segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Uma Expressão pede Socorro


Uma Expressão pede Socorro

- Estivera na cidade abandonada... não, isto um exagero pois se não febricitando em movimento e poluindo sentimentos era ao menos pacata lenta no andar de sua gente. Estivera lá, lá andara horas, aqui em novo abuso visto urbes pequenas pouco mais de mil passos já saindo do perímetro habitado. Habitado sim mas os olhos que viam, as orelhas que escutavam e o coração a pulsar sentimentos, percebiam o ‘agito’ da gente; todavia a gente olhava o que olhava vendo-se só. Isto um aspecto curioso da solidão, porque o homem pode estar na maior concentração populacional do planeta, ainda assim solitário... Contudo não importa que alguém ande na multidão, só, só realmente, mesmo estivesse igual o filósofo Diógenes acompanhado apenas duma lanterna para achar no sol claro um homem íntegro. No caso presente seria aos olhares mundanos um homem estranho, sem se exigir integridade dignidade essas coisas.
Assim, esbanjavam solidão os olhos que viam e as orelhas abertas escancaradas esquadrinhando seres humanos no falar do povo.
Então perceberam – parara um sujeito como que de propósito, o propósito poderia aqui ser deslanchado numa análise encardida, dessas teimosas em querer saber tudo e no caso o propósito – notaram a expressão das pessoas ali a passar. Sim, os olhos curiosos as orelhas de abano melhor a recolher o que ouvir e o coração a sentir, tudo observaram o que diziam aqueles rostos, dentro da verdade que se garante ninguém ser absolutamente igual. Uns expressivamente risonhos outros alegres realmente outros ainda deprimentemente tristonhos; e o pior nessa abordagem o existir mil faces indiferentes... ou quietas do tipo túmulo fechado, porque o túmulo aberto ainda não é tão sombrio; ou temerosas ou maliciosas ou sigilosas estando a se fechar em sete chaves ou... ah, não importa. Importa que ela passara, lentamente, nuns passos medidos ou cuidadosos, imperante e decidida a levar o que levar, levava uma indignação um rancor desses quase impossível ser retidos; ou mesmo ódio declarado, o que menos perigoso que o detido por boca fechada com a chama o raio a descarga preste a explodir em quem de direito ou porque havendo sido ferida nos direitos dela!
A vista a audição haviam se comprimido na ponte... a ponte? ora, pararam decerto a melhor observar ou para fazer estudo mais acurado no vão, mais precisamente nos altos do viaduto; embaixo era o barulho ensurdecedor demais vivo das conduções a cruzar a cidade morta... mas onde morrera se a gente a passar a se expor ali na frente, uns a andar vagaroso outros a querer chegar logo e primeiro onde chegar e portanto rápido,  a maioria dos passantes sim a lerdear ou somente a brigar no ponteiro de minutos contra os apressados defensores do dos segundos. Enfim a gente passava meio apertando espremendo aquelas vistas já cansadas aqueles abanos já gastos tanto uso – pois que o observador se fixara encostando no gradil e no corrimão da ponte, aquela ponte trepidante tremendo à passagem louca lá embaixo dos veículos na rodovia encarnando a loucura, aumentando ainda a loucura com o zunir dos motores os gritos das buzinas e o farfalhar das cargas chocalhando ao vento e ainda tendo o som oco pesado dos mil pneus aquecidos no asfalto negro que sumia nas extremidades, ora quem enxergando à direita ora quem enxergando à esquerda até o findar não da estrada porém do poder visor dos olhos e aí, aí o tremelicar o vaporizar na interrogação.
Mas ela já não via isso, vira tanto tanto tanto e não percebia agora mais, sentindo não mais agora que os seus problemas; problemas que em vão sua face tentava ocultar...
No entanto passando muita gente como a perfazer um desfile sem intenção, ainda assim um desfile, o passar ali rente ao observador vagabundo... opa! por que será que somos tentados concluir na pressa que alguém pelo simples fato estar parado qual estátua em cima duma passagem estreita onde circulam habitantes duma terra abandonada ou só na quietude interiorana seja um vagabundo; e daí a chegar à perversidade à bandidagem ou só vadiagem dum batedor de carteiras que é mero ladrão de galinhas de tempos idos e agora na vestimenta do larápio de lugar pequeno com grande ajuntamento matuto. Não: isto abuso de imaginação ou traço poético dum escrevinhador ou borra-papéis, desocupado por definição. Não, aqui somente olhos, também pacatos também matutos, olhos no ver essa variedade humana a desfilar uns indo ao serviço outros voltando dele e mais gente a passar às compras às tarefas a encher o tempo que se não vê e existe. E mais, tem mais! tem crianças, escolares a atravessar a ponte atabalhoadamente e aos gritos da brincadeira sadia na infância. Tudo, tudinho ali a ser flagrado por robustos ouvidos de escutar e olhos de enxergar. Pior, pelos de sentir e pior no pior: de anotar...
Ela no entanto fulgurava nesse concerto desarranjado pelo imprevisto. Fora, voltava agora.
- - -
Ela já não sentia isso...
Olhava o sujeito aquele rosto estafado que pedia socorro na sua ânsia na sua aflição e na demonstração do desgosto. Fumava. A rememoração da foto na memória descobriu ranhuras, o que podendo ser demonstrativo da idade, no instante em que chupando gulosa ou nervosamente o toco do cigarro.
Sentou-se a nosso lado na saliência do vão no gradil – onde a gente se sentara a olhar e a se resguardar na sombra pouca de árvore viçando desde lá embaixo da rodovia até aqui em cima onde nos aboletávamos – o gradil posto decerto a proteger para que não se caísse na loucura do trânsito que tremia o vão a ponte o bando improvisado a passar, nós outros descansando nossa visita e a mulher estranha ao estranho ali indagativo e curioso; sentados nós, olhos ouvidos coração e claro ela que chegara depois. Apesar da adição do perfume barato, aspiramos ainda o hálito que desprende um fumante, nela entretanto pesava mais feria mais por ser mulher e mulher dificilmente cheira forte tabaco. Suava, a sudação parecia como que impregnada já no corpo ou do corpo para o móvel de pedra ou de cimento no qual se encostava. Notamos ser a criatura frágil e magra e alta e meio esquelética, ou imaginamos ser alta pelo estado de magreza o que impulsiona para cima as medidas do ser humano. Agora nada disso interessando, olhávamos interessados e ouvíamos quase seu respirar, não obstante o estrondo da passagem de cada jamanta barulhenta por baixo de nós todos, um respirar sincopado (o nervosismo dum ser costuma trair o que desejamos esconder... e convenhamos: ninguém com direito a saber o que dentro daquela mente estranha); mas por que estranha, somente por sermos também estranhos quiçá vagabundos, credo!
Bem, o fato concreto é ter ali aquele virtual, quem sabe desejando externar o sofrer. Parece que muita gente ainda não descobriu que franquear uns abanos seja uma caridade e tanto. Enfim é o que tínhamos a nosso lado.
De repente – ah que expressão mais tola pois não existe nada no mundo que seja propriamente intempestivo e de graça, tudo sendo pensado, às vezes sofrido até, antes de exposto; no entanto que seja um despretensioso repentino – assim tirou da bolsa encavalada a tiracolo no ombro esquerdo um maço de cigarros para um novo pitar; jogara pra cima a bituca que quase incendiava já os seus beiços marcados pelo grude do batom leve ou vencido, e essa ponta num expulsar quase estalada por dois dedos viajou para o alto e perdera força engolida pela força de gravidade despencando lá embaixo nos carros a beber aquele ato sem educação e sem prova, por não se poder provar quem o malfeitor, aqui malfeitora. Quase também acenderia o novo cigarro no velho que fora atirado no vão nos veículos em alta poluição sonora e do ar. Clicou um isqueiro gasto no uso e acendeu a coisa ao terror dos olhos e ouvidos, os nossos. Chupou chupou chupou engoliu aquilo, a fomentar futura internação por conta da saúde pública doente e sem verbas lamentam críticos. Tragou, assoprou, baforou o ambiente, um pouco sem pensar nisso aquela dama... seria uma senhora a senhora ainda jovem velha no estrago da existência frustrada e fustigada? Como responder a isso de uma desconhecida um desconhecido. Olhamos pro seu lado sem nada dizer, enquanto ela fungou e até arquejou qualquer som, na condição do homem mui sobrecarregado no cérebro a estourar e quando se dá conta já proferiu alto uma palavra (geralmente uma ofensa ou mesmo um xingamento dos que se fala sem pensar e sem ação do crivo crítico que temos em nós) ou até frase para logo se arrepender, o que pareceu o caso da mulher estranha ao estranho. Contudo não pareceu se agastar ou terá interpretado dizer indevido apenas no interior da cabeça sem liberar a fala; e assim se calou ou se pensou muda. Ouvimos nítido entretanto “aquela maldita!” (inclusive com a entonação do sinal exclamativo). Olhou pra lá pra cá rápido, fixou-se em nós, nossos ouvidos atentos ao que der e vier e nossas vistas se fecharam num tentar não envergonhar aquela cidadã da urbe morta ou desconhecida, desconhecida antes de nossos passos a esmo no gastar os paralelepípedos e o asfalto precário cobrindo as vias. Desconversamos, isto um absurdinho visto estarmos calados e ela a se pensar muda embora ruminando desconexos nas palavras, de fato sem qualquer sentido a um estranho adredemente sentado no seu descanso e curioso.
Todavia a mulher não deixou que o novo cigarro ficasse velho nem atirou o mesmo a poluir ou assustar condutores lá embaixo. Não, educadamente apagou o tubinho de tabaco no maço, batendo cinza e fogo e fumaça, apagando de vez e atirando o resto no chão que nós ambos pisávamos e também pisavam os que pisavam no vaivém ali em nossa frente. Levantou-se, sequer lamentando haver ficado tanto tempo e tão próximo de olhos visitantes e aos olhares decerto dos seus conhecidos, parentes comadres ou quem sabe adversários e até inimigos... Levantou-se simplesmente, se arranjou se olhou examinando porventura haver ficado despenteada nos cabelos curtos ou com alguma peça de roupa fora de lugar ou amassada demais, o que vergonha aos vaidosos ou àqueles apenas menos relaxados. Então se pôs a sair dali; curiosamente se dirigindo para a direção exata donde viera! Ora, nos indagamos, por que não prosseguiu como vinha vindo antes, não atravessou toda a ponte, segurando no corrimão, como obrigatório fosse numa velha era nova porém desgastada. E sumiu na visão do matuto de olhares constrangedores e de ouvidos abusivos talvez e de coração mole com seu sentimentalismo.
