quarta-feira, 7 de agosto de 2019

Viagem à Capital


Viagem à Capital


1.Preambulinho Explicativo
O compadre desconhece essas coisas, as coisas vou pôr nos mínimos detalhes procê entender; essas coisas de viagem de prêmio de conquista de valorização; coisas que aqui não se pode compreender – passa, Lulu! esse cachorro é um cachorro, não sai do pé da gente. Porque, Compadre, a parenta de muitos graus ganhou um prêmio, ocê não sabe... vamos ver uma comparação: coisa assim de receber em herança uma fazenda maior que a do coronel e ainda ganhando em lambuja o Lulu, passa táxi de pulga, vai coçar suas nojeiras pra lá! Ainda mais com passagem e estadia e volta e louros da vitória. Bem, digamos, Compadre – xô galinha atrevida, chiite disgramada, ah Compadre, se deixar elas entram na sala na cozinha no banheiro no quarto: aí defecam na cama da gente – chiiiite maldita; digamos que ela, elinha ocê vai saber depois, ela ganhou também, além do prêmio aquém pois merecia mais, ganhou sim a passagem (aqui ida e volta, e não é de segunda não: de primeira classe, de aeroplano desses supersônicos da nasa e tudo o mais!) O que deu um trabalhão danado... depois eu conto. E mais: ganhou certo prêmio em dinheiro vivo além do prêmio moral, um dinheirão em torno de cinco mil réis! Aliás o tal prêmio foi entregue solenemente, depois eu conto. Chiiite penuda safadona, a gente toca some, volta, toca, torna – já viu bicho mais atrevido, Compadre?

2.O Preparo da Viagem
Vai escutando meu Compadre, passa! o Lulu, Compadre. Eu falei, ocê sabe que parente é doidinho pra dar palpite, se for sogra então aí pior parente e mais palpiteia: leva isso, cuidado com aquilo, não esquece a... sou parente também mas mais manso e assim mesmo falei prelinha (tem metrinho e meio de altura): Virgem (realmente Virgem da Silva) Virgem minha querida, por que não vai a cavalo no burro do seu tio, o burro é mula porém quase não dá coice e não é demais teimosa, ocê é mais que a mula, falei prelinha; teimou não me escutar, nem ouviu. Vai a cavalo, se quiser tomo emprestado a égua do compadre, Compadre: sei que não me negaria se eu pedisse. Teimou. Queria ir de Airbus Boeing Ônibus-Espacial essas coisas, que são mais chiques. Chiquérrimo elinha falou. Não não, Compadre – é outra coisa chiqueiro, um avião é limpíssimo, sei disso um dia subi num teco-teco, sem coragem de voar, olhei a limpeza daquilo e fiquei impressionado. Bateu o pé a parentinha. Depois verá, Compadre, chite amontoado de penas com papo cheio de bichinhos e pedrinhas, agora veio ciscar com os pintos, tem um que o gavião comeu outro dia, uma ninhada a piar. Tem outros poréns caro Compadre.
A parenta nunca havia passeado de avião... Pior ainda, precisava levar companhia na viagem, pois como iria se beneficiar das Cinco Estrelas do Hotel na Capital! Virgem escolhera o esposo; ele negou fogo não quis alegando excesso de serviço (a cozinha pra arrumar, os pratos a enxugar, antes escorrer) devendo ser mesmo temor das alturas, já não se faz mais homem como antigamente. Então Virgem, falei que o nome completo é Virgem da Silva? a Virginha resolveu convidar a  mãe dela para ir junto. Aceitou prontamente a sogra – não, Compadre, é sogra do meu  irmão, mãe de Virgem, minha parenta igualmente. Certo? Errado porque as duas, mãe e filha, nunca haviam voado em aero, só no plano do sonho em sono. Daí foi uma arrumação tamanha! O Compadre sabe como é complicado o bicho-mulher, uma arrumação de arromba de se desentender pra se entender.
Enfim as viajantes do espaço atmosférico quiçá sideral se puseram a relacionar apetrechos de transporte, acondicionar as coisas: remédios anti-enjoo, calcinhas impermeáveis, roupas externas, óculos escuros e é claro, Compadre, frango e farofa de miúdos de frango, pão e mortadela, guaraná, banana e chicletes. E ainda faltou alguma coisa (depois eu falo). Ah sim, precisaram convencer a parentela as comadres as vizinhas a deixá-las ir. Ouviram o “tomem cuidado” de praxe. Com um senãozinho assim, Compadre, nem lhe conto, conto – todo mundo do bairro quis dar emprestado a máquina de tirar fotografia. Tanto assim que tiveram as duas mulheres, a velha e a virgem, que vender metade no brechó e só levar a outra metade no avião; contudo a alfândega em revista ficou com a metade do abuso e outra metade sobrante a tripulação de voo rejeitou só deixando de fato duas câmaras, uma de flash dessas que não precisa tirar foto que ela mesma faz tudo sozinha em grande perfeição artística e talento; e a outra uma câmera velha antigona e emprestada doutro vizinho que Virgem passou à mãe dela, igualmente velha e ainda em uso; a fim de a sogra do mano tirar suas poses. Porém a aeromoça franziu a testa e o nariz à entrada das parentas por causa da velheira fotográfica (decerto não fotogênica, embora jovem e bela, uma gostosura, Compadre! oh deixa pra lá, voltemos à arrumação de viagem:)
E o choro. A parentaiada os vizinhos os conhecidos e a imitação de amigos principiaram o fim numa choradeira sem tamanho, uns alembrando mil e um desastres desses mostrados na tevê, outros por emotividade e sentimentalismo realmente: lágrimas em despedida quase pra encher a piscina do dilúvio do Noé, um dia conto da Arca procê, Compadre. Prontas.
Pronto.

