(re)Encontro com o Amigo
1.Ah mas que
surpresa... Não, isso não é exato, sim é sempre surpresa agradável encontrar um
amigo; porém que seria um amigo? um desconhecido muitas vezes topado visto do
repetir a cansar e ainda assim um desconhecido! um amigo a encontrar, todavia
melhor sendo o certo reencontrar; contudo anda certa a forma em vista grafar
‘o’ amigo pois você meu único amigo – os outros tidos por amigos não passam de
conhecidos reconhecidos e desconhecidos, repito. Você não, sim você o mais
autêntico. Além do mais a satisfação do tempo. Ai o tempo, o tempo ensina o
sofrer o alegrar e fixar experiências doces ou amargas, enfim básicas ao ser.
Nada obstante surpreendo-me, quase, ao reencontrá-lo. Não: optemos pelo sim
sim, não não, do dito evangélico, devo evitar a mentira, a si mentira deslavada
por nossa convicência no período de longos setenta anos; e isto basifica
santifica uma relação, ou não nos suportaríamos nem ficaríamos atrelados (aqui
um abuso linguístico!? nada disso, o real). O ‘quase’ na surpresa é em primeiro
lugar pelo fato de eu, Irreverêncio da Silva, haver procurado sua nova
residência por horas e creio por quilômetros, dos kilometros antigões... ainda nisto abuso: por alguns quarteirões
nesta cidade quieta, indolente? quieta de um silêncio gritantemente absurdo:
ninguém fala com ninguém, ainda menos com o desconhecido passante, por exemplo
eu Irreverêncio Forasteiro da Silva. Ninguém. Ninguém-zinho a se condoer pela
ignorância dos de fora em relação aos de dentro, quer dizer entre estas quatro
muralhas de alvenaria; olhe, pra início devera criticar a malfeitura de tais
muros que cercam a cidade, tortos e de tijolos nus ou seminus por descascados e
piormente sem pintura. Ninguém. Daí vali-me para encontrá-lo de meus sentidos e
por fim estou aqui. Primeiro achei a rua, longe ser uma avenida quiçá alameda
embelezada com verdes e flores, com seus palácios jardins riquezas estampadas a
ofender miuçalha humana passante a ler dísticos de superioridade e suntuosidade.
Depois achei-lhe a casa – comento a morada após – enfim a área a residência a
porta a clausura do Amigo. Amigo, perdoe-me pela entonação; isso é um vício meu
de estilo e gramatiquice na deformação humana. Visto o argumento e tais observações,
sendo uma hipocrisia minha se me pegasse supreso. Surpreso sim com a miséria de
sua periferia... podendo quem sabe afirmar então que as diferenças sociais (a
suntuosidade rica e a miséria pobre nos extratos da sociedade) que elas
sobrevivam após subviver à da vida no cemitério! Não são justas minhas
indignações? Não são justas as surpresas se houvessem, não há, surpresa apenas
neste (re)encontro. Isto porque a supresa só tem lugar diante da ignorância;
ora, nos conhecemos, ah como!
Não
se peje não se envergonhe não se constranja ao menos diante deste seu amigo que
torna. Pois nos conhecemos por convivência diuturna em demorados setenta
anos... o que digo! A verdade das verdadeiras é que distante séculos e milênios
nosso breve convívio é curto e quase insignificante ponto no tempo e no
universo. Não obstante grande e mesmo enorme no somatório de nossas respectivas
experiências.
Volto
a revê-lo e a alegria em podermos nos estreitar como antes acho válido ao nosso
aprendizado.
