Gaiola de
Ouro
Cap.1º
Não
é possível, é possível sim confiro ser 3h.33min. desta madrugada indormida
fraudada por meu sonho em pesadelo... Ela está acesa ligada, de olhos... olho
vejo. O único apartamento desperto ainda – ontem demoraram acender no centro
desta metrópole fogosa e que se diz voltada ao trabalho; tive o trabalho a
paciência de anotar: todas torres direcionadas para o alto às cegas, ao menos
acima do quinto andar nesse andar louco da capital louca. Aguardei horas, horas
das grandes e inteiriças, e constatei ninguém chegar; ninguém, é estar tudo
escuro, todos a operar! sei lá. Os demais edifícios com luz a luz a esbanjar ou
a economizar porém qual vaga-lumes acordando do dia à noite no trec dos plugues
a conectar claridade. Vi observei, cheguei a ficar de cadeira posta a postos,
olho pra lá desde a janela vagabunda (vagabunda a minha a ouvir e ver o que
ver:) vi flagrei mil outras noutros prédios vizinhos sendo acesas à medida que
chegando a gente e... ah meia torre pra cima escura – embaixo tal qual as
outras em volta o lume. Noto no momento também o volume dos sons pois iniciara
quase nem prestara atenção mas iniciara a luz as luzes a iluminar tudo
bonitinho para conformar a rotina duma cidade grande: uma aqui outra lá lá
longe nos distantes prédios voltados também pra cima com sua iluminação. Fiquei
num ver aquilo semelhando pisca-pisca de vaga-lume, isto não absurdo: o absurdo
é o fato desde o sexto pavimento para o alto e até o fim da torre sem ser o fim
do mundo porém um fim de mundo – tudo realmente apagado! Não obstante, e mesmo
tarde em a noite assim; não obstante às 23h. e 33min. a Gaiola deu à luz! Pior,
ou melhor dizer melhor: às 3h. e 33min. do novo dia ainda funcionando! Fiquei
abismado com isso e permaneci de plantão; agora não tenho dúvida na certeza a
certeza de apenas ela estar também de plantão na madrugada, enquanto as irmãs
dela dormem! sim, quem a afirmar. Afirmo então que somente ela de janela
amarela aberta para o mundo aqui do mundo.
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Fora
assim naquela madrugada, de fato passara a tarde anterior ao lusco-fusco num
olhar para as luzes a surgir, já me deitara e armara uma arapuca de pegar o
sono, dentro dos meus hábitos a fugir da realidade dura da existência como
garanti, quando notei o que notei no mar dos prédios a pulular, ou seja que
vagarosa e intermitentemente quase e daí a disparar acender salas etc. e tal,
enquanto isso anotara tudo no caderno da memória, que consta constar no
princípio deste texto – a tarde∕noite
cálida os sons nada abafados do retorno em volta ao lar doce lar mas sem
saudade decerto do trabalho, do chefe de escritório do relógio da máquina de
fazer doido, que são as geringonças informáticas e sobretudo tudo que requer o
trânsito caótico: neste, uns ouviam ainda reprimendas das hordas a se cruzar na
rua, carros mil carros a gritar a loucura na loucura congestionada parada
tomada tornada louca e aí... Aí se acendendo as casas sobre casas que são as
torres – foi nisso quando me postei molenga na fresta da janela para ver o que
ver, se vi, se anotei sem anotar. Dormi, acordei e obtive a confirmação da
loucura da gente.
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Sim,
a loucura. Cada apartamento e mais nos próximos
à Gaiola os dramas... ou não; por que a loucura tem necessariamente ser
um drama!? Cada um se manifestou. Já não na calada da noite e inclusive no dia
de luz quente, que é assunto do astro-rei.
Concluo
ser essa a vantagem na desvantagem de se viver no limiar do bairro rico
milionário com o pobre não miserável; sim não porque pior lá embaixo onde se
anda nas ruas e se choca com o ambiente da gente dependente a dormir ao relento
e/ou a 'curtir' o chão no chão sujo e mais sujo por ter gente como sujeira na
sujeira indecente da moral do planeta. Ah, isso uma leve e triste constatação
da diferença nessa diversidade humana.