Não sumiu de fato. É que nossas vistas perderam de vista a estranha por algumas horas.

- Não agora, agora caminhamos lentamente compassadamente firmemente absolutamente à beira de túmulos abertos ansiando uso abuso quem sabe, ainda passando talvez desapercebidos pelas alamedas por entre capelas suntuosas cruzes nobres sem cruzes aparentemente e feitas de metais preciosos e com arte a brilhar na manhã radiosa ao longe deste perto cheio a eles de ventura e vida e alegria e promessa; decerto desapercebidos da estatuária uma estátua carrega a cruz imitando a cruz e quer desfiguradamente mostrar o sofrer pelo sofrer como creem os homens; e decerto também desapercebidos das flores que imitam flores na pedra no mármore no brilho oco fosco sonso do pobre reflexo do sol da manhã de promessa nos sepulcros bem caiados por fora pelo tesouro; e pelo esquecimento dos que possam se lembrar. Mas não, poucos dos andantes nesse cortejo fúnebre não percebem o fausto do nada exposto mostrado às vistas quiçá a provocar ouvidos com o silêncio dos mortos e dos seus andrajos enfeitados por fora como riqueza. Poucos. Muitos, quase a totalidade dos que carregam Aparecida desaparecida ontem no mundo dos viventes olham o vistoso; contudo passam, seguem todos à frente em busca da “morada definitiva”, diz a rua, da devida residência pobre da pobre Aparecida; Aparecida ao comum – vizinhos conhecidos amigos, amigos!? parentes e curiosos também (há um bêbado que surgiu do nada no nada dum velório) – sim ao comum o apelidá-la apenas Cida, encurtando escrever economizando tinta visto haver sempre algum louco a registrar, tão só a registrar as coisas, coisas como este acompanhamento do féretro que passa agora na classe rica da cidade morta ou só desconhecida do desconhecido ou mesmo apenas estranha. O cortejo dos homens que levam no inferno de passos curtos lentos sem parecer turismo, longe longe disso, caminha ao paraíso no depósito de um corpo, que é o soma na soma de sofrimentos e algumas enxeridas alegrias. Pois é assim o pensar em pesar no homem da rua. O qual atrás um a um comportadamente doutros homens e caminham passado o quadro ‘belo’ da quadra milionária eivada de aparatos, distantes do próximo; e então esse cortejo molenga ou disciplinado e ou só imitador vê agora os menos ricos ou mais ricos para os pobres que seguem um caixão barato no menos caro para os que somente podem pagar a primeira prestação e assim admiram os túmulos baixos àcima dos já esqueleto, antes só podridões e choros dos que ficaram. Nisso não há alegria, alegria? é claro; há curiosidade bastante, o homem é curioso por natureza. Vê-se tumbas apenas pintadas ou relegadas ao mato à sujeira ao pó do tempo; ao esquecimento dos que se lembram quando lembram lembrar. Não tem estátuas nem mármore nem brilho mas tem pintura ou tijolo descascado carcomido em cima como fosse veste visto por baixo; e ruelas a passar para que se passe a pisotear as estreituras e o que mais tem quando tem são flores murchas igual a vida murchada acabada, essas flores que foram naturais; tendo ainda muitos dísticos com dizeres que nada quase dizem e algumas fotos indicativas apagadas embaciadas de coloração antiga dos mortos quando vivos ou apenas virando agora saudade, retocadas a deixar na imagem belas aquelas feiuras ou a esconder melhor o feio quem sabe. E têm cheiros, cheiros bastante também, ou de vela queimando queimadas ou de frutas estragadas igualmente mortas e em decomposição e mais o cheiro horroroso (interfere adjetivando o nariz nos olhos nos ouvidos estranhos de visitante à cidade abandonada ou morta de fato, ali o lugar adequado à morte) sim escandalosamente horroroso cheiro de gente a gente nos finados e no dia de todos santos comprimida na visita suarenta aos seus mortos e aos mortos de outros não mortos ainda, aos mortos frios quietos nos seus respectivos corpos, quando não o soma na soma dos poços de ossos ocos mortos, a economizar terreno espaço tempo e dinheiro, tempo é dinheiro dizem apressados teóricos. Contudo vencem passam deixam a ala quase rica pudesse perante a cidade dos pés juntos (diz a brincadeira caipira) essa parte, deixam-na para onde ruma o cortejo da Cida rumo à última estada dessa mulher. Ou tão só a cumprir o dever de cidadão e de cristão no pensar comum.
Agora caminhamos então para a ala dos mortos pobres mortos e pobres ou mais pobres quando vivos, se vivos, viva a Cida. A morta urbe no orbe sofrido, sofrida em terra solta terra fofa sofrida também da Terra, é igualmente a negação da beleza e da arte numa arte jogada atirada ao acaso como ocorre em acaso, o caso da morta morta viva era Cida, vencida pelo cansaço e a dor como comum acontecer. Seus convidados, muitos forçados pela circunstância aqui em belo dizer, eles vão indo devagar quase parando quase respeitosos, não obstante desconversas para fugir do tétrico do fúnebre do pesado do momento; na direção da direção, a direção indicada por funcionários convencionais, os coveiros aguardam mais um serviço, depois seriam decerto acertos nos desacertos conjugais para um ou para todos, a mais nova com febre os outros pequenos com suas grandes exigências para bolsas exíguas mas a situação é necessária como o mal; e então eles se voltam à chegada de mais um fim, para eles apenas mais um serviço dentro do trabalho onde lotados e o chefe é chato igual outros chefes que mandam nos desmandos. O povo quase afoito ou somente curioso e espevitado vai rodeando o buraco menor que o buraco do mundo que é agora o residir da Cida, a Cida que no instante certamente não pode vê-lo, só os acompanhantes em ter o privilégio momentâneo e precário e no sentir as barbas de molho ao futuro cobrador; e todos, quase todos, a se indagar quem o próximo nesse distante a satisfazer a distração humana. Contudo as visitas que acompanham mais um morador – moradora sofrida a bem da verdade e que ora parou de sofrer no sofrer da interpretação do homem da rua – mais um entre tantos na necrópole que é uma repartição municipal com poder funcional mesmo naquela pobre parte pobre. Onde se vê vemos também os dois olhos a piscar a chateação e as duas orelhas em abano curiosas de ouvir comentários do que pensa que pensam os que pensam ou só falam sem se preocupar pensar do que são mil montículos com cruzes, cruzes! e embaixo não se vê ver-se-ia mil e um vermes se alimentando nos destroços cadavéricos e agora mesmo eles aguardando mais um defunto, a morta chegante. Veem covas quase rasas com terra por cima e mais nada tudo meio nivelado no ser não no ver. Uns abusam do tempo ou do relaxo, pisoteados quando como agora na chegada do esquife mais barato que se pôde adquirir com a garantia dos vivos à morta pela gasta vaquinha ou cotização dos presentes frente à funerária, a qual não raciocina porém conta com seu computador todo acelerado a apurar despesas gastos trabalhos lucros e não admite perdas. Uns poucos, felizmente uns poucos, uns montes de terra já desapareceram nivelados do tanto pisar desavisados e seus grânulos de sílica comprimiram-se desapareceram como túmulo no guardar seus mortos, os vivos mais interessados na descida do novo corpo da velha, em atirar três montinhos formais ou cerimoniosos sobre a tampa fechada adredemente e após são pás suor fungar dos homens que trabalham e tem um deles que empilha mais rapidamente possível as coisas que se vão acrescer no vão já a fechar para fechar ele mesmo o serviço do dia e correr pra casa ouvir a reclamação dela o choro das briguinhas dos filhos e isto tudo é mais vida que aquele paradeiro da morte da Cida, quando já os acompanhantes se preparam ou no guardar lenços de chorar ou a pensar mais vividamente nos problemas mundanos que são os seus problemas; porém tem alguém ninguém conhece ali que entrou no corso um pouco dopado por caninha e sequer sabe o nome do morto, que era morta quando viva; cujo registro seja nessa repartição seja noutra como o cartório de nascer ou de casar era então Aparecida Silva e tendo outro sobrenome em nome de família a acrescer, parece que Gonçalves Almeida Rodrigues... agora sem importância por desnecesário.
No conjunto a nova morada da velha ou nova senhora desgastada tida por dona Cida no Buracão, vila pobre mais favela que urbanizada, mais miserável que os destroços pobretões na vizinhança sendo uma periferia sem sequer aparecer no mapa da cidade abandonada ou desconhecida pelos desconhecidos olhos-e-ouvidos, mui conhecida ela nos arredores pelos demais detentores de sofrimento. Nesse conjunto novo tão velho como o mundo onde nova morada da mulher, não se destaca a beleza e nem a arte; mais que esse menos: se respira um ar de constrangimento explicável um silêncio embaraçoso e há a vista para se perder de vista assim que se passe fora dos seus muros, cujo portão de entrada agora de saída tem inscrito sentença a dizer do pó se vindo e se virando então outra vez pó, numa língua estranha pra se poder ler quem no cortejo fúnebre e a deixar no rumo de casa e seus dramas esse drama.

3° - Não agora nesse sepultamento, antes. Antes era a vida, no que se pensa como vida mas tão só existência curta precária em torno de uns setenta anos; Cida ultrapassou o assentado de setenta pela estatística embora dando-se a esse pagamento forçado nos setenta janeiros e por fim mesmo dezembros uns cem anos, o que próprio dos exagerados pois nova no modo matuto de falar e vivendo numa velhice precoce já bem antes dos setenta, demonstrando isso sobretudo nos finais de seus dias quando enterramos um verdadeiro destroço humano.