Não
se preocupe, entretanto, em não falar, em não dizer coisa alguma, nem o
convencional ‘como vai’ ‘como estamos’ ‘oh como engordou ou como
esqueleticou...’ enfim o convencionalismo da gente que se perde em bom-dia, em
até à vista. Isto porque sei de sobra meu Amigo mudo. Nunca esperaria
exortações simples da alegria no reencontro (ou da tristeza...) e menos
esperaria as expressões banais próprio da retórica humana. Embora, admitamos
ambos: fomos nos setenta anos o ser comum. Esperar agora o quê? Por outro lado
sabe o Amigo que sempre fui tagarela. Será que não me reprovava o vício. Nunca
disse nunca esperava eu que falasse: os amigos quase sempre se calam naquilo em
que cala um homem; nos inimigos temos melhores amigos pois que dizem, seja a ferir
seja por não nos suportar eles dizem, dizem o que pensam; e aí sabemos o que os
amigos não falam. Contudo prefiro o amigo ao inimigo, mais ao Amigo aqui presente
que me aguentou a matraca por setenta anos... foi mais não foi? foi exato o
período de setenta e dois anos e três meses, se minucioso diria agora: e mais
três dias, isto em pôr os pingos nos ii e pra não ofender Dona Estatística, uma
ciência bem fajuta, a qual só ganha na perda em concurso com a Meteorologia,
esta nos faz levar o guarda-chuva, a esquecê-lo na loja, exatamente aquela que
não nos lembramos qual e onde; e voltar para casa com raiva, o guarda-chuva
enrolado debaixo do braço, sem uso. Mas como viver no estágio em que nos
encontramos sem essas vilãs tidas por heroínas na sociedade culta. Bem, sabe, e
como! o como fui tramelante, quem sabe se não irritante e isto não perguntaria
a Você, você o maior e mais confiável Amigo: não responderia a contento, antes
poria panos quentes igual mamãe, ah se lembra de Mamãe, depois falaremos nela).
2.Meu Amigo meu
Irmão, torno, volto a revê-lo após tantos anos. Você é você, eu ainda a mesma
tagarelice que sabe; agora no esplendor de meu esplendor no entusiasmo do
reencontro, aqui não somente em revê-lo mas a relembrar nossos fatos comuns.
Perguntava se se lembrando da mãe. Ah a mãe! Quantas besteiras fizemos a
assustar nossa genitora... Sabe de uma coisa: a gente se apega às vezes num aspecto
da vida e pensa que a vida gire em torno disso. Não é assim, ela de um amplexo
enorme com seus positivos e seus negativos, não obstante ou ignoramos ou não os
percebemos. Contudo certas circustâncias me voltam à memória de nosso tempo no
tempo que era nosso. Por exemplo, eu fazia as coisas, você apanhava pelas
coisas que eu fazia; bem, não é bem assim entretanto eu planejava (ou não
chegando a planejar, intempestivo) pensava na arte, arte aqui no bom do mal
sentido... pensava, enquadrava o quanto fazer, mentor intelectual da ‘arte’, e
sugeria... sugerir é pouco: dava-lhe ordens, imperativo como sempre fui; você
passivo, bom nas coisas em não pensar bem nas coisas, no malfeito da coisa –
Você executava qual mequetrefe, submisso. Depois? depois lembra-se bem como
ocorria: mamãe nos batendo. Ah tá lembrado da Dona Chiquinha. Ela chegava em
seu lar, encontrava a bagunça a desordem a briga a gritaria dos filhos – o Zeca
seu grande coleguinha de brinquedo, sim meu também – na gritaria gritava ela
mais que os gritos deles e iniciava-acabava a correção, as palmadas, indiscriminadamente,
violentando o malfeitor se malfeitor e os inocentes, isso uma surra
democrática. E piormente seu Pedro, quando o marido dela, seu Pedro, bêbado,
corrigindo a seu modo com a correia de ventilador deixada num prego na despensa
para esse fim e horror da meninada – batia batia batia às vezes sangrava, aí ia
dormir como um santo a curtir a cachaça. Mamãe não, você sabe como o como
fazia: era de chinelinho amigo manso temeroso em ferir, a mão do pai sim mais
pesada, felizmente raro nos bater. Ela não: batia leve mas doendo, lembra!?
