domingo, 25 de agosto de 2019

Estrada sem fim


Estrada sem fim

Cap.1° - Naquele dia de fim de ano ou de começo de cansaço caminhava pela estrada com direção caso não estivesse perdido um homem; homem de seus quarenta e oito anos mais ou menos bem vividos, bem vividos dado o fato milenar da gente não entender a fundo a gente e assim errar nos absolutos que todos propõem e quase ninguém acerta. Em todo caso caminhava. Olhando para trás e para frente, para trás o início suposto, sempre suposto visto nossa ignorância (minha sua e de todos seres humanos); pouco sabemos inclusive no que garantimos saber e o sujeito em questão não ia longe da suposição – seja o início seja o fim do caminho. Apenas, em desalento, no instante media a distância percorrida, melhor conhecendo isso seu cansaço que ele; num pior e era de fato pessimista medindo o possível espaço, a distância quilométrica fosse otimista ou metrada como afirmava seu negativismo. Em suma anda lentamente compassadamente marcialmente, mas esta opção seria um absurdo aplicada a um matuto na estrada num solão do tipo que diriam os seus “de rachar mamona”.
Numa lembrança da memória descuidada, aqui a gente escuta inclusive a mamona ao sol estalando e atirando suas bagas longe; isto uma voz da orelha menina a brincar no terreiro, onde também o café a secar mostrando o trabalho do lavrador e o lucro do proprietário.
Contudo, aqui introduzo Você. O leitor costuma existir quando existe. Preciso narrar a desdita dum caboclo! Desdita... este o segundo absurdo proposto nestas linhas: por que motivo concordar com o mau gosto do pessimismo tão encontradiço por aí e segundo o qual tudo é sofrimento; não poderia que pudesse ser o figurante de uma vida simples e até simplória porém alegre. Com outro senão, de o otimismo imaginando que tudo vai dar certo e muitíssimas vezes erra a se esquecer do túmulo, da mulher que fugiu com outro, da moléstia imprevista, do ladrão, do banditismo fazendo estrago, e por aí vai provando que nem tudo são flores nem tudo realmente dá certo. O caipira aqui lembrado poderia sequer pensar em desdita; ou pensando sim no entanto a desdita nos outros: o amigo o compadre o mano o pai o tio o mundo, enfim não contra ele, xô desdita. Você concorda comigo?
Pela afirmativa e em vista já estar a dar palpite emiti (omitir não, sou corajoso, honesto e... não exageremos:) sim emiti opinião sobre o personagem; e em razão disso chega minha hora de apresentação, sou o Autor, grafar-me-ei pequeno, quer dizer em minúsculo porque Você já se apropriou da maiúscula.
Portanto o autor existe a palpitar nas linhas presentes e Você existe, inclusive antes mesmo do autor, existe sim e a prova é andar lendo a narrativa.
Existe sobretudo o homem na estrada a passos quase formais quase medidos – a obra inteira é sobre ele.
Anda anda, anda marcialmente exageremos a embelezar isto, anda e por isso e pelo tempo em que exercita os pés cinquentões anda cansado; anda para anda. A areia é quente no estradão, olha não vê árvore a descansar um pouco na sombra, só pés de café em ambas margens, uma enfileirada tratada medida modulada como onda, onda verde após a chuvarada de verão e limpa, sem ervas daninhas. A outra é só ervas daninhas um que outro cafeeiro improdutivo capim grama braba e desgosto – dá desgosto ver o desgaste pelo abandono dum solo que fora rico em mãos ricas na sabedoria e na praticidade; portanto um deserto, quase nem pássaros e bichos rasteiros a rasteirar nessa margem. Todavia isto não interessa a um forasteiro aqui presente; não forasteiro precisamente visto o homem haver sempre passado e passando agora na mesma estrada no mesmo caminhar lento, o homem no caso longe dos apressadinhos dos quais diz o popular comer quente e passar mal; mal apenas no seu cansaço por quilômetros engolidos. Daí para, senta, descansa, amolece, enrijece por fim a retomar a sua caminhada.
Para de pé, olha os dois extremos, mede no ‘mais-ou-menômetro’ e não se vê na metade sequer, por bom pessimista.
Senta. Senta-se não em uma confortável cadeira onde os pequenos burgueses, da cidade é claro, onde se esfalfam se espreguiçam se aboletam aboletando as nádegas tão famintas quanto gordas a engordar. Não. É um caboclo e se tem cadeira, tem é mui claro ter quem a viver só de pé num aguentar o corpo pesado somando o peso do mundo ao meio-dia na quentura; a sua é de madeira tosca, o assento lustroso do uso, em tabuinhas cruzadas sobre pés cambaios num bom cair... Em todo caso descansa nela toda tardezinha não agora. Não. Sim, encontra-se a bater pinos ansia descanso mas a estrada não oferece as sombras de árvores altas só arbustos e ele está apenas contando com o corpo pesado ao cansaço e as pernas magras porém ainda fortes. E a cadeira? ora bolas, o camponês brasileiro de antanho (permita-me a lembrança: época da II Guerra no planeta, não na roça onde sequer os ventos das palavras chegavam então, que dirá balas bombas mortes; antanho não mais que isso:) o campônio nacional sempre usou os calcanhares, tal qual seus ancestrais indígenas. Agacha, agacha quase como que a defecar, senta-se nos próprios calcanhares e assim permanece uma eternidade, considerando a consideração duma pessoa urbana, a qual se indagará vendo a cena daquilo agachado: “e não doem os pés forçados e a musculatura na batata da perna, não dará após cãibra!” O homem não põe tais quesitos, antes que isso isto: relaxa a pensar nessa posição fixa horas se precisar; e são pensamentinhos pequenininhos baixinhos não alçando grandes voos, pequenos do tipo puxa quanto andei ou ontem fisguei um tubarão pensando fosse baleia que foi o lambari a tremelicar no anzol e a refletir seu prateado no dourado do sol em fuga a se esconder no horizonte entre nuvens escuras de preto e alaranjado; ou ele lembrar-se-á da comadre com aqueles peitaços; ou ah... ora, descansa no momento na beira da estrada arenosa e quente do meio do dia tórrido após caminhada com menos de metade ganha, perda grita o pessimismo presente ao otimismo ausente. Enfim ele descansa.
O matuto – o matuto? Você me pergunta e já afoito respondendo a si mesmo: todos homens têm essa tendência – ele toma uns pauzinhos à guisa de lápis não pensaria caneta, como fosse um giz na mão da professorinha no quadro negro; com um risca a lousa horizontalizada da areia no chão; e faz seus rabiscos. Então o ser humano expõe seu íntimo, bota fora o talento, esboça sua arte, é uma arte em quaisquer escalas que se admita e a dele é baixinha não mostra genialidade. Em suma risca com o graveto a lousa de terra e assim compõe... comporia qual na praia ao mar beber estragar um feito! monta seu quebra-cabecinha nuns monstrengos a passar o tempo, a esmo, e daí se lembra dos esquecimentos... a gente sempre tenta apagar as dívidas da mente a fugir do compromisso e raramente esquece... ou seja acaba tendo de honrá-los; assim suas contas por conta dos compromissos com outrem, compromissos apenas labiais verbais, nada com o preto no branco e lei e juiz e polícia e cadeia em cadeia chata de ideias, isto não afetando nesse momento o caboclo agachado sentado descansando descansado sobre si mesmo, mesmo assim lembra algo que deve (não afirmo que pagará, pago as minhas, ele não sei nem Você garante que ele quitará) e se lembrando fere o chão, risca um número, nada aleatório porém alicerçado na verdade, sua verdade, deseja e põe algarismos numa conta de vezes. Era em moleque burrinho na matemática diziam tanto uma quanto outra mestra a lecionar na fazenda, um ponto a que voltaremos breve. Por ruim então anotava de lado ao lado da conta na página da folha da brochura numerozinhos em lembrete e dizia alto a se ouvir atrapalhando a classe (não se falava na escola “sala” como hoje na cidade nem na roça, classe) e por isso a perturbação provocando a zanga da professora contra o homem então garoto; enfim rabiscava o um ou o dois ou o três para lembrar quantos iam a multiplicar o número que tomava e aí “vai um” “vai dois” “vai três” nunca mudando de tempo a hora do verbo, igual qualquer pessoa do povo na roça e na cidade em sua periferia até nestes anos; sem ferir ninguém sequer a mestra de ouvidos trabalhados pela maioria. Lembro dentro desta ótica que ainda agora se diz na rua um real dois real três real, ninguém concorda e a maioria concorda discordar no povão. Tornemos ao homem agachado.
Vai dois, fala; não, três, “trêis” realmente pronuncia, apaga com as costas da mão na areia discordando de sua memória e tenta refazer a acertar o erro da conta como fosse no antigo caderno.
Agora chega à conclusão, conclusão precária precário tudo que fazemos, lembre-se defende o autor a precariedade humana, não há absoluto em nossas limitações, o agachado a multiplicar conclui por certa dose de raiva (o matuto fala “réiva”) sim pois não deu certo a conta sobre a conta, decerto alguma sua dívida com certo compadre ou na compra ou venda dum animal (por animal sempre se refere a equinos; gado pra si também sempre é o vacum) isso ou quaisquer acertos em desacertos anteriores; ou ainda outro negócio fechado ainda no aberto sendo preciso queimar a pestana gastar os miolos e daí a tal conta. Como a de somar a deduzir qualquer. Sua burrice mesmo é de bom tamanho segundo crítica da professora e ora mais visível na operação de dividir... Será que isto não é uma reação humana normal, que é ser comum ao ser! sim, temos alguma dificuldade enquanto filhos de Deus a dividir o que seja nosso com nossos irmãos. Não aceitará Você esta opinião. Bem, o homem teve um drama, tem agora: precisaria um cálculo exato, exato outra vez limitado por nossa condição terrena, um que desse certo no resultado errado da conta; mil vezes quando erramos na operação temos (contra nós seres humanos) algo que o bom senso nos adverte lembrando não estar claro, e assim entra descaradamente a demonstrar a operação errada! isso quando erramos bastante, porque quando pouco e insignificantemente um errinho sequer vemos e pior descobrindo aos descabelos e nervosismos um algarismo ou um sinal mal posto (o caipira diz “ponhado” e convenhamos é mais gostoso pronunciar que posto). Assim nosso pobre andejo agora de cócoras a rabiscar entremeio bichinhos também andejos na areia do estradão no solão do meio do dia. Finalmente, coça desanimado ou desapontado a cabeça de pôr chapéu ele estando sem o de palha; indignado até; finalmente se levanta, daí se lembrando ou somente sentindo a dorzinha em dolorido que fica nas juntas por tempo exorbitando o tempo numa posição forçada, porque, forcemos agora, ninguém suporta ficar parado agachado um dia inteiro e ele não aguentaria, naquelas horas da eternidadezinha.
