O Ser
Humano
◦ I
– Pensar é já existir? ou pensar é pensar existir. Não pensava – aí não
existia? – ao menos não pensava que pensasse. Nasceu; ainda nisto desconhecendo
o como o donde o para quê. Nasceu. Depois cresceu viveu adoeceu morreu. Era pequeno,
fora insignificante, insiginificantemente invisível, quase não sendo; e já não
era à grosseria do ser. Nasceu, virou criança, dessas que se toma na fotografia
e depois, após curtir uns anos aquela beleza de criatura, depois se esquece da
foto com outros pertences, tudo respirando o irrespirável da poeira no
quartinho de despejo e da antiguidade. Não se sabe, ah sabe-se muito bem: não
foi fotografado. Milênios depois viria a invenção e a arte na invenção; e a
burguesice na arte. Não obstante era criança de andar trôpego, em não saber se
imitava a gente se os quatro pés dos bichos. E era linda, talvez não pensasse a
mãe o filho lindo. Toda criança é linda, ao menos bonitinha, ao menos graciosa;
a aparecer na foto, houvesse foto. Contudo não era. Era feiosa criatura. Como é
duro se admitir não sejam belas todas sem exceção... A exceção tendo um nariz
grande e comprido igual adulto; olhos demais regalados e sem brilho, a ponto
pensar-se que não via, via; mal mas via, tropeçava entretanto demais; a testa
curta e pontuda, parecença com caroço em queda próxima passada; boca rasgada,
além do talho natural; dentro dela uma língua rachada como em feridas e o mau hálito
e os dentes, quando apareceram, eram em serra já enferrujados como em serra
velha de aço, a mostrar cáries precoces; a pele grosseira como grosseira seria
em adulto; cabelos ralos, caíram, renasceram mais feios.
Apesar
dessas desavenças da natureza – ela, a natureza, que se especializara no cão e
na beleza do cavalo e enfeara o homem – apesar da natureza, ingrata naquele
projeto de gente, apesar dela, é possível que a genitora o achasse bonito e
descobrisse de pronto ser projeto. Mãe é mãe.
A
sociedade, que não se sabia sociedade e decerto naqueles imos dos tempos se
confundisse com o ajuntamento como os outros bichos mais ferozes (não iria ela
adivinhar que o homem seria milênios depois ainda mais feroz que os mais ferozes)
– ela não perdoava aquela aberração. E ocorreu o que ocorre num terreiro em que
as galinhas não perdoam as fracas feias e doentes: desandam a bicar. A
coletividade tratou, por não saber ou por maldade congênita, de espezinhar o
pequeno João.
Que
seja João, por necessidade em se dar nomes para as coisas.
Agora
é depois. João, feioso, horroroso, João é um rapaz. Já tem a companheira da
hora. Na hora se conquista, a conquista do mais forte, não precisa simpatia nem
beleza nem inteligência: apenas ser forte. Corre atrás, toma a presa, arrasta a
presa, satisfaz-se num urro, não fala, para que falar? ninguém fala ninguém
sabe falar – os fortes têm força, os fracos se submetem, ou morrem; morrem e,
eventualmente, viram comida assada ou crua.
Conseguiram
um javali, mais moloide ou infeliz, a se tornar vítima. Come-se a vítima em
volta do fogo no centro do que seria uma caverna, entre a fumaça e as vozes,
não as conversas, só quando aprendendo a falar existirão os sons educados para
ferir desafetos ou elogiar os amigos. João é um deles. Mas é assustador na
falta de beleza física; tem seu físico forte e impositor a compensar.
Tem
filhos com as mulheres que pode dominar e domina a quase todas; uns puxaram à
feiura paterna, outros à 'des-feiura' materna; alguns escapam à sina e são
aceitáveis aos padrões a vigorar milênios depois; não obstante não passam de
bichos, todos – crianças e adultos, feios e mais feios e exceções – todos são
macacos.
