As Duas Gerações
“A mentira é uma verdade que esqueceu de acontecer.” Mário Quintana
Primeira Geração – a face sonhadora
e ilusória da riqueza
Cap. 1 - Poeira,
o início na poeira
Em poeira que descia na estrada parara um veículo
moderno quente a exalar forte combustível e a trincar... trincando mil
gritinhos em estalidos que brotavam da lataria negra no alumiar reflexos do sol
ainda com sono, mil deles a se acalmar aos poucos e por fim silenciar no
esfriamento da chapa metálica com o vento fustigante gelando a temperatura alta
do carro primeiro a superfície para-choque para-lama portas, portas abertas e
gente solta; para em final esfriar-se o todo depois minutos incontáveis horas à
paciência humana. Curta paciência nele nela o quanto a ignorância daquela
mecânica permitindo. José bem mais nervoso, ela sim paciente por fora com
aceite por dentro naquela forma do não tem jeito que as mulheres desenvolvem
para compreender seus afoitos companheiros de jornada. Porém impacientes ambos
no inesperado. Porque é sempre inesperado um automóvel parar na beira da
estrada, não sendo o caso bem no meio fio mas no meio do leito dela a
atrapalhar possíveis passantes. No entanto não obstruía o veículo propriamente
outras conduções, fossem automóveis caminhões tratores, estes últimos nunca
vistos, carroças mui encontradas – porque o lugar semelhando mais um deserto o
deserto em que se encontravam o carro a gente e a pouca bagagem com um que
outro presentinho da cidade ao campo em maletas sacolas embrulhos com quitutes
bastantes à muita fome. Agora tudo parado.
Desceu primeiro o macho da espécie, nervoso antes
de ficar realmente mais nervoso; depois, após o muito esperar dentro sentada na
almofada não demais fofa e em que a paciência não permitindo também permanecer,
depois disso a bela Maria José para ver o estrago.
Assim exposto parece ter havido se não um acidente
de trânsito, desses suculentos no século atual, pelo menos certo abalroamento
num objeto sólido parando o veículo – para se enganar. Primeiro que não havia
movimento no caminho, muito menos naquele início da manhã em sol preguiçoso. Em
segundo lugar raras eram nesse tempo as conduções motorizadas; mais provável
sendo chocar-se ela por ordem ou distração do chofer jovem e um pouco avexado
num lerdo carroção, carroças e cavalos é o que mais havia nesse início do século
XX. Mas o engano não ficando nisso: parara antes de parar o fordeco quase do
tipo do ano o próprio motor. Como que num encanto em desencanto.
José Maria fez um muxoxo com a boca de falar rapidinho
e segurar apertando um charuto fedorento (na opinião feminina ao lado) como era
seu hábito, olhou em volta, olhou observando o painel os ponteiros o volante a
almofada cheirando fofo e pó; e a seguir e só então relanceando sua esposa a si
encostada sentada atarantada ao lado. Estava assim num pensar rápido e fazer
mais rápido ainda, quando abriu a portinhola a ‘nhec-nhecar’ securas e quase
pulou fora, voltando imediato ao assento ver se freara, brecara no seu modo de
falar, se brecara de fato o auto, vai que desembestasse a geringonça mesmo sem
seu comando (isto uma bobagem tamanha que fazemos a pensar sem pensar visto
haver parado a máquina por conta dela mesma num sem-querer do homem). Constatou
sim as condições da alavanca puxada e por fim pulou de vez fora com pés no
solo.
Ela ficou a olhar seu marido no ir e vir, ia ao
motor voltava do capô arreganhado ao assento, reexaminando painel de controle e
imediato a correr de novo à máquina. Observando a mulher seu homem, não chegou
a negar sanidade com a cabeça e cabeleira linda e seus cachos pra lá pra cá pensando
na possível atrapalhação dele; mesmo porque não entendia como qualquer mulher
entendida na época de mecânica automotiva; a rigor ele também desconhecia, não
sendo o básico que todo macho ligado aos negócios masculinos sabe.
Ele não pensando nas dúvidas da senhora, antes que
isso preso nas suas e que eram muitas. Por que teria um carro novo, em estado
de quase novo como aquele, desligado sem mais nem porquê!
Continuou a fazer seu zigue-zague a ir e voltar a
chuchar aqui mexer lá empurrar apertar cheirar, cheirar de fato o motor quente
agora quase gélido horas parado, o que é de um ridículo colossal porque gente
faz mesmo bobagem sem ver (ela estaria em condições para avaliar?) Por essa
altura as mãos os dedos sujos enegrecidos por graxa e aí uma criancice de homem
adulto: limpando nas calças pretejando as calças marcando ao horror da esposa
lá fiscalizando quem sabe as traquinadas como se faz com um filhinho... De
repente deu no ‘mecânico’ um estalo nada de Vieira ou uma quem sabe pretensiosa
ideia e foi examinar o tanque de combustível do seu Ford, que seria novo e de agência em 1927. Abriu a tampa do tubo em
cima no limiar do para-brisa de vidro sujo, subiu assim um vapor com cheiro
forte de gasolina e portanto não sendo o parar por falta do combustível.
Imediato se recriminou, terá dito “seu burro!” não sentiu no carburador esguichar
o líquido precioso quando pôs o dedo indicador nele? Sorriu. Iria chorar?
Experimentou mais uns quesitos, fez mais umas tentativas
na arte mecânica, na qual todos somos peritos e os machos da espécie ainda se
pensando mais, até pensar em termos da bateria. Por que não lembrei isso antes,
falou agora alto pra mulher escutar ou para ele mesmo se sentir vivo; é com
certeza problema no acumulador. Mexeu, abriu tampinhas em ver água e se
‘fervia’ a solução, chocalhou a peça toda, experimentou com a chave de fenda se
o contato correto ao ponto de produzir umas faíscas ou triscos. Ora essa
bateria é nova, pensou e resmungou, ou fui enganado pelo turco. Deixou-a de
lado supondo bom funcionamento e foi examinar reexaminar outras áreas.
Deu tapinha aqui, empurrou ali, viu condutos, mexeu
em fios – nada mexeu, mexeram sim seus nervos.
José andava já explosivo, não apenas inquieto, a
explodir.
Enquanto, ela a jovem senhora de seu senhor, senhor
metido agora a mecânico na estrada perdida perdidos; enquanto isso ela também
se irritava, ora vendo seu esposo aflito a revirar em movimentos rápidos, ora a
blasfemar até, ora mudo, pensava ela em seus próprios problemas.
Aqui entra todo um mundo feminino; e por feminino
difícil entender. Ao menos no entender do desentender masculino...
Marizé. Marizé!
