Flor Acompanhante
1° - Diz o poeta
do povo ou para o povo as flores femininas a embelezar o jardim e este ao mundo
e lembra Rosa Hortênsia Margarida, espécimes até corriqueiras nos quintais,
quando havia quintais e havendo havendo jardim. Nele o perfume a coloração a
aparência e inclusive a frequência delas, dela: a Margarida. Tinha, tem? tinha
a gigante branca tinha a pequena branca tinha as de cores e tonalidades
variadas para quebrar a harmonia não quebrando a harmonia do planeta, antes embelezando
e acertando o mundo. A visão pelo menos. Por isso ele olhou fitou fixou a
Margarida. Ou não foi por isso, por aquilo.
Aqui
entra já na disputa acirradamente o Acompanhante; o qual nestas linhas disputa
com o primeiro, a primeira, a Margarida. A ponto tal que se embaralham nem eles
sabendo qual o primeiro se a primeira se o primeiro mesmo...
Porque
precisa ter um personagem principal em que rodopiar os secundários e quase
descartáveis; ou apenas viventes para que o mais importante sobreviva.
É
o império das letras.
Nisto
lembramos o lembrete básico: aqui são letras a se pôr vivas, as letras mortas
mortas; a obra lutará pela vida; a morte entrando tão só como sombra que ajuda
a entender a luz, para avaliar para ressaltar mesmo o viver.
Vamos em frente, colocadas tais considerações
– as considerações amiúde não passam de meras considerações, mortas, mortas
elas pelos fatos e os flagrantes dos fatos; estes inviabilizados se não houver
personagem.
Assim
pensando, ou exato por não pensar e só ver, viu a mulher.
Margarida? Entenda-se antes do
estenda-se o Acompanhante passado e ultrapassado, quem sabe trespassado, não:
com certeza, por causa das perdidas noites de sono o sono desperto por mil
noites sem dormir portanto sem sonho e sem sonho obrigado a sonhar acordado. Não
ouvi bem.
Margarida sim. Maria Aparecida Margarida
Marques de Souza, com zê hein! Daí conta o porquê dos porquês, não mais que
meia horinha de porquês à abrangência e à sonolência, nada discutíveis. Têm
situações indiscutíveis e nas quais se joga fora argumentos (como no caso duma
boa dor de barriga). Quando acordou já terminava a infindável narração de parentescos
e árvores genealógicas dela. Tudo atirado na lata de lixo da memória fraca e
cansada; esfregou olhos e se fixava nos contornos.
Margarida andava parada no leito, de
lado, voltada pro seu lado, lado dele, dele Acompanhante – mas não era para mostrar
as curvas...
Via as curvas via a mulher.
Tanto imbuído se encontrava que ais e
uis se perdiam e mesmo se perdendo o cheiro do sangue e do remédio presentes na
noite do dia no dia daquela noite na qual apenas alguns milhares de insetos
voejavam em torno da lâmpada fraca como fraca a iluminação do quarto; de forma
que os milhõezinhos sequer percebendo o ímã nauseabundo do hálito hospitalar
controlado por máquinas – as de harmonizar respiração através de tubos de
borracha ou de plástico; as de controlar batidas do coração e pulsações
irregulares e com seus condutos abertos a despejar em depósitos transparentes
ou invólucros também plásticos as suas gosmas e os seus líquidos fétidos;
necessariamente atraentes aos ditos insetos; não: preferindo a lâmpada que
embelezava aquele vulto feminino jovem ainda bom ainda ainda a se mostrar.
Sequer a fragrância flagrante dos remédios e também de esborrifos desinfetantes
os enxotando; atraindo mais a lâmpada de sua cabeceira.
Através do lume fraco apreciava aquela
força, a da beleza a do sexo a da moral forjada alicerçada por uma existência
rica, como rica é toda de todos; mesmo a dos anos dele.
O Acampanhante aspirou aquilo, ou seja a
luz a presença. Também não viu não sentiu não percebeu e eram milhões a
esvoejar alheadamente e sem rumo quais borboletas sem rumo sem lenço sem
documento. Só ela contava. Contava também, também ele ouvia mas não escutava,
expulso dele mesmo pela sua própria visão... Ora, que tipo seria aquele!?