3.A Viagem(de ida)
Iniciou o monstro a uivar assoprar as suas gasolinas de querosene num fiuu de doer ouvidos, Compadre, metade do bairro no bota-fora das parentas fugiu amedrontada do ronco do bicho prateado com placa na frente: Capital do País Potência. Dentro do avião Virgem da Silva e Dona Dina olhavam pelas janelinhas redondas corajosamente, ainda em terra; o amontoado de ferro borracha lata fios e plástico esquentava seus possantes motores e cuspia para trás um barulho medonho. Se pôs então a correr na pista, o Compadre já viu galinha correndo tentando e quase subindo no entanto ficando, cansada, ficando mesmo no chão!? já viu não é, pois avião é isso:  só que alça voo; piormente com peso e o peso extra na barriga onde toneladas de apetrechos das parentas se espremiam com os quilos das bagagens dos outros passageiros; e mais pesado ainda pelas duas. Donadina um palito de magra pesando gramas; porém Virgem, virgem santa Compadre! a pesar a moça quilos daqueles de ‘K’ de antigamente... Inclusive a aeromoça na entrada, uma gostosura não lhe falei Compadre? a aeromoça teve de ajudar espremer empurrar para dentro a premiada, ou premianda pois não havia recebido os cinco mil réis e o canudo com letras góticas do prêmio formal – enfim teve de ajudá-la a entrar na porta do avião. Ainda comentou com o aviador auxiliar xeretando a subida dos passageiros na ponte em escada: “Zé, esta gordinha precisa spá cúper e academia com muita malhação e música americana gritada na orelha e ainda exercício ergométrico aos músculos” e o Zé: “calma, Mary, a gorducha deve tá grávida, por isso esse barrigão sem tamanho...” os dois concordando: ela sozinha afundará a aeronave, ou nem subiremos hoje não obstante os motores a jato de Primeiro Mundo! Todavia entrou, entraram, tafuiaram as duas no interior do avião, Compadre. Sentaram. Donadina ficou com meio, Virgem bundou um assento e meio, num pluf e bluf das borrachas macias nos bancos. Uf!
Começa a subida, plana nas alturas, a Véia comenta com a nova: fía, e se a gente se enroscar nos satélites lá de cimão!!! Daqui de cima, mãe, respondeu a filha. Donadina se assustou olhou, aflita, pela janelinha o lá embaixão. Foi o primeiro remédio ingerido contra enjoo. As calças se umideceram também pela primeira vez. A aeromoça, aquela gostosura, correu ajudá-las. Plufs e blufs garantidos. Uf enfim asserenando os olhos novos e velhos: fechados...
Hora do almoço. O bicho roncava lá fora, as nuvens passavam apressadas. Horário de desembrulhar o franguinho assoprar farofas sujar o revestimento do banco melar gorduras; limpar-se nos lenços, Virgem com um cheio de florzinha e frescurinha, Donadina num comum desses que a gente passa com o ferro já desligado aproveitando a quenturinha e assim mesmo amarela sua brancura, desses. Se limpam. Aí o aí...
Donadina quer ver se vê, não vê vê outro horizonte no horizonte lá embaixãozinho, quer ver o aeroporto de saída do interior: percebe carros parados na rodovia lá no solo (a aeromoça, põe gostosura nisso! ela explica que a velocidade meteórica da nave é superior à dos veículos terrestres e aí parecendo parados; não contente a gostosura a tal gostosura resolve chamar os pilotos o comandante e todo pessoal de bordo a esclarecer tecnicamente o assunto; eles se revezam a explicar à Donadina; e à Virgem por tabela ela com olhões assim a escutar a fala, nessas coisas que a gente não sabe e não diz que não sabe e se cala e ouve e depois esmiúça como doutor aos matutos, ao Compadre por exemplo; entendeu Compadre?) Todavia, oh terrível realidade... – descobre a senhora magra que ficou com medo, medo? terror! pavor! por estar lá encimão das alturas vendo o embaixão. Se conscientiza e grita, berra; Virgem tapa-lhe a boca com a mão gordinha para não sentir vergonhas neófitas aeronáuticas diante dos passageiros outros – convenhamos Compadre: outros  sem a qualidade virginal em receber um prêmio de cinco mil réis em concurso jornalístico...