Retoma, manso embora, a conta inacabada, retoma o caminhar.
Anda, seus passos na estrada ele não vê sente; chega a sentir-se até com disposição, é um caboclo ainda forte, fortalhão seria uma desnecessidade pois um homem meão magro baixo na estatura e ainda por cima vestido simplesmente. Camisa calças, meias não, não se encontra calçando botinões pesados o comum do lavrador mas com sandálias de couro cru do tipo nordestino, não sendo nordestino talvez de família do norte porém caboclo do interior paulista em zona cafeeira e cerealista. Numa das experiências nas tantas em que fracassara tentou lavrador de costume trabalhar numa olaria da região; nisso fora chamado a atenção porque um dado básico ao oleiro é não ferir o chão onde se bota o tijolo e assim o calçado rústico e pesadão estraga deforma o plano do solo em equilíbrio, prejudicando o trabalho; lá na olaria a exigência de alpercata (diziam “paragatas”) coisa de lona e base de corda, leve a pisar delicado o chão nesse paraíso que é o trabalho oleiro. Sim, saiba Você que fui oleiro e posso garantir tal céu. Então nosso personagem fracassou, mui grosseiro como a gente da roça; o oleiro também trabalhador do pesado e até grosseiro, menos rústico que o outro. Além do mais na indústria, agro-indústria na verdade, aí se exige a madrugada mesmo no frio no vento, na chuva não por a olaria até parar quando muita umidade em vista da falta de ponto na matéria-prima, o barro. O roceiro pega cedo no trabalho porém a madrugada é-lhe indigesta... falhou, tornou às lides na enxada. Usa agora na estrada sandália.
Com ela sulca o chão, marca a areia com seus passos com seu peso de homem a andar rumo ao outro extremo, o extremo anterior deixado atrás de si ainda a menos que meio no todo a que se dispôs vencer. Vencer por quê? Isto outra estória.
Veste-se com simplicidade.
E o cachorro?
Tem vez que a gente finge não escutar ou não ouve realmente; veste-se o homem como outro lavrador, sim tem o domingo antes o sábado e na segunda roceira não se trabalha, o sábado é de baile casamento e batizado mesmo não havendo igreja perto, havia capelinha e os terços nas casas que os católicos elevam pelo costume esse homem também acompanhando tudo isso ou até indo à cidade igual os outros ou à venda, expressão do boteco quase sempre em beira de estrada com areia com calor com cansaço ou não; o domingo claro ao descansar e a segunda-feira, da preguiça dizem os da urbe, a segunda serve ao ser do meio rural ir abastecer-se ou até levar o filho ao doutor à botica, esta naqueles tempos já virara farmácia e mais tarde se difundindo como drogaria. Então se vai à cidade põe a mulher melhor roupa possível e no impossível traja o simples que é também o caso de nosso caso. Dirá Você camisa xadrez ou riscada e calças da cor... Concordo consigo e com o personagem. Não necessariamente anda trajado como nas festas juninas que na cidade viram julinas inclusive e são mera brincadeiras se não palhaçadas; esse homem veste-se com certa camisa limpa (no mais ou menos, voltaremos a esse aspecto...) limpa e não linda riscada de fato, tem por gosto dele a pedido ou imposição materna quando a mãe viva um bolso colocado costurado do lado um quadrado enquadrado na banda esquerda que secularmente se pensa a do coração e parece que não seja bem isso, onde sempre se inventa de colocar algo que se não inventa, o homem contrariando os outros desiguais semelhantes pondo ali o canivete; está certo que a palha já pronta, até o fumo se ele estiver já picado miúdo posto num envelope ou recipiente fino; vai lá seja assim discutível o seu gosto em levar o canivete pesado nesse compartimento. E de que coloração o tecido! não sou, autor, versado em cores e, acertando, decerto que erro; riscada a camisa. Umas calças, aqui encrenca... Primeiro que em geral os homens usam um cinto e na região fala-se “cinta” o cinto do macho enquanto que o vocábulo cinto indica o das mulheres, caso usarem trajes que exijam amarra ou contenção do ventre. O homem em questão nem isso: usa de fato pôr no lugar umas tiras de pano, fortes bastante ou arrebentariam. Depois, embaixo botinas sem meia, ou agora a tragédia que são umas sandálias, a tragédia por conta da areia metediça e da violência de pedrículos que se escondem friccionando ferindo entre a sola do pé e a sola da sola da sandália – enfim gosto não se discute, ele não discute consigo mesmo em nome de não possuir mais que tal sandália. No recanto doméstico poderá estar inclusive descalço, agora na estrada andando calçado seus metros seus quilômetros, aqui a depender do estado de ânimo pessimista otimista. Todavia a cor... é sem cor até para quem tenha boa visão. Tecido que fora talvez azul, tingido retingido melhorado, outra vez de aparência de pano velho mui usado, quiçá remendado antes rasgado. Uns preferem outras cores berrantes, não sei nenhuma, sei apenas que se sente bem talvez confortavelmente posto; bonito seria um ideal absurdo porque os feios se satisfazem não serem horrorosos. Mil pessoas do meio rural vi assim, ele assim agora. Agora algo não comum, ou ao contrário mui comum, é o cheiro. Você não exigir-me-á descrever com pena científica o cheiro! Uso a pena literária, mais mansa e quem sabe bela mesmo sem poesia. A coisa cheira muito e como cheira... um odor desagradável exala dele – nos outros trabalhadores também pois não se usa perfume nem têm condições para tanto; sabe-se que as fêmeas da espécie matuto se empetecam e se perfumam para ir à cidade por qualquer razão ou sem razão; os homens se se puserem a cheirar... ai ai ai, logo depreciados pelos demais – não iria ele a cheirar de propósito onde pretendendo e nós ambos, eu e Você, não sabemos. Contudo cheira sim e como, dizíamos! Fede seu azedo suor dormido. Aqui cabendo esta expressão porque o hábito secular reza só tomar banho no sábado (não é nesse dia na estrada um sábado um domingo uma segunda:) e assim o ontem o anteontem cheiram hoje e o amanhã cheirará ainda caso não insida no sábado do banho da semana da roupa limpa do perfume, além de o homem temer a malícia da língua dos seus iguais; enquanto que a mulher põe água-de-colônia tradicional ou simplesmente água-de-cheiro assim batizada no sertão; umas mergulham no perfume e mais se enfeitam a atrair decerto homens, não um bobalhão como o ora estudado por nós, isto em virtude da desvirtude em ser ele excessivamente tímido. Aproveito a brecha para garantir: nunca conseguiu conquistar um par. Quando na olaria, soube que a expressão dali era ‘bater o barro” certamente de conotação próxima de grudar a si a fêmea apetitosa. Nunca conseguiu. Melhor nesse pior; sequer teve coragem bastante para tentar...
Agora está na estrada, vestido sim, cheirando mal sim, cansado sim porém não vê nenhuma bela no pedaço e não se vê também, também todo mundo se acostuma e não sente o próprio cheiro, que seja o consagrado cê-cê... Aliás o estradão quente pouquinho úmido da chuva de outro dia, com muita areia vento poeira e empeços mais, essa estrada não dispõe ao amor, antes que isso ao desânimo vindo do cansaço, os metros viraram quilômetros até aí e ele pensa prosseguir, já quase no limiar de posicionar novamente a cadeira dos pés da cadeira sem pés a fim de descansar pela caminhada...
O cachorro, ora o cachorro, o Peri morreu; mas a onça não o pegou, pegou ele uma doença, emagreceu encorujou pranchou no chão o corpo mole e a olhar triste seu amo terá pensado não poder mais defendê-lo e aí fechou olhos parou de respirar, o homem chorou a perda e enterrou o cadaverzinho pra baixo da tulha de milho. Até essa morte o maior amigo do homem foi seu grande amigo, fazendo fácil e com muito apego festa ao caboclo. Fora o terceiro ou quarto na estirpe dos peris... Houve numa fazenda e esta era só de café não tinha outra plantação e sim com colônia aos colonos morarem, a casa do homem sendo a última na fileira entre todas abandonadas pelo fazendeiro a só pensar lucros, entre elas a mais estragada era a dele. A do vizinho, a mulher da casa uma tal dona Maria comadre da mãe do homem; essa vizinha tendo penca respeitável de rebentos, um o Vanderlei morreu nenê querido; a genitora botara o mesmo nome no próximo, que também saiu de anjinho no costume da pobreza rural na época; daí Maria pôs na barriga mais recente outra vez o mesmo apelido Vanderlei. A vizinha dela e mãe do matuto, com o mesmíssimo hábito e assim punha sempre nos seus cães Peri. Peri enquanto vivo foi o último dos peris, era amigão do homem; desses animais que ficam xeretando nos pés da gente, que olham pra cima embaixo da mesa a possível vianda que lhe atirem – e o homem sendo pródigo nesse mister; com certa diferença na diferente semelhança dos outros vizinhos: o homem não comia à mesa bonitinho, sentava-se num tolete de árvore servindo de banco na casa fora da casa. Aí atraía mil galinhas, um terreiro de aves interessadas talvez se mostrando desinteressadas ou antes: temerosas ao Peri. O Peri no fim de sua curta jornada canina sem coragem até para correr as galinhas, fizera murchar o galo, todos se esparramavam então fraco doente no fim do seu fim o pobre e de maneira que não ficando esperto na hora da boia, assim dizia o homem “boia”, e por isso as galinhas chegando chegando perto também pelo costume; em geral comiam com o cachorro, não desse a louca nele (isto outra expressão frequente do homem) porque espetado pela atenção pegava até a sombra delas, depenava alguma e certa vez trouxe ao amo uma nos dentes para mostrar ‘machuras’ e serviço. Agora morto o bicho enterra seu amigo quase chorando porque o homem um pouco emotivo. Contudo na estrada, antes tendo a companhia canina onde fosse, o homem agora na estrada anda só. (Maldosamente eu diria e mal acompanhado, Você me criticando a verve exposta fora de hora e a falta de originalidade). Sozinho!
Antes prosseguirmos umas palavrinhas fora do texto ou até mui dentro dele. Seguinte. Você notou o uso das aspas, é claro para a fala humana; terá verificado também frequência nos sinais do apóstrofo: apostrofo (já me insurgindo pela feiura do som!) apostrofo sempre que uma palavra não tenha respaldo no dicionário de nossa língua; ou para chamar atenção sobre uma palavra; ou então é um invento meu em contribuição à mesma língua. Certo? voltemos ao caboclo sozinho na estrada.
