terça-feira, 20 de agosto de 2019

Rio de Sangue


Rio de Sangue         

- Composição avermelhada do pensamento. Quando resolvi perpetrar de vez o assassinato acreditei num assassinato e pratiquei o assassinato; nunca havia cometido um crime, no tempo de criança e me repugnando violências fugia dos berros e dos gritos do capado do bezerro do cabrito a oferecer forçadamente a vida aos convivas da festa natalina e assim fugia até do espantar da galinha a ser pega para o banquete.  Quando na brincadeira de casinha no meio das meninas, fosse hora dum sacrifício qualquer mesmo no caso dum voador pernilongo: já desabava; enfim reconhecia não ter pendores para tais sofrimentos, pra mim tudo seria violência em havendo sangue.  Certo incerto machucado inocente, já me desandava a batedeira a corrida de perto e mais no pior sendo nisso eu a vitiminha.
Assim peso o peso deste peso cheio de sangue; o sangue que é o filtro condutor desse mal já praticado e até fico, eu fico! chego a ficar com medo de mim mesmo.  Então me pergunto temendo responder se outrem não possa diante de mim estar ainda mais temeroso... e daí é um pulinho imaginar medir temer opor e tentar opor-me a mim mesmo e a crer que eu seja um monstro!
Tudo começou assim, desse jeito dessa maneira numa forma que nem eu próprio compreendi de imediato a extensão do drama.  Desvelo-me agora a medir tal problemática.