4.Comunicação in-Antes
Virgem voando se lembra o quanto fora avexada ao saber não sabendo ainda haver ganho o Prêmio, um com ‘P’ dos grandões. Alô – tô lembrando a lembrança de Virgem minha parenta, caro Compadre – alô, sim é Virgem da Silva quem fala, funcionária lotada na divisão tal, tal referência, assinzinho com a chefatura etc. e tal o quê! ganhei (aí numa voz de trombone a ensurdecer o som tuntum-tuntum desses de tremer bibelôs e janelas e portas quando limpando a casa em faxina e os vizinhos a tapar orelhas desesperados e aí vai fazer o quê: chamar a polícia? bater educadamente na porta pra vizinha abaixar o volume se ela nem escuta sequer as pancadas na porta em aviso!? – esse  o gritado que perpetrou ao escutar no fone e repetir o dito desde o telefonema vindo da Capital do País-Potência, desses sons.) Ganhei ga-nhe-i ganhei!!! avisando a todos mequetrefes funcionários em volta e um no banheiro fumando longe do chefe – todos se espantando arregalando as órbitas dos ouvidos. Sobretudo o berro a atingir o lugar da desafeto, uma nhe-nhe-nhem que falava a todos na sala que seria a vencedora mas, oh que horror! – não se encontrando presente ao presente do Prêmio. Ganhei ganhei ganhei grita Virgem, falei que é Virgem da Silva, Compadre? essa. A repartição vira um forrobodó dos diabos, horas a festejar a vitória de Virgem! Até que ela se toca, pô, diz – preciso atender o restante do telefonema e saber mais detalhes. Alô. O Alô lá na Capital esclarece os cinco mil réis a passagem aérea a estada no cinco-estrelas e pormenores detalhados esmiuçados em minúcias mínimas. Mesmo porque Virgem é gorda também nas exigências e esclareceres petiticos assim. Soube, ajuntou miúdos e ficou aérea uma semana a sonhar com a grande conquista, até se esquecendo de bater eletronicamente ponto. Mais mais ainda, Compadre, que seu compadre ficando sete dias e sete noites a lhe narrar as proezas das verdades desta mentira. Enfim... – que a sós coisa alguma Compadre – enfim começou o princípio daquilo que falei ser o ‘Preparo da Viagem’.

