domingo, 11 de agosto de 2019

Flor Acompanhante


Flor Acompanhante


- Diz o poeta do povo ou para o povo as flores femininas a embelezar o jardim e este ao mundo e lembra Rosa Hortênsia Margarida, espécimes até corriqueiras nos quintais, quando havia quintais e havendo havendo jardim. Nele o perfume a coloração a aparência e inclusive a frequência delas, dela: a Margarida. Tinha, tem? tinha a gigante branca tinha a pequena branca tinha as de cores e tonalidades variadas para quebrar a harmonia não quebrando a harmonia do planeta, antes embelezando e acertando o mundo. A visão pelo menos. Por isso ele olhou fitou fixou a Margarida. Ou não foi por isso, por aquilo.
Aqui entra já na disputa acirradamente o Acompanhante; o qual nestas linhas disputa com o primeiro, a primeira, a Margarida. A ponto tal que se embaralham nem eles sabendo qual o primeiro se a primeira se o primeiro mesmo...
Porque precisa ter um personagem principal em que rodopiar os secundários e quase descartáveis; ou apenas viventes para que o mais importante sobreviva.
É o império das letras.
Nisto lembramos o lembrete básico: aqui são letras a se pôr vivas, as letras mortas mortas; a obra lutará pela vida; a morte entrando tão só como sombra que ajuda a entender a luz, para avaliar para ressaltar mesmo o viver.
 Vamos em frente, colocadas tais considerações – as considerações amiúde não passam de meras considerações, mortas, mortas elas pelos fatos e os flagrantes dos fatos; estes inviabilizados se não houver personagem.
 Assim pensando, ou exato por não pensar e só ver, viu a mulher.
Margarida? Entenda-se antes do estenda-se o Acompanhante passado e ultrapassado, quem sabe trespassado, não: com certeza, por causa das perdidas noites de sono o sono desperto por mil noites sem dormir portanto sem sonho e sem sonho obrigado a sonhar acordado. Não ouvi bem.
Margarida sim. Maria Aparecida Margarida Marques de Souza, com zê hein! Daí conta o porquê dos porquês, não mais que meia horinha de porquês à abrangência e à sonolência, nada discutíveis. Têm situações indiscutíveis e nas quais se joga fora argumentos (como no caso duma boa dor de barriga). Quando acordou já terminava a infindável narração de parentescos e árvores genealógicas dela. Tudo atirado na lata de lixo da memória fraca e cansada; esfregou olhos e se fixava nos contornos.
Margarida andava parada no leito, de lado, voltada pro seu lado, lado dele, dele Acompanhante – mas não era para mostrar as curvas...
Via as curvas via a mulher.
Tanto imbuído se encontrava que ais e uis se perdiam e mesmo se perdendo o cheiro do sangue e do remédio presentes na noite do dia no dia daquela noite na qual apenas alguns milhares de insetos voejavam em torno da lâmpada fraca como fraca a iluminação do quarto; de forma que os milhõezinhos sequer percebendo o ímã nauseabundo do hálito hospitalar controlado por máquinas – as de harmonizar respiração através de tubos de borracha ou de plástico; as de controlar batidas do coração e pulsações irregulares e com seus condutos abertos a despejar em depósitos transparentes ou invólucros também plásticos as suas gosmas e os seus líquidos fétidos; necessariamente atraentes aos ditos insetos; não: preferindo a lâmpada que embelezava aquele vulto feminino jovem ainda bom ainda ainda a se mostrar. Sequer a fragrância flagrante dos remédios e também de esborrifos desinfetantes os enxotando; atraindo mais a lâmpada de sua cabeceira.
Através do lume fraco apreciava aquela força, a da beleza a do sexo a da moral forjada alicerçada por uma existência rica, como rica é toda de todos; mesmo a dos anos dele.
O Acampanhante aspirou aquilo, ou seja a luz a presença. Também não viu não sentiu não percebeu e eram milhões a esvoejar alheadamente e sem rumo quais borboletas sem rumo sem lenço sem documento. Só ela contava. Contava também, também ele ouvia mas não escutava, expulso dele mesmo pela sua própria visão... Ora, que tipo seria aquele!?
Não respondeu, ou fê-lo mui pouco a contento – tomado pela presença física ali na frente deitada voltada mostrada ofertada a tão gulosa fome.
O Acompanhante conscientizou a fome.
O que se pode fazer a desfazer a fome?
Não sabia responder. A rigor não sabendo haver mil outros pacientes doentes acompanhantes bastantes e bastantes servidores naquela casa de sofrimento e dor, não sabendo que mil que mais de mil em torno gritassem ais intercalados por uis intermitentes encaixados e reencaixáveis a ferir o todo, que mil feri-lo-iam vendo o que via. Via a mulher representante das representantes do outro sexo, quando o sexo existia, é muito claro neste confuso. Só ela.