- O sangue. Agora curiosamente em paz – que seria de fato a paz! – agora na paz possível revendo o caminho tortuoso, revejo o início, claro tendo quem sabe início, no início: o tiro.
Ia longe, e isto talvez o início... ia a perder de vista o estrago que ela me impusera.  Antes fora eu casado e de família bem constituída, aquele negócio de namoro amor como o ser comum compreende o amor, o pedido à família e suportar ranzinzices do velho futuro meu sogro; e aí, só aí a papelama cartório padre festa lua de mel, a de pobre já no dia subsequente a gente no trabalho – num resumo o casamento nos conformes e o começo da vida a dois; a três a quatro a vários filhos. E as crises corriqueiras brigas conjugais com parentes no meio a violência de minha boca, das nossas bocas: choros, separação e novos choros, coisa assim.
Assim entrei na ilusão da liberdade e me aprisionei para o resto da existência, hoje apenas sou lembrança de mim mesmo e por isso não persigo mais a liberdade, sequer vigiando a liberdade para tê-la.
No princípio, prolongando por muitíssimos anos, me enrosquei com mil companheiras, ou nos ajuntamentos sem ter verdadeira querência – até ela chegar pra mim.
A par me esquecia de propósito dos meus, os de sangue; sequer indo rever a filharada e me esquecendo por desejar esquecer a ex-esposa. Foi nesse ponto ela me aparecer e então falou-me vir para ficar eternamente (ah como abusamos do termo!) Por isso fiz ainda mais força para não lembrar a minha ex. Todavia é aqui o nó górdio da questão.
Mais tarde findei por entender não haver esquecimento, nem da ex-mulher, mau grado meu desejo; nem do como me livrei da outra, referindo-me aqui ao objeto do meu crime. Oh terrível conclusão, mesmo estando nesse início: a de que o crime é somente meu, não da sociedade à qual enganei e me escondi portando-me decente e homem de bem no meio da coletividade. Verdade que pretendi e supus haver perfeito o crime perfeito, que não existe; verdade que encobri tudo dos outros; mas não consegui esse objetivo sobre minha própria pessoa... tanto assim que remexo agora o sangramento que permaneceu e permanece, eu me indagando se permanecerá.
Ela não era bonita; ou era e me enganou? porém suficientemente atraente como gente contra impertinentes que se portam de heróis salvadores e santos. Não, jovem errante errada e inclusive se reconhecendo assim. Assim me provou seu eu seu mal ser necessário e vivemos a chamada vida a dois por vários anos. Num belo dia descobri-lhe os ciúmes e até cheguei à constatação de posse: eu virara um objeto seu. Descobrira também seu manuseio e em razão disso me tornara uma coisa, coisa sua. Sim, não precisava haver-me conduzido rumo à vingança e para me livrar dela tomar o caminho do crime. Não bastaria deixá-la? Viva. Morta.
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Foi muito difícil, penosíssimo, conviver com ela após a constatação, mostrar-me bem e mal planejando. Planejei eliminá-la. Curiosamente os planos não envolviam sangue. Mostrava-me bem alegre, o amigo o companheiro e disfarçava apresentando amor. Quase um circo, ao menos cenário de péssimo teatro ou dum teatro de picadeiro. Necessário saber ser ela um ser sem qualquer cultura o que me desagradava, embora possuindo a do coração, algo que vinha do interior dela.
Vivíamos na cidade grande, grande diante nossa pequenice visto de pequeno porte e apenas maior que as vilas donde vivêramos ambos, ela numa eu noutra. Em suma não passávamos de matutos. Criminoso, futuro criminoso a bem dizer esse mal, eu trazia as experiências de casamento legal desfeito e outras uniões ilegítimas e até promíscuas para tentar a dita e defendida liberdade presa no meu pensamento... enquanto ela, a companheira, sendo mil vezes rodada nos lupanares, atirada antes ainda de nosso encontro à vida, “vida fácil” como alcunham, após estupros sevícias e crises em família, fora praticamente vendida negociada sem quaisquer escrúpulos pela própria mãe; resumindo, uma sofredora que me encontrou para arrimo e numa esperança aos seus tormentos; que me achou qual chapeuzinho vermelho jogada à boca do lobo mau pela sociedade. Eu era então o lobo sem o saber, hoje conscientizo essa conclusão a contento no descontento.
Enfim cheguei a tal conclusão depois de anos convivendo com a moça, moça minha amásia. A si eu o príncipe encantado que lhe houvera dado um lar decente, casa móveis companhia, a companhia para exibir vitoriosa na urbe aos possíveis amigos, mais conhecidos que realmente amizades confiáveis, relações com lastros e provas já então desnecessários por nos bastarmos. Explico que em fase anterior minha, com esposa e filhos, meu lar era varado sempre por amigos colegas parentes conhecidos; e agora nessa pobre casa montada éramos tão somente nós dois a conversar, sem visita; mesmo porque vivendo numa cidade grande e desconhecida ser duro confiar em alguém e assim não tínhamos amigos. Iríamos ainda formar uma família sem forjar amizade do tipo eterno (enquanto durar? indaga o poeta). Contudo não houve tempo bastante: o amásio sacrificou a amásia...
Todavia enquanto durou éramos um casal feliz e assim poderiam imaginar nossos vizinhos, essa gente de “bom-dia” “boa-tarde” “acho que vai chover” “tá frio” e outras baboseiras maiores ou menores. Vivíamos. Bem? até que sim aos olhares alheios; ora, quem pode garantir a integridade e a paz dentro das quatro paredes e um telhado na residência simples e alugada mas decente. Tínhamos nossas rixas e nossos respectivos perdões. Sim vivíamos. No trabalho diário tinha o macho da espécie a serviço e ganhando o sustento; na casa ela trocava uma que outra palavra na vizinhança passando o maior tempo com as coisas do lar – uma senhora recatada discreta direita. A noite ora escondia rancores do par ora amenizava ou alimentava a querência. Nada que o sol, no caso a lua, nada que ele não houvesse já visto; quem sabe se não sorrindo de nós na sua alegria matreira. Após, o dia.
O dia, o normal, não passando do comum aos seres comuns.
Por dentro entretanto ardiam queimavam nossas desavenças; as dela demonstrando ciumeira como falei.
Um dia, após mil vezes pensar ou até a me viciar sujando o pensamento, um resolvi dar o basta. Então andávamos separados, fisicamente; mui outras vezes nos iludimos amar-nos e mil outras nos separando. Entretanto a perdurar de meu lado a necessidade dela, e do dela o ciúme e a posse. Daí, após uma bebedeira (a mesma bebedeira que anteriormente me destruíra um lar santificado pelo matrimônio e filhos) após beber tomei a decisão de acabar com o martírio, pra mim já martírio e o cume do sofrimento e da instabilidade; hoje constato haver errado, só me sobrando o sangue...
Fulana, eu disse para ela, aliás dirigi-me como um amoroso, eu disse à companheira “meu amor” provarei que a adoro: vou me casar consigo, consegui meu divórcio e agora só você existe pra mim. Prometo irmos à nossa lua de mel! Onde como quando e outras curiosidades feminis toureei a moça com agrados e enigmas; e pior: com sorrisos misteriosos e falsos (eu sabia já falsos).
Comprei um jipe velho, comprei e nunca pagaria nem retornando àquela nossa cidade; o qual trocaria posteriormente por bugigangas e um terreno sem qualquer documentação, pouco importando perdas financeiras porque eu me livrava daquele entrave lembrando a mulher gasta e ciumenta.
Partimos numa madrugada fria, apenas levando o indispensável a viajantes (ou fugitivos!?) Paramos na estrada desconhecida, vazia naquele escurão da noite daquele dia demais ventoso. Era a paz por volta, a guerra e o medo o terror em minha mente. Disse a ela chegada a lua de mel, tirei arma e atirei na cara dela – o sangue se me espirrou vermelho num cheiro característico que trago até hoje no meu rosto e nos meus braços pelos estragos que fizera sobre um ser humano e minha companheira!
Cavei o improviso de sepultura na mata ferida, ferindo meu ser a depositar aquele fardo pesado de anos; joguei-a dentro, cobri descartei olhei reexaminei funcionei o jipe e fugi. Ah fugi fugi fugi.  Entretanto em mim mesmo sentia os respingos de sangue que me acompanharam...