5.Continuação da Viagem de Ida
Prossegue o prosseguimento da virginal viagem de Virgem da Silva aos píncaros da glória, dita, redita em prosa e verso com muita licença poética de prosador barato, eu meu caro Compadre, ói o Lulu xeretando outra vez, não é melhor essa porcaria dar de cima da porcaria da galinha toda hora a cuspir no chão da casa!? mas num tá nem aí o sarnento. Ela, não a galinha a Virgem virgem em matéria de voo mesmo porque nunca subira num avião menos-mente em Boeing e foguete inter-estelar; ela pensa se alembrando (enquanto Donadina, a mãe da filha, fecha os olhinhos pra não ver e aí a ficar pensando-se no altão cruz-credo, vai que se embrome enrosque embrulhe num satélite desses em que os americanos vivem vivendo e será que num cai nenhum lá embaixo cruzcredo-II num quero nem olhar me dando um suor e a mijura que vaza da calcinha, credo em cruz-III – tô enjoada pra burro! diz não diz pensa e cerra os olhinhos pra aeromoça não imaginar que tenha medo “sou macha pra valer” porém com um medinho tamanho e não sei como é que os homens, uns bichos que só pensam em bunda de mulher, não sei como é que acham uma gostosura a feiosa e eu não achei graça no vestido dela, agora a fía tá me olhando:) elinha pensa também alembrando de antes, que gozado a partida no avião naquele aeroporto de Matinho-City: todo mundo dando com a mão no bota-fora nosso, o tio trouxe inclusive o cachorro vira-lata dele, o meu, ah o meu cachorro, o cachorro do marido querendo ir com a gente; o cachorro de raça; o tio alembrando ser pitibul rotivailer rolls-roice essas coisas que mordem não pra comer os de fora mas mordem até os de casa e com certeza mesmo a sombra numa bravura brava! E aí queria levar a gata também e tinha uma cachorrada a desejar subir na escada tafuiar em bordo da aeronave com os amos, a frescalhona da Aeromoça não permitiu, veja só que injustiça. Aí deu-se o inesperado: os machos se pegaram, assustando os passageiros no embarque, uma gritaria que só acalmou quando todos eles o Lulu o cachorro do meu marido e o resto embicou atrás duma cadela no cio, silenciando a deixar apenas o barulho das turbinas acionadas pelo piloto, o auxiliar até que é bonito entretanto não deve ter percebido minha esbeltez e meu porte feminil digno da melhor Eva no mercado, sim talvez preciso um spá-zinho... Ela pensa enquanto viaja e debica umas bebidinhas e uns sucrilhinhos por conta da casa, casa voadora, veja bem, Compadre. E assim pensando, ói ela, aqui incluindo naturalmente Donadina, ói ela chegando, após sete dias e sete noites num voar por entre nuvens ventos e satélites, ói de fato ela no aeroporto (o Comandante avisa para a Aeromoça avisar, a Aeromoça aquela gostosura então avisa:) estamos no Aeroporto da Capital do País-Potência, já em fase de quase necessitar ser Grande, Grande Potência!

