sexta-feira, 9 de agosto de 2019

(Re) encontro com o amigo


(re)Encontro com o Amigo


1.Ah mas que surpresa... Não, isso não é exato, sim é sempre surpresa agradável encontrar um amigo; porém que seria um amigo? um desconhecido muitas vezes topado visto do repetir a cansar e ainda assim um desconhecido! um amigo a encontrar, todavia melhor sendo o certo reencontrar; contudo anda certa a forma em vista grafar ‘o’ amigo pois você meu único amigo – os outros tidos por amigos não passam de conhecidos reconhecidos e desconhecidos, repito. Você não, sim você o mais autêntico. Além do mais a satisfação do tempo. Ai o tempo, o tempo ensina o sofrer o alegrar e fixar experiências doces ou amargas, enfim básicas ao ser. Nada obstante surpreendo-me, quase, ao reencontrá-lo. Não: optemos pelo sim sim, não não, do dito evangélico, devo evitar a mentira, a si mentira deslavada por nossa convicência no período de longos setenta anos; e isto basifica santifica uma relação, ou não nos suportaríamos nem ficaríamos atrelados (aqui um abuso linguístico!? nada disso, o real). O ‘quase’ na surpresa é em primeiro lugar pelo fato de eu, Irreverêncio da Silva, haver procurado sua nova residência por horas e creio por quilômetros, dos kilometros antigões...  ainda nisto abuso: por alguns quarteirões nesta cidade quieta, indolente? quieta de um silêncio gritantemente absurdo: ninguém fala com ninguém, ainda menos com o desconhecido passante, por exemplo eu Irreverêncio Forasteiro da Silva. Ninguém. Ninguém-zinho a se condoer pela ignorância dos de fora em relação aos de dentro, quer dizer entre estas quatro muralhas de alvenaria; olhe, pra início devera criticar a malfeitura de tais muros que cercam a cidade, tortos e de tijolos nus ou seminus por descascados e piormente sem pintura. Ninguém. Daí vali-me para encontrá-lo de meus sentidos e por fim estou aqui. Primeiro achei a rua, longe ser uma avenida quiçá alameda embelezada com verdes e flores, com seus palácios jardins riquezas estampadas a ofender miuçalha humana passante a ler dísticos de superioridade e suntuosidade. Depois achei-lhe a casa – comento a morada após – enfim a área a residência a porta a clausura do Amigo. Amigo, perdoe-me pela entonação; isso é um vício meu de estilo e gramatiquice na deformação humana. Visto o argumento e tais observações, sendo uma hipocrisia minha se me pegasse supreso. Surpreso sim com a miséria de sua periferia... podendo quem sabe afirmar então que as diferenças sociais (a suntuosidade rica e a miséria pobre nos extratos da sociedade) que elas sobrevivam após subviver à da vida no cemitério! Não são justas minhas indignações? Não são justas as surpresas se houvessem, não há, surpresa apenas neste (re)encontro. Isto porque a supresa só tem lugar diante da ignorância; ora, nos conhecemos, ah como!
Não se peje não se envergonhe não se constranja ao menos diante deste seu amigo que torna. Pois nos conhecemos por convivência diuturna em demorados setenta anos... o que digo! A verdade das verdadeiras é que distante séculos e milênios nosso breve convívio é curto e quase insignificante ponto no tempo e no universo. Não obstante grande e mesmo enorme no somatório de nossas respectivas experiências.
Volto a revê-lo e a alegria em podermos nos estreitar como antes acho válido ao nosso aprendizado.
Não se preocupe, entretanto, em não falar, em não dizer coisa alguma, nem o convencional ‘como vai’ ‘como estamos’ ‘oh como engordou ou como esqueleticou...’ enfim o convencionalismo da gente que se perde em bom-dia, em até à vista. Isto porque sei de sobra meu Amigo mudo. Nunca esperaria exortações simples da alegria no reencontro (ou da tristeza...) e menos esperaria as expressões banais próprio da retórica humana. Embora, admitamos ambos: fomos nos setenta anos o ser comum. Esperar agora o quê? Por outro lado sabe o Amigo que sempre fui tagarela. Será que não me reprovava o vício. Nunca disse nunca esperava eu que falasse: os amigos quase sempre se calam naquilo em que cala um homem; nos inimigos temos melhores amigos pois que dizem, seja a ferir seja por não nos suportar eles dizem, dizem o que pensam; e aí sabemos o que os amigos não falam. Contudo prefiro o amigo ao inimigo, mais ao Amigo aqui presente que me aguentou a matraca por setenta anos... foi mais não foi? foi exato o período de setenta e dois anos e três meses, se minucioso diria agora: e mais três dias, isto em pôr os pingos nos ii e pra não ofender Dona Estatística, uma ciência bem fajuta, a qual só ganha na perda em concurso com a Meteorologia, esta nos faz levar o guarda-chuva, a esquecê-lo na loja, exatamente aquela que não nos lembramos qual e onde; e voltar para casa com raiva, o guarda-chuva enrolado debaixo do braço, sem uso. Mas como viver no estágio em que nos encontramos sem essas vilãs tidas por heroínas na sociedade culta. Bem, sabe, e como! o como fui tramelante, quem sabe se não irritante e isto não perguntaria a Você, você o maior e mais confiável Amigo: não responderia a contento, antes poria panos quentes igual mamãe, ah se lembra de Mamãe, depois falaremos nela).