Quando dito assim, nessa entonação esse apelido
nada carinhoso, sabia de antemão um drama a seguir, nada oculto à jovem
senhora. Tendo aquelas três sílabas uma força destruidora qual dinamite a
bombardear a estourar seus miolos a minar seu ânimo. Tendo esse conjunto uma
conotação ferina e um fundo dramático: abria-lhe as entranhas. Como “mulher”
pronunciado por ele acima da entonação habitual, ‘mulher’ dirigindo-se à pobre
queria dizer algo como a perdida a repudiada a rebaixada a desmoralizada – a
lama; era nestes termos indicar aos amigos as amigas prostitutas. Quando assim
mentalmente avançava em seu senhor; via nele a malícia a maldade. Quando a
pronunciar Maria José, o comum pois ele nunca a fazer uso de querida meu amor
benzinho e uma só vez disse “benzinha”
e aí quase a matou de susto no desuso. Mas com seu apelido oficial Maria José
media ela a seriedade no falar do consorte, fosse em público fosse em hábito no
lar, aceitava. Machucando também seu ser na hipótese rara porém só hipótese
quando da expressão “minha filha”, parecendo à pobre estar sendo diminuída no
seu estado esponsal e respeitoso. Agora, quando Marizé sabia de anos ou o
desprezo ou então o nervosismo do homem. Tinha essa conotação Marizé pra si.
Dessa maneira espantara-se e mais se gelara ouvindo o dito em menosprezo no
momento em que a seu lado no carro se referiu a algo que iria despejar na moça;
no instante exato em que o veículo, decerto compreendendo a gravidade na ofensa
preferiu emudecer parar, quem sabe se não a machucar ou frenar um início de
bate-boca na frequente briga conjugal.
Então nesse lembrete Maria José se volta ao passado
recente na sua condição de casada com um sujeito em quem depositara tanta
confiança, embora os pais as famílias houvessem eles por conta própria feito o
trato quase comercial que era o matrimônio nesse início de século. Contudo
amava esse companheiro e mais ainda quando após muitos anos no consórcio
conseguiu engravidar. Agora uma razão a mais para suportar a neurastenia e os
rompantes de José. Entretanto andava ferida por dentro já naquele instantezinho
em que o esposo começando a frase: Marizé... não continuou não concluiu, o auto
parou.
Ela permaneceu no interior uns minutos a aguardar
que o mecânico improvisado e sem ferramentas adequadas repusesse o veículo em
funcionamento prosseguissem a viagem; o que as horas desmentiriam. Depois,
depois de ouvir impropérios – José Maria monologava sem parar enraivecido – bem
depois desceu também, já o sol adulto brabo feroz até; e foi ter a uma árvore
em sombra amena. Antes ficou nas proximidades do motor aberto e do homem
fechado agora, certamente temendo os palpites que daria e não deu ela; não
abriu a boca (não poderia dizer amenidades amansando o touro!) silenciou
assuntou aquela enorme atrapalhada como lhe parecia um motor quente quieto e
após frio mais quieto ainda; e seu homem irascível já a falar de novo sozinho
parecendo louco. Ainda pesava a forma ofensiva do tratamento em conversa
momentos antes do carro morrer. Em suma achou melhor observar de longe, tomou
uns panos e instrumentos próprios e desandou à costura, bordava um qualquer
desenho e apenas retomando a tarefa iniciada no lar.
Natural que eles esperassem um milagre e torcessem
por isso, quase impossível naquela estrada só areia vento poeira sol ardente. O
feito milagroso de passar por ali alguém com recurso ou a levá-los ao recurso,
talvez inclusive rebocassem o veículo quebrado. No entanto apenas ao fim do
dia, o sol outra vez preguiçoso ou sonolento querendo agora ir deitar-se no
oeste do horizonte; somente aí passou um cavaleiro. A mulher não soube o que
conversaram os homens lá longe – o casal apenas se falando na hora da
alimentação e do beber do que levando junto com malas. O esposo indicou a
mulher ao desconhecido a cavalo, decerto não entendendo de carro também e muito
de animais; o passante deu com a mão em cumprimento à distância para aquela dama
sentada a saia aberta ao chão com seus apetrechos agulhas linhas. E prosseguiu
em seu destino.
Logo, isto é horinha mais, chegariam recursos, com
certeza por interferência do cavaleiro de boa vontade e a pedido de José Maria.
Demorou tempo chegar auxílio, demorou muito segundo o pesamento de eternidade
dos que aguardam.
Enquanto esperavam, ele um pouco enfunado ou com
língua presa, ela repassava na mente seus dramas de senhora de um lar honesto;
feliz conforme o pensamento do povo em virtude do dinheiro e das posses mas na
desvirtude do mau uso da riqueza. Aliás rico e até milionário ao homem pobre da
rua, será alguém que tenha carro bonito casa bonita e sorriso feio aparentando
bonito igualmente. Bem o caso de José e Maria... Ela repensava aqueles dias
tormentosos, nos quais temia o futuro por consequência do que a insegurança lhe
prometia.
José de há muito não mais Zé em casa; era Zé em
casa de amantes, segundo soubera e isso um tormento. Sem que pudesse pôr a
questão em palavras claras, discutir e talvez resolver o drama. Aguardava a
bela triste senhora que o filho longamente esperado ajustasse o lar
equilibrasse a vida a dois, a três.
Nessa manhã, já tarde-noitinha, pretendiam ir a uma
propriedade distante quilômetros de Vista Grande, pequena urbe onde residiam,
em procura de solução dum negócio meio escuso de José... ela imaginando sem
errar um desfazer de embrulhadas financeiras do esposo. Ele apenas convidara a
companheira para mostrar ao fazendeiro credor e interessado uma vida doméstica
correta e a contento na relação... Foi nessas condições que se deslocara do lar
a senhora com seu consorte, sob o pretexto aludido por ele da necessidade do descanso
pelo trabalho rotineiro de casa e possíveis atritos com empregadas. Enfim
igualmente Maria José viu com bons olhos o passeio.
Agora era o vento, o vento não parava naquelas bandas;
era areia era pó; os raios solares fugiam, o recurso mecânico chegava e sua
poeira também cobriu avermelhando e fustigando carro homem mulher e suas
ânsias.