6.Chegada Apoteótica
Limpa-se Donadina limpa-se mais bem de melhor Virgem das exsudações e fétidos amoniacais; troca-se de roupa por roupa seca e da moda num compartimento reservado do avião, tem disso no aeroplano Compadre, só que é tudo pequeno estreito apertadinho porém não fede como nossa privada de buraco e não tem barata, não tem importância; importância apenas se trocarem e saírem pra fora daquilo com sabor de prisão sem precisar porta de fugir, só a de entrar, mesmo porque qual o louco a se safar que seja em paraquedas! Saem.
Estamos na Capital! As cabecinhas em vivas forram o solo abarrotam o saguão e as outras áreas! Virgem anda entre pasma curiosa temerosa por nunca ter visto tanta gente. Será... pensa a humilde ganhadora do Prêmio, o prêmio jornalístico obtido num embate na concorrência com todas cadeias periodística do País-Potência e ainda vencendo a todos! Aí muda de ideia: que diacho, afinal era uma premiada, pusera debaixo do braço inclusive as grandes cadeias da imprensa até a Rede Planeta que manda plimplimicamente no orbe, desde o primeiro mundo até chegar no marcha a ré do mundo; e a outras grandes também porém menores maiores apenas na tradição. Ora bolas, o povo com razão – eu mereci ser honrada com o prêmio o hotel de luxo cinco estrelas e os cinco mil réis. Viva minha capacidade! Olhou a mãe, Donadina assustada olha também para os lados da filha Virgem, virgem santa cruzcredo (cruzcredo n° IV) esse povo endoidou? A Gostosura vem em auxílio esclarecê-las: “queiram por favor dar passagem ao Rei, Majestade Nove Dedos I” e completa a aeromoça, agora capachando pros lados da Autoridade: “Sua Alteza, o povo quer lambê-lo!”
Foram-se o Rei e o séquito, ficou a Aeromoça, uma gostosura Compadre, ficou ela e ensinou como tomar um táxi ao pessoal de Matinholand.

7.Solene Solenidade do Cerimonial
Estamos no interior do Teatro Nacional, a orquestra abrilhantou já o início festivo, o povo em massa (digo sem exagerar, Compadre: mais gente do que no terço a rezar na casa de D.Maria; ou em domingo na Vila quando aparece o padre a dizer missa batizar crismar confessar a gente sem oportunidade de salvação antes e perdida por faltar as peias da religião; mais gente bem mais de sete pessoas; mais ainda se se contasse o Lulu e as outras xeretudes entre as pernas bípedes; e aqui apregunto Compadre: é lícito confessar cachorro!?) O povo se espreme como pode, tem gente até pra fora do teatro – são aqueles curiosos em ver por cima das cabeças (os gigantões grandalhões) e os baixinhos que olham pelas frestas entre subacos revestidos de unissex sabor limão para ver se veem a ganhadora, que segundo consta pode ser uma gostosura mais gostosura que as aeromoças por aí, vixe! nem desejando lembrar; gostosura contudo um pouco acima do peso, xô spá.  Todos querem ver; a maioria dos apócrifos que não couberam no recinto só ouve.
Virgem Santa da Silva, Donadina meio escondida envergonhada na plateia como a dizer “nunca vi mais gorda” (e o Compadre acha que só eu possa contar durante sete dias e sete noites!) Virgem começa a ameaça: lê três dias seguidos laudas e mais laudas em fonte oito pra caber mais por página, frente e verso, lê um discurso de agradecimento e auto-reconhecimento do talento e arte até então ao relento, chega de ‘t’. Diz o dizer em leitura sonante obstada por uma tossezinha infame, a qual lembra ao público haver contraído no jato interestelar em que viajara a soldo da instituição sindical jornalística sede da imprensa aborígene quiçá planetária, cujo nome por somenos esquecera num lapso quem sabe daqueles brancos que esfriam as entrâncias internas e que surgem sempre na hora indevida e sem-vergonha; lembra também que não obstante o refazimento no cinco estrelas no qual permaneceu na suíte presidencial, ainda assim a tosse tosse (tossiu a demonstrar). Tosse. Continua. Tosse. Foge. Foge em pensamento, foge instantinho pro cinco estrelas.