Não respondeu, ou fê-lo mui pouco a
contento – tomado pela presença física ali na frente deitada voltada mostrada
ofertada a tão gulosa fome.
O Acompanhante conscientizou a fome.
O que se pode fazer a desfazer a fome?
Não sabia responder. A rigor não sabendo
haver mil outros pacientes doentes acompanhantes bastantes e bastantes servidores
naquela casa de sofrimento e dor, não sabendo que mil que mais de mil em torno
gritassem ais intercalados por uis intermitentes encaixados e reencaixáveis a
ferir o todo, que mil feri-lo-iam vendo o que via. Via a mulher representante
das representantes do outro sexo, quando o sexo existia, é muito claro neste
confuso. Só ela.
2° - Entrou na conversa houvesse conversa
a conversa de fora, dentro se olhavam. Passou um carro, carrinho de procedimentos
desses quase portáteis empurráveis barulhentinhos cheios de remédios e suas
seringas e instrumentais outros e após outros séculos mais e mais novos velhos
carrinhos e padiolas e demais geringonças desnomeadas pela ignorância; uns
carregavam marmitas ou trapos e substâncias limpadoras; e seus funcionários a
gritar na porta do casal, ele de pé imperceptivelmente de pé, ela deitada
esparramada nos seus contornos do perfil que ele via; de maneira que, caso
pensasse, flagraria quem sabe ofertantes de rua do bairro, que são aqueles
vendedores de tudo um pouco a berrar na porta de casa a irritar orelhas
cansadas ou somente irritadas que sopram em resposta sempre “hoje não quero”. E
assim se foram e mais passaram passando, passando o dia daquela noite e nas
noites subsequentes em que apenas os dois existiam para existir. Isto é, a
Margarida do Acompanhante e o Acompanhante da Margarida.
Ao fundo ficaram sem fundos a gulodice
dos insetos, os abusos dos medicamentos, os esdruxulismos das máquinas, os
indevidos dos sons em ais e uis e do
arrastar e rodar rodinhas de mesas móveis ora com pacientes curiosados por curiosos
e passantes, ora com remédios gases faixas e meticulosidadesinhas inomináveis
chatas ou santamente técnicas ao vulgo; eles por exemplo.
Margarida agora não é uma flor: é mais
que flor. Inicia (inicia!? péra lá, que vem a ser um começo?) destrava alinhava
sua estória; que bem pode ser história; no ver do seu ser será com agá dos
grandões. Nela ressalta dois outros seres, inegavelmente enormes à sua
existência, ao seu dia a dia, segundo conta ao primeiro, ou segundo caso ela
aceite ser o primeiro personagem, conta as figuras dentre os figurantes a
encher sua vida. Ela pronuncia indistintamente vida e existência sem machucar a
norma. Entende-se. Por ordem o Pedro e depois, a se tornar ainda maior que o
Pedro o João. Pedro João é seu consorte. Aí rola enrola esfrega brinca com o
brilho aurífero da aliança, de repente larga o dedo o anel apaga-o do presente,
presente apenas daí em diante o João, o Joãozinho, João Pedro, filho também do
Pedro João Desaparecente ou só eventualmente vindo à vida a dar vida às
passagens em que deva falar no filho.
João Pedro não é meu filho, é meu filho.
Quer dizer, não gerei Joãozinho, adotivo.
Conta João Pedro desde pequeno assim,
aninho e pouco mais; sua negritude trabalhada pela inserção dos cruzamentos; o
que caro ao seu coração materno, pois pedira como devota de Nossa Senhora um
filho, falho o esposo falha sua entranha falhos os métodos e tratamentos
clínicos, um filho de qualquer sexo cor tamanho idade, inclusive atropelando as
filas na justiça através dum jeitinho brasileiro que todo bom brasileiro
carrega nos seus genes. O importante, torna Margarida ao assombrado
Acompanhante, o que importando mesmo a vinda do menino e poderia ser, deixou em
aberto, ser uma garotinha. Continua a narrar.