A morena Donacida, assim a se expressar a vizinha da vizinha, Donacida hoje, ontem anteontem trasanteontem antes ainda, hoje ou seja nos últimos tempos, possuía o amorenado da pele enrugado de tanto apanhar da vida, gasta cansada feia mesmo; se bem nesse mal perigoso afirmações visto não sabermos suficiente o que seja feio em oposição ao belo também impróprio nem o que vindo ser moreno. Nisto achamos que a gente vai esbarrar em algo caro ao modismo do preconceito atual, atual mas que sempre existiu, e ainda esbarrar na lei que tenta impedi-lo. A pisar ovos evitamos pichar alguém como preto, o negro menos preto na agressão verbal; diríamos então ‘crepe’ aproveitando o fato de o povo desconhecer o vocábulo e assim atingindo o alvo sem ferir sensibilidades; melhormente se sai a gente comum com a palavra ‘moreno’ a qual não diz nada. Desse jeito em referência à Cida no bairro do Buracão na cidade estranha pequena acanhada ou talvez somente desconhecida ao desconhecido, nós; assim disseram os que diziam ser morena, a morena cultivou relações (isto uma imprecisão porque dificilmente cultivamos conscientes amizades, o que nada nos custaria) relações, umas aparentemente positivas outras negativas por toda uma vida. Veio de Minas ou de Mato Grosso ou apenas com passagem por essas paragens e se fixou na cidade, vivendo quase numa só casa pelo resto da existência; ou trocando a morada algumas vezes entretanto sempre dentro do Buracão, bairro pobre e de má fama... Das amizades se feriu bastante numa comadre um pouco linguaruda ou por falar um pouco muito fácil ao gosto da prudência; uma relação conflituosa de ambas e provavelmente sendo essa vizinha a pessoa que lhe escapara do crivo como “essa maldita”, flagrantemente já um desafeto um inimigo mesmo ou mesmo fruto de amizade desfeita, o que mui encontradiço em nossa aprendizagem no planeta.
Não nos descuidamos com nossos olhos e nossos ouvidos a procurá-la naquele dia do encontro na ponte quando ela na multidão, isto sonando absurdo e apenas permitido à poesia desgraciosa dos que rabiscam porque multidão numa cidade miúda, por mais desconhecida que sejá, é improvável, provável só ajuntamento nas ruas com as pessoas interessadas no comércio em dia de semana como o tal dia, ainda assim na época da colheita com roceiros a aparecer. Digamos houvéssemos cansado as pernas gastas atrás de Aparecida desaparecida desde a ponte indo não sabíamos onde – ah sim no meio do vaivém citadino; não se suponha maldito agito apito grito do povo e dos guardas num trânsito caótico e poluído, não. Não, o povão andava a contento contente no seu lerdear, nada de encontrões de desculpa de lamentação e de uf em alívio na ultrapassagem da pressa perante o magote humano. Sequer tínhamos nós semelhante pressa ou aflição em chegar, se não sabendo onde e piormente a quem chegar. Por muito custo encontrâmo-la horas depois e quando já desistindo da empreitada, mesmo porque viver tanto tempo à procura de quem não se conhecendo e mais do que a pessoa fazendo seria não ter o que fazer na vida (a pecha de vagabundo voltava célere à mente...) Por fim, havendo fim não há nunca em nada em tudo, achamos Aparecida a explicar numa voz rouquenha não se sabe o que para alguém, a uma senhora ainda mais desconhecida que a Cida desconhecida. Não precisamos indagar, indagar! não precisamos sequer parar escutar prestar atenção nas vozes: elas imediato se despediram e a morena com que nos encucávamos andou para sua casa, mais ou menos distante e a distância é só da conta do cansaço de quem cansado, a gente exausta; a distância é relativa para quem a permeie ou para quem a avalie, assim relativo como o tempo que é um dado ‘impegável’.
Aqui tomamos o primeiro susto, não fossem as horas passadas mais intrigantes e de pouco esclarecimento para conhecer a personagem dessa visita à cidade pequena estranha ao estranho. A residência da pobre – agora a falar como conhecedores profundos após muito tempo até a descida do caixão na cova aberta fechada – a residência não passando dum tugúrio dum casebre tendo paredes de barro grosseiramente justaposto em varas umas de pé outras horizontais e tudo prensado  e com buracos ótimos aos enxeridos vento chuva frio era então calor e ainda a construção com telhado sem telhas porém de sapé ou coisa assim. Ainda mais menos nas possibilidades visto a casa pequena, acanhada, diminuta, dessas de se pensar “como possível entrar nela como permanecer nela como sair dela”, como também não bater em cima nesse baixo a cabeça! Mais no menos: não suportaria a morada ventania braba que dirá tufão, parecendo um bocado a casa de penas assopradas numa estória da carochinha. Nada obstante Cida entrou na mesma e fez lá o que fez, não vimos não escutamos, o nariz abelhudo logo acusaria cheiros de alho e doutros temperos; daí sim escutaríamos o bater dos trens de cozinha o tilintar engraçado de talheres e pratos e mais a nos aguçar a curiosidade vozes, não só a roufenha dela e sim um vozeirão desagradável masculino e umas finurinhas de criança, crianças a bem dizer. De repente, o que todos espantos todos sustos compreendem o suficiente, de repente a mulher sai à porta, quase uns metrinhos de pano de saco de estopa e não uma comportada de ferro ou de madeira e aqui mesmo que a porta fosse escangalhada; enfim empurrou os panos de entrada-saída, saiu ao terreiro mil vezes sujo com mato e cacarecos de brinquedos de menino espalhados, e nesse lugar achou umas achas adredemente partidas dum tronco, juntou-as como fosse uma criancinha de colo no colo abraçando o feixe e assim o levou para dentro do que decerto chamando cozinha. Imediato pôs tudo no fogão caipira e acendeu (o nariz ali perto reclamou do cheiro de enxofre do fósforo que não é fósforo; isso uma coisa de nariz não dizendo respeito ao que se via ouvia numa curiosadade quem sabe indecente) acendendo a custo, terá assoprado até arder os olhos, dela não os nossos, e então subindo espalhando-se a fumaça negra cinza branca e lógico o cheiro de lenha no esquente de vasilhas na chapa de ferro a talvez parecer brasa avermelhando e isto certamente um absurdo na interpretação; a seguir sim: primeiro o hálito da lenha na combustão e segundo o dos temperos conforme acusado pelo atrevido nariz, aqui garantimos ser o nosso não o dela, os deles.
Mais não vimos!? Não pudemos diante de nossos compromissos (de vagabundo? credo) não pudemos permanecer vendo nada escutando possíveis, diante duma fome braba, que por sinal nos foi lembrada pelo cheiro gostoso, que seja o exalar bom da comida da senhora então quase estranha ainda; não iríamos esperar que a Cida, já nossa concreta conhecida virtual fosse em nome da amizade boa vizinhança bonomia hospitalidade e coisa desse jaez oferecer-nos almoço. Assim nos ausentamos indo comer um prato feito, conforme a fala da região, num bar metido a restaurante, barato como é do gosto do bolso.  

- Fincamos pé ficamos à espreita e espera aguardando acontecimentos, o caboclo diz “de butuca” enfim de olhos mas escondidos, não obstante ali na berlinda no ver o que surgisse no ouvir o que pudesse e inclusive ajudado por este nariz adunco frequente a gozar no mau sentido nossos abanos de orelhas quando ele mesmo (gozam as orelhas) ele parecendo um tucano, avantajado. Sim, o nariz atento a cheirar a xeretar frituras e hálitos possíveis que entregásse-nos o inimigo nesta guerrinha particular, visto os de Cida mais ou menos encurralados não saíam nessa primeira abordagem da toca, um tugúrio um casebre de porta de pano com janela também de saco de estopa a tremular trepidar ao vento; que no Buracão soprava frio forte úmido após haver visitado lá em cima aqui em baixo a friagem... Com tudo isso isto válido aos começos quando inda indo tentarmos saber dela sem saber sequer seu nome. Note-se que nunca desde esse tempo até chegar lá (o fim o enterro o nada nesse tudo) enfim em toda fase nunca soubemos o nome inteiro e válido – aqui validade burguesa que nos impingem num histórico absoluto da verdade com todos pingos nos ii, quiçá nos registros em cartório – não válido ao povo pouco preciso muito precário nos postulados e na registração. Importa no entanto que todos na vila a conhecê-la, sem o abusivo conhecer absoluto e mesmo às implicações todas que o conhecimento exige como nas coisas históricas; e nisto nos jactar por haver descoberto que a História, exato: essa escrita com agá grande de homem com ‘o’ maiúsculo; havermos em suma descoberto que a História fora até aqui coleção de mentiras! Queiram permitar-nos a exclamação como prova duma prova. Não, sim: todos no bairro a conhecê-la por Cida, fora a vizinha da vizinha Cida e aquela sim excepcionalmente a chamando (melhor nisso gritando pois o homem do povo descontrola alto e ‘decibela’, esta expressão verbal inventada agora para acertar a ideia desejada, o povão decibela nos gritos) chamando a vizinha, sem gritar por “Donacida”, nem a comadre sabendo que a indicam Cida e chocando mui a sonância pela repetição do de cacofonizando como por exemplo em de Cida num descer a subir a voz, a voz da comadre não sendo como a da vizinha, rouquenha. Claro a inimiga em potencial, tomada por amiga vizinha irmã comadre etc. e tal não letrada embora não totalmente analfabeta. Tanto assim que a pilhamos um dia, noutro dia, dias mais tarde, a colocar debaixo da porta, quer dizer debaixo dos farrapos do saco de estopa fechando quase e o quanto pôde a maloca numa versão como porta – pondo certo bilhete... Bem, a gente do Buracão claro não haver frequentado a Academia, essa gente a pronunciar “biiête”; enfim um bilhete no qual punha lá alguns grânulos de sal de pimenta de veneno de engodo a acusá-la carregar seu chifre por causa do Zé – Zé o consorte sem sorte da Cida – e assim qual fermento, estragava com ciscos com sujeiras uma relação santa... pera lá um pouco, não abusemos das palavras pois a junção mesmo amorosa de um casal da gente do povo, por melhorzinha que seja, dificilmente chega à santidade; quanto a de José com Aparecida, a união nunca foi das mais exemplares. Nos colocando na parede diriam: e os cinco filhos, o primeiro morrera um natimorto portanto só quatro; isso não santifica um casamento, um com igreja padre costume festa no que o noivo se embebedou e somente percebeu a ex-noiva sua mulher na segunda-feira!? Ora, nunca foram ao cartório e mesmo havendo cartório nunca a se poder admitir a santificação do casal pela Igreja.