Dá mais uns passos, não aguenta e em falta duma árvore vetusta se acolhe na sombra acanhada dum cafeeiro mais copado. Aqui um drama no drama diário na roça nesse tempo, que é da possibilidade do ataque traiçoeiro duma cobra, a mortal cascavel por exemplo. Então se encolheu como pôde, pôde pouco, venceu o medo e dormiu.
Acordou.
No imediato quando a gente desperta, não bem desperto acorda no mundo da lua, baratinado por mais se esfregue os olhos se fixe no fixo no longe no perto, sempre a bruma do entendimento dispõe até ao disparate. Peri, grita o homem, relanceia olha pra todo canto relembra fatos fugazes, verdades chocantes e mentiras disfarçadas; e pensa a realidade agora vista palpável da consciência consciente no hoje. E conclui triste a se comentar “oh foi sonho...”
Se ajeita no seu jeito, já de pé, bate grânulos das vestes, remove espinhos espetados nelas; a seguir como numa ginástica que nunca praticou, o homem comum é rebelde ou apenas ignorante das próprias necessidades e nunca tem ordem não executa exercício com fito higiênico ou saudável a sempre seguir. Assim tão só se espreguiça, estica encolhe mexe aspira a esmo expira a esmo; sente-se desembaraçado das amarras do amolentamento do sono com direito a sonho ou pesadelo e acorda no final. Oh, acordar implica haver alguém.
Esse alguém, ele em si, esse tem por nome José e por apelido ou diminutivo Zé.
Zé reenfrenta o estradão.

Cap. 2° - Agora estamos a três, Você eu e Zé.
A andar quase não se vendo andar, qual autômato que somos quando ligados no ‘desligado’ e assim a gente voa plana sobe desce vez que outra – que seja no tropeção indecente numa pedra posta sem intenção embora no caminho pelo descuido e dessa maneira ora na imaginação ora no corpo presente na estrada, desse jeito o Zé na estrada; desce nessa subida apenas por causa dos peitos avantajados da comadre. Era exatamente em que pensava fixado na fixação. A comadre Maria, outra Maria pois aquela do peri dos seus vanderleis falecera e longe do atrativo da comadre de belo busto, aquela parecia na parecença um canhão da Guerra, aqui tornamos à guerra mas ainda ela sem o desastre atômico que no final dispararia contra o infeliz planeta, o nosso planeta. Não. O Zé pensa só num canhão tão horrendo quanto os doutras guerras das quais ouvira falar e de teor menos violento, isto tudo a comparar a feiura da morta viva. Outra também comadre da mãe, não da genitora dela mesma dele mesmo; nesta pensava no mau sentido visto ser ainda ele um pobre virgem aos cinquenta, virgem no campo das safadezas machas pra valer; e por isso carente no mister. Maria surgindo na mente necessitada se oferecendo ao menino José. Debalde afugentava o pensamento a necessidade a mulher; mesmo distante essa Maria, comadre da mãe parece que por haver batizado (ou crismado, não vem ao caso) enfim por haver tomado aos braços através do padre na cidade um de seus irmãos, tantos tantos deles se perdendo no mundo ou até morrendo; ficara quase sozinho com a genitora depois ter tanta família. O caboclo considera ou toma por sinonimia filho e família quando nos bate-papos espichados. Seria o Pedrinho seria a Conceição? não sabendo não lembrava o mano direito tais esquecimentos, esquecimentos banais por serem contados em meio às dezenas de lembranças e agora nos cinquenta anos às centenas escondidas na sua memória. O fato é que suas necessidades falavam mais alto e o importunavam, mesmo estando a caminhar.
Verdade que na fazenda na qual trabalhavam vasculhando ruas do cafezal, nessa gleba houvera algum entrevero motivado pela língua solta no falatório no lavar roupa, em que as mulheres ajudadas pelos meninos enredam e se enredam. Isto resultando não só em desavenças banais ou apenas comuns porém até acabando no rompimento entre as duas comadres, sem que o malfeitorzinho se sentisse culpado e o fato sendo o rompimento definitivo; definitivo? que há ainda definitivo no ser humano! pois à morte da mãe do homem, ei-la, Maria em carne e osso no velório da comadre, então desafeto viva dela por culpa de enredozinhos umas gracinhas. O fato portanto o rompimento da amizade, no costume do um pra lá outro pra cá, nem se olhando mais, olhava olhando somente para ver o estrago ou os erros do dia no adversário quiçá agora inimigo; para reforçar a razão de cada uma das contendoras. Ainda aí, quer dizer no velório entre quatro velas a imagem da santa e café e mais cachaça aos homens a fim de aguentarem a noite inteira vivos pela morta; ainda aí apareceu vistosa apesar das lágrimas (a morta viva estivesse picharia num comentário “como lágrimas de crocodilo” conhecesse a roceira a gozação urbana já nessa época): ainda aí veio mostrar os peitos, pouco seio e muito avantajar a oferecer para olhos, vermelhos embora, para olhos machos necessitados por longo jejum...
Pensava Maria, lembra seios.
Foi quando num repente o qual só ocorre nos quilômetros de desligamento – que topou a pedra. Não foi esta a atingir por pura maldade um pobre homem na poeira na quentura na ventania da estrada, foi atingido, acordando... Estivesse acompanhado a companhia, não sendo o Peri recentemente falecido e que ladraria espanto e desconhecimento, a companhia a chamá-lo à atenção num “bem feito!” pelo mal feito de pensar naqueles peitaços da matrona, então matrona, um pouco linguaruda afirmava a colônia inteira, porém senhora já passada na idade e de respeito na fazenda outra onde residindo.
O homem aceitou a reprimenda. Talvez um pouco envergonhado, nos envergonhamos de nossas fraquezas...
Tornou rápido a si ao corpo à estrada ao objetivo: a dor tem dessas quase bravatas em nos despertar e, imediato, ferir pela conscientização. Não obstante o andejo botou prontamente a culpa na pedra, ferindo-a na vociferação, xingando com sons torpes – antes esqueci-me afirmar a Você que o Zé não era nunca fora e creio demorará o resto da vida a se livrar da boca e o que sai dela; esqueci-me dizer que não era bem um santo. Daí examinou o ferimento, periférico e bem mais insignificante que a dor que sentia; limpou o machucado no sangue a escorrer fraco e... terá culpado também a sandália ou não e então partiu a um expediente aprendido antanho desde moleque entre homens adultos, os quais garantiam a eficiência curativa da urina. Daí mijou no dedão em sangramento a desinfetar e para não inchar, ciente isso não impedir a dor.
Encontra-se agora sentado num barranco menos mole que a areia da estrada, desses montes que o trator em arrumando a nivelar o estradão deixa nas margens; então sentado a olhar o pé o dedo o sangue e a torcer por rápida cicatrização. Enquanto isso a lembrança da Maria, comadre da mãe dele, a lembrança fugiu desapareceu.
As horas, sim as horas não pobres minutos, elas passaram sem que passasse totalmente só amenizando a dor. Assim se levanta se apruma se encoraja o andejo ser; em busca ou na execução do objetivo. Anda, anda porém manco, anda com cuidado e se pensa forte, não seria uma insignificante pedra no caminho a acabar com o caminho, caminha. O sol ainda brabo e impertinente, desses que não têm mamonas que lhes impeçam a ação. O vento ora para ora torna, também quente morno. A poeira dá seu ar naquele sítio deserto habitado ocasionalmente por um caboclo a marchar sim, não sem cuidado...
O ser humano é um ser pensante.
Curiosamente perde a Maria ganha no par a par com a dor, a dor, a dor a gente não esquece... também a par vem o compadre vem o animal vem a conta de conta errada a atrapalhar; ou não, sim vem ajudá-lo deslembrar a dor e até o cansaço e o caminhar com dificuldade. Não poderia que pudesse o compadre Chico haver-lhe passado a perna, enganado! porque o passado ou a língua do passado linguarudo sabe-se por ela que os seres aumentam a verdade se esta existir; esse passado passado a limpo mostrava um Francisco a tapear convivas, levando vantagem sobre os outros nos negócios, não só nos envolvendo troca ou venda ou compra de animais; inclusive sabido as altercações do compadre com outros colonos por causa da mal falada sua esposa (diziam ser amigada apenas e isto não vem ao caso:) o caso era a matreirice do compadre. Ora, se enganava outrem, ele não poderia ser outro na série de prejudicados? se perguntou andando no seu rumo, levemente acordado nas pedras do caminho ou só ouvindo ao longe um ladrar canino decerto por sua passagem. Sim, não teria o compadre supervalorizado sua mercadoria, um cavalo doente velho fraco de repente a virar corredor fogoso jovem ou ainda bom de montaria. Nessa operação atrapalhada ou mal explicada teria se saído mal, se bem, refletia, se bem igualmente houvesse desejado tapear o compadre... Para ambos isso envolvia muitos cruzeiros, o Chico ainda teimava falar nos mil-réis e contos-de-réis o que dava no mesmo: sentia-se lesado, sentindo naquele negócio feito papel de bobo. Agora melhor pensava, pensava alto, em altas vozes, a bradar no deserto da estrada “bobo!” e então pensa: sempre me chamaram burro e aí o estrago – meu cavalo doente adquirido ao compadre agora lá no pasto e eu a pé, diz “di a pé” ninguém escuta. Porém o cachorro longe traz perto seu latido incomodado pela passagem do estranho.
Quando vê, não vê sente ter se deslocado já bastante. Põe a mão em concha, a mão não ajuda a enxergar donde viera nem consegue notar o barranco que fora sua cadeira de ‘se medicar’ da pedra e a carinhar o dedo enfermo.
Pior que isso isto: não consegue avistar o barranco onde parara pela topada e menos ainda o extremo donde viera, engolido este pelas curvas e pela distância, ou percebendo metade apenas da distância. Contudo é para tal extremo, a ponta à sua traseira, é para esse que a lembrança o atira, se não violentamente com certa força e até certo impacto. Isto porque torna a lembrar-se dos seus, os quais mui envolvidos na vida e no pensar do matuto Zé.
Ora, aqui paro não pelo nosso cansaço, o de Você o meu nem pelo do caboclo a olhar o final que é o começo de sua andança. Mas pela problemática que envolve a referente vida, o como o homem do povo admite a vida. A vida entretanto é um todo; e se se admite a criação pelo Criador, vai ela desde essa criação, aqui de um ser, até... nós não sabemos. Já aquilo que o José e o restante da gente simples por mais religiosa seja, a eles é o mesmo que existência. Acho que não. A vida engloba mil existências. Talvez Você vote pelo Zé. Todavia o que narramos não fica desfigurado, nem a verdade se sente ferida ou tapeada tal qual o compadre a empurrar no compadre cavalo já velho indo à mortadela, o Zé apreciando muito mortadela em sanduíche com pão na venda quando nas compras de segunda, hoje é segunda-feira? diz em dúvida a estrada deserta povoada com um caboclo manco mancando e um ladrado a chegar à margem do caminho com poeira areia calor e gente cansada. Vida ou existência pouco importando se se considerar os cinquenta janeiros (Zé nascera no frio de julho) ainda não consagrados nos dezembros dos idosos. Assim, apenas fora um instante, um pensamento dele a olhar abarcar donde partira até aí. E aí sim, recorda os seus.