Cap. 2 – Alavanca esquecida
A alavanca em manivela não fora lembrada por José
quando José a procurar solução no seu mundinho mecânico. Quisera o acaso em
plantão naquele fim de dia já quase noite na passagem do cavaleiro sem pressa
como quase todos caboclos montados e por continuação abaixo a montaria cansada
dos anos e trabalho ela igualmente sem pressa; quisera a sorte contra o azar
negocista ou financista ou “embrulhista” como opositores gozavam dizendo de
José na urbe; quisera enfim que o estranho a cavalo achasse ele, um ignorante
no assunto, a chave do problema. De fato foi positivo haver o matuto indagado
ao chofer “o bicho num tem manivela?” O curioso da questão, havendo José mexido
em tudo inclusive na bateria, o curioso não lhe tendo ocorrido o auxílio da
manivela, instrumento comum nessa época. Antes os modelos de 1908 forçosamente
só funcionando com manivela e não ao toque do dedo do homem num botão e a
seguir fazer espalhafato o estardalhaço do barulho de girar o motor explodir o
motor por dentro barulhar por fora dele; e aqui a cheirar demais exalando
gasolina, a qual revolvia as entranhas de Maria José na sua sensibilidade pelo
nariz – isto ocorrendo também com muitas outras mulheres e alguns poucos homens
não enfronhados na maquinaria dos carros de então – Maria José sentia mesmo
enjoos perante o cheiro abusivo da gasolina, mormente quando José Maria a
entornar desajeitado o galão e mais o tambor pesado plenos do líquido despejado
através do funil na boca voraz e em pôr e despejar tudo quase tudo no tanque de
seus carros (nem sempre dele ou apenas passando por suas mãos semelhando
imóveis virados móveis a serem negociados “repassados para frente” com lucro ou
então lhe acumulando dívidas, dúvidas vorazes quase como a sede do carro).
Neste ponto da narrativa acontece pensar o porquê de em sua moral extravagante,
a de José, como é que ainda não havia misturado qualquer outro líquido barato
no combustível caro do carro a ter em ganho mais uns mil-réis no hábito de
levar vantagem em tudo como bom brasileiro... No entanto é apenas suposição;
nem Maria José havendo pensado que ele pensasse num horror desse.
Todavia não estando em questão nem esse desvio moral
do esposo nem o enjoo da senhora mas a falha ou lapso dele, indo ambos na
visita que fariam à fazenda, parando, teimoso, ou sem combustível sem bateria
sem outro quesito, enfim parando mesmo e dando uma raiva tremenda no rapaz o carro
sem andar. A falha visto não ver que a manivela poderia auxiliá-lo no girar
manualmente o motor, antes movendo o motor de arranque disparando o resto na
explosão da máquina e em seguida seguirem viagem... Não naquelas avançadas
horas o dia perdido já na boca da noite, o vento a poeira ainda o sol a
ressonar cansaços; iriam decerto voltar para Vista Grande, lugar de pouca gente
e muita pedra, terra dos calhaus dizia um baiano amigo de José; se bem mal
posta a palavra amigo, quando muito a indicar um conhecido que se vê sempre não
o amigo para o que der e vier.
Estavam nisso quando passou o passante no seu trote
às avessas, porque sem pressa como impera o já legendário hábito caipira.
Passou parou conversaram. José apresado com tantas ideias e problemas mecânicos
naquele Ford até novo, represado soltou como um açude demais contido e estourando
suas águas da fala ao matuto, despejou sua conversa no desconhecido: falou como
um profundo conhecedor ao roceiro, como estivesse discursando no parlamento ou
dando aulas numa escola de alta tecnologia, na época inexistente, ouvindo o
outro aquelas algaravias que não davam pra saber sabendo demais de carrapato,
raspador de couro de burro, de bicheira, de arreios e de enxada também, de
automóvel nada; tudo pra si que um bicho grande daquele com quatro rodas de
borracha, um assim igual aquele Ford funcionasse com auxílio da manivela,
conhecendo por ouvir dizer a coisa.
Falou a José nesses termos, o que disparando uma possível
solução ao caso. Daí José vasculhou as entranhas da condução para achar o
instrumento e não achando a alavanca de ferro só sujeiras acumuladas pelo
proprietário, um “porco” na sua opinião – o carro não era de José mas dum
possível vendedor a um possível outro comprador, José havia aceitado quando
muito ficar com um lucro na transação do veículo, aproveitando então para levar
em passeio a esposa à fazenda... e para quê isto de se pensar à toa se não
havia dado certo!
Errado não ter manivela, dispensou e agradeceu o
cavaleiro, pedindo interferir avisar um mecânico em socorro. Partiram pototoque
pototoque cavalo e cavaleiro.
Não obstante ainda após partida do homem vasculhou
José as entranhas do carro, quem sabe achasse o instrumento debaixo dos bancos
– é costume guardar (ou esconder?) as coisas e sobretudo ferramentas nesses
imprevistos abrigos... Não encontrou.
Mas, se perguntou José, por que não me lembrei
antes de mais nada da manivela! Ah ando esquecido e cansado, de cabeça cheia,
para recordar tudo; pensou para não pensar que precisava pensar; ou estourar!
Depois, ou a matar as horas de espera em aguardo do
mecânico vindo da urbe ou só a justificar não estar fazendo nadinha perdendo
tempo, o tempo que é dinheiro em caixa ou arrasando o caixa – em suma a seguir
olhou a esposa lá na árvore, agora sem precisar sombra, se levantando e vindo
para o carro. Era mulher bonita.
Pensou não diria, sua política não sendo dizer sim
fazer. Pensou se lembrando como antigamente bela a jovem. Imediato comparou a
imagem das outras e mais a mais importante em sua relação atual – um caso
escuso a se guardar a sete chaves, sobretudo à curiosidade da consorte, aqui a
trocadilhar sem sorte... Comparou. Ainda assim a outra melhor, sim pesou a
esposa com seus dotes físicos seus dotes morais seus dotes financeiros estes
ele abocanhara com abusos e isto um dos dramas do casal. Pesou não obstante o
filho que lhes vinha. Animou-se um pouco nisso, um tento lavrado acrescido à mulher
com quem se consorciara. Seria decerto um macho, um machinho a levar seu
honrado nome, seu herdeiro! Animou-se sorriu, até olhou com simpatia para ela,
quem sabe a se esquecer momentaneamente do desentendimento conjugal, aquelas
rixas pequenas e chatas que eram as dicussões caseiras e que forçavam
ultimamente sua fuga aos amigos aos negócios e aos negócios sentimentais como a
filial daquela casa antes um lar...
Esboçaram um diálogo o menos frio e frívolo entre
dois quase desconhecidos que não se apreciavam já. Trocaram alguns vocábulos
banais e chãos, descansando ele do nervosismo sem resultado enquanto ela
cansada do mutismo de horas e alguns trabalhos de costura prontos acabados com
esmero e arte, uma arte que José não sabia valorizar a contento, nem no seu
tempo como Zé no lar.
Em suma, como se diz mataram o tempo enquanto não
vinha a tempo o socorro.
Chegou um veículo também preto, uma ramona da marca
Chevrolet bem usada, ao conserto do
Ford novo de José, não dele doutro José, certo José Honório. Conversaram muito
os dois, Maria apenas assistindo os homens na conversa intimista de sua
igrejinha, grego pra si. Entre os machos, o mecânico um pouco gordo e fungando
bastante e o marido dela.
