Estrada
sem fim
Cap.1° - Naquele dia
de fim de ano ou de começo de cansaço caminhava pela estrada com direção caso
não estivesse perdido um homem; homem de seus quarenta e oito anos mais ou menos
bem vividos, bem vividos dado o fato milenar da gente não entender a fundo a
gente e assim errar nos absolutos que todos propõem e quase ninguém acerta. Em
todo caso caminhava. Olhando para trás e para frente, para trás o início suposto,
sempre suposto visto nossa ignorância (minha sua e de todos seres humanos); pouco
sabemos inclusive no que garantimos saber e o sujeito em questão não ia longe
da suposição – seja o início seja o fim do caminho. Apenas, em desalento, no
instante media a distância percorrida, melhor conhecendo isso seu cansaço que
ele; num pior e era de fato pessimista medindo o possível espaço, a distância
quilométrica fosse otimista ou metrada como afirmava seu negativismo. Em suma
anda lentamente compassadamente marcialmente, mas esta opção seria um absurdo
aplicada a um matuto na estrada num solão do tipo que diriam os seus “de rachar
mamona”.
Numa
lembrança da memória descuidada, aqui a gente escuta inclusive a mamona ao sol
estalando e atirando suas bagas longe; isto uma voz da orelha menina a brincar
no terreiro, onde também o café a secar mostrando o trabalho do lavrador e o lucro
do proprietário.
Contudo,
aqui introduzo Você. O leitor costuma existir quando existe. Preciso narrar a
desdita dum caboclo! Desdita... este o segundo absurdo proposto nestas linhas:
por que motivo concordar com o mau gosto do pessimismo tão encontradiço por aí
e segundo o qual tudo é sofrimento; não poderia que pudesse ser o figurante de
uma vida simples e até simplória porém alegre. Com outro senão, de o otimismo
imaginando que tudo vai dar certo e muitíssimas vezes erra a se esquecer do
túmulo, da mulher que fugiu com outro, da moléstia imprevista, do ladrão, do
banditismo fazendo estrago, e por aí vai provando que nem tudo são flores nem
tudo realmente dá certo. O caipira aqui lembrado poderia sequer pensar em desdita;
ou pensando sim no entanto a desdita nos outros: o amigo o compadre o mano o
pai o tio o mundo, enfim não contra ele, xô desdita. Você concorda comigo?
Pela
afirmativa e em vista já estar a dar palpite emiti (omitir não, sou corajoso,
honesto e... não exageremos:) sim emiti opinião sobre o personagem; e em razão
disso chega minha hora de apresentação, sou o Autor, grafar-me-ei pequeno, quer
dizer em minúsculo porque Você já se apropriou da maiúscula.
Portanto
o autor existe a palpitar nas linhas presentes e Você existe, inclusive antes
mesmo do autor, existe sim e a prova é andar lendo a narrativa.
Existe
sobretudo o homem na estrada a passos quase formais quase medidos – a obra
inteira é sobre ele.
Anda
anda, anda marcialmente exageremos a embelezar isto, anda e por isso e pelo
tempo em que exercita os pés cinquentões anda cansado; anda para anda. A areia
é quente no estradão, olha não vê árvore a descansar um pouco na sombra, só pés
de café em ambas margens, uma enfileirada tratada medida modulada como onda,
onda verde após a chuvarada de verão e limpa, sem ervas daninhas. A outra é só
ervas daninhas um que outro cafeeiro improdutivo capim grama braba e desgosto –
dá desgosto ver o desgaste pelo abandono dum solo que fora rico em mãos ricas
na sabedoria e na praticidade; portanto um deserto, quase nem pássaros e bichos
rasteiros a rasteirar nessa margem. Todavia isto não interessa a um forasteiro
aqui presente; não forasteiro precisamente visto o homem haver sempre passado e
passando agora na mesma estrada no mesmo caminhar lento, o homem no caso longe
dos apressadinhos dos quais diz o popular comer quente e passar mal; mal apenas
no seu cansaço por quilômetros engolidos. Daí para, senta, descansa, amolece,
enrijece por fim a retomar a sua caminhada.
Para
de pé, olha os dois extremos, mede no ‘mais-ou-menômetro’ e não se vê na metade
sequer, por bom pessimista.
Senta.
Senta-se não em uma confortável cadeira onde os pequenos burgueses, da cidade é
claro, onde se esfalfam se espreguiçam se aboletam aboletando as nádegas tão
famintas quanto gordas a engordar. Não. É um caboclo e se tem cadeira, tem é
mui claro ter quem a viver só de pé num aguentar o corpo pesado somando o peso
do mundo ao meio-dia na quentura; a sua é de madeira tosca, o assento lustroso
do uso, em tabuinhas cruzadas sobre pés cambaios num bom cair... Em todo caso
descansa nela toda tardezinha não agora. Não. Sim, encontra-se a bater pinos
ansia descanso mas a estrada não oferece as sombras de árvores altas só
arbustos e ele está apenas contando com o corpo pesado ao cansaço e as pernas
magras porém ainda fortes. E a cadeira? ora bolas, o camponês brasileiro de
antanho (permita-me a lembrança: época da II Guerra no planeta, não na roça
onde sequer os ventos das palavras chegavam então, que dirá balas bombas
mortes; antanho não mais que isso:) o campônio nacional sempre usou os
calcanhares, tal qual seus ancestrais indígenas. Agacha, agacha quase como que
a defecar, senta-se nos próprios calcanhares e assim permanece uma eternidade,
considerando a consideração duma pessoa urbana, a qual se indagará vendo a cena
daquilo agachado: “e não doem os pés forçados e a musculatura na batata da
perna, não dará após cãibra!” O homem não põe tais quesitos, antes que isso
isto: relaxa a pensar nessa posição fixa horas se precisar; e são
pensamentinhos pequenininhos baixinhos não alçando grandes voos, pequenos do
tipo puxa quanto andei ou ontem fisguei um tubarão pensando fosse baleia que
foi o lambari a tremelicar no anzol e a refletir seu prateado no dourado do sol
em fuga a se esconder no horizonte entre nuvens escuras de preto e alaranjado;
ou ele lembrar-se-á da comadre com aqueles peitaços; ou ah... ora, descansa no
momento na beira da estrada arenosa e quente do meio do dia tórrido após
caminhada com menos de metade ganha, perda grita o pessimismo presente ao
otimismo ausente. Enfim ele descansa.
O
matuto – o matuto? Você me pergunta e já afoito respondendo a si mesmo: todos
homens têm essa tendência – ele toma uns pauzinhos à guisa de lápis não
pensaria caneta, como fosse um giz na mão da professorinha no quadro negro; com
um risca a lousa horizontalizada da areia no chão; e faz seus rabiscos. Então o
ser humano expõe seu íntimo, bota fora o talento, esboça sua arte, é uma arte
em quaisquer escalas que se admita e a dele é baixinha não mostra genialidade.
Em suma risca com o graveto a lousa de terra e assim compõe... comporia qual na
praia ao mar beber estragar um feito! monta seu quebra-cabecinha nuns
monstrengos a passar o tempo, a esmo, e daí se lembra dos esquecimentos... a gente
sempre tenta apagar as dívidas da mente a fugir do compromisso e raramente
esquece... ou seja acaba tendo de honrá-los; assim suas contas por conta dos compromissos
com outrem, compromissos apenas labiais verbais, nada com o preto no branco e
lei e juiz e polícia e cadeia em cadeia chata de ideias, isto não afetando
nesse momento o caboclo agachado sentado descansando descansado sobre si mesmo,
mesmo assim lembra algo que deve (não afirmo que pagará, pago as minhas, ele
não sei nem Você garante que ele quitará) e se lembrando fere o chão, risca um
número, nada aleatório porém alicerçado na verdade, sua verdade, deseja e põe
algarismos numa conta de vezes. Era em moleque burrinho na matemática diziam
tanto uma quanto outra mestra a lecionar na fazenda, um ponto a que voltaremos
breve. Por ruim então anotava de lado ao lado da conta na página da folha da
brochura numerozinhos em lembrete e dizia alto a se ouvir atrapalhando a classe
(não se falava na escola “sala” como hoje na cidade nem na roça, classe) e por
isso a perturbação provocando a zanga da professora contra o homem então
garoto; enfim rabiscava o um ou o dois ou o três para lembrar quantos iam a
multiplicar o número que tomava e aí “vai um” “vai dois” “vai três” nunca
mudando de tempo a hora do verbo, igual qualquer pessoa do povo na roça e na
cidade em sua periferia até nestes anos; sem ferir ninguém sequer a mestra de
ouvidos trabalhados pela maioria. Lembro dentro desta ótica que ainda agora se
diz na rua um real dois real três real, ninguém concorda e a maioria concorda
discordar no povão. Tornemos ao homem agachado.
Vai
dois, fala; não, três, “trêis” realmente pronuncia, apaga com as costas da mão
na areia discordando de sua memória e tenta refazer a acertar o erro da conta
como fosse no antigo caderno.
Agora
chega à conclusão, conclusão precária precário tudo que fazemos, lembre-se
defende o autor a precariedade humana, não há absoluto em nossas limitações, o
agachado a multiplicar conclui por certa dose de raiva (o matuto fala “réiva”) sim pois não deu certo a
conta sobre a conta, decerto alguma sua dívida com certo compadre ou na compra
ou venda dum animal (por animal sempre se refere a equinos; gado pra si também
sempre é o vacum) isso ou quaisquer acertos em desacertos anteriores; ou ainda
outro negócio fechado ainda no aberto sendo preciso queimar a pestana gastar os
miolos e daí a tal conta. Como a de somar a deduzir qualquer. Sua burrice mesmo
é de bom tamanho segundo crítica da professora e ora mais visível na operação
de dividir... Será que isto não é uma reação humana normal, que é ser comum ao
ser! sim, temos alguma dificuldade enquanto filhos de Deus a dividir o que seja
nosso com nossos irmãos. Não aceitará Você esta opinião. Bem, o homem teve um
drama, tem agora: precisaria um cálculo exato, exato outra vez limitado por
nossa condição terrena, um que desse certo no resultado errado da conta; mil
vezes quando erramos na operação temos (contra nós seres humanos) algo que o
bom senso nos adverte lembrando não estar claro, e assim entra descaradamente a
demonstrar a operação errada! isso quando erramos bastante, porque quando pouco
e insignificantemente um errinho sequer vemos e pior descobrindo aos descabelos
e nervosismos um algarismo ou um sinal mal posto (o caipira diz “ponhado” e
convenhamos é mais gostoso pronunciar que posto). Assim nosso pobre andejo
agora de cócoras a rabiscar entremeio bichinhos também andejos na areia do
estradão no solão do meio do dia. Finalmente, coça desanimado ou desapontado a
cabeça de pôr chapéu ele estando sem o de palha; indignado até; finalmente se
levanta, daí se lembrando ou somente sentindo a dorzinha em dolorido que fica
nas juntas por tempo exorbitando o tempo numa posição forçada, porque, forcemos
agora, ninguém suporta ficar parado agachado um dia inteiro e ele não
aguentaria, naquelas horas da eternidadezinha.
