa costumeira no 43°, exato no apartamento 4301 em
cima do meu e não adianta acionar o síndico a síndica, ela não faz nada! decerto
apenas pinta as unhas se trata com seus cosméticos; de noite sem festa o
apartamento 01 do 43° não é mais que um andar no andar, parece que todos
sapateiam ou é que têm saltos altos fortes barulhentos de estrondar a cabeça da
gente. Esse negócio de pegar a vassoura de pelos pelos pelos e empurrar com o
cabo cutucando o teto pra lembrar o vizinho haver o vizinho aqui embaixo, não
funciona. Um dia de noite, cansado ouvir o esbanjo lá em cima da cabeça me
dispus a ir reclamar direto com eles; então cheguei botar o dedo no botão do elevador
(claro estar funcionando, só agora se quebrou) aguardei chegar demorado o plift
ploft de abrir portas do elevador, quase entrei nessa prisãozinha (ai como
seria bom aberta funcionando hoje essa prisão!) Quase, desisti ainda aguardei
que alguém já naquela madrugada exigisse noutros andares abaixo o serviço da
geringonça, para, ela fechada de novo, desistir de vez do drama e da ânsia que
me dava ir queixar-me a desconhecidos dos conhecidos barulhos festivos e
eternos à minha paciência, que me dava sim tais problemas e felizmente desisti
ir brigar lá em cima, infelizmente não encetando mais o sono pelo resto da
madrugada.
Contudo
é capaz ter mil outros problemas e mil e uma mais confusões num prédio tão alto
como este asa de 44 cansativos pavimentos; não, mais cansativo a escada feito
caracol enrolando qual serpente num zigue-zague de voltas em volta no miolo da
construção, de par com o elevador mudo surdo seco parado por conserto e sem
concerto desarmonizando a gente; a gente do 4201 por exemplo.
Noto
não com surpresa... não, surpreso ficaria ouvir gente, eu subindo a escadona;
noto haver silêncio, silêncio quase sepulcral; ouço nitidamente o barulho agora
mais manso porém não daqui e sim da urbe lá embaixo, a diminuir conforme subo –
diz o sujeito sujeito a crises de otimismo – noto certo silêncio me parecendo
esta construção um túmulo de 44 gavetas, uma em cima de outra, mudas hoje.
Claro ser por conta do elevador avariado e daí como subir, muito pior que
descer; descer o andar, andar por andar, antes cheio de vida agora tudo morto;
e isto em virtude, não é propriamente virtude, em virtude do não funcionamento
do elevador: as pessoas não se movimentam ou se encolhem nos seus respectivos
apartamentos, ou elas iriam feito loucas... puxa sou louco! “sim”: gozou o
pessimismo, “não”: defendeu o otimismo – iriam feito doidas descer e terem que
depois subirem, que fosse tão só ao 5° e diriam ir aos quintos, ah isto a um
bom cansaço de 49 anos não tem mais graça; “apoiado!” mordiscou o anjo mau –
teriam que enfrentar a escada e é fácil deduzir que todos (menos o do 4201) não
o fizeram. O que deve ter ocorrido é decerto estarem antes avisados os
apartamentos e assim, sobretudo idosos, foram uns dias morar com parentes lá em
baixo ou lá em cima em prédios com elevador, funcionando; e mais pessoas indo a
hotéis ou a casas de amigos enquanto... Uh, lamenta o sujeito, por que fui tão
cabeça dura! Sorriram enigmáticos ambos anjos, por razões opostas o bom o mau.
Puxa,
faz horas estou a descansar recuperar forças. Vou pra cima, enfrento esta cobra
a ziguezaguear e chego nesta noite ainda no meu querido apartamento. Ainda bem
tendo energia e se fosse apagão, tenho ao menos a luzinha fraca na escadaria a
iluminar vãos e assim posso encarar bem os dez andares restantes. Pior, lembrou
o bom amigo, pior fosse no primeiro mundo o prédio porque lá os edifícios são
de mais de 100 andares! enquanto o seu apenas com 44, você tem sorte a morar no
42°, já é menos e menos muito menos ainda fosse mais de 100... Sorriu o sujeito
sujeito, pelo otimismo otimista. Continuou.