Todavia, não podendo o casal viver bem e em santa relação com morada trabalho doméstico e fora no trabalho do homem a manter a casa e sobretudo a existir quatro meninos felizes?
No começo podemos garantir que não. Posteriormente com os anos a se passar, céleres às alegrias lerdos às tristezas, também não. A rigor o casamento foi sofrível e aqui se podendo estender a situação para milhares milhões de casais no planeta, pois raramente há compreensão e o entendimento, sendo mais comum a cegueira dos companheiros numa casa a computar na relação. Mesmo possuindo filhos, que são as bênçãos do lar, aqui sim lar porque a incompreensão torna o lar apenas uma casa. No começo, exato quando estamos no barranco quase a impedir passagem a descerem moradores do Buracão às suas choças dentro duma quase favela; nesse começo vimos muito bate-boca das outras casas e na casa dela. Quer dizer, isto uma expressão abusada porque nada vimos, ouvimos. Ardeu-nos orelhas as palavras chulas gritadas, uma guerra nem mais sendo batalha tantas as batalhas domésticas e o desaforar entre marido e mulher... Ora, pusemos como no correr do hábito homem-e-mulher no caso o contrário a mais das vezes: a Cida encabeçando a discussão sempre, ríspida, iniciando o palavrório por pavio curto. Os vizinhos, escutamos vezes sem conta, eles a afirmar o Zé um mudo bobalhão e sem iniciativa, apesar do peso da mão. Numa área pobre, miserável em dinheiro e moral, amiúde os sopapos, o que nunca assustam vizinhança e até alimentam as conversas, aliás é o que não falta nesses meios. Depois? depois dos entreveros os combatentes saem pra fora – hoje em dia tendo o recurso de ligar à polícia e no caso o orelhão telefônico na esquina perto – saem fazer suas coisas sem se envergonhar e como se nada houvese havido. Porque não sendo da conta de ninguém, o comum afirma ser da conta de todos na vila. Ele vai ao serviço na cidade estranha, ela às vezes aparecendo um pouco esfolada... isto interessante porque em escuros os sinais ficam dias brancos ou esbranquiçados até à cicatrização, lembrando que em jovens o fecho da epiderme é rápido e longo pela natureza vagarosa nos velhos sejam de pele clara ou morena; na Cida moça ainda, uns dias marcada. É aqui entrarmos de vez nos melindres de sua história.
Estamos escondidos no nosso bunker a observar gulosos as coisas a saber dela, o que faz como faz onde faz por que faz e sobretudo quem é Aparecida. Isto desde aquela situação discutível no encontro em desencontro na ponte o vão o cigarro o barulho ensurdecedor das jamantas e suas mil rodinhas lá em baixo, em cima a gente da cidade abandonada a passar e mais passar ativando uma população quem sabe de olho no preço do mercado na época da colheita, mas lerda no se mover – quando um rosto moreno cansado nos pede socorro! E vimos seguimos percorrendo a multidão e na multidão aquela face dum corpo de mulher até bonita cujo rosto mostrava então sofrimento (e nós aqui agora a estudar as origens dele.. nós neste carreador estreito:) Estamos escondidos encostados neste barranco a exalar ele seu cheiro úmido de terra de saibro de barro de argila fedorenta, inclusive nos encostamos num cuidado para não relar na relva pouca da muita argila e têm umas terrinhas em decomposição na forma de areiazinhas a escorrer também quase como nós para baixo, lá embaixo onde o Buracão começa (e nunca termina?) onde realmente casebres feitos a machado, expressão dura e verdadeira dum povo criativo e de linguagem não tão poética mas sonante e verdadeira também ou apenas justa, visto as partes das ‘casas’ serem como que numa justaposição de restos de madeira de varas e de barro preparado no próprio quintal, fosse um quintal, quintal de todas moradas; os casebres cobertos vez que outra de telhas usadas ou de tábuas (roubadas?) de construções lá na cidade e mais ainda com sapé. Sofríveis.
Estamos no trilho do barranco que desce da rua formalizada educada civilizada não calçada no final do perímetro urbano. Ali que se penetra no Buracão, para a vila do bairro pobre lá embaixo, onde vemos a casa da Cida (aqui quase íamos cacofonizando outra vez nas mil vezes, numa sonância horrorosa: “de Dona Cida”...) vemos a quase tapera e dela ouvimos o barulho por vozes esquentadas de sua gente, a da mulher sobressai um pouco por um pouco ardida embora rouca porém não é isto o principal, o todo o mais importante para saber quem é Donacida; Donacida nessa altura já consciente por um toque enredeiro da comadre de tantos anos na representação amiga, poríamos aspas em amiga, e interessada também poria, visto naquele mesmo dia da ponte haver soltado sem querer às nossas famintas orelhas “aquela maldita!” Por essa razão, no instante em que olhamos do trilho sujo que vem da urbe indo ao Buracão, por essa razão ralha e grita com seu homem, ao temor dos filhos já habituados nunca aceitadores dos combates domésticos. Ouvimos. E ouvimos semelhantemente os vizinhos, seja no seu horário na sua casa no seu ‘direito’ em brigar; também ocorre desses mesmos vizinhos a nos dar informes necessários da vizinha deles, aos quais agradecemos penhoradamente pois como estudar melhor um ser desconhecido um desconhecido!? E os vizinhos?
Sim, o que pensariam de nós, todo ouvidos todo olhos e nariz a apreciar e coração a sentir o que interpretado de uma Cida, a qual por acaso nos passara em frente em vão em ponte em estado de nossa vagabundagem chocados ao vê-la a pedir socorro no sofrimento indizível, indeclarável. Que pensariam que fôssemos naquele dito momento estando como sentinelas postados olhos-e-orelhas no trilho. Mais, tem mais senões!
Portávamos um guarda-chuva, por causa do chuvisco que fora garoa e espantara o sol medrosamente na tarde da manhã em que ela se nos apresentara na ponte, “muito prazer, Aparecida...” oh que absurdo. E as gotas aumentando nos obrigaram abrir o guarda-chuva, o qual não passa dum morcego negro de braços abertos; aqui dois guarda-chuvas na semelhança estar unidos ambos a nos abrigar na brigada que leváramos a efeito, inicialmente postados observando a vida na vila. Então o que aos vizinhos pareceríamos? Não importa, importa informações e indícios conseguidos no correr dos dias mais de semana e depois meses até anos, somando aqui o que nos disseram vizinhos depois do início e mesmo na conversa durante sepultamento da Cida, momento em que se fala se lastima se engrandece o morto e até se eleva o morto (morta no caso) à condição de santidade, por um defeito dos que não são santos ou pelo menos tendo existência reta. No correr dos dias muitos, os tais haviam se aproximado em bom-dia boa-tarde oi e sorrisos amigos, assim muitos se dirigiram amistosos para com a gente. Ganhamos inclusive confiança, sobretudo ouvindo seus próprios dramas, o que nos elevou no seu conceito, o conceito que se faz sobre um estranho em cidade estranha quiçá abandonada. Isso, alguns até aproveitaram abrir a boca para pichar a “ladrona da prefeitura”, a qual abandonando não só o Buracão aos buracos e riscando o bairro do mapa e também não cuidando da urbe propriamente dita. Não se cansaram pichar, porém com isso acabaram por nos municiar, alimentando com muito do pouco que estas linhas afirmam da morena sofredora Cida; e dos seus pois ninguém é uma história sozinho. Sozinhos andávamos entretanto naquele trilho no ver passar gente descendo subindo rumo ao Buracão ou dele à cidade.

- O fato é havermos madrugado naquele domingo por gosto ou por ser domingo e não se trabalhar, nunca realmente se para mas parecia de lá do trilho onde postados nossos olhos que o mundo dos vivos estava morto, ao menos na maloca no buraquinho do Buracão em que decerto dormiam os de Aparecida. Não obstante desejávamos mais saber, mais no pouco que apreendêramos desde o visto naquela expressão a quase que nos implorar socorro quando na passagem da ponte; o vão as jamantas e suas rodinhas escandalosamente barulhentas lá embaixo. Por isso nossa guarda desde muito cedo em nosso posto de trabalho ou só de observação. Contudo ela não saía da toca; sequer os vizinhos, ainda a dormir ou somente a descansar visto já alevantados uns fios de claridade do sol, o qual diz a sabedoria cabocla necessariamente vem irradiar a brincadeira das crianças e o espreguiçar sonolento dos adultos; logo se levantariam e levantaria o aroma gostoso do café. Sim logo também alguém de bem a abrir a boca de radinhos de pilha famintos a gritar alguma canção popular ou estrangeira, porque ali já naquele tempo não se entendia a língua dos gringos e se ouvindo e até imitando embrulhado as músicas e o radinho ainda a falar também das notícias de guerra, felizmente bem longe deste perto onde apenas violência miúda quiçá inofensiva de fome e crimes passionais ou ligados à droga e demais banalidades na rotina. Tivemos que responder muitos bons-dias antes que os meninos dela saíssem no quintal primeiro que a mãe; bem depois é que ouvimos as broncas dadas no primeirinho a olhar o mundo fora ou algum precioso brinquedo esquecido ontem; aquelas questõezinhas do nariz a escorrer ou do garoto sair sem roupa no frio da manhã com tosse e de pés no chão descalços. Já outras crianças ali fora, os adultos tomavam seu rumo, rumo quem sabe a algum compromisso e até trabalho mesmo porque tem gente que não para não descansa inclusive no dia de descanso. Ela por fim se pôs no terreiro, a lenha a roupa uma que outra peça esquecida no varal; o que grave porque ladrões de galinha desde que o mundo é mundo não pararam de existir e dos pobres eles levam também miudezas e o varal inteiro se puderem, o que uma riqueza incalculável para os afanadorezinhos ao prejuízo da gente de bolsos precários. Constatou ainda dependurada umidecida a peça no sereno, recolheu a roupa e retornou às lides domésticas no interior da casa, enquanto o macho-mor da espécie ruminando na cama seu resto de sono: nunca a fêmea-mor da espécie aceita esse tardar e menos as crianças entendem da coisa; parece que nisso a caçulinha ou acordava o pai ou brincava com o pai a acordá-lo de vez porém não se afirma, só escutávamos não vendo lá dentro da casa; nem das outras malocas, apenas quem circulando já em roupas domingueiras ou de missa, tendo nessa altura do tempo uns poucos vizinhos de Bíblia debaixo do braço então a passar por nós no trilho estreito onde nos encolhíamos a dar passagem, “bom-dia” e acrescemos na resposta “bom-dia meu irmão” para agradar o sorriso com nossos sorrisos. Não obstante prosseguimos no trabalho de vagabundos...