Retoma,
manso embora, a conta inacabada, retoma o caminhar.
Anda,
seus passos na estrada ele não vê sente; chega a sentir-se até com disposição,
é um caboclo ainda forte, fortalhão seria uma desnecessidade pois um homem meão
magro baixo na estatura e ainda por cima vestido simplesmente. Camisa calças,
meias não, não se encontra calçando botinões pesados o comum do lavrador mas
com sandálias de couro cru do tipo nordestino, não sendo nordestino talvez de
família do norte porém caboclo do interior paulista em zona cafeeira e cerealista.
Numa das experiências nas tantas em que fracassara tentou lavrador de costume
trabalhar numa olaria da região; nisso fora chamado a atenção porque um dado
básico ao oleiro é não ferir o chão onde se bota o tijolo e assim o calçado
rústico e pesadão estraga deforma o plano do solo em equilíbrio, prejudicando o
trabalho; lá na olaria a exigência de alpercata (diziam “paragatas”) coisa de
lona e base de corda, leve a pisar delicado o chão nesse paraíso que é o
trabalho oleiro. Sim, saiba Você que fui oleiro e posso garantir tal céu. Então
nosso personagem fracassou, mui grosseiro como a gente da roça; o oleiro também
trabalhador do pesado e até grosseiro, menos rústico que o outro. Além do mais
na indústria, agro-indústria na verdade, aí se exige a madrugada mesmo no frio
no vento, na chuva não por a olaria até parar quando muita umidade em vista da
falta de ponto na matéria-prima, o barro. O roceiro pega cedo no trabalho porém
a madrugada é-lhe indigesta... falhou, tornou às lides na enxada. Usa agora na
estrada sandália.
Com
ela sulca o chão, marca a areia com seus passos com seu peso de homem a andar
rumo ao outro extremo, o extremo anterior deixado atrás de si ainda a menos que
meio no todo a que se dispôs vencer. Vencer por quê? Isto outra estória.
Veste-se
com simplicidade.
E
o cachorro?
Tem
vez que a gente finge não escutar ou não ouve realmente; veste-se o homem como
outro lavrador, sim tem o domingo antes o sábado e na segunda roceira não se
trabalha, o sábado é de baile casamento e batizado mesmo não havendo igreja
perto, havia capelinha e os terços nas casas que os católicos elevam pelo
costume esse homem também acompanhando tudo isso ou até indo à cidade igual os
outros ou à venda, expressão do boteco quase sempre em beira de estrada com
areia com calor com cansaço ou não; o domingo claro ao descansar e a
segunda-feira, da preguiça dizem os da urbe, a segunda serve ao ser do meio
rural ir abastecer-se ou até levar o filho ao doutor à botica, esta naqueles
tempos já virara farmácia e mais tarde se difundindo como drogaria. Então se
vai à cidade põe a mulher melhor roupa possível e no impossível traja o simples
que é também o caso de nosso caso. Dirá Você camisa xadrez ou riscada e calças
da cor... Concordo consigo e com o personagem. Não necessariamente anda trajado
como nas festas juninas que na cidade viram julinas inclusive e são mera
brincadeiras se não palhaçadas; esse homem veste-se com certa camisa limpa (no
mais ou menos, voltaremos a esse aspecto...) limpa e não linda riscada de fato,
tem por gosto dele a pedido ou imposição materna quando a mãe viva um bolso
colocado costurado do lado um quadrado enquadrado na banda esquerda que secularmente
se pensa a do coração e parece que não seja bem isso, onde sempre se inventa de
colocar algo que se não inventa, o homem contrariando os outros desiguais
semelhantes pondo ali o canivete; está certo que a palha já pronta, até o fumo
se ele estiver já picado miúdo posto num envelope ou recipiente fino; vai lá
seja assim discutível o seu gosto em levar o canivete pesado nesse compartimento.
E de que coloração o tecido! não sou, autor, versado em cores e, acertando,
decerto que erro; riscada a camisa. Umas calças, aqui encrenca... Primeiro que
em geral os homens usam um cinto e na região fala-se “cinta” o cinto do macho
enquanto que o vocábulo cinto indica o das mulheres, caso usarem trajes que
exijam amarra ou contenção do ventre. O homem em questão nem isso: usa de fato
pôr no lugar umas tiras de pano, fortes bastante ou arrebentariam. Depois,
embaixo botinas sem meia, ou agora a tragédia que são umas sandálias, a
tragédia por conta da areia metediça e da violência de pedrículos que se
escondem friccionando ferindo entre a sola do pé e a sola da sola da sandália –
enfim gosto não se discute, ele não discute consigo mesmo em nome de não possuir
mais que tal sandália. No recanto doméstico poderá estar inclusive descalço,
agora na estrada andando calçado seus metros seus quilômetros, aqui a depender
do estado de ânimo pessimista otimista. Todavia a cor... é sem cor até para
quem tenha boa visão. Tecido que fora talvez azul, tingido retingido melhorado,
outra vez de aparência de pano velho mui usado, quiçá remendado antes rasgado.
Uns preferem outras cores berrantes, não sei nenhuma, sei apenas que se sente
bem talvez confortavelmente posto; bonito seria um ideal absurdo porque os
feios se satisfazem não serem horrorosos. Mil pessoas do meio rural vi assim, ele
assim agora. Agora algo não comum, ou ao contrário mui comum, é o cheiro. Você
não exigir-me-á descrever com pena científica o cheiro! Uso a pena literária,
mais mansa e quem sabe bela mesmo sem poesia. A coisa cheira muito e como
cheira... um odor desagradável exala dele – nos outros trabalhadores também
pois não se usa perfume nem têm condições para tanto; sabe-se que as fêmeas da
espécie matuto se empetecam e se perfumam para ir à cidade por qualquer razão
ou sem razão; os homens se se puserem a cheirar... ai ai ai, logo depreciados
pelos demais – não iria ele a cheirar de propósito onde pretendendo e nós
ambos, eu e Você, não sabemos. Contudo cheira sim e como, dizíamos! Fede seu
azedo suor dormido. Aqui cabendo esta expressão porque o hábito secular reza só
tomar banho no sábado (não é nesse dia na estrada um sábado um domingo uma
segunda:) e assim o ontem o anteontem cheiram hoje e o amanhã cheirará ainda
caso não insida no sábado do banho da semana da roupa limpa do perfume, além de
o homem temer a malícia da língua dos seus iguais; enquanto que a mulher põe
água-de-colônia tradicional ou simplesmente água-de-cheiro assim batizada no
sertão; umas mergulham no perfume e mais se enfeitam a atrair decerto homens,
não um bobalhão como o ora estudado por nós, isto em virtude da desvirtude em
ser ele excessivamente tímido. Aproveito a brecha para garantir: nunca
conseguiu conquistar um par. Quando na olaria, soube que a expressão dali era
‘bater o barro” certamente de conotação próxima de grudar a si a fêmea
apetitosa. Nunca conseguiu. Melhor nesse pior; sequer teve coragem bastante para
tentar...
Agora
está na estrada, vestido sim, cheirando mal sim, cansado sim porém não vê
nenhuma bela no pedaço e não se vê também, também todo mundo se acostuma e não
sente o próprio cheiro, que seja o consagrado cê-cê... Aliás o estradão quente
pouquinho úmido da chuva de outro dia, com muita areia vento poeira e empeços
mais, essa estrada não dispõe ao amor, antes que isso ao desânimo vindo do
cansaço, os metros viraram quilômetros até aí e ele pensa prosseguir, já quase
no limiar de posicionar novamente a cadeira dos pés da cadeira sem pés a fim de
descansar pela caminhada...
O
cachorro, ora o cachorro, o Peri morreu; mas a onça não o pegou, pegou ele uma
doença, emagreceu encorujou pranchou no chão o corpo mole e a olhar triste seu
amo terá pensado não poder mais defendê-lo e aí fechou olhos parou de respirar,
o homem chorou a perda e enterrou o cadaverzinho pra baixo da tulha de milho.
Até essa morte o maior amigo do homem foi seu grande amigo, fazendo fácil e com
muito apego festa ao caboclo. Fora o terceiro ou quarto na estirpe dos peris...
Houve numa fazenda e esta era só de café não tinha outra plantação e sim com
colônia aos colonos morarem, a casa do homem sendo a última na fileira entre
todas abandonadas pelo fazendeiro a só pensar lucros, entre elas a mais
estragada era a dele. A do vizinho, a mulher da casa uma tal dona Maria comadre
da mãe do homem; essa vizinha tendo penca respeitável de rebentos, um o Vanderlei
morreu nenê querido; a genitora botara o mesmo nome no próximo, que também saiu
de anjinho no costume da pobreza rural na época; daí Maria pôs na barriga mais
recente outra vez o mesmo apelido Vanderlei. A vizinha dela e mãe do matuto,
com o mesmíssimo hábito e assim punha sempre nos seus cães Peri. Peri enquanto
vivo foi o último dos peris, era amigão do homem; desses animais que ficam
xeretando nos pés da gente, que olham pra cima embaixo da mesa a possível
vianda que lhe atirem – e o homem sendo pródigo nesse mister; com certa
diferença na diferente semelhança dos outros vizinhos: o homem não comia à mesa
bonitinho, sentava-se num tolete de árvore servindo de banco na casa fora da
casa. Aí atraía mil galinhas, um terreiro de aves interessadas talvez se mostrando
desinteressadas ou antes: temerosas ao Peri. O Peri no fim de sua curta jornada
canina sem coragem até para correr as galinhas, fizera murchar o galo, todos se
esparramavam então fraco doente no fim do seu fim o pobre e de maneira que não
ficando esperto na hora da boia, assim dizia o homem “boia”, e por isso as
galinhas chegando chegando perto também pelo costume; em geral comiam com o
cachorro, não desse a louca nele (isto outra expressão frequente do homem)
porque espetado pela atenção pegava até a sombra delas, depenava alguma e certa
vez trouxe ao amo uma nos dentes para mostrar ‘machuras’ e serviço. Agora morto
o bicho enterra seu amigo quase chorando porque o homem um pouco emotivo. Contudo
na estrada, antes tendo a companhia canina onde fosse, o homem agora na estrada
anda só. (Maldosamente eu diria e mal acompanhado, Você me criticando a verve
exposta fora de hora e a falta de originalidade). Sozinho!
Antes
prosseguirmos umas palavrinhas fora do texto ou até mui dentro dele. Seguinte.
Você notou o uso das aspas, é claro para a fala humana; terá verificado também
frequência nos sinais do apóstrofo: apostrofo (já me insurgindo pela feiura do
som!) apostrofo sempre que uma palavra não tenha respaldo no dicionário de
nossa língua; ou para chamar atenção sobre uma palavra; ou então é um invento
meu em contribuição à mesma língua. Certo? voltemos ao caboclo sozinho na
estrada.
Dá
mais uns passos, não aguenta e em falta duma árvore vetusta se acolhe na sombra
acanhada dum cafeeiro mais copado. Aqui um drama no drama diário na roça nesse
tempo, que é da possibilidade do ataque traiçoeiro duma cobra, a mortal cascavel
por exemplo. Então se encolheu como pôde, pôde pouco, venceu o medo e dormiu.