Aí realmente usaram a manivela. O carro funcionou
enfim e tornou à Vista Grande pelas próprias pernas, sem necessitar reboque.
Cap. 3 – Pausa em luto
Houve uma pausa em suspensão nos desentendimentos
conjugais, Maria José em boa oposição afirmando a culpa da indisposição, dele;
José Maria em ótima a julgá-la culpada por tudo; inclusive – ah como existe a
desmedida nas medidas em mente humana! – inclusive no mal funcionamento do Ford
novo, velho só uns anos pois de 27. Assim aquele enguiço absurdo a fazer parar
o carro numa estrada plena de areia poeira ventania tudo muito e pouca gente a
passar, indo o casal alegrar-se numa visita social (isto o cérebro masculino a
pisar mais no acelerador da imaginação e da verdade...) que enfim ela a
causadora do mal. Por interferir dirigindo mal, mal pisando nos pedais, porque
à mulher não entra na cabeça essas coisas de automóvel? Não bem por isso, que
ela dava azar. E aí o macho da espécie contou nos dedos das duas mãos as vezes
em que a esposa presente e surgindo problemas mecânicos no percurso. Exato: dava
azar. Daí pensou não disse falou lá dentro ainda fiscalizando bem para que não
saíssem os sons do pensar alto, daí pensou na outra: ora com Margarida a viagem
e outrinhas escapulidas desde a urbe seriam de plena sorte mesmo e sem nenhum
problema. Não seria por esse azar da consorte também o negócio do Ford do José
Honório haver fracassado! Até propôs ao burro daquele homem entrar na troca um International bonito de lataria e defeituoso
por dentro, entrando na trama com algum ganho pra si, não deu negócio. Por
azar. Tanto assim que o Fordinho não dera mais encrenca após chegar de volta a
Vista Grande e mais uns dias que o carro permaneceu em suas mãos, provando o
azar quando com ela dela com ele... Contudo agora águas passadas, tornavam às
habituais querelas domésticas. Foi uma semana horrorosa com sabor de mês de ano
de eternidade estando em sua companhia, na companhia da azarona Marizé, embora
amenizasse um pouco o sofrimento o fato do herdeiro a caminho. Além de haver a
questão da sogra dona Veva, sempre a dar palpite em casa, se bem que não feria
o genro diretamente apenas indireto com sua presença ofendendo na ausência
dele. Aconteceu mesmo de um dia com raiva e indignação condená-la, imediato
corrigiu o pensar não chegando José mandá-la à morte. Curioso que José em
frente da sogra afinava; um pouco parecido como quando próximo de mulheres
estranhas; quem sabe a compensar se abrindo demais e com toda liberdade perante
as íntimas, ah a Margarida...
As rixas conjugais andavam nesse porte quando houve
um descanso na violência labial por um infausto acontecimento. A mãe de José
foi quem se foi, torcia pela sogra, que a sogra saísse do caminho se não de seu
caminho ao menos. Então houve um perdão geral ou somente temporário em trégua
nas relações de casa.
Da parte da fêmea da espécie ela aceitando bem a
sogra dona Henriqueta, embora não fosse a velha uma Toledo – os parentes de
Maria cultivando muito o apego às tradições e estas ligadas ao antigo enorme
patrimônio dos Toledo – esta gente de muito berço e sangue, ricaços antes mas
arruinados agora. Até houve no tempo do matrimônio deles, uma endinheirada com
um pé rapado sem nome, houve sim certo zum-zum a respeito em Vista Grande,
pequena na época ou menor que agora em que parecia a cidade enfezada retardada
no crescimento. A união dele com os Toledo, não fosse o gastão e desmiolado
José Maria, essa união tenderia a dar certo; Maria não culpando Henriqueta
nisso, inclusive recebendo bem os conselhos da experiência da sogra dela.
Falecera sem estar doente... isto é, todo velho sofre de algo ou de muito,
menos ela que era forte; de repente, ninguém a esperar! Chorou. Maria José
verteu sinceramente as lágrimas, sentimental que sempre fora, participou com os
parentes das exéquias, até consolou o marido devendo ser ela a consolada visto
as crises podendo afetar a criança.
Foi essa morte vida ao casal. Um descanso nos
enfrentamentos no lar e na união que já durava sua década. A gravidez tardia ou
anúncio dela trouxe alguma trégua antes; depois recomeçaram ferozes quando a
gestação virada caso de rotina em casa. Posteriormente, exato nos dias em que
iriam, não foram, ao credor-fazendeiro de José, o episódio do Ford na areia do
estradão; enfim nesses dias foi uma semana violenta e de cansar língua no
recrudescimento das diferenças entre ambos; sequer a proposta de que o filho a
vir teria o nome do pai, seria portanto Zezinho, acalmando o repúdio ostensivo
do homem da casa; em suma não havia amizade se perdera a amizade e mais que
isso o amor, houvesse um dia havido amor; quem sabe se perdendo apenas o
respeito entre eles. Neste ponto difícil ocorrera o amiudar nas visitas da
sogra dele; e o falecimento repentino da velha sogra dela.
José entrou desde a fase do choro e contar e
recontar a vida da morta, entrou em luto fechado. As mulheres de então tingiam
os vestidos de preto; ou no caso dos milionários ou só aparentando riqueza eles
adquiriam roupas negras geralmente mandando confeccioná-las na costureira hábil
e artista de sua confiança. Em geral uma dessas tias que não se casam e casam
com sua arte; toda cidade interiorana tradicional tendo a sua, Vista Grande
tinha duas ou três representantes dignas desse ofício; restando as sem
qualidade, claro como em todas profissões, o pedreiro por exemplo tem seu meia
colher; as outras costureiras com e sem atelier
seriam meias colheres na agulha e linha. Seja como for havia esse luxo aos
considerados de boa família, mesmo nos momentos fúnebres.
Os homens apenas se enegreciam nas camisas, tingiam
os pobres suas vestes. José seguiu o costume ou tradição social do luto. No
primeiro mês a camisa toda; poucos meses depois contentava-se a sociedade com
uma tarja negra, um filete pregado no bolso da camisa em uso de qualquer cor,
José Maria apreciando mais as azuis claras, que dava bem para ressaltar o sinal
preto de luto.
Assim o respeito com a perda pelos mortos na
família. Que se guardava por mais ou por menos tempo conforme a religiosidade
do povo ou da pessoa enlutada. Aqui um exemplo do costume católico da
esmagadora maioria dos vista-grandenses e também particularmente da família de
José e Maria.
Mas o tempo, fechado ou aberto ou velado, o tempo
de guarda passou, a pausa se findou a dar lugar para novas disputas quem sabe a
um nascimento, um reviver talvez entre eles.