Cida e sua família perdurava no silêncio, talvez de propósito para nos atazanar. No entanto outrem ou a nos tomar por válvula de escape ou por saltar aos olhos a evidência, outrem dando o serviço – isto é bem a expressão popular a dizer que a gente não tem nada com isso mas sendo a gente simpática acaba por esclarecer lá algumas coisas dúbias que se não deve falar. Por exemplo que noite inteirinha Aparecida discutiu com seu Zé, o compadre Zé, e apanhou dele... é um homem calmo, um túmulo de boca, um santo homem porém a comadre encheu encheu tanto as orelhas do pobre que perdeu a paciência, deu uns... quer dizer, ninguém viu ninguém tem realmente nada com o desentendimento e até ficamos com pena da comadre entretanto deve ter marcado a pobre. Ela é um pouco linguaruda e a gente não sabe quem delatou, ficou sabendo que seu homem anda com uma tal de Zefa a qual mora lá em cima, uma sem-vergonha qualquer. A comadre é muito ciumenta e... Não vimos ninguém viu, só falamos assim porque o senhor está aí esperando ela... Tivemos que dizer haver querer perceber apenas a paisagem bela do Buracão com nossa objetiva (mostramos a câmara fotográfica como prova) e flagrar prender as cores as tonalidades verdes muito fortes no local. Outros e mais outros nos pediram com educação passagem em nossa passagem, a passagem inclinada para baixo agora menos úmida nessa manhã.
Todavia lá pelas tantas ela nos aparece já vestida no vestido. Aqui deploramos explicar pois dificílimo discorrer sobre vestuário, o dos homens a gente não consegue direito o das mulheres a gente não sabe – parece entretanto que eram uns saiotes escuros, cremos azuis, uma blusa branca e o resto não dá pra afirmar; enfim saiu passou por nós, não cumprimentou o estranho o que não serve a dizer não possuir princípios de educação (o que seriam tais princípios!?) se espremeu no seu lado ao nosso lado, feriu na passagem de passagem o nariz metido ou sofredor com o quase perfume dela; e se foi pra cima; ah parece que tropeçou numas saliências do trilhozinho e penetrou por fim naquela imundície de rua já no perímetro civilizado da urbe, uma via sem calçamento e sem poeira a compensar, tendo outras sujidades. Assim levou a efeito quase de propósito a fuga de nossas vistas, nos deixando um pouco decepcionados. Não, não isso isto: ficamos meio desamparados e desempregados sem a Cida, no entanto ganhamos liberdade para indagar aos vizinhos sobre ela; ganhando inclusive coragem a perambular nos quintais, fossem quintais o terreiro comum onde os casebres. Bem, com um problema no meio – os cães. Não se deve enfrentar cachorro desconhecido em lugar desconhecido mormente sendo um desconhecido meio estrangeiro. Então ligamos o dispositivo de prontidão e andamos, melhor empregar virolar, virolamos a xeretar o ambiente. Alguns meninos já nos conheciam, outros em guarda a olhar curiosos; sim porque moleque é o primeiro, antes do cachorro, a nos franquear conversa visto não ter travas nem trevas supomos; a fim de chegar aos pais, às mães melhor dizer. Tendo mais um quesito chato imposto à verdade que é de não se dever abordar alguém diretamente, ou seja demonstrando o que deseja de fato (: a vida atual e a pregressa de Aparecida) especialmente se desconhecemos estar ou diante de amigo ou de inimigo ou de adversário apenas ou horrivelmente contatando pessoa indiferente; porque a indiferença fere mais que o ferimento em si e cria a insegurança e ainda reforça a ignorância, a nossa por exemplo.
O fato é termos obtido por sorte ou azar ou cuidado ou até irresponsabilidade algumas verdades da realidade da moradora. Vivendo há anos no Buracão, tendo trazido de Minas disseram os que não temeram nossas potentes orelhas a velha mãe, morta ali, não num pronto-socorro da cidade abandonada, abandonada sim foi a pobre senhora ao seu sofrimento nos descasos da saúde pública. Nisso aproveitaram algumas se não todas vizinhas a narrar seus dramas, quase sempre com criança e parentes no meio, como mau exemplo do mau atendimento. Os poucos machos da espécie haviam nessa altura saído ou ao boteco ali em cima ou ao campo de futebol, apenas um que outro permanecendo no terreno comum ao lado dos meninos a chutar bola numa pelada, isto nome popular do jogo. As mulheres, umas haviam ido às amizades outras ao trabalho também mesmo sendo domingo. As de plantão narraram o que sabiam da trajetória da Cida, o que não sabendo direito, supusemos nós haverem suposto ou inventado para não deixar lacunas e a narração em branco... ou não seria assim.
Segundo comadre Confiabilidade da Silva, por sinal nome agora criado, conforme ela, ela (vizinha Cida) não é flor que se cheire mas é boa criatura; a velha mãe dela então: um anjo morreu. Não somente pelas discussões na madrugada em altas vozes aqui, aqui no pedaço ninguém dorme mais e não é só por causa dos cachorros a ladrar noite inteira num enlouquecer a gente. Não. É que a comadre Cida fere constantemente seu homem – homem!? o senhor me desculpe, não são todos homens mas homem é tudo porco, fuma demais, se envolve com essas sirigaitas por aí, seu Zé parece um santo não tem defeito fora o defeito de beber demais, demais batendo nela, nela só porque nas crianças não põe a mão. Acontece que enredaram, inventaram mil amantes para ele não ter sossego mais, tanto assim que não fica mais em casa, vai pro boteco com os amigos e ela fica na casa deles a gritar menino e batendo nas crias, semana passada sobrou até para a caçula; aí ameaçamos chamar a polícia... polícia? não tem polícia, não aparece nem poderiam os homens descer aqui no buraquinho do Buracão com a viatura e essa gente quer é distância dos pobres mulambentos da favela, que dão muita ocorrência por discussão conjugal e briga de comadres. A gente não quer inventar, ficando só na verdade, enredaram pra ela aquelas coisas feias, um rabo de saia gostando do compadre Zé, o que parece ser mentira; ela creu e vive numa rixa com o marido, dizem que são amásios... A coisa virou um inferno, já não era paraíso, porque o Zé desempregado ela desesperada e acaba descontando na irritação e pancadas nos pequenos, não falei que até a caçulinha entrou na cinta e tem mais muito mais, a gente não tem nada com isso não é mesmo? a gente fala só o que vê e escuta. Apesar de tudo, com as vizinhas ela é respeitosa. Não senhor, ela não trai o Zé... quer dizer, que a gente saiba não porém com a feiura dela: está vacinada contra homem (risota e risotas de todas). Agora tem uma coisa positiva nesse ‘brigueiro’ todo: é que o homem não trabalha faz anos, bebe briga não enfrenta a coisa e foge ao bar; e a comadre? sobra para ela pois as crianças têm de comer. Então sai todos dias pra cidade – deixa os três menores com o maior, que é deste tamanho ainda e só pensa nas brincadeiras – vai volta tarde aqui do serviço dela. Às vezes deixa quando adoentado algum filho os filhos com a gente; comumente ficam mesmo com o Vandinho que é o mais grande pequeno ainda. No quê? ela trabalha no serviço que encontrar, agora está difícil arranjar colocação; faz faxina cada dia numa patroa. Têm umas que atrasam outras nunca pagam. De maneira que traz o dinheirinho minguado ganho com suor, visto ser trabalhadeira todo mundo aqui sabe disso. Dinheiro não, traz já sacolas de supermercados com as coisas e não é muito controlada como a gente: vive sempre tomando algo emprestado na vizinhança... quer dizer café açúcar feijão essas coisas, dinheiro ninguém dá, ou seja ninguém empresta, tem fama de não pagar. Ora, nunca tem dinheiro e só compra o necessário. Por isso vive irritada.
Sim senhor, por isso, e por isso tem cara de poucos amigos, não tem a infeliz comadre Cida nenhuma amiga... ah sim, tem uma parenta ou prima ou sei lá o quê. Parece Teresa, é mesmo: fala sempre na prima Teresa a qual mora num cortiço na cidade. Ela confidencia as dores mais é para nós aqui mesmo no Buracão, somos de confiança.
Nós é que não confiamos muito no que falaram fácil as vizinhas...          