Conta a cansar, não se cansa em contar e
nem o ouvir de ouvir, embora a cansar orelhas em abano as coisas do filhote
João Pedro. O Acompanhante se aproveita para apreciar melhor novos ângulos
dessa vista em que os horizontes se mexem se mudam sem mudar o belo ou mais
belo ainda, ficando em quase afrontoso comum. A cansar. Vacinas alfabetização
crises existenciais, choques nas relações; o pai vem então bedelhar na educação
delinho, para que a mãe coloque tudo no devido ponto: pega no pé do homem,
exige do filho. Enfim põe os machos da casa nos seus respectivos lugares; cria
regra de conduta. Faz mais, exige, vence.
O macho consorte se recolhe, nessas
condições e imposições, atrás da frente da tevê a rir nos programas indecentes
de humorismo, a gargalhar sua aposentadoria mansa. E some.
O machinho cresce. Assusta às vezes e aí
ela tem de puxar o cabresto. Tolhe informes; tolhe abusos apara arestas, exige
mais, promete sempre, sempre cumpre. Proibe ao menino até assistir televisão e
mais ainda bandear-se ao computador na sua informática que avassala com seus
modismos, a invadir todas famílias. Ela, não! grita, grita baixinho e depois
sorri ao Acompanhante à sua frente quase a tomá-la; então se afasta ele com a
imposição civilizatória ou cidadã. Ela prossegue, ele bica um pouco seus
palpites porém Margarida não arreda o pé, bate o pé, caminha no seu contar e no
contar do seu exigir. Narra tim-tim por tim-tim o como faz na exigência de
mando à sargentona. Exige que o menino agora quase adulto cumpra e pague. Olhe,
diz a bela, olhe que absurdo (aí a gente pratica o absurdo de olhar o
pensamento de Margarida e concorda:) olhe que nos quatorze anos ainda na quinta
série. Não tem então que pagar perdendo televisão e computador!
Quem não, diante de tanta certeza.
Na dúvida passam acompanhantes no
corredor. A Mariazinha, miudinha assinzinho, chama o Acompanhante a perguntar do
doente dele se melhorou, o sujeito vai atendê-la, deixa um pouco a bela; a bela
se ajeita dorme ronca. Isso, ronca. É estapafúrdio que uma jovem bonita ronque
semelhando porco como porco lembram as mulheres que os homens são, não apenas
no dormir mas no acordar?
3° - Mas que choque comparativo vendo
porém apenas ouvindo o ronco dela, o choque sim em comparação com a outra na
sua frente, a Mariazinha feiinha enrugadinha gastinha sofridazinha uma gracinha
em exemplo humano. A outra lá meio longe no perto ronca ¿pra depois se mostrar aos olhos
gulosos? enquanto a outra outra
bem desperta. Sim meu doente está bem, bem dormindo dopada, “sedada” diz tecnicamente
Mariinha ele concorda discorda: dorme sedada cavalarmente (diria para que eu
possa me beneficiar das gostosuras! não diria, diria em sonho e não acordado a
escutar a senhora:) bem dito anda ainda sedada na reserva dos ais e dos uis
quando estes acordados. E o seu doente anda bem: a ‘sua’ está bem? ele diz
caipiramente “tá bem”. Ela conta destrava a contar conta reconta tanto tanto
conquanto santa a atrair mais orelhas acompanhantes doutras pacientes, conta a
sua e as outras suas outras convenientemente, uma lamenta do filho na quinta
cirurgia sem esperança e chora; ela consola invoca a santa de sua devoção, em
conforto para conforto e desanda também elinha na sua desdita e miséria, num
quem sabe para igualmente receber consolo: seu primogênito fora morto no
presídio pelos carinhos da miséria sem moral de lá, levado ao necrotério certo
funcionário percebendo respiração nos pedaços cadavéricos desfigurados e assim
tratado voltando à vida (Mariazinha tem assim como a bela a roncar o direito no
uso da confusão ‘vida e existência’, pois que a confusão admite belas e feias,
jovens provocantes e velhotas a se respeitar). Hoje? conclui a mãe, o filho
forte, marcado sim desfigurado sim entretanto vivo e dessa forma acontecerá ao
seu. Sorriem e se pensa que o sorrir é somente manifestação da alegria, suas
lágrimas maternas molham essa tristeza e quase contaminam o Acompanhante. A
fugir desse perigo, que costa ser daquele tipo que afirma homem não chorar; a
fugir lembra ter seu doente se mexido.
