Uma Expressão pede Socorro
1° - Estivera na
cidade abandonada... não, isto um exagero pois se não febricitando em movimento
e poluindo sentimentos era ao menos pacata lenta no andar de sua gente.
Estivera lá, lá andara horas, aqui em novo abuso visto urbes pequenas pouco
mais de mil passos já saindo do perímetro habitado. Habitado sim mas os olhos
que viam, as orelhas que escutavam e o coração a pulsar sentimentos, percebiam
o ‘agito’ da gente; todavia a gente olhava o que olhava vendo-se só. Isto um
aspecto curioso da solidão, porque o homem pode estar na maior concentração
populacional do planeta, ainda assim solitário... Contudo não importa que
alguém ande na multidão, só, só realmente, mesmo estivesse igual o filósofo Diógenes
acompanhado apenas duma lanterna para achar no sol claro um homem íntegro. No
caso presente seria aos olhares mundanos um homem estranho, sem se exigir
integridade dignidade essas coisas.
Assim, esbanjavam solidão os olhos que
viam e as orelhas abertas escancaradas esquadrinhando seres humanos no falar do
povo.
Então perceberam – parara um sujeito
como que de propósito, o propósito poderia aqui ser deslanchado numa análise
encardida, dessas teimosas em querer saber tudo e no caso o propósito – notaram
a expressão das pessoas ali a passar. Sim, os olhos curiosos as orelhas de
abano melhor a recolher o que ouvir e o coração a sentir, tudo observaram o que
diziam aqueles rostos, dentro da verdade que se garante ninguém ser
absolutamente igual. Uns expressivamente risonhos outros alegres realmente
outros ainda deprimentemente tristonhos; e o pior nessa abordagem o existir mil
faces indiferentes... ou quietas do tipo túmulo fechado, porque o túmulo aberto
ainda não é tão sombrio; ou temerosas ou maliciosas ou sigilosas estando a se
fechar em sete chaves ou... ah, não importa. Importa que ela passara,
lentamente, nuns passos medidos ou cuidadosos, imperante e decidida a levar o
que levar, levava uma indignação um rancor desses quase impossível ser retidos;
ou mesmo ódio declarado, o que menos perigoso que o detido por boca fechada com
a chama o raio a descarga preste a explodir em quem de direito ou porque
havendo sido ferida nos direitos dela!
A vista a audição haviam se comprimido
na ponte... a ponte? ora, pararam decerto a melhor observar ou para fazer
estudo mais acurado no vão, mais precisamente nos altos do viaduto; embaixo era
o barulho ensurdecedor demais vivo das conduções a cruzar a cidade morta... mas
onde morrera se a gente a passar a se expor ali na frente, uns a andar vagaroso
outros a querer chegar logo e primeiro onde chegar e portanto rápido, a maioria dos passantes sim a lerdear ou somente
a brigar no ponteiro de minutos contra os apressados defensores do dos
segundos. Enfim a gente passava meio apertando espremendo aquelas vistas já
cansadas aqueles abanos já gastos tanto uso – pois que o observador se fixara encostando
no gradil e no corrimão da ponte, aquela ponte trepidante tremendo à passagem
louca lá embaixo dos veículos na rodovia encarnando a loucura, aumentando ainda
a loucura com o zunir dos motores os gritos das buzinas e o farfalhar das
cargas chocalhando ao vento e ainda tendo o som oco pesado dos mil pneus
aquecidos no asfalto negro que sumia nas extremidades, ora quem enxergando à
direita ora quem enxergando à esquerda até o findar não da estrada porém do
poder visor dos olhos e aí, aí o tremelicar o vaporizar na interrogação.
Mas ela já não via isso, vira tanto
tanto tanto e não percebia agora mais, sentindo não mais agora que os seus problemas;
problemas que em vão sua face tentava ocultar...
No entanto passando muita gente como a
perfazer um desfile sem intenção, ainda assim um desfile, o passar ali rente ao
observador vagabundo... opa! por que será que somos tentados concluir na pressa
que alguém pelo simples fato estar parado qual estátua em cima duma passagem
estreita onde circulam habitantes duma terra abandonada ou só na quietude interiorana
seja um vagabundo; e daí a chegar à perversidade à bandidagem ou só vadiagem
dum batedor de carteiras que é mero ladrão de galinhas de tempos idos e agora
na vestimenta do larápio de lugar pequeno com grande ajuntamento matuto. Não:
isto abuso de imaginação ou traço poético dum escrevinhador ou borra-papéis,
desocupado por definição. Não, aqui somente olhos, também pacatos também
matutos, olhos no ver essa variedade humana a desfilar uns indo ao serviço outros
voltando dele e mais gente a passar às compras às tarefas a encher o tempo que
se não vê e existe. E mais, tem mais! tem crianças, escolares a atravessar a
ponte atabalhoadamente e aos gritos da brincadeira sadia na infância. Tudo,
tudinho ali a ser flagrado por robustos ouvidos de escutar e olhos de enxergar.
Pior, pelos de sentir e pior no pior: de anotar...
Ela no entanto fulgurava nesse concerto
desarranjado pelo imprevisto. Fora, voltava agora.
- - -
Ela já não sentia isso...
Olhava o sujeito aquele rosto estafado
que pedia socorro na sua ânsia na sua aflição e na demonstração do desgosto. Fumava.
A rememoração da foto na memória descobriu ranhuras, o que podendo ser
demonstrativo da idade, no instante em que chupando gulosa ou nervosamente o
toco do cigarro.
Sentou-se a nosso lado na saliência do
vão no gradil – onde a gente se sentara a olhar e a se resguardar na sombra
pouca de árvore viçando desde lá embaixo da rodovia até aqui em cima onde nos
aboletávamos – o gradil posto decerto a proteger para que não se caísse na
loucura do trânsito que tremia o vão a ponte o bando improvisado a passar, nós
outros descansando nossa visita e a mulher estranha ao estranho ali indagativo
e curioso; sentados nós, olhos ouvidos coração e claro ela que chegara depois.
Apesar da adição do perfume barato, aspiramos ainda o hálito que desprende um
fumante, nela entretanto pesava mais feria mais por ser mulher e mulher
dificilmente cheira forte tabaco. Suava, a sudação parecia como que impregnada
já no corpo ou do corpo para o móvel de pedra ou de cimento no qual se
encostava. Notamos ser a criatura frágil e magra e alta e meio esquelética, ou
imaginamos ser alta pelo estado de magreza o que impulsiona para cima as
medidas do ser humano. Agora nada disso interessando, olhávamos interessados e
ouvíamos quase seu respirar, não obstante o estrondo da passagem de cada
jamanta barulhenta por baixo de nós todos, um respirar sincopado (o nervosismo
dum ser costuma trair o que desejamos esconder... e convenhamos: ninguém com
direito a saber o que dentro daquela mente estranha); mas por que estranha,
somente por sermos também estranhos quiçá vagabundos, credo!
Bem, o fato concreto é ter ali aquele
virtual, quem sabe desejando externar o sofrer. Parece que muita gente ainda
não descobriu que franquear uns abanos seja uma caridade e tanto. Enfim é o que
tínhamos a nosso lado.
De repente – ah que expressão mais tola
pois não existe nada no mundo que seja propriamente intempestivo e de graça,
tudo sendo pensado, às vezes sofrido até, antes de exposto; no entanto que seja
um despretensioso repentino – assim tirou da bolsa encavalada a tiracolo no
ombro esquerdo um maço de cigarros para um novo pitar; jogara pra cima a bituca
que quase incendiava já os seus beiços marcados pelo grude do batom leve ou
vencido, e essa ponta num expulsar quase estalada por dois dedos viajou para o
alto e perdera força engolida pela força de gravidade despencando lá embaixo nos
carros a beber aquele ato sem educação e sem prova, por não se poder provar
quem o malfeitor, aqui malfeitora. Quase também acenderia o novo cigarro no
velho que fora atirado no vão nos veículos em alta poluição sonora e do ar.
Clicou um isqueiro gasto no uso e acendeu a coisa ao terror dos olhos e
ouvidos, os nossos. Chupou chupou chupou engoliu aquilo, a fomentar futura
internação por conta da saúde pública doente e sem verbas lamentam críticos.
Tragou, assoprou, baforou o ambiente, um pouco sem pensar nisso aquela dama...
seria uma senhora a senhora ainda jovem velha no estrago da existência
frustrada e fustigada? Como responder a isso de uma desconhecida um
desconhecido. Olhamos pro seu lado sem nada dizer, enquanto ela fungou e até
arquejou qualquer som, na condição do homem mui sobrecarregado no cérebro a estourar
e quando se dá conta já proferiu alto uma palavra (geralmente uma ofensa ou
mesmo um xingamento dos que se fala sem pensar e sem ação do crivo crítico que
temos em nós) ou até frase para logo se arrepender, o que pareceu o caso da
mulher estranha ao estranho. Contudo não pareceu se agastar ou terá
interpretado dizer indevido apenas no interior da cabeça sem liberar a fala; e
assim se calou ou se pensou muda. Ouvimos nítido entretanto “aquela maldita!”
(inclusive com a entonação do sinal exclamativo). Olhou pra lá pra cá rápido,
fixou-se em nós, nossos ouvidos atentos ao que der e vier e nossas vistas se
fecharam num tentar não envergonhar aquela cidadã da urbe morta ou
desconhecida, desconhecida antes de nossos passos a esmo no gastar os paralelepípedos
e o asfalto precário cobrindo as vias. Desconversamos, isto um absurdinho visto
estarmos calados e ela a se pensar muda embora ruminando desconexos nas
palavras, de fato sem qualquer sentido a um estranho adredemente sentado no seu
descanso e curioso.
Todavia a mulher não deixou que o novo
cigarro ficasse velho nem atirou o mesmo a poluir ou assustar condutores lá embaixo.
