quarta-feira, 7 de agosto de 2019

As Coisas como são as Coisas, não mais


As Coisas como são as Coisas, não mais


1° - O começo pelo fim das coisas – Estamos no boteco, o boteco como vi como conheci o Zé. O Zé-não-sei-de-quê, essa gente não precisa sobrenomes ilustres, ele anda meio quietarrão; desperta com mais um gole, destrava bravata suas bravatas: dá uma surra em regra, disciplina a mulher; não darei o nome, figura-la-ei na Maria, o Zé nunca me disse, falando tão só “a muié lá em casa”. Dá de porrete esmurra a pobre pela língua dela; bate nos pequenos só perdoa o pequeno no berço improvisado; despenca falatório diante do falatório dela, despenca contra os filhos dela com o outro sem-vergonha; bate também nos seus, nos seus com ela e nos com as outras duas companheiras anteriores. Mesmo porque a coisa anda feia e ninguém ajuda, a obra começou agora... não, agora não: faz tempo, o homem quer a construção em toque de caixa, apavorado, e tudinho arrebenta nas costas dele (diz “na minha cacunda”).
Bebe mais fala mais bate mais vence mais ainda e perde a noção das coisas – aí ficando ruim pras coisas... O Homem parece desejar silêncio na obra. Ele não fala, fala etilizado em bom estilo de botequim. O vendeiro olha desconfiado, a mulher do vendeiro e os outros circunstantes olham também balançam a cabeça negando o positivo da cena. O Zé cai, tibuf no chão; assusta mesmo o cachorro dele, tem um vira-lata que não desgruda do Zé inclusive no bar na obra e em casa faz festa ao dono, agora o dono cai. A gente pensando como nas outras vezes em levá-lo pra Maria ou sabe-se lá o nome dela, enfim pra casa a curtir a bebedeira de fim de semana a semana que fora braba ao Zé, muito serviço muita pressa do dono muita exigência pouco dinheiro (o Homem solta aos pouquinhos, pingadamente o ganho do pedreiro). A gente pensa mas não é: o Zé já morreu.

2° - Fim das coisas em continuação das coisas – Me contou o Zé como as coisas andam. Ninguém pode ir meter-se na obra: o Homem não aceita, só permite a ele e ao servente lá fazendo o que devem. O cachorrinho aceita e até brinca com o animal dá restos. Com a gente estranha implica. Olha boqueja fala manda exige critica mostra o que fazer direito, o como assentar e tudo. O Zé olha o Homem sorri ao Zé e faz ou manda este fazer as coisas da ordem do dono. Aí o Zé pedreiro vira Seu Zé ao Zé, é um patrãozinho precário ao servente Zé, Zé na boca de Seu Zé e do Homem, o homem inventa também em dar ordens ao mequetrefe; trata-se de um sujeito magro mas forte, pequeno mas ágil e tem o mérito de obedecer cegamente e sem discussão nem rosnamento os mandos. Nem rumina muito quando o patrão menor repassa do Patrão os pingados de pagamento para o trabalhador ajudar, diz que ajuda, ajudar a mãe dele e uns sobrinhos da mana que morreu ou fugiu com um homem. Leva sem discutir a carriola cheia de entulho, põe lá na sarjeta pra levarem depois; traz a mesma cheia de blocos ou massa; a massa é feita com areia e cimento às vezes pedra remexidos na rua manchando o asfalto. Obedece trabalha e ganha o dia; não recebe sempre em dia o dia, o Homem não solta dinheiro a rodo, o Seu Zé paga um pouco outro pouco fica a saldar noutro fim de semana; tem vez que sobra uns goles ao servente em passagem ao boteco por conta de Seu Zé, Zé ao vendeiro. Na obra fazem as coisas. Seu Zé não sabe muito na arte ou profissão, ao menos não exerce a profissão com arte e esmero, o Homem fala que é “meia colher”, no entanto trabalha bastante, assenta mede derruba boa parte no chão porém a parede sobe, quase não tem defeito, no que o Homem discorda vê torto em todo certo. Já está em nível de laje e cobertura. Não, a laje foi posta, o Zé chamou uns conhecidos (o Homem exigiu desconhecidos mal pagos; parece que deseja esconder as coisas e não aceitou os conhecidos que o Zé trata amigos para ajudar no mutirão da laje; enfim está pronta:) falta mesmo a cobertura e o acabamento, o Homem já sofre antecipado o revestimento e a pintura; as partes hidráulica e elétrica encaixados em ordem; tem um quarto tamanho; ao menos nas partes debaixo onde não quer o Homem muita xeretice... Contudo o Zé, um caboclo escuro que não consegue ser mais magro e fino, o Zé deu com a língua nos dentes para meu lado. Falou, baixinho é verdade, a ciciar segredos e não contente disso foi à sorrelfa mostrar-me a construção, contrariando as ordens do Homem, o qual guarda a sete chaves sua construção enorme que o Zé com o Zé erguem sob sua fiscalização minuto a minuto. O que vi foi um buraco muito grande e profundo no centro do que presumi ser o quarto do proprietário; têm uns degraus às funduras, a se guardar futuramente o quê? o pedreiro não sabendo; me diz contudo que toda estrutura metálica ao concreto fora feita pelas mãos do Homem, as quais serviram de base à concretagem da obra, que os dois trabalhadores puseram a sustentar as paredes. Então, pronta a grosso modo a casa, o Homem fez ainda suportes de aço às paredes internas do tal "buraco”, isto expressão do Zé. Por fim, ali, disse-me o Zé, olhando imediações amedrontado talvez, ali estava a casa prontinha, o chão no contrapiso em aguardo término, como estávamos vendo. Enfim o Zé mostrou o imostrável, o proibido, sem saber o que fariam daí em diante. Fui empurrado pra fora, ainda o caboclo examinando em volta como que assustado. Daí o episódio no bar.

