domingo, 18 de agosto de 2019

Buraco Embaixo


Buraco Embaixo

Quase um acaso
Tem alguns a falar que a vida é um buraco, decerto ver de cada um; decerto também sequer pensando que a vida é mais que vida na vida que a gente leva, esta é apenas o período da existência a vida sendo no plano maior e eterna. O homem confunde e talvez só veja o buraco por perto. Perto ele vendo agora um buraco de verdade no sacolejo do trem. Trem? mas o trem não morreu no país. Sim e não. Viajava quase ao deus-dará, de graça, para onde não sabendo ao certo e se certo ao menos... Digamos pegara carona com outros passageiros. Ah que tipo de viajantes, igualmente não pagando bilhete num pagar apenas com a própria vida. Aqui tornamos à confusão existência-vida.
Antes, bem antes andara com sua trouxa feito trouxa a trouxa nas costas; ora a pedir qual mendicante uns restos de almoço, não pediria emprego... menos ainda trabalho; e dormia ao relento faltassem pontes. Mais ou menos dentro do dizer ‘sem lenço sem documento’ do poeta cantor. Isto posto admite-se não soubesse o dia. Era noite avançada, avançada demais aos sem destino por anos, a fugir certamente; a fugir de quê?
Então surgira aquele presente no seu presente: um trem inteirinho seu. Não, isto abuso. Encontrava-se parada a locomotiva, quem sabe a cumprir ordens, os vagões... subiu naquele de gado, se ajeitou como possível com outros ‘passageiros’, por sinal incomodados (estariam pensando ou se falando “acham que a gente é bicho por acaso, pondo tantos num só vagão!” Eram. Apertados qual criminosos na cela de presídio com superlotação, sem celulares sem drogