sábado, 10 de agosto de 2019

Perda do Trem


Perda do Trem


I – Chegou naquela hora naquele instante o homem comum na aparência a se perder no todo. Mas piormente em sua perda, pois chegara no possível adianto e constatara haver perdido o trem! Ainda se esfalfava bufava suava em bicas pela corrida inglória no meio da gente, da gente que sequer o via olhando suas coisas como normal no comum. Ainda num esforço no absurdo, quando a gente quer acreditar no que vê constata o irremediável, ainda nesse esforço viu ou pensou ter visto a composição a findar no fim da plataforma comprida lá longe a sumir. Parou, corresse a andar apressado, a gente perde a vergonha não pensa no ridículo que é um adulto apostar corrida para chegar primeiro no faz de conta e, aí, se flagra se conscientiza se desmerece até para até ficar constrangido. Não pensava, apertando mais e mais o passo, claro temer esbarros e precisar parar momentaneamente fosse a pedir licença ou pedir desculpas educadas, interrompendo seu deslocar e imediato perder a condução, esta sabe-se sem quaisquer preocupações com a parte sendo ela o todo e a movimentar singrar o tempo no tempo certo das máquinas do mundo. Parou. Enfim parou. Coçou a cabeça, em sinal conhecido aos que o conheciam para dizer preocupações; aqui entrando negócio família responsabilidade, inadiáveis agora suspensos no pensar no planejar o que fazer ao leite derramado e como também não brigar com os ponteiros do relógio. Consultou seu cronômetro, puxou-o desde o bolsinho de moedas nas calças a nível da cinta, a corrente de ouro ou imitação bem feita enroscada no tecido em alça do passador da cinta de segurar um ventre ainda respeitável, agora a estufar e encolher estufar outra vez pela corrida sem prêmio – o trem já partira. Viu que via um relógio roscofe-patente grandalhão ainda e sempre confiável, no instante acusador como um advogado do diabo, pois algo saíra errado naquele certo, o qual seria certo se o veículo de ferro a bufar seus vapores de incompreensões estivesse na hora marcada, não estava!? Olhou ao redor, que é que fazemos atarantados e ou perdidos ou mesmo tentar não pensar para pensar, pensar no como não ter de mais pensar, outro absurdo certamente porque não somos donos das ideias pegos de surpresa – fosse surpresa e é sempre surpresa não pensando na possibilidade da perda, do trem por exemplo – e então, a coçar os muitos fios negros inclusive a cair metediços nos olhos a obrigá-lo quase como cacoete afastar a mecha, então pôs-se a andar, agora lento, não compassado mas devagar, mais na tarefa de reunir as coisas, as perdas decerto, na tarefa de compreender a situação e ver a gente. Olhou em relance abaixo percebendo a maleta quase sacola de viagem às viagens rápidas, rápidas sim porém igualmente certas e sem as tapeações mais do ferrocarril que brilhava ao sol matinal em seus trilhos a sumir, sumir no fim do caminho quando os dois caminhos de metal se encontram e inclusive os dormentes (ele costumava dizer dormentos) se juntando e se perdendo tudo na bruma e no embaralhamento da vista. Balançava a mala, balançava estranhamente a um ser civilizado harmônico e preocupado com a visão alheia. A gente passava por si, não trombava porque os humanos têm uma parte sensitiva que sem precisar pensar e menos calcular evita choques desnecessários. Ora mais à direita ora mais à esquerda dele, o homem fazendo semelhante aos seus iguais e assim os cordões de seres a se cruzar. A maior parte voltando marchava num exército sem regulamentos e mandos contra o deslocamento do homem com sua maleta sua estupefação e sua decepção inegável. Contudo aos poucos rareava a gente desconhecida (pra gente a gente é desconhecida tratada a fundo, somos sempre desconhecidos aos desconhecidos e mesmo aos conhecidos; piormente aos íntimos). Parou. Suspendeu um pouco o caminhar desanimado e triste do retorno. E agora, disse, terá dito ou apenas pensado e por desencargo de consciência como impera a vergonha examina em volta a gente a pegá-lo falando sozinho quiçá alto, sozinho na multidão, falando para o nada! ter-se-á avermelhado; desnecessariamente porque quase ninguém mais portanto desaparecendo a temida multidão, quase nenhum ser mais na plataforma. Assim se vexou se condenou depois perdoou-se e sorriu (iria chorar se o ridículo é o que mais propõe o riso?) Retomou andar lento, sem lenço sem documento diz o poeta, ao deus-dará, não obstante ainda preocupado, a preocupação é um carinho medroso da decepção e esse seu estado. Andava parava andava molequeava, sim chutava não podendo o mundo chutava pedriscos que enchiam a preencher os meios da plataforma do trem entre duas faixas cimentadas qual os dois trilhos ali embaixo refletindo os raios solares até seus olhos (ah por que esqueci-me dos óculos escuros e pra que pensar nisso se o irremediável: o trem já partiu...) Olhou outra vez em volta, vai que alguém se iluda ser fiscal ou guardião dos costumes e da lei ouvindo e vendo ele a chutar a esmo pedrinhas, das mesmas que se ajuntavam a defender segurar lá embaixo os dormentos os quais prendiam em ganchinhos de ferro os trilhos de ferro. Todavia que fazer para não fazer! Continuou passo a passo a se deslocar rumo... rumo ao nada do vazio que é uma decepção bem formalizada. Examinou no deslocar os gatos pingados que agora passavam ali, retardatários retidos com certeza na conversa desnecessária, é sempre desnecessário o falar vazio a matar o tempo que se não mata; ou a contar somar examinar mercadorias retidas ou despejadas pelo trem... ah o trem! Olhou – agorinha lá lonjão por estar quase no extremo oposto da plataforma – olhou o fim do caminho do caminho sem fim onde a composição sumira; ainda à chegada esbaforida ouvira o apitar o trontrom das rodas o bafo do bafo de fumaça e chips em sons deslocados cansados (ou a gozar-lhe a lerdeza!) os estrondinhos do movimentar no deslocamento da máquina apressada a puxar sua linguiça de gomos lerdos e passivos, com suas mil janelinhas e mil outras mãos em abanos de adeus... Longe já no seu perto, perto já no longe da distância visualizou o portentoso conjunto arquitetônico da estaçãozinha de interior pacato, orgulho (aí sorriu maldades sem maldade) orgulho sim aos moradores, cantado em prosa e verso nos versos de poetastro na pensão a qual mais uma noite o seguraria no ‘que fazer?’ a pensãozinha com nome de hotel sonhando talvez cinco estrelas mais de cinco estrelas. Bem como orgulho da vaidade desnecessária – toda vaidade é uma desnecessidade – por outros edifícios consolados ou tolerados em séculos de ventos dias noites; e a pracinha e o jardim e a rua com nome de avenida por ser pedrada macadamizada e alegria dos jovens ainda não fugidos à capital. No entanto a estação tendo lá sua graça e beleza, embora miúda na família da arquitetura. Ela no centro e em verborragia técnica no ti-ti-ti do telégrafo ou dos berros do chefe de estação e da fala mansa de uns poucos funcionários subalternos a conferir mercadorias e passagens, a calhamaçar maçudos livros com penas de molhar no tinteiro. Ela se despejava em seus mandos e tentáculos por ambos lados da plataforma, a extrema donde o homem desacostumado em perder trem e a outra onde o trem se perdera. E seus apitos e seus barulhos e seus passageiros, para tristeza de um passageiro solitário que precisava sem poder embarcar. Meneou a cabeça de pensar cheia de pensamentos e sem saber no então como então resolver seu drama iniciado com o drama na perda do trem.