Cap.2º
Agora
fora de hora, hora de se olhar-observar-constatar-mentirar talvez; agora é dia
é sol é reflexo dele a cegar vistas nesta vista da zona central da capital e
tal e coisa – não serve. Isso mesmo, não servindo a referência em referência,
os raios batem na parede rebatem no ar iluminam a sombra. Todavia à noite em a
madrugada da baderna na via pública lá embaixo, ou não baderna de notívagos a
vagar sua vagabundagem ou desespero ou somente não havendo ninguém (ninguém!) e
então sendo o silêncio sem sepúlcro; ou mesmo a ser silêncio como sinônimo do
nada (ora bolas, o nada é nada e portanto não existe...) enfim se noite se
madrugada – a janela amarela qual gaiola, esta Gaiola de Ouro por estar
entalada na porção do bairro milionário; a Gaiola vigia a noite; isolada: ela
isolada dentro do escuro da noite fechada, já dito um que outro ou muitíssimos
veículos da gente barulhenta a barulhar no trânsito e... ah, o universo do
Universo. O universinho aqui tratado como minúsculo cisco da poeira do
Universo, um Cosmos de difícil entendimento ao homem comum que somos, embora as
diferenças individuais. Nesse ponto, nesse afirmado ponto no ponto do Universo
e em seu universo particular – nesse desponta o mando da janela amarela; vista
agora ao sol do dia seguinte, seguinte ao anterior. Desponta qual vigília do
mundo. Olha vê sente (divulga? sabe-se lá) e contudo na sua própria torre
voltada aos confins do céu do infinito do Universo, nela, dentro dela, própria
dela como a formiga que não vê por cega e nem se vê nem vendo a colega
carregada com três vezes seu peso de folhinha picada de árvore próxima longe
dela no encontro reencontro dela com outra formiga em passagem; aí no interior
da torre, resvalando quase a própria janela um drama a se levar em conta. Não.
Ela não, não pensa só vê e pior comenta diz ao mundo aí fora lá fora, qual
comadre a falar (rebaixar criticando...) da vida dos outros!
No
entanto no compartimento contíguo – seja na madrugada de se constatar seja em o
dia ensolarado a cegar olhos – problemas profundos marcam a vizinhança. Na
sala, o sofá e o jogo estofado caríssimo por sobre o tapete persa ou de honesta
imitação igualmente caríssimo; adereços e pertences e demais objetos em bibelôs
e enfeites e adornos apreciados pelo luxo; não obstante tudo tudo é quase
desespero... Dona Maria, oh ela tem um nome nobre no desfile de nobres outros
nomes no modismo da criação de apelidos seja os impostos pela tevê ou pelas
viagens internacionais mesmo não sendo aos paraísos fiscais da família. Essa
d.Maria chora agora solitária. Chora lastima a incompreensão dos seus; chora
quem sabe o pouco do muito ou a falta do muito ao cerimonial festivo das
próximas horas num clube das altas rodas. Sofre quiçá o abandono ou somente a
desvalorização ou o desprestígio da vaidade, a vaidade que o orgulho desgasta
todos os dias, sempre. Porém urge reagir e se levanta a senhora bem-vista
benquista a se arrumar se perfumar por fora; por dentro já caminham servidoras
nos corredores e meandros do palácio; aqui se intromete o homem da rua com sua
visão de riqueza; a madame sofre exato por sua visão de riqueza, pobreza na
falta porque o luxo corre à frente no desespero do aumento da necessidade ou do
fictício e supérfluo dela; por isso as lágrimas, se bem que contidas ou secadas
com lenço que exala perfume; ou melhor num pior e noutro descuido a mostrá-la
tão só humana e portanto falha – atira uma bolota que fizera de papel umidecido
a limpar desobstruir a passagem das gotas de fraqueza e de infelicidade
imediatamente anterior e, por felicidade atirada descuidadamente pela janela,
não a amarela da Gaiola mas a sua voltada para fora para a rua suja lá embaixo:
o tufo tufinho engraçadinho da bolotinha aceita a força do império da gravidade
e cai nessa sujeira onde uma sujeira humana a passar quiçá contemplar a beleza
da impávida torre milionária voltada aos píncaros do céu lá no em cima; ou nem
isso vendo ou raciocinando assim, entretanto feliz com a 'encomenda' caída do
firmamento antes que chegue ao firmamento e vindo atirado da janela encostada à
janela amarela da Gaiola cobradora. Agacha-se antes se arca, toma a bolota. Ah,
desengano, ainda não se come papel porém apenas outros restos, como restos de
bolo.
Assim
fecham as servidoras lá no alto aquela rica janela cerrando à vista intrusa possível
intrusão. Elas andam como regra da casa uniformizadas e já bem alimentadas pela
cozinha rica, sequer havendo notado a patroa atirar distraída o rolinho usado
pela abertura e menos sabendo a decepção da gente de rua, faminta, faminta essa
gentalha.
Cap.3º
Algo
que me admira é a força a temeridade a teimosia a persistência do inseto
perante outros seres em a natureza. Porque aqui no sexto andar de meu prédio,
não bem meu pois alugo a parte em que resido – aí ele chega! Cansado, é bom
supor visto um ser humano (tanto o deste edifício, não diria da arraia-miúda na
gente mas na pobreza comprovada; quanto da gente escolhida pela sorte
milionária seja ou não irmão siamês do da Gaiola) enfim um ser de quaisquer
posições humanas cansar-se-ia subir os seis pavimentos. Sim, tem o elevador.