- Entrou na conversa houvesse conversa a conversa de fora, dentro se olhavam. Passou um carro, carrinho de procedimentos desses quase portáteis empurráveis barulhentinhos cheios de remédios e suas seringas e instrumentais outros e após outros séculos mais e mais novos velhos carrinhos e padiolas e demais geringonças desnomeadas pela ignorância; uns carregavam marmitas ou trapos e substâncias limpadoras; e seus funcionários a gritar na porta do casal, ele de pé imperceptivelmente de pé, ela deitada esparramada nos seus contornos do perfil que ele via; de maneira que, caso pensasse, flagraria quem sabe ofertantes de rua do bairro, que são aqueles vendedores de tudo um pouco a berrar na porta de casa a irritar orelhas cansadas ou somente irritadas que sopram em resposta sempre “hoje não quero”. E assim se foram e mais passaram passando, passando o dia daquela noite e nas noites subsequentes em que apenas os dois existiam para existir. Isto é, a Margarida do Acompanhante e o Acompanhante da Margarida.
Ao fundo ficaram sem fundos a gulodice dos insetos, os abusos dos medicamentos, os esdruxulismos das máquinas, os indevidos dos sons em ais e uis  e do arrastar e rodar rodinhas de mesas móveis ora com pacientes curiosados por curiosos e passantes, ora com remédios gases faixas e meticulosidadesinhas inomináveis chatas ou santamente técnicas ao vulgo; eles por exemplo.
Margarida agora não é uma flor: é mais que flor. Inicia (inicia!? péra lá, que vem a ser um começo?) destrava alinhava sua estória; que bem pode ser história; no ver do seu ser será com agá dos grandões. Nela ressalta dois outros seres, inegavelmente enormes à sua existência, ao seu dia a dia, segundo conta ao primeiro, ou segundo caso ela aceite ser o primeiro personagem, conta as figuras dentre os figurantes a encher sua vida. Ela pronuncia indistintamente vida e existência sem machucar a norma. Entende-se. Por ordem o Pedro e depois, a se tornar ainda maior que o Pedro o João. Pedro João é seu consorte. Aí rola enrola esfrega brinca com o brilho aurífero da aliança, de repente larga o dedo o anel apaga-o do presente, presente apenas daí em diante o João, o Joãozinho, João Pedro, filho também do Pedro João Desaparecente ou só eventualmente vindo à vida a dar vida às passagens em que deva falar no filho.
João Pedro não é meu filho, é meu filho. Quer dizer, não gerei Joãozinho, adotivo.
Conta João Pedro desde pequeno assim, aninho e pouco mais; sua negritude trabalhada pela inserção dos cruzamentos; o que caro ao seu coração materno, pois pedira como devota de Nossa Senhora um filho, falho o esposo falha sua entranha falhos os métodos e tratamentos clínicos, um filho de qualquer sexo cor tamanho idade, inclusive atropelando as filas na justiça através dum jeitinho brasileiro que todo bom brasileiro carrega nos seus genes. O importante, torna Margarida ao assombrado Acompanhante, o que importando mesmo a vinda do menino e poderia ser, deixou em aberto, ser uma garotinha. Continua a narrar.
Conta a cansar, não se cansa em contar e nem o ouvir de ouvir, embora a cansar orelhas em abano as coisas do filhote João Pedro. O Acompanhante se aproveita para apreciar melhor novos ângulos dessa vista em que os horizontes se mexem se mudam sem mudar o belo ou mais belo ainda, ficando em quase afrontoso comum. A cansar. Vacinas alfabetização crises existenciais, choques nas relações; o pai vem então bedelhar na educação delinho, para que a mãe coloque tudo no devido ponto: pega no pé do homem, exige do filho. Enfim põe os machos da casa nos seus respectivos lugares; cria regra de conduta. Faz mais, exige, vence.
O macho consorte se recolhe, nessas condições e imposições, atrás da frente da tevê a rir nos programas indecentes de humorismo, a gargalhar sua aposentadoria mansa. E some.
O machinho cresce. Assusta às vezes e aí ela tem de puxar o cabresto. Tolhe informes; tolhe abusos apara arestas, exige mais, promete sempre, sempre cumpre. Proibe ao menino até assistir televisão e mais ainda bandear-se ao computador na sua informática que avassala com seus modismos, a invadir todas famílias. Ela, não! grita, grita baixinho e depois sorri ao Acompanhante à sua frente quase a tomá-la; então se afasta ele com a imposição civilizatória ou cidadã. Ela prossegue, ele bica um pouco seus palpites porém Margarida não arreda o pé, bate o pé, caminha no seu contar e no contar do seu exigir. Narra tim-tim por tim-tim o como faz na exigência de mando à sargentona. Exige que o menino agora quase adulto cumpra e pague. Olhe, diz a bela, olhe que absurdo (aí a gente pratica o absurdo de olhar o pensamento de Margarida e concorda:)  olhe que nos quatorze anos ainda na quinta série. Não tem então que pagar perdendo televisão e computador!
Quem não, diante de tanta certeza.
Na dúvida passam acompanhantes no corredor. A Mariazinha, miudinha assinzinho, chama o Acompanhante a perguntar do doente dele se melhorou, o sujeito vai atendê-la, deixa um pouco a bela; a bela se ajeita dorme ronca. Isso, ronca. É estapafúrdio que uma jovem bonita ronque semelhando porco como porco lembram as mulheres que os homens são, não apenas no dormir mas no acordar?  