5° -
Descortinava à sua frente, frente ao alto duma escada, quilométrica quando
estamos estafados, ele à beira da estafa; ele sujeito sujeito às crises
eventuais de otimismo numa terra pessimista, nada por ser tão poluída mas
talvez pela população cansada já de tanto abuso na violência na poluição na corrupção
na destruição na autodesestimação e na autopunição; o sujeito assim olhou viu
sentiu apreendeu estar pelo fim na escada serpenteada sem-fim, enfim, e
concluiu num relance ter mais 10 andares para andar rumo à frente, a qual se
sabe lá no alto numérica e quase simbolicamente como sendo o 44° pavimento.
Lógico haver ainda um e seria o 45°, onde o aposento do zelador e onde
empilhados os instrumentos os restos usáveis do edifício e claro, claro mesmo,
mil antenas de televisão e os fios e demais tranqueiras quebradas e/ou enferrujadas.
Contudo tudo isto não interessando no apartamento 4201 e portanto no 42° andar.
Apenas faltando isso, os últimos, assoprou-lhe o santo; e o diabo assopra
“ainda 10!” ainda pôs exclamação para ferir mais e melhor o sujeito assim sujeito.
Dava
então – até poderia ter algumas paradas interrompendo aquela agora cada vez
mais lenta caminhada quase dando contar passos, primeiro no uso da direita que
era perna avariada pesada inchada, a buscar o degrau de cima; firmando então na
direita e aí, aí sim, levantava lento cansado meio amarrada nas câibras a perna
esquerda para mudar o passo – dava então para pensar claro nas coisas a vir e
nas já passadas inclusive enquanto andando, quer dizer subindo a carregar todo
o peso do mundo, isto porque um corpo de 50 anos (49 gritou, agora imprudente,
o otimismo) e mais o ventre pronunciado pesado volumoso cheio... de vento!?
nunca um estômago tão mal acostumado aceitaria não haver feito realimentação,
de preferência com viandas gordurosas e bastante; mesmo num imprevisto
como encontrar elevador destroçado e
aquela bateção de martelo e o bangue-pum doutras ferramentas a assustar o silêncio
dum planeta nada comportado. Como!? como? indagou aquele estômago louco
engolidor de protídios lipídios glicídos e outras porcarias em tranqueira da
indústria de refrigerantes ‘daite’ ‘laite’ de hoje, ontem isso acontecera aconteceu,
aconteceu de o sujeito bem sujeito se espantar, não com a escada de mil degraus
nos lances de 44 (ou 45? vamos desprezar um honesto e trabalhador da
zeladoria!) – não com isso, com aquilo, aquilo sendo as necessidades dum bucho
mal acostumado fazendo jejum! mesmo porque, que ficasse o resto do soma
deduzindo com fome ou sem fome no cansaço bastante, mas e o estômago e a soma
das tripas enroladas (e cheias! ai que horror e que fedor) enroladas tal
qualmente o enrolado da escada...
Aí
parou; ou seja parou suspendendo talvez um pouco o raciocínio e um pouquinho a
caminhada pro alto o sujeito sujeito etc. e tal. Todavia não parando de andar,
quer dizer caminhar, ou chegaria amanhã ou no fim de semana da outra semana?
continuou porém andando subindo e também pensando a ‘minhocar’ suas coisas.
De
fato, não comera – bem entendido: no refeitório da empresa, ainda mais o chefe
aquele chatérrimo sentado na mesinha próxima... Não, sim isso não acontecera e
poderia haver optado, fosse estar em vias de acontecer, haver optado ir a um restaurante
fora na hora, ora não era livre no horário de almoço. Fim de semana, indo já
livre do serviço e de um chato de galocha investido na posição de chefia e
assim voltando pra casa lá nas alturas do asa, mais correto dizer anseio ao 42°
andar, com óbices da encrenca do elevador encrencado; e se o funcionário
estivesse então no informe enganado! haveria língua suficiente para mostrar?