Você apanhava literalmente, e chorava; eu apanhava moralmente e isto, saiba,
não sabíamos, doendo muitíssimo mais. Agora, naquele tempo descobri algo assustador
em nossa mãe, Irmão. Exagero, acho haver entendido só na conclusão quando a
conclusão se fez (72 e não sei quantos meses, não é?) O seguinte. Ela nunca,
veja como pus a ideia: nunca; nunca teve confiança em mim! Péra lá, descontava
em seus ouvidos, umas orelhas otiminhas a escutar desaforos e as ruminações
dela, hein. Ruminava a senhora e às vezes se voltando à vizinhança, como a
D.Chiquinha, a confessar – essas coisas que o ser humano fala e depois pensa em
haver abusado, orgulhosa não permitindo voltar atrás: e, assim, acertando o
equilíbrio num desequilíbrio da harmonização pela vida em fora... Ah ser humano,
e nossa genitora humana (no mal sentido pois dizemos frequente de alguém que
alguém é humano a dizer que tem coração). Pois nisso me feria. No final fiz um
balanço das coisas miúdas e notei o graúdo do buraco na relação nossa. De
maneira que confesso ao Amigo, não mais amava nossa mãe, queria a mulher apenas
em mando do intelecto: o coração a repudiava! Não sei seu caso neste caso
específico, lembro-me ser mudo e mudo não externa opinião. Creio possa ter tido
melhor coração que o meu 'coração intelectual'... Isso querendo dizer:
não-confiança materna em mim, em nós dois diria, isso ficou flagrante numa
passagem, mil e uma houve semelhantes a provar a prova; mas vamos ao caso. Um
dia quebrou-se uma prateleira no lar, a velha velha e solitária com nosso pai
falecido; pois bem, mandou-me (atente no verbo; além de piorar a situação o
fato de eu ser adulto e não moleque de recados) mandou que chamasse nosso
cunhado para arrumar o móvel. Até aí certo. Errado que nosso irmão tenha vindo
em casa fazer o serviço e pediu-me explicações no como fazer para substituir
partes da peça quebrada; mais ainda: tive de ensiná-lo e emprestar-lhe o
instrumental, anda lembrado que eu fazia objetos de madeira no fundo do
quintal? Arranjou como pôde, pôde pouco, após tive de rearranjar, consertando
eu mesmo, com sua ajuda, aqui memorizando suas valiosas mãos Irmão. Não é isso
abuso da falta de confiança da mãe no filho! Mil e uma. Sempre foi assim; nós
já moços, velhos também e ainda não confiava em mim. Ah se for contar,
re-contar, relembrar a você, se: haveria de escrever um romance, o romance das
azucrinações pequenas enormes dela contra mim, contra nós melhor dizendo. Não
obstante você perdoou a mãe fácil; enquanto eu a remoer amargores, próprio dos
corações intelectuais... Porém não desejo revolver esta lama, que mais me suja
que investe contra possível ofensora, a mãe. Antes desejo com o Amigo neste
reencontro rememorar outros fatos.
3.Meu caro
Amigo, certa vez descobri algo – terei contado o pormenor terrível e colossal
ao Irmão! não me lembra – descobri de boca aberta o inusitado. Sim, era
inusitado por uma vítima da Estatística constrangedoramente correta, ou quem
sabe incorreta em vista estar a consumir antes de consumir; ou seja me
definhando antes de estar consumido no vencimento hipoteticamente perfeito,
imperfeito. Ah durma-se com um barulho desse, digo a ser original; ao menos pra
não enlouquecer meu Irmão antes da validade da sensatez. Vou agora tentar,
tentar falei, tentar desanuviar o imbróglio. Seguinte II. Note que eu aos
setenta anos e... são dois meses! um dia faço o cálculo certo acerto a conta
torcendo em não errar no vai-um, confronto dados, os documentos médicos
policiais e do cartório, a fim de somar dias nos meses dos anos e acresço, com
certeza então, os meses após os setenta; afirmo setenta e você consta sejam
mais mesinhos e diasinhos – não me importa; não, agora. Daí peguei-me com
setenta janeiros, sendo que nos últimos anos mudara para dezembros, os dezembro
que adoram os sofrimentos da existência... Setenta, não sete, ou seria a melhor
mentir, verdade sim mas vezes dez portanto setenta anos. Aqui entram enguiços e
a Santa... a Santa? a Estatística. Ela condena o homem brasileiro, somos
brasileiros eu e você ou você e eu pra não ser egoísta; ela condena à terrível
forca dos setenta anos e quaisquerzinhos meses (verei depois nos números
oficiais, pelo menos científicos) o paciente cliente doente ou tão só freguês.
Chegou aos setenta, então os números deletam números e põem-nos no Aquivo
Morto, com direito a vítima, piormente eu, você por acoplamento, a ela requerer
no compulsório a aposentadoria, isto é: morte lenta sem volta. Quero enfim
dizer que a Estatística matou seu amigo. Pois na pátria amada idolatrada não se
salva um idoso além dos setenta, Dona Estatística, a Santa, prima-irmã doutra
Santa, a Burocracia, tão quanto assassina das gentes; Dona Estatística nos pôs
na média virtual da liquidação! noutras palavras em liquidação num consumatum
est. Não somos, fomos. Hospital velório necrópole ausência lembrança, ou esquecimento.
