As Coisas como são as
Coisas, não mais
1°
- O começo pelo fim das coisas – Estamos no boteco, o boteco como vi
como conheci o Zé. O Zé-não-sei-de-quê, essa gente não precisa sobrenomes
ilustres, ele anda meio quietarrão; desperta com mais um gole, destrava bravata
suas bravatas: dá uma surra em regra, disciplina a mulher; não darei o nome,
figura-la-ei na Maria, o Zé nunca me disse, falando tão só “a muié lá em casa”.
Dá de porrete esmurra a pobre pela língua dela; bate nos pequenos só perdoa o
pequeno no berço improvisado; despenca falatório diante do falatório dela,
despenca contra os filhos dela com o outro sem-vergonha; bate também nos seus,
nos seus com ela e nos com as outras duas companheiras anteriores. Mesmo porque
a coisa anda feia e ninguém ajuda, a obra começou agora... não, agora não: faz
tempo, o homem quer a construção em toque de caixa, apavorado, e tudinho
arrebenta nas costas dele (diz “na minha cacunda”).
Bebe
mais fala mais bate mais vence mais ainda e perde a noção das coisas – aí
ficando ruim pras coisas... O Homem parece desejar silêncio na obra. Ele não
fala, fala etilizado em bom estilo de botequim. O vendeiro olha desconfiado, a
mulher do vendeiro e os outros circunstantes olham também balançam a cabeça
negando o positivo da cena. O Zé cai, tibuf no chão; assusta mesmo o cachorro
dele, tem um vira-lata que não desgruda do Zé inclusive no bar na obra e em
casa faz festa ao dono, agora o dono cai. A gente pensando como nas outras
vezes em levá-lo pra Maria ou sabe-se lá o nome dela, enfim pra casa a curtir a
bebedeira de fim de semana a semana que fora braba ao Zé, muito serviço muita
pressa do dono muita exigência pouco dinheiro (o Homem solta aos pouquinhos,
pingadamente o ganho do pedreiro). A gente pensa mas não é: o Zé já morreu.
2°
- Fim das coisas em continuação das coisas – Me contou o Zé como as
coisas andam. Ninguém pode ir meter-se na obra: o Homem não aceita, só permite
a ele e ao servente lá fazendo o que devem. O cachorrinho aceita e até brinca
com o animal dá restos. Com a gente estranha implica. Olha boqueja fala manda
exige critica mostra o que fazer direito, o como assentar e tudo. O Zé olha o
Homem sorri ao Zé e faz ou manda este fazer as coisas da ordem do dono. Aí o Zé
pedreiro vira Seu Zé ao Zé, é um patrãozinho precário ao servente Zé, Zé na
boca de Seu Zé e do Homem, o homem inventa também em dar ordens ao mequetrefe;
trata-se de um sujeito magro mas forte, pequeno mas ágil e tem o mérito de obedecer
cegamente e sem discussão nem rosnamento os mandos. Nem rumina muito quando o
patrão menor repassa do Patrão os pingados de pagamento para o trabalhador ajudar,
diz que ajuda, ajudar a mãe dele e uns sobrinhos da mana que morreu ou fugiu
com um homem. Leva sem discutir a carriola cheia de entulho, põe lá na sarjeta
pra levarem depois; traz a mesma cheia de blocos ou massa; a massa é feita com
areia e cimento às vezes pedra remexidos na rua manchando o asfalto. Obedece
trabalha e ganha o dia; não recebe sempre em dia o dia, o Homem não solta
dinheiro a rodo, o Seu Zé paga um pouco outro pouco fica a saldar noutro fim de
semana; tem vez que sobra uns goles ao servente em passagem ao boteco por conta
de Seu Zé, Zé ao vendeiro. Na obra fazem as coisas. Seu Zé não sabe muito na
arte ou profissão, ao menos não exerce a profissão com arte e esmero, o Homem
fala que é “meia colher”, no entanto trabalha bastante, assenta mede derruba
boa parte no chão porém a parede sobe, quase não tem defeito, no que o Homem
discorda vê torto em todo certo. Já está em nível de laje e cobertura. Não, a
laje foi posta, o Zé chamou uns conhecidos (o Homem exigiu desconhecidos mal pagos;
parece que deseja esconder as coisas e não aceitou os conhecidos que o Zé trata
amigos para ajudar no mutirão da laje; enfim está pronta:) falta mesmo a
cobertura e o acabamento, o Homem já sofre antecipado o revestimento e a
pintura; as partes hidráulica e elétrica encaixados em ordem; tem um quarto
tamanho; ao menos nas partes debaixo onde não quer o Homem muita xeretice...
