Palavras
inacabáveis de páginas inacabadas
PRIMEIRO
Andava
no exercício físico diário e à procura de ervas medicinais embora canseiras
habituais na cidade grande, rumo ao Parque Buenos Aires, quando achei achando o
que não buscava, certo incerto acidente de trânsito, na altura do cruzamento da
Avenida Angélica... Nunca houvera testemunhado tal apesar do tempo vivido na
Grande Cidade, tida pela tevê como um centro de violência e líder de
ocorrências policiais no movimento nas ruas... O trânsito era, na manhã, de congestionamento
(inimigo inseparável da pressa...) Contudo nada percebi de mais grave,
acostumado. No entanto ao desembocar na Praça eis que flagro o acidente!
Um
motoqueiro pranchado no solo, a quase confundir suas vestes pretas com o negro
do asfalto sujo; imediato supondo meu olhar manchado o escuro com seu vermelho
a escorrer...
Isto
foi um marco e é nisto que estas linhas centram, aqui e além.
Como
sempre por mui acontecer tomando por banal, prossegui, mas ascultei veículos a
cruzar dita avenida no aguardo do sinal verde acender. O desastre ou assim
parecido dava-se doutro lado na margem que desce; o sinaleiro desconhecendo
cego e automático a abrir a fechar ordem aos passantes. No meu verde andei em
direção ao portão do Parque ali no limiar. Notara, esquisito a mim, que os
transeuntes sequer comentavam sobre a motocicleta e o condutor no solo, nem
comentava um publiquinho de meia dúzia de curiosos, na sua faina doentia na
curiosidade prejudicial às autoridades a examinar e lidar com o estrago. Esta
observação vindo em razão do fato do caminheiro ser interiorano, o interior
rico em conversas de comadre e equivalentemente preocupações sentimentais de
apego (um sentir interiorano na megalópole indiferente...)
Bem,
prossegui. Entre a população do bairro rico a guiar ou ser guiada pelos
cuidados canis; e servidores municipais ocupados na limpeza das ruas da área; e
a mata exuberante a combater a poluição, prossegui na marcha – e a pesquisar onde
a erva a mim santa, trato assim a quebra-pedra que nós caipiras usamos para
soltar a urina presa – marchei, não indiferente pois lembrava a vítima
estatelada próximo; não entrara na indiferença aos problemas humanos qual via
nos habitantes no meu bairro pobre, onde 'viceja' ultrajada nos passeios
públicos gente largada de rua na rua à vista da gente em passeio...
Bem,
mal acabara a pesquisa e encontro da erva rasteira no Parque – saí, voltei
pensando tornar às baixadas da Angélica à minha quitinete; então empunhando o
saco cheio (nadinha que ver com chateação e excesso da tristeza) enfim um saco
de supermercado prenhe de quebra-pedra; contente portanto. Nisso me deparei de
novo o mesmo desastre, ainda com restos no trânsito e os guardas e a ambulância
e claro a vítima. O que será uma vítima, substantivo equivalente ao algoz e sua
vítima, nunca se sabe quem de fato a vítima quem o algoz... Isto visto insisto
passante ali, podendo a vítima ser uma imprudente pessoa a abusar da velocidade
que atrai e que mata e estando ali por ordem da pressa, estas amigas ou inimigas
do horário e do emprego na plena vigência do desemprego do desespero nas crises
nacional e mundial.
Isso
importa pouco o mais sendo o fato da ocorrência e dela se alongar muito (o
'corredor' e pesquisador de ervas descia já no retorno após bem uns quinze minutos
na Praça). Ainda incompleta a fotografia do acidente, se feita: aumentara a pequena
plateia de curiosos a atrapalhar funcionários a levar nos cuidados o moço
vitimado ou abusante para o hospital. Assim, resvalei, não indiferente e até a
lamentar, apenas resvalei olhares para o local e desci.
Desci,
não me conformei, de coração capiau, sofrendo o drama flagrado; antes que isso
isto: fiquei a curtir (no mal sentido) as dores daquele congestionamento
indesejável. Ficaria encucado dia todo, toda semana, resto do mês, quiçá mais.
Embora
a desconhecer nomes e nomes técnicos naquela já distante tragédia. Porque sim
uma tragédia; que se abate na gente (a gente não creio pense na gente frequente
no aparente indiferente; ou me engano!?)
Versará
em torno da tragédia, o resto deste texto mambembe dum mero escrevedor.