- O fato menos importante – depois de nos decidirmos ir atrás no caminho que era o caminho dela, a Cida, o que ela indo fazer (ah que horror nos lembrarmos agora da ocupação dos vagabundos...) – o fato é termos no meio daquelas faladeiras comadres de vez em quando a defender com unhas e dentes a comadre de quem falavam e aí aproveitarem a melhor pichá-la e assim enriquecendo este texto espúrio; o fato é havermos notado certo senhor já velho gasto cansado negro (igualmente vagabundo, indagamos com nosso pensar) e no entanto a sorrir fácil e sorrir para nós mostrando simpatia. Com um senão desagradável, curioso: ficava o tempo todo em nossa presença a mexer sua dentadura com a língua, ou num provar fosse postiça ou na coceirinha que dá essa segunda ou terceira dentição ou ainda por emagrecer o corpo e aí ficando ela grande solta enquanto a gengiva pequena e encolhida. Assim ficando todo instante a mexê-la ora empurrando a geringonça pra fora ora agora chupando a mesma na boca – enfim um costume nojento, pensamos. No entanto o quase único homem e representante macho na espécie, curiosamente já não mais macho,  homem pro que der e vier segundo a bravata comum, foi de grande valia: os outros machões estavam no domingo pelos bares ou chutando bola e sobrava quase só o velhote a nos dar atenção masculina, sabido que os homens entendem melhor os homens que as mulheres, por mais comadres sejam as comadres. Acresceu o velho Zé, também José como o companheiro de Aparecida, enfim somou alguma coisa na soma do que até neste ponto afirmado sobre a Cida. Que o marido dela ajudava como pedreiro, agora nem isso tendo por ganha-pão porque nada de achar trabalho, se ocupando só no bar. Ah e lhe parecendo ser mentira o que as mulheres falaram, a questão de trair a esposa; acresceu qualquer coisa como a gasta intriga da oposição. De maneira que logo deixamos nosso velho, nossas orelhas bem entendido, os olhos mais interessados no ver além; que todos sabem ser após a rua ali de cima, bem na direção da cidade.
Somente naquele domingo não. Preferimos estender além para entender o estudo sobre a mulher que aguçava mais e mais nossa curisidade; sejamos sinceros pois é feio viver atrás de outrem a conseguir informes de sua vida; não: uma curiosidade sincera honesta e direta, nada de interesses mesquinhos e imoralidades. Por isso tornamos noutro domingo e noutros a esse reduto. Nem se fale das visitas durante a semana semanas a fio no Buracão e a perambular na cidade estranha atrás dela. Claríssimo que não nos demos a conhecer mas parecíamos fantasmas, credo, a segui-la!
Bem, descobrimos onde faxinava; melhor nisso esclarecer onde os vários lugares em que prestando sua força de trabalho, a gente torcendo que a contento, já simpatizados nossos olhos nossos ouvidos com a Cida; quase se pode afirmar imantados nela. Por essa razão tivemos que muito andar; aqui não seria reandar? revirar inteira a cidade abandonada ou somente desconhecida por nós desconhecidos então conhecendo já quase palmo a palmo essa aglomeração urbana. Tudo para entender melhor essa mulher. Enquanto a persegui-la a vigiá-la a fiscalizá-la (ah quanto abuso da indecência e da inverdade!) enquanto isso, ela a lutar numa residência ou a sair dessa para oferecer seus préstimos noutra, e daí ficávamos ao deus-dará. Mais exatamente a Cida abria o portão duma e nela permanecia até tardinha, um dia foi noite alta para acabar o serviço e a sair andar estafada decerto e a descer o trilho tornar ao recanto dos seus; claro, então nós indo para nosso hotel, um sem qualquer estrela e mais pensão barata e bastarda, porém isto não interessando à questão. O fato principal é Donacida andar ocupada a ganhar o pão à família enquanto nós desocupados... aquela chata lembrança do vagabundo. Nesses entremeios andávamos às tontas; ou antes: circulávamos para observar e mesmo apreciar as particularidades da pequena urbe, quiçá fazendo um levantamento de sua beleza pois só os maus bofes não descobrem o belo num lugar por onde passe.
O interessante nesse passeio é que não nos libertávamos da impressão que nos impregnara o ser. Aquele olhar na ponte nos perseguia, a expressão sofrida ansiada a nos pedir socorro; por onde fôssemos, mesmo a tentar esquecer lembrando que a mulher estava firme e honestamente a trabalhar para uma dada patroa no sustento, ainda assim não esquecíamos totalmente. O que fizemos nesses casos: partimos à distração como fuga.
A fuga foi aproveitada para descobrir a insegurança que toda sociedade hoje em dia tem, não tendo sossego na paz perdida já século.
Esclareçamos tal ponto.
Em nossa cidade, não estranha mas talvez sim a outro estranho igualmente, nela tem havido nos últimos anos uma crescente onda de maus elementos, sobretudo ladrões, ladrões de galinha e ladrões de cavalos como antanho que a história registra não temos mais, ou temos uns poucos os quais podem envergornhar-se com sua inexpressividade estatística; contudo os outros ferem a tranquilidade dos vizinhos e últimamente inclusive a nossa... Diante do problema investimos na residência na colocação de gradis, umas grades altas e intransponíveis (esta palavra é vazia em se tratando de ladrões...) De maneira que, nesse processo válido para nossa urbe menos pequena que a pequena estranha quiçá abandonada de Aparecida, então vagabundamos com tal preocupação; em virtude disso, seja uma virtude talvez não seja; enfim por essa causa, por todos lugares para onde nos deslocamos, quase que fatalmente examinamos a insegurança de outrem a medir nossa precária segurança, fixando nossos olhos nos portões nas grades e até nas eletrificações nos cachorros nos seguranças armados, oh sociedade abusivamente bélica! Ora, acabamos por fazer um estudo, um certo levantamento da forma que os habitantes doutras cidades usaram a se proteger, isto imaginando que o problema ocorre por todos lugares na atualidade. O município em questão nos pareceu realmente abandonado, ou apenas contando com recurso e inteligência dos moradores, uns poucos deles pois a maioria e sobretudo a pobreza deixa como está para ver como fica. Nós no caso analisado, fôssemos o ladrão, esse tão comentado amigo dos bens alheios, fôssemos ficaríamos alegres e ricos na cidadezinha da Cida; visto a grosso modo as residências estarem desimpedidas... O que mais vimos nas andanças foram muros baixos quando muros, portões frágeis quando portões, escancarados ou educadamente fechados, decerto a cães vadios e à entrada de animais outros de pequeno porte ou a impedir a saída de galinhas por exemplo, gatos não se pretende segurar. E o ladrão! Algumas residências, aparentemente não pobretonas, tendo gradis e portão ao carro e portõezinhos de entrada fechados a cadeado, de ferro; ainda se vendo o comum pontalete para dificultar (o verbo é proposital no caso) a superação pelo criminoso; sim, achamos crime roubar e inclusive crime num ‘inocente’ furto. Também vimos casas em que se imagina ferir mãos abusadas nos cacos de vidro incrustados ou então pregos de ponta para cima cimentados no muro. Entretanto flagramos algumas, muitas isso sim, falhas: as residências têm muros têm grades têm mil empeços criados a dificultar entrar-e-sair, aqui com o roubado tesouro na mão... Têm isso muitas, porém sempre sobrando oportunidade e espaço onde o meliante pôr os pés como apoio, onde se segurar para escalar a muralha... Vimos por exemplo casas afortalezadas sim mas possuindo colunas quase fazendo às vezes de escadas aos pés criminosos! Diriam, diria Donacida também? diriam “e o cachorro feroz”, quantas vezes lemos placas ‘não entre, cão bravo!’ porque hoje somos cidadãos defendidos no lar por potentes pit bull, os quais morderão o estranho e nas horas vagas comerão o próprio dono, a tevê gosta de exibir tal exemplo, o que dá muito ‘ibope’. Respondemos: um pedaço de carne temperada ou um tiro certeiro do ladrão pode anular essa ferocidade. Em resumo, lá e aqui não temos solução.
Aliás gritamos este último alvitre, se alvitre, parece até que o pensamento e mais a indignação extravasaram dos lábios à voz... O que será a cidade estranha pensou do estranho! Ora, por que nossa boca não se comporta como nossas vistas e nossos ouvidos...

- O fato é que estamos ali vivos a observar a gente e de olho em Donacida no domingo, num outro domingo e se se exigir esticar mais também o mesmo na semana semanas e semanas assim, o fato básico aqui, ali, lá, é vermos o festival de trajes... bem, se quisermos trajes a rigor, seria um ultraje à verdade. Porque hoje todo mundo se veste como todo mundo, inclusive numa favela não esperemos roupas de grife mas por que não até isso! se isso quase já não distinguindo os seres numa sociedade como a nossa. Raro ver-se alguém nos molambos e os vizinhos de Aparecida vestindo o que supomos o normal. (Agora, que seria normal?) Anda-se, fala-se, fala-se? gritado, sobretudo os meninos, sem referência a uma pelada com bola de meia, hoje em dia fácil adquirir as bolas de borracha ou de plástico. A gente grande, quase sempre pequena na altura ou de médio porte, conversa ri esbraveja xinga. Na semana todos ou trabalham ou têm ocupação e a meninada, a que não trata dos serviços de casa às mães na patroa ou mesmo como profissionais de qualquer setor; os que livres, vadiando brincando e vezes incontáveis brigando. Num lugar comum assim – e por causa dos filhos – há muito bate-boca, os de Aparecida também pois não são doutro planeta mas seres vulgares. Ela sai, como vimos, nas visitas a trabalho e as crianças perambulam no Buracão. Hoje há uma exceção na ordem geral das coisas.