Opto por este alvitre porque a sociedade transforma-nos em número, piormente
estatísticos, e em heróis mortos, nós os ex-covardes-vivos. É isso. Deu pra entender! Talvez volte logo nesta
volta, às flores e piadas, aos cerimoniais da entrega lésbica da existência à
terra. Oh, que vejo não vejo olho apenas, vejo aí o mato em sua área
residencial, Mano...
Mas tenho ressalva em agradecimento à
Santa. Ocorre que antes, nos anos quarenta e cinquenta, ditava a mestra ciência
que a média de vida do homem brasileiro eram sessenta e cinco anos. O
agradecimento tendo em vista à prorrogaçãozinha de cinco anos. Em outras
palavras presenteou-me (nos) com mais cinco anos de ais e uis! Obrigado,
assinando Irreverêncio Agradecido da Silva, seu criado.
4.Agora, Mano,
acalmou mas tava brabo a brabeza deles, os seus pernilongos, você lembra aquele
nosso vizinho nordestino que os tratava muriçocas? Morreram, todos morreram,
dizem que morreram sumiram ou apenas se mudaram, os vizinhos não os
pernilongos. Eu achava graça na sua graça a espantá-los no simples chupar seu
caldo... Aí é seu mesmo o sangue, eu olhava desesperançado quando tristonho e
apreensivo ou rindo quando de boa veneta seu remexer na cama. E bater e se bater
melhor falar e, então, então? seus dedos as palmas das mãos vermelhas – ou do
bater ou do acertá-los mesmo... Isso quando não resolvendo atacá-los na parede
e ficando as marcas! sujando o reboco a pintura, vamos lá que nossa casa, era a
da rua das Primaveras ou a do Jardim do Paraíso nem me lembro, como estava a
pobre estragada; a mãe, quando a mãe viva vivia com vergonha até em mostrar
nossa residência inclusive aos parentes; ou sobretudo aos parentes, parentes
pegam no pé da gente quando não não pegam e guardam o que veem pra comentar
longe da gente, nós, parentes. Porém com razão pois toda a casa estragadinha, a
pintura velha e suja. Daí você a sujar mais matando os infelizes espremendo-os
na parede. Sim, também com razão: ou iria admiti-los zunir seu gritinho na
orelha! Plaf de cá plaf de lá, eu rindo. Contudo devem ter extraído de seu
corpo jovem forte e rico em sangue um sangue a encher tonéis. Um dia, isso o
Irmão lembra bem, você foi olhar no espelho, o espelho de vê-lo horrendo
manhãzinho sem dormir e de cara fechada; foi ver viu um rosto marcado de
picadas de pernilongo. Aí contou dez marcas! recontou, somou sete que é número
mentiroso e pra não ficar mal achou mais três e pronto: sete na face esquerda –
então xingou o inseto sugante – encontrou mais três na direita (e dirigiu
insultos à mãe do pernilongo) abalançou a cabeça e descobriu ainda dois na
testa franzida: despejou educação de rua à família pernilonga até à quarta
geração! O que não adiantou coisíssima alguma, tanto que na noite posterior os
insetos famintos repetiram a dose; você a dose do plaft da parede da raiva do
espelho da contagem – e se encontrava com bem menos sangue decerto. Ri.
Choraria? Oh não tem nada não, Amigo. Agora que lhe importando pernilongo
parede espelho sangue! Ri por ser engraçado seu toque de ser, ridículo no
escuro da noite. Acendia luz a melhor ver não via ninguém: os bichos se escondiam.
Apagava voltavam mordiam zumbiam acordava batia espremia se irritava e não
dormia. Aí dormiam refestelados. Manhãzinho você achava uma porcentagenzinha
que a satisfação dá na gente a encontrar, sacrificava o insignificante para a
esmagadora maioria pernilonga viver tranquila. E voltar noutra noite doutro dia
cobrar seu sangue! Não era para seu Irmão aqui de volta a lhe relembrar então
rir? Ri, ria portanto. Agora tramelo essa recordação cheia de recordação a ambos
inteiros... exagero: o Amigo anda carcomido! Ah que horror, lembremos outra
coisa mais amena. Amena? mulher é o que há de mais agradável.
5. A verdade
desta realidade, Irmão, a verdade é que hoje elas, as fêmeas de nossa espécie,
elas sequer encontrariam uma atraçãozinha ao menos em você. Sou duro? sou duro.