Acordou.
No
imediato quando a gente desperta, não bem desperto acorda no mundo da lua,
baratinado por mais se esfregue os olhos se fixe no fixo no longe no perto,
sempre a bruma do entendimento dispõe até ao disparate. Peri, grita o homem,
relanceia olha pra todo canto relembra fatos fugazes, verdades chocantes e
mentiras disfarçadas; e pensa a realidade agora vista palpável da consciência
consciente no hoje. E conclui triste a se comentar “oh foi sonho...”
Se
ajeita no seu jeito, já de pé, bate grânulos das vestes, remove espinhos
espetados nelas; a seguir como numa ginástica que nunca praticou, o homem comum
é rebelde ou apenas ignorante das próprias necessidades e nunca tem ordem não
executa exercício com fito higiênico ou saudável a sempre seguir. Assim tão só
se espreguiça, estica encolhe mexe aspira a esmo expira a esmo; sente-se
desembaraçado das amarras do amolentamento do sono com direito a sonho ou
pesadelo e acorda no final. Oh, acordar implica haver alguém.
Esse
alguém, ele em si, esse tem por nome José e por apelido ou diminutivo Zé.
Zé
reenfrenta o estradão.
Cap. 2° - Agora
estamos a três, Você eu e Zé.
A
andar quase não se vendo andar, qual autômato que somos quando ligados no
‘desligado’ e assim a gente voa plana sobe desce vez que outra – que seja no
tropeção indecente numa pedra posta sem intenção embora no caminho pelo
descuido e dessa maneira ora na imaginação ora no corpo presente na estrada,
desse jeito o Zé na estrada; desce nessa subida apenas por causa dos peitos
avantajados da comadre. Era exatamente em que pensava fixado na fixação. A comadre Maria, outra Maria pois
aquela do peri dos seus vanderleis falecera e longe do atrativo da comadre de
belo busto, aquela parecia na parecença um canhão da Guerra, aqui tornamos à
guerra mas ainda ela sem o desastre atômico que no final dispararia contra o
infeliz planeta, o nosso planeta. Não. O Zé pensa só num canhão tão horrendo
quanto os doutras guerras das quais ouvira falar e de teor menos violento, isto
tudo a comparar a feiura da morta viva. Outra também comadre da mãe, não da genitora
dela mesma dele mesmo; nesta pensava no mau sentido visto ser ainda ele um
pobre virgem aos cinquenta, virgem no campo das safadezas machas pra valer; e
por isso carente no mister. Maria surgindo na mente necessitada se oferecendo
ao menino José. Debalde afugentava o pensamento a necessidade a mulher; mesmo
distante essa Maria, comadre da mãe parece que por haver batizado (ou crismado,
não vem ao caso) enfim por haver tomado aos braços através do padre na cidade
um de seus irmãos, tantos tantos deles se perdendo no mundo ou até morrendo;
ficara quase sozinho com a genitora depois ter tanta família. O caboclo considera
ou toma por sinonimia filho e família quando nos bate-papos espichados. Seria o Pedrinho seria a Conceição?
não sabendo não lembrava o mano direito tais esquecimentos, esquecimentos
banais por serem contados em meio às dezenas de lembranças e agora nos
cinquenta anos às centenas escondidas na sua memória. O fato é que suas
necessidades falavam mais alto e o importunavam, mesmo estando a caminhar.
Verdade
que na fazenda na qual trabalhavam vasculhando ruas do cafezal, nessa gleba
houvera algum entrevero motivado pela língua solta no falatório no lavar roupa,
em que as mulheres ajudadas pelos meninos enredam e se enredam. Isto resultando não só em desavenças banais
ou apenas comuns porém até acabando no rompimento entre as duas comadres, sem
que o malfeitorzinho se sentisse culpado e o fato sendo o rompimento
definitivo; definitivo? que há ainda definitivo no ser humano! pois à morte da
mãe do homem, ei-la, Maria em carne e osso no velório da comadre, então desafeto
viva dela por culpa de enredozinhos umas gracinhas. O fato portanto o rompimento da amizade, no costume do um pra lá
outro pra cá, nem se olhando mais, olhava olhando somente para ver o estrago ou
os erros do dia no adversário quiçá agora inimigo; para reforçar a razão de
cada uma das contendoras. Ainda aí, quer dizer no velório entre quatro velas a
imagem da santa e café e mais cachaça aos homens a fim de aguentarem a noite
inteira vivos pela morta; ainda aí apareceu vistosa apesar das lágrimas (a
morta viva estivesse picharia num comentário “como lágrimas de crocodilo”
conhecesse a roceira a gozação urbana já nessa época): ainda aí veio mostrar os
peitos, pouco seio e muito avantajar a oferecer para olhos, vermelhos embora,
para olhos machos necessitados por longo jejum...
Pensava
Maria, lembra seios.
Foi
quando num repente o qual só ocorre nos quilômetros de desligamento – que topou
a pedra. Não foi esta a atingir por pura maldade um pobre homem na poeira na
quentura na ventania da estrada, foi atingido, acordando... Estivesse
acompanhado a companhia, não sendo o Peri recentemente falecido e que ladraria
espanto e desconhecimento, a companhia a chamá-lo à atenção num “bem feito!”
pelo mal feito de pensar naqueles peitaços da matrona, então matrona, um pouco
linguaruda afirmava a colônia inteira, porém senhora já passada na idade e de
respeito na fazenda outra onde residindo.
O
homem aceitou a reprimenda. Talvez um pouco envergonhado, nos envergonhamos de
nossas fraquezas...
Tornou
rápido a si ao corpo à estrada ao objetivo: a dor tem dessas quase bravatas em
nos despertar e, imediato, ferir pela conscientização. Não obstante o andejo
botou prontamente a culpa na pedra, ferindo-a na vociferação, xingando com sons
torpes – antes esqueci-me afirmar a Você que o Zé não era nunca fora e creio
demorará o resto da vida a se livrar da boca e o que sai dela; esqueci-me dizer
que não era bem um santo. Daí examinou o ferimento, periférico e bem mais
insignificante que a dor que sentia; limpou o machucado no sangue a escorrer
fraco e... terá culpado também a sandália ou não e então partiu a um expediente
aprendido antanho desde moleque entre homens adultos, os quais garantiam a
eficiência curativa da urina. Daí mijou no dedão em sangramento a desinfetar e
para não inchar, ciente isso não impedir a dor.
Encontra-se
agora sentado num barranco menos mole que a areia da estrada, desses montes que
o trator em arrumando a nivelar o estradão deixa nas margens; então sentado a
olhar o pé o dedo o sangue e a torcer por rápida cicatrização. Enquanto isso a
lembrança da Maria, comadre da mãe dele, a lembrança fugiu desapareceu.
As
horas, sim as horas não pobres minutos, elas passaram sem que passasse
totalmente só amenizando a dor. Assim se levanta se apruma se encoraja o andejo
ser; em busca ou na execução do objetivo. Anda, anda porém manco, anda com
cuidado e se pensa forte, não seria uma insignificante pedra no caminho a
acabar com o caminho, caminha. O sol ainda brabo e impertinente, desses que não
têm mamonas que lhes impeçam a ação. O vento ora para ora torna, também quente
morno. A poeira dá seu ar naquele sítio deserto habitado ocasionalmente por um
caboclo a marchar sim, não sem cuidado...
O
ser humano é um ser pensante.
Curiosamente
perde a Maria ganha no par a par com a dor, a dor, a dor a gente não esquece...
também a par vem o compadre vem o animal vem a conta de conta errada a atrapalhar;
ou não, sim vem ajudá-lo deslembrar a dor e até o cansaço e o caminhar com dificuldade.
Não poderia que pudesse o compadre Chico haver-lhe passado a perna, enganado!
porque o passado ou a língua do passado linguarudo sabe-se por ela que os seres
aumentam a verdade se esta existir; esse passado passado a limpo mostrava um
Francisco a tapear convivas, levando vantagem sobre os outros nos negócios, não
só nos envolvendo troca ou venda ou compra de animais; inclusive sabido as
altercações do compadre com outros colonos
por causa da mal falada sua esposa (diziam ser amigada apenas e isto não vem ao
caso:) o caso era a matreirice do compadre.
Ora, se enganava outrem, ele não poderia ser outro na série de
prejudicados? se perguntou andando no seu rumo, levemente acordado nas pedras
do caminho ou só ouvindo ao longe um ladrar canino decerto por sua passagem.
Sim, não teria o compadre supervalorizado sua mercadoria, um cavalo doente
velho fraco de repente a virar corredor fogoso jovem ou ainda bom de montaria.
Nessa operação atrapalhada ou mal explicada teria se saído mal, se bem,
refletia, se bem igualmente houvesse desejado tapear o compadre... Para ambos isso envolvia muitos
cruzeiros, o Chico ainda teimava falar nos mil-réis e contos-de-réis o que dava
no mesmo: sentia-se lesado, sentindo naquele negócio feito papel de bobo. Agora
melhor pensava, pensava alto, em altas vozes, a bradar no deserto da estrada
“bobo!” e então pensa: sempre me chamaram burro e aí o estrago – meu cavalo doente adquirido ao compadre agora lá
no pasto e eu a pé, diz “di a pé” ninguém escuta. Porém o cachorro longe traz
perto seu latido incomodado pela passagem do estranho.
Quando
vê, não vê sente ter se deslocado já bastante. Põe a mão em concha, a mão não
ajuda a enxergar donde viera nem consegue notar o barranco que fora sua cadeira
de ‘se medicar’ da pedra e a carinhar o dedo enfermo.
Pior
que isso isto: não consegue avistar o barranco onde parara pela topada e menos
ainda o extremo donde viera, engolido este pelas curvas e pela distância, ou
percebendo metade apenas da distância. Contudo é para tal extremo, a ponta à
sua traseira, é para esse que a lembrança o atira, se não violentamente com
certa força e até certo impacto. Isto porque torna a lembrar-se dos seus, os
quais mui envolvidos na vida e no pensar do matuto Zé.
Ora,
aqui paro não pelo nosso cansaço, o de Você o meu nem pelo do caboclo a olhar o
final que é o começo de sua andança. Mas pela problemática que envolve a
referente vida, o como o homem do povo admite a vida. A vida entretanto é um
todo; e se se admite a criação pelo Criador, vai ela desde essa criação, aqui
de um ser, até... nós não sabemos. Já aquilo que o José e o restante da gente
simples por mais religiosa seja, a eles é o mesmo que existência. Acho que não.
A vida engloba mil existências. Talvez Você vote pelo Zé. Todavia o que narramos
não fica desfigurado, nem a verdade se sente ferida ou tapeada tal qual o
compadre a empurrar no compadre cavalo já velho indo à mortadela, o Zé
apreciando muito mortadela em sanduíche com pão na venda quando nas compras de
segunda, hoje é segunda-feira? diz em dúvida a estrada deserta povoada com um
caboclo manco mancando e um ladrado a chegar à margem do caminho com poeira
areia calor e gente cansada. Vida ou existência pouco importando se se considerar
os cinquenta janeiros (Zé nascera no frio de julho) ainda não consagrados nos
dezembros dos idosos. Assim, apenas fora um instante, um pensamento dele a
olhar abarcar donde partira até aí. E aí sim, recorda os seus.