- Mas que choque comparativo vendo porém apenas ouvindo o ronco dela, o choque sim em comparação com a outra na sua frente, a Mariazinha feiinha enrugadinha gastinha sofridazinha uma gracinha em exemplo humano. A outra lá meio longe no perto ronca  ¿pra depois se mostrar aos olhos gulosos?  enquanto a outra outra bem desperta. Sim meu doente está bem, bem dormindo dopada, “sedada” diz tecnicamente Mariinha ele concorda discorda: dorme sedada cavalarmente (diria para que eu possa me beneficiar das gostosuras! não diria, diria em sonho e não acordado a escutar a senhora:) bem dito anda ainda sedada na reserva dos ais e dos uis quando estes acordados. E o seu doente anda bem: a ‘sua’ está bem? ele diz caipiramente “tá bem”. Ela conta destrava a contar conta reconta tanto tanto conquanto santa a atrair mais orelhas acompanhantes doutras pacientes, conta a sua e as outras suas outras convenientemente, uma lamenta do filho na quinta cirurgia sem esperança e chora; ela consola invoca a santa de sua devoção, em conforto para conforto e desanda também elinha na sua desdita e miséria, num quem sabe para igualmente receber consolo: seu primogênito fora morto no presídio pelos carinhos da miséria sem moral de lá, levado ao necrotério certo funcionário percebendo respiração nos pedaços cadavéricos desfigurados e assim tratado voltando à vida (Mariazinha tem assim como a bela a roncar o direito no uso da confusão ‘vida e existência’, pois que a confusão admite belas e feias, jovens provocantes e velhotas a se respeitar). Hoje? conclui a mãe, o filho forte, marcado sim desfigurado sim entretanto vivo e dessa forma acontecerá ao seu. Sorriem e se pensa que o sorrir é somente manifestação da alegria, suas lágrimas maternas molham essa tristeza e quase contaminam o Acompanhante. A fugir desse perigo, que costa ser daquele tipo que afirma homem não chorar; a fugir lembra ter seu doente se mexido.
Mas retorna de fato ao ronco de Margarida.