Comem
o javali por cinco dias. Se lambuzam, engordam gramas; aguardam ou outro javali
ou animal que o valha, ou o passar fome. Então os fracos morrem: as crianças em
quantidade, os velhos uns poucos, porque a natureza não tem contemplação com os
incapazes; ceifa ela também os adultos válidos. Ainda assim a coletividade
sobrevive. Depois, muito depois, viria a plantação a criação e a manutenção.
Criar-se-ia a guerra, que é a expiação pela incompreensão.
Na
sociedade nascente surge o chefe, sempre o mais forte. João se apossou de todos
bens. Comida, mulher, área. Posteriormente, antes de morrer, virá a
propriedade; e um João a roubar o que seria de todos, como a vida; viraria um
proprietário; e milênios no futuro o proprietário a tomar com a arma do
dinheiro e da corrupção mais e mais propriedades.
João
é o chefe, nem se pensa dono. Outros mais pensam igual ou semelhante. E se
matam.
João
deixa de ser o mandão, enterrado ou comido pela tribo. Vem novo líder a mandar.
Um filho dele? o filho doutro?
A
sociedade, ainda não sociedade, prossegue.
◦ II
– Pensava. ¡ Mas como ‘pensava’ se
acabara de gritar espirrado da vagina,
aquela sangreira e a mulher assustada com tanta porcaria que saíra de suas
entranhas, entrara uma insignificância invisível, embora desconhecesse tal,
sendo uma macaca com pretensão a gente !
Não pensava Antônio. Nasceu.
Nasceu e pronto. Depois cresceu, isto já sendo repetição, o ser humano, desde
peludo pelado um macaco; talvez ligeiramente mais sabido que um macaco
totalmente macaco, para tanto desnecessário ser sabido: cresce do mesmo jeito.
Antônio
entretanto cresceu enfezadinho. Pudera! feiosa criatura, ninguém, nem os macacoides
da comunidade toleram a feiura exagerada. Nauralmente que a macaca-mãe deve ter
achado linda a criança, mesmo após crescidinha. Era uma carranca de assustar:
narigão de gente grande; bocarra, abrisse um pouco mais quando a chorar,
ver-se-ia o coração e os dentes em serrinha e cariados, exalando o mau hálito
com baba sempre a escorrer; o Toninho era medonho me-do-nho; olhos demais
arregalados; a testinha uma testona pontuda; o costume de mostrar a qualquer
pretexto a língua enferidada; cabelos ralos e espetados – um espantalho,
coitado. Bem, poderia empregar-se como espantalho oficial, porém a lavoura era
desconhecida e sem passarinho a revirar a sementeira, viviam da caça e da
briga.
Caçaram
um javali. Cinco dias com alimento e o resto a fome, até matarem outro. A fome
era aliada na sociedade, ainda não disposta nos cânones que teria milênios
depois: mais ajuntamento de gente; não, de monos. A fome, sozinha, matava as
crianças em excesso e completava nos velhos em falta, pois a estes a doença e a
fraqueza matavam antes da fome. Todavia iam indo.
Outro
ressentimento, ou apenas o primeiro ressentimento do garoto Antônio, era não
ter visto sua fotografia, um objeto de arte burguesa que a mãe encomenda por
achar a cria linda de morrer, antes de morrer, a chorar posteriormente sua
morte, ou só para guardar como lembrança. Os íntimos examinam a foto, depois se
esquecendo tudo, ela, a fotografia, afunda na poeira ou serve de abrigo às
baratas. O Antônio nunca vira a sua; no entanto poderia desculpar a família
pela falta: só milênios após é que inventariam o retrato e a arte do retrato.
Isso
não impediu, como é sabido, de o sujeito crescer, virar homem (embora macacoide).
