quinta-feira, 29 de agosto de 2019

Palavras inacabáveis de páginas inacabadas


Palavras inacabáveis de páginas inacabadas

PRIMEIRO
Andava no exercício físico diário e à procura de ervas medicinais embora canseiras habituais na cidade grande, rumo ao Parque Buenos Aires, quando achei achando o que não buscava, certo incerto acidente de trânsito, na altura do cruzamento da Avenida Angélica... Nunca houvera testemunhado tal apesar do tempo vivido na Grande Cidade, tida pela tevê como um centro de violência e líder de ocorrências policiais no movimento nas ruas... O trânsito era, na manhã, de congestionamento (inimigo inseparável da pressa...) Contudo nada percebi de mais grave, acostumado. No entanto ao desembocar na Praça eis que flagro o acidente!
Um motoqueiro pranchado no solo, a quase confundir suas vestes pretas com o negro do asfalto sujo; imediato supondo meu olhar manchado o escuro com seu vermelho a escorrer...
Isto foi um marco e é nisto que estas linhas centram, aqui e além.
Como sempre por mui acontecer tomando por banal, prossegui, mas ascultei veículos a cruzar dita avenida no aguardo do sinal verde acender. O desastre ou assim parecido dava-se doutro lado na margem que desce; o sinaleiro desconhecendo cego e automático a abrir a fechar ordem aos passantes. No meu verde andei em direção ao portão do Parque ali no limiar. Notara, esquisito a mim, que os transeuntes sequer comentavam sobre a motocicleta e o condutor no solo, nem comentava um publiquinho de meia dúzia de curiosos, na sua faina doentia na curiosidade prejudicial às autoridades a examinar e lidar com o estrago. Esta observação vindo em razão do fato do caminheiro ser interiorano, o interior rico em conversas de comadre e equivalentemente preocupações sentimentais de apego (um sentir interiorano na megalópole indiferente...)
Bem, prossegui. Entre a população do bairro rico a guiar ou ser guiada pelos cuidados canis; e servidores municipais ocupados na limpeza das ruas da área; e a mata exuberante a combater a poluição, prossegui na marcha – e a pesquisar onde a erva a mim santa, trato assim a quebra-pedra que nós caipiras usamos para soltar a urina presa – marchei, não indiferente pois lembrava a vítima estatelada próximo; não entrara na indiferença aos problemas humanos qual via nos habitantes no meu bairro pobre, onde 'viceja' ultrajada nos passeios públicos gente largada de rua na rua à vista da gente em passeio...
Bem, mal acabara a pesquisa e encontro da erva rasteira no Parque – saí, voltei pensando tornar às baixadas da Angélica à minha quitinete; então empunhando o saco cheio (nadinha que ver com chateação e excesso da tristeza) enfim um saco de supermercado prenhe de quebra-pedra; contente portanto. Nisso me deparei de novo o mesmo desastre, ainda com restos no trânsito e os guardas e a ambulância e claro a vítima. O que será uma vítima, substantivo equivalente ao algoz e sua vítima, nunca se sabe quem de fato a vítima quem o algoz... Isto visto insisto passante ali, podendo a vítima ser uma imprudente pessoa a abusar da velocidade que atrai e que mata e estando ali por ordem da pressa, estas amigas ou inimigas do horário e do emprego na plena vigência do desemprego do desespero nas crises nacional e mundial.
Isso importa pouco o mais sendo o fato da ocorrência e dela se alongar muito (o 'corredor' e pesquisador de ervas descia já no retorno após bem uns quinze minutos na Praça). Ainda incompleta a fotografia do acidente, se feita: aumentara a pequena plateia de curiosos a atrapalhar funcionários a levar nos cuidados o moço vitimado ou abusante para o hospital. Assim, resvalei, não indiferente e até a lamentar, apenas resvalei olhares para o local e desci.
Desci, não me conformei, de coração capiau, sofrendo o drama flagrado; antes que isso isto: fiquei a curtir (no mal sentido) as dores daquele congestionamento indesejável. Ficaria encucado dia todo, toda semana, resto do mês, quiçá mais.
Embora a desconhecer nomes e nomes técnicos naquela já distante tragédia. Porque sim uma tragédia; que se abate na gente (a gente não creio pense na gente frequente no aparente indiferente; ou me engano!?)
Versará em torno da tragédia, o resto deste texto mambembe dum mero escrevedor.

SEGUNDO
Segundo a curiosidade da curiosa ali em estada rápida – por que rápida! ora, tendo hora de entrar no serviço elinha assinzinho de pequena e olhos atentos; e afeitos vamos lá também; segundo ela não era ele, ah valha-me Deus se fosse estaríamos perdidas. Porque o senhor (eu) não sabe a miséria lá em casa na casa de minha filha... fosse o Miguel. O Miguel tem barba mais fechada chega parecer azul de preta, não é como esse aí (aí aponta a vítima no chão o negro do asfalto o vermelho do sangue a escorrer). O Miguel, meu genro, diz, o meu genro tem motoca preta igual essa e entra no trabalho às oito horas em ponto e sai de casa correndo atrasado, não senhor não tem nada de beijinho na esposa e quando muito fala tchau aos netos, meus netos. Um louco, uma loucura! um dia estará escarrapachado no solo igual... A vítima rumina um ai, o guarda faz sinal impreciso à ambulância próximo, a turma aumenta fecha o círculo abafa a área; em verdade era um publiquinho de meia dúzia e me espantara por isso esperando a violência da curiosidade no povo e agora aumentara um pouco a gente pra ver o estrago no chão frio, a comentar e a atrapalhar o andamento do resgaste, enfim retardando o socorro e não adianta falar ralhar com gente, gente faz que ouve se distancia um tantinho abre a roda logo fecha aperta o cerco – todos querem ver mais saber mais do que não sabem e mais para ter comentário no lar no serviço na rua entre conhecidos quase sempre desconhecidos ou atraídos por um bom-dia boa-tarde nem sabendo o nome da gente; e assim fecha e se fecha e espreme em volta do pessoal técnico, os carros não buzinam é claro nessa situação quase inusitada, os condutores afeitos com o congestionamento e dessa forma passam param espremidos também, e olham curiosos e mordiscam com outrem no veículo a querer saber e mais saber do nada saber daquele flagelo na esquina da Angélica, num quase aumento na tragédia por quase um dos veículos esbarrar na mulherinha magra morena e de chinelo de dedos de borracha ali encostada que escapole e comentara por sorte não sendo o Miguel. Sabe? olho pra ela pra sua voz rouquenha mais rouca agora na aflição, sabe que o Miguel da minha Maria é demais bruto! um selvagem, bate nela bate nos meninos xinga vizinhos – e me xinga como se a sogra fosse a culpada nos dramas do serviço dele – e sai louco pra esta avenida, nós vivemos na periferia lá embaixo e motoqueiro adora ziguezaguear nas ruas congestionadas vai cortando todo mundo. No fim de semana, em vez de ver tevê com a mulher, fica é alisando a motocicleta, limpa lava assopra encera enxuga como fosse ela um deus; não permite nem que os filhos toquem na roda e na lataria daquilo. De semana aquela loucura a sair desfeitear sair correr sumir voltar com raiva do mundo e a gente que se dane, assim mesmo digo que sorte não ser o Miguel, ele dispara e passa por este cruzamento perigoso todos dias e volta noite, bêbado. Minha filha disso reclama, apanha!
Agora – se o senhor me der licença (e por que teria que lhe dar ou não licença sendo ninguém no povo aqui a examinar o desastre; já ia longe, curioso embora, tornei pra ver melhor:) me dá licença passa das oito e a patroa... é no 45 lá em cima... ela me puxará as orelhas e a crise tá braba, se perder o lugar onde acharei emprego!
A mulherinha xispou, olhei de soslaio nesta margem da Avenida, vi quase também atropelada a ansiosa criatura, indo para a outra margem. Nisto chega um carro oficial com novos técnicos. E já começam a afugentar curiosos alizinho em concorrência pra ver o rapaz e daí a gente do povo indaga baixo será que morreu?