- Margarida se espreguiça... espreguiça gostoso a paciente na cama paciente. Aí sorri alegrias comenta alegrias e põe a culpa do ronco nos remédios. Justifica como uma boa humana – que fazer se não dormir relaxar descansar, para não pensar que deva ser operada!
Concorda. Quem a discordar.
Se levanta, ajeita a moça o pijama; o qual o Acompanhante sequer sabe de que e como foi costurado – ah ela lembra constante relembra ser costureira, aquele moloide esposo não ganha ganha aposentadoria magra e assim tem que pela casa ela trabalhar e o faz valentemente na máquina de costura (então destrava de vez a língua chocalhada antes pelo ronco, se destrava a minuciar quesitos da profissão; fala em peças e encomendas. Ele concorda). Ajeita melhor nas formas as formas da roupa, no que não precisa exagerar porque tudinho se encaixa notavelmente nela. Senta-se na cama exageradamente alta, a balançar perninhas torneadas e pezinhos em perfeição de beleza; então ele quase corre a tomar os chinelos delicados daqueles pés e os põe na escadinha de subir na camona para Margarida descer. Sorri. Sorriem. De pé novamente se espreguiça a preguiçosa e conclui: vou dar um passeio (não o convida quem sabe temerosa que aceite, e o que o povo iria falar mormente gente presente de fora dentro do hospital ao encontrar um casal tão esdrúxulo; só justifica:) vou dar para espairecer umas voltas... Ele querendo ser ela a ditar regras: “desajuizada, diz, o médico não a está preparando à cirurgia!” Ela, mui gente e gente adora justificar seus erros, justifica “ah não estou doente!”
Sai, leva consigo o rebolado, o pisar macio, o conjunto feminil.
O Acompanhante enxuga a boca ansiosa; e torna, derrotado, ao seu canto ao seu doente, a rigor à doente agora sedada.

- Torna alegre e despreocupado o sorriso da Margarida. Ele renasce. O homem renasce qual a fênix imaginária colhendo o concreto. Fala.
Somente pra falar e sentir que ainda fala, vendo tal fulguração agora ressentada em seu leito que seria de dor dor houvesse. A enfermeira botou esse aviso aí em cima. Ela olha curiosa e lê ‘repouso absoluto’. Gargalha bastando sorrir a encantá-lo (‘lo’ não o aviso é claro). Imediato justifica, rejustifica: o doutor mandou descansar mas estou bem, bem faço indo por aí e olhe, olhou, foi bom, vi cada coisa...
Acompanhante não quer malhar em ferro frio, experiente acompanhante; cala-se, se abre de novo: “um enfermeiro trouxe sua pílula e você por esse mundo...”
Ela redargui ser estéril, pra que pílula! ah sim, lembra a moça já meio não muito moça, o remédio preparatório; vou atrás do enfermeiro... aliás será que já não tomei o medicamento. Tomei não tomei, se diz lá dentro de si a beleza de fora aos de fora veem. Enquanto memoriza, se estica relaxa dorme ronca, não: não ronca ressona em mostrar as gulodices às gulodices dos gulosos em plantão já dia alto alto mais o sol dos viventes; e dos enfermos.