Bem,
o mal é que se pegou realmente sem haver almoçado, jantado já agora, e portanto
sem alimento; o otimismo lembrando: não precisou também pagar a conta. Certo. E
o pessimismo involuntário mas voluntarioso e metedor com seu bedelho grita:
você seu bobo irá morrer de fome?
Não
tinha fome então. Então, sem precisar ter palpites positivo e/ou negativo,
lembrou-se quantas vezes teve de abrir a sacola de supermercado; a primeira
coisa que fez foi beber toda água comprada, dessas minerais sem gás de boa
marca de péssima procedência. Assim não tendo líquido mais a repor o suor de 30
e tantos andares no andar cansado já arrastado. Não tendo importância isso pois
perto seu apartamento nessa altura, ele na altura de menos de 10 pavimentos a
vencer e aí – aí sim abrindo a sua geladeira (oh que bom, visto fosse a pane
elétrica...) tomaria tudo a que tivesse direito; na pior das hipóteses de
faltas, não faltando água na caixa de reservatório do prédio, lembrou o abelhudo
otimista; faltam ainda repisou ‘ainda’ os 8 pavimentões pra cima a fim de
chegar seu 42° disse sorrindo vitorioso o anjo mau. Sim, ainda problema com a
garrafa de água agora vazia daí atirou o frasco da mesma na lixeira do andar em
que se encontrava, a síndica nisso correta e não queria papéis e outras
sujeiras nos corredores, ai que horror ler reler editais dela nesse sentido –
depositou o plástico da garrafa de plástico sem água no lugar adequado.
Porém
e a fome! Verdade que não sentira, engodado pelo exercício de vencer a escada
empinada pra cima, não sentira muita fome só um pouco a fome, fome desperta com
todas características duma fome completa. Sem ter parado de comer... Na verdade
também passara no supermercado, os pobres servidores da loja nem no fim de
semana livres; então, então passou no da esquina que era do seu costume passar
comprar visitar, entrou adquiriu pagou saiu rumo ao seu prédio asa – foi quando
o novato porteiro a dizer do velho elevador novamente estragado e a ouvir a
bateção dos técnicos lá no fosso do elevador e a subida pela escada que então
já andava vazia: os outros moradores ou foram enquanto o conserto às casas
conhecidas ou se enfurnaram em seus respectivos apartamentos; claro isto não
valendo aos dois primeiros pavimentos porque o que custa subir-descer dois
andares! nisso até os velhinhos... não ele, ele com apenas 49 janeiros.
Comeu
esvasiou as sacolas adredemente conseguidas no supermercado; sustentara aquele
peso de cortar ferir em calos as mãos e que fazer se necessitando repor a
comida no seu apartamento? Vazias, obedeceu aquela azucrinante síndica e depositou
a embalagem numa das lixeiras do 5° ao 15° andares, nem lembrando na de qual pavimento.
Agora não era o peso das sacolas cheias – sim esquecera algo quando da compra
porém isso resolveria noutras visitas à loja na outra semana; agora braços
livres e as mãos livres também a grudar-se no corrimão, cada vez mais para
frente e para o alto precisando auxílio do dito corrimão, o que norma de
segurança. Portanto comeu e não passando fome como queria a oposição; mesmo
porque otimista, embora sujeito sujeito à crise na manifestação.
Isso
posto, ou por causa disso, mais pesava a barriga. Assim já se deslocava com
certa dificuldade na escada. Bufava sem direito a uf. Mesmo porque isto, ou
seja tal expediente, exigia chegar entrar etc. no seu apartamento. Aliás
sonhava acordado nesse pesadelo do elevador quebrado e suas pernas teimando em
não mais querer subir a escadaria, sonhava sim com a chegada. E o lembrete,
seja lá da oposição ou da situação, esta representada pelo anjo bom do
otimismo, o qual nem percebendo crise; esse lembrete lhe deu forças para, não
muito mais depressa mas com mais ânimo, andar marchar subir vencer o restante
dos lances da escada. E curiosamente num até que enfim chegar – deixando que a
serpente continuasse se enrolando feito caracol lá pra cima rumo ao 43 ao 44
quiçá 45° do zelador, as partes de cima quase nada interessando.