Naquele dia, uma sexta-feira... ou quinta ora, se diz meio irado pela incompreensão da memória, gozou-a na imaginação “que importa se quinta sexta sábado, o que muda no que não muda!” mas sexta realmente pois sexta-feira da Paixão, a colônia toda amedrontada, porque o temor é assinzinho com o constranger dos que pensam – era dia santo naquele dia, naquele dia a comadre viera à comadre, sentira o filho ‘único’ da comadre, sentira ele uma grande atração pecaminosa pela comadre da mãe, tudo na mulher lembrando a concupiscência a ele concupiscente, um cheirinho de perfume pó ou erva dela exalando, os seios ai os seios! a graça a voz, mesmo a voz rouquenha da senhora o imantando à bela; aqui não é bem o espaço a tratar do item beleza, vá lá que não fosse monstruosa a dama, dama por casada mãe e comadre da mãe, daí o pecaminoso, então o fato de estarem na sexta e a sexta ser um daqueles dias em que Inocência calava a blásfema boca do filho com olhos severos, dona Censa tendo uns olhinhos apertados quando nesse estado do cobrar posturas, não importando não houvesse vara na mão... ah na casa de cima na colônia da Fazenda Ipê a vara não tinha vez só a cinta. Você já viu a abordagem da cinta na região, a cinta o cinto masculino, que os machos usam a esfolar seus pirralhos pimpolhos desgarrados a fazer arte, isto é algo fora do que um pai acha certo portanto normal nesse comum: grita impera segura bate surra de novo, sangra preciso for nessa forma de amor esquisito, põe a cria nos trilhos, ao horror de sua companheira de jornada, pois esta acha exagero a mão pesada masculina em detrimento da mão feminina bem mais leve e a compensar chamar atenção do educando deseducadamente gritando dia inteiro. Ora, necessário haver voz grossa grave rouca contra louca situação de ferir com cinta o próprio sangue até ao sangue? Essa a razão de que haja cinto, a cinta de segurar aquela barriga desaforada do macho quando bebe demais estufa demais e impede demais o equilíbrio da cabeça lá em cima zangada. Nessa casa no caso havendo o descontrole e se abusava no abuso; primeiro apanhava do bêbado vizinho o fazedor de arte, após os outros por serem irmãos dele a dar bom mau exemplo e finalmente sobrando à esposa; essa que depois de tudo, ainda com soluços do pós-choro, leva com ajuda dos filhos o macho pra não valer mijar babar na cama a curtir sarar do excesso – todos enfim apanhando. Não. Na casa do Zé, mormente nos dias santos, não, não havia sequer cinta, quase nem arte moleca, visto o respeito. Então bastando aqueles olhinhos sagazes em ver o malfeito bem feito porém apenas se fechando ou estreitando a olhá-lo severamente. Quer dizer, quando o menino criança pequena houve grandes lambadas com varinha; apanhara tanto por fazer ou não fazer, até que em certa tarde de sua manhã pouco promissora ainda, parou a mãe; disse-lhe um basta, sem falar coisa alguma: apenas segurou com fortes braços adolescentes o braço direito a portar uma vara verde, as verdes que mais doiam no lombo, não: nas nádegas de José. A genitora despicou nele ainda a compensar um dito bravo e ao mesmo tempo desconcertante “já está homem feito, mas não tem vergonha".
Contudo tem aqui um porém sério, não entrando aqueles peitaços atrevidos. Dona Inocência então nessa altura esgotara a dose a gastar as mãos, preferia a direita por ser direito ou ela ser destra para corrigir... isso, falava que era para corrigir o Zezinho arteiro, mesmo porque onde já se viu mexer nas criações dos outros colonos! Uma vez o Zé soltara os porcos do chiqueiro da velha Arminda, sobrando ou a defender o safado ou a pedir mil desculpas à vizinha e ainda por cima engolir o pão azedo. Nada de pão ázimo dos religiosos nisto: na troca constante no hábito de quando a gente faz qualquer coisa diferente, quer dizer acima em variar o arroz com feijão, daí se oferta o prato como praxe aos vizinhos; e eles na sua vez, em fazendo um especial ou extraordinário, oferecendo também aos vizinhos outros e quase todos pois apenas uma que outra moradora indesejável e fora das amizades. Bem, agora necessário receber quando ela fizer pão, azedo sempre sempre errando o fermento, tem gente que nunca acerta no erro e era o caso, quando assim: lá vem o pão da Arminda que não se come, come sim mastiga faz cara feia de enjoo e cospe no chão; ou o hábito nos ensina muita coisa e já esfarelados os pedaços do pão duro seco azedo cheirando... atirado o alimento à festa das galinhas, sabendo-se que ave não tem preconceito.
Naquela sexta santa viu com alegria a mulherona chegar cumprimentar abraçar entrar sentar, sentarem-se uma diante da outra as comadres e Inocência sem olhos inocentes, antes que isso irônica matreira e ‘séria’ (assim pareceu ao então adolescente) examinou o recinto do encontro, inclusive mudou de posição sua cadeira, esta não de calcanhares sim de palhinha gasta no gasto assento de gosto dela embora; mudou afastou um pouco a sua da outra da visitante a fim de fiscalizar aqueles olhares cobiçosos do menino... depois confidenciaria à comadre o Zé estar perdido e isto tem a Você, que desconhece, uma conotação especial: o garoto não andava a fugir da missa, não tendo missa na roça, porém fugindo dos seios da tradição católica, esta à mãe um sine qua non da salvação; fugia evitando acompanhar a genitora ao terço numa casa longe, pior não seguindo a novena e só começá-la se perdendo na companhia doutros garotos com os quais se enrabichando. Estava aberta a sessão do falatório em voz baixa, ou seja o contar somente entre as duas e portanto nem se falando do não falar aos vizinhos, às vizinhas porque normalmente os vizinhos no eito ou agora por aí nesse santo dia, se bem que nos dias de semana elas iam com os filhos ao lado dos maridos à enxada; não apenas isso mas isto: desejavam as mulheres conversar sem a interferência daquela orelha macha não sabendo suficientemente Inocência não ser pra valer; e os olhares cobiçosos envergonhando a gente; sim, de que jeito uma comadre explicar tais melindres à outra! Todavia outras demandas em informes não seriam sonegadas à comadre visitante, em nome do tempo no qual ficara longe da colônia, a colônia ferveu, comadre, andou a pegar fogo durante a temporada de sua ausência daqui. Maria se mudara há mais de ano para nova fazenda, a Ipê acumulara mil acontecimentos desconhecidos dela sobre conhecidos. Limpo o beco, o filho expulso por uns olhinhos fechando se apertando a intimar e assim saíra tratar de suas coisas, o beco ficara limpo. Iniciaram prosseguiram num nunca acabar as mazelas na roupa suja, a qual tem muito do fator moral e por vezes teor picante na conversa. Ambas se contaram e curiosamente só destrincharam a verdade, porque sempre somos a verdade, contra a insídia a desídia das línguas viperinas que nos cercam. Puseram à mesa uma que outra morte de alguém dali, doença à beça e se tratou dos dizem que falaram comuns a favorecer deglutir o prato cheio – enfim as miserinhas do povo miúdo ou só confinado. A visita trouxe também seu punhado de verdades a ilustrar um papo, um bom papo.
No entanto se desocupara o beco delas a mais livremente conversar, a pedido dos olhinhos impertinentes imperantes, José não sumira... Ficara nas imediações vendo-ouvindo ouvidos atentos ou só a escutar-olhar olhos atentos pelas frestas, interessado; até ao ponto xis. Xis é um ingrato momento em que sub-repticiamente escapole de Maria dona Inocência e flagra o contraventor em cima dum caixote encostado à parede da sala delas... A justificativa embora bem imaginada não convenceu a mãe do filho, porque a tosse e o arranhar garganta não costumam convencer...
Independentemente do que está afirmado até aqui e mesmo deixando por agora a visita ‘gostosa’ da Maria à casa do rapazinho, ficou uma questão no ar, o autor a temer que Você lhe cobre a dívida, já me ponho a explicar o senão desse filho ‘único’ de Inocência, pois muitos foram os rebentos nesse... chamemo-lo um lar!? e daí como pôr o Zé por único membro herdeiro dos Almeida Gonçalves... Bem, se me der um tempinho destrincho a coisa no 3° Capítulo.
 
Cap. 3° - José Almeida Gonçalves, podendo-se aqui esticar em mil outros apelidos com árvore genealogia e tudo mais nesse menos, reduzindo apenas a Zé, um homem na estrada agora; quem sabe não possuindo mil outros homônimos em número e grau, a semelhança na Terra bate recordes em detrimento do pessoal dessemelhante do originalidade futebol clube; isso tudo valendo ao buguês quiçá à gente miserável na periferia e favela da urbe portentosa. Não para a parcela humana no campo, então num processo de expulsão do campo pelo tesouro guardado e resguardado em cofres bancários; ou ainda com mais tesouros se apropriando da terra. O clássico na luta desigual do latifúndio contra a mão de obra desqualificada. Porque Zé um trabalhador de família trabalhadora da roça se extinguindo, já, então, a roça. Você me indagando e o Zé daí por diante irá fazer o quê?
Não tenho prontamente a resposta; ou melhor nesse pior, tenho sim não posso em meia dúzia de linhas fornecer todas ideias que a ideia exige.
Digo, ou por sair de intervenções embaraçosas ou para ficar bem com o bem da verdade – que a verdade submeteria essa gente roceira, colona anos sem fim na Fazenda Ipê, a um tratamento com muito trabalho (seria o ganho material) e com muito apurar no conhecimento (que seria o ganho espiritual).
Primeiro que os Gonçalves os Almeida foram muitos seres; isto sem que precisassem cultivar cultuando os nomes; os nomes quanto os corpos ou os somas em soma – desaparecem como desaparece até o conhecimento da existência deles. A prova disto estando no fato de que raramente uma insignificante parcela da humanidade sabe História, os que podem sabê-la mentem o saber nas falhas de suas respectivas limitações; válido para quanto se afirma ser e existir Ciência. Resumindo, nada sabemos, ao menos completa e absolutamente. Nisto, o que sobraria aos camponeses!