Cap. 4 – Nascimentos negócios e outros negócios
Aquela morte trouxe nascimento... não, não é bem
assim visto o menino Zezinho já encomendado à cegonha, à época mui votada a
cegonha pelo povo; mas verdadeiro que o garoto ia adiantado quando sua avó
faleceu; inclusive Henriqueta havendo passado alguma coisa à nora gestante com
sua larga experiência feminina de muitíssimos partos; a senhora se contando
viva inclusive como futura comadre da nora batizando seu esperado herdeirinho,
o que não se consumou não adoeceu porém morrendo assim mesmo a espantar os seus
próximos. Nisso uns a pichar José Maria um filho a chorar como o crododilo, o
que abuso da língua porque o homem amava a seu modo a genitora; apenas não se
ligando demais à mãe, mais visitada sempre pelos manos dele e mais ainda pelas
irmãs. Contudo quase coincidindo morte e nascimento. Mês depois José Maria era
pai... O povo miúdo a crer dessa forma e assim negando a concepção e os nove
meses de espera. Daí o pai do machinho se assustou... Não é isso propriamente, se
decepcionando.
Realmente veio o bebê normal pela parteira de
confiança dos Toledo e tudo o mais, uma que atendia à nata rica de Vista
Grande; o trabalho foi o comum de se ver, houve assistência médica conveniente,
o que os pobres não tinham. Enfim a parturiente cercada de todo apoio. Não
obstante mesmo ela pega de surpresa na chegada desse novo ser, não pelo nascer,
pelo nascer uma femeazinha da espécie. Logo, quer dizer após horas de
expectativa e de sofrimento real, logo sorriu ao examinar a herdeira; porém
ficou num dilema atroz pela reação que teria o pai da criança.
De fato tendo alguma razão pois o homem se decepcionou
deveras com a menina, comprara inclusive charutos para receber o herdeiro, o
que dentro do costume dos seus ofertar em alegria aos amigos mais chegados. Foi
além José Maria: olhou friamente aquele serzinho em projeto de gente na cama da
mãe; esta que poderia estar aguardando um beijo, mesmo um que fosse em trégua
na guerra conjugal de meses. Considerar que fazendo quase dez anos sem a
fortuna de gerar um filho até chegar ao prêmio da luz e agora imediato um desencanto!
Maria José embora esperasse qualquer coisa nesse sentido ficou horrorizada com
seu cara-metade; este foi mais ferino, pudesse, mostrou aversão e asco vendo a
criança e foi chorar escondido no fundo de casa sua mágoa, um machão nesse
tempo não choraria fraquezas diante do desafeto.
O casal andava de qualquer forma ansiando por uma
normalidade real e não formal com essa vinda do terceiro ente da família,
entretanto já no primeiro dia dessa existencinha iniciava um como que
desmanche; ou somente o desmanche da película em cultivo de uma tinta como
verniz para efeito social. Aquele negócio de contentar os olhos doutrem...
Começaram as atenções com a garotinha, o comum com
bebês e a inexperiência materna, compensada pelo tato e o sentido da
maternidade. Logo ver-se-ia a amamentação os banhos os cuidados; a bebê a ficar
igual múmia enrolada em faixas como o hábito da época. Também a saúde
melindrosa própria dos primeiros meses, os chorinhos, cheiro de fralda suja e
de talco. Nada de novo ou original nesse início de estada.
Aos poucos a coisa entrava nos eixos na casa. Não
que o marido cedesse em seus ímpetos, mas a esposa sábia sabia contornar tais
ímpetos. Além ter dado a diminuir a decepção paterna um passo acertado. Propôs
Zezinho levar o nome da falecida mãe dele. Assim entra na história familial
mais uma Henriqueta. O que descontentou sub-repticiamente dona Veva, mais
amansada agora nos palpites que a oposição debitava a ela. Uma convivência
pacífica!?
Foi em virtude da água fria na fervura conjugal e
mais ainda nas atenções que exigia o novo membro do lar surgir a oportunidade
em o chefe da casa se ausentar mais da casa; mais que o costume de anos.
Então – em nome dos gastos com o crescimento da
família – então passa até dias fora, alegando a entabulação de negócios...
De fato se metia José em novas transações e também
em novas encrencas por conta disso. As dúvidas sim, mas as dívidas muito mais
se avolumavam. Comprava vendia sonhava ganhava perdia, perdia com mais
frequência ou por afoito ou por crente ou por aventureiro, ou mesmo por falta
de sorte. O homem comum crê muito na sorte e sofre o azar... Seja como for José
Maria já anos dando conta do recado com tais recursos, agora não conseguindo
mais manter os seus. Aí aparecem os Toledo, também quase falidos embora o
respeitável nome, surgem a diminuir o rombo do parente e o assédio dos credores
do homem. No entanto era como o balde furado e que não retém água... Afundava,
afundavam juntos os seus no lar e os parentes e os amigos, estes fugindo antes
como que por encanto na medida em que o navio de José fazendo água.
Contudo José Maria era um guerreiro brioso ou só valente.
Metia-se porém em embrulhadas e canalizava desgosto para Maria; enquanto
Henriquetinha apenas sorrindo e dando os primeiros passos não sabendo o
desastre iminente. Maria José, anteriormente um pouco orgulhosa em ser uma
Toledo, agora somente briosa, no entanto sentia por isso enorme vergonha, a
ponto de nem sair frequente mais à rua, não sendo à missa, então desacompanhada
do esposo. José lutava com coragem (e safadeza diziam na praça) lutava com
certa garra, usava de inteligência, nunca fora um burro, epíteto depreciativo
na localidade; se jogava de peito aberto porém a constatar falta de sorte nos
empreendimentos e também a má-fé dos outros. Por que será que outrem tenha
sempre más intenções! Punha assim o embrulho. Comprava imóvel, revendia veículos,
transava animais e tropas inteiras, negociava o que a aparecer ou intermediava
negócios – ganhava como podendo e sabendo, não sabendo o como perdia. Ah a
sorte. A falta.
Todavia tendo sim muita sorte noutro tipo de
negócio: o amor. O amor no sentido de sexo, sexo de um dia, não o amor profundo
e total com o qual se poderia enriquecer, bastando cuidar de sua familinha, a
mulher e a filha. Não quis ou não pôde se exercitar com tal oportunidade que a
vida o havia presenteado. Seu negócio mais importante era estarem em seu redor
as mulheres.