Naquele
dia, uma sexta-feira... ou quinta ora, se diz meio irado pela incompreensão da
memória, gozou-a na imaginação “que importa se quinta sexta sábado, o que muda
no que não muda!” mas sexta realmente pois sexta-feira da Paixão, a colônia
toda amedrontada, porque o temor é assinzinho com o constranger dos que pensam
– era dia santo naquele dia, naquele dia a comadre viera à comadre, sentira o
filho ‘único’ da comadre, sentira ele uma grande atração pecaminosa pela comadre
da mãe, tudo na mulher lembrando a concupiscência a ele concupiscente, um
cheirinho de perfume pó ou erva dela exalando, os seios ai os seios! a graça a
voz, mesmo a voz rouquenha da senhora o imantando à bela; aqui não é bem o espaço
a tratar do item beleza, vá lá que não fosse monstruosa a dama, dama por casada
mãe e comadre da mãe, daí o pecaminoso, então o fato de estarem na sexta e a
sexta ser um daqueles dias em que Inocência calava
a blásfema boca do filho com olhos severos, dona Censa tendo uns olhinhos
apertados quando nesse estado do cobrar posturas, não importando não houvesse
vara na mão... ah na casa de cima na colônia da Fazenda Ipê a vara não tinha
vez só a cinta. Você já viu a abordagem da cinta na região, a cinta o cinto
masculino, que os machos usam a esfolar seus pirralhos pimpolhos desgarrados a
fazer arte, isto é algo fora do que um pai acha certo portanto normal nesse
comum: grita impera segura bate surra de novo, sangra preciso for nessa forma
de amor esquisito, põe a cria nos trilhos, ao horror de sua companheira de
jornada, pois esta acha exagero a mão pesada masculina em detrimento da mão
feminina bem mais leve e a compensar chamar atenção do educando deseducadamente
gritando dia inteiro. Ora, necessário haver voz grossa grave rouca contra louca
situação de ferir com cinta o próprio sangue até ao sangue? Essa a razão de que
haja cinto, a cinta de segurar aquela barriga desaforada do macho quando bebe
demais estufa demais e impede demais o equilíbrio da cabeça lá em cima zangada.
Nessa casa no caso havendo o descontrole e se abusava no abuso; primeiro apanhava
do bêbado vizinho o fazedor de arte, após os outros por serem irmãos dele a dar
bom mau exemplo e finalmente sobrando à esposa; essa que depois de tudo, ainda
com soluços do pós-choro, leva com ajuda dos filhos o macho pra não valer mijar
babar na cama a curtir sarar do excesso – todos enfim apanhando. Não. Na casa
do Zé, mormente nos dias santos, não, não havia sequer cinta, quase nem arte
moleca, visto o respeito. Então bastando aqueles olhinhos sagazes em ver o
malfeito bem feito porém apenas se fechando ou estreitando a olhá-lo
severamente. Quer dizer, quando o menino criança pequena houve grandes lambadas
com varinha; apanhara tanto por fazer ou não fazer, até que em certa tarde de
sua manhã pouco promissora ainda, parou a mãe; disse-lhe um basta, sem falar
coisa alguma: apenas segurou com fortes braços adolescentes o braço direito a
portar uma vara verde, as verdes que mais doiam no lombo, não: nas nádegas de José.
A genitora despicou nele ainda a compensar um dito bravo e ao mesmo tempo
desconcertante “já está homem feito, mas não tem vergonha".
Contudo
tem aqui um porém sério, não entrando aqueles peitaços atrevidos. Dona
Inocência então nessa altura esgotara a dose a gastar as mãos, preferia a
direita por ser direito ou ela ser destra para corrigir... isso, falava que era
para corrigir o Zezinho arteiro, mesmo porque onde já se viu mexer nas criações
dos outros colonos! Uma vez o Zé soltara os porcos do chiqueiro da velha
Arminda, sobrando ou a defender o safado ou a pedir mil desculpas à vizinha e
ainda por cima engolir o pão azedo. Nada de pão ázimo dos religiosos nisto: na
troca constante no hábito de quando a gente faz qualquer coisa diferente, quer
dizer acima em variar o arroz com feijão, daí se oferta o prato como praxe aos
vizinhos; e eles na sua vez, em fazendo um especial ou extraordinário, oferecendo
também aos vizinhos outros e quase todos pois apenas uma que outra moradora
indesejável e fora das amizades. Bem, agora necessário receber quando ela fizer
pão, azedo sempre sempre errando o fermento, tem gente que nunca acerta no erro
e era o caso, quando assim: lá vem o pão da Arminda que não se come, come sim
mastiga faz cara feia de enjoo e cospe no chão; ou o hábito nos ensina muita
coisa e já esfarelados os pedaços do pão duro seco azedo cheirando... atirado o
alimento à festa das galinhas, sabendo-se que ave não tem preconceito.
Naquela
sexta santa viu com alegria a mulherona chegar cumprimentar abraçar entrar
sentar, sentarem-se uma diante da outra as comadres e Inocência sem olhos
inocentes, antes que isso irônica matreira e ‘séria’ (assim pareceu ao então
adolescente) examinou o recinto do encontro, inclusive mudou de posição sua
cadeira, esta não de calcanhares sim de palhinha gasta no gasto assento de
gosto dela embora; mudou afastou um pouco a sua da outra da visitante a fim de
fiscalizar aqueles olhares cobiçosos do menino... depois confidenciaria à
comadre o Zé estar perdido e isto tem a Você, que desconhece, uma conotação
especial: o garoto não andava a fugir da missa, não tendo missa na roça, porém
fugindo dos seios da tradição católica, esta à mãe um sine qua non da salvação; fugia evitando acompanhar a genitora ao
terço numa casa longe, pior não seguindo a novena e só começá-la se perdendo na
companhia doutros garotos com os quais se enrabichando. Estava aberta a sessão
do falatório em voz baixa, ou seja o contar somente entre as duas e portanto
nem se falando do não falar aos vizinhos, às vizinhas porque normalmente os
vizinhos no eito ou agora por aí nesse santo dia, se bem que nos dias de semana
elas iam com os filhos ao lado dos maridos à enxada; não apenas isso mas isto:
desejavam as mulheres conversar sem a interferência daquela orelha macha não
sabendo suficientemente Inocência não ser pra valer; e os olhares cobiçosos envergonhando
a gente; sim, de que jeito uma comadre explicar tais melindres à outra! Todavia
outras demandas em informes não seriam sonegadas à comadre visitante, em nome
do tempo no qual ficara longe da colônia, a colônia ferveu, comadre, andou a
pegar fogo durante a temporada de sua ausência daqui. Maria se mudara há mais
de ano para nova fazenda, a Ipê acumulara mil acontecimentos desconhecidos dela
sobre conhecidos. Limpo o beco, o filho expulso por uns olhinhos fechando se
apertando a intimar e assim saíra tratar de suas coisas, o beco ficara limpo.
Iniciaram prosseguiram num nunca acabar as mazelas na roupa suja, a qual tem
muito do fator moral e por vezes teor picante na conversa. Ambas se contaram e
curiosamente só destrincharam a verdade, porque sempre somos a verdade, contra
a insídia a desídia das línguas viperinas que nos cercam. Puseram à mesa uma
que outra morte de alguém dali, doença à beça e se tratou dos dizem que falaram
comuns a favorecer deglutir o prato cheio – enfim as miserinhas do povo miúdo
ou só confinado. A visita trouxe também seu punhado de verdades a ilustrar um
papo, um bom papo.
No
entanto se desocupara o beco delas a mais livremente conversar, a pedido dos
olhinhos impertinentes imperantes, José não sumira... Ficara nas imediações
vendo-ouvindo ouvidos atentos ou só a escutar-olhar olhos atentos pelas
frestas, interessado; até ao ponto xis. Xis é um ingrato momento em que
sub-repticiamente escapole de Maria dona Inocência e flagra o contraventor em
cima dum caixote encostado à parede da sala delas... A justificativa embora bem
imaginada não convenceu a mãe do filho, porque a tosse e o arranhar garganta
não costumam convencer...
Independentemente
do que está afirmado até aqui e mesmo deixando por agora a visita ‘gostosa’ da
Maria à casa do rapazinho, ficou uma questão no ar, o autor a temer que Você
lhe cobre a dívida, já me ponho a explicar o senão desse filho ‘único’ de
Inocência, pois muitos foram os rebentos nesse... chamemo-lo um lar!? e daí
como pôr o Zé por único membro herdeiro dos Almeida Gonçalves... Bem, se me der
um tempinho destrincho a coisa no 3° Capítulo.
Cap. 3° - José
Almeida Gonçalves, podendo-se aqui esticar em mil outros apelidos com árvore
genealogia e tudo mais nesse menos, reduzindo apenas a Zé, um homem na estrada
agora; quem sabe não possuindo mil outros homônimos em número e grau, a
semelhança na Terra bate recordes em detrimento do pessoal dessemelhante do
originalidade futebol clube; isso tudo valendo ao buguês quiçá à gente
miserável na periferia e favela da urbe portentosa. Não para a parcela humana
no campo, então num processo de expulsão do campo pelo tesouro guardado e
resguardado em cofres bancários; ou ainda com mais tesouros se apropriando da
terra. O clássico na luta desigual do latifúndio contra a mão de obra desqualificada.
Porque Zé um trabalhador de família trabalhadora da roça se extinguindo, já, então,
a roça. Você me indagando e o Zé daí por diante irá fazer o quê?
Não
tenho prontamente a resposta; ou melhor nesse pior, tenho sim não posso em meia
dúzia de linhas fornecer todas ideias que a ideia exige.
Digo,
ou por sair de intervenções embaraçosas ou para ficar bem com o bem da verdade
– que a verdade submeteria essa gente roceira, colona anos sem fim na Fazenda
Ipê, a um tratamento com muito trabalho (seria o ganho material) e com muito
apurar no conhecimento (que seria o ganho espiritual).
Primeiro
que os Gonçalves os Almeida foram muitos seres; isto sem que precisassem
cultivar cultuando os nomes; os nomes quanto os corpos ou os somas em soma –
desaparecem como desaparece até o conhecimento da existência deles. A prova
disto estando no fato de que raramente uma insignificante parcela da humanidade
sabe História, os que podem sabê-la mentem o saber nas falhas de suas
respectivas limitações; válido para quanto se afirma ser e existir Ciência. Resumindo,
nada sabemos, ao menos completa e absolutamente. Nisto, o que sobraria aos
camponeses!