Contudo a família existia e seus membros a operar na fazenda, fazendo o comum do fazer como capinar, diziam “carpir” que é chorar alguém com uso de cerimônia e mais ou menos contrição. Capinavam preparavam o solo semeavam cuidavam colhiam; secavam no terreiro da fazenda o café; embalavam-no ensacando; e embalavam igualmente os cereais produzidos; enfim o que era mister na propriedade a mando do proprietário; já nessa época totalmente o detentor do poder desconhecido da ralé na gleba mas ajustavam as coisas direto com o Zé... Não se trata aqui do pomposo nome de família ou seja Sr. José Almeida Gonçalves e o Zé mesmo ou alguém dele a acrescer “de” que seria, eu não sei Você saberá! seria “von” dos germânicos a indicar nobrezas – o Zé se entitulava com frequência José de Almeida aquem dessa discussão de nobreza a quem de direito desejar saber a definição quilômétrica das outras pessoas, talvez por mera curiosidade. Não. Zé aqui é o administrador da Ipê, sujeitando outrem assim como a se dirigir a um chefe, e na coisa se tem respeito e se resguarda das intimidades; quando muito diziam Sr. José, o senhor José sequer um dia se aproximou, na intimidade proposta, do mequetrefe Zé, nosso personagem, visto e tratado à distância que a distância exige no cargo dum administrador. Aliás sr. Zé via se não com desagrado formal com menosprezo o Zé – nunca chamá-lo-ia Xará; será que talvez isto não enfeasse sua posição de comandante... Assim a relação dono de lá em cima, ‘dono’, e lá em baixo o empregado, empregado não escravo.
Este último lembrete tem lá sua razão visto em fase anterior na relação de trabalho no país e especificamente nessa fazenda de café ter havido sim escravidão. Agora Você interfere com sua imaginação se nosso Zé um negro; terá pensado em muita lambada e destrato e pouca alegria, errando. José branco meio baio bem queimado de sol e todos os seus se apresentando desse jeito. Não um negro, muita vez apensado à escravatura decerto pela tendência discriminatória de nossa cultura. Não pretendo abrir a temporada ao tema para debates, absurdos para mim. Não. Decerto que não. Seus ancestrais talvez, a gente do seu tempo a viver livre, o quanto livre a miséria permite, Zé um cidadão, da roça com direito à cidadania, sem o saber ou sabendo parcialmente, o que é não saber de fato.
A fim de evitarmos choque de nomes, mantenhamos Zé por Zé nosso Zé; doutro lado, lá no alto se se quiser o Sr. José, administrador, fiscal, representante, representante pouco legal, aqui funciona e funciona sempre numa fazenda o hábito consuetudinário, não o de direito escrito, nem o fisco nem a lei podendo cobrar na época. São portanto distintos zés, o distinto e o mequetrefe.
No Ipê operaram dentro dos limites do costume os familiares de Zé. Inocência não era bem uma inocente criatura como sugere o nome, ao contrário viva, “mandona” afirmava à boca pequena aos manos o filho caçula – o Zé do tipo hoje chamado a rapa do tacho – ele afirmava e antes olhava não olhasse a genitora; aqui resumindo a estrutura familiar dos Gonçalves: a chefa autoritária, os filhos submetidos. Ao longo das décadas os insubmissos (quase todos!) se foram, foram indo fora. Uns se casando ou amigando, Conceição amasiou-se nunca fora ao cartório e outros seus irmãos também; exceção a Pedro, Pedrinho tratado assim, apenas ele casou-se bonitinho em festa, de pobre festa nupcial, com juiz com sacerdote e com tudo o mais, quer dizer pouco aparato e muita participação; o homem do campo vive mais o dia a dia que a aparência do dia... Assim Pedro e Maria, esta nada que ver com a série séria de marias até aqui mostradas muito menos (por que não?) a comadre de peitos tentadores a ameaçar um zezinho assinzinho de guloso. Não, outra Maria e até mui mais das Dores que mesmo maria. Casaram-se após as briguinhas folclóricas dos namorados ao tempo de namoro e embaraços da família dela sobretudo o futuro sogro vendo mal o genro futuro; após isso e é claro os ciúmes habituais próprios dos enamorados; finalmente o consórcio legal no cartório e a bênção de Deus segundo a batina do representante divino. Imediato a isso, ou seja na segunda-feira, o casório aprecia ocorrer na roça no sábado, no domingo às vezes sobra ainda familiares gozando ou a fazer planos e a dar palpite na vida dos outros (pois o novo casal agora outra família...) e assim sobra a segunda de preguiça ao cidadão e quem sabe preguiça também ao roceiro; a segunda primeira de trabalho. Imediato a enxada. No campo aparece raramente “meu bezinho” “meu amor” essas coisas, porém surge logo impondo a realidade o trabalho; que demais permeará a vida inteira do casal, da família, caso o costumeiro caso de haver muita família “famía” diz o da roça, ou seja muitos filhos. Entretanto todos no eito; inclusive Pedro semearia muitíssimos filhos nela, na Maria, a Maria logo deixando ser uma bela mulher a virar mãe prolífera, se estrangando no estrago desse costume dos tempos. Quer dizer que dona Censa exageradamente avó de muitos netos, os provindos dos outros filhos dela também se perderam no mundo com seus pais; alguns netinhos sequer a avó conheceu. Pedro permaneceu noutra casa da colônia até morrer, morreu cedo de morte morrida (decerto ataque cardíaco, que sabemos de medicina!) Faleceu nas condições que mui outros roceiros tiveram, tolhidos jovens ainda mas velhos descartados antes do tempo pelo tempo.
Seria fastidioso de todos membros enumerar contar o viver; e matar, somos mortais o que isso poderia desagradar a verdade! Todavia fastidioso analisar o crescer decrescer no sofrer esse viver; registrar minúcias de cada familiar, sendo-nos suficiente a dar ideia a ideia geral, nos reportando tão somente a poucos deles, os principais e que nos são essenciais a fim de entender o Zé.
Com o tempo e após muito tempo... exagero o exagero: pouco e até pouquíssimos anos, a prole escapa. Diz alguém que a imagem é mais precisa que mil linhas, as quais podemos simbolicamente assim representar: a água toma a mão ou a mão toma porção do líquido, o líquido ou insatisfeito ou insurgente escapole por entre os vãos dos dedos; e a mão, ah a pobre palma das mãos, a pobrezinha fica só, vazia! seca! sofredora! abandonada! ou fica mais ela mesma para ser solitária e se pensar e assim mais progredir. Tem sempre gente a dizer que a verdade pode vir pelo amor ou pela dor. No caso a mão a mãe terá aprendido pela dor da perda, aqui se entroniza se imiscui desentendimentos e entreveros com suas consubstanciais palavrinhas (ai que gracinha) e palavrões na grossura humana. Não fora por forte afeição a compreensão a filosofia das possibilidades dos que pensam compreendem cedem, enfim não fora amor propriamente. Não com certeza, haja vista a quase petulância, neste caso da mão sendo a mãe, o autoritarismo dela sobre os da família. Dir-me-ão os que dizem que desde já Inocência deveria dividir suas dores no trato com os seus nesse parto que é o viver nas casas ao mesmo tempo simples e complicadas (quer mais complexo que um ‘lar’ pobre humano!?) Enfim não deveria tomar decisões sozinha, afirmariam então que ela dividisse dores e alegrias com o esposo, Sr... ah é aqui (fala o caipira) aqui é que a porca torce o rabo. Censa era, longe ser solitária, uma senhora só. Nunca se casou, Você interpõe, nunca? Nunca, arrespondo consciente de não andar a pecar na mentira. Se se exigir que possa com o noivo haver prometido sob olhares do páraco ou no juiz não se separar jamais do cônjuge que andava a receber – nunca. Porque Inocência, e consta tenha sido jovem bela e graciosa, agora não mais que distante da desconstrução duma guerra na Guerra; não obstante a graça e a beleza sequer teve nem o primeiro marido nem outros homens como esposos (e foram muitos às línguas nas bocas das marias e marias comadres) nenhum foi seu legítimo consorte, em nome da lei e da lei divina. O Zé mesmo veio ao mundo graças à ajuda dum senhor mais ou menos asqueroso para a colônia para as famílias da colônia nessa mesma Ipê; um que fora apresentado sem as formalidades urbanas como primo dela, aqui primo primeiro segundo o escambau já que as família se entrosam se ligam (e se desligam) se cruzam formando o sangue, o sangue é o que se conta. Em conclusão desta parte inconclusa: o Zé nunca teve pai.
Pode alguém não ter pai!
Respondo que sim; se o conhecer é ver pegar garantir, nunca o Zé submisso aos desmandos do sr. Zé teve genitor. Nunca pôde realmente apresentá-lo à sociedade acanhada ou da fazenda ou donde havendo ajuntamento humano.
Isto gerou um drama na escola. Hoje não é mais um grande drama, os filhos se encontram na mesma sala de aprendizagem com os colegas filhos também de família desestruturadas. Ou é que a religião que à época por sua rigidez na crença dos crentes funcionava dando as coordenadas e daí os matrimônios formais existiam tendo ação decisiva (então também havendo na sociedade pais amasiados ou até desconhecidos dos filhos; porém poucos assim, assim como ocorria a Zezinho na escola, o Zezinho da Censa).
Aqui entra a escola.
Zezinho não era lá mui inteligente, não só em matemática precisando a professora se desgastar cobrar-lhe a decoração das tabuadas; em tudo periclitava na escola da fazenda onde Dona Tomásia precisando se reforçar bem para engolir os sete ou oito quilômetros, sete é o da mentira fica oito separando Serra Branca do Ipê em que lecionava. Isto na volta do fim de semana, quando na urbe permanecia para quem sabe ver se arranjava noivo, coisa difícil a uma solteirona demais gorda e perdendo beleza enquanto ganhava teimosia e irritação. Na semana ficava a preparar aulas decerto ou em bate-papo religioso com as mulheres dali, às vezes pouco religioso e mais a falar nos outros dos outros, enfim permanecia na fazenda. O fazendeiro, aqui não nos referindo ao lugar-tenente Sr.José mas o dono, por sinal inimigo mortal na velha política do vizinho, um diabo pra si. Então, ele havia ordenado que José mandasse por sua vez fazer uma adaptação na primeira casa das onze ou doze na colônia a fim de que funcionasse a escola. Até neste ponto tudo certo. Aí é que Tomásia lecionava e agora entra o Zé. O Zé não saía do primeiro ano anos, passara depois ao segundo empurrado pois um pouco lerdo na mente. Minto, muito. A professora cansava epitetá-lo “cabeção”. No começo o bobo sorria e se sentindo elevado vaidosamente como um dos grandes entre os meninos – verdade que não mentia e nem era um bagunceiro, essas as virtudes – imaginava o garoto nesse ‘elogio’ da mestra uma cabeça enorme, assim como ouvira numa lição, a lição sobre Rui e a professora exigia escrevessem com ipsilone; o pior mesmo era que Zé pronunciava “Ruim Barbosa” ao desespero da senhora, senhorita insistia corrigia. No texto literário ficando à mostra inteligência e sabedoria do eminente personagem; que segundo a descrição teria cabeça grande. Assim se comparava, talvez estufado na vaidade o Zezinho. Não. A verdade chega depressa, vem a galope e daí descobrira a depreciação da moça a denegrir o menino, ele. Tornou-se emburrado dias e se fechou mais, agora temendo gozação de colegas. A outra professora a vir em substituição de Tomásia no ano seguinte não o tratava melhor que isso, dona Santa ia logo à base apelidando o pobre “burro”. Tudo era a incriminar o burro da classe, aí em gozação coletiva porque menino não tem complacência não costuma perdoar, mais se despicava no infeliz, porque de fato nem os mínimos conhecimentos entravam naquela cabeça dura! Quase nem saiu ‘formado’ do curso, desistindo, e a escola oferecia até à terceira série fundamental, além os alunos necessitando se deslocarem à cidade; deixou-o no segundo ano incompleto – quase não alfabetizado.