Não, educadamente apagou o tubinho de tabaco no maço, batendo cinza e fogo e
fumaça, apagando de vez e atirando o resto no chão que nós ambos pisávamos e
também pisavam os que pisavam no vaivém ali em nossa frente. Levantou-se,
sequer lamentando haver ficado tanto tempo e tão próximo de olhos visitantes e
aos olhares decerto dos seus conhecidos, parentes comadres ou quem sabe
adversários e até inimigos... Levantou-se simplesmente, se arranjou se olhou
examinando porventura haver ficado despenteada nos cabelos curtos ou com alguma
peça de roupa fora de lugar ou amassada demais, o que vergonha aos vaidosos ou
àqueles apenas menos relaxados. Então se pôs a sair dali; curiosamente se
dirigindo para a direção exata donde viera! Ora, nos indagamos, por que não
prosseguiu como vinha vindo antes, não atravessou toda a ponte, segurando no
corrimão, como obrigatório fosse numa velha era nova porém desgastada. E sumiu
na visão do matuto de olhares constrangedores e de ouvidos abusivos talvez e de
coração mole com seu sentimentalismo.
Não sumiu de fato. É que nossas vistas
perderam de vista a estranha por algumas horas.
2° - Não agora,
agora caminhamos lentamente compassadamente firmemente absolutamente à beira de
túmulos abertos ansiando uso abuso quem sabe, ainda passando talvez desapercebidos
pelas alamedas por entre capelas suntuosas cruzes nobres sem cruzes
aparentemente e feitas de metais preciosos e com arte a brilhar na manhã
radiosa ao longe deste perto cheio a eles de ventura e vida e alegria e
promessa; decerto desapercebidos da estatuária uma estátua carrega a cruz imitando
a cruz e quer desfiguradamente mostrar o sofrer pelo sofrer como creem os
homens; e decerto também desapercebidos das flores que imitam flores na pedra
no mármore no brilho oco fosco sonso do pobre reflexo do sol da manhã de
promessa nos sepulcros bem caiados por fora pelo tesouro; e pelo esquecimento
dos que possam se lembrar. Mas não, poucos dos andantes nesse cortejo fúnebre
não percebem o fausto do nada exposto mostrado às vistas quiçá a provocar
ouvidos com o silêncio dos mortos e dos seus andrajos enfeitados por fora como
riqueza. Poucos. Muitos, quase a totalidade dos que carregam Aparecida
desaparecida ontem no mundo dos viventes olham o vistoso; contudo passam, seguem
todos à frente em busca da “morada definitiva”, diz a rua, da devida residência
pobre da pobre Aparecida; Aparecida ao comum – vizinhos conhecidos amigos,
amigos!? parentes e curiosos também (há um bêbado que surgiu do nada no nada
dum velório) – sim ao comum o apelidá-la apenas Cida, encurtando escrever
economizando tinta visto haver sempre algum louco a registrar, tão só a
registrar as coisas, coisas como este acompanhamento do féretro que passa agora
na classe rica da cidade morta ou só desconhecida do desconhecido ou mesmo apenas
estranha. O cortejo dos homens que levam no inferno de passos curtos lentos sem
parecer turismo, longe longe disso, caminha ao paraíso no depósito de um corpo,
que é o soma na soma de sofrimentos e algumas enxeridas alegrias. Pois é assim
o pensar em pesar no homem da rua. O qual atrás um a um comportadamente doutros
homens e caminham passado o quadro ‘belo’ da quadra milionária eivada de
aparatos, distantes do próximo; e então esse cortejo molenga ou disciplinado e
ou só imitador vê agora os menos ricos ou mais ricos para os pobres que seguem
um caixão barato no menos caro para os que somente podem pagar a primeira
prestação e assim admiram os túmulos baixos àcima dos já esqueleto, antes só
podridões e choros dos que ficaram. Nisso não há alegria, alegria? é claro; há
curiosidade bastante, o homem é curioso por natureza. Vê-se tumbas apenas
pintadas ou relegadas ao mato à sujeira ao pó do tempo; ao esquecimento dos que
se lembram quando lembram lembrar. Não tem estátuas nem mármore nem brilho mas
tem pintura ou tijolo descascado carcomido em cima como fosse veste visto por
baixo; e ruelas a passar para que se passe a pisotear as estreituras e o que
mais tem quando tem são flores murchas igual a vida murchada acabada, essas
flores que foram naturais; tendo ainda muitos dísticos com dizeres que nada
quase dizem e algumas fotos indicativas apagadas embaciadas de coloração antiga
dos mortos quando vivos ou apenas virando agora saudade, retocadas a deixar na
imagem belas aquelas feiuras ou a esconder melhor o feio quem sabe. E têm cheiros,
cheiros bastante também, ou de vela queimando queimadas ou de frutas estragadas
igualmente mortas e em decomposição e mais o cheiro horroroso (interfere
adjetivando o nariz nos olhos nos ouvidos estranhos de visitante à cidade abandonada
ou morta de fato, ali o lugar adequado à morte) sim escandalosamente horroroso
cheiro de gente a gente nos finados e no dia de todos santos comprimida na
visita suarenta aos seus mortos e aos mortos de outros não mortos ainda, aos
mortos frios quietos nos seus respectivos corpos, quando não o soma na soma dos
poços de ossos ocos mortos, a economizar terreno espaço tempo e dinheiro, tempo
é dinheiro dizem apressados teóricos. Contudo vencem passam deixam a ala quase
rica pudesse perante a cidade dos pés juntos (diz a brincadeira caipira) essa
parte, deixam-na para onde ruma o cortejo da Cida rumo à última estada dessa
mulher. Ou tão só a cumprir o dever de cidadão e de cristão no pensar comum.
Agora caminhamos então para a ala dos
mortos pobres mortos e pobres ou mais pobres quando vivos, se vivos, viva a
Cida. A morta urbe no orbe sofrido, sofrida em terra solta terra fofa sofrida
também da Terra, é igualmente a negação da beleza e da arte numa arte jogada
atirada ao acaso como ocorre em acaso, o caso da morta morta viva era Cida,
vencida pelo cansaço e a dor como comum acontecer. Seus convidados, muitos
forçados pela circunstância aqui em belo dizer, eles vão indo devagar quase
parando quase respeitosos, não obstante desconversas para fugir do tétrico do
fúnebre do pesado do momento; na direção da direção, a direção indicada por
funcionários convencionais, os coveiros aguardam mais um serviço, depois seriam
decerto acertos nos desacertos conjugais para um ou para todos, a mais nova com
febre os outros pequenos com suas grandes exigências para bolsas exíguas mas a
situação é necessária como o mal; e então eles se voltam à chegada de mais um
fim, para eles apenas mais um serviço dentro do trabalho onde lotados e o chefe
é chato igual outros chefes que mandam nos desmandos. O povo quase afoito ou
somente curioso e espevitado vai rodeando o buraco menor que o buraco do mundo
que é agora o residir da Cida, a Cida que no instante certamente não pode
vê-lo, só os acompanhantes em ter o privilégio momentâneo e precário e no
sentir as barbas de molho ao futuro cobrador; e todos, quase todos, a se
indagar quem o próximo nesse distante a satisfazer a distração humana. Contudo
as visitas que acompanham mais um morador – moradora sofrida a bem da verdade e
que ora parou de sofrer no sofrer da interpretação do homem da rua – mais um
entre tantos na necrópole que é uma repartição municipal com poder funcional
mesmo naquela pobre parte pobre. Onde se vê vemos também os dois olhos a piscar
a chateação e as duas orelhas em abano curiosas de ouvir comentários do que
pensa que pensam os que pensam ou só falam sem se preocupar pensar do que são
mil montículos com cruzes, cruzes! e embaixo não se vê ver-se-ia mil e um
vermes se alimentando nos destroços cadavéricos e agora mesmo eles aguardando
mais um defunto, a morta chegante. Veem covas quase rasas com terra por cima e
mais nada tudo meio nivelado no ser não no ver. Uns abusam do tempo ou do
relaxo, pisoteados quando como agora na chegada do esquife mais barato que se
pôde adquirir com a garantia dos vivos à morta pela gasta vaquinha ou cotização
dos presentes frente à funerária, a qual não raciocina porém conta com seu
computador todo acelerado a apurar despesas gastos trabalhos lucros e não
admite perdas. Uns poucos, felizmente uns poucos, uns montes de terra já
desapareceram nivelados do tanto pisar desavisados e seus grânulos de sílica
comprimiram-se desapareceram como túmulo no guardar seus mortos, os vivos mais
interessados na descida do novo corpo da velha, em atirar três montinhos
formais ou cerimoniosos sobre a tampa fechada adredemente e após são pás suor
fungar dos homens que trabalham e tem um deles que empilha mais rapidamente
possível as coisas que se vão acrescer no vão já a fechar para fechar ele mesmo
o serviço do dia e correr pra casa ouvir a reclamação dela o choro das briguinhas
dos filhos e isto tudo é mais vida que aquele paradeiro da morte da Cida,
quando já os acompanhantes se preparam ou no guardar lenços de chorar ou a
pensar mais vividamente nos problemas mundanos que são os seus problemas; porém
tem alguém ninguém conhece ali que entrou no corso um pouco dopado por caninha
e sequer sabe o nome do morto, que era morta quando viva; cujo registro seja
nessa repartição seja noutra como o cartório de nascer ou de casar era então
Aparecida Silva e tendo outro sobrenome em nome de família a acrescer, parece
que Gonçalves Almeida Rodrigues... agora sem importância por desnecesário.
No conjunto a nova morada da velha ou
nova senhora desgastada tida por dona Cida no Buracão, vila pobre mais favela
que urbanizada, mais miserável que os destroços pobretões na vizinhança sendo
uma periferia sem sequer aparecer no mapa da cidade abandonada ou desconhecida
pelos desconhecidos olhos-e-ouvidos, mui conhecida ela nos arredores pelos demais
detentores de sofrimento. Nesse conjunto novo tão velho como o mundo onde nova
morada da mulher, não se destaca a beleza e nem a arte; mais que esse menos: se
respira um ar de constrangimento explicável um silêncio embaraçoso e há a vista
para se perder de vista assim que se passe fora dos seus muros, cujo portão de
entrada agora de saída tem inscrito sentença a dizer do pó se vindo e se
virando então outra vez pó, numa língua estranha pra se poder ler quem no cortejo
fúnebre e a deixar no rumo de casa e seus dramas esse drama.
3°
- Não
agora nesse sepultamento, antes. Antes era a vida, no que se pensa como vida
mas tão só existência curta precária em torno de uns setenta anos; Cida
ultrapassou o assentado de setenta pela estatística embora dando-se a esse pagamento
forçado nos setenta janeiros e por fim mesmo dezembros uns cem anos, o que
próprio dos exagerados pois nova no modo matuto de falar e vivendo numa velhice
precoce já bem antes dos setenta, demonstrando isso sobretudo nos finais de
seus dias quando enterramos um verdadeiro destroço humano.