Todavia existindo elevador também ao uso do inseto caronista... O caso do meu
pernilongo. Ele me cantou desafinado seu violino noite inteirinha – e indaguei:
subiu até aqui no elevador; lógico não teria tido paciência voar os cinco até o
sexto pra me beber. Nunca saberemos tais sabências. Agora os outros
doisinhos... Tem a drosófila que voeja pelas frutas da casa fora da geladeira,
mormente frutas em decomposição. No entanto como fez a formiga para chegar! não
voejou e menos deu-se de haver voado direto à minha janela aqui; descobri-a no
peitoril da janela da cozinha. Por que aqui? aqui, daqui vejo bem a Torre
examino as gaiolas dela e mais a Gaiola de Ouro que a todos no cosmo vigia.
Visto ela elas elinhas em fileira qual exército treinado nos milênios que
passaram passam agora em cordões miúdos e vêm do nada. Nada! o nada não existe.
Elas existem e saem das rachaduras a se mostrar até a olho nu e sem precisar
geringonças óticas de aumento. E andam e procuram e acham e se concentram e
carregam aos conduítes das paredes explodidas do tempo a tempo desde lá embaixo
no solo! Não é admirável; ao menos não podem ser intromissoras não apenas aos
alimentos humanos mas sobremaneira intromissoras, intromissora ela, tomemos uma
como exemplo e justamente a mais teimosa, intromissora no visor da visão aqui
de minha janela nesta torrezinha pobre. Relembro não miserável, miserável a
gente de rua na rua a comer os restos da gente pobre também sim e que circula
lá embaixo na rua, como se pode enxergar daqui do alto, circulando igualmente
qual formigas no solo nos passeios públicos ou no leito carroçável do asfalto
da prefeitura, esta aquela ladrona diz o povo.
Agora,
não sabemos o que saber dessa vista de vigília que vigia a vigília da Gaiola a entender
o Universo.
Olho
o que esta olha e ela olha pra si mesma hiperbólicamente a se engrandecer,
vaidosa talvez pelo que abarca – garanti estar a janela amarela da Gaiola
arreganhada e contemplando os miúdos prédios ou casas sobre casas pobres; desde
os prédios ricos e de moradores milionários, sua torre é como um promontório
que avança quase só e isolado vindo do bairro de posses; como uma frente a
fiscalizar o resto, resto esse da pequena burguesia.
Contudo
regurgita no interior da torre de gaiolas outros dramas além do que foi dito.
Isto chover no malhado, fala o dito popular, já posto antes.
Inclusive
foi lembrado a questão da senhora Maria.
Noutro
apartamento também nas proximidades da Gaiola e portanto doutras gaiolas – só
existindo de ouro a do vigia a nos vigiar a todos no universo, essa que chamei
de ouro. Mas tendo em volta as de prata e até as de bronze, em magnífico
terceiro lugar embora no pódio, já que todo mundo anseia pelo ouro e se
contenta com bronze. E gaiolas de bronze já não estão na torre ricaça, onde o
olho de vigília do apartamento milionário da Gaiola de Ouro. Nossas outras
torrezinhas a também não fiscalizar a Gaiola porém com direito ao menos olhá-la
examiná-la e por que não: criar estórias em torno dela, num sonho longe do pesadelo.
Pois bem, vem que tem também outra gaiola de moradores com problemas profundos,
quiçá inclusive a preocupar ou incomodar o sujeito (veja bem, diria dissesse um
intelectual e acadêmico, veja bem: um indivíduo que dirigiria o visor; porque a
Gaiola é um visor a controlar tudo, tudo inclusive o Cosmo:) esse sujeito,
surpreendentemente nos surpreende a todos, não todos dias, num certo dia
podendo ser visto, e por que não! ser semelhantemente um ser vigiado... (isto
assunto ao cap.4º)
Afirmei
haver não apenas d.Maria e seu apartamento, que por sinal tem o número 64 e
estando ao lado da torre de vigília dito Gaiola. Isto descobrimos por acaso, o
nada não existe mas o acaso sim.