Pior no melhor, tornou-se chefe dos seus. Um chefe horrendo, um espantalho
crescido apenas. Se dependesse da simpatia e da beleza o Antônio ficava também
sem filho, nenhuma fêmea apreciaria a sua medonhez. No entanto o drama não lhe
era drama: na época sendo época dos fortes e o homem conquistava na raça.
Tomava a fêmea, arrastava ela, fazia o que fazia e fazia u-u-u no fim, não sabendo
falar, ninguém sabendo falar, isto só aprenderiam milênios para diante. Assim
ele povoou a área. Uns filhos saíram medonhos como papai; outros menos,
parecendo mamãe, se mamãe bonita (tinha macaca que poderia ser miss na ocasião) daí o filho bonito; se
as outras do harém feias, as crias seriam feias por parte das mães também, para
reforçar.
Contudo
foram vivendo. A comunidade perdurou. Mesmo porque não haviam inventado a
guerra, conquista de milênios depois, ela que é a expiação da incompreensão. Assim
mesmo brigavam bem, seja por fêmeas a ser disputadas ou pela área de domínio.
Antônio se saía a contento, para compensar que sempre fora bicado pelos outros
como a galinha bica até à morte a outra galinha fraca ou feia ou doente. De
tanto bicado, cresceu enfezadinho o rapaz; e, fortalhão, virou chefe.
Porém
na disputa pela chefia matou dezenas de pretendentes; por último foi
assassinado por um deles.
Agora
mastigam o Antônio, a mando do novo chefe, ou por imposição da fome. Ao chupar
seus ossos em volta do fogo, como
fizeram com o javali, não pensavam que o chefe morto poderia de mandão
tornar-se dono, o proprietário só apareceria milênios depois; então submeteria
outros proprietários com a força do dinheiro e da corrupção, a ficar mais e
mais proprietário, dono até duma nação.
Isso
tudo depois; antes a sociedade ainda não sociedade e sim uma coletividade
macaca – porém ela prossegue.
◦ III
– Não pensava. Será que recém-nascido pensa? um macacoide-zinho a esgoelar
saindo da mãe. Decerto não. Pedro apenas esperneava. Depois cresceu, o leite
materno deve ter convencido; aí saíram uns dentinhos, mais adiante seriam fedorentos
e em serra, a embelezar a feiura pavorosa do garoto. Nessa época em que a
família quer guardar as linduras na fotografia, o pobre Pedrinho não tirou
retrato! não poderia mesmo, o invento iria surgir a perpetuar as faces burguesas
só daí uns milênios. Oh perpetuar a feiura... Foi crescendo e se mostrando mais
e mais. Cabeção, bocona, cabelão ralo e espetado, narigão de gente grande no
pequeno. E o mau hálito a espantar. Não espantava – a macacada era assim
todinha; não tão feia de marcar época. Dispensou o Pedro, jovem impetuoso, sua
feiura mais feiura que a feiura alheia; aliás não precisava ser lindo, porque
as fêmeas eram de todos, sobretudo do mais forte. A musculatura do Malasartes (mais
tarde fará tanta atrapalhada, que o apelido caberia; não obstante apenas vindo
o nome milênios depois) a musculatura venceu a fraqueza feminina; o de praxe:
conquista à força, arrastar com força, fazer filho na força, ao fim urrava
esforçadamente, não sabendo falar e ninguém sabia; ninguém na macacada, com
destino à sociedade humana. Povoou a região de rebentos seus – os mais feiosos
todos reconhecendo dele pela decantada feiura pétrica; os menos feiosos decerto
puxando à mãe, quando a mãe não era feiosa macaca. O de sempre. E conquistou o
poder político entre os seus iguais dessemelhantes (ninguém lhe batendo no item
feiura). O mais forte a derrotar os menos fortes, estes comidos, quando não
mais a comunidade arranjava um que outro javali e nos espaços até outro javali
a fumegar na fogueira – então vindo a fome. Ela sim a mais forte, matando a
criaçada e os velhotes sobrantes, não mortos de moléstias outras. Sobram os
fortes sempre. O mais viraria rico proprietário milênios depois, mandaria com
seu dinheiro e sua corrupção nos proprietários menos fortes; e já pensando em
mandar no país inteiro. Nesse época não.
Aí
se trucidaram os mais fortes, tiraram o cetro de Pedro, o feio; comeram-no em banquete,
os próprios filhos e mulheres do harém do chefe horroroso deposto, mastigaram o
pai e marido Pedro. A mando do novo e forte chefe.
É
assim; foi assim; assim prosseguiu a sociedade que só milênios depois seria
sociedade: era um bando apenas.
◦ IV
– Se pensasse pensaria ele próprio ser feio já ao nascer. Parecia o Francisco
um macaquinho. Aliás sua sociedade, mais tarde milênios seria sociedade
organizada, agora uma comunidade ou tribo mais ou menos unida; esse ajuntado
não dessemelhava muito do dos macacos, os quais volta e meia viravam assados
igual o javali, a fumegar no centro do terreiro. Ah dificuldade em encontrar
comida! uma fruta ou outra coletada, cheiinha de vitamina mas a vitamina só
conhecida milênios após; de resto era o javali. Caçavam um, comiam-no sem
falar, ninguém sabendo falar, nem o Chico feio; daí até achar outro javali era
o espaço dedicado à fome. Oh a fome. Dizimava, apreciando crianças em magotes e
os idosos já entre a vida e o falecimento, com ou sem fome; isso por faltar
javali. Assim a fome acertava a estatística macacoide e dava harmonia aos
habitantes. Apesar disso crescia a população: o macho forte submetia a fêmea, e
quantas fêmeas necessitasse, arrastava ela, fazia sacanagem com ela e a deixava
prenhe. O Chico povoou uma área inteira: feiosos como o pai, menos horrendos
puxando às respectivas mães as crianças. Nenhuma, muito menos o Francisco,
tirou fotos à posteridade, a foto que sempre sai uma gracinha (exceção do Chico
que era feioso à beça). Nenhuma, embora as mães devessem achar uma lindeza a
cria, mesmo a mãe do Chico. Posteriormente não mostraram a fotografia aos
íntimos como costume. Aquele negócio “ói como o fulaninho era uma graça”. Nada
disso, o invento ocorreu, a agradar burgueses, somente milênios depois. Então
sequer se pensava nisso, só em comer javali, tendo, ou um irmão doente ou
morto, nada se perdendo tudo se transformando. Mesmo o Francisco, o qual
chegou, por apresentar montanha muscular, a ser chefe tribal. Se esperasse uns
milênios viraria chefe político, proprietário-mor, a engolir os proprietários
menos endinheirados e menos corruptos; chegaria a dono da pátria. Tudo só
ocorrendo após milênios e milênios mais pra diante. No agora ele mandava,
desmandava, não apenas na feiura: então cercaram-no, assassinaram-no.
Depoisinho a população faminta de homens-macacos, mulheres-macacas,
crianças-macacas – comeram o Pedro no
almoço e jantaram os restos desse chefe.
E
acabou a estória.
◦ V
– Não pensar. Não acabou, tinha o Mário o Atanásio o... péra lá, não era João!
e o Antônio e o Pedro e o Francisco, anteriores?!!
Nesse
tempo – milênios atrás – nesse tempo não havia, feiura havia, briga havia, e
fome e javali e luta pelo poder, a mandar o mais forte, podendo ser qualquer
um, inclusive o Mário o Atánásio etc. e tal. Não havia nome, nome não existia,
talvez somente o pensamento, o que é
discutível. Nem corrupção nem dinheiro nem retrato nem sexo; não: sexo tinha de
montão. E feiura bastante, não tanta quanto a do herói, herói sem nome.
O
nome viria milênios e milênios após.
Depois.
Agora, o agora é este Epilogus.
Marília outubro
2005
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