A morena Donacida, assim a se expressar
a vizinha da vizinha, Donacida hoje, ontem anteontem trasanteontem antes ainda,
hoje ou seja nos últimos tempos, possuía o amorenado da pele enrugado de tanto
apanhar da vida, gasta cansada feia mesmo; se bem nesse mal perigoso afirmações
visto não sabermos suficiente o que seja feio em oposição ao belo também
impróprio nem o que vindo ser moreno. Nisto achamos que a gente vai esbarrar em
algo caro ao modismo do preconceito atual, atual mas que sempre existiu, e ainda
esbarrar na lei que tenta impedi-lo. A pisar ovos evitamos pichar alguém como
preto, o negro menos preto na agressão verbal; diríamos então ‘crepe’
aproveitando o fato de o povo desconhecer o vocábulo e assim atingindo o alvo
sem ferir sensibilidades; melhormente se sai a gente comum com a palavra
‘moreno’ a qual não diz nada. Desse jeito em referência à Cida no bairro do
Buracão na cidade estranha pequena acanhada ou talvez somente desconhecida ao
desconhecido, nós; assim disseram os que diziam ser morena, a morena cultivou
relações (isto uma imprecisão porque dificilmente cultivamos conscientes
amizades, o que nada nos custaria) relações, umas aparentemente positivas
outras negativas por toda uma vida. Veio de Minas ou de Mato Grosso ou apenas
com passagem por essas paragens e se fixou na cidade, vivendo quase numa só
casa pelo resto da existência; ou trocando a morada algumas vezes entretanto
sempre dentro do Buracão, bairro pobre e de má fama... Das amizades se feriu
bastante numa comadre um pouco linguaruda ou por falar um pouco muito fácil ao
gosto da prudência; uma relação conflituosa de ambas e provavelmente sendo essa
vizinha a pessoa que lhe escapara do crivo como “essa maldita”, flagrantemente
já um desafeto um inimigo mesmo ou mesmo fruto de amizade desfeita, o que mui
encontradiço em nossa aprendizagem no planeta.
Não nos descuidamos com nossos olhos e
nossos ouvidos a procurá-la naquele dia do encontro na ponte quando ela na
multidão, isto sonando absurdo e apenas permitido à poesia desgraciosa dos que
rabiscam porque multidão numa cidade miúda, por mais desconhecida que sejá, é
improvável, provável só ajuntamento nas ruas com as pessoas interessadas no
comércio em dia de semana como o tal dia, ainda assim na época da colheita com
roceiros a aparecer. Digamos houvéssemos cansado as pernas gastas atrás de
Aparecida desaparecida desde a ponte indo não sabíamos onde – ah sim no meio do
vaivém citadino; não se suponha maldito agito apito grito do povo e dos guardas
num trânsito caótico e poluído, não. Não, o povão andava a contento contente no
seu lerdear, nada de encontrões de desculpa de lamentação e de uf em alívio na
ultrapassagem da pressa perante o magote humano. Sequer tínhamos nós semelhante
pressa ou aflição em chegar, se não sabendo onde e piormente a quem chegar. Por
muito custo encontrâmo-la horas depois e quando já desistindo da empreitada,
mesmo porque viver tanto tempo à procura de quem não se conhecendo e mais do
que a pessoa fazendo seria não ter o que fazer na vida (a pecha de vagabundo
voltava célere à mente...) Por fim, havendo fim não há nunca em nada em tudo,
achamos Aparecida a explicar numa voz rouquenha não se sabe o que para alguém,
a uma senhora ainda mais desconhecida que a Cida desconhecida. Não precisamos
indagar, indagar! não precisamos sequer parar escutar prestar atenção nas
vozes: elas imediato se despediram e a morena com que nos encucávamos andou
para sua casa, mais ou menos distante e a distância é só da conta do cansaço de
quem cansado, a gente exausta; a distância é relativa para quem a permeie ou
para quem a avalie, assim relativo como o tempo que é um dado ‘impegável’.
Aqui tomamos o primeiro susto, não
fossem as horas passadas mais intrigantes e de pouco esclarecimento para conhecer
a personagem dessa visita à cidade pequena estranha ao estranho. A residência
da pobre – agora a falar como conhecedores profundos após muito tempo até a
descida do caixão na cova aberta fechada – a residência não passando dum
tugúrio dum casebre tendo paredes de barro grosseiramente justaposto em varas
umas de pé outras horizontais e tudo prensado
e com buracos ótimos aos enxeridos vento chuva frio era então calor e
ainda a construção com telhado sem telhas porém de sapé ou coisa assim. Ainda
mais menos nas possibilidades visto a casa pequena, acanhada, diminuta, dessas
de se pensar “como possível entrar nela como permanecer nela como sair dela”,
como também não bater em cima nesse baixo a cabeça! Mais no menos: não
suportaria a morada ventania braba que dirá tufão, parecendo um bocado a casa
de penas assopradas numa estória da carochinha. Nada obstante Cida entrou na
mesma e fez lá o que fez, não vimos não escutamos, o nariz abelhudo logo
acusaria cheiros de alho e doutros temperos; daí sim escutaríamos o bater dos
trens de cozinha o tilintar engraçado de talheres e pratos e mais a nos aguçar
a curiosidade vozes, não só a roufenha dela e sim um vozeirão desagradável
masculino e umas finurinhas de criança, crianças a bem dizer. De repente, o que
todos espantos todos sustos compreendem o suficiente, de repente a mulher sai à
porta, quase uns metrinhos de pano de saco de estopa e não uma comportada de
ferro ou de madeira e aqui mesmo que a porta fosse escangalhada; enfim empurrou
os panos de entrada-saída, saiu ao terreiro mil vezes sujo com mato e cacarecos
de brinquedos de menino espalhados, e nesse lugar achou umas achas adredemente
partidas dum tronco, juntou-as como fosse uma criancinha de colo no colo
abraçando o feixe e assim o levou para dentro do que decerto chamando cozinha.
Imediato pôs tudo no fogão caipira e acendeu (o nariz ali perto reclamou do
cheiro de enxofre do fósforo que não é fósforo; isso uma coisa de nariz não
dizendo respeito ao que se via ouvia numa curiosadade quem sabe indecente) acendendo
a custo, terá assoprado até arder os olhos, dela não os nossos, e então subindo
espalhando-se a fumaça negra cinza branca e lógico o cheiro de lenha no
esquente de vasilhas na chapa de ferro a talvez parecer brasa avermelhando e
isto certamente um absurdo na interpretação; a seguir sim: primeiro o hálito da
lenha na combustão e segundo o dos temperos conforme acusado pelo atrevido
nariz, aqui garantimos ser o nosso não o dela, os deles.
Mais não vimos!? Não pudemos diante de nossos
compromissos (de vagabundo? credo) não pudemos permanecer vendo nada escutando
possíveis, diante duma fome braba, que por sinal nos foi lembrada pelo cheiro
gostoso, que seja o exalar bom da comida da senhora então quase estranha ainda;
não iríamos esperar que a Cida, já nossa concreta conhecida virtual fosse em
nome da amizade boa vizinhança bonomia hospitalidade e coisa desse jaez
oferecer-nos almoço. Assim nos ausentamos indo comer um prato feito, conforme a
fala da região, num bar metido a restaurante, barato como é do gosto do
bolso.
4° - Fincamos pé
ficamos à espreita e espera aguardando acontecimentos, o caboclo diz “de
butuca” enfim de olhos mas escondidos, não obstante ali na berlinda no ver o
que surgisse no ouvir o que pudesse e inclusive ajudado por este nariz adunco
frequente a gozar no mau sentido nossos abanos de orelhas quando ele mesmo
(gozam as orelhas) ele parecendo um tucano, avantajado. Sim, o nariz atento a
cheirar a xeretar frituras e hálitos possíveis que entregásse-nos o inimigo
nesta guerrinha particular, visto os de Cida mais ou menos encurralados não
saíam nessa primeira abordagem da toca, um tugúrio um casebre de porta de pano
com janela também de saco de estopa a tremular trepidar ao vento; que no Buracão
soprava frio forte úmido após haver visitado lá em cima aqui em baixo a friagem...
Com tudo isso isto válido aos começos quando inda indo tentarmos saber dela sem
saber sequer seu nome. Note-se que nunca desde esse tempo até chegar lá (o fim
o enterro o nada nesse tudo) enfim em toda fase nunca soubemos o nome inteiro e
válido – aqui validade burguesa que nos impingem num histórico absoluto da
verdade com todos pingos nos ii, quiçá nos registros em cartório – não válido
ao povo pouco preciso muito precário nos postulados e na registração. Importa
no entanto que todos na vila a conhecê-la, sem o abusivo conhecer absoluto e
mesmo às implicações todas que o conhecimento exige como nas coisas históricas;
e nisto nos jactar por haver descoberto que a História, exato: essa escrita com
agá grande de homem com ‘o’ maiúsculo; havermos em suma descoberto que a
História fora até aqui coleção de mentiras! Queiram permitar-nos a exclamação
como prova duma prova. Não, sim: todos no bairro a conhecê-la por Cida, fora a
vizinha da vizinha Cida e aquela sim excepcionalmente a chamando (melhor nisso
gritando pois o homem do povo descontrola alto e ‘decibela’, esta expressão
verbal inventada agora para acertar a ideia desejada, o povão decibela nos gritos)
chamando a vizinha, sem gritar por “Donacida”, nem a comadre sabendo que a
indicam Cida e chocando mui a sonância pela repetição do de cacofonizando como por exemplo em de Cida num descer a subir a voz, a voz da comadre não sendo como a
da vizinha, rouquenha. Claro a inimiga em potencial, tomada por amiga vizinha
irmã comadre etc. e tal não letrada embora não totalmente analfabeta. Tanto
assim que a pilhamos um dia, noutro dia, dias mais tarde, a colocar debaixo da
porta, quer dizer debaixo dos farrapos do saco de estopa fechando quase e o
quanto pôde a maloca numa versão como porta – pondo certo bilhete... Bem, a
gente do Buracão claro não haver frequentado a Academia, essa gente a
pronunciar “biiête”; enfim um bilhete no qual punha lá alguns grânulos de sal
de pimenta de veneno de engodo a acusá-la carregar seu chifre por causa do Zé –
Zé o consorte sem sorte da Cida – e assim qual fermento, estragava com ciscos
com sujeiras uma relação santa... pera lá um pouco, não abusemos das palavras
pois a junção mesmo amorosa de um casal da gente do povo, por melhorzinha que
seja, dificilmente chega à santidade; quanto a de José com Aparecida, a união
nunca foi das mais exemplares. Nos colocando na parede diriam: e os cinco
filhos, o primeiro morrera um natimorto portanto só quatro; isso não santifica
um casamento, um com igreja padre costume festa no que o noivo se embebedou e
somente percebeu a ex-noiva sua mulher na segunda-feira!? Ora, nunca foram ao
cartório e mesmo havendo cartório nunca a se poder admitir a santificação do
casal pela Igreja.