Contudo
a família existia e seus membros a operar na fazenda, fazendo o comum do fazer
como capinar, diziam “carpir” que é chorar alguém com uso de cerimônia e mais ou
menos contrição. Capinavam preparavam o solo semeavam cuidavam colhiam; secavam
no terreiro da fazenda o café; embalavam-no ensacando; e embalavam igualmente
os cereais produzidos; enfim o que era mister na propriedade a mando do
proprietário; já nessa época totalmente o detentor do poder desconhecido da
ralé na gleba mas ajustavam as coisas direto com o Zé... Não se trata aqui do
pomposo nome de família ou seja Sr. José Almeida Gonçalves e o Zé mesmo ou
alguém dele a acrescer “de” que seria, eu não sei Você saberá! seria “von” dos
germânicos a indicar nobrezas – o Zé se entitulava com frequência José de
Almeida aquem dessa discussão de nobreza a quem de direito desejar saber a
definição quilômétrica das outras pessoas, talvez por mera curiosidade. Não. Zé
aqui é o administrador da Ipê, sujeitando outrem assim como a se dirigir a um
chefe, e na coisa se tem respeito e se resguarda das intimidades; quando muito
diziam Sr. José, o senhor José sequer um dia se aproximou, na intimidade
proposta, do mequetrefe Zé, nosso personagem, visto e tratado à distância que a
distância exige no cargo dum administrador. Aliás sr. Zé via se não com
desagrado formal com menosprezo o Zé – nunca chamá-lo-ia Xará; será que talvez
isto não enfeasse sua posição de comandante... Assim a relação dono de lá em cima,
‘dono’, e lá em baixo o empregado, empregado não escravo.
Este
último lembrete tem lá sua razão visto em fase anterior na relação de trabalho
no país e especificamente nessa fazenda de café ter havido sim escravidão.
Agora Você interfere com sua imaginação se nosso Zé um negro; terá pensado em
muita lambada e destrato e pouca alegria, errando. José branco meio baio bem
queimado de sol e todos os seus se apresentando desse jeito. Não um negro,
muita vez apensado à escravatura decerto pela tendência discriminatória de
nossa cultura. Não pretendo abrir a temporada ao tema para debates, absurdos
para mim. Não. Decerto que não. Seus ancestrais talvez, a gente do seu tempo a
viver livre, o quanto livre a miséria permite, Zé um cidadão, da roça com
direito à cidadania, sem o saber ou sabendo parcialmente, o que é não saber de
fato.
A
fim de evitarmos choque de nomes, mantenhamos Zé por Zé nosso Zé; doutro lado,
lá no alto se se quiser o Sr. José, administrador, fiscal, representante,
representante pouco legal, aqui funciona e funciona sempre numa fazenda o
hábito consuetudinário, não o de direito escrito, nem o fisco nem a lei podendo
cobrar na época. São portanto distintos zés, o distinto e o mequetrefe.
No
Ipê operaram dentro dos limites do costume os familiares de Zé. Inocência não
era bem uma inocente criatura como sugere o nome, ao contrário viva, “mandona”
afirmava à boca pequena aos manos o filho caçula – o Zé do tipo hoje chamado a
rapa do tacho – ele afirmava e antes olhava não olhasse a genitora; aqui
resumindo a estrutura familiar dos Gonçalves: a chefa autoritária, os filhos
submetidos. Ao longo das décadas os insubmissos (quase todos!) se foram, foram
indo fora. Uns se casando ou amigando, Conceição amasiou-se nunca fora ao
cartório e outros seus irmãos também; exceção a Pedro, Pedrinho tratado assim,
apenas ele casou-se bonitinho em festa, de pobre festa nupcial, com juiz com
sacerdote e com tudo o mais, quer dizer pouco aparato e muita participação; o homem
do campo vive mais o dia a dia que a aparência do dia... Assim Pedro e Maria,
esta nada que ver com a série séria de marias até aqui mostradas muito menos
(por que não?) a comadre de peitos tentadores a ameaçar um zezinho assinzinho
de guloso. Não, outra Maria e até mui mais das Dores que mesmo maria.
Casaram-se após as briguinhas folclóricas dos namorados ao tempo de namoro e
embaraços da família dela sobretudo o futuro sogro vendo mal o genro futuro;
após isso e é claro os ciúmes habituais próprios dos enamorados; finalmente o
consórcio legal no cartório e a bênção de Deus segundo a batina do
representante divino. Imediato a isso, ou seja na segunda-feira, o casório
aprecia ocorrer na roça no sábado, no domingo às vezes sobra ainda familiares
gozando ou a fazer planos e a dar palpite na vida dos outros (pois o novo casal
agora outra família...) e assim sobra a segunda de preguiça ao cidadão e quem
sabe preguiça também ao roceiro; a segunda primeira de trabalho. Imediato a
enxada. No campo aparece raramente “meu bezinho” “meu amor” essas coisas, porém
surge logo impondo a realidade o trabalho; que demais permeará a vida inteira
do casal, da família, caso o costumeiro caso de haver muita família “famía” diz
o da roça, ou seja muitos filhos. Entretanto todos no eito; inclusive Pedro semearia
muitíssimos filhos nela, na Maria, a Maria logo deixando ser uma bela mulher a
virar mãe prolífera, se estrangando no estrago desse costume dos tempos. Quer
dizer que dona Censa exageradamente avó de muitos netos, os provindos dos
outros filhos dela também se perderam no mundo com seus pais; alguns netinhos
sequer a avó conheceu. Pedro permaneceu noutra casa da colônia até morrer,
morreu cedo de morte morrida (decerto ataque cardíaco, que sabemos de
medicina!) Faleceu nas condições que mui outros roceiros tiveram, tolhidos
jovens ainda mas velhos descartados antes do tempo pelo tempo.
Seria
fastidioso de todos membros enumerar contar o viver; e matar, somos mortais o
que isso poderia desagradar a verdade! Todavia fastidioso analisar o crescer
decrescer no sofrer esse viver; registrar minúcias de cada familiar, sendo-nos
suficiente a dar ideia a ideia geral, nos reportando tão somente a poucos
deles, os principais e que nos são essenciais a fim de entender o Zé.
Com
o tempo e após muito tempo... exagero o exagero: pouco e até pouquíssimos anos,
a prole escapa. Diz alguém que a imagem é mais precisa que mil linhas, as quais
podemos simbolicamente assim representar: a água toma a mão ou a mão toma
porção do líquido, o líquido ou insatisfeito ou insurgente escapole por entre
os vãos dos dedos; e a mão, ah a pobre palma das mãos, a pobrezinha fica só,
vazia! seca! sofredora! abandonada! ou fica mais ela mesma para ser solitária e
se pensar e assim mais progredir. Tem sempre gente a dizer que a verdade pode
vir pelo amor ou pela dor. No caso a mão a mãe terá aprendido pela dor da
perda, aqui se entroniza se imiscui desentendimentos e entreveros com suas
consubstanciais palavrinhas (ai que gracinha) e palavrões na grossura humana.
Não fora por forte afeição a compreensão a filosofia das possibilidades dos que
pensam compreendem cedem, enfim não fora amor propriamente. Não com certeza,
haja vista a quase petulância, neste caso da mão sendo a mãe, o autoritarismo
dela sobre os da família. Dir-me-ão os que dizem que desde já Inocência deveria
dividir suas dores no trato com os seus nesse parto que é o viver nas casas ao
mesmo tempo simples e complicadas (quer mais complexo que um ‘lar’ pobre
humano!?) Enfim não deveria tomar decisões sozinha, afirmariam então que ela
dividisse dores e alegrias com o esposo, Sr... ah é aqui (fala o caipira) aqui
é que a porca torce o rabo. Censa era, longe ser solitária, uma senhora só.
Nunca se casou, Você interpõe, nunca? Nunca, arrespondo consciente de não andar
a pecar na mentira. Se se exigir que possa com o noivo haver prometido sob
olhares do páraco ou no juiz não se separar jamais do cônjuge que andava a
receber – nunca. Porque Inocência, e consta tenha sido jovem bela e graciosa,
agora não mais que distante da desconstrução duma guerra na Guerra; não obstante
a graça e a beleza sequer teve nem o primeiro marido nem outros homens como
esposos (e foram muitos às línguas nas bocas das marias e marias comadres)
nenhum foi seu legítimo consorte, em nome da lei e da lei divina. O Zé mesmo
veio ao mundo graças à ajuda dum senhor mais ou menos asqueroso para a colônia
para as famílias da colônia nessa mesma Ipê; um que fora apresentado sem as
formalidades urbanas como primo dela, aqui primo primeiro segundo o escambau já
que as família se entrosam se ligam (e se desligam) se cruzam formando o sangue,
o sangue é o que se conta. Em conclusão desta parte inconclusa: o Zé nunca teve
pai.
Pode
alguém não ter pai!
Respondo
que sim; se o conhecer é ver pegar garantir, nunca o Zé submisso aos desmandos
do sr. Zé teve genitor. Nunca pôde realmente apresentá-lo à sociedade acanhada
ou da fazenda ou donde havendo ajuntamento humano.
Isto
gerou um drama na escola. Hoje não é mais um grande drama, os filhos se
encontram na mesma sala de aprendizagem com os colegas filhos também de família
desestruturadas. Ou é que a religião que à época por sua rigidez na crença dos
crentes funcionava dando as coordenadas e daí os matrimônios formais existiam
tendo ação decisiva (então também havendo na sociedade pais amasiados ou até
desconhecidos dos filhos; porém poucos assim, assim como ocorria a Zezinho na
escola, o Zezinho da Censa).
Aqui
entra a escola.
Zezinho
não era lá mui inteligente, não só em matemática precisando a professora se
desgastar cobrar-lhe a decoração das tabuadas; em tudo periclitava na escola da
fazenda onde Dona Tomásia precisando se reforçar bem para engolir os sete ou
oito quilômetros, sete é o da mentira fica oito separando Serra Branca do Ipê
em que lecionava. Isto na volta do fim de semana, quando na urbe permanecia
para quem sabe ver se arranjava noivo, coisa difícil a uma solteirona demais
gorda e perdendo beleza enquanto ganhava teimosia e irritação. Na semana ficava
a preparar aulas decerto ou em bate-papo religioso com as mulheres dali, às
vezes pouco religioso e mais a falar nos outros dos outros, enfim permanecia na
fazenda. O fazendeiro, aqui não nos referindo ao lugar-tenente Sr.José mas o
dono, por sinal inimigo mortal na velha política do vizinho, um diabo pra si.
Então, ele havia ordenado que José mandasse por sua vez fazer uma adaptação na
primeira casa das onze ou doze na colônia a fim de que funcionasse a escola.
Até neste ponto tudo certo. Aí é que Tomásia lecionava e agora entra o Zé. O Zé
não saía do primeiro ano anos, passara depois ao segundo empurrado pois um
pouco lerdo na mente. Minto, muito. A professora cansava epitetá-lo “cabeção”.
No começo o bobo sorria e se sentindo elevado vaidosamente como um dos grandes
entre os meninos – verdade que não mentia e nem era um bagunceiro, essas as
virtudes – imaginava o garoto nesse ‘elogio’ da mestra uma cabeça enorme, assim
como ouvira numa lição, a lição sobre Rui e a professora exigia escrevessem com
ipsilone; o pior mesmo era que Zé pronunciava “Ruim Barbosa” ao desespero da senhora, senhorita insistia corrigia.