Contudo o Zé, um caboclo escuro que não consegue ser mais magro e fino, o Zé
deu com a língua nos dentes para meu lado. Falou, baixinho é verdade, a ciciar
segredos e não contente disso foi à sorrelfa mostrar-me a construção,
contrariando as ordens do Homem, o qual guarda a sete chaves sua construção
enorme que o Zé com o Zé erguem sob sua fiscalização minuto a minuto. O que vi
foi um buraco muito grande e profundo no centro do que presumi ser o quarto do
proprietário; têm uns degraus às funduras, a se guardar futuramente o quê? o
pedreiro não sabendo; me diz contudo que toda estrutura metálica ao concreto fora
feita pelas mãos do Homem, as quais serviram de base à concretagem da obra, que
os dois trabalhadores puseram a sustentar as paredes. Então, pronta a grosso
modo a casa, o Homem fez ainda suportes de aço às paredes internas do tal
"buraco”, isto expressão do Zé. Por fim, ali, disse-me o Zé, olhando
imediações amedrontado talvez, ali estava a casa prontinha, o chão no contrapiso
em aguardo término, como estávamos vendo. Enfim o Zé mostrou o imostrável, o
proibido, sem saber o que fariam daí em diante. Fui empurrado pra fora, ainda o
caboclo examinando em volta como que assustado. Daí o episódio no bar.
3°
- Esconder as coisas – Não se pode pôr à sombra da peneira tudo, tudo
quase pode ser constatado por vistas que lerdeiam em olhares curiosos ou pelos
veículos apressados – o fazer dos trabalhadores, o carro preto negro como o
segredo dos túmulos ali parado em frente como que a fiscalizar a obra do Zé, em
que ele trabalha, bem entendido. Trabalham muito, quase não saem da rotina;
quase sem incidentes, um que outro acidente: o Zé despencou do andaime, por
pouco não cai em cima do cão, o cão desanda num latir medroso e assustado e o
amo apenas esfolado, continuam daí em pouco a lida. Batem derrubam pregam
carregam assentam depositam desentulham na rua em montes; e os caminhões a
trazer e mais trazer material, ora mais sacos ora areia da fina e da grossa ora
portas e janelas ou outra geringonça para o Homem reclamar da exploração dos
comerciantes e o descaso dos entregadores; a reclamar falar e falar aos seus
mequetrefes assuntando as discórdias, pois tudo sobra em cima deles. Trazem o
material, um que outro a trocar conversa, o mais é reservado; e o quase mutismo
e ausência de sorriso do Homem ali na vivência, em não ser uns sorrisos ao cachorrinho do Zé. O Homem é
muito fechadão, a vizinhança lá da casa dele curiosa a se indagar se indignar;
como meses o vizinho sem cumprimentar em boa vizinhança e ainda por cima
incomodando a malhar formas de ferragens à construção lá dele, e ninguém sabe
com certeza onde; piormente, se falam os vivinhos, não disseram, dizem, que o Homem é um
marceneiro e serra e bate aço atrapalhando o sossego da gente! a vizinhança não
responde, nem o entra e sai de escusos objetos na calada da noite nadinha calma...