Todavia, não podendo o casal viver bem e
em santa relação com morada trabalho doméstico e fora no trabalho do homem a
manter a casa e sobretudo a existir quatro meninos felizes?
No começo podemos garantir que não.
Posteriormente com os anos a se passar, céleres às alegrias lerdos às
tristezas, também não. A rigor o casamento foi sofrível e aqui se podendo
estender a situação para milhares milhões de casais no planeta, pois raramente
há compreensão e o entendimento, sendo mais comum a cegueira dos companheiros
numa casa a computar na relação. Mesmo possuindo filhos, que são as bênçãos do
lar, aqui sim lar porque a incompreensão torna o lar apenas uma casa. No
começo, exato quando estamos no barranco quase a impedir passagem a descerem
moradores do Buracão às suas choças dentro duma quase favela; nesse começo
vimos muito bate-boca das outras casas e na casa dela. Quer dizer, isto uma
expressão abusada porque nada vimos, ouvimos. Ardeu-nos orelhas as palavras
chulas gritadas, uma guerra nem mais sendo batalha tantas as batalhas
domésticas e o desaforar entre marido e mulher... Ora, pusemos como no correr
do hábito homem-e-mulher no caso o contrário a mais das vezes: a Cida
encabeçando a discussão sempre, ríspida, iniciando o palavrório por pavio
curto. Os vizinhos, escutamos vezes sem conta, eles a afirmar o Zé um mudo bobalhão
e sem iniciativa, apesar do peso da mão. Numa área pobre, miserável em dinheiro
e moral, amiúde os sopapos, o que nunca assustam vizinhança e até alimentam as
conversas, aliás é o que não falta nesses meios. Depois? depois dos entreveros
os combatentes saem pra fora – hoje em dia tendo o recurso de ligar à polícia e
no caso o orelhão telefônico na esquina perto – saem fazer suas coisas sem se
envergonhar e como se nada houvese havido. Porque não sendo da conta de ninguém,
o comum afirma ser da conta de todos na vila. Ele vai ao serviço na cidade
estranha, ela às vezes aparecendo um pouco esfolada... isto interessante porque
em escuros os sinais ficam dias brancos ou esbranquiçados até à cicatrização,
lembrando que em jovens o fecho da epiderme é rápido e longo pela natureza
vagarosa nos velhos sejam de pele clara ou morena; na Cida moça ainda, uns dias
marcada. É aqui entrarmos de vez nos melindres de sua história.
Estamos escondidos no nosso bunker a observar gulosos as coisas a
saber dela, o que faz como faz onde faz por que faz e sobretudo quem é
Aparecida. Isto desde aquela situação discutível no encontro em desencontro na
ponte o vão o cigarro o barulho ensurdecedor das jamantas e suas mil rodinhas
lá em baixo, em cima a gente da cidade abandonada a passar e mais passar
ativando uma população quem sabe de olho no preço do mercado na época da
colheita, mas lerda no se mover – quando um rosto moreno cansado nos pede socorro!
E vimos seguimos percorrendo a multidão e na multidão aquela face dum corpo de
mulher até bonita cujo rosto mostrava então sofrimento (e nós aqui agora a
estudar as origens dele.. nós neste carreador estreito:) Estamos escondidos
encostados neste barranco a exalar ele seu cheiro úmido de terra de saibro de
barro de argila fedorenta, inclusive nos encostamos num cuidado para não relar
na relva pouca da muita argila e têm umas terrinhas em decomposição na forma de
areiazinhas a escorrer também quase como nós para baixo, lá embaixo onde o
Buracão começa (e nunca termina?) onde realmente casebres feitos a machado,
expressão dura e verdadeira dum povo criativo e de linguagem não tão poética
mas sonante e verdadeira também ou apenas justa, visto as partes das ‘casas’
serem como que numa justaposição de restos de madeira de varas e de barro preparado
no próprio quintal, fosse um quintal, quintal de todas moradas; os casebres
cobertos vez que outra de telhas usadas ou de tábuas (roubadas?) de construções
lá na cidade e mais ainda com sapé. Sofríveis.
Estamos no trilho do barranco que desce
da rua formalizada educada civilizada não calçada no final do perímetro urbano.
Ali que se penetra no Buracão, para a vila do bairro pobre lá embaixo, onde
vemos a casa da Cida (aqui quase íamos cacofonizando outra vez nas mil vezes,
numa sonância horrorosa: “de Dona Cida”...) vemos a quase tapera e dela ouvimos
o barulho por vozes esquentadas de sua gente, a da mulher sobressai um pouco
por um pouco ardida embora rouca porém não é isto o principal, o todo o mais
importante para saber quem é Donacida; Donacida nessa altura já consciente por
um toque enredeiro da comadre de tantos anos na representação amiga, poríamos
aspas em amiga, e interessada também poria, visto naquele mesmo dia da ponte
haver soltado sem querer às nossas famintas orelhas “aquela maldita!” Por essa
razão, no instante em que olhamos do trilho sujo que vem da urbe indo ao
Buracão, por essa razão ralha e grita com seu homem, ao temor dos filhos já
habituados nunca aceitadores dos combates domésticos. Ouvimos. E ouvimos
semelhantemente os vizinhos, seja no seu horário na sua casa no seu ‘direito’
em brigar; também ocorre desses mesmos vizinhos a nos dar informes necessários
da vizinha deles, aos quais agradecemos penhoradamente pois como estudar melhor
um ser desconhecido um desconhecido!? E os vizinhos?
Sim, o que pensariam de nós, todo
ouvidos todo olhos e nariz a apreciar e coração a sentir o que interpretado de
uma Cida, a qual por acaso nos passara em frente em vão em ponte em estado de
nossa vagabundagem chocados ao vê-la a pedir socorro no sofrimento indizível,
indeclarável. Que pensariam que fôssemos naquele dito momento estando como sentinelas
postados olhos-e-orelhas no trilho. Mais, tem mais senões!
Portávamos um guarda-chuva, por causa do
chuvisco que fora garoa e espantara o sol medrosamente na tarde da manhã em que
ela se nos apresentara na ponte, “muito prazer, Aparecida...” oh que absurdo. E
as gotas aumentando nos obrigaram abrir o guarda-chuva, o qual não passa dum
morcego negro de braços abertos; aqui dois guarda-chuvas na semelhança estar
unidos ambos a nos abrigar na brigada que leváramos a efeito, inicialmente
postados observando a vida na vila. Então o que aos vizinhos pareceríamos? Não
importa, importa informações e indícios conseguidos no correr dos dias mais de
semana e depois meses até anos, somando aqui o que nos disseram vizinhos depois
do início e mesmo na conversa durante sepultamento da Cida, momento em que se
fala se lastima se engrandece o morto e até se eleva o morto (morta no caso) à
condição de santidade, por um defeito dos que não são santos ou pelo menos
tendo existência reta. No correr dos dias muitos, os tais haviam se aproximado
em bom-dia boa-tarde oi e sorrisos amigos, assim muitos se dirigiram amistosos
para com a gente. Ganhamos inclusive confiança, sobretudo ouvindo seus próprios
dramas, o que nos elevou no seu conceito, o conceito que se faz sobre um
estranho em cidade estranha quiçá abandonada. Isso, alguns até aproveitaram
abrir a boca para pichar a “ladrona da prefeitura”, a qual abandonando não só o
Buracão aos buracos e riscando o bairro do mapa e também não cuidando da urbe
propriamente dita. Não se cansaram pichar, porém com isso acabaram por nos
municiar, alimentando com muito do pouco que estas linhas afirmam da morena
sofredora Cida; e dos seus pois ninguém é uma história sozinho. Sozinhos
andávamos entretanto naquele trilho no ver passar gente descendo subindo rumo
ao Buracão ou dele à cidade.
5° - O fato é
havermos madrugado naquele domingo por gosto ou por ser domingo e não se
trabalhar, nunca realmente se para mas parecia de lá do trilho onde postados
nossos olhos que o mundo dos vivos estava morto, ao menos na maloca no
buraquinho do Buracão em que decerto dormiam os de Aparecida. Não obstante
desejávamos mais saber, mais no pouco que apreendêramos desde o visto naquela
expressão a quase que nos implorar socorro quando na passagem da ponte; o vão
as jamantas e suas rodinhas escandalosamente barulhentas lá embaixo. Por isso
nossa guarda desde muito cedo em nosso posto de trabalho ou só de observação.
Contudo ela não saía da toca; sequer os vizinhos, ainda a dormir ou somente a
descansar visto já alevantados uns fios de claridade do sol, o qual diz a
sabedoria cabocla necessariamente vem irradiar a brincadeira das crianças e o
espreguiçar sonolento dos adultos; logo se levantariam e levantaria o aroma
gostoso do café. Sim logo também alguém de bem a abrir a boca de radinhos de
pilha famintos a gritar alguma canção popular ou estrangeira, porque ali já
naquele tempo não se entendia a língua dos gringos e se ouvindo e até imitando
embrulhado as músicas e o radinho ainda a falar também das notícias de guerra,
felizmente bem longe deste perto onde apenas violência miúda quiçá inofensiva
de fome e crimes passionais ou ligados à droga e demais banalidades na rotina.
Tivemos que responder muitos bons-dias antes que os meninos dela saíssem no
quintal primeiro que a mãe; bem depois é que ouvimos as broncas dadas no
primeirinho a olhar o mundo fora ou algum precioso brinquedo esquecido ontem;
aquelas questõezinhas do nariz a escorrer ou do garoto sair sem roupa no frio
da manhã com tosse e de pés no chão descalços. Já outras crianças ali fora, os
adultos tomavam seu rumo, rumo quem sabe a algum compromisso e até trabalho
mesmo porque tem gente que não para não descansa inclusive no dia de descanso.