Porém isto tudo é um dos senões do escolar.
Outras coisas mais pesavam na engrenagem naquele ensino precário como precário em toda escola rural. Outras questões, graves, punham-se no sistema e particularmente ali no Ipê.
Numa ocasião o Doutor, proprietário de fato da fazenda, resolveu construir uma sede nova, ou por desejar aperfeiçoamento administrativo ou para tapear o fisco dando saída e colocação nos lucros (desconhecidos ou sabidos apenas por alto entre os colonos). Seja como for, trouxe um pedreiro de gabarito, desse tipo pequeno profissional-construtor, também pobre, rico diante a colônia quase miserável. Aqui entra uma briga política de anos que vai além dos desaforos comuns...
Chegara o Valter, seu Valter se dizia com W, muito alemão para o entendimento dos lavradores, os lavradores nessa complicação e os poucos letrados ali se punham escrevendo mesmo V no dito nome. Aliás o som da voz não se impressiona com o que a orelha lhe diz; assim como ‘desnecessita’ pontuar e sinalizar. A fala não tem disso e breve o pedreiro se conformando; levantaria após alicerces básicos a parede e o fazia tal qual mestre; ao arrepio e despique ciumento do administrador Sr. José...
Logo no primeiro dia se chocaram ambos por outra vertente da mesma questão. Seguinte. Aparece Valter com a Maria, não, não é aquela Maria de grandes peitos, ela inclusive uma simpática portuguesa, que por sinal iria lecionar com a saída meio intempestuosa de Santa... Ainda com respeito a esta professora demissionária havia um probleminha chato, pois ela professava conscientemente o fascismo; falando a defender Mussoline aos aluninhos, o Zé dos maiores na classe embora menos que os outros na mente não entendendo coisa alguma disso; os coleguinhas também. Foi este senão lembrado agora porque ela deixara o emprego e porque não fora divulgada a causa... provavelmente por injunções das autoridades em Serra Branca, então urbe acanhada se pensando o centro do universo, ali havia alguma caça às bruxas do Eixo; a família italiana da Santa (Santa apenas santificada no nome porque brava ao extremo de quebrar régua na cabeça do cabeça dura...) certamente os familiares pressionaram a mestra desistir.
Bem, chega Maria e aqui nova embrulhada – ninguém no Ipê em condições para dar abrigo à nova mestra: acomodação, alimentação. A coisa vai longe, resumamos. Sr.Valter diz que sem abrigo à esposa, ele ir-se-ia com ela e não iniciava a construção. Sr. José responde, então pode ir embora, Sr.Valter: o inspetor de ensino afirmou que sem guarida à sua funcionária ele fecha a escola, transfere a mesma para a vizinha Santa Adélia, Sr. José; e José que me importa? meus filhos não precisam dessa escola porque já estudam na cidade. Assim o construtor informa a autoridade de ensino e esta transfere numa penada o estabelecimento à outra fazenda. Isso tudo ocorreu em vozes gritadas, um espetáculo lindo de se ver, e gritadas no calão e calor do momento. Chega feroz o dono da Ipê, explode em José “como, diz brabo, como deixou que nossa escola se mudasse às terras do meu maior inimigo! Vou despedir ocê...” Deu um prazo, Zé foi ajoelhar-se diante de Valter, mudou-se o fiscal ele mesmo para um casebre da colônia, exigida sua morada pelo Valter; assim entregou ao desafeto a chave de sua casa à mulher do outro; e claro a chave da escola. Um ano inteiro os colonos conversaram baixinho longe do administrador da fazenda sobre o desfecho. O Sr. José (nem permitia o ‘seu’ banal e comum aos outros homens, ele era o “Senhor José”) esse homem sempre mui arrogante e odiado pelos moradores. Havia ainda problemas de ordem moral com desrespeito dele contra colonas menos feias na colônia, isto não entra nesta narrativa.
A par disso tudo – briga discussão palavrão ‘perdão’... ora os seres humanos não se perdoam mui facilmente – a par o Sr. José, só permitindo que o Doutor fizesse uso do tratamento Zé a ele; além de o lugar-tenente, preposto prepotente e fiscal achar por bem ano inteiro a cobrança sobre os colonos submissos por seu fracasso como mandão no Ipê. Em quaisquer deslizes e até sem pisar falso o pobre trabalhador recebia muitas bordoadas de sua língua.
Ah a língua. A dele ficando entre o par de bigodes, não sei se ando certo mas cada lado do bigode, esquerdo-e-direito, cobre o lábio superior e a língua que se intrometa ali. O Zé, nosso Zé, seu e meu, ficava maravilhado e curioso em moleque vendo o movimento dos fios negros já com laivos de neve, a neve da idade, interessava-se ver a mesma se mexer. Até aqui não houvera demais problema à dona Censa, porém tinha sim o filho dramas. O fiscal dizia brabo numa ordem, que fosse disparado cumpri-la, ordem é ordem se cumpre; dizia olhando a fulminar aquele pouco aperfeiçoado ser humano, “ocê faz isso” e gritava “agora! já!” faz tal aqui, vai, torna ligeiro me dar o resultado da incumbência... Nem Você permitiria o abuso ocê. Carreirão do Zé, temeroso medroso perante essa autoridade, que a rigor não tendo sentido por não ser o fiscal seu superior; talvez o fosse da mãe dele, extrapolava e assim com os outros habitantes. A Valter cumprimentava, sorria mais por fora odiava por dentro. A Maria nunca fora molestada por esse homem, pesando nisso não obstante a beleza da mulher e a fome nunca satisfeita do funcionário; pesando o fato de haver o esposo dela rezado um padre-nosso específico ao caso, assim disse o Valter. Se... ele afirmava a Baiano seu ajudante de pedreiro: “falei que estripo ele e ainda chupo o caldinho! se puser as mãos na minha Maria querida.” Ah pobre esposa, o esposo iria matá-la breve, não por instâncias do desequilibrado prepotente preposto, não: ano depois capotaram o carro velho do casal, adquirido com o ganho na construção da sede e lógico os proventos da esposa; ela faleceu ali e Valter viveu sua morte, pois não sendo propriamente viver sem sua metade cara.
Tornemos aos bigodes e isto antes do entrevero entre o fiscal e o construtor; porém que gerou ou avolumou a birra que havia por cima daquele ‘por baixo’. Um dia o menino de uns oito anos vira Sr. José a descansar em modorra sentado numa cadeira (não nos calcanhares...) esta pensa, a guarda encostada na parede da sede velha da fazenda, de forma que os pés da frente alevantados, o homem a dormir nesse equilíbrio precário com o peso todinho no assento. Ah, vê o Zezinho, que graça as pontas do bigode a subir a descer a cada lance do roncar no solão do salão, mais um alpendre que salão e a quentura. Niguém precisou mostrar o que fazer: correu pegar a tesoura de estimação de Censa, chegou ao fiscal a dormir e sorrindo malandragens na descoberta aparou rápido os pelos da parte direita do bigode! Acordada a vítima, flagra o atônito Zezinho ainda com a tesoura...
Foi o maior esparramo na colônia, gritos intimações apuro de causas e efeitos, fácil entender. O ódio até gratuito do adulto classificado pelo menino desclassificado aumentara, agora com razão. Sobrando à Inocência ouvir a raspança, calada; depois ela mesma a vociferar bater prender punir Zezinho.
Contudo os anos passaram.
Senhor José era volumoso, pançudo, cara de mau, isto apesar virar um bobalhão para agradar seus meninos nas férias vindo eles de Serra Branca onde estudavam devendo no orgulho paterno receber diploma em solenidade e festa. Fechadão ranheta ranzinza diante dos lavradores, ameaçava os mais fracos entre fracos. Portava por costume sempre como arma ou ferramenta uma foice de cabo curto lustroso afiada, dessas não de aparar bigodes até podendo ser usada como navalha também na cara que ele usava quase sempre no ponto de barba a fazer. Ameaçando com presença dessa enganosa parafernália os trabalhadores. Com ela indicava (houvesse até o que sem defeito ou o mal feito na tarefa dos homens) apontava quem lhe interessasse chamar atenção. Além ter um costume demais conhecido no eito: trazia a miúdo um canivetão brilhando a lâmina para a palha e o fumo a ser este desfiado picotado, enfim eternamente ele a preparar o cigarro – a imagem que o lavrador tinha sobre o chefe era com a palha o tabaco, voltado com olhos para baixo a nível da barriga estufada na sua camisa suja (todos sujos, isto não realçava nele) na verdade se ligando ao que faziam seus comandados e mais o que não faziam, a lhes advertir, a chamar aos tentos. Todo mundo (menos Valter ali um ano inteiro) todos o temiam, alguns tremiam à sua proximidade. E por essa condição se vangloriando.
Tinha outro quê, o qual Sr.José carregava de propósito por cima e contra os infelizes... Não, não é o rebenque o relho que todos na lavoura e mais no pasto usam; não é isso. A gente já adianta esse após pensando que Você seja demais curioso. Seguinte. Vivia o chefão em constante ameaça por cima deles a dizer frequente: o Doutor me confiou – sou íntimo dele (mentia) é meu amigo desde a fazenda Flor Roxa de onde viemos, aí o Doutor comprou aqui e... – ele me confessou que irá ou vender esta porcaria improdutiva com seus agregados vagabundos burros ineficazes. Ou, aqui a vocês dá no mesmo, terão que dar no pé da mesma forma, ou derruba essas taperas da colônia, arranca os cafeeiros todos, nem milho nem coisa alguma deixará inteiro e aí, aí... põe gado no lugar do gado humano. Saibam, dá muito mais lucro e vaca não leva o fazendeiro às barras do ministério do trabalho, não dá trabalho.