Mas de sã consciência, o que encontrariam do belo corpo de antes nos dias de
hoje. Deixemos este menos ao mais de mais tarde. Amenizemos as coisas, conto o
que lembrando a você como toda vida assim: ouvindo. Sim, amenizemos a lembrar
as garotas. Que você sempre fora tímido e vergonhoso, patife e medroso mesmo –
não poderá desdizer-me defender-se. Poderia nisso acusar-me igualmente...
Poderia e ficaria daí eu de boca fechada. Não seria ótima oportunidade a um
falante até desastrado por língua solta como a solto agora? seria naturalmente,
reconheço-me falador (você equivalentemente mudo). Reconheçamos uma coisa
chata: é muitíssimo mais difícil a um tagarela calar-se um minuto que seja, que
calar-se um mudo, você por exemplo. Um faz esforço e fracassa; outro sequer
precisando esforçar-se pois nunca falaria. Portanto já tenho algum mérito no
tentame. Deixemos isso, triste, alegremo-nos recordando as meninas... A Irene,
lembra dela, ela era assinzinho com você. Você? a repudiou, vivia caído por
outras. Verdade, sabe disso você, eu sei, eu o seguia por toda parte e em toda
parte você tentando engraçar as jovens. A Maria a Joana a... ih não sei
quantas; saiu-me a Don Juan meu Amigo; queria todas as mulheres do
planeta, embora repudiando a pobre que o adorava. Sequer se condoeu na época à
morte da infeliz. Continuou nas conquistas e eu me perguntava “o Mano estará
planejando um harém!” Ria. Eu me ria de você; por isso; por outras coisas
também; aí caindo na real e chorando, por suas fraquezas serem as fraquezas
minhas igualzinho. No final... perdeu a Irene a Maria e todas outras e ficou
solteirão, solitário, abandonado, preso entre quatro paredes, estas paredes que
vejo... Não chore, agora não chore, mas chorar como se mais não tem o como chorar!? Contudo, Amigo,
o quanto foi bom esse tempo de ilusões. Não foi?
6.Daí
iniciou-se, continuou numa vertiginosidade absoluta, e acabou nestes dias sua
ilusão. No estado em que se encontra, no como o vejo, Irmão. Mas vamos com
calma neste andar da carruagem – ou desperdiçaremos este encontro, reencontro.
Como
o encontro. Em verdade lastimo antes este lugar escolhido à sua morada, bem
pior que aquela das Primaveras pior que o Jardim do Paraíso na periferia feia e
miserável em que ambos vivemos embora as ilusões nossas. Você tem aqui como
vejo uma casa a morrer... E que é a morte! Sua casa se desfaz, racha afunda
minada pelas intempéries. Em volta quase nem o mato bravo consegue viver de sua
morte aí embaixo. Vejo os vasos da bobagem humana relegados ao tempo e as flores
decerto desaparecidas ao sol inclemente e pela falta de água; as velas são como
lágrimas congeladas pelo frio das horas escorridas na alvenaria seca e triste.
Não, não é triste, triste o olhar que a vê por matéria não dar opinião. O
conjunto sim é triste e por mais que eu fale, matraca como sempre fui, e você
olhe (pudesse ver) por mais, o abandono e o silêncio não apenas de sua casa mas
da área neste meio urbano em que se encontra, um silêncio onde só quem fala é o
vento que não fala e não fala quem já não pode falar. Silêncio e pobreza e desleixo.
Silêncio é paz!? Não responda não espero que responda, antes só o fazia quando
eu o dispunha ou permanecia mudo; agora! mudo mesmo. Se pudesse, não pode, se,
veria primeiro os vermes famintos, o resto depois a química natural o desfez.
Onde seus dedos de acariciar de pegar de fazer de doer para que eu sofresse;
onde seus olhos de enxergar as meninas e as paisagens, de ver o belo e o feio e
o de não ver; onde suas pernas com pés firmes a quilometrar a distância e agora
a esqueletar decompostos; onde o resto que se supunha o todo, hoje em partes
sem amedrontar as entranhas do solo. Onde? Ainda o encontro, desmontado, no
aguardo do poço comunitário, a se confundir com a confusão de todos, não sendo
ninguém mas sendo algo ao mundo, o mundo que não soube que o Amigo existiu e
que existo e mesmo assim não sabe.
Marília setembro
2007
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