Ela por fim se pôs no terreiro, a lenha a roupa uma que outra peça esquecida no
varal; o que grave porque ladrões de galinha desde que o mundo é mundo não
pararam de existir e dos pobres eles levam também miudezas e o varal inteiro se
puderem, o que uma riqueza incalculável para os afanadorezinhos ao prejuízo da
gente de bolsos precários. Constatou ainda dependurada umidecida a peça no
sereno, recolheu a roupa e retornou às lides domésticas no interior da casa,
enquanto o macho-mor da espécie ruminando na cama seu resto de sono: nunca a
fêmea-mor da espécie aceita esse tardar e menos as crianças entendem da coisa;
parece que nisso a caçulinha ou acordava o pai ou brincava com o pai a
acordá-lo de vez porém não se afirma, só escutávamos não vendo lá dentro da
casa; nem das outras malocas, apenas quem circulando já em roupas domingueiras
ou de missa, tendo nessa altura do tempo uns poucos vizinhos de Bíblia debaixo
do braço então a passar por nós no trilho estreito onde nos encolhíamos a dar
passagem, “bom-dia” e acrescemos na resposta “bom-dia meu irmão” para agradar o
sorriso com nossos sorrisos. Não obstante prosseguimos no trabalho de
vagabundos...
Cida e sua família perdurava no
silêncio, talvez de propósito para nos atazanar. No entanto outrem ou a nos
tomar por válvula de escape ou por saltar aos olhos a evidência, outrem dando o
serviço – isto é bem a expressão popular a dizer que a gente não tem nada com
isso mas sendo a gente simpática acaba por esclarecer lá algumas coisas dúbias
que se não deve falar. Por exemplo que noite inteirinha Aparecida discutiu com
seu Zé, o compadre Zé, e apanhou dele... é um homem calmo, um túmulo de boca,
um santo homem porém a comadre encheu encheu tanto as orelhas do pobre que
perdeu a paciência, deu uns... quer dizer, ninguém viu ninguém tem realmente
nada com o desentendimento e até ficamos com pena da comadre entretanto deve
ter marcado a pobre. Ela é um pouco linguaruda e a gente não sabe quem delatou,
ficou sabendo que seu homem anda com uma tal de Zefa a qual mora lá em cima,
uma sem-vergonha qualquer. A comadre é muito ciumenta e... Não vimos ninguém
viu, só falamos assim porque o senhor está aí esperando ela... Tivemos que
dizer haver querer perceber apenas a paisagem bela do Buracão com nossa
objetiva (mostramos a câmara fotográfica como prova) e flagrar prender as cores
as tonalidades verdes muito fortes no local. Outros e mais outros nos pediram
com educação passagem em nossa passagem, a passagem inclinada para baixo agora
menos úmida nessa manhã.
Todavia lá pelas tantas ela nos aparece
já vestida no vestido. Aqui deploramos explicar pois dificílimo discorrer sobre
vestuário, o dos homens a gente não consegue direito o das mulheres a gente não
sabe – parece entretanto que eram uns saiotes escuros, cremos azuis, uma blusa
branca e o resto não dá pra afirmar; enfim saiu passou por nós, não cumprimentou
o estranho o que não serve a dizer não possuir princípios de educação (o que
seriam tais princípios!?) se espremeu no seu lado ao nosso lado, feriu na
passagem de passagem o nariz metido ou sofredor com o quase perfume dela; e se
foi pra cima; ah parece que tropeçou numas saliências do trilhozinho e penetrou
por fim naquela imundície de rua já no perímetro civilizado da urbe, uma via sem
calçamento e sem poeira a compensar, tendo outras sujidades. Assim levou a
efeito quase de propósito a fuga de nossas vistas, nos deixando um pouco
decepcionados. Não, não isso isto: ficamos meio desamparados e desempregados
sem a Cida, no entanto ganhamos liberdade para indagar aos vizinhos sobre ela;
ganhando inclusive coragem a perambular nos quintais, fossem quintais o
terreiro comum onde os casebres. Bem, com um problema no meio – os cães. Não se
deve enfrentar cachorro desconhecido em lugar desconhecido mormente sendo um
desconhecido meio estrangeiro. Então ligamos o dispositivo de prontidão e andamos,
melhor empregar virolar, virolamos a xeretar o ambiente. Alguns meninos já nos
conheciam, outros em guarda a olhar curiosos; sim porque moleque é o primeiro,
antes do cachorro, a nos franquear conversa visto não ter travas nem trevas
supomos; a fim de chegar aos pais, às mães melhor dizer. Tendo mais um quesito
chato imposto à verdade que é de não se dever abordar alguém diretamente, ou
seja demonstrando o que deseja de fato (: a vida atual e a pregressa de
Aparecida) especialmente se desconhecemos estar ou diante de amigo ou de
inimigo ou de adversário apenas ou horrivelmente contatando pessoa indiferente;
porque a indiferença fere mais que o ferimento em si e cria a insegurança e
ainda reforça a ignorância, a nossa por exemplo.
O fato é termos obtido por sorte ou azar
ou cuidado ou até irresponsabilidade algumas verdades da realidade da moradora.
Vivendo há anos no Buracão, tendo trazido de Minas disseram os que não temeram
nossas potentes orelhas a velha mãe, morta ali, não num pronto-socorro da
cidade abandonada, abandonada sim foi a pobre senhora ao seu sofrimento nos
descasos da saúde pública. Nisso aproveitaram algumas se não todas vizinhas a
narrar seus dramas, quase sempre com criança e parentes no meio, como mau
exemplo do mau atendimento. Os poucos machos da espécie haviam nessa altura
saído ou ao boteco ali em cima ou ao campo de futebol, apenas um que outro
permanecendo no terreno comum ao lado dos meninos a chutar bola numa pelada,
isto nome popular do jogo. As mulheres, umas haviam ido às amizades outras ao
trabalho também mesmo sendo domingo. As de plantão narraram o que sabiam da
trajetória da Cida, o que não sabendo direito, supusemos nós haverem suposto ou
inventado para não deixar lacunas e a narração em branco... ou não seria assim.
Segundo comadre Confiabilidade da Silva,
por sinal nome agora criado, conforme ela, ela (vizinha Cida) não é flor que se
cheire mas é boa criatura; a velha mãe dela então: um anjo morreu. Não somente
pelas discussões na madrugada em altas vozes aqui, aqui no pedaço ninguém dorme
mais e não é só por causa dos cachorros a ladrar noite inteira num enlouquecer
a gente. Não. É que a comadre Cida fere constantemente seu homem – homem!? o
senhor me desculpe, não são todos homens mas homem é tudo porco, fuma demais,
se envolve com essas sirigaitas por aí, seu Zé parece um santo não tem defeito
fora o defeito de beber demais, demais batendo nela, nela só porque nas crianças
não põe a mão. Acontece que enredaram, inventaram mil amantes para ele não ter
sossego mais, tanto assim que não fica mais em casa, vai pro boteco com os
amigos e ela fica na casa deles a gritar menino e batendo nas crias, semana
passada sobrou até para a caçula; aí ameaçamos chamar a polícia... polícia? não
tem polícia, não aparece nem poderiam os homens descer aqui no buraquinho do
Buracão com a viatura e essa gente quer é distância dos pobres mulambentos da
favela, que dão muita ocorrência por discussão conjugal e briga de comadres. A
gente não quer inventar, ficando só na verdade, enredaram pra ela aquelas coisas
feias, um rabo de saia gostando do compadre Zé, o que parece ser mentira; ela
creu e vive numa rixa com o marido, dizem que são amásios... A coisa virou um inferno,
já não era paraíso, porque o Zé desempregado ela desesperada e acaba
descontando na irritação e pancadas nos pequenos, não falei que até a caçulinha
entrou na cinta e tem mais muito mais, a gente não tem nada com isso não é mesmo?
a gente fala só o que vê e escuta. Apesar de tudo, com as vizinhas ela é respeitosa.
Não senhor, ela não trai o Zé... quer dizer, que a gente saiba não porém com a
feiura dela: está vacinada contra homem (risota e risotas de todas). Agora tem
uma coisa positiva nesse ‘brigueiro’ todo: é que o homem não trabalha faz anos,
bebe briga não enfrenta a coisa e foge ao bar; e a comadre? sobra para ela pois
as crianças têm de comer. Então sai todos dias pra cidade – deixa os três menores
com o maior, que é deste tamanho ainda e só pensa nas brincadeiras – vai volta
tarde aqui do serviço dela. Às vezes deixa quando adoentado algum filho os
filhos com a gente; comumente ficam mesmo com o Vandinho que é o mais grande
pequeno ainda. No quê? ela trabalha no serviço que encontrar, agora está difícil
arranjar colocação; faz faxina cada dia numa patroa. Têm umas que atrasam
outras nunca pagam. De maneira que traz o dinheirinho minguado ganho com suor,
visto ser trabalhadeira todo mundo aqui sabe disso. Dinheiro não, traz já
sacolas de supermercados com as coisas e não é muito controlada como a gente:
vive sempre tomando algo emprestado na vizinhança... quer dizer café açúcar
feijão essas coisas, dinheiro ninguém dá, ou seja ninguém empresta, tem fama de
não pagar. Ora, nunca tem dinheiro e só compra o necessário. Por isso vive
irritada.
Sim senhor, por isso, e por isso tem
cara de poucos amigos, não tem a infeliz comadre Cida nenhuma amiga... ah sim,
tem uma parenta ou prima ou sei lá o quê. Parece Teresa, é mesmo: fala sempre
na prima Teresa a qual mora num cortiço na cidade. Ela confidencia as dores
mais é para nós aqui mesmo no Buracão, somos de confiança.
Nós é que não confiamos muito no que
falaram fácil as vizinhas...