Falaram que o Zé tem outra mulher. Ora a gente nunca ou sempre crê nas informantes, informantes podendo ser sinonimia de comadres vizinhas e inclusive se parecendo com visitas eventuais às vizinhas e então é a passagem dos dados e imediato quase (isto por haver sempre a incubação ou fermentação dos virus da exclamação admiração interrogação explosão:) então é o caos! Ela dá uma desculpa esfarrapada após dias num pensar no que não pensar, diz um qualquerzinho como precisar ir receber na patroa dona Matilde, esta por ser má pagadora e... não vai coisa alguma dizer bom-dia no Riachinho, vila de Matilde, mas em direção contrária, ou seja ao Matadouro; lugar com nome de sacrifício, a bem da verdade de boi e vaca à população carnívora com queda para onça e nada vegetariana, o homem comum é assim, que fazer! Por ser nesse bairro a matança, todo bairro vira Matadouro e todos sabem onde. Contudo não interessa à Donacida sacrifícios, sacrifica antes sua paz e a cordialidade na família para dizer, caso a encontre, para falar enfim uns desaforos à rival. Rival é a pior doença na moléstia do amor e do respeito, dessa maneira não pensa só pensando nela, aquela maldita, aquela Zefa que a Cida leu numa referência de escrita tremida porém no possível semianalfabetismo da ‘amiga’ pobre, de boa intenção na sua maldade; a implicar uma fulana a andar com o esposo ou apenas companheiro da vítima; não, não isso, isto: o Zé rodeando a sem-vergonha, embora mais bonita ou mais carinhosa que a sua companheira. “Não importa Vandinho!” foi o que sobrou ao mais velho quando a mãe ruminando no como tirar a limpo a estória e o menino ali perto a desejar saber o que ia pela mente da genitora. Não importa, a mãe vai sair... vou receber da patroa, aqui blasfemou... Cida tendo igual a muitos o defeito de pichar, de desfeitear, detonar por baixo os desafetos, carregando com tinta escura forte berrante através dum nome ou feito pesado a desancar adversários agora adversária quiçá inimiga – pronunciando Matilde, pensava Zefa.
Foi, já passara subindo o trilho, tomou a rua comportada civilizada não calçada nem asfaltada e pouco cuidada mas não foi no rumo do centro onde a patroa porém na direção contrária ou seja indo à periferia da periferia e quase nas barras da saia da roça, onde já se vendo algum pasto algumas árvores frutíferas cafezais milharais essas coisas. Aí chegou defronte da casa da rival. Deparou-se com a mãe também escura dessa rival. Então perdeu um pouco as forças que dá a força da raiva, amainaram os ímpetos, estando meio sem graça diante da senhora desconhecida; ficou pasmada perante a idosa mansa e aparentemente também sofrida. Viu como que um reflexo da aparência de sua própria mãe na mãe simples ou simplória da outra. De maneira que a ferocidade que trazia contida e o arsenal de xingos pesados para metralhar Zefa, tudo fora por água abaixo e apenas cumprimentou a velha. A coragem somente permitiu que Donacida perguntasse a saber se ali morando Zefa. A senhorinha que sim, a visita agora igualmente uma estranha à estranha foi pouco além: estaria a filha na casa, poderia chamá-la... Não se encontrava.
Cida torna menos opressa, ao Buracão; agora poderia até contar os passos na volta; na ida sequer se percebeu: fora num acelerado em tom marcial, como fosse comandante à frente desse exército de um só homem, uma só mulher, pisando firme na cadência de avançar. Torna murcha.
Nem mais vê os olhos que a veem os ouvidos que tentam ouvir-lhe o ruminar brabo nem o nariz que já sentia o exalar do seu cheiro de suor naquele sol que então caminhava igualmente ele a incidir forte na poeira da estrada longe, fora quase do núcleo urbano pequeno acanhado. Não obstante estávamos ali atrás feito cachorrinhos (não basta ser vagabundo!) Ou por outra, vira um homem estranho no lugar a si estranho para a cidade estranha quiçá abandonada. Felizmente, felizmente pra nós bem entendido, desconhecia o desconhecido e bem que poderiam aqueles olhos argutos ou curiosos estarem a passar também sem vê-la. No entanto agora, desde aquela visita, que resultaria talvez numa briga conjugal a envergonhar o mundo decente, desde então teríamos que adotar certas precauções...
Outros dados obtivemos mais para diante, aqui sabendo já no que dera o embrulho e como fora o tirar tudo a limpo da personagem contra seu desafeto, sabendo sim por terceiros e não com nossa exposição diante do inimigo. Inimigo! qual inimigo se ainda nos refletia nos nossos recônditos o seu pedido de socorro e estarmos mais ainda interessados saber-lhe os dramas.

- O fato mais inesperado, inesperado por nossos afoitos olhos, foi descobrirmos naquele dia já de volta do malogrado encontro de nossa personagem com a personagem dela, a tal de Zefa;  então, descobrimos que Cida não era tão magra como supusemos à primeira vista na ponte e ainda ficamos assim a pensar fosse: realmente magricela sim escura sim alta sim não esquelética. Quem sabe se não fomos iludidos ao tomá-la a nos implorar (baixemos a bola – somente pedir, o que estaria já de bom tamanho) a nos pedir socorro. Ora, socorrer uma pessoa até aí desconhecida não é caridade!? então agimos certo; certo embora não estivéssemos a julgar assim... Que fazer se lemos em seu semblante cansado sofredor impaciente o pedido; e nos enrabichamos atrás dela naquele e noutros dias e muitos dias além. Agora estávamos a tentar ler seu estado de espírito, sabedores do insucesso duma possível abordagem numa boa briga com a rival, a rival da rival agora com os seus; exato uma segunda-feira de boas preguiças certamente e por certo também boa se não ótima para criticar apreciar seu comportamento, especialmente o Zé não presente, havia antes da volta da esposa ido procurar serviço. Os meninos assim disseram, a mãe leu trocado: serviço por Zefa. Enfim tornou nervosa e mais por não ter na outra batido, de boca... não teria acaso sobrado uns sopapos uns puxões de cabelo, a Zefa bem cabeluda, isto nos informaria uma comadre desocupada. De forma que, positivamente a Cida andava negativa e mui pessimista no retorno. Quem sabe não voltasse desabada e com um sentimento de decepção; podendo haver tornado com um amargor do dever não cumprido, cumprido caso houvesse encontrado a rival e feito nela a justiça segundo a justiça de cada ser, levando a efeito uma correção definitiva. Não, ficou-lhe aquele negativo de não ter socado a ladra do seu homem. E ainda precisou mentir, o que não é grande desastre nas baixas camadas sociais. “Não, Vandinho, não encontrei dona Matilde nem recebi”.
Na terça fomos melhor recompensados, não estando no Buracão a mãe só os filhos, mesmo estando eles não poderia o grandinho andar na aula! era período de férias, para horror de quem, pobre, tenha de ficar aturando menino em casa a se desentender. Todavia fomos agraciados com a boa vontade duma vizinha, a qual garantiu nem saber do tal bilhetinho posto por baixo do saco de estopa feito porta, a porta da comadre Cida. Aproveitou narrar que ambas rivais, naquela terça-feira mesmo de manhã se rasgaram se bateram na rua a dar espetáculo, ela falando show, pois é o que se vê se ouve na televisão e o povo gosta muito. Parece que até deu boletim da polícia. Indagamos, como um bater com luvas de pelica e diplomaticamente, se a outra desistiu afinal do Zé ou se este largara a amásia... Ela gargalhou, ajuntando “o compadre não deixa nunca uma beleza daquela, trocaria fácil a feiura que tem no lar”. Lar doce lar... Provável que a comadre tendo um carro de razão, visto semanas depois de observação criteriosa de nossos olhos e de nossas orelhas de abano, ainda não havia mesmo largado seu homem, ou melhor: mandado ele ir coçar a Zefa. Tem casal que suporta infidelidades anos a fio para não atingir a prole. A comadre informa: “não é isso não, seu homem, o homem dela é acomodado”. Despencou a pichá-lo vagabundo, deu exemplos conhecidos desses senhores perfumados por aí, que não fazem nada em não ser ficar paquerando certas mulherinhas (usou esta expressão a nos deixar envergonhados...)
Se tivéssemos um pouquinho que fosse de vergonha na cara – nunca mais poríamos o nariz no Buracão. Contudo raciocinamos assim: que importa a opinião duma comadre mui faladeira e cuja evidência demonstra haver cometido o crime do bilhete contra a ‘amiga’, tratando a mesma por Donacida. Então ganhamos não mais que um dia de molho no hotel, sob pretexto da gripe, esta de costas largas; na quinta na sexta no sábado e mais no domingo estávamos a fazer ponto no trilho que conduz à favela e aos favelados. Não tínhamos mais à mostra nossa potente objetiva, embora o objetivo de fato a Cida nossa sofredora heroína. Não, fomos assaltados perto da rodoviária, levaram o pouco dinheiro de nossos bolsos e a máquina de fotografia, sem maiores violências felizmente. No entanto andávamos experientes e fizemos muita amizade, para recolher mais do que as comadres ofereciam como material de graça. No hotel à noite diário enchíamos mil folhas para não esquecer o que víramos durante o dia; o dia, pois o ambiente lá na favela não recomendava permanecermos no sereno noturno... Na verdade temíamos esse ambiente. Além do mais o que anotar ou como anotar num local sem iluminação. As malocas sim tendo luz, a gente podia facilmente notar as gambiarras que se faz com fios cruzados desde os postes na rua civilizada em cima. Algumas casas apenas com vela ou qualquer coisa assim. Apesar de todos acontecimentos a dificultar obsevação da morena, no entanto concluímos algumas coisas valiosas como não ser magricela, porque fôramos forçados crer pela imprecisão; e descobrimos, aqui estando mais próximos da mulher e seus pequenos, notamos nela uns vincos na fronte, o que indício de preocupação, sinais que a perdurar as causas marcam qual numa foto a imagem por toda existência.
Outra coisa que flagramos ou só deduzimos dela estando mais próximos agora do convívio em família, especialmente encontrando-se o companheiro na casa, é que não ouvimos nenhuma vez tratamento carinhoso. O que comum nesse extrato da população. Nada de “benzinho” e “meu amor”; dando impressão sentirem vergonha usar a delicadeza. O contrário disso, quando não uma linguagem à beira da violência, ao menos a grosseria constatada no estilo “deixa que eu chuto!” Mas nos perguntamos: até quanto sentem os membros duma família com esse tratamento rude. Por outro lado necessário levar em conta o palavreado melífluo da falsidade, disfarçando o real sentimento. Não iríamos corrigir essa gente pois é preciso convir – ninguém ensina ninguém numa abordagem rápida, sobretudo quando somos estranhos aos estranhos numa urbe estranha quiçá abandonada. Assim nos abstivemos dar aulas e até palpites inocentes, inocentes até prova contrária. Tem mais um senãozinho nesse propósito que é ao educarmos alguém, digamos uma Cida com seus meninos, nunca tentaríamos falar com o Zé; o senão de pensarmos no fato de estando nesses buracões da vida estarmos expondo-nos ao crime. Uns veem um pobre e mais se miserável e já pensam em desvios em crimes em violências em drogas etc. e tal. Tal não vimos nesses baixos da sociedade. Aliás perdemos a máquina de cortar cabeças e pés na foto exato no centro da cidade pequena, não em seus arrabaldes, o que não é tão estranho visto a bandidagem viver e ‘trabalhar’ nas zonas centrais das grandes urbes. O interiorano teme isso. Entretanto o Buracão sempre nos recebeu mansamente e com amizade, embora nós estranhos ali.