2.Meu Amigo meu Irmão, torno, volto a revê-lo após tantos anos. Você é você, eu ainda a mesma tagarelice que sabe; agora no esplendor de meu esplendor no entusiasmo do reencontro, aqui não somente em revê-lo mas a relembrar nossos fatos comuns. Perguntava se se lembrando da mãe. Ah a mãe! Quantas besteiras fizemos a assustar nossa genitora... Sabe de uma coisa: a gente se apega às vezes num aspecto da vida e pensa que a vida gire em torno disso. Não é assim, ela de um amplexo enorme com seus positivos e seus negativos, não obstante ou ignoramos ou não os percebemos. Contudo certas circustâncias me voltam à memória de nosso tempo no tempo que era nosso. Por exemplo, eu fazia as coisas, você apanhava pelas coisas que eu fazia; bem, não é bem assim entretanto eu planejava (ou não chegando a planejar, intempestivo) pensava na arte, arte aqui no bom do mal sentido... pensava, enquadrava o quanto fazer, mentor intelectual da ‘arte’, e sugeria... sugerir é pouco: dava-lhe ordens, imperativo como sempre fui; você passivo, bom nas coisas em não pensar bem nas coisas, no malfeito da coisa – Você executava qual mequetrefe, submisso. Depois? depois lembra-se bem como ocorria: mamãe nos batendo. Ah tá lembrado da Dona Chiquinha. Ela chegava em seu lar, encontrava a bagunça a desordem a briga a gritaria dos filhos – o Zeca seu grande coleguinha de brinquedo, sim meu também – na gritaria gritava ela mais que os gritos deles e iniciava-acabava a correção, as palmadas, indiscriminadamente, violentando o malfeitor se malfeitor e os inocentes, isso uma surra democrática. E piormente seu Pedro, quando o marido dela, seu Pedro, bêbado, corrigindo a seu modo com a correia de ventilador deixada num prego na despensa para esse fim e horror da meninada – batia batia batia às vezes sangrava, aí ia dormir como um santo a curtir a cachaça. Mamãe não, você sabe como o como fazia: era de chinelinho amigo manso temeroso em ferir, a mão do pai sim mais pesada, felizmente raro nos bater. Ela não: batia leve mas doendo, lembra!? Você apanhava literalmente, e chorava; eu apanhava moralmente e isto, saiba, não sabíamos, doendo muitíssimo mais. Agora, naquele tempo descobri algo assustador em nossa mãe, Irmão. Exagero, acho haver entendido só na conclusão quando a conclusão se fez (72 e não sei quantos meses, não é?) O seguinte. Ela nunca, veja como pus a ideia: nunca; nunca teve confiança em mim! Péra lá, descontava em seus ouvidos, umas orelhas otiminhas a escutar desaforos e as ruminações dela, hein. Ruminava a senhora e às vezes se voltando à vizinhança, como a D.Chiquinha, a confessar – essas coisas que o ser humano fala e depois pensa em haver abusado, orgulhosa não permitindo voltar atrás: e, assim, acertando o equilíbrio num desequilíbrio da harmonização pela vida em fora... Ah ser humano, e nossa genitora humana (no mal sentido pois dizemos frequente de alguém que alguém é humano a dizer que tem coração). Pois nisso me feria. No final fiz um balanço das coisas miúdas e notei o graúdo do buraco na relação nossa. De maneira que confesso ao Amigo, não mais amava nossa mãe, queria a mulher apenas em mando do intelecto: o coração a repudiava! Não sei seu caso neste caso específico, lembro-me ser mudo e mudo não externa opinião. Creio possa ter tido melhor coração que o meu 'coração intelectual'... Isso querendo dizer: não-confiança materna em mim, em nós dois diria, isso ficou flagrante numa passagem, mil e uma houve semelhantes a provar a prova; mas vamos ao caso. Um dia quebrou-se uma prateleira no lar, a velha velha e solitária com nosso pai falecido; pois bem, mandou-me (atente no verbo; além de piorar a situação o fato de eu ser adulto e não moleque de recados) mandou que chamasse nosso cunhado para arrumar o móvel. Até aí certo. Errado que nosso irmão tenha vindo em casa fazer o serviço e pediu-me explicações no como fazer para substituir partes da peça quebrada; mais ainda: tive de ensiná-lo e emprestar-lhe o instrumental, anda lembrado que eu fazia objetos de madeira no fundo do quintal? Arranjou como pôde, pôde pouco, após tive de rearranjar, consertando eu mesmo, com sua ajuda, aqui memorizando suas valiosas mãos Irmão. Não é isso abuso da falta de confiança da mãe no filho! Mil e uma. Sempre foi assim; nós já moços, velhos também e ainda não confiava em mim. Ah se for contar, re-contar, relembrar a você, se: haveria de escrever um romance, o romance das azucrinações pequenas enormes dela contra mim, contra nós melhor dizendo. Não obstante você perdoou a mãe fácil; enquanto eu a remoer amargores, próprio dos corações intelectuais... Porém não desejo revolver esta lama, que mais me suja que investe contra possível ofensora, a mãe. Antes desejo com o Amigo neste reencontro rememorar outros fatos.