6° - O fato
menos importante – depois de nos decidirmos ir atrás no caminho que era o
caminho dela, a Cida, o que ela indo fazer (ah que horror nos lembrarmos agora
da ocupação dos vagabundos...) – o fato é termos no meio daquelas faladeiras
comadres de vez em quando a defender com unhas e dentes a comadre de quem
falavam e aí aproveitarem a melhor pichá-la e assim enriquecendo este texto
espúrio; o fato é havermos notado certo senhor já velho gasto cansado negro
(igualmente vagabundo, indagamos com nosso pensar) e no entanto a sorrir fácil
e sorrir para nós mostrando simpatia. Com um senão desagradável, curioso:
ficava o tempo todo em nossa presença a mexer sua dentadura com a língua, ou
num provar fosse postiça ou na coceirinha que dá essa segunda ou terceira
dentição ou ainda por emagrecer o corpo e aí ficando ela grande solta enquanto
a gengiva pequena e encolhida. Assim ficando todo instante a mexê-la ora
empurrando a geringonça pra fora ora agora chupando a mesma na boca – enfim um
costume nojento, pensamos. No entanto o quase único homem e representante macho
na espécie, curiosamente já não mais macho, homem pro que der e vier segundo a bravata
comum, foi de grande valia: os outros machões estavam no domingo pelos bares ou
chutando bola e sobrava quase só o velhote a nos dar atenção masculina, sabido
que os homens entendem melhor os homens que as mulheres, por mais comadres
sejam as comadres. Acresceu o velho Zé, também José como o companheiro de
Aparecida, enfim somou alguma coisa na soma do que até neste ponto afirmado
sobre a Cida. Que o marido dela ajudava como pedreiro, agora nem isso tendo por
ganha-pão porque nada de achar trabalho, se ocupando só no bar. Ah e lhe
parecendo ser mentira o que as mulheres falaram, a questão de trair a esposa;
acresceu qualquer coisa como a gasta intriga da oposição. De maneira que logo
deixamos nosso velho, nossas orelhas bem entendido, os olhos mais interessados
no ver além; que todos sabem ser após a rua ali de cima, bem na direção da
cidade.
Somente naquele domingo não. Preferimos
estender além para entender o estudo sobre a mulher que aguçava mais e mais
nossa curisidade; sejamos sinceros pois é feio viver atrás de outrem a
conseguir informes de sua vida; não: uma curiosidade sincera honesta e direta,
nada de interesses mesquinhos e imoralidades. Por isso tornamos noutro domingo
e noutros a esse reduto. Nem se fale das visitas durante a semana semanas a fio
no Buracão e a perambular na cidade estranha atrás dela. Claríssimo que não nos
demos a conhecer mas parecíamos fantasmas, credo, a segui-la!
Bem, descobrimos onde faxinava; melhor
nisso esclarecer onde os vários lugares em que prestando sua força de trabalho,
a gente torcendo que a contento, já simpatizados nossos olhos nossos ouvidos
com a Cida; quase se pode afirmar imantados nela. Por essa razão tivemos que
muito andar; aqui não seria reandar? revirar inteira a cidade abandonada ou
somente desconhecida por nós desconhecidos então conhecendo já quase palmo a
palmo essa aglomeração urbana. Tudo para entender melhor essa mulher. Enquanto
a persegui-la a vigiá-la a fiscalizá-la (ah quanto abuso da indecência e da
inverdade!) enquanto isso, ela a lutar numa residência ou a sair dessa para
oferecer seus préstimos noutra, e daí ficávamos ao deus-dará. Mais exatamente a
Cida abria o portão duma e nela permanecia até tardinha, um dia foi noite alta
para acabar o serviço e a sair andar estafada decerto e a descer o trilho
tornar ao recanto dos seus; claro, então nós indo para nosso hotel, um sem
qualquer estrela e mais pensão barata e bastarda, porém isto não interessando à
questão. O fato principal é Donacida andar ocupada a ganhar o pão à família
enquanto nós desocupados... aquela chata lembrança do vagabundo. Nesses entremeios
andávamos às tontas; ou antes: circulávamos para observar e mesmo apreciar as
particularidades da pequena urbe, quiçá fazendo um levantamento de sua beleza
pois só os maus bofes não descobrem o belo num lugar por onde passe.
O interessante nesse passeio é que não
nos libertávamos da impressão que nos impregnara o ser. Aquele olhar na ponte
nos perseguia, a expressão sofrida ansiada a nos pedir socorro; por onde
fôssemos, mesmo a tentar esquecer lembrando que a mulher estava firme e
honestamente a trabalhar para uma dada patroa no sustento, ainda assim não
esquecíamos totalmente. O que fizemos nesses casos: partimos à distração como
fuga.
A fuga foi aproveitada para descobrir a
insegurança que toda sociedade hoje em dia tem, não tendo sossego na paz
perdida já século.
Esclareçamos tal ponto.
Em nossa cidade, não estranha mas talvez
sim a outro estranho igualmente, nela tem havido nos últimos anos uma crescente
onda de maus elementos, sobretudo ladrões, ladrões de galinha e ladrões de
cavalos como antanho que a história registra não temos mais, ou temos uns
poucos os quais podem envergornhar-se com sua inexpressividade estatística;
contudo os outros ferem a tranquilidade dos vizinhos e últimamente inclusive a
nossa... Diante do problema investimos na residência na colocação de gradis,
umas grades altas e intransponíveis (esta palavra é vazia em se tratando de ladrões...)
De maneira que, nesse processo válido para nossa urbe menos pequena que a
pequena estranha quiçá abandonada de Aparecida, então vagabundamos com tal
preocupação; em virtude disso, seja uma virtude talvez não seja; enfim por essa
causa, por todos lugares para onde nos deslocamos, quase que fatalmente
examinamos a insegurança de outrem a medir nossa precária segurança, fixando
nossos olhos nos portões nas grades e até nas eletrificações nos cachorros nos
seguranças armados, oh sociedade abusivamente bélica! Ora, acabamos por fazer
um estudo, um certo levantamento da forma que os habitantes doutras cidades
usaram a se proteger, isto imaginando que o problema ocorre por todos lugares
na atualidade. O município em questão nos pareceu realmente abandonado, ou
apenas contando com recurso e inteligência dos moradores, uns poucos deles pois
a maioria e sobretudo a pobreza deixa como está para ver como fica. Nós no caso
analisado, fôssemos o ladrão, esse tão comentado amigo dos bens alheios, fôssemos
ficaríamos alegres e ricos na cidadezinha da Cida; visto a grosso modo as
residências estarem desimpedidas... O que mais vimos nas andanças foram muros
baixos quando muros, portões frágeis quando portões, escancarados ou educadamente
fechados, decerto a cães vadios e à entrada de animais outros de pequeno porte
ou a impedir a saída de galinhas por exemplo, gatos não se pretende segurar. E
o ladrão! Algumas residências, aparentemente não pobretonas, tendo gradis e
portão ao carro e portõezinhos de entrada fechados a cadeado, de ferro; ainda
se vendo o comum pontalete para dificultar (o verbo é proposital no caso) a
superação pelo criminoso; sim, achamos crime roubar e inclusive crime num ‘inocente’
furto. Também vimos casas em que se imagina ferir mãos abusadas nos cacos de
vidro incrustados ou então pregos de ponta para cima cimentados no muro.
Entretanto flagramos algumas, muitas isso sim, falhas: as residências têm muros
têm grades têm mil empeços criados a dificultar entrar-e-sair, aqui com o
roubado tesouro na mão... Têm isso muitas, porém sempre sobrando oportunidade e
espaço onde o meliante pôr os pés como apoio, onde se segurar para escalar a
muralha... Vimos por exemplo casas afortalezadas sim mas possuindo colunas
quase fazendo às vezes de escadas aos pés criminosos! Diriam, diria Donacida
também? diriam “e o cachorro feroz”, quantas vezes lemos placas ‘não entre, cão
bravo!’ porque hoje somos cidadãos defendidos no lar por potentes pit bull, os quais morderão o estranho e
nas horas vagas comerão o próprio dono, a tevê gosta de exibir tal exemplo, o
que dá muito ‘ibope’. Respondemos: um pedaço de carne temperada ou um tiro
certeiro do ladrão pode anular essa ferocidade. Em resumo, lá e aqui não temos
solução.
Aliás gritamos este último alvitre, se
alvitre, parece até que o pensamento e mais a indignação extravasaram dos lábios
à voz... O que será a cidade estranha pensou do estranho! Ora, por que nossa
boca não se comporta como nossas vistas e nossos ouvidos...
7° - O fato é
que estamos ali vivos a observar a gente e de olho em Donacida no domingo, num
outro domingo e se se exigir esticar mais também o mesmo na semana semanas e
semanas assim, o fato básico aqui, ali, lá, é vermos o festival de trajes...
bem, se quisermos trajes a rigor, seria um ultraje à verdade. Porque hoje todo
mundo se veste como todo mundo, inclusive numa favela não esperemos roupas de
grife mas por que não até isso! se isso quase já não distinguindo os seres numa
sociedade como a nossa. Raro ver-se alguém nos molambos e os vizinhos de
Aparecida vestindo o que supomos o normal. (Agora, que seria normal?) Anda-se,
fala-se, fala-se? gritado, sobretudo os meninos, sem referência a uma pelada
com bola de meia, hoje em dia fácil adquirir as bolas de borracha ou de
plástico. A gente grande, quase sempre pequena na altura ou de médio porte,
conversa ri esbraveja xinga. Na semana todos ou trabalham ou têm ocupação e a
meninada, a que não trata dos serviços de casa às mães na patroa ou mesmo como
profissionais de qualquer setor; os que livres, vadiando brincando e vezes
incontáveis brigando. Num lugar comum assim – e por causa dos filhos – há muito
bate-boca, os de Aparecida também pois não são doutro planeta mas seres
vulgares. Ela sai, como vimos, nas visitas a trabalho e as crianças perambulam
no Buracão. Hoje há uma exceção na ordem geral das coisas.