- Daí dorme, após fala dormi igual santa, dizendo a santa ao santarrão ali sorrindo aquela pureza; ele comenta qualquer a fim de não ver o que vê; vê umas formas com braços roliços cruzados encavalados encavalando a cabeça de ser vista. Então fala outra vez a santa ser devota da santa, desfia e carrega na sua crença, fustiga religião ao ateu; o Acompanhante é ateu e se diz agnóstico pra se pensar melhor e ser melhor mas não diz a ela: como ganhá-la pondo-se de satanás! Ela nem percebe os assopros mundanos dele a encher o tempo que não passa, passa ela a tecer atos e fatos e mais insiste nos religiosos. Ele intercede, intercede a se defender de investidas e ofensas duma doutrinação possível ou possível proselitismo desvairado – você por que não ocupa o tempo com tempo de leitura! Ela? não fala, fala abrindo a gavetinha do seu criado-mudo fedendo a remédio e grudes em resto medicamentoso; e dele tirando um livro. O curioso lê, lê a capa mede a grossura respeitável do volume e não comenta (vira na capa o título “Como se Comportar no Sacerdócio” e lê e esquece o autor Dom Antônio sei lá de quê). Não comenta, sorri. Ela abre o exemplar em exemplo de degustação, encolhe alevanta pernas põe o livrão no colo sem ser colo a rigor, folheia como a circunspecção exige, exige que se cale.
O Acompanhante então vai ver a avenida no corredor estreito bloqueado por curiosos com apetrechos hospitalares, ver um que outro doente a entrar a sair a se despedir rumo às ambulâncias famintas de chocalhar ais e uis com outros acompanhantes suficientemente desgastados. Volta a vista à vista.
Ela dorme. O livro dorme. O sono dorme, ele aprecia sonha. Ao longo longe ali perto campainhas sonam trilam em repetir nervoso suas dores e ansiedades, porém não vê não ouve não sente, senta-se para melhor ver e melhor apreciar os montes e montanhas naquela planície de formas e de paz, paz enquanto dure. Também se perde em sonho desperto enquanto durando.

- Meninos! acordem, acodem auxiliares de enfermagem e uma é inclusive bonitinha o outro gorducho e mesmo ajeitado nas vestes masculinas. Fazem o serviço: furam trocam mexem ajeitam desfazem consertam cobrem gozam em brincadeiras – que fariam, chorar a dor de todos minutos naquela horrorosa eternidade hospitalar! brincam riem riem-se guardam apetrechos, prometem e matracam entre si gritam de brincadeirinha os colegas passantes – um circo de cavalinhos? não, o nosocômio em desconcentração necessária. Nisso acordam de vez pacientes impacientes, a horrorizar o tempo de espera e o tempo que não passa nem passam dores as quais insistem terem vindo para ficar. Acordam até a flor.
Margarida sorri aos olhos amorosos ou gulosos. Dá-lhes um basta, puxa aos olhos suas orelhas e por fim destrava – também quem a dormir com um barulho desses! – destrava a língua e solta a fala, fala solta, fala na boia: não vem mais o almoço...
Concordam. Só não concordam na grosseria porque o macho da espécie gulosa pronuncia ‘grude’ e ‘gororoba’.
Enquanto, ela conta sua lembrança. A propósito de qual propósito; para quê? As coisas saem fluem com facilidade sob quaisquer recordações ao lembrete ou referância, pois que a sustância não precisa mola disparadora. O João Pedro? é um menino bonzinho correto honesto um mimo, encantador, inteligente, inteligente mas não passou de ano e fica por isso de castigo; tevê? informática? e olhe que já melhorou de notas – nenhuma menção vermelha mais. Eu tranco ele e ele engole os livros, estuda estuda e não para; a mãe não para igualmente em biografar o filhote. Descreve o físico eleva a mente ressalta a moral e a luta dele, prevê o brilhante futuro da cria, cria adotiva. Ah, diz, no entanto João Pedro quer mesmo ser jogador de futebol e olhe que dizem levar jeito, não tem jeito mas virará doutor com certeza; assim reza sua dúvida. O pai dele, meu marido não dá palpite; não dá mais... Assim mesmo Margarida conta do esposo, um homem bom, trabalhador, isto é: foi, agora vê tevê naquelas porcarias de bola e show pra rir ri sozinho, eu trabalho no ateliê e vixe como tem encomenda e o Joãozinho Joãozão deste tamanhão enquanto isso gasta os olhos, os óculos, tadinho tem de usar daqueles com lentes de garrafa a gente vê os olhinhos pequenos lá dentro tenho pena de meu filho, gasta sim nos estudos e... ah, aí, ai! conta reconta a esgotar paciências os comos e os porquês, narra o dia a dia do hoje dele e o da mãe, a qual diga-se em passagem é bela pra valer na sua tez clara ariana quase dolicocéfala e não de olhos azuis, pretos castanhos escuros desses de penetrar na gente quando a gente deseja; enfim bela no tipo de beleza feminil e no jeito de descrever tudo com voz veludosa a vibrar na presença como um todo, tudo gostosura pensa o homem cansado que não se cansa em apreciá-la.
Para. Param. Ela de falar ele de ouvir e ver, não: continua vislumbrado. Apenas havendo um daqueles hiatos silenciosos que ameaçam perdurar por bem mais que eternidade nos séculos de minuto, nesses momentos em que deveríamos todos pensar pesar; pra continuar ou não mais falar pelos tempos e tempos amém. Embaraçante.
Embaraçante.