3.Meu caro Amigo, certa vez descobri algo – terei contado o pormenor terrível e colossal ao Irmão! não me lembra – descobri de boca aberta o inusitado. Sim, era inusitado por uma vítima da Estatística constrangedoramente correta, ou quem sabe incorreta em vista estar a consumir antes de consumir; ou seja me definhando antes de estar consumido no vencimento hipoteticamente perfeito, imperfeito. Ah durma-se com um barulho desse, digo a ser original; ao menos pra não enlouquecer meu Irmão antes da validade da sensatez. Vou agora tentar, tentar falei, tentar desanuviar o imbróglio. Seguinte II. Note que eu aos setenta anos e... são dois meses! um dia faço o cálculo certo acerto a conta torcendo em não errar no vai-um, confronto dados, os documentos médicos policiais e do cartório, a fim de somar dias nos meses dos anos e acresço, com certeza então, os meses após os setenta; afirmo setenta e você consta sejam mais mesinhos e diasinhos – não me importa; não, agora. Daí peguei-me com setenta janeiros, sendo que nos últimos anos mudara para dezembros, os dezembro que adoram os sofrimentos da existência... Setenta, não sete, ou seria a melhor mentir, verdade sim mas vezes dez portanto setenta anos. Aqui entram enguiços e a Santa... a Santa? a Estatística. Ela condena o homem brasileiro, somos brasileiros eu e você ou você e eu pra não ser egoísta; ela condena à terrível forca dos setenta anos e quaisquerzinhos meses (verei depois nos números oficiais, pelo menos científicos) o paciente cliente doente ou tão só freguês. Chegou aos setenta, então os números deletam números e põem-nos no Aquivo Morto, com direito a vítima, piormente eu, você por acoplamento, a ela requerer no compulsório a aposentadoria, isto é: morte lenta sem volta. Quero enfim dizer que a Estatística matou seu amigo. Pois na pátria amada idolatrada não se salva um idoso além dos setenta, Dona Estatística, a Santa, prima-irmã doutra Santa, a Burocracia, tão quanto assassina das gentes; Dona Estatística nos pôs na média virtual da liquidação! noutras palavras em liquidação num consumatum est. Não somos, fomos. Hospital velório necrópole ausência lembrança, ou esquecimento. Opto por este alvitre porque a sociedade transforma-nos em número, piormente estatísticos, e em heróis mortos, nós os ex-covardes-vivos. É isso.  Deu pra entender! Talvez volte logo nesta volta, às flores e piadas, aos cerimoniais da entrega lésbica da existência à terra. Oh, que vejo não vejo olho apenas, vejo aí o mato em sua área residencial, Mano...
Mas tenho ressalva em agradecimento à Santa. Ocorre que antes, nos anos quarenta e cinquenta, ditava a mestra ciência que a média de vida do homem brasileiro eram sessenta e cinco anos. O agradecimento tendo em vista à prorrogaçãozinha de cinco anos. Em outras palavras presenteou-me (nos) com mais cinco anos de ais e uis! Obrigado, assinando Irreverêncio Agradecido da Silva, seu criado.