Enquanto isso os trabalhadores da obra, suas vestes quase sem cores e bem
usadas, dormidas e reusadas dão um duro no labor; ao fim do dia saem de volta
ao lar, se lar, voltam à obra noutro dia; as semanas se acumulam em mês, dois e
três deles quatro quem sabe de acerto nos desacertos; em verdade se diga uma: o
Homem não é pródigo porém pagando certo o combinado; e a obra já vai às portas (a
serem devidamente trancadas e retrancadas...) vai às janelas em bom aço
exigindo melhor cadeado... No entanto o Homem faz mais ‘formas’ às formas de
concretagem do tamanho do buraco no centro de seu quarto; fá-las fortes firmes
aos inexpugnáveis e aos olhares mundanos... Leva à obra aquelas obras, exige fiscaliza
o assentamento, não diz ao oficial
(meia-colher, acusa o Patrão) menos ainda ao mequetrefe outro auxiliar
do mequetrefe o ‘a fim de’, somente a exigir como vedar bem, como assentar,
como fechar e como escamotear a porta falsa; e como posteriormente pôr o
assoalho mais leve e maleável possível à xeretude dos olhares paisanos. Dá um staccato;
a seguir paga o serviço, nem regateia como é seu costume, fala o Homem tão só
que na segunda-feira retomarão o trabalho para o restante da residência, aí sim
mostraria tudo à família antes residente nas lonjuras da capital; mostraria até
aos curiosos empedernidos da vizinhança para provar inocências das boas
intenções. Ou seria uma forma positiva da propaganda negativa... Não disse, não
diria. Despedem-se num tchau costumeiro, aí sorrisos nada habituais, se
mostrando um pouco mais ao Zé aos Zés, ou a si mesmo pela consumação do plano,
ou que fosse da parte básica, a que não se mostra nem se publica... enfim sorri
mais no seu menos, enigmático. O Zé torna à casa. Não chega ao lar, passa na
‘venda’, bebe, fala, cai, morre.
4°
- Mostrar as coisas a esconder as coisas – Agora, se não um senão um
pormenor de importância. O Homem mostra às autoridades, a esclarecer o
Zé-defunto, a obra como está a obra, por cima da obra – dá sua versão prova a
inocência do desconhecimento. E convence? Mostra para quem quiser uma residência
em nível de acabamento, satisfaz curiosidades mais; faz mais: ‘dá um pulo’ ao
velório do outro, ao outro Zé, o servente, ocorreu haver levado um tiro em
briga de amigos, pouco amigos e um desconhecido o acertou errando por aí, ou o
episódio a ficar na costumeira ocorrência para encher mais o mundo de papéis ao
final dos tempos. Desaparece. Aparece no velório o ex-Patrão, consola a viúva,
faz ainda mais: paga uns atrasados, dá do bolso às necessidades da morte sem
ocorrência... O Zé está liberado pela polícia, esticado ao choro dos seus. Não
abre a boca, cadáver não tem segredo aos de fora, talvez só os seus na
consciência. Ninguém sabe, ninguém comenta, comenta o cãozinho perto do caixão,
comentam o exagero na bebedeira do bebum e a sorte sem sorte da prole; e isso
também o tempo mata corrige e só registra no esquecimento da memória. O Homem
retorna à família e retoma os planejamentos, pois necessário terminar a obra,
os seus a morar em aluguel precário e desejando a casa nova. Já contrata novo
pedreiro, costumeiramente desconhecido. São agora três cruzes: duas no
cemitério a terceira no segredo do solo do quarto em cobertura do buraco ou
seja lá que nome se possa dar. A vida continua...
5°
- Inexistência das coisas e das coisas do homem na obra – Ou não
continua. O Zé-pedreiro toma as suas, fala as verdades de suas mentiras, não
conta a outrem senão a si; nisso aparece aquele sujeito de cara feia do outro
dia. Na obra o Homem mostra a obra ao estranho seu amigo ou contratado; mostra
e, aí falando mais baixo ainda, sussura aponta coisas tafulhadas dentro do
carro funebremente negro; o estranho olha detidas vezes para a dupla enlameada
de respingos da massa; e se vai. Volta agora, sorri matreiro ao bebum, pede ao
vendeiro a cerveja o copo, bebe, deposita no copo uma cápsula de costas ao Zé,
oferta ao pedreiro aquele contento às mágoas do trabalhador, este emborca,
sorri agradecimento, o estranho paga escapole some. O Zé amolece mais em seu amolecimento.
Não pode aparecer na missa de corpo presente que lhe ofertariam fossem os seus
católicos praticantes; cai no chão sujo do boteco a quase espantar-nos presentes.
Dá-se outro staccato numa costumeira queima de arquivo a arder os
segredos do Zé, não em fogo ao fim dos tempos, mas no líquido alcoólico
voltando ao antigo dilúvio, então sem Noé. Assusta inclusive o cachorro seu
rabicho, o cão que voltaria horas depois à construção; pra ver ali novos
profissionais e tentando sentir um cheiro esquecido de Zé. O vira-lata chora na
sua forma cachorra a saudade.
Marília novembro
2006
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