SEGUNDO
Segundo
a curiosidade da curiosa ali em estada rápida – por que rápida! ora, tendo hora
de entrar no serviço elinha assinzinho de pequena e olhos atentos; e afeitos
vamos lá também; segundo ela não era ele, ah valha-me Deus se fosse estaríamos
perdidas. Porque o senhor (eu) não sabe a miséria lá em casa na casa de minha
filha... fosse o Miguel. O Miguel tem barba mais fechada chega parecer azul de
preta, não é como esse aí (aí aponta a vítima no chão o negro do asfalto o
vermelho do sangue a escorrer). O Miguel, meu genro, diz, o meu genro tem
motoca preta igual essa e entra no trabalho às oito horas em ponto e sai de
casa correndo atrasado, não senhor não tem nada de beijinho na esposa e quando
muito fala tchau aos netos, meus netos. Um louco, uma loucura! um dia estará escarrapachado
no solo igual... A vítima rumina um ai, o guarda faz sinal impreciso à
ambulância próximo, a turma aumenta fecha o círculo abafa a área; em verdade
era um publiquinho de meia dúzia e me espantara por isso esperando a violência
da curiosidade no povo e agora aumentara um pouco a gente pra ver o estrago no
chão frio, a comentar e a atrapalhar o andamento do resgaste, enfim retardando
o socorro e não adianta falar ralhar com gente, gente faz que ouve se distancia
um tantinho abre a roda logo fecha aperta o cerco – todos querem ver mais saber
mais do que não sabem e mais para ter comentário no lar no serviço na rua entre
conhecidos quase sempre desconhecidos ou atraídos por um bom-dia boa-tarde nem
sabendo o nome da gente; e assim fecha e se fecha e espreme em volta do pessoal
técnico, os carros não buzinam é claro nessa situação quase inusitada, os
condutores afeitos com o congestionamento e dessa forma passam param espremidos
também, e olham curiosos e mordiscam com outrem no veículo a querer saber e
mais saber do nada saber daquele flagelo na esquina da Angélica, num quase
aumento na tragédia por quase um dos veículos esbarrar na mulherinha magra
morena e de chinelo de dedos de borracha ali encostada que escapole e comentara
por sorte não sendo o Miguel. Sabe? olho pra ela pra sua voz rouquenha mais
rouca agora na aflição, sabe que o Miguel da minha Maria é demais bruto! um
selvagem, bate nela bate nos meninos xinga vizinhos – e me xinga como se a
sogra fosse a culpada nos dramas do serviço dele – e sai louco pra esta
avenida, nós vivemos na periferia lá embaixo e motoqueiro adora ziguezaguear
nas ruas congestionadas vai cortando todo mundo. No fim de semana, em vez de ver
tevê com a mulher, fica é alisando a motocicleta, limpa lava assopra encera
enxuga como fosse ela um deus; não permite nem que os filhos toquem na roda e
na lataria daquilo. De semana aquela loucura a sair desfeitear sair correr
sumir voltar com raiva do mundo e a gente que se dane, assim mesmo digo que
sorte não ser o Miguel, ele dispara e passa por este cruzamento perigoso todos
dias e volta noite, bêbado. Minha filha disso reclama, apanha!
Agora
– se o senhor me der licença (e por que teria que lhe dar ou não licença sendo
ninguém no povo aqui a examinar o desastre; já ia longe, curioso embora, tornei
pra ver melhor:) me dá licença passa das oito e a patroa... é no 45 lá em
cima... ela me puxará as orelhas e a crise tá braba, se perder o lugar onde acharei
emprego!
A
mulherinha xispou, olhei de soslaio nesta margem da Avenida, vi quase também
atropelada a ansiosa criatura, indo para a outra margem. Nisto chega um carro
oficial com novos técnicos. E já começam a afugentar curiosos alizinho em concorrência
pra ver o rapaz e daí a gente do povo indaga baixo será que morreu?
TERCEIRO
Tornei
àquela esquina movimentada e fatídica, encontrando embora poucas horas depois,
a rigor já no outro dia, encontrando a junção em cruzamento é claro mas mui
pouco na lembrança do mui triste que ocorrera. Não mais que sangue lavado
levado e mal limpo por esguicho numa área seca quente e nada especial a
representar... o tempo fizera seu papel direitinho de apagar as coisas,
verdadeiras ou imaginadas ou tão só para se registrar aleatoriamente. Alguns
possíveis entre curiosos de ontem, com memória viva ainda dum acidente desastroso.
Lá ficaram as marcas, sinais quase não tendo voz, perdida pelo acaso.
Não
me dei por satisfeito.
Fui
então visitar, curioso também e também teimoso, o pronto-socorro não distante,
pra ver se via; melhor, ver se obtinha informes sobre o acontecimento. Apenas
soube que vários desvarios de acidentados passaram por lá e que foram reenviados
(no caso parece que de imediato) aos hospitais. A região, por rica creio, detém
os melhores e os maiores estabelecimentos do gênero.