- Um belo dia, ah que expressão mais tola, um dia, após haver pensado horas em nossa pensão com mania a hotel e a estrelas e examinando nossa mísera carteira, resolvemos dar um tempo para quem sabe numa outra vez tentar estudar descobrir melhor a caminhada de Aparecida.
O fato mais flagrante é que estávamos sem numerário...
Sequer tornamos ao Buracão nos despedirmos dela; mas despedir por que razão se nem fizéramos amizade; amizade? nunca vira a mulher os olhos que a olhavam as orelhas que a escutavam. Que fosse uma despedida sim às suas porta-vozes, as comadres e sobremaneira a que nos indicava a Cida por Donacida e lhe fizera o ‘favor’ enredá-la com o esposo num bilhete safado. Fizemos então no pior o melhor: saímos à sorrelfa frustrados, fomos num ônibus para nossa grande cidade também pequena e não mui distante da urbe estranha e decerto abandonada. Para se não pensar mal de nossos belos olhos e da mente sadia pagamos a conta – havíamos antes, prevenidos, quitado a hospedagem... será não antevíamos os ladrões! – sim pagamos e quase imediato viajamos.
Como dito resolvemos dar um prazo às coisas no Buracão melhorarem. Tempo depois levamos um susto. É que se passaram anos sem que notássemos as horas em nossos cuidados (a velha questão de pagar contas brigar com a esposa – e por que apenas o Zé ter esse direito contra a Cida? nós também...) Quando noutro belo dia, cabelos brancos, mancos, aos trancos e barrancos ou só por mera curiosidade, olhem aí nossos olhos nossos ouvidos nosso nariz a cheirar de novo a cidade estranha já nossa mui amiga ou mui conhecida, abandonada quiçá, olhem nós de volta.
Apeamos na rodoviária. Claro nem sombra mais dos que se apossaram da câmara fotográfica e isso nos lembrando esquecer não haver feito ocorrência, não dando parte à polícia pelo furto! Fatos passados e a antiga afirmação da água não rodando mais o moinho. A urbezinha não crescera, ou não o sim? a cidade pequena pareceu-nos ainda pequena. O Buracão de tantas recordações... desaparecera, desaparecera entupido o trilho onde permanecíamos de atalaia... ah deixa pra lá. As máquinas de terraplanagem para alegria de meninos soltos vendo a novidade, tratores pesados nivelavam o que a sociedade não conseguira nivelar. Subia um cheiro de terra acusado por nosso nariz sensível; ouvimos o tatatará dos motores assoprando óleo cru a poluir a natureza limpa até aí (ai quanto abuso mas o que seria o mundo sem os poetas? nada). Tudo enfim modificado. Paciência, pensamos e talvez tenhamos assoprado o pensamento com voz alta, tanto assim havermos olhado se não olhavam. Não, ninguém.
Sim, nos chocamos com o novo ambiente.
Andamos ao deus-dará desde então a vasculhar a lembrança da lembrança a memória da memória. Ansiosos rever nossa personagem. Certamente se mudara do ninho. Que encontrássemos pelo menos a gente frequente no batente pertinente ao seu dia a dia.
Estávamos de certa forma decepcionados. Nisso ocorreu uma ideia: por que não passear um pouco pela área urbana nossa conhecida enquanto não chegando a hora da hora do retorno à urbe ‘enorme’. Assim nos dispusemos andar ao sabor das oportunidades, ao acaso enfim. Sub-repticiamente a tentar enganar a nós mesmos, mantendo esperança num quem sabe? quem sabe nos deparando nas ruas com ela com a comadre com eles outros a perambularem também pelas vias públicas, então movimentadas por causa da colheita na lavoura e o povão a andar gastar comprar.
Quando a gente anda sem compromisso o compromisso sendo apenas a hora, matamos a hora, seja a sorrir ou a chorar através da memória fugidia então desperta. Ao ver por exemplo o caminho de ferro nos lembramos do trem pelos seus trilhos, embora tudo jazendo morto... O mato nos lembra a estaçãozinha antes em nossa visita já sem passageiros e desativada igual os comboios. Contudo, isso despertou nossa rememoração pois quando a procurar Donacida e a fugir num temor que a personagem nos descobrisse, aí fugíamos do trilho do Buracão ao trilho morto do trem assassinado pelo homem de nossa época. Agora relembramos tudinho observando as ervas daninhas que encobrem o ferro o dormente o pedrisco, até nisso e isso desperta o que seria uma espécie de saudade.
Saudade de quem! Ora, tímidos ou estranhos não engatilhamos ligação com a gente da cidade estranha (nós então os estranhos não essa gente?) Todavia fizemos amizade com a urbe pequena acanhada, ou tímida também ela e neste caso os tímidos não se entenderiam... Por ela, dela, sentíamos saudade. Espichando por boa vontade um pouco, sentiríamos semelhantemente saudade da morena, da Zefa ou do Zé não.
Andávamos assim zanzando e vendo o que ver ou rever; com uma esperançazinha das pequenas e insignificantes a defrontarmos ou a topar com uma certa expressão de infelicidade, juntando ao estado infeliz um pedido de socorro; ah e daí iríamos salvar – outra vez bah! – salvar chapeuzinho vermelho moreno da boca do lobo, e nos perguntamos se o lobo mau não seria a Zefa não seria mais ainda a comadre-‘amiga’ que introduzira a inocente menina à fome da bocarra... oh quanto delírio. O fato é que não achamos ninguém, não obstante olhar interessados a multidão roceira no dia de compra por venda de sua produção; embora observando tantos morenos não vimos a morena...
Desanimados frustrados, conferimos a passagem de nosso ônibus inter-urbano e nos movemos à rodoviária. Foi quando nos deparamos com um quadro aterrador: estávamos diante da necrópole da ‘metrópole’. Ora, ninguém faz turismo no cemitério. Não, sim: vimos durante a existência inteira gente com tal mau gosto. Tem gente que, apesar de nossas críticas nesse sentido, vão visitar tumba dos seus mortos imaginando possam estar com vida grudados aos ossos; não se satisfazem com a besteira e aumentam a besteira a título de cultivar ligação social com os ainda vivos do morto. Mais uma vez condenávamos isso agora diante do cemitério municipal da cidade pequena. No entanto uma reunião aguçou nossa curiosidade; como tínhamos ainda boa meia hora para viajar, viajamos então colados ao sepultamento dum cidadão, por sinal cidadã segundo informes obtidos e uma senhora escura velha finada de “morte morrida”. Acompanhamos o séquito miúdo acanhado pobre descolorido como fosse um do seu sangue; aí, ai, temíamos verter lágrimas por causa do sentimentalismo costumeiro num velhote...
 Agora caminhamos lentamente compassadamente firmemente absolutamente à beira de túmulos abertos ansiando uso abuso quem sabe, ainda passando talvez desapercebidos pelas alamedas por entre capelas suntuosas contudo passam, seguem todos à frente em busca da “morada definitiva”... De repente alguém lamenta estar ali a pobre Aparecida, pronuncia mesmo Donacida e nos espantamos! Temos ao lado vizinhos conhecidos amigos, amigos!? parentes e curiosos também (tomam-nos por um bêbado que surgiu do nada no nada dum velório). Mas o cortejo dos homens que levam nos passos curtos lentos sem parecer turismo, caminha ao depósito de um corpo, soma de sofrimentos. Esse cortejo traz comportados os seres; então o grupo vê a quadra dos menos ricos enquanto eles pobres seguem um caixão barato e admiram os túmulos. Vê-se tumbas relegadas ao tempo em ruelas estreitas tendo ainda dísticos com dizeres e algumas fotos de coloração antiga dos mortos quando vivos. Em volta sobem cheiros de vela e o cheiro de gente... Não longe o poço dos ossos dos mortos. Contudo o ajuntamento fúnebre deixa a ala quase rica da cidade dos pés juntos e ruma à última estada.
Caminhamos para a ala dos mortos pobres, com a pobre Cida, vencida pelo cansaço e a dor, no comum acontecer. Seus convidados vão indo devagar quase parando quase respeitosos, não obstante desconversas para fugir do momento. Os coveiros aguardam mais um serviço e se voltam à chegada de mais um fim; o povo curioso vai rodeando a vala, a pressentir e se indagar quem o próximo... Outra vez as visitas que acompanham a moradora notam dois olhos a piscar na chateação e duas orelhas em abano curiosas de ouvir comentários do que pensam ou só falam por volta da cova da desaparecida; terminam com o atirar três montinhos formais sobre a tampa fechada e após já os acompanhantes guardam lenços de chorar ou a pensar mais vividamente noutros problemas mundanos; entre o que é mundano, ali havendo um sujeitinho que ninguém conhece o qual entrou no corso da morta parecendo bebido por caninha e vindo saber dela e do seu nome apenas por ouvir dizer.
Nessa nova situação tão velha quanto o mundo ou seja o enterro da mulher, se respira um ar de constrangimento, constatável no silêncio embaraçoso; uns vertem lágrimas baixinho, chora sentido certo moço alto magro quase esquelético e moreno, seria o mais velho da velha? Somente diminui o constranger quando se dispõem os convidados a saírem para fora dos muros, cujo portão de entrada agora de saída tem inscrito sentença lembrando o pó; daí a gente a deixar o drama rumo de casa e seus dramas.
Marília   abril  2013


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