4.Agora, Mano, acalmou mas tava brabo a brabeza deles, os seus pernilongos, você lembra aquele nosso vizinho nordestino que os tratava muriçocas? Morreram, todos morreram, dizem que morreram sumiram ou apenas se mudaram, os vizinhos não os pernilongos. Eu achava graça na sua graça a espantá-los no simples chupar seu caldo... Aí é seu mesmo o sangue, eu olhava desesperançado quando tristonho e apreensivo ou rindo quando de boa veneta seu remexer na cama. E bater e se bater melhor falar e, então, então? seus dedos as palmas das mãos vermelhas – ou do bater ou do acertá-los mesmo... Isso quando não resolvendo atacá-los na parede e ficando as marcas! sujando o reboco a pintura, vamos lá que nossa casa, era a da rua das Primaveras ou a do Jardim do Paraíso nem me lembro, como estava a pobre estragada; a mãe, quando a mãe viva vivia com vergonha até em mostrar nossa residência inclusive aos parentes; ou sobretudo aos parentes, parentes pegam no pé da gente quando não não pegam e guardam o que veem pra comentar longe da gente, nós, parentes. Porém com razão pois toda a casa estragadinha, a pintura velha e suja. Daí você a sujar mais matando os infelizes espremendo-os na parede. Sim, também com razão: ou iria admiti-los zunir seu gritinho na orelha! Plaf de cá plaf de lá, eu rindo. Contudo devem ter extraído de seu corpo jovem forte e rico em sangue um sangue a encher tonéis. Um dia, isso o Irmão lembra bem, você foi olhar no espelho, o espelho de vê-lo horrendo manhãzinho sem dormir e de cara fechada; foi ver viu um rosto marcado de picadas de pernilongo. Aí contou dez marcas! recontou, somou sete que é número mentiroso e pra não ficar mal achou mais três e pronto: sete na face esquerda – então xingou o inseto sugante – encontrou mais três na direita (e dirigiu insultos à mãe do pernilongo) abalançou a cabeça e descobriu ainda dois na testa franzida: despejou educação de rua à família pernilonga até à quarta geração! O que não adiantou coisíssima alguma, tanto que na noite posterior os insetos famintos repetiram a dose; você a dose do plaft da parede da raiva do espelho da contagem – e se encontrava com bem menos sangue decerto. Ri. Choraria? Oh não tem nada não, Amigo. Agora que lhe importando pernilongo parede espelho sangue! Ri por ser engraçado seu toque de ser, ridículo no escuro da noite. Acendia luz a melhor ver não via ninguém: os bichos se escondiam. Apagava voltavam mordiam zumbiam acordava batia espremia se irritava e não dormia. Aí dormiam refestelados. Manhãzinho você achava uma porcentagenzinha que a satisfação dá na gente a encontrar, sacrificava o insignificante para a esmagadora maioria pernilonga viver tranquila. E voltar noutra noite doutro dia cobrar seu sangue! Não era para seu Irmão aqui de volta a lhe relembrar então rir? Ri, ria portanto. Agora tramelo essa recordação cheia de recordação a ambos inteiros... exagero: o Amigo anda carcomido! Ah que horror, lembremos outra coisa mais amena. Amena? mulher é o que há de mais agradável.