Fui
visitar, curiosamente sem ser de minha conta, procurei tais atendimentos. Até
que me concentrei por semelhança no caso no serviço da Santa Casa, verdadeira
cidade pequena dentro da cidade grande, esta uma megalópole. Aliás passaram por
esses condutos sociais de tristes lembranças mil motoqueiros, uns estraçalhados
outros refazíveis alguns senão a maioria remendados medicados e reentregues ao
movimento das ruas e de suas famílias. Não o caso do caso.
Meu
motoqueiro – e doutros curiosos que subiam desciam a Av. Angélica quando do
acidente – esse não achou seu destino. Ou por outra, o destino veio procurá-lo
não o encontrando decerto, mesmo fosse (não era) o genro da senhora magrinha
temerosa pela sorte da filha e dos filhos da filha seus netos. O pronto-socorro
enviara aqueles pedaços dum corpo por fora meio inteiro à Santa Casa. Esta me
exibiu papéis sobre, imaginando-me um familiar ou responsável a quem passar a
bola e errou por ser-me e a outrem a vítima um mero desconhecido. Enfim o preço
que desembolsam os enxeridos...
Os
curiosos de ontem ouviram e me passaram os gemidos do pobre; a conversa dos
homens do resgate e a do público mui inventivo em torno. Aos poucos, disseram
os que viram-ouviram, puseram-no em maca e esta na ambulância, porém a criatura
mais inconsciente que gente desperta. Saíram, sumiram técnicos a vítima e a
viatura. Ficara ao sol da manhã ainda restos sangrentos vermelhos no asfalto
negro; à limpeza de alguém. Só vestígios secos do desastre agora na rua
apressada e/ou desmemoriada.
Aqui
entro com a ânsia em saber até ao ponto de chegar à urbezinha da Santa Casa.
Como
não provei ser parente, conhecido que fosse; tive de me contentar com algo do
pouco vazado por funcionários, nem sempre atentos à verdade dos fatos, mais
conscientes na realidade da burocracia; esta que é doença contraída a mais de
cem anos no planeta; mas bem reproduzida ali onde local de fato às doenças...
Contudo recebi o alimento necessário à fome abelhuda.
O
homem, rapaz duns vinte anos, sem documento. Pior, a queda o baque na cabeça no
asfalto afetara-lhe mais ainda que os ferimentos e a perda do sangue, atingindo
os miolos. De maneira que desconhecendo inclusive quem sendo...
QUARTO
Debalde
as linhas legais encontrando a família, família o infeliz tendo; nem fonte a
saber profissão emprego e até a identificação do veículo de duas rodas, aliás
escangalhadas no desastre. Então optando-se por aquilo comum ao homem comum:
cozinhar em banho-maria; e antes tratar dos casos mais urgentes. No entremeio a
polícia e a técnica não descobrem dados da motocicleta, supostamente por isso
tida como roubada e coisa alguma sobre o 'ladrão' sem poderem aferir; no
contrário buscariam algo a identificar.
Ficaram
vítima e veículo ao sabor da burocracia e do tempo sem tempo dela.
Um
belo dia, dia de sol e beleza lá fora, dentro daquele nosocômio o clínico
resmunga qualquer àquele estranho em recuperação na cama da indigência. O
paciente, tivesse alguma consciência saberia desde aí nessa dependência ser persona non grata pelo prazo vencido; e
precisando novo rumo (a porta aberta ali...) Com um pior: Diria o médico
"nada mais pode esta instituição fazer por você" e a vítima
retrucaria ou imploraria "meu caso é grave!?" não retrucou, não pôde
sequer balbuciar; então o profissional verbalizando imediato uma sentença: seu
resto de vida será numa cadeira de rodas e a imobilidade, um imprestável.
Lamento. Não disse pensou, não falaram ambos nada. O clínico, apressado,
preenche mil fichas e as entrega à enfermeira, a empurrar o caso ao serviço
social, um de horas e dias de espera sem fim. Por fim – tudo tem seu final até
o fim sem epílogos brilhantes – por fim puseram-no em cadeira emprestada a
rolar (pra fora é lógico) para findar o caso.
No
aguardo aos familiares e conhecidos, desconhecidos todos; à espera do destino
da gente de rua, até sem rua fixa para ser ponto do coração do povo; sobrando
no povo na pressa apressada da indiferença de nossa civilização, ocupada a digitar
nas redes sociais por seus celulares de última geração.
São Paulo janeiro
2019
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