8.Chão de Estrelas!
Chega a dupla sertaneja (sem ter no repertório nenhuminha música do tipo sertanojo). Estão na porta do hotel Virgem e Donadina, o taxista pôs na calçada as malas, tem de todos tamanhos, lancheiras, pacotes um deles cheirando a restos de frango com farofa; depositou no chão sujo com cuspes e demais limpezas concernentes ficando então a aguardar a gorjeta; recebida, carrega as coisas em várias viagens até ao mequetrefe fardado do Palace-Hotel Cinco Estrelas; este vai à frente, espera os registros convencionais, leva as malas e donas (Donadina et Virgem) a entregá-las no quarto-apartamento-suíte; para, mudo, só abre a boca a agradecer após a gorjeta, fá-lo em francês que pensa ser língua yank, fecha sorrindo a porta. Estão as caipiras livres para examinar a luxúria da residência (não precária mas:) provisória por sete dias e sete noites.
Olham tateiam cada naco e cada nuance do conteúdo exposto. Virgem não aguenta: pula na cama fofa, pula feito moleca; a cama rejeita geme grita lamenta o peso! Donadina sorri das besteiras da filha e vai apalpar cada uma das peças daquele museu de luxo. Têm as chegantes vontade de gravar a canivete seus nomes e a data nos móveis e paredes como normais turistas a dizer: “Curvai-vos súditos mequetrefes do planeta, aqui estão presentes vossas Rainhas” não diriam, meu Compadre, a sua rainha velha e magra a sua rainha nova e gorduchinha. Terão pensado. Acha que devo ler pensamentos! Por isso pensamento só meu – fiquei com vontade de soltar a galinha carijó pra sujar no tapete da suíte; depois soltaria o Lulu pra rolar gostoso suas pulgas debaixo das camas luxuosas, debaixo ocê sabe, o Lulu é um vira-lata educado civilizado não subiria se esquentar no travesseiro de borracha cheirando lavanda e perfumes franceses em que Virgem afundou aquela cabeça cheiinha de cérebro de ganhar prêmio jornalístico.
Mas e o tratamento.
Ora, receberam as hóspedes (por que não ‘hóspedas’!) refeições e atendimento primeiro-mundista... A começar do café matinal. Donadina comeu tanta coisa que depois ficou a se lastimar não caber iguarias nas outras refeições! Virgem, esta, virgem santa! comeu como dá azo o costume dos gordos: ingerir de tudo, antes experimentar de tudo. Depois Sonrisal, Eno, Sal de Frutas, Magnésia o escambau, ainda ficou doendo a barriga a fim de o piloto ajudante pensar nenê e ele até que era simpático. E ares e ventos e sons e puns, educados que fossem.
Teve inclusive o item telefone: Donadina e mais menos um pouco Virgem se pondo a telefonar pra todos parentes amigos e colegas da repartição a contar aquelas conquistas civilizatórias; depois, quer dizer após o final das ligações, a telefonista decerto uma gostosura igualmente embora sem voar, a entojada esclareceu à dupla: “senhoras, para fazer ligações interurbanas e em DDI é necessário autorização da Central; queiram fornecer-nos os números...”
E fim de papo saíram, quando saíram após gorjetas formais, pois o resto pago como prêmio na conquista do prêmio pela Entidade Jornalística do Sindicato; saíram, a velha com três gramas a mais; Virgem com sete quilos na nomenclatura atual e mais sete com ‘K’ dos grandes, a-mais, a mais. Assim estão de volta.