6° - Chegava
assim ao final da torre, em meio ela também outras torres que a vista mostrava
para quem olhasse. Uma outra ali apegada, geminada arquitetonicamente falando,
ao seu prédio asa, asa assim chamados ambos, agora na janela do 41° andar via,
achando belos. Subiu, então quase correndo com o combustível do ânimo disparado
que dá um início do fim. Enfim, o final. Encostou-se na mureta um pouco curva
da escada, donde percebeu o saguão iluminado nessa madrugada do seu andar, o
andar do apartamento 4201. Tomou trêmulo, na tremura que dá tanto desgaste
tanto cansaço e tanta alegria encontrar a casa, sua casa; tomou o molho, separou
a chave entre chaves e isto é o costume não pensa apenas confirma-se; e nisso
aquece um coração... Quase não seria exagero do exagero afirmar haver reencontrado
seu amor, porque a um solitário solteirão o apartamento escondido e
inexpugnável é o abrigo, abrigo inviolável do homem reza a constituição,
equivalendo à companheira que falta. Em razão disso tudo, tudo em si era então
a felicidade!
Colocou
a chave no buraco da fechadura... ora ora, só faltava essa! olhou desesperado
primeiro ao otimismo, mudo, depois ao pessimismo que lhe mostrou um bico
ilegível a todos analfabetos. Ora bolas – após vencer a escada o funcionário novo
o elevador velho e nem funcionando o chefe ranzinza a síndica chata e o
cansaço, mas este não o abandonaria tão cedo – após vencer... e ao vencedor não
lhe caberiam as batatas! sim, pois que a vitória não era total porém parcial
tendo o óbice agora de a chave não entrar, entrar sim girar sim não abrir a
tranca!
Contudo
não se entrega; antes dessa possibilidade olha para os dois palpiteiros: eles
nem resmungo. Nem assim se entrega: examina experimenta todas outras chaves até
ao extremo de usar a habitualmente enguiçada do seu armário lá na firma, isto
para confirmar a burrice humana. Nada.
Nada!
fizera na operação frustrada certo barulho, barulhinho desses de incomodar o
morador temente de ladrões. Ora que coisa, ladrão numa altura dessas no prédio
a dormir sua madrugada e isolado pelo estrago do elevador!? Qual o louco profissional
especializado no alheio a subir semelhante alguém na escadaria, a fim roubar um
apartamente tão alto! Não seria absurdo?
Não é um absurdo?
Era
absurdo. Tanto assim que o morador do 4201 se levantou e cuidadosa e
temerosamente abriu a porta – se deparando com um sujeito pra lá de espantado,
igual o morador magrela assustado com a ‘visita’ em hora inadequada, que além
do mais a apresentar imensa pança parecendo sancho.
Se
falaram, o residente da residência, o apartamento 4201, esse quase não
conseguindo falar, falava mais a esposa dele, a olharem perplexos ambos aquilo;
aquilo trata-se dum homem barrigudo na
madrugada mal alumiada exibindo cansaço e barriga proeminente, a disparar
querer e exigir explicação de invasão no seu apartamento.
Ao
final das contas, já calmos ambos morador e ‘morador’, calmo o trio somando com
a esposa residente; e poderia ser acrescidos os anjos bom e mau na discussão,
numa exaustão mas civilizadamente; ao final o sujeito sujeito às crises de otimismo
a qualquer preço pagou o preço da realidade quiçá da verdade. Sim, disse o
morador no prédio do elevador quebrado, sim senhor o número do apartamento é
esse mas o edifício asa-norte é o do lado, este é asa-sul.
Alguém
terá despencado, quem sabe a dormir-quase-morto na casa de estranho, estranho
isto pra quem não quisera procurar hotel ou residência de amigos.
Marília agosto
2013
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