- Sangue de meu sangue. Corri corri corri, fugi fugi, fugi de mim mesmo e me encontrei parado, o carro ligado a funcionar sem que eu ouvisse qualquer som dele ou de ruído de qualquer animal num piado presuntivo eu surdo a tudo, o veículo ligado lá eu ligado aqui dentro na monstruosidade que havia praticado horas antes, nem sabendo como fugindo chegara, ainda o escuro da noite a dormir sua madrugada qual a vida escura levada por mim até aí, embora se pensando vivíssimo com as embrulheiras e atividades que tivera, as tristezas e as alegrias nas alegrias falsas dos sorrisos em casa e nas casas por onde passara nos anos pregressos. Corri fugi parei; acordei.
Pulei do carro, entrei na mata quase rasteira dos arbustos secos para fazer necessidades e me enganando ainda aí pois fiquei petrificado no capão sem saber o porquê. Ouvi o roncar do jipe, tornei correndo desligar tornei ao mato, então já conscientizando o que fizera, pra me esquecer e no entanto era só o que me lembrava... Insisto aqui: nunca mais esqueceria! Olhei, assustado no meu transtorno, infelizmente não apenas momentâneo porque ali se iniciava minha eternidade de rememorações nefastas, assustado sim constatei a prova do crime – via no lume tênue do claro da madrugada que se ia no dia a prometer chegando, após longas horas decerto como estátua, uns respingos vermelhos escurecidos, umas gotículas vivas não a escorrer mas secas, partículas de sangue dela! Não me atrevi tocá-las, cheguei tão somente olhos arregalados naquilo vivo da morta; e não obstante pensei as mesmas fossem minhas nos arranhões da pele pelos braços desprotegidos nas pontas dos galhos que teriam me ferido... Sequer me limpei. Ainda lembro haver suposto no instante a responder para um personagem que encontrasse dali por diante a fim de me justificar pelos sinais: “oh, diria houvesse, veja como sou descuidado a ferir-me sangrar-me na mata numa pescaria no rio...” qual rio se nada me ocorria então? Que besteiras falamos quando não falamos e a nos flagrar solitários pois andava parado qual estátua de pedra, a pedra então desandou a doer, sempre tive medo horror até no verter sangue e nisto me condenei por ser tão fraco diante duma sociedade corajosa ou mentirosa pretensiosa nas suas bravatas. Nesse ponto, estátua totalmente paralisada na vegetação quieta e escura, parado de pé a olhar o nada e o tudo enquanto minha mente a dizer desaforos ao condenado acordando, nesse ponto dito posto visto sentido, nesse constatei não ser o sangue o sangue meu sim o dela, a vítima que eu fizera vítima! Eram gotículas em mim espirradas decerto do sangue com vida duma sem-vida.
Tive horror, bem além do asco e nojo porém horror, um horror a tudo que me envolvia. Acho que fora ali naquele momento haver acordado totalmente ao crime que cometera.
Num átimo passei repassei as mãos pelo meu próprio corpo, vendo contente no contento possível não haver mais resquícios dos respingos do fluido vermelho já preto endurecido no corpo cansado quase estafado na coberta da musculatura. No entanto foi aí notar com o tato pela pele dos dedos umas protuberâncias asquerosas que eu não via sentia apenas, me garantindo o pessimismo masoquista serem sangue dela espirrado quando na proximidade do meu rosto com o rosto dela ferida pelo tiro; e creio umas outras balas mais teriam se seguido em meu temor que não eliminasse a amásia por um só e ‘inocente’ disparo.
Era ela, a morta, viva no meu rosto! Pior nisso: numa flagrante acusação ao criminoso, como fosse um estigma na testa nas bochechas, quem sabe nas sobrancelhas na boca no nariz no queixo e por exagero nos exagerados aos quais me somava também, as gotas de sangue dela no meu cérebro inalcançável alcançado pelo ricocheteamento dum tiro de revólver...
Esse chocar me provocou pela primeira vez após o crime o crime da lembrança dum assassinato covarde. Covarde, chorei. No entanto as lágrimas não conseguiram lavar-me.
Mais horas até chegar o lume do sol ainda vermelho ele também sem ser criminoso, criminoso o chorão desesperado que eu era e ainda sou, lamento; agora foram mais horas para tornar ao jipe a fugir, a fugir o condutor, mas nunca de si mesmo... Ainda um entrave: frio já, o motor do veículo não aceitando a ignição, custou pegar funcionar acelerar acertar naquela fuga a fim de me esconder aos olhos de fora.
Assim pus os pés na estrada, num correr com a condução para junto dos meus iguais, os semelhantes que desde então seriam meus contrários e dessemelhantes e num pior ao criminoso: meus juízes.