Falaram que o Zé tem outra mulher. Ora a
gente nunca ou sempre crê nas informantes, informantes podendo ser sinonimia de
comadres vizinhas e inclusive se parecendo com visitas eventuais às vizinhas e
então é a passagem dos dados e imediato quase (isto por haver sempre a
incubação ou fermentação dos virus da exclamação admiração interrogação
explosão:) então é o caos! Ela dá uma desculpa esfarrapada após dias num pensar
no que não pensar, diz um qualquerzinho como precisar ir receber na patroa dona
Matilde, esta por ser má pagadora e... não vai coisa alguma dizer bom-dia no
Riachinho, vila de Matilde, mas em direção contrária, ou seja ao Matadouro;
lugar com nome de sacrifício, a bem da verdade de boi e vaca à população
carnívora com queda para onça e nada vegetariana, o homem comum é assim, que
fazer! Por ser nesse bairro a matança, todo bairro vira Matadouro e todos sabem
onde. Contudo não interessa à Donacida sacrifícios, sacrifica antes sua paz e a
cordialidade na família para dizer, caso a encontre, para falar enfim uns
desaforos à rival. Rival é a pior doença na moléstia do amor e do respeito,
dessa maneira não pensa só pensando nela, aquela maldita, aquela Zefa que a
Cida leu numa referência de escrita tremida porém no possível semianalfabetismo
da ‘amiga’ pobre, de boa intenção na sua maldade; a implicar uma fulana a andar
com o esposo ou apenas companheiro da vítima; não, não isso, isto: o Zé
rodeando a sem-vergonha, embora mais bonita ou mais carinhosa que a sua
companheira. “Não importa Vandinho!” foi o que sobrou ao mais velho quando a
mãe ruminando no como tirar a limpo a estória e o menino ali perto a desejar saber
o que ia pela mente da genitora. Não importa, a mãe vai sair... vou receber da
patroa, aqui blasfemou... Cida tendo igual a muitos o defeito de pichar, de
desfeitear, detonar por baixo os desafetos, carregando com tinta escura forte
berrante através dum nome ou feito pesado a desancar adversários agora
adversária quiçá inimiga – pronunciando Matilde, pensava Zefa.
Foi, já passara subindo o trilho, tomou
a rua comportada civilizada não calçada nem asfaltada e pouco cuidada mas não
foi no rumo do centro onde a patroa porém na direção contrária ou seja indo à
periferia da periferia e quase nas barras da saia da roça, onde já se vendo
algum pasto algumas árvores frutíferas cafezais milharais essas coisas. Aí
chegou defronte da casa da rival. Deparou-se com a mãe também escura dessa
rival. Então perdeu um pouco as forças que dá a força da raiva, amainaram os
ímpetos, estando meio sem graça diante da senhora desconhecida; ficou pasmada
perante a idosa mansa e aparentemente também sofrida. Viu como que um reflexo
da aparência de sua própria mãe na mãe simples ou simplória da outra. De maneira
que a ferocidade que trazia contida e o arsenal de xingos pesados para
metralhar Zefa, tudo fora por água abaixo e apenas cumprimentou a velha. A
coragem somente permitiu que Donacida perguntasse a saber se ali morando Zefa.
A senhorinha que sim, a visita agora igualmente uma estranha à estranha foi
pouco além: estaria a filha na casa, poderia chamá-la... Não se encontrava.
Cida torna menos opressa, ao Buracão;
agora poderia até contar os passos na volta; na ida sequer se percebeu: fora
num acelerado em tom marcial, como fosse comandante à frente desse exército de
um só homem, uma só mulher, pisando firme na cadência de avançar. Torna murcha.
Nem mais vê os olhos que a veem os
ouvidos que tentam ouvir-lhe o ruminar brabo nem o nariz que já sentia o exalar
do seu cheiro de suor naquele sol que então caminhava igualmente ele a incidir
forte na poeira da estrada longe, fora quase do núcleo urbano pequeno acanhado.
Não obstante estávamos ali atrás feito cachorrinhos (não basta ser vagabundo!)
Ou por outra, vira um homem estranho no lugar a si estranho para a cidade
estranha quiçá abandonada. Felizmente, felizmente pra nós bem entendido,
desconhecia o desconhecido e bem que poderiam aqueles olhos argutos ou curiosos
estarem a passar também sem vê-la. No entanto agora, desde aquela visita, que
resultaria talvez numa briga conjugal a envergonhar o mundo decente, desde
então teríamos que adotar certas precauções...
Outros dados obtivemos mais para diante,
aqui sabendo já no que dera o embrulho e como fora o tirar tudo a limpo da personagem
contra seu desafeto, sabendo sim por terceiros e não com nossa exposição diante
do inimigo. Inimigo! qual inimigo se ainda nos refletia nos nossos recônditos o
seu pedido de socorro e estarmos mais ainda interessados saber-lhe os dramas.
8° - O fato mais
inesperado, inesperado por nossos afoitos olhos, foi descobrirmos naquele dia
já de volta do malogrado encontro de nossa personagem com a personagem dela, a
tal de Zefa; então, descobrimos que Cida
não era tão magra como supusemos à primeira vista na ponte e ainda ficamos assim
a pensar fosse: realmente magricela sim escura sim alta sim não esquelética.
Quem sabe se não fomos iludidos ao tomá-la a nos implorar (baixemos a bola –
somente pedir, o que estaria já de bom tamanho) a nos pedir socorro. Ora,
socorrer uma pessoa até aí desconhecida não é caridade!? então agimos certo;
certo embora não estivéssemos a julgar assim... Que fazer se lemos em seu
semblante cansado sofredor impaciente o pedido; e nos enrabichamos atrás dela naquele
e noutros dias e muitos dias além. Agora estávamos a tentar ler seu estado de
espírito, sabedores do insucesso duma possível abordagem numa boa briga com a
rival, a rival da rival agora com os seus; exato uma segunda-feira de boas
preguiças certamente e por certo também boa se não ótima para criticar apreciar
seu comportamento, especialmente o Zé não presente, havia antes da volta da
esposa ido procurar serviço. Os meninos assim disseram, a mãe leu trocado:
serviço por Zefa. Enfim tornou nervosa e mais por não ter na outra batido, de boca...
não teria acaso sobrado uns sopapos uns puxões de cabelo, a Zefa bem cabeluda,
isto nos informaria uma comadre desocupada. De forma que, positivamente a Cida
andava negativa e mui pessimista no retorno. Quem sabe não voltasse desabada e
com um sentimento de decepção; podendo haver tornado com um amargor do dever
não cumprido, cumprido caso houvesse encontrado a rival e feito nela a justiça
segundo a justiça de cada ser, levando a efeito uma correção definitiva. Não,
ficou-lhe aquele negativo de não ter socado a ladra do seu homem. E ainda
precisou mentir, o que não é grande desastre nas baixas camadas sociais. “Não,
Vandinho, não encontrei dona Matilde nem recebi”.
Na terça fomos melhor recompensados, não
estando no Buracão a mãe só os filhos, mesmo estando eles não poderia o
grandinho andar na aula! era período de férias, para horror de quem, pobre,
tenha de ficar aturando menino em casa a se desentender. Todavia fomos
agraciados com a boa vontade duma vizinha, a qual garantiu nem saber do tal
bilhetinho posto por baixo do saco de estopa feito porta, a porta da comadre
Cida. Aproveitou narrar que ambas rivais, naquela terça-feira mesmo de manhã se
rasgaram se bateram na rua a dar espetáculo, ela falando show, pois é o que se vê se ouve na televisão e o povo gosta muito.
Parece que até deu boletim da polícia. Indagamos, como um bater com luvas de
pelica e diplomaticamente, se a outra desistiu afinal do Zé ou se este largara
a amásia... Ela gargalhou, ajuntando “o compadre não deixa nunca uma beleza
daquela, trocaria fácil a feiura que tem no lar”. Lar doce lar... Provável que
a comadre tendo um carro de razão, visto semanas depois de observação criteriosa
de nossos olhos e de nossas orelhas de abano, ainda não havia mesmo largado seu
homem, ou melhor: mandado ele ir coçar a Zefa. Tem casal que suporta
infidelidades anos a fio para não atingir a prole. A comadre informa: “não é
isso não, seu homem, o homem dela é acomodado”. Despencou a pichá-lo vagabundo,
deu exemplos conhecidos desses senhores perfumados por aí, que não fazem nada
em não ser ficar paquerando certas mulherinhas (usou esta expressão a nos
deixar envergonhados...)
Se tivéssemos um pouquinho que fosse de
vergonha na cara – nunca mais poríamos o nariz no Buracão. Contudo raciocinamos
assim: que importa a opinião duma comadre mui faladeira e cuja evidência
demonstra haver cometido o crime do bilhete contra a ‘amiga’, tratando a mesma
por Donacida. Então ganhamos não mais que um dia de molho no hotel, sob pretexto
da gripe, esta de costas largas; na quinta na sexta no sábado e mais no domingo
estávamos a fazer ponto no trilho que conduz à favela e aos favelados. Não
tínhamos mais à mostra nossa potente objetiva, embora o objetivo de fato a Cida
nossa sofredora heroína. Não, fomos assaltados perto da rodoviária, levaram o
pouco dinheiro de nossos bolsos e a máquina de fotografia, sem maiores
violências felizmente. No entanto andávamos experientes e fizemos muita
amizade, para recolher mais do que as comadres ofereciam como material de
graça. No hotel à noite diário enchíamos mil folhas para não esquecer o que
víramos durante o dia; o dia, pois o ambiente lá na favela não recomendava
permanecermos no sereno noturno... Na verdade temíamos esse ambiente. Além do
mais o que anotar ou como anotar num local sem iluminação. As malocas sim tendo
luz, a gente podia facilmente notar as gambiarras que se faz com fios cruzados
desde os postes na rua civilizada em cima. Algumas casas apenas com vela ou
qualquer coisa assim. Apesar de todos acontecimentos a dificultar obsevação da
morena, no entanto concluímos algumas coisas valiosas como não ser magricela,
porque fôramos forçados crer pela imprecisão; e descobrimos, aqui estando mais
próximos da mulher e seus pequenos, notamos nela uns vincos na fronte, o que
indício de preocupação, sinais que a perdurar as causas marcam qual numa foto a
imagem por toda existência.
Outra coisa que flagramos ou só
deduzimos dela estando mais próximos agora do convívio em família,
especialmente encontrando-se o companheiro na casa, é que não ouvimos nenhuma
vez tratamento carinhoso. O que comum nesse extrato da população. Nada de
“benzinho” e “meu amor”; dando impressão sentirem vergonha usar a delicadeza. O
contrário disso, quando não uma linguagem à beira da violência, ao menos a
grosseria constatada no estilo “deixa que eu chuto!” Mas nos perguntamos: até
quanto sentem os membros duma família com esse tratamento rude. Por outro lado
necessário levar em conta o palavreado melífluo da falsidade, disfarçando o
real sentimento. Não iríamos corrigir essa gente pois é preciso convir –
ninguém ensina ninguém numa abordagem rápida, sobretudo quando somos estranhos
aos estranhos numa urbe estranha quiçá abandonada. Assim nos abstivemos dar
aulas e até palpites inocentes, inocentes até prova contrária. Tem mais um
senãozinho nesse propósito que é ao educarmos alguém, digamos uma Cida com seus
meninos, nunca tentaríamos falar com o Zé; o senão de pensarmos no fato de estando
nesses buracões da vida estarmos expondo-nos ao crime. Uns veem um pobre e mais
se miserável e já pensam em desvios em crimes em violências em drogas etc. e
tal. Tal não vimos nesses baixos da sociedade. Aliás perdemos a máquina de
cortar cabeças e pés na foto exato no centro da cidade pequena, não em seus
arrabaldes, o que não é tão estranho visto a bandidagem viver e ‘trabalhar’ nas
zonas centrais das grandes urbes. O interiorano teme isso. Entretanto o Buracão
sempre nos recebeu mansamente e com amizade, embora nós estranhos ali.