Tal
apartamento logo a seguir ao do da senhora Maria; nele vive uma família confusa,
embora rica e até milionária; pois na torre milionária e a confrontar com a
nossa, minha e de meus vizinhos sem dinheiro, desta torre velha feia pobre,
insisto sem ser miserável, porque miserável é a gente de rua que se acaba lá
embaixo; isto dito repito, não para chatear leitores curiosos; agora talvez
furiosos por toda esta confusão de apartamentos e torres; prossigamos. De fato
a família em questão é rica entretanto afundada em confusões choques conflitos,
enfim por dramas de interesses e improvisos nas suas determinações. Em resumo
seus moradores, de sangue e por rico não poderíamos indagar ser não-vermelho
sim azul! Porque os entes 'queridos' (ai!) brigam o tempo todo, de manhã até à
manhã do outro dia. Por dinheiro por negócios escusos por inveja por... oh pra
que saber!? Chega da rua a jovem bela diplomada (em quê?) chega, diz uns
desaforos ao pai: o pai esquenta a orelha da mãe (não a mãe dele, mãe dela) a
mãe pega no pé do irmão caçula da irmã; não no do meio e que anda viciado em
drogas, nada no crack dos miseráveis lá embaixo, drogas de custo lá em cima – e
este nem se conta e sequer entra na estatística da polícia. Ela, tadinha da
belinha incompreendidazinha, ela chora, sai ao desabafo no celular no seu
aposento e... não mais interessa. O que interessa está no 4º capítulo.
Cap.4º
Agora
– e isto é incrível e por isso inacreditável – agora temos na paisagem algo da
tecnologia mais antiga que é o binóculo. Porém o que mais incrível e mais
inacreditável é o fato de havermos adquirido numa loja um comum, desse de ver
corrida no hipódromo e para que tenha alcance... Sim e tem mais: compramos
também outro petitico assim, uma gracinha de quase nem se vendo para se poder
ver. Um mignonzinho à formiga.
Não
se espante: não iria achar um à drosófila, a qual não para quieta; piormente se
encontrássemos nas casas especializadas um ao meu pernilongo, este que
preferiria gritar sua ária e ranger seu violino com som de rabeca indo daqui do
prédio velho pobre inseguro ao prédio que é a Torre milionária pondo-se à vigília.
O pernilongo sumiu...
O
meu binóculo é normal (quê seria normal!?) o comum pelo menos, suficiente para
ver descobrir que na janela amarela da Gaiola, que lá tem um gordo, um gorducho
do tipo tão inchado desses que se faz necessário os bombeiros derrubar a parede
da casa a fim ser levado à salvação num pronto-socorro. O estufado ser é
enorme; preso numa cama reforçada ao peso dele e se encontra próximo e
encostado na janela pra fiscalizar o mundo e o mundo afora.
Fóra o que fôra dito: é pobre de família rica e descobrimos ainda: – nem
a Gaiola de Ouro é rica portanto não de ouro quiçá de bronze, pois que todo o
prédio está atrelado ao bairro pobretão (o nosso...) onde pulula a miséria ou
seja a miséria drogada e a miséria infeliz jogada na rua à piedade pública.
Fora portanto um engano lamentável de nossa parte confundir a Gaiola e sua
Torre como do grupo milionário. Por sinal dizem estarem os ricaços afetos aos
Jardins e não neste antro da anormalidade; e que seria mesmo o normal?
Mais.
Bem mais. Vimos com nosso binóculo de descobrir nossos cavalos perdendo o
páreo, vimos que igualmente esse vigia tem um parecido binóculo consigo, pra
ver melhor e se distrair; lógico que tem os sonhos em vendo as belas mulheres
de cá ele também (visto ser um macho da espécie que fora macha pra valer) – e
pelos sonhos teria economizado a geringonça, instrumento que deve ter ganho no
último natalício, não podendo por gordo e pesado ter ido à própria festa de
aniversário. Contudo, isto uma suposição.
A
verdade é que a pobre e infeliz criatura nos examina – caso nos veja de fato –
e examina para que despertemos também nossa curiosidade e até haja criado um
mundo com seu universo no Universo de todos nós, esteja ou não o posto
observador preso num sexto andar.
O
problema casual e maior neste imbróglio é fazer desistir a formiguinha de olhar
pelo seu binoculinho quase microscópico de tão pequeno. Ela descobriu antes de
nós humanos e reis da criação, que o gorducho aí em frente é gordo feio medonho
e já quase nem se pode movimentar; até sugeriu que chamássemos os bombeiros
a... ah que absurdo! que eles desmanchassem a torre inteirinha, a salvar da
morte certa o vigia de mundos no cosmo.
Teimosa,
teimoso também eu, porém não conseguindo mover uma pedra sequer nas intenções
da formiguinha com seu binoculinho, não conseguindo, fiz um esforço imenso,
juntei fôlego assoprei todos eles (elinha e o binoculinho) assoprei todos para
lá embaixo no solo rico em miséria da gente. E ela despencou ainda a
berrarzinho a defesa do miserável 'milionário'. Mas disso tudo nada podendo ser
verdadeiro, o que até pode ser verdade.
São Paulo março
2018
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