No texto literário ficando à mostra inteligência e sabedoria do eminente
personagem; que segundo a descrição teria cabeça grande. Assim se comparava,
talvez estufado na vaidade o Zezinho. Não. A verdade chega depressa, vem a
galope e daí descobrira a depreciação da moça a denegrir o menino, ele.
Tornou-se emburrado dias e se fechou mais, agora temendo gozação de colegas. A
outra professora a vir em substituição de Tomásia no ano seguinte não o tratava
melhor que isso, dona Santa ia logo à base apelidando o pobre “burro”. Tudo era
a incriminar o burro da classe, aí em gozação coletiva porque menino não tem
complacência não costuma perdoar, mais se despicava no infeliz, porque de fato
nem os mínimos conhecimentos entravam naquela cabeça dura! Quase nem saiu
‘formado’ do curso, desistindo, e a escola oferecia até à terceira série fundamental,
além os alunos necessitando se deslocarem à cidade; deixou-o no segundo ano
incompleto – quase não alfabetizado.
Porém
isto tudo é um dos senões do escolar.
Outras
coisas mais pesavam na engrenagem naquele ensino precário como precário em toda
escola rural. Outras questões, graves, punham-se no sistema e particularmente
ali no Ipê.
Numa
ocasião o Doutor, proprietário de fato da fazenda, resolveu construir uma sede
nova, ou por desejar aperfeiçoamento administrativo ou para tapear o fisco
dando saída e colocação nos lucros (desconhecidos ou sabidos apenas por alto entre
os colonos). Seja como for, trouxe um pedreiro de gabarito, desse tipo pequeno
profissional-construtor, também pobre, rico diante a colônia quase miserável.
Aqui entra uma briga política de anos que vai além dos desaforos comuns...
Chegara
o Valter, seu Valter se dizia com W, muito alemão para o entendimento dos lavradores,
os lavradores nessa complicação e os poucos letrados ali se punham escrevendo
mesmo V no dito nome. Aliás o som da voz não se impressiona com o que a orelha
lhe diz; assim como ‘desnecessita’ pontuar e sinalizar. A fala não tem disso e
breve o pedreiro se conformando; levantaria após alicerces básicos a parede e o
fazia tal qual mestre; ao arrepio e despique ciumento do administrador Sr.
José...
Logo
no primeiro dia se chocaram ambos por outra vertente da mesma questão.
Seguinte. Aparece Valter com a Maria, não, não é aquela Maria de grandes
peitos, ela inclusive uma simpática portuguesa, que por sinal iria lecionar com
a saída meio intempestuosa de Santa... Ainda com respeito a esta professora
demissionária havia um probleminha chato, pois ela professava conscientemente o
fascismo; falando a defender Mussoline aos aluninhos, o Zé dos maiores na
classe embora menos que os outros na mente não entendendo coisa alguma disso;
os coleguinhas também. Foi este senão lembrado agora porque ela deixara o emprego
e porque não fora divulgada a causa... provavelmente por injunções das
autoridades em Serra Branca, então urbe acanhada se pensando o centro do universo,
ali havia alguma caça às bruxas do Eixo; a família italiana da Santa (Santa
apenas santificada no nome porque brava ao extremo de quebrar régua na cabeça
do cabeça dura...) certamente os familiares pressionaram a mestra desistir.
Bem,
chega Maria e aqui nova embrulhada – ninguém no Ipê em condições para dar
abrigo à nova mestra: acomodação, alimentação. A coisa vai longe, resumamos.
Sr.Valter diz que sem abrigo à esposa, ele ir-se-ia com ela e não iniciava a
construção. Sr. José responde, então pode ir embora, Sr.Valter: o inspetor de
ensino afirmou que sem guarida à sua funcionária ele fecha a escola, transfere
a mesma para a vizinha Santa Adélia, Sr. José; e José que me importa? meus
filhos não precisam dessa escola porque já estudam na cidade. Assim o
construtor informa a autoridade de ensino e esta transfere numa penada o
estabelecimento à outra fazenda. Isso tudo ocorreu em vozes gritadas, um
espetáculo lindo de se ver, e gritadas no calão e calor do momento. Chega feroz
o dono da Ipê, explode em José “como, diz brabo, como deixou que nossa escola
se mudasse às terras do meu maior inimigo! Vou despedir ocê...” Deu um prazo,
Zé foi ajoelhar-se diante de Valter, mudou-se o fiscal ele mesmo para um
casebre da colônia, exigida sua morada pelo Valter; assim entregou ao desafeto
a chave de sua casa à mulher do outro; e claro a chave da escola. Um ano
inteiro os colonos conversaram baixinho longe do administrador da fazenda sobre
o desfecho. O Sr. José (nem permitia o ‘seu’ banal e comum aos outros homens,
ele era o “Senhor José”) esse homem sempre mui arrogante e odiado pelos
moradores. Havia ainda problemas de ordem moral com desrespeito dele contra colonas
menos feias na colônia, isto não entra nesta narrativa.
A
par disso tudo – briga discussão palavrão ‘perdão’... ora os seres humanos não
se perdoam mui facilmente – a par o Sr. José, só permitindo que o Doutor
fizesse uso do tratamento Zé a ele; além de o lugar-tenente, preposto
prepotente e fiscal achar por bem ano inteiro a cobrança sobre os colonos submissos
por seu fracasso como mandão no Ipê. Em quaisquer deslizes e até sem pisar
falso o pobre trabalhador recebia muitas bordoadas de sua língua.
Ah
a língua. A dele ficando entre o par de bigodes, não sei se ando certo mas cada
lado do bigode, esquerdo-e-direito, cobre o lábio superior e a língua que se
intrometa ali. O Zé, nosso Zé, seu e meu, ficava maravilhado e curioso em moleque
vendo o movimento dos fios negros já com laivos de neve, a neve da idade,
interessava-se ver a mesma se mexer. Até aqui não houvera demais problema à
dona Censa, porém tinha sim o filho dramas. O fiscal dizia brabo numa ordem,
que fosse disparado cumpri-la, ordem é ordem se cumpre; dizia olhando a
fulminar aquele pouco aperfeiçoado ser humano, “ocê faz isso” e gritava “agora!
já!” faz tal aqui, vai, torna ligeiro me dar o resultado da incumbência... Nem
Você permitiria o abuso ocê. Carreirão do Zé, temeroso medroso perante essa autoridade,
que a rigor não tendo sentido por não ser o fiscal seu superior; talvez o fosse
da mãe dele, extrapolava e assim com os outros habitantes. A Valter
cumprimentava, sorria mais por fora odiava por dentro. A Maria nunca fora molestada
por esse homem, pesando nisso não obstante a beleza da mulher e a fome nunca
satisfeita do funcionário; pesando o fato de haver o esposo dela rezado um
padre-nosso específico ao caso, assim disse o Valter. Se... ele afirmava a
Baiano seu ajudante de pedreiro: “falei que estripo ele e ainda chupo o caldinho!
se puser as mãos na minha Maria querida.” Ah pobre esposa, o esposo iria
matá-la breve, não por instâncias do desequilibrado prepotente preposto, não:
ano depois capotaram o carro velho do casal, adquirido com o ganho na construção
da sede e lógico os proventos da esposa; ela faleceu ali e Valter viveu sua
morte, pois não sendo propriamente viver sem sua metade cara.
Tornemos
aos bigodes e isto antes do entrevero entre o fiscal e o construtor; porém que
gerou ou avolumou a birra que havia por cima daquele ‘por baixo’. Um dia o menino
de uns oito anos vira Sr. José a descansar em modorra sentado numa cadeira (não
nos calcanhares...) esta pensa, a guarda encostada na parede da sede velha da
fazenda, de forma que os pés da frente alevantados, o homem a dormir nesse
equilíbrio precário com o peso todinho no assento. Ah, vê o Zezinho, que graça
as pontas do bigode a subir a descer a cada lance do roncar no solão do salão, mais
um alpendre que salão e a quentura. Niguém precisou mostrar o que fazer: correu
pegar a tesoura de estimação de Censa, chegou ao fiscal a dormir e sorrindo
malandragens na descoberta aparou rápido os pelos da parte direita do bigode!
Acordada a vítima, flagra o atônito Zezinho ainda com a tesoura...
Foi
o maior esparramo na colônia, gritos intimações apuro de causas e efeitos,
fácil entender. O ódio até gratuito do adulto classificado pelo menino
desclassificado aumentara, agora com razão. Sobrando à Inocência ouvir a
raspança, calada; depois ela mesma a vociferar bater prender punir Zezinho.
Contudo
os anos passaram.
Senhor
José era volumoso, pançudo, cara de mau, isto apesar virar um bobalhão para
agradar seus meninos nas férias vindo eles de Serra Branca onde estudavam
devendo no orgulho paterno receber diploma em solenidade e festa. Fechadão ranheta
ranzinza diante dos lavradores, ameaçava os mais fracos entre fracos. Portava
por costume sempre como arma ou ferramenta uma foice de cabo curto lustroso
afiada, dessas não de aparar bigodes até podendo ser usada como navalha também
na cara que ele usava quase sempre no ponto de barba a fazer. Ameaçando com
presença dessa enganosa parafernália os trabalhadores. Com ela indicava
(houvesse até o que sem defeito ou o mal feito na tarefa dos homens) apontava
quem lhe interessasse chamar atenção. Além ter um costume demais conhecido no
eito: trazia a miúdo um canivetão brilhando a lâmina para a palha e o fumo a
ser este desfiado picotado, enfim eternamente ele a preparar o cigarro – a imagem
que o lavrador tinha sobre o chefe era com a palha o tabaco, voltado com olhos
para baixo a nível da barriga estufada na sua camisa suja (todos sujos, isto
não realçava nele) na verdade se ligando ao que faziam seus comandados e mais o
que não faziam, a lhes advertir, a chamar aos tentos. Todo mundo (menos Valter
ali um ano inteiro) todos o temiam, alguns tremiam à sua proximidade. E por
essa condição se vangloriando.
Tinha
outro quê, o qual Sr.José carregava de propósito por cima e contra os
infelizes... Não, não é o rebenque o relho que todos na lavoura e mais no pasto
usam; não é isso. A gente já adianta esse após pensando que Você seja demais
curioso. Seguinte. Vivia o chefão em constante ameaça por cima deles a dizer
frequente: o Doutor me confiou – sou íntimo dele (mentia) é meu amigo desde a
fazenda Flor Roxa de onde viemos, aí o Doutor comprou aqui e... – ele me
confessou que irá ou vender esta porcaria improdutiva com seus agregados
vagabundos burros ineficazes. Ou, aqui a vocês dá no mesmo, terão que dar no pé
da mesma forma, ou derruba essas taperas da colônia, arranca os cafeeiros
todos, nem milho nem coisa alguma deixará inteiro e aí, aí... põe gado no lugar
do gado humano. Saibam, dá muito mais lucro e vaca não leva o fazendeiro às
barras do ministério do trabalho, não dá trabalho.