II – O homem que perdia o trem, o trem que perdia o homem. O homem, o trem, o trem sumia na extrema da plataforma e sumia no mundo com um passageiro a menos, ele. Olhava, espantado, não pra fora para dentro sabendo-se como a memória é teimosa, a memória quase sempre ingrata e incompreensível, ela devolveu, ou por galhofa ou por ofício, a lembrança do que não vira, sequer notando em passagem os quadros; eram vários instantâneos qual fotografia de antanho a se esquecer no tempo a descorar deixando meras evidências em perfis humanos e situações não suficientemente percebidas na caminhada – primeiro a correr atrás do trem e segundo em retorno desconsolado em oposto dos passos anteriores, estes a correr e aqueles vagarosos pesados tristes mesmo, enfeitados com a decepção e o flagrante desânimo rumo ao começo, agora fim, da plataforma de embarque. Cenas se desenrolaram como que não houvesse visto só olhando sem ver porém marcadas e impressas no íntimo da mente. E agora vindas quase elaboradas à apreciação enquanto o homem a deixar aquela área ferroviária, sem poder ao menos ter posto os pés no estribo do vagão. Viu-se em meio à gente, a gente a também correr ou se mexer (teriam outros perdido o comboio!) uns que iam alguns que tornavam; o ir e vir; havia aqueles seres a remexer pertences em malas e malotes expostos no chão da plataforma; tinha os que conversavam e então relembrava o que diziam, não dizendo nada que interessasse não sendo aos íntimos e conhecidos; percebeu senhoras a falar fino, uma disputava com os machos as grossuras; homens em maior número a tratar de suas coisas, as coisas sendo negócios e coisas que não deveriam ser deles, negócio como olhar a beleza dalguma jovem a passar irriquieta; e crianças de montão em todos tamanhos e todos sons com preferência aos sons gritados ou brigados. Flagrou outros momentos mais do mover da gente. Gravou, e devolveu sua mente, objetos embrulhos e cores das cores cheiros dos cheiros, o homem mui sensível a perfumes baratos e a suor de graça naquela sociedade restrita mutável e extinguível; extinguível sim pois raleava e rareava a gente a olhos vistos, não implicando análise mais demorada por causa daquela população móvel e itinerante ir mais e mais se acabando, a ponto de, estando no fim, que era o começo da plataforma e agora era o final para quem se dispusesse a ir embora, a ponto de ficar o homem só; sem precisar ser solitário por ao longo ainda observar retardatários, os retardatários que apreciam ser desconhecidos aos que viajam, ele não pôde naquela hora mas viajando sempre... Agora perdera o horário.