9.Volta da Ida
Já massacrado (tirando os que não dormiram o sono dos anjos, sem ronco pois isto nadinha educado) já devidamente massacrado o público no discurso de sete dias e sete noites no Teatro Nacional, fora os discursos dos outros no plenário, mesmo porque em estando na Capital, a terra da corrupção não cruz-credo, V, todavia o lugar mesmo dos discursos parlamentares para entrevistas televisivas e aparecer receber votos; já massacrado o povo ouvinte, além de um coral acompanhado pela orquestra e número em que um poeta a recitar de autor desconhecido e em respeito à Grande Premiada a ‘Batatinha quando nasce’; já massacrado o povaréu se dispersa, o recinto se esvazia e fica às moscas, pobrinhas! e a Premiada Doutora Honoris Causa é conduzida em comboio ao bota-fora no Aeroporto da Capital de Potência. Agora não tendo mais nove nem oito, talvez sete dedos e o povo a aplaudir frenético a chorar a querer tocar nas vestes presidenciais do Rei, a pretender com isso o milagre não do pão mas do emprego. Dão com a mão as duas mulheres de Matinho-City, enquanto os bataforenses abanam igualmente as suas, entram os passageiros e as duas passageiras no avião. O Comandante manda ligar os motores, os pilotos mexem seus pausinhos no painel de botões, estão alegres ambas, Donadina ainda corajosa a olhar pela janelinha a aeronave estando no solo para aquecer; e Virgem, Virgem da Silva, não falei que é Silva Compadre! pois ela sorri, Vitoriosa confiante inchada talvez vaidosa pela conquista e seus louros. Na bolsinha guardada dentro da bolsona passam mal umas notas com falta de ar, ou porque o pobre rico dinheiro nunca viajara também de avião antes, são aqueles cinco mil réis antigos de prêmio! Tudo certo como antes no castelo de abrantes, fora um senão. Não tem agora mais aeromoça e era uma gostosura Compadre. Mudou pra um aeromoço. Assim toda hora Donadina suplica enjoada: “aerôme!” pros lados do sujeito.
Se Virgem apreciou? não, e dava sim pra esquecer o marido e o cachorro do marido lá longe. Não, ele um rapaz fechadão e nem deu bola, só tratando formalmente os passageiros.
Singram os céus, andam a todo vapor nas alturas, tão altão quanto os prêmios e honrarias, quem sabe tanto quanto o cinco estrelas de luxo. Virgem se recorda durante o voo em voo de pensamento os passeios que fez na Capital – o Congresso do Caos, a Torre de Tevê e mil e um espocar do flash das câmeras das turistas do Matinho. Relembra filmagens focagens fofocagens pilantragens outras. Enfim a estada para ficar na mente por toda vida; a estada para servir de argumento no contar as vitórias no convívio dos amigos e parentes. Muito assunto. E sobretudo a estatueta emblemática simbólica recebida em conquista, além dos cinco mil réis e demais regalias do Prêmio, uma honraria sem igual entre os iguais tão desiguais!
Virgem em fim de Viagem. Os mesmos problemas anteriores, agora menores pela experiência que as representantes de Matinholand adquiriram na ida; e os novos, também mil e um draminhas próprios do ser humano.
Compadre, se disser que foram sete dias e sete noites em viagem de volta como na viagem de ida, pode me chamar de mentiroso que não ligo. Realmente o avião já mais conhecedor do caminho – feriu vento nuvem e satélite em apenas seis dias e meio, seis noites sem meio pois que desceram no Aeroporto do interior antes de começar a noite final.
Lá estava para recebê-las a população inteirinha! Levando os seus bichos, levei o Lulu, esse sarnento outra vez ver o campo de pouso e ele não deu vexame; levaram as outras pessoas cachorros e gatos, fora as crianças à recepção. Sem necessidade, pois menino não entende do valor de um prêmio como o Prêmio da parenta.
A questão pendente entretanto senão embaraçosa ao menos chata na viagem de regresso foi Dona Dina. Seguinte (e isto não vi, a parenta contou-me, o Lulu e a Carijó estão aqui em testemunho não me deixam mentir sozinho, Compadre): a senhora encheu o penico, o que se explica haja vista a comedeira no cinco estrelas por sete dias e sete noites! mas no comer não a gravidade do caso. É que o besta do Aeromoço, sem quaisquer gostosuras admitidas, esse bestalhão sequer permitiu que a mãe, às instâncias da filha, Premiada Laureada e tudo o mais, ele não a deixou enfim jogar o urinol lá de cima pela janelinha! fê-la despejar no mitório, certa miniprivada. Se fosse pelo menos como as nossas de buraco fedor e barata ainda se aceitando – não! naquelas aperturas pela apertura da dama. Sendo embora mãe duma Virgem Premiada!
Cruz-credo(6ª edição, revista e atualizada) mas que fazer; durma meu Compadre, durmamos nós todos com uma teimosia dessa.
 Marília   dezembro  2006


         



           

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