O
rastilho de pólvora chega às orelhas das bocas femininas; um dia uma semana
meses de falatório insegurança e tristeza no Ipê.
Cap. 4° - Agora na
estrada sempre no andar parar descansar retornar pelas lembranças ele caminha e
Você me indaga para onde? devolvo a indagação sem resposta convincente; agora
Zé relembra o último diálogo que manteve com o Sr. José, não seria aqui um
diálogo de zés! fora algo se não estapafúrdio estranho considerando a relação
difícil. Então o fiscal passa rente à casa do outro na colônia, a casa a se
desmanchar primeiro pelo abandono, antes que as moradias todas fossem postas
abaixo; aquele negócio de que vaca não dá trabalho só lucro sequer precisa casa...
Cutucou com a foice o arremedo de porta presa ao batente apenas com uma tira
fraca, enfim deu um toque e uma saraivada com o relho para mostrar serviço e
presença e mando e... ah até propriedade; isto a ser mais tarde destrinchado;
imediato e alto no seu estilo perguntou-intimou: “ainda não morreu?” o diálogo
se completou com a resposta fraca seca embora com a força que força dá na
decepção consumada: “não”. Zé sorri, sorri hoje longe na distância e no tempo;
e prossegue a sulcar o chão arenoso.
Outra
memória que tem na memória, lembrança não menos sofrida é a da gripe, relembra
enquanto a estrada passa... não é a gente que passa no caminho! não, o caminho
também passa pela gente no momento que a gente sofre o sofrer da gente; quer
dizer aquilo que foi pela gente sofrido.
O Zé de cabeça bem adversa aos conhecimentos
na escola, entretanto a receber os conhecimentos da existência, apesar serem
eles doídos, ele se reporta às mil gripes e outros estados virais por que
pasara, mormente uma gripe brava que a população magra do Ipê chamaria sem
gentileza alguma e inclusive com certa irreverência “gripe fiscal”; o fiscal
homem forte atarracado, o tipo de gente que o lavrador afirma ser erva daninha,
erva ruim sabe-se nem a geada mata! e o Sr. José ficara também não obstante a
fortaleza preso à cama, até ele contraiu essa gripe uma vez. Em suma sucumbe à
‘sua’ própria gripe. Agora é a vez da gente agora, do Zé, o Zé geme se contorce
se espreme sua se limpa e daí não dorme, mais se ouve o barulho ringidor da
cama pobre e decerto fedorenta, assim noite inteira desse dia que durou dias
mais de semana quase o parando definitivo na beira da estrada do ser, quase sim
a enfermidade o levou como o fizera com mais de meia dúzia de maninhos
transportados como anjos ao cemitério, ele um velhotão, velho pois a sociedade
cobra velhice nos seus jovens que ficarem pra titio, terá, pergunto, terá o companheiro
da titia ou seja aquela que precocemente envelhece encolhe falece solteirona!
Não, Você não poderá me responder sobre a dúvida e então indago à existência...
Contudo o Zé ia morrendo. Andava parado bloqueado prostrado suado e embora assim,
a mostrar vida quando quase entregue numa fase difícil por haver ficado
sozinho; Censa partira para onde todos nos encaminhamos, ao local florido de cruzes,
cruzes! e velas apagadas e flores murchas se não murchas por artificiais antes
de morrerem e com objetos mortos a vigiar seus mortos, partira ela já estando o
‘jovem’ a tiritar sua febre e sabendo de antemão não conseguir se levantar e
ficar de pé, o mundo a rodar doido em volta e a dor... ah a dor na cabeça na
musculatura no corpo e ainda havendo uma vontade sem vontade. Pior. Sempre tem
um pior na piora das coisas que é estar totalmente só? Estava abandonado e quem
a esperar consolo da chefia da fazenda, o chefe demais prepotente demais
vaidoso na sua empáfia; e ainda que se pudesse aguardar alguém outro a cuidar
dele, seria a humildade da senhora Veva, tolerante companheira do chefe! Nesse
transe ninguém poderia dar atenção ao roceiro no abandono, sequer essa boa
mulher; visto o enfermo além do mais ser um desafeto do seu homem; claro que o
marido não permitiria o cuidado à esposa dele. Não. Assim Zé está nesse momento
a curtir sua doença solitariamente, nem existe outro colono na fazenda, a
colônia abandonada e onde apenas se ouve o som dos berros das vacas. O doente
não se alimenta; e isto não sendo por não dispor de meios, ele guardara sempre
dependurada mesmo sem ter agora o Peri a vigiar lá em cima a linguiça, linguiça
alimento básico; os frangos no terreiro não mais piavam, os porcos só
chiqueiros e mangueirões vazios; mesmo a farinha o arroz o feijão, tudo havendo
na despensa da casa abandonada do Ipê; entretanto agora tudo andava esparramado
ao consumo dos ratos ao vento ao tempo... Tinha o que comer porém e a coragem a
lidar com esse verdadeiro vetor da morte! onde a coragem? Rola não dorme não
conscientiza não vê quase o que vê embaciado nas dependências. E clama num
renascimento curtinho por Censa, grita ajuda da mãe ou pensa que a chama em voz
alta e a mãe não ouve, ainda ele escuta o uivo do vento, ou uma que outra
rajada em saraiva da chuva repentina; e assim o Zé desfalece. Todavia não
morre, acorda após dias que são noites de vinte e quatro horas; encontra-se
fraco no entanto vivo. Por fim se ergue se estica se espicha tateia ébrio de
fraqueza por haver bebido demais a dor a febre o abandono. É quando responde
“não” ao fiscal lá fora.
Fora
movimentando-se longe no tempo-espaço, olha o horizonte olha a pele do
estradão, a imagem treme ao sol ao calor do sol a matar se não o morto a
lembrança daquela morte por que passara.
De
suas memórias nesse ‘medir’ caminho se destaca uma por ser alegre. Você mesmo
me interrompe a dizer se o fracasso pode ser tomado por alegria... Não. Óbvio
que não, só a lembrança já um alento para quem não disponha mais que o alento,
o alento que é aparentado em primo de terceiro grau da felicidade. Porque
naquela segunda-feira em que o trabalhador da roça escolhe para ir à cidade, a
deixar irado o fazendeiro (leia-se Sr.José) ele e outros patrões inimigos ou
não do proprietário legítimo do Ipê e também seus vizinhos, portanto colegas
(forçando nisso o coleguismo, fato comum percebido numa fábrica por exemplo).
Sim. Os ricos se ofendem com a falta inoportuna no local de trabalho dos seus
roceiros, a força de trabalho; isto o mesmo que lembrar prejuízo; o prepotente
preposto tomava como ofensa, a maior ofensa a si. O costume no campo então
levava os empregados a sair na segunda, fosse ou não permitido, inclusive na
época sagrada de colheita... Daí o Zé jovem esperançoso necessitado imaginoso e
‘cheio’ de aventura na cabeça contrária
às matemáticas – daí se pôs no grupo de jovens à procura de diversão indo à
urbe.
Serra
Branca – uma cidadezinha metida na geografia do interior paulista e se pensando
tão grande na enormidade até ao ponto ser o mais importante núcleo no
universo... não passava de vila acanhada pobre com um futuro brilhante sim e
concretamente uma urbe descalça sem recursos e com uma dúzia de casas, sem ser
casebres embora pois as moradias pobres mas novas, umas até recentes e ainda
com seu som de pã-pã-pã de martelos tábuas e gritos humanos a levantá-las à família.
Não obstante o branco até no nome, era de zona de terra vermelha, a poeira a
cegar quem na rua... No meio a isso tudo uns veículos a passar nas vias
públicas com predomínio de carroças e animais de montaria e havendo um que
outro de lata a brilhar ao sol e a marcar o solo por seus pneumáticos;
caminhões pequenos (a população sonhando gigantescos carros...) a algaravia
humana nos seus desperdícios da fala, gritos, choros e brincadeiras de meninos
e as mulherinhas a bater roupa em cepos de madeira a escorrer água e sabão –
enfim movimento humano; ah... sem falta este quê: ébrios indo não ébrios,
ébrios a cambalear e ébrios a curtir seu chão (com moleques a gozar) para
completar o quadro.
No
meio da rapaziada a chegar nesse paraíso, o paraíso tem bebida e diversão à
beça, à beça tendo na diversão muito mais pois Serra Branca a possuir um
belíssimo exemplar de casa de tolerância; no meio o Zé, o Zé da Censa, a Censa
ficara ruminando se defendendo do filho um então arruaceiro!? um que não
obstante seus conselhos e até ‘desimperando’ seus mandos, ói ele na estrada com
os colegas (uns vieram como colegas ainda da escola da Tomásia) a maior parte
no grupo sendo os trabalhadores braçais no sol quente da roça com seus respectivos
familiares. O Zé faz papel útil do último entre todos, nunca tendo iniciativa,
sendo bom maria-vai-com-outras. Contudo ali na equipe a esmo formada, ri quando
riem, responde nunca a contento quando indagam, fala quando falam e acompanha
como pode a algazarra; meia algazarra porque são peões jovens (inexperientes
não, sim o Zé...) são gente da roça na cidade e por isso contida, não quieta propriamente,
no entanto a emitir sons mansos, até medrosos. Chegam. Olham. Assistem.
Assuntam. Fazem o que fazer. Gastam. Gostam... Tornam após, agora desfalcados,
tem uns já a falar mole, um deles fora parar no destacamento policial dar entrevista...
Tornam, uns murchos e decepcionados; tem nisso também os papudos a contar vantagem,
não somente a falar se firmando nas ‘machuras’ em falsete porém exagerando ingressso
capacidade e vitória exterior. O Zé não.
O
Zé e sua timidez doentia, ele responde por ambos a sorrir envergonhado. E assim
voltam os moços ao Ipê. Na turba um que outro despista o fracasso com
lembranças da colheita e uma que outra dívida da família. Em geral este item, a
dívida, permeia por todas casas na colônia. Talvez seja a prova cabal da existência
de fato da escravidão no meio rural; os trabalhadores sempre endividados e sem
condições quitar.
Se
os componentes das famílias desses jovens incautos exigiram na chegada um
relato dessa ‘viagem’ a Serra Branca, certeza que apenas Censa quis os detalhes,
nem soube pelo vergonhoso Zé minúcias, nem podia mesmo ter a exigência do
pormenor. Claro não haver indagado Inocência ao inocente seu rebento se ao
menos passara na igreja pagar aqueles medonhos pecados...
O
Zé se lembra disso e sorri. Ou sorri de saudade ou de haver em si somado dados
aos sonhos que tivera examinando aquele perverso ambiente. Mais ainda, uma
lourinha ficou-lhe como ‘anja’ santa na memória por anos. Por anos! até agora.
Agora
se pega de novo a caminhar, manca e prossegue.
Outro
dos seus momentos tidos como espécie de reserva guardada no íntimo foi a
vivência familiar.