III – Perdera o trem e reexaminava seu pensar. Mas como, disse até em forma de espanto ou de susto retardado, como perdi, acostumado que estou de tanto vir a esta ferroviária mambembe não obstante colossal à pobre gente inculta. Então se conscientizou, rememorando as inúmeras vezes em que aí estivera. Poderia inferir que houvesse repetido vezes muitas ene-vezes a perda do coletivo bufante e fumarento... Chegara noutros momentos, de outras tantas vezes que se pilhara atrasado a observar ainda o cheiro do trem, sua fumaça sua fuligem sua gente a abanar – sempre a composição a sumir na extremidade oposta à sua entrada em afogadilho e correria, o coração a lhe sair pela boca e pelos olhos e isto totalmente absurdo e inclusive o absurdo a sumir no sumiço do comboio: via tão só o último vagão, aquele a trazer, levando, o farol vermelho indicativo do trem a fugir... Embora, provado haver perdido o trem.

IV – Perdera e pensara haver perdido. Não: constatara essa derrota de seu preciosismo em defender o absoluto na pontualidade. As inúmeras correrias – realmente a andar apressado, apressadíssimo – as inúmeras correrias entretanto para alcançar a composição férrea provavam antes a impontualidade; e se envergonhou disso na sua vergonha. Agora, a pensar o passado próximo perdido a perder o vagão, último dos vagões, agora rememorava as incontáveis investidas a fim de embarcar, sem sucesso, e se espantava e mais se aturdia em auto-ferimento a vida atrapalhada por ingerências externas: o trem a gente a estação a plataforma, inclusive a plataforma não poderia andar gasta pelo seu constante andar! pois que ene-vezes passara sempre pela mesma beirada do dito caminho, a rever sempre também a mesma linha os mesmos trilhos os mesmos dormentes enfileirados qual costelas duma cobra de ferro quilométrica, donde os raios a refletir ferir seus olhos; e a mesma gente nas mesmas atrapalhadas dos mesmos encontros ou desencontros a suceder porque gente é de fato contraditória; as mesmas crianças os mesmos gritos como as mesmas falas dos adultos e seus embrulhos e malas e pacotes expostos remexidos por gente que se ia acabando antes a ralear e sumindo qual encanto desgracioso a desaparecer igual o trem. Pesou melhor a concluir o errado, porque realmente errado aquele certo. De repente – já não tendo nada a perder por já perdido o trem, esperaria fatalmente o comboio do dia subsequente, o sol se adiantando no seu atraso e no atraso do homem – num de repente que lhe custara mui pesar e pensar, resolveu refazer sua trajetória anterior em busca do último carro não podendo alcançar clarissimamente os primeiros vagões. Começou por perfazer o trajeto nos mesmos passos correndinhos, a passar pelas mesmas intromissões da turba e possíveis esbarros; quem sabe, imaginou, quem sabe agora me asseguro senão no trem em sua lanterna rubra e ainda possa me agarrar no estribo escorregadio subir me acomodar, viajar enfim. No esforço notou apavorado haver transposto e trespassado um veiculinho de carregar bagagens a rodar em sentido inverso dele a correr alcançar a composição; o veículo, empurrado em suas rodas pequenas abarrotado em cima por caixotes e outros sólidos. Apesar disso o homem varou incólume a viatura manual e quando olhou atrás ainda percebendo o funcionário a empurrá-lo; então se conscientizou não ser mais tangível que o vento que escapava do fugir do último vagão ainda tão longe. Conscientizando-se haver perdido novamente o trem...
Marília   maio  2008


         



           

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