Mas retorna de fato ao ronco de
Margarida.
4° - Margarida se espreguiça... espreguiça
gostoso a paciente na cama paciente. Aí sorri alegrias comenta alegrias e põe a
culpa do ronco nos remédios. Justifica como uma boa humana – que fazer se não
dormir relaxar descansar, para não pensar que deva ser operada!
Concorda. Quem a discordar.
Se levanta, ajeita a moça o pijama; o qual
o Acompanhante sequer sabe de que e como foi costurado – ah ela lembra
constante relembra ser costureira, aquele moloide esposo não ganha ganha
aposentadoria magra e assim tem que pela casa ela trabalhar e o faz
valentemente na máquina de costura (então destrava de vez a língua chocalhada
antes pelo ronco, se destrava a minuciar quesitos da profissão; fala em peças e
encomendas. Ele concorda). Ajeita melhor nas formas as formas da roupa, no que
não precisa exagerar porque tudinho se encaixa notavelmente nela. Senta-se na
cama exageradamente alta, a balançar perninhas torneadas e pezinhos em perfeição
de beleza; então ele quase corre a tomar os chinelos delicados daqueles pés e
os põe na escadinha de subir na camona para Margarida descer. Sorri. Sorriem. De
pé novamente se espreguiça a preguiçosa e conclui: vou dar um passeio (não o convida
quem sabe temerosa que aceite, e o que o povo iria falar mormente gente
presente de fora dentro do hospital ao encontrar um casal tão esdrúxulo; só
justifica:) vou dar para espairecer umas voltas... Ele querendo ser ela a ditar
regras: “desajuizada, diz, o médico não a está preparando à cirurgia!” Ela, mui
gente e gente adora justificar seus erros, justifica “ah não estou doente!”
Sai, leva consigo o rebolado, o pisar
macio, o conjunto feminil.
O Acompanhante enxuga a boca ansiosa; e
torna, derrotado, ao seu canto ao seu doente, a rigor à doente agora sedada.
5° - Torna alegre e despreocupado o
sorriso da Margarida. Ele renasce. O homem renasce qual a fênix imaginária colhendo
o concreto. Fala.
Somente pra falar e sentir que ainda
fala, vendo tal fulguração agora ressentada em seu leito que seria de dor dor
houvesse. A enfermeira botou esse aviso aí em cima. Ela olha curiosa e lê
‘repouso absoluto’. Gargalha bastando sorrir a encantá-lo (‘lo’ não o aviso é
claro). Imediato justifica, rejustifica: o doutor mandou descansar mas estou
bem, bem faço indo por aí e olhe, olhou, foi bom, vi cada coisa...
Acompanhante não quer malhar em ferro
frio, experiente acompanhante; cala-se, se abre de novo: “um enfermeiro trouxe
sua pílula e você por esse mundo...”
Ela redargui ser estéril, pra que
pílula! ah sim, lembra a moça já meio não muito moça, o remédio preparatório;
vou atrás do enfermeiro... aliás será que já não tomei o medicamento. Tomei não
tomei, se diz lá dentro de si a beleza de fora aos de fora veem. Enquanto
memoriza, se estica relaxa dorme ronca, não: não ronca ressona em mostrar as
gulodices às gulodices dos gulosos em plantão já dia alto alto mais o sol dos
viventes; e dos enfermos.