Aquele
dia em que Zé e os amigos foram às meninas e nos outros dias seguintes, as
casas da colônia andaram torturadas pelas ameaças do fiscal, prepotente
representante do fazendeiro, elemento de ligação entre o dono ausente e o
colono presente. O senhor José parece que tendo prazer macerar aquela gentalha
grosseira humilde e trabalhadora, semelhando já as vacas que lhe substituiriam.
Não obstante o estado de guerra fora instaurado não apenas num dia, o dia do
comunicado à comunidadezinha, porém já eram alfinetados por anos os roceiros.
Enfim o proprietário não pretendia mais investir nas terras enquanto os homens
ali residindo, porque mesmo eles estando ali a título precário, eram locados na
Fazenda Ipê. Foi nisso chegar o pessoal do sangue do Zé. As casas, inclusive
aquela em que o rapaz (embora com uns quarenta e tantos anos um rapaz) dormia
seu sono; então várias famílias haviam sido deslocadas já para a cidade ou para
terras vizinhas. Inocência e seu filhos permaneciam ali, inclusive logo cairia
ela fulminada pelas forças do coração ou pela falta dessas forças e sairia após
o velório compulsoriamente; apesar disso deixando a ocupar a moradia o filho. Foi
aí a chegada dos seus parentes.
Parecia
haverem combinado os membros que anos atrás se apartaram, até Pedro o último
deles a deixar a colônia tornava ver a mãe e o irmão gozado... Zé tendo esse
apelido entre os seus, dado não crerem na sua harmonia. Pedro morrera também,
de repente, e jovem ainda apesar da filharada: Maria e os herdeiros foram quem
representaram Pedro. Parecia uma espécie de despedida da velha Censa, intuição
sexto sentido qualquer coisa assim, por chegarem todos sem haver combinado.
Seja lá como for havia gente de mais à casa de menos. Falou-se muito no
encontro e se perdoou muito pois os pobres se compreendem nas faltas... Um dia
para Inocência não esquecer; comentaria depois cada lance cada membro e sobretudo
as gracinhas dos netos até aí dela desconhecidos; isso por meses poucos:
faleceria breve. Quanto a Zé ficaria em meio aos seus um pouco baratinado,
confuso, perdido sem saber dar respostas convincentes às intervenções. Os
tímidos e mais os menos dotados não têm o que dizer no meio da gente tida por
normal; muita vez ficou devendo, a deixar no ar uma resposta de indagação sã de
outrem. Os tímidos devem ser os seres que mais cultivam as reticências.
Agora
na marcha tendo aos seus pés a areia quase movediça solta no leito do estradão,
relembra não só a gente os gestos os sons mas sobremaneira de si mesmo no papel
de bobo e mais se punindo a reconhecer não ser outrem; a gente é a gente até
desembaraçada, embora o meio tímido desses roceiros. Melhor seria pra si
pudesse sua falta de gabarito não enxergar-se no cineminha que projetamos para
as cadeiras vazias de nós mesmos desde o palco onde a tela; aliás o projetor
ficando atrás nas costas da plateia, o Zé nunca entrara ver uma sessão
cinematográfica e Serra Branca possuindo salinha de exibição. Os colegas contavam-lhe
horrores dos filmes, quase fazendo com que o Zé babasse ou de prazer ou
temor...
Enfim
agora é agora, agora é o fim para nosso personagem José Almeida Gonçalves
Cap. 5° - Mas é o
fim! põe sua dúvida ou decepção Você até aqui numa expectativa de estória de
amor e com lances se não normais comuns de grandiosidade e aventura, errando
feio. Responde o autor – “eu num tô nem aí”,
– o autor arresponde não poder inventar as coisas e outra conclusão
plausível; inventar sim, sim pode, porém tão só na linguagem, na apresentação,
na contenção de abusos mais neste menos. Na estória propriamente dita não,
porque esta estória é um imitar a história dum ser e o ser (um tal de Zé, Zé da
Censa) este ser é um caboclo andando perdido, perdido sim a contentar intervenções;
perdido por não saber ele mesmo para onde indo. Lógico ir ao fim da estrada e
seu próprio fim – mas aonde!
A
Fazenda Ipê se descolorira, ficara mais branca que o branco de Serra; esta ao
menos no ganho de sua poeira vermelha com o horror da lama na temporada chuvosa
e ainda com um positivo, o positivo de aumentar sua população, sua área não: os
municípios brasileiros todos dias tendem a encolher, a vila o patrimônio o
distrito querem ter o direito cada um sempre de ficar na cacunda da federação,
nunca terão renda suficiente como novos municípios, querem ajuda da federaão
rica em banco e corrupção, querem gritar “independência ou morte!” mortos porém
no final aceitam ‘ficar’ “pode dizer ao
povo que fico”, se é para o bem da nação etc. e tal, tal a situação da urbe a
encolher sua área e aumentar as bocas. Serra Branca branca de raiva ter que
aguentar o blá-blá-blá dos políticos do desmembramento por nada: permanece do
mesmo tamanho. A Fazenda Ipê entretanto não encolhe propriamente, envelhece sem
brilho, pois o que cintila numa propriedade rural é sua gente lutadora (embora
um pouco escravizada escrava). Contudo ela perde cerne, visto a gente não ser
mais vista. Em outras palavras não mais se planta, planta a mão de obra ou
noutras glebas a desmanchar também mais para diante; ou ‘planta’ na urbe
ordinária, esta não fosse tão imaginosa em diminuindo até o universo para ser
seu centro...
O
personagem Zé – ao qual daremos asas a um quê-zinho de vaidade nobre chamando o
mesmo José de Almeida Gonçalves a se estufar, claro: não é um homem
comum!? – o personagem nem viu passar o tempo nem viu crescer a fazenda e quase
imediato encolher morrer; nem viu sua família aumentar a desaparecer loguinho
indo fora dali e ali na fazenda ela a diminuir acabar acabando ele como o único
representante da linhagem e único morador nas casas a cair (aqui sim caberia a
expressão vulgar “a casa vai cair”...)
Anda
ainda caminha lento na lenta estrada ao fim duma tarde morna de verão em que
tudo pode ocorrer, tudo até nada. Pode despencar duma hora para outra um chuvão
um tufão um não ao seu sim e ele continua a coxear na areia nos seus passos
nada marciais, antes que isso lentos mancos mansos quase não fossem as dores. A
rigor conhece cada passo cada vão cada pedra... não a todas pedras! dores de
todo mundo uni-vos!! Não. Todavia conhece a fundo o fundo que finda no chão já
esfriando seu braseiro então ao acaso do ocaso. Passara ali e por ali não mil
vezes, mil e uma vezes, passara indo com a garrafa a balançar – o caipira é
gozado a levar dependurado o vidro vazio depois na volta cheio de cachaça então
provada antes de tornar em casa pra Censa falar e falar sem parar de falar até
dormir, dormir ele ela ainda a falar braba contra os bebuns que a gente tem de
aturar na casa, oh ela já morrera e pronto; a garrafa dependurada por uma tira
amarrada que pesa menos agora: o Zé provou andando algumas vezes para comprovar
se o vendeiro disse a verdade a verdade era que era de primeira linha – vai
indo com a garrafa vazia volta cheia e no pescoço do vidro transparente a tira
bem presa ou então é o desastre tibum tiplof no chão os cacos os cheiros as
perdas a exalar cana curtida... Assim. Assim Zé já mil, mil e uma. Decerto que
indo à venda na compra, agora na dívida pois eles marcam numa matemática
duvidosa, o vendeiro e mais a maliciosa esposa dele a registrarem na pendura
“pindura” pronuncia a gente do local – isto porque o ganho no Ipê não tem mais
ganho só perda e o proprietário da fazenda anda tiririca; esta expressão
popular engloba uma erva que nem a língua brava suja do ser comum mata e acaba
com ela; andar tiririca é estar irado a ponto de... deixa pra lá. O dono se
encontra às vias de dar-lhe um pontapé no traseiro, visto o bobalhão não mexer
palha; e nada há mais que berros na fazenda agora; o que proibido plantaria! e
além do mais o caboclo não sai não vai não morre; enquanto que as casas de
colônia umas desmoronaram assustando insetos e o capim infiltrado na alvenaria
atingindo uma encostada moleirona certamente nas imediações a pastar manso e a
olhar desnecessariamente as cercas que vão longe prendendo perto e aí o espanto
com o barulhão do desmoronar e a fumaça do pó acumulado.
Todavia
devemos uma explicação referente ao proprietário do Ipê. O dono quando viu,
viu-se endividado embaraçado enredado desgastado enrolado nos maus negócios.
Chama o capataz feitor fiscal administrador preposto prepotente a tentar
consertar os estragos, quem sabe vender seu peixe, a vender suas terras e suas
vacas a um... não, nem pensar não aceitaria um secular inimigo vizinho isso
não! Não, senhor, redargui o Senhor José: tenho uns cobres guardados tempo no
banco de Serra; coisinha pouca sim mas valiosa e que dá para conter sua dívida
limpar seu nome nobre e sua honra e ainda manter sua dignidade; quitar sua
dívida, Patrão... Não esclareceu como conseguira ao longo dos anos dirigindo a
fazenda com salário de fome e mesmo assim podendo depositar em costume um
saldinho sofrido. Não disse haver segurado haveres sempre aos olhos distantes
do outro e tomar para si parte nos lucros nas vendas de café e cereais antes e
depois agora nas transações envolvendo o gado; especialmente dado o fato de
vaca ficar doente morrer ser roubada por ladrão de cavalo (era a erva ruim da
época, muito houve guerra contra esse tipo de profissional nada amador, isso
sem precisar bomba atômica e contabilizar inocentes tombados no fronte...) Por
essas razões teve que pôr na conta do patrão as perdas tidas garantidas e
merecidas. A concluir o papo nada papo o Senhor José propõe – imediato aceito –
passar de mãos beijadas a si a propriedade do Ipê em troca do esvaziamento da
conta de poupança dele no banco ao outro, agora ex-patrão.
Quando
o Senhor José dá o tão ansiado e esperado últimato ao xará, nunca dito desse
jeito nem admitido por seu orgulho – então já é o dono legítimo, de papel
passado, reconhecidas as firmas, tudo carimbado e registrado em cartório lá de
Serra Branca, o centrão comercial do universinho.
Então
o Zé sequer precisando do empurrão do momento a fazer seu movimento então.
Sai
sem lenço sem documento, se é que os tivessse tido um dia, sai no estilo pé na
estrada, a estrada que Você e até o autor conhecem bem. Bem, segue ao seu fim
da estrada na estrada sem fim. Não muito longe ladra o cão ao ladrão quem sabe
a passar; o galo nas imediações avisa intima seu harém dormir; a gente nas
casas com luminosidade a acender a apagar de lamparinas ou casebres por ali em
quase não se ver ‘vendo-se’ apenas pelos seus sons e os gritos finos na
ralhação ao choro menino; pássaros de todas vozes em vozes ao toque de
recolher; e ali bem ali ao seu lado sons ecos ocos de passos fracos mancos,
firmes entretanto no rumo de sua interrogação.
A
interrogação é o sinal mais convincente à humanidade e ao homem comum, homem
inteiro ou falto dum vai um.
Marília outubro 2014
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