- Prurido de sangue. Resolvi, em voltando ao mundo dos que se tendo vivos porém mortos ou inativos nas suas distrações mundanas e nas mundanices defensáveis, resolvi fixar-me noutro núcleo urbano – não pensamos não pensava eu também que tudo na existência é sempre outro, substituído ainda por outro lugar a ser o mesmo igualmente sempre – um novo lugarejo onde o meu crime estivesse a salvo e não comprometido por esquecido ao conviver com gente desconhecida para que eu fosse conhecido... como um bom e correto cidadão; quem sabe um pacato ser e ser ainda por cima notório cristão. Frequentei a igreja nas missas domingueiras de sua capela. Logo me cansei mostrar-me puro assim e, num ímã que os imantados sequer percebem, corri ao ambiente mais próximo da depravação, o mais comum no meio social nestes dias do planeta. Então ninguém notando minha ausência no espaço dos frequentadores religiosos, salvo um que outro carola visto sempre e por todo canto haver feito amizades e isto um mérito que reconheço em mim; em mim? creio até numa prisão (local mais próprio aos matadores de amásias...) até aí se faz amigos. Um um dia me expôs sua curiosa posição diante dos errados viventes, quando sugeri-lhe opinião sobre alguém (‘alguém’ assim como ‘os grandes’ ‘gente’ ‘governo’ e ‘oposição’ – tudo vago e sem comprometer quem defenda ou se defenda de quaisquer nessas palavras apostrafadas); enfim opinião sobre um sujeito meu conhecido “antigamente” forcei o tempo a descaracterizar possíveis provas; esse indivíduo, eu falei, assassinara a companheira e, insisti: “pasme” ficou impune. Sorriu o novo amigo, matreiro ou só experiente, sorriu uma resposta. Veja, disse, quantas entrevistas quantos casos hediondos que sabemos pela televisão nos quais os abordados não se afirmam arrependidos; e têm casos inúmeros de assassinos de aluguel, a tanto por cabeça... Os processos lerdeiam somam sobram somem; aliás a liberdade é também mentirosa e arreganhada noção da verdade exposta por bocas fáceis e volúveis. Os juízes ou nem analisam os caso-a-caso ou mandam prender, a polícia corrupta obedece ou se vende, ou ainda, preso o suposto criminoso, mandam soltar pelo nefasto desconhecimento governamental a despender recursos construindo cadeias que não resultam em votos e a manter a superlotação carcerária; não, ele, o governo, gasta as verbas nas viagens e festinhas dos políticos. Me dirá – disse o amigo quando eu ia corrigir-lhe a colocação pronominal – me dirá que existe exemplo de criminoso no xilindró, citará fulano beltrano siclano, até siclano de nome gordo na economia atual e que mandou seu pobre dinheiro de rico ao paraíso fiscal. Havendo o joão-ninguém, um que outro preso por matar a mulher... Nisto me esfriei, quis mudar de assunto mas o amigo ou só conhecido próximo concluiu: veja que a ideia de crime é discutível e mui discutida sempre; sem solução ao drama básico que no fundo não passa do desvio da atenção humana e pode ser sintetizada na fala comum: quem mata um é criminoso, quem mata muitos como numa guerra ou no abuso do poder econômico é um herói. Pode? Respondi embaraçado que sim, a me sair da confusão e ainda apelando a uma graça mundana qualquer, como a passagem de uma linda fêmea da espécie.
Contudo nada me destruía a falta que havia cometido, tirando a vida dela, daquela que me possuíra com ciumeiras baratas e da qual por mais andasse na geografia e no tempo ainda sentia o sangue espirrado no meu rosto e nos braços debalde lavados relavados...
Assim sem ser sequer notado como contra-lei, mudei-me dali e troquei igual se troca roupa de cidade; e de cidade em cidade, não obstante a compor novos grupos de amizade, não me livrei de mim mesmo. Eu era, sou ainda, meu maior perseguidor!