6° - Daí dorme, após fala dormi igual
santa, dizendo a santa ao santarrão ali sorrindo aquela pureza; ele comenta qualquer
a fim de não ver o que vê; vê umas formas com braços roliços cruzados
encavalados encavalando a cabeça de ser vista. Então fala outra vez a santa ser
devota da santa, desfia e carrega na sua crença, fustiga religião ao ateu; o
Acompanhante é ateu e se diz agnóstico pra se pensar melhor e ser melhor mas
não diz a ela: como ganhá-la pondo-se de satanás! Ela nem percebe os assopros
mundanos dele a encher o tempo que não passa, passa ela a tecer atos e fatos e
mais insiste nos religiosos. Ele intercede, intercede a se defender de investidas
e ofensas duma doutrinação possível ou possível proselitismo desvairado – você
por que não ocupa o tempo com tempo de leitura! Ela? não fala, fala abrindo a
gavetinha do seu criado-mudo fedendo a remédio e grudes em resto medicamentoso;
e dele tirando um livro. O curioso lê, lê a capa mede a grossura respeitável do
volume e não comenta (vira na capa o título “Como se Comportar no Sacerdócio” e
lê e esquece o autor Dom Antônio sei lá de quê). Não comenta, sorri. Ela abre o
exemplar em exemplo de degustação, encolhe alevanta pernas põe o livrão no colo
sem ser colo a rigor, folheia como a circunspecção exige, exige que se cale.
O Acompanhante então vai ver a avenida
no corredor estreito bloqueado por curiosos com apetrechos hospitalares, ver um
que outro doente a entrar a sair a se despedir rumo às ambulâncias famintas de
chocalhar ais e uis com outros acompanhantes suficientemente desgastados. Volta
a vista à vista.
Ela dorme. O livro dorme. O sono dorme,
ele aprecia sonha. Ao longo longe ali perto campainhas sonam trilam em repetir
nervoso suas dores e ansiedades, porém não vê não ouve não sente, senta-se para
melhor ver e melhor apreciar os montes e montanhas naquela planície de formas e
de paz, paz enquanto dure. Também se perde em sonho desperto enquanto durando.
7° - Meninos! acordem, acodem auxiliares
de enfermagem e uma é inclusive bonitinha o outro gorducho e mesmo ajeitado nas
vestes masculinas. Fazem o serviço: furam trocam mexem ajeitam desfazem
consertam cobrem gozam em brincadeiras – que fariam, chorar a dor de todos
minutos naquela horrorosa eternidade hospitalar! brincam riem riem-se guardam
apetrechos, prometem e matracam entre si gritam de brincadeirinha os colegas
passantes – um circo de cavalinhos? não, o nosocômio em desconcentração
necessária. Nisso acordam de vez pacientes impacientes, a horrorizar o tempo de
espera e o tempo que não passa nem passam dores as quais insistem terem vindo
para ficar. Acordam até a flor.
Margarida sorri aos olhos amorosos ou
gulosos. Dá-lhes um basta, puxa aos olhos suas orelhas e por fim destrava – também
quem a dormir com um barulho desses! – destrava a língua e solta a fala, fala
solta, fala na boia: não vem mais o almoço...
Concordam. Só não concordam na grosseria
porque o macho da espécie gulosa pronuncia ‘grude’ e ‘gororoba’.
Enquanto, ela conta sua lembrança. A
propósito de qual propósito; para quê? As coisas saem fluem com facilidade sob
quaisquer recordações ao lembrete ou referância, pois que a sustância não
precisa mola disparadora. O João Pedro? é um menino bonzinho correto honesto um
mimo, encantador, inteligente, inteligente mas não passou de ano e fica por
isso de castigo; tevê? informática? e olhe que já melhorou de notas – nenhuma
menção vermelha mais. Eu tranco ele e ele engole os livros, estuda estuda e não
para; a mãe não para igualmente em biografar o filhote. Descreve o físico eleva
a mente ressalta a moral e a luta dele, prevê o brilhante futuro da cria, cria
adotiva. Ah, diz, no entanto João Pedro quer mesmo ser jogador de futebol e
olhe que dizem levar jeito, não tem jeito mas virará doutor com certeza; assim
reza sua dúvida. O pai dele, meu marido não dá palpite; não dá mais... Assim
mesmo Margarida conta do esposo, um homem bom, trabalhador, isto é: foi, agora
vê tevê naquelas porcarias de bola e show pra rir ri sozinho, eu
trabalho no ateliê e vixe como tem encomenda e o Joãozinho Joãozão deste
tamanhão enquanto isso gasta os olhos, os óculos, tadinho tem de usar daqueles
com lentes de garrafa a gente vê os olhinhos pequenos lá dentro tenho pena de
meu filho, gasta sim nos estudos e... ah, aí, ai! conta reconta a esgotar
paciências os comos e os porquês, narra o dia a dia do hoje dele e o da mãe, a
qual diga-se em passagem é bela pra valer na sua tez clara ariana quase dolicocéfala
e não de olhos azuis, pretos castanhos escuros desses de penetrar na gente
quando a gente deseja; enfim bela no tipo de beleza feminil e no jeito de
descrever tudo com voz veludosa a vibrar na presença como um todo, tudo
gostosura pensa o homem cansado que não se cansa em apreciá-la.