Isso tendo um custo. Nas vacas gordas dos bens advindos
dos Toledo esbanjou viveu como milionário; com as outras; eventualmente com sua
esposa. No tempo das vacas magras a penúria inclusive, pois não tinha medida
nos gastos. Um pouco embriagado e já se dispunha a gastar fácil, a ter mão
aberta como fosse rico que nunca houvera sido. Virava mesmo ‘doutor’, um homem
que não tivera berço não tivera profissão definida não tivera estudo e nisto
nem persistira como muitos que seguiram o chamarisco do diploma. Ele não, era
esperto sim mas quase iletrado; desse tipo belo e atração das jovens entretanto
sem preparo à vida, a vida chegando nessa altura quando já deixando ser vida...
No fim deu um golpe terrível, o último calote no
seu meio de negócios e mais na pobre Maria José: faleceu no meretrício numa discussão
bêbado. Deixara duas viúvas, a Margarida sumira e já tendo nova amante na
filial; e Maria José, envelhecida precocemente no sofrimento e na desmoralização.
Apenas Henriqueta, o nascimento prometedor, prometia;
o que um dado positivo nesse negativo.
Cap. 5 – Os quintos
O caboclo em particular e o homem comum em geral na
época se expressavam na perda no final no mal como sendo ‘os quintos dos
infernos’ e vamos que tenha tal conotação um pouquinho este bastante do quase
nada deste capítulo, a formalizar o fim em continuação. Continuação pois a
seguir vindo a outra parte desta novela ou seja a segunda geração, que seria
para unir dois nadas: o sangue da geração velha com o da geração atual. Era
para ser a personagem principal a ponte dessa passagem. Mas houve um senão
talvez bem grave: Henriquetinha, constatou-se, estéril... Além do fato da gente
do povo ter quando muito parcos conhecimentos
dos vínculos e sem conhecimento real de suas raízes.
Em verdade José Maria se emporcalhou se perdeu se
desenliou das linhas que procurara anos antes: os Toledo a riqueza quiçá o nome
na riqueza, esta já em ruína e só nome.
Deixa portanto a família num verdadeiro inferno, o
inferno de não possuir o que só possuindo nominalmente... Deixa pobre a pobre
Maria José, bela até prova em contrário (lembrando o tempo, o tempo desfigura
transforma e prova por a+b o que duvidamos ou não saibamos a contento) bela
envelhecida antes de envelhecer. Deixa semente sua, embora repudiada, ostensivamente
indesejada, o mal não sendo totalmente mal tendo feito algum bem, visto serem
conhecidos tantos casos em que o filho criado como fêmea, a filha educada como
macho – a acertar a doentia personalidade dos genitores – não sendo o caso
porque felizmente a repudiadazinha foi aceita em mulher; assim o mal virando
bem, com seus descontos. Em suma ficara uma semente à posteridade desprevenida,
sempre ela desprevenida. Deram, aliás a mãe dera, o nome Henriqueta para
segurar um pouco a atenção paterna. O que não funcionou.
Henriqueta, neta, foi educada pela mãe estando
casada; em viúva apenas por ela; um pouco com ajuda de uma tia. Não dessas
solteironas que o povo assim apelida em desfastio ou em constatação dos hábitos
do tempo. Não dessas, em vista mais para diante entrar por conta própria para
um convento, convencida ao celibato e deixando os machos da espécie a lamentar
a perda de tanta gostosura numa freira bela. Ainda mais para diante tentará
mostrar à afilhada a porcaria devendo ser o matrimônio. Sem sucesso nisso e
nisso batem palmas alegres o porvir e as outras gerações. Que sejam as gerações
apócrifas e não puríssimas por sangue impuro tão só vermelho, nada azul nem com
o ‘pedigri’ da riqueza...
Henriqueta, ou Quetinha pra mamãe, ela foi criatura
normal, com educação normal esbarrando aqui o normal sem apoio paterno com pai
vivo e depois sem pai mesmo, órfã.
A mãe dela é que não se podia gabar normal. Antes
sim uma sofredora comum, ‘enfeiando’, que é uma forma bonita no verbo
enfear. Se acabou nos cinquenta e um anos, o que não foi boa ideia; morreu com
mil problemas de saúde e de saúde nos bolsos, na bolsa. Não legou herança,
apenas a herança de existência reta como possível e a deixar a chorosa filha
nas mãos dos restos de Toledo que ainda pairavam nos seus familiares.
Contudo a jovenzita ‘adolescenciava’ já e pôde (não
demais) tomar conta de si mesma; o que a segunda parte poderá melhor
esclarecer.
Segunda Geração – últimas loucuras?
Cap. 6 – A jovem e o esquecimento do passado
O esquecimento é algo inerente ao ser humano,
atingindo essa tragédia do homem o homem como milionário rico pobre miserável;
assim como estando ela em quaisquer bolsos pobretões e ricaços, não fazendo
média igualmente com quem na média dos cobres poucos e dos ouros muitos. Porque
ademais não atingiriam seus tentáculos o inocente miolo de Henriquetinha! Não
se lembra de nada, tudo esquecido recorda apenas uma vez que outra quando no
falar dos Toledo restantes a abordar xis ou ípsilon da família. Tem nisto outra
questão.
É a existência da doutrina segundo a qual não fomos
flores a se cheirar antes mesmo de nascer – tanto assim que enviados a cumprir
pena, ou por vezes poucas certa missão, aqui no planeta sofrido, isso ainda
válido ao tempo da jovem, aí passados os anos da Segunda Guerra Mundial; em
virtude dessa desvirtude Quetinha esquecida benfazejamente da fase anterior ao
nascimento – mas, agora pondo no visor literário falho fraco feio desta novela,
pergunta-se a dose não foi grande demais, a dose de esquecimento, à mente dela!
a ponto esquecer, contaminada, a próxima passada geração donde proveio e em que
viveu com Maria e José José Maria e ainda com os palpites toledos...
Este problema que se põe agora.
Visto mundanamente a coisa explicado fica o desinteresse
das novas gerações com respeito às gerações anteriores, o que estas fizeram
foram feriram ou prometeram produziram presentearam ofereceram às novas; aqui
sempre novíssimas pois o mundo vê o mundo da atualidade no ponto em que está,
quase como que num encanto num ato mágico isolado sem raiz; absurdo, até o
absurdo exista existe sem raiz. É a ação deletéria do egocentrismo, abarque ele
ou não o egoísmo. Uns filósofos põem esse desinteresse ou desconhecimento na
afirmação de que inexiste o passado não se lembrando do passado. Esta novelinha
diz não ser seu escopo atacar filósofos: e sim desenvolver o pensamento da
personagem; por sinal durante o pós-guerra uma gostosura, a moça bem entendido.
Henriqueta, deixada adolescente pelos pais ao sabor
do mundo, embora a possível boa influência toleda; ela passa a se desenvolver
também num possível ‘a contento’.