O rastilho de pólvora chega às orelhas das bocas femininas; um dia uma semana meses de falatório insegurança e tristeza no Ipê.

Cap. 4° - Agora na estrada sempre no andar parar descansar retornar pelas lembranças ele caminha e Você me indaga para onde? devolvo a indagação sem resposta convincente; agora Zé relembra o último diálogo que manteve com o Sr. José, não seria aqui um diálogo de zés! fora algo se não estapafúrdio estranho considerando a relação difícil. Então o fiscal passa rente à casa do outro na colônia, a casa a se desmanchar primeiro pelo abandono, antes que as moradias todas fossem postas abaixo; aquele negócio de que vaca não dá trabalho só lucro sequer precisa casa... Cutucou com a foice o arremedo de porta presa ao batente apenas com uma tira fraca, enfim deu um toque e uma saraivada com o relho para mostrar serviço e presença e mando e... ah até propriedade; isto a ser mais tarde destrinchado; imediato e alto no seu estilo perguntou-intimou: “ainda não morreu?” o diálogo se completou com a resposta fraca seca embora com a força que força dá na decepção consumada: “não”. Zé sorri, sorri hoje longe na distância e no tempo; e prossegue a sulcar o chão arenoso.
Outra memória que tem na memória, lembrança não menos sofrida é a da gripe, relembra enquanto a estrada passa... não é a gente que passa no caminho! não, o caminho também passa pela gente no momento que a gente sofre o sofrer da gente; quer dizer aquilo que foi pela gente sofrido.
 O Zé de cabeça bem adversa aos conhecimentos na escola, entretanto a receber os conhecimentos da existência, apesar serem eles doídos, ele se reporta às mil gripes e outros estados virais por que pasara, mormente uma gripe brava que a população magra do Ipê chamaria sem gentileza alguma e inclusive com certa irreverência “gripe fiscal”; o fiscal homem forte atarracado, o tipo de gente que o lavrador afirma ser erva daninha, erva ruim sabe-se nem a geada mata! e o Sr. José ficara também não obstante a fortaleza preso à cama, até ele contraiu essa gripe uma vez. Em suma sucumbe à ‘sua’ própria gripe. Agora é a vez da gente agora, do Zé, o Zé geme se contorce se espreme sua se limpa e daí não dorme, mais se ouve o barulho ringidor da cama pobre e decerto fedorenta, assim noite inteira desse dia que durou dias mais de semana quase o parando definitivo na beira da estrada do ser, quase sim a enfermidade o levou como o fizera com mais de meia dúzia de maninhos transportados como anjos ao cemitério, ele um velhotão, velho pois a sociedade cobra velhice nos seus jovens que ficarem pra titio, terá, pergunto, terá o companheiro da titia ou seja aquela que precocemente envelhece encolhe falece solteirona! Não, Você não poderá me responder sobre a dúvida e então indago à existência... Contudo o Zé ia morrendo. Andava parado bloqueado prostrado suado e embora assim, a mostrar vida quando quase entregue numa fase difícil por haver ficado sozinho; Censa partira para onde todos nos encaminhamos, ao local florido de cruzes, cruzes! e velas apagadas e flores murchas se não murchas por artificiais antes de morrerem e com objetos mortos a vigiar seus mortos, partira ela já estando o ‘jovem’ a tiritar sua febre e sabendo de antemão não conseguir se levantar e ficar de pé, o mundo a rodar doido em volta e a dor... ah a dor na cabeça na musculatura no corpo e ainda havendo uma vontade sem vontade. Pior. Sempre tem um pior na piora das coisas que é estar totalmente só? Estava abandonado e quem a esperar consolo da chefia da fazenda, o chefe demais prepotente demais vaidoso na sua empáfia; e ainda que se pudesse aguardar alguém outro a cuidar dele, seria a humildade da senhora Veva, tolerante companheira do chefe! Nesse transe ninguém poderia dar atenção ao roceiro no abandono, sequer essa boa mulher; visto o enfermo além do mais ser um desafeto do seu homem; claro que o marido não permitiria o cuidado à esposa dele. Não. Assim Zé está nesse momento a curtir sua doença solitariamente, nem existe outro colono na fazenda, a colônia abandonada e onde apenas se ouve o som dos berros das vacas. O doente não se alimenta; e isto não sendo por não dispor de meios, ele guardara sempre dependurada mesmo sem ter agora o Peri a vigiar lá em cima a linguiça, linguiça alimento básico; os frangos no terreiro não mais piavam, os porcos só chiqueiros e mangueirões vazios; mesmo a farinha o arroz o feijão, tudo havendo na despensa da casa abandonada do Ipê; entretanto agora tudo andava esparramado ao consumo dos ratos ao vento ao tempo... Tinha o que comer porém e a coragem a lidar com esse verdadeiro vetor da morte! onde a coragem? Rola não dorme não conscientiza não vê quase o que vê embaciado nas dependências. E clama num renascimento curtinho por Censa, grita ajuda da mãe ou pensa que a chama em voz alta e a mãe não ouve, ainda ele escuta o uivo do vento, ou uma que outra rajada em saraiva da chuva repentina; e assim o Zé desfalece. Todavia não morre, acorda após dias que são noites de vinte e quatro horas; encontra-se fraco no entanto vivo. Por fim se ergue se estica se espicha tateia ébrio de fraqueza por haver bebido demais a dor a febre o abandono. É quando responde “não” ao fiscal lá fora.
Fora movimentando-se longe no tempo-espaço, olha o horizonte olha a pele do estradão, a imagem treme ao sol ao calor do sol a matar se não o morto a lembrança daquela morte por que passara.
De suas memórias nesse ‘medir’ caminho se destaca uma por ser alegre. Você mesmo me interrompe a dizer se o fracasso pode ser tomado por alegria... Não. Óbvio que não, só a lembrança já um alento para quem não disponha mais que o alento, o alento que é aparentado em primo de terceiro grau da felicidade. Porque naquela segunda-feira em que o trabalhador da roça escolhe para ir à cidade, a deixar irado o fazendeiro (leia-se Sr.José) ele e outros patrões inimigos ou não do proprietário legítimo do Ipê e também seus vizinhos, portanto colegas (forçando nisso o coleguismo, fato comum percebido numa fábrica por exemplo). Sim. Os ricos se ofendem com a falta inoportuna no local de trabalho dos seus roceiros, a força de trabalho; isto o mesmo que lembrar prejuízo; o prepotente preposto tomava como ofensa, a maior ofensa a si. O costume no campo então levava os empregados a sair na segunda, fosse ou não permitido, inclusive na época sagrada de colheita... Daí o Zé jovem esperançoso necessitado imaginoso e ‘cheio’  de aventura na cabeça contrária às matemáticas – daí se pôs no grupo de jovens à procura de diversão indo à urbe.
Serra Branca – uma cidadezinha metida na geografia do interior paulista e se pensando tão grande na enormidade até ao ponto ser o mais importante núcleo no universo... não passava de vila acanhada pobre com um futuro brilhante sim e concretamente uma urbe descalça sem recursos e com uma dúzia de casas, sem ser casebres embora pois as moradias pobres mas novas, umas até recentes e ainda com seu som de pã-pã-pã de martelos tábuas e gritos humanos a levantá-las à família. Não obstante o branco até no nome, era de zona de terra vermelha, a poeira a cegar quem na rua... No meio a isso tudo uns veículos a passar nas vias públicas com predomínio de carroças e animais de montaria e havendo um que outro de lata a brilhar ao sol e a marcar o solo por seus pneumáticos; caminhões pequenos (a população sonhando gigantescos carros...) a algaravia humana nos seus desperdícios da fala, gritos, choros e brincadeiras de meninos e as mulherinhas a bater roupa em cepos de madeira a escorrer água e sabão – enfim movimento humano; ah... sem falta este quê: ébrios indo não ébrios, ébrios a cambalear e ébrios a curtir seu chão (com moleques a gozar) para completar o quadro.
No meio da rapaziada a chegar nesse paraíso, o paraíso tem bebida e diversão à beça, à beça tendo na diversão muito mais pois Serra Branca a possuir um belíssimo exemplar de casa de tolerância; no meio o Zé, o Zé da Censa, a Censa ficara ruminando se defendendo do filho um então arruaceiro!? um que não obstante seus conselhos e até ‘desimperando’ seus mandos, ói ele na estrada com os colegas (uns vieram como colegas ainda da escola da Tomásia) a maior parte no grupo sendo os trabalhadores braçais no sol quente da roça com seus respectivos familiares. O Zé faz papel útil do último entre todos, nunca tendo iniciativa, sendo bom maria-vai-com-outras. Contudo ali na equipe a esmo formada, ri quando riem, responde nunca a contento quando indagam, fala quando falam e acompanha como pode a algazarra; meia algazarra porque são peões jovens (inexperientes não, sim o Zé...) são gente da roça na cidade e por isso contida, não quieta propriamente, no entanto a emitir sons mansos, até medrosos. Chegam. Olham. Assistem. Assuntam. Fazem o que fazer. Gastam. Gostam... Tornam após, agora desfalcados, tem uns já a falar mole, um deles fora parar no destacamento policial dar entrevista... Tornam, uns murchos e decepcionados; tem nisso também os papudos a contar vantagem, não somente a falar se firmando nas ‘machuras’ em falsete porém exagerando ingressso capacidade e vitória exterior. O Zé não.
O Zé e sua timidez doentia, ele responde por ambos a sorrir envergonhado. E assim voltam os moços ao Ipê. Na turba um que outro despista o fracasso com lembranças da colheita e uma que outra dívida da família. Em geral este item, a dívida, permeia por todas casas na colônia. Talvez seja a prova cabal da existência de fato da escravidão no meio rural; os trabalhadores sempre endividados e sem condições quitar.
Se os componentes das famílias desses jovens incautos exigiram na chegada um relato dessa ‘viagem’ a Serra Branca, certeza que apenas Censa quis os detalhes, nem soube pelo vergonhoso Zé minúcias, nem podia mesmo ter a exigência do pormenor. Claro não haver indagado Inocência ao inocente seu rebento se ao menos passara na igreja pagar aqueles medonhos pecados...
O Zé se lembra disso e sorri. Ou sorri de saudade ou de haver em si somado dados aos sonhos que tivera examinando aquele perverso ambiente. Mais ainda, uma lourinha ficou-lhe como ‘anja’ santa na memória por anos. Por anos! até agora.
Agora se pega de novo a caminhar, manca e prossegue.
Outro dos seus momentos tidos como espécie de reserva guardada no íntimo foi a vivência familiar.