9° - Um belo
dia, ah que expressão mais tola, um dia, após haver pensado horas em nossa
pensão com mania a hotel e a estrelas e examinando nossa mísera carteira,
resolvemos dar um tempo para quem sabe numa outra vez tentar estudar descobrir
melhor a caminhada de Aparecida.
O fato mais flagrante é que estávamos
sem numerário...
Sequer tornamos ao Buracão nos
despedirmos dela; mas despedir por que razão se nem fizéramos amizade; amizade?
nunca vira a mulher os olhos que a olhavam as orelhas que a escutavam. Que
fosse uma despedida sim às suas porta-vozes, as comadres e sobremaneira a que
nos indicava a Cida por Donacida e lhe fizera o ‘favor’ enredá-la com o esposo
num bilhete safado. Fizemos então no pior o melhor: saímos à sorrelfa
frustrados, fomos num ônibus para nossa grande cidade também pequena e não mui
distante da urbe estranha e decerto abandonada. Para se não pensar mal de
nossos belos olhos e da mente sadia pagamos a conta – havíamos antes, prevenidos,
quitado a hospedagem... será não antevíamos os ladrões! – sim pagamos e quase
imediato viajamos.
Como dito resolvemos dar um prazo às
coisas no Buracão melhorarem. Tempo depois levamos um susto. É que se passaram
anos sem que notássemos as horas em nossos cuidados (a velha questão de pagar
contas brigar com a esposa – e por que apenas o Zé ter esse direito contra a
Cida? nós também...) Quando noutro belo dia, cabelos brancos, mancos, aos trancos
e barrancos ou só por mera curiosidade, olhem aí nossos olhos nossos ouvidos
nosso nariz a cheirar de novo a cidade estranha já nossa mui amiga ou mui
conhecida, abandonada quiçá, olhem nós de volta.
Apeamos na rodoviária. Claro nem sombra
mais dos que se apossaram da câmara fotográfica e isso nos lembrando esquecer
não haver feito ocorrência, não dando parte à polícia pelo furto! Fatos
passados e a antiga afirmação da água não rodando mais o moinho. A urbezinha
não crescera, ou não o sim? a cidade pequena pareceu-nos ainda pequena. O
Buracão de tantas recordações... desaparecera, desaparecera entupido o trilho
onde permanecíamos de atalaia... ah deixa pra lá. As máquinas de terraplanagem
para alegria de meninos soltos vendo a novidade, tratores pesados nivelavam o
que a sociedade não conseguira nivelar. Subia um cheiro de terra acusado por
nosso nariz sensível; ouvimos o tatatará dos motores assoprando óleo cru a
poluir a natureza limpa até aí (ai quanto abuso mas o que seria o mundo sem os
poetas? nada). Tudo enfim modificado. Paciência, pensamos e talvez tenhamos
assoprado o pensamento com voz alta, tanto assim havermos olhado se não
olhavam. Não, ninguém.
Sim, nos chocamos com o novo ambiente.
Andamos ao deus-dará desde então a
vasculhar a lembrança da lembrança a memória da memória. Ansiosos rever nossa
personagem. Certamente se mudara do ninho. Que encontrássemos pelo menos a
gente frequente no batente pertinente ao seu dia a dia.
Estávamos de certa forma decepcionados.
Nisso ocorreu uma ideia: por que não passear um pouco pela área urbana nossa
conhecida enquanto não chegando a hora da hora do retorno à urbe ‘enorme’. Assim
nos dispusemos andar ao sabor das oportunidades, ao acaso enfim.
Sub-repticiamente a tentar enganar a nós mesmos, mantendo esperança num quem
sabe? quem sabe nos deparando nas ruas com ela com a comadre com eles outros a
perambularem também pelas vias públicas, então movimentadas por causa da
colheita na lavoura e o povão a andar gastar comprar.
Quando a gente anda sem compromisso o
compromisso sendo apenas a hora, matamos a hora, seja a sorrir ou a chorar
através da memória fugidia então desperta. Ao ver por exemplo o caminho de
ferro nos lembramos do trem pelos seus trilhos, embora tudo jazendo morto... O
mato nos lembra a estaçãozinha antes em nossa visita já sem passageiros e desativada
igual os comboios. Contudo, isso despertou nossa rememoração pois quando a
procurar Donacida e a fugir num temor que a personagem nos descobrisse, aí
fugíamos do trilho do Buracão ao trilho morto do trem assassinado pelo homem de
nossa época. Agora relembramos tudinho observando as ervas daninhas que
encobrem o ferro o dormente o pedrisco, até nisso e isso desperta o que seria
uma espécie de saudade.
Saudade de quem! Ora, tímidos ou
estranhos não engatilhamos ligação com a gente da cidade estranha (nós então os
estranhos não essa gente?) Todavia fizemos amizade com a urbe pequena acanhada,
ou tímida também ela e neste caso os tímidos não se entenderiam... Por ela,
dela, sentíamos saudade. Espichando por boa vontade um pouco, sentiríamos semelhantemente
saudade da morena, da Zefa ou do Zé não.
Andávamos assim zanzando e vendo o que
ver ou rever; com uma esperançazinha das pequenas e insignificantes a defrontarmos
ou a topar com uma certa expressão de infelicidade, juntando ao estado infeliz
um pedido de socorro; ah e daí iríamos salvar – outra vez bah! – salvar
chapeuzinho vermelho moreno da boca do lobo, e nos perguntamos se o lobo mau
não seria a Zefa não seria mais ainda a comadre-‘amiga’ que introduzira a
inocente menina à fome da bocarra... oh quanto delírio. O fato é que não
achamos ninguém, não obstante olhar interessados a multidão roceira no dia de
compra por venda de sua produção; embora observando tantos morenos não vimos a
morena...
Desanimados frustrados, conferimos a
passagem de nosso ônibus inter-urbano e nos movemos à rodoviária. Foi quando
nos deparamos com um quadro aterrador: estávamos diante da necrópole da
‘metrópole’. Ora, ninguém faz turismo no cemitério. Não, sim: vimos durante a
existência inteira gente com tal mau gosto. Tem gente que, apesar de nossas
críticas nesse sentido, vão visitar tumba dos seus mortos imaginando possam
estar com vida grudados aos ossos; não se satisfazem com a besteira e aumentam
a besteira a título de cultivar ligação social com os ainda vivos do morto.
Mais uma vez condenávamos isso agora diante do cemitério municipal da cidade
pequena. No entanto uma reunião aguçou nossa curiosidade; como tínhamos ainda
boa meia hora para viajar, viajamos então colados ao sepultamento dum cidadão,
por sinal cidadã segundo informes obtidos e uma senhora escura velha finada de
“morte morrida”. Acompanhamos o séquito miúdo acanhado pobre descolorido como
fosse um do seu sangue; aí, ai, temíamos verter lágrimas por causa do
sentimentalismo costumeiro num velhote...
Agora
caminhamos lentamente compassadamente firmemente absolutamente à beira de
túmulos abertos ansiando uso abuso quem sabe, ainda passando talvez
desapercebidos pelas alamedas por entre capelas suntuosas contudo passam, seguem
todos à frente em busca da “morada definitiva”... De repente alguém lamenta
estar ali a pobre Aparecida, pronuncia mesmo Donacida e nos espantamos! Temos
ao lado vizinhos conhecidos amigos, amigos!? parentes e curiosos também
(tomam-nos por um bêbado que surgiu do nada no nada dum velório). Mas o cortejo
dos homens que levam nos passos curtos lentos sem parecer turismo, caminha ao
depósito de um corpo, soma de sofrimentos. Esse cortejo traz comportados os
seres; então o grupo vê a quadra dos menos ricos enquanto eles pobres seguem um
caixão barato e admiram os túmulos. Vê-se tumbas relegadas ao tempo em ruelas estreitas
tendo ainda dísticos com dizeres e algumas fotos de coloração antiga dos mortos
quando vivos. Em volta sobem cheiros de vela e o cheiro de gente... Não longe o
poço dos ossos dos mortos. Contudo o ajuntamento fúnebre deixa a ala quase rica
da cidade dos pés juntos e ruma à última estada.
Caminhamos para a ala dos mortos pobres,
com a pobre Cida, vencida pelo cansaço e a dor, no comum acontecer. Seus
convidados vão indo devagar quase parando quase respeitosos, não obstante
desconversas para fugir do momento. Os coveiros aguardam mais um serviço e se
voltam à chegada de mais um fim; o povo curioso vai rodeando a vala, a pressentir
e se indagar quem o próximo... Outra vez as visitas que acompanham a moradora
notam dois olhos a piscar na chateação e duas orelhas em abano curiosas de
ouvir comentários do que pensam ou só falam por volta da cova da desaparecida;
terminam com o atirar três montinhos formais sobre a tampa fechada e após já os
acompanhantes guardam lenços de chorar ou a pensar mais vividamente noutros
problemas mundanos; entre o que é mundano, ali havendo um sujeitinho que
ninguém conhece o qual entrou no corso da morta parecendo bebido por caninha e
vindo saber dela e do seu nome apenas por ouvir dizer.
Nessa nova situação tão velha quanto o
mundo ou seja o enterro da mulher, se respira um ar de constrangimento, constatável
no silêncio embaraçoso; uns vertem lágrimas baixinho, chora sentido certo moço
alto magro quase esquelético e moreno, seria o mais velho da velha? Somente
diminui o constranger quando se dispõem os convidados a saírem para fora dos
muros, cujo portão de entrada agora de saída tem inscrito sentença lembrando o
pó; daí a gente a deixar o drama rumo de casa e seus dramas.
Marília abril
2013
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