3° - Esconder as coisas – Não se pode pôr à sombra da peneira tudo, tudo quase pode ser constatado por vistas que lerdeiam em olhares curiosos ou pelos veículos apressados – o fazer dos trabalhadores, o carro preto negro como o segredo dos túmulos ali parado em frente como que a fiscalizar a obra do Zé, em que ele trabalha, bem entendido. Trabalham muito, quase não saem da rotina; quase sem incidentes, um que outro acidente: o Zé despencou do andaime, por pouco não cai em cima do cão, o cão desanda num latir medroso e assustado e o amo apenas esfolado, continuam daí em pouco a lida. Batem derrubam pregam carregam assentam depositam desentulham na rua em montes; e os caminhões a trazer e mais trazer material, ora mais sacos ora areia da fina e da grossa ora portas e janelas ou outra geringonça para o Homem reclamar da exploração dos comerciantes e o descaso dos entregadores; a reclamar falar e falar aos seus mequetrefes assuntando as discórdias, pois tudo sobra em cima deles. Trazem o material, um que outro a trocar conversa, o mais é reservado; e o quase mutismo e ausência de sorriso do Homem ali na vivência, em não ser  uns sorrisos ao cachorrinho do Zé. O Homem é muito fechadão, a vizinhança lá da casa dele curiosa a se indagar se indignar; como meses o vizinho sem cumprimentar em boa vizinhança e ainda por cima incomodando a malhar formas de ferragens à construção lá dele, e ninguém sabe com certeza onde; piormente, se falam os vivinhos,  não disseram, dizem, que o Homem é um marceneiro e serra e bate aço atrapalhando o sossego da gente! a vizinhança não responde, nem o entra e sai de escusos objetos na calada da noite nadinha calma... Enquanto isso os trabalhadores da obra, suas vestes quase sem cores e bem usadas, dormidas e reusadas dão um duro no labor; ao fim do dia saem de volta ao lar, se lar, voltam à obra noutro dia; as semanas se acumulam em mês, dois e três deles quatro quem sabe de acerto nos desacertos; em verdade se diga uma: o Homem não é pródigo porém pagando certo o combinado; e a obra já vai às portas (a serem devidamente trancadas e retrancadas...) vai às janelas em bom aço exigindo melhor cadeado... No entanto o Homem faz mais ‘formas’ às formas de concretagem do tamanho do buraco no centro de seu quarto; fá-las fortes firmes aos inexpugnáveis e aos olhares mundanos... Leva à obra aquelas obras, exige fiscaliza o assentamento, não diz ao oficial  (meia-colher, acusa o Patrão) menos ainda ao mequetrefe outro auxiliar do mequetrefe o ‘a fim de’, somente a exigir como vedar bem, como assentar, como fechar e como escamotear a porta falsa; e como posteriormente pôr o assoalho mais leve e maleável possível à xeretude dos olhares paisanos. Dá um staccato; a seguir paga o serviço, nem regateia como é seu costume, fala o Homem tão só que na segunda-feira retomarão o trabalho para o restante da residência, aí sim mostraria tudo à família antes residente nas lonjuras da capital; mostraria até aos curiosos empedernidos da vizinhança para provar inocências das boas intenções. Ou seria uma forma positiva da propaganda negativa... Não disse, não diria. Despedem-se num tchau costumeiro, aí sorrisos nada habituais, se mostrando um pouco mais ao Zé aos Zés, ou a si mesmo pela consumação do plano, ou que fosse da parte básica, a que não se mostra nem se publica... enfim sorri mais no seu menos, enigmático. O Zé torna à casa. Não chega ao lar, passa na ‘venda’, bebe, fala, cai, morre.