Perdera – ou perderam por ela? – perdera até a
residência à voracidade dos credores paternos e a viver de favor na casa dos
parentes. Não desandou a se tornar favelada, não se drogou (também isso não
sendo moda na época... a moda de ingestão alcoólica existindo sim:) não se
perdeu em noitadas com bebidas, não se perveteu no sexo barato e banalizado.
Por influência dos tios e por moral própria. Nem semelhantemente se perdeu em
canudos vazios.
Em meados do século XX eram frequentes os formados
desinformados na classe dominante, com ajuda da miséria moral da pobreza a
valorizar diplomas.
Ela não.
Um belo dia entretanto sonhou como todo jovem.
Pensou magistério; seria mais uma professorinha a enriquecer a coleção da rotina.
Aqui esbarrou como qualquer pobre, então pertencendo com os Toledo sobrantes de
nome sem bens ou com bens hipotecados ou perdidos portanto pobres, esbarrou nas
poucas escolas de Vista Grande, rica em pedras sim e não na oferta de unidades
de ensino e menos tendo a para formação de professor. Acabou numa escola
estadual, nessa ocasião a de melhor qualidade mas ocupada por gente rica; teria
o pleiteante à vaga que passar por vestibular seletivo e a pobreza vetada por
sem preparo na escola fundamental. De maneira que impedida a maioria na classe
social de baixo penetrar o estabelecimento oficial para formação de mestres...
Esdrúxula questão pois o dever do Estado é dar condições aos que não possam
pagar. Isto um problema que ultrapassaria esse tempo no país até chegar ao III
Milênio. Os que podiam pagar a escola privada, fugindo dela por qualidade
deixando a desejar.
Nesse quadro traçado foi um prêmio se não loteria a
bela Henriqueta transpassar os portais da única escola dita pomposamente Escola
Estadual do Ensino Normal de Vista Grande; foi prêmio passar nos exames e
caminhar para ser mestra.
Uma pobretona, embora teoricamente uma Toledo,
cursando estabelecimento de tal envergadura!
Não obstante perdurou e foram três anos sofridos a
ela, vencidos em termos, a esbarrar num diploma e na festa, ah a festa sem
roupa adequada apresentável e cara...
Cap. 7 – A normalista
Em beleza e graça e trabalho e estudo e mais estudo
e persistência ou teimosia passaria como a dizer expressão desse tempo
inclusive com louvor. Mas a inteligência ou quem sabe as deformações de anos
testemunhando o sofrimento materno e não tendo antes da Escola Normal recebido
conveniente base – tudo concorreu para
seu ganho insatisfatório no curso. Acrescido pelo descaso que os ricos, as jovens
riquinhas, da classe nos três anos dedicaram a Henriqueta. Todavia parece que
seu ser pesou mais. Em outras palavras a bela criatura tendo insuficiências
psicológicas de peso a pesar no todo da aprendizagem. A aluna número 33 na
chamada diária, tudo fazia fazia tudo a decorar...
Se isso é grave! sim e não. Ajuda aqui a mentalizar
dados matemáticos, poemas, informes históricos e geográficos; sim, grave na
forma da decoração: era não mais que papagaio, no caso certa maritaca, a
repetir reproduzir integralmente o que não entendendo. A moça a decorar
absurdamente aulas inteiras! sem penetrar o sentido e sequer parte dessas
aulas.
Portanto chegou quase a se formar, sem se enturmar.
Antipatizada, as outras colegas tendo aversão a ela semelhando o tratamento recebido
do genitor, a suportar esse estado nos curso inteiro, desistiu da formatura no
limiar da formatura, a formatura que era um expediente da classe rica que podia
pagar e esbanjar cerimoniais e bailes e festas. E nisto não estaria sendo
honesta consigo mesma?
Teve intuição suficiente para apreender e
reconhecer sua limitação e sua incapacidade.
No entanto o curso normalista deu-lhe um presente,
quem sabe se não sequer percebido por ela ao longo dos três anos, teria um
quarto ano como repetente do último em conclusão para ser mestra de crianças,
alfabetização essas coisas.
O presente fora o esposo.
Cap. 8 – Casamento glória inglória
Em se tratando de matrimônio nos velhos tempos – o
povo da época achando ser novos tempos – a expressão mais recorrente e mesmo
corriqueira é a da prole numerosa nos pobres pouca na classe abastada mas com o
fecho “e foram felizes para todo o sempre” esta eternidade desconhecida pela
gente, qual o sentido da frase à gente comum.
Todavia necessário pôr os pingos nos ii.
Primeiro que a prole no caso da heroína ou fêmea da
espécie anti-herói se se quiser, no caso inexistente essa prole. A filharada o
comum as mulheres terem não aconteceu . Nessa altura ou seja no fim do II
Milênio elas com meia dúzia quando muito e havendo a tendência da mostra
burguesa do estereótipo papai mamãe filhinho filhinha e chega! Essa tendência
refletindo inclusive no censo demográfico. Todos, os que se lembravam
porventura de seus velhos familiares, todos recordando famílias numerosas.
Algumas matronas antigas com mais de vinte filhos! Agora mudara a entonação da
cegonha. Ela se modernizava como assim também os veículos e costumes. Não cabia
mais um José Maria carregar sua Toledo num Fordinho e menos num ‘Fordinho de
bigodes’, dizia o chavão.
Não obstante o comentário sobre a mudança na concepção
para restringir a concepção, havendo casas cheias e havendo doutro lado
inúmeras fêmeas da espécie sem gerar. Ou por consciência ou por necessidade ou
por incapacidade, apesar dos esforços e aspirações, os desejos maternais enfim.
Henriqueta da Silva, Silva ganho de seu homem, uma Henriqueta na escola até
desprezada não desprezível longe disso, dito ser bela e apresentar boa moral;
Henriqueta, afirmou o obstetra, era estéril. Sabedora dessa ignorância chorou
dias muitíssimas noites e inclusive na frente de seu marido, um Benedito.
Um Benedito apesar de tudo. Nisto entra uma
explicação válida a entender o caso. Benedito bem como Sebastião eram na urbe
costumeiramente apelidos de preto, de negro pobre. Benedito da Silva entretanto
branco, queimado de sol porém caucásico e de família com origem europeia
emigrada; e ao pobre muito rico.
Tentara o magistério em moço, fora colega de Henriqueta
e nutrindo simpatia por ela. Desistiu ser professor, chateado em meio da sala quase
que feminina, não atraindo os rapazes a profissão em meados do século passado e
assim passou-se para um curso técnico deixando a escola normal mas com atração
na ‘namorada’ de vista... Outra explicação necessária: só de vista por causa a
timidez dele no abordamento ao outro sexo; outro esclarecimento são os
apóstrofos. Necessários a comparar namorado. No tempo do casal em estudo namorado
tendo consentimento dos pais, no caso dessa garota da tia freira, a qual
torcendo por sua sardinha torcia que ela também fosse parar no convento e
falhou no convencimento. Recebia anuência dos outros Toledo para manter as
relações sem relações íntimas... Aqui entra o namorado de hoje o qual vive com a namorada come com a namorada
dorme com a namorada e eventualmente mora com ela. No tempo em questão o povo
apelidando depreciativamente esse tipo como “amante”. Portanto Benedito sendo
namorado respeitável de Henriqueta desde os bancos escolares, aquelas carteiras
antigas pesadonas e tradicionais no ensino oficial.