- Debalde o Acompanhante buscou o acompanhante dela; havia prometido ao fã que as manas viriam buscá-la, após o parto – parto não a fórceps se diga e não parto também porque ela garantira apenas uma simples troca das pilhas no seu marca-passo, qual se passando com o relógio do Acompanhante a esgotar pilhinhas – enfim que depois da cirurgia elas chegariam. Donde? ela satisfazendo o curioso: de minha terra, ora! Porque tem coisas que indagamos sem razão por obviedade. Contudo buscava informes dela buscando seu (sua, suas) acompanhante e nada, não propriamente nada, tudo. Perguntou ao motorista barrigudo e simpático da ambulância de sua cidade. Margarida? ah sim a Margarida, não fui eu o outro a conduzi-la; realmente a conheço de sobra: em vila todos se conhecem e é caso perdido...
O Acompanhante sem acompanhantes a dar notícias mais convincentes a tanta curiosidade e talvez saudade ficou com cara de tacho; não tem uma expressão desse quilate. Olhou olhou reolhou se perdeu quem sabe em mais saudades quem sabe em amores mais adúlteros quem sabe em querências ainda mais platônicas.
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Ela chega em casa respira aspira suspira e por fim, quem sabe igualmente de saudade ou amor ou apenas apego em condição platônica. Guarda as coisas, bota o livro massudo “Como se Comportar no Sacerdócio” em uma cansada estante, instante depois já no atelier examinando acúmulo de encomendas das freguesas e ainda um pouco fraca pela jornada hospitalar, embora um Acompanhante só dela pro que desse e viesse. Nisto ocorre o inevitável: reencontra Pedro João e João Pedro, este escurinho grandalhão, o outro branco velho aposentado, quase tirou atirou a aliança de ouro no lixo, numa contida raiva talvez pelo choque ou reencontro ou mesmo em virtude da desvirtude de não mais apreciá-lo, ao menos como esposo ativo... Daí dispara a falar na estadia, conta do sofrer sim mas conta de possíveis alegrias embutidas. Se expressa mais ou menos assim: João Pedro, me dê conta do que fez nestes dias, estudou o quê? suas notas quero o boletim, não se misturou à gentalha – ah minha Santa minha Virgem Santa! quantos descaminhos... E você Pedro João – amarfunha os enchimentos dum boneco de pano claro sujo e vazando as entranhas, o que fez você em benefício de nosso (corrige a tempo e imediato para ‘meu’) de meu Joãozinho! Aí olha de novo o menino preto pasmado desenxavido gasto pelo manuseio. E, habilidosamente, troca como possível nestas últimas palavras todos ‘o’s pela letra ‘a’, sem ferir a língua padrão.
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O Acompanhante ou chora ou sofre ou sente ou compara ou apenas se lembra da voz fanhosa do chofer barrigudo “é um caso perdido...” Aqui sequer desprezando aspas, as quais nunca concluem coisa alguma.
Marília   setembro  2009

         




         



             

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