4° - Mostrar as coisas a esconder as coisas – Agora, se não um senão um pormenor de importância. O Homem mostra às autoridades, a esclarecer o Zé-defunto, a obra como está a obra, por cima da obra – dá sua versão prova a inocência do desconhecimento. E convence? Mostra para quem quiser uma residência em nível de acabamento, satisfaz curiosidades mais; faz mais: ‘dá um pulo’ ao velório do outro, ao outro Zé, o servente, ocorreu haver levado um tiro em briga de amigos, pouco amigos e um desconhecido o acertou errando por aí, ou o episódio a ficar na costumeira ocorrência para encher mais o mundo de papéis ao final dos tempos. Desaparece. Aparece no velório o ex-Patrão, consola a viúva, faz ainda mais: paga uns atrasados, dá do bolso às necessidades da morte sem ocorrência... O Zé está liberado pela polícia, esticado ao choro dos seus. Não abre a boca, cadáver não tem segredo aos de fora, talvez só os seus na consciência. Ninguém sabe, ninguém comenta, comenta o cãozinho perto do caixão, comentam o exagero na bebedeira do bebum e a sorte sem sorte da prole; e isso também o tempo mata corrige e só registra no esquecimento da memória. O Homem retorna à família e retoma os planejamentos, pois necessário terminar a obra, os seus a morar em aluguel precário e desejando a casa nova. Já contrata novo pedreiro, costumeiramente desconhecido. São agora três cruzes: duas no cemitério a terceira no segredo do solo do quarto em cobertura do buraco ou seja lá que nome se possa dar. A vida continua...

5° - Inexistência das coisas e das coisas do homem na obra – Ou não continua. O Zé-pedreiro toma as suas, fala as verdades de suas mentiras, não conta a outrem senão a si; nisso aparece aquele sujeito de cara feia do outro dia. Na obra o Homem mostra a obra ao estranho seu amigo ou contratado; mostra e, aí falando mais baixo ainda, sussura aponta coisas tafulhadas dentro do carro funebremente negro; o estranho olha detidas vezes para a dupla enlameada de respingos da massa; e se vai. Volta agora, sorri matreiro ao bebum, pede ao vendeiro a cerveja o copo, bebe, deposita no copo uma cápsula de costas ao Zé, oferta ao pedreiro aquele contento às mágoas do trabalhador, este emborca, sorri agradecimento, o estranho paga escapole some. O Zé amolece mais em seu amolecimento. Não pode aparecer na missa de corpo presente que lhe ofertariam fossem os seus católicos praticantes; cai no chão sujo do boteco a quase espantar-nos presentes. Dá-se outro staccato numa costumeira queima de arquivo a arder os segredos do Zé, não em fogo ao fim dos tempos, mas no líquido alcoólico voltando ao antigo dilúvio, então sem Noé. Assusta inclusive o cachorro seu rabicho, o cão que voltaria horas depois à construção; pra ver ali novos profissionais e tentando sentir um cheiro esquecido de Zé. O vira-lata chora na sua forma cachorra a saudade.
 Marília   novembro  2006

         



           

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