Para. Param. Ela de falar ele de ouvir e
ver, não: continua vislumbrado. Apenas havendo um daqueles hiatos silenciosos
que ameaçam perdurar por bem mais que eternidade nos séculos de minuto,
nesses momentos em que deveríamos todos pensar pesar; pra continuar ou não mais
falar pelos tempos e tempos amém. Embaraçante.
Embaraçante.
8° - Debalde o Acompanhante buscou o
acompanhante dela; havia prometido ao fã que as manas viriam buscá-la, após o
parto – parto não a fórceps se diga e não parto também porque ela garantira
apenas uma simples troca das pilhas no seu marca-passo, qual se passando com o
relógio do Acompanhante a esgotar pilhinhas – enfim que depois da cirurgia elas
chegariam. Donde? ela satisfazendo o curioso: de minha terra, ora! Porque tem
coisas que indagamos sem razão por obviedade. Contudo buscava informes dela buscando
seu (sua, suas) acompanhante e nada, não propriamente nada, tudo. Perguntou ao
motorista barrigudo e simpático da ambulância de sua cidade. Margarida? ah sim
a Margarida, não fui eu o outro a conduzi-la; realmente a conheço de sobra: em
vila todos se conhecem e é caso perdido...
O Acompanhante sem acompanhantes a dar
notícias mais convincentes a tanta curiosidade e talvez saudade ficou com cara
de tacho; não tem uma expressão desse quilate. Olhou olhou reolhou se perdeu
quem sabe em mais saudades quem sabe em amores mais adúlteros quem sabe em
querências ainda mais platônicas.
- - -
Ela chega em casa respira aspira suspira
e por fim, quem sabe igualmente de saudade ou amor ou apenas apego em condição
platônica. Guarda as coisas, bota o livro massudo “Como se Comportar no
Sacerdócio” em uma cansada estante, instante depois já no atelier
examinando acúmulo de encomendas das freguesas e ainda um pouco fraca pela
jornada hospitalar, embora um Acompanhante só dela pro que desse e viesse.
Nisto ocorre o inevitável: reencontra Pedro João e João Pedro, este escurinho
grandalhão, o outro branco velho aposentado, quase tirou atirou a aliança de
ouro no lixo, numa contida raiva talvez pelo choque ou reencontro ou mesmo em
virtude da desvirtude de não mais apreciá-lo, ao menos como esposo ativo... Daí
dispara a falar na estadia, conta do sofrer sim mas conta de possíveis alegrias
embutidas. Se expressa mais ou menos assim: João Pedro, me dê conta do que fez
nestes dias, estudou o quê? suas notas quero o boletim, não se misturou à
gentalha – ah minha Santa minha Virgem Santa! quantos descaminhos... E você
Pedro João – amarfunha os enchimentos dum boneco de pano claro sujo e vazando
as entranhas, o que fez você em benefício de nosso (corrige a tempo e imediato
para ‘meu’) de meu Joãozinho! Aí olha de novo o menino preto pasmado
desenxavido gasto pelo manuseio. E, habilidosamente, troca como possível nestas
últimas palavras todos ‘o’s pela letra ‘a’, sem ferir a língua padrão.
- - -
O Acompanhante ou chora ou sofre ou
sente ou compara ou apenas se lembra da voz fanhosa do chofer barrigudo “é um
caso perdido...” Aqui sequer desprezando aspas, as quais nunca concluem coisa
alguma.
Marília setembro
2009
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