Já fora ambos do dia a dia na escola cada qual nas
suas respectivas atividades, ela mui caseira já tendendo a se dedicar à costura
ou quem sabe a virar antecipadamente tia... Ele no comércio que enriquecera
seus pais. Quando ocorreu ‘um’ matinê; o povo então não fazia concordância nos
nomes importados da França, além de não concordar também com o período atirando
matinê para a tarde nos circos comuns na época e nos domingos de cinema com
seus seriados sempre importados e os originais brasileiros assobios e gritos dos
moleques na versão vista-grandense.
Aconteceu a sessão vesperal no Cine Vista Grande,
pequena casa de espetáculos que servia além de projeção de filmes como teatro
ocasional ou para encontros políticos das autoridades visitantes, aqui com
ingresso franco e muito concorridos.
A projeção duma comédia francesa, o comum já o domínio
americano nos filmes, foi a base do encontro ‘casual’ (o acaso não existe)
quando se veem pretendentes ou apenas simpatizantes, neste caso Henriqueta e
Benedito.
Conversam, se entendem, relembram o tempo de estudantes
e falam das pretensões. Iniciam um namoro sério e com decoro e coro, coro dos
familiais e amigos, pouquíssimos dela numerosíssimos dele. Poucos meses depois,
falecendo o pai do rapaz e precisando o primogênito Benedito dirigir os
negócios, pouco tempo após a matinê o matrimônio. Simples como exigindo o luto
do noivo.
Cap. 9 – Os planos os fracassos
Já ia longe o tempo em que Vista Grande era pequena
cidade com poucos habitantes e muitas pedras, na qual os Toledo cresceram
pisaram desviaram e interromperam o poderio, em que semearam tantos membros e
projeções, uma não dando muito certo, Maria José findara vilipendiada, deixando
em oferta à segunda geração Henriquetinha, a responsável na continuação.
Casara-se, enganara o clube dos solteirões, e
casara-se bem no dizer do povo, que vê a superfície e não sente o coração desconhece
as tramas à aparência bem de uma classe social. Fizera com seu consorte os
planos que os casais põem no início duma relação. Nele povoaram o planeta, ela
mais comedida propôs então abaixar para a meia dúzia corrente de filhos no
pensar do povão. Ele sorriu a tanta alegria ou promessa de felicidade. Que
desse a criar ao menos uns dois ou três filhotes já estariam completos; o
primeiro exigia fosse um menino para orgulhoso levar seu nome e o nome da casa
do pai dele, pai extinto. Ela aceitava mas torcia intimamente a contrariar o
esposo em ter uma garotinha para vestir e ser sua companhia na cozinha e na
costura... Não chegou ansiar que seguisse a menina a linha da freira tia-avó;
longe disso seu sonho imediato rápido e feito era já imaginar-se com netos.
Contudo o ginecologista liquidou todo e qualquer sonho
em duas frases curtas analisando resultados clínicos e infelizmente para a moça
o médico tinha razão: não procriaria dona Henriqueta. Sim, tentariam tratamento
caro e longo a remediar o terrível quadro, o qual nem o choro derretendo o gelo
da decepção.
Benedito aceitou, melhor dito ‘aceitou’. Em verdade
aí começaram desentendimentos. A lógica cabocla a esperar em repetição que se
perdesse igual o sogro desconhecido dele atrás de possível prole com outras
mulheres; para errar na lógica e no desacerto da procura de caso amoroso
extraconjugal. O homem se não íntegro, de boa aceitação na moral de parentes
amigos e clientes, ao tempo estes últimos não passando de fregueses. Assim
queria manter intacta sua versão séria dos negócios, também negócios dos manos
e da velha mãe; sem falar, aqui falando diretamente, nos interesses do lar dele
e da consorte, bela mas depois enfeando um pouco por idade e decepções.
Todavia a casa de Henriqueta não imitou a dos seus
genitores... Ou por outra: exatamente isso que aconteceu, embora às avessas...
Não se sabe o que deu na cabeça duma senhora tão
séria e de moral inatacável, segundo todos conhecidos e conhecidos se passando
por amigos, as pessoas relacionadas à família; mais ainda indignação dos
próximos e frequentadores do lar, sem luxo entretanto com todos recursos e
benesses dos milionários. O lar possuía de tudo como mobiliário adereços servidores
– todos benefícios a patroa tendo, a compensar não ter chegado a professora
nem, e isto a doer profundamente, a ser mãe. Ou por causa disso tudo?
Não se sabe.
Não se sabe também por que o chefe da casa não assassinou
ou na melhor hipótese não expulsou a adúltera... Henriqueta arranjava ora um
ora outro companheiro enquanto o esposo na direção obstinada de sua empresa,
ele a ficar no trabalho além do horário comercial. A mulher com esses filhotes
dos futuros ‘namorados’ não conseguira também engravidar (registraria como
filho legítimo do esposo!) Enfim acabou por se desgostar dos amásios ou não os
considerou confiáveis, desistiu e virou uma senhora decente. Dessas que a
vizinhança não fica inventando crimes e deslizes morais. Ou não?
Sim, o homem nunca descobriu amantes. Brigaram marido
e esposa como qualquer casal honrado por outras desonras menores. Coisas que
não interessam à vizinhança, esta melhor informada das coisas próprias dela
mesma, deixando em paz a brigarem livres Henriqueta e Benedito.
Tanto assim que ele faleceu doutras causas das
comuns se não normais. Enquanto ela enviuvou herdou o patrimônio.
E segundo a oposição vizinha, em conduta ilibada e
com um mérito, se mérito, que foi o de se dedicar à caridade, como o povo
percebe caridade, ou seja ela a se confundir com paternalismo.
Tornou-se um sustentáculo à sua igreja, amiga do
pároco e dos pobres sujeitos à assistência.
Particularmente, ou por não ter tido filho ou por
sentir o drama doutrem, adotou uma filha, uma senhora paupérrima a tentar
levantar-se da lama com sua filharada. Assim Henriqueta na década de setenta
deixou o planeta na condição de mãe de outra mãe e de avó de muitíssimos netos.
Todos choraram essa partida. Bem mais do que, tivessem conhecido, teriam
chorado a morte de Maria José.
Marília novembro 2010
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