- Filete de sangue. Em vão tentava fugir de mim mesmo. Buscara recursos na fantasia na amizade na labuta ao ganho do pão, e não me esquecia... Um como filete rubro percebia na pele não apagando a triste lembrança. Curiosamente, à tentativa de desembaraçar-me da ditadura dessa monoideia quiçá suicida, destruidora com certeza, curiosamente procurava aproximar-me de quem me pudesse dar guarida, me inventasse algo a me provar não ter culpa no cartório da vida; como naquele caso em que o amigo chamado a julgar um meu presuntivo conhecido, eu mesmo sem nome sem vínculo num caso de crime. Ora, não me convenci com seus exemplos, ou seria estivesse a procurar defesa de minha integridade inventando-me uma verdade com valores mentirosos! O fato é que por mais viajasse me transportasse mudasse mudando de casa de rua e de cidade, não me alterava um centímetro do que pensava pensando esquecer. Não existe a borracha do tempo. Por mais se apaguem as letras, seu arcabouço e suas marcas indeléveis ficam mancham sinalizam o fundo, esse fundo que mesmo um cego lê com a ponta dos dedos no tato a sentir no papel escrito, seria ex-escrito? pois passamos cuidadosos a esconder o que esconder, as letras prensadas na folha. Bem, amassa-se rasga-se joga-se a lauda no lixo; quer dizer suicidemo-nos. Todavia indo ao cesto e ao fedor das montanhas de entulho o papel, sujo; mas os sinais indelevelmente inscritos permanecem na mente! Isto supondo haver um ente chamado alma ou coisa assim e se admitindo levar consigo, dentro de si, no imo do ser, todas falcatruas que possa ter feito; a bem da verdade o contrário também o ‘antípoda’ o ‘antônimo’ qualquer ideia parecida ou seja o bem praticado. Entretanto, me respondi a pensar desvairado, o crime que você levou a efeito na mata a morta, o morto crime está vivo no seu ser!
Dessa forma pensava a me desanuviar ou só tentar me livrar do sangue que derramara... Interessante e inclusive engraçado, andava a pensar como podendo as gotas vermelhas dela estarem na minha pele, se a feri com tiro que empurra para frente e não poderiam espirrar-me a cara como se fosse no ferimento por faca. O que assim mesmo não me tornava um santo...
Certo dia olhei o espelho, do qual anos fugira num desespero e enojado até, olhei-o e vi a garatuja dum velho; ainda cabeludo porém com fios totalmente brancos, os quais tempo enorme oferecera à sociedade vendendo harmonia exterior com interior em ebulição. Não me convenci suficientemente ser eu mesmo naquele vidro frio, pois o outro que fui não tendo sangue espúrio nas mãos e espirros rubros no rosto, os quais já não via mais naquele vidro frio e quem sabe acusador mentiroso.
Daí tomei uma decisão, a ser substituída por outra e outras mais depois decerto. A de me mudar para novo local... de sofrimento certamente e sem imaginar me esquecer em definitivo, o definitivo que não existe na espécie creio. A morte a morta a viva o crime o sangue.
Marília    junho  2013




         



           

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