Aquele dia em que Zé e os amigos foram às meninas e nos outros dias seguintes, as casas da colônia andaram torturadas pelas ameaças do fiscal, prepotente representante do fazendeiro, elemento de ligação entre o dono ausente e o colono presente. O senhor José parece que tendo prazer macerar aquela gentalha grosseira humilde e trabalhadora, semelhando já as vacas que lhe substituiriam. Não obstante o estado de guerra fora instaurado não apenas num dia, o dia do comunicado à comunidadezinha, porém já eram alfinetados por anos os roceiros. Enfim o proprietário não pretendia mais investir nas terras enquanto os homens ali residindo, porque mesmo eles estando ali a título precário, eram locados na Fazenda Ipê. Foi nisso chegar o pessoal do sangue do Zé. As casas, inclusive aquela em que o rapaz (embora com uns quarenta e tantos anos um rapaz) dormia seu sono; então várias famílias haviam sido deslocadas já para a cidade ou para terras vizinhas. Inocência e seu filhos permaneciam ali, inclusive logo cairia ela fulminada pelas forças do coração ou pela falta dessas forças e sairia após o velório compulsoriamente; apesar disso deixando a ocupar a moradia o filho. Foi aí a chegada dos seus parentes.
Parecia haverem combinado os membros que anos atrás se apartaram, até Pedro o último deles a deixar a colônia tornava ver a mãe e o irmão gozado... Zé tendo esse apelido entre os seus, dado não crerem na sua harmonia. Pedro morrera também, de repente, e jovem ainda apesar da filharada: Maria e os herdeiros foram quem representaram Pedro. Parecia uma espécie de despedida da velha Censa, intuição sexto sentido qualquer coisa assim, por chegarem todos sem haver combinado. Seja lá como for havia gente de mais à casa de menos. Falou-se muito no encontro e se perdoou muito pois os pobres se compreendem nas faltas... Um dia para Inocência não esquecer; comentaria depois cada lance cada membro e sobretudo as gracinhas dos netos até aí dela desconhecidos; isso por meses poucos: faleceria breve. Quanto a Zé ficaria em meio aos seus um pouco baratinado, confuso, perdido sem saber dar respostas convincentes às intervenções. Os tímidos e mais os menos dotados não têm o que dizer no meio da gente tida por normal; muita vez ficou devendo, a deixar no ar uma resposta de indagação sã de outrem. Os tímidos devem ser os seres que mais cultivam as reticências.
Agora na marcha tendo aos seus pés a areia quase movediça solta no leito do estradão, relembra não só a gente os gestos os sons mas sobremaneira de si mesmo no papel de bobo e mais se punindo a reconhecer não ser outrem; a gente é a gente até desembaraçada, embora o meio tímido desses roceiros. Melhor seria pra si pudesse sua falta de gabarito não enxergar-se no cineminha que projetamos para as cadeiras vazias de nós mesmos desde o palco onde a tela; aliás o projetor ficando atrás nas costas da plateia, o Zé nunca entrara ver uma sessão cinematográfica e Serra Branca possuindo salinha de exibição. Os colegas contavam-lhe horrores dos filmes, quase fazendo com que o Zé babasse ou de prazer ou temor...
Enfim agora é agora, agora é o fim para nosso personagem José Almeida Gonçalves

Cap. 5° - Mas é o fim! põe sua dúvida ou decepção Você até aqui numa expectativa de estória de amor e com lances se não normais comuns de grandiosidade e aventura, errando feio. Responde o autor – “eu num tô nem aí”,  – o autor arresponde não poder inventar as coisas e outra conclusão plausível; inventar sim, sim pode, porém tão só na linguagem, na apresentação, na contenção de abusos mais neste menos. Na estória propriamente dita não, porque esta estória é um imitar a história dum ser e o ser (um tal de Zé, Zé da Censa) este ser é um caboclo andando perdido, perdido sim a contentar intervenções; perdido por não saber ele mesmo para onde indo. Lógico ir ao fim da estrada e seu próprio fim – mas aonde!
A Fazenda Ipê se descolorira, ficara mais branca que o branco de Serra; esta ao menos no ganho de sua poeira vermelha com o horror da lama na temporada chuvosa e ainda com um positivo, o positivo de aumentar sua população, sua área não: os municípios brasileiros todos dias tendem a encolher, a vila o patrimônio o distrito querem ter o direito cada um sempre de ficar na cacunda da federação, nunca terão renda suficiente como novos municípios, querem ajuda da federaão rica em banco e corrupção, querem gritar “independência ou morte!” mortos porém no final aceitam ‘ficar’  “pode dizer ao povo que fico”, se é para o bem da nação etc. e tal, tal a situação da urbe a encolher sua área e aumentar as bocas. Serra Branca branca de raiva ter que aguentar o blá-blá-blá dos políticos do desmembramento por nada: permanece do mesmo tamanho. A Fazenda Ipê entretanto não encolhe propriamente, envelhece sem brilho, pois o que cintila numa propriedade rural é sua gente lutadora (embora um pouco escravizada escrava). Contudo ela perde cerne, visto a gente não ser mais vista. Em outras palavras não mais se planta, planta a mão de obra ou noutras glebas a desmanchar também mais para diante; ou ‘planta’ na urbe ordinária, esta não fosse tão imaginosa em diminuindo até o universo para ser seu centro...
O personagem Zé – ao qual daremos asas a um quê-zinho de vaidade nobre chamando o mesmo José de Almeida Gonçalves a se estufar, claro: não é um homem comum!? – o personagem nem viu passar o tempo nem viu crescer a fazenda e quase imediato encolher morrer; nem viu sua família aumentar a desaparecer loguinho indo fora dali e ali na fazenda ela a diminuir acabar acabando ele como o único representante da linhagem e único morador nas casas a cair (aqui sim caberia a expressão vulgar “a casa vai cair”...)
Anda ainda caminha lento na lenta estrada ao fim duma tarde morna de verão em que tudo pode ocorrer, tudo até nada. Pode despencar duma hora para outra um chuvão um tufão um não ao seu sim e ele continua a coxear na areia nos seus passos nada marciais, antes que isso lentos mancos mansos quase não fossem as dores. A rigor conhece cada passo cada vão cada pedra... não a todas pedras! dores de todo mundo uni-vos!! Não. Todavia conhece a fundo o fundo que finda no chão já esfriando seu braseiro então ao acaso do ocaso. Passara ali e por ali não mil vezes, mil e uma vezes, passara indo com a garrafa a balançar – o caipira é gozado a levar dependurado o vidro vazio depois na volta cheio de cachaça então provada antes de tornar em casa pra Censa falar e falar sem parar de falar até dormir, dormir ele ela ainda a falar braba contra os bebuns que a gente tem de aturar na casa, oh ela já morrera e pronto; a garrafa dependurada por uma tira amarrada que pesa menos agora: o Zé provou andando algumas vezes para comprovar se o vendeiro disse a verdade a verdade era que era de primeira linha – vai indo com a garrafa vazia volta cheia e no pescoço do vidro transparente a tira bem presa ou então é o desastre tibum tiplof no chão os cacos os cheiros as perdas a exalar cana curtida... Assim. Assim Zé já mil, mil e uma. Decerto que indo à venda na compra, agora na dívida pois eles marcam numa matemática duvidosa, o vendeiro e mais a maliciosa esposa dele a registrarem na pendura “pindura” pronuncia a gente do local – isto porque o ganho no Ipê não tem mais ganho só perda e o proprietário da fazenda anda tiririca; esta expressão popular engloba uma erva que nem a língua brava suja do ser comum mata e acaba com ela; andar tiririca é estar irado a ponto de... deixa pra lá. O dono se encontra às vias de dar-lhe um pontapé no traseiro, visto o bobalhão não mexer palha; e nada há mais que berros na fazenda agora; o que proibido plantaria! e além do mais o caboclo não sai não vai não morre; enquanto que as casas de colônia umas desmoronaram assustando insetos e o capim infiltrado na alvenaria atingindo uma encostada moleirona certamente nas imediações a pastar manso e a olhar desnecessariamente as cercas que vão longe prendendo perto e aí o espanto com o barulhão do desmoronar e a fumaça do pó acumulado.
Todavia devemos uma explicação referente ao proprietário do Ipê. O dono quando viu, viu-se endividado embaraçado enredado desgastado enrolado nos maus negócios. Chama o capataz feitor fiscal administrador preposto prepotente a tentar consertar os estragos, quem sabe vender seu peixe, a vender suas terras e suas vacas a um... não, nem pensar não aceitaria um secular inimigo vizinho isso não! Não, senhor, redargui o Senhor José: tenho uns cobres guardados tempo no banco de Serra; coisinha pouca sim mas valiosa e que dá para conter sua dívida limpar seu nome nobre e sua honra e ainda manter sua dignidade; quitar sua dívida, Patrão... Não esclareceu como conseguira ao longo dos anos dirigindo a fazenda com salário de fome e mesmo assim podendo depositar em costume um saldinho sofrido. Não disse haver segurado haveres sempre aos olhos distantes do outro e tomar para si parte nos lucros nas vendas de café e cereais antes e depois agora nas transações envolvendo o gado; especialmente dado o fato de vaca ficar doente morrer ser roubada por ladrão de cavalo (era a erva ruim da época, muito houve guerra contra esse tipo de profissional nada amador, isso sem precisar bomba atômica e contabilizar inocentes tombados no fronte...) Por essas razões teve que pôr na conta do patrão as perdas tidas garantidas e merecidas. A concluir o papo nada papo o Senhor José propõe – imediato aceito – passar de mãos beijadas a si a propriedade do Ipê em troca do esvaziamento da conta de poupança dele no banco ao outro, agora ex-patrão.
Quando o Senhor José dá o tão ansiado e esperado últimato ao xará, nunca dito desse jeito nem admitido por seu orgulho – então já é o dono legítimo, de papel passado, reconhecidas as firmas, tudo carimbado e registrado em cartório lá de Serra Branca, o centrão comercial do universinho.
Então o Zé sequer precisando do empurrão do momento a fazer seu movimento então.
Sai sem lenço sem documento, se é que os tivessse tido um dia, sai no estilo pé na estrada, a estrada que Você e até o autor conhecem bem. Bem, segue ao seu fim da estrada na estrada sem fim. Não muito longe ladra o cão ao ladrão quem sabe a passar; o galo nas imediações avisa intima seu harém dormir; a gente nas casas com luminosidade a acender a apagar de lamparinas ou casebres por ali em quase não se ver ‘vendo-se’ apenas pelos seus sons e os gritos finos na ralhação ao choro menino; pássaros de todas vozes em vozes ao toque de recolher; e ali bem ali ao seu lado sons ecos ocos de passos fracos mancos, firmes entretanto no rumo de sua interrogação.
A interrogação é o sinal mais convincente à humanidade e ao homem comum, homem inteiro ou falto dum vai um.
Marília   outubro  2014



         



           


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