5. A verdade desta realidade, Irmão, a verdade é que hoje elas, as fêmeas de nossa espécie, elas sequer encontrariam uma atraçãozinha ao menos em você. Sou duro? sou duro. Mas de sã consciência, o que encontrariam do belo corpo de antes nos dias de hoje. Deixemos este menos ao mais de mais tarde. Amenizemos as coisas, conto o que lembrando a você como toda vida assim: ouvindo. Sim, amenizemos a lembrar as garotas. Que você sempre fora tímido e vergonhoso, patife e medroso mesmo – não poderá desdizer-me defender-se. Poderia nisso acusar-me igualmente... Poderia e ficaria daí eu de boca fechada. Não seria ótima oportunidade a um falante até desastrado por língua solta como a solto agora? seria naturalmente, reconheço-me falador (você equivalentemente mudo). Reconheçamos uma coisa chata: é muitíssimo mais difícil a um tagarela calar-se um minuto que seja, que calar-se um mudo, você por exemplo. Um faz esforço e fracassa; outro sequer precisando esforçar-se pois nunca falaria. Portanto já tenho algum mérito no tentame. Deixemos isso, triste, alegremo-nos recordando as meninas... A Irene, lembra dela, ela era assinzinho com você. Você? a repudiou, vivia caído por outras. Verdade, sabe disso você, eu sei, eu o seguia por toda parte e em toda parte você tentando engraçar as jovens. A Maria a Joana a... ih não sei quantas; saiu-me a Don Juan meu Amigo; queria todas as mulheres do planeta, embora repudiando a pobre que o adorava. Sequer se condoeu na época à morte da infeliz. Continuou nas conquistas e eu me perguntava “o Mano estará planejando um harém!” Ria. Eu me ria de você; por isso; por outras coisas também; aí caindo na real e chorando, por suas fraquezas serem as fraquezas minhas igualzinho. No final... perdeu a Irene a Maria e todas outras e ficou solteirão, solitário, abandonado, preso entre quatro paredes, estas paredes que vejo... Não chore, agora não chore, mas chorar como se  mais não tem o como chorar!? Contudo, Amigo, o quanto foi bom esse tempo de ilusões. Não foi?

6.Daí iniciou-se, continuou numa vertiginosidade absoluta, e acabou nestes dias sua ilusão. No estado em que se encontra, no como o vejo, Irmão. Mas vamos com calma neste andar da carruagem – ou desperdiçaremos este encontro, reencontro.
Como o encontro. Em verdade lastimo antes este lugar escolhido à sua morada, bem pior que aquela das Primaveras pior que o Jardim do Paraíso na periferia feia e miserável em que ambos vivemos embora as ilusões nossas. Você tem aqui como vejo uma casa a morrer... E que é a morte! Sua casa se desfaz, racha afunda minada pelas intempéries. Em volta quase nem o mato bravo consegue viver de sua morte aí embaixo. Vejo os vasos da bobagem humana relegados ao tempo e as flores decerto desaparecidas ao sol inclemente e pela falta de água; as velas são como lágrimas congeladas pelo frio das horas escorridas na alvenaria seca e triste. Não, não é triste, triste o olhar que a vê por matéria não dar opinião. O conjunto sim é triste e por mais que eu fale, matraca como sempre fui, e você olhe (pudesse ver) por mais, o abandono e o silêncio não apenas de sua casa mas da área neste meio urbano em que se encontra, um silêncio onde só quem fala é o vento que não fala e não fala quem já não pode falar. Silêncio e pobreza e desleixo. Silêncio é paz!? Não responda não espero que responda, antes só o fazia quando eu o dispunha ou permanecia mudo; agora! mudo mesmo. Se pudesse, não pode, se, veria primeiro os vermes famintos, o resto depois a química natural o desfez. Onde seus dedos de acariciar de pegar de fazer de doer para que eu sofresse; onde seus olhos de enxergar as meninas e as paisagens, de ver o belo e o feio e o de não ver; onde suas pernas com pés firmes a quilometrar a distância e agora a esqueletar decompostos; onde o resto que se supunha o todo, hoje em partes sem amedrontar as entranhas do solo. Onde? Ainda o encontro, desmontado, no aguardo do poço comunitário, a se confundir com a confusão de todos, não sendo ninguém mas sendo algo ao mundo, o mundo que não soube que o Amigo existiu e que existo e mesmo assim não sabe.
Marília   setembro  2007




         



           

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