TERCEIRO
Tornei àquela esquina movimentada e fatídica, encontrando embora poucas horas depois, a rigor já no outro dia, encontrando a junção em cruzamento é claro mas mui pouco na lembrança do mui triste que ocorrera. Não mais que sangue lavado levado e mal limpo por esguicho numa área seca quente e nada especial a representar... o tempo fizera seu papel direitinho de apagar as coisas, verdadeiras ou imaginadas ou tão só para se registrar aleatoriamente. Alguns possíveis entre curiosos de ontem, com memória viva ainda dum acidente desastroso. Lá ficaram as marcas, sinais quase não tendo voz, perdida pelo acaso.
Não me dei por satisfeito.
Fui então visitar, curioso também e também teimoso, o pronto-socorro não distante, pra ver se via; melhor, ver se obtinha informes sobre o acontecimento. Apenas soube que vários desvarios de acidentados passaram por lá e que foram reenviados (no caso parece que de imediato) aos hospitais. A região, por rica creio, detém os melhores e os maiores estabelecimentos do gênero.
Fui visitar, curiosamente sem ser de minha conta, procurei tais atendimentos. Até que me concentrei por semelhança no caso no serviço da Santa Casa, verdadeira cidade pequena dentro da cidade grande, esta uma megalópole. Aliás passaram por esses condutos sociais de tristes lembranças mil motoqueiros, uns estraçalhados outros refazíveis alguns senão a maioria remendados medicados e reentregues ao movimento das ruas e de suas famílias. Não o caso do caso.
Meu motoqueiro – e doutros curiosos que subiam desciam a Av. Angélica quando do acidente – esse não achou seu destino. Ou por outra, o destino veio procurá-lo não o encontrando decerto, mesmo fosse (não era) o genro da senhora magrinha temerosa pela sorte da filha e dos filhos da filha seus netos. O pronto-socorro enviara aqueles pedaços dum corpo por fora meio inteiro à Santa Casa. Esta me exibiu papéis sobre, imaginando-me um familiar ou responsável a quem passar a bola e errou por ser-me e a outrem a vítima um mero desconhecido. Enfim o preço que desembolsam os enxeridos...
Os curiosos de ontem ouviram e me passaram os gemidos do pobre; a conversa dos homens do resgate e a do público mui inventivo em torno. Aos poucos, disseram os que viram-ouviram, puseram-no em maca e esta na ambulância, porém a criatura mais inconsciente que gente desperta. Saíram, sumiram técnicos a vítima e a viatura. Ficara ao sol da manhã ainda restos sangrentos vermelhos no asfalto negro; à limpeza de alguém. Só vestígios secos do desastre agora na rua apressada e/ou desmemoriada.
Aqui entro com a ânsia em saber até ao ponto de chegar à urbezinha da Santa Casa.
Como não provei ser parente, conhecido que fosse; tive de me contentar com algo do pouco vazado por funcionários, nem sempre atentos à verdade dos fatos, mais conscientes na realidade da burocracia; esta que é doença contraída a mais de cem anos no planeta; mas bem reproduzida ali onde local de fato às doenças... Contudo recebi o alimento necessário à fome abelhuda.
O homem, rapaz duns vinte anos, sem documento. Pior, a queda o baque na cabeça no asfalto afetara-lhe mais ainda que os ferimentos e a perda do sangue, atingindo os miolos. De maneira que desconhecendo inclusive quem sendo...

QUARTO
Debalde as linhas legais encontrando a família, família o infeliz tendo; nem fonte a saber profissão emprego e até a identificação do veículo de duas rodas, aliás escangalhadas no desastre. Então optando-se por aquilo comum ao homem comum: cozinhar em banho-maria; e antes tratar dos casos mais urgentes. No entremeio a polícia e a técnica não descobrem dados da motocicleta, supostamente por isso tida como roubada e coisa alguma sobre o 'ladrão' sem poderem aferir; no contrário buscariam algo a identificar.
Ficaram vítima e veículo ao sabor da burocracia e do tempo sem tempo dela.
Um belo dia, dia de sol e beleza lá fora, dentro daquele nosocômio o clínico resmunga qualquer àquele estranho em recuperação na cama da indigência. O paciente, tivesse alguma consciência saberia desde aí nessa dependência ser persona non grata pelo prazo vencido; e precisando novo rumo (a porta aberta ali...) Com um pior: Diria o médico "nada mais pode esta instituição fazer por você" e a vítima retrucaria ou imploraria "meu caso é grave!?" não retrucou, não pôde sequer balbuciar; então o profissional verbalizando imediato uma sentença: seu resto de vida será numa cadeira de rodas e a imobilidade, um imprestável. Lamento. Não disse pensou, não falaram ambos nada. O clínico, apressado, preenche mil fichas e as entrega à enfermeira, a empurrar o caso ao serviço social, um de horas e dias de espera sem fim. Por fim – tudo tem seu final até o fim sem epílogos brilhantes – por fim puseram-no em cadeira emprestada a rolar (pra fora é lógico) para findar o caso.
No aguardo aos familiares e conhecidos, desconhecidos todos; à espera do destino da gente de rua, até sem rua fixa para ser ponto do coração do povo; sobrando no povo na pressa apressada da indiferença de nossa civilização, ocupada a digitar nas redes sociais por seus celulares de última geração.
São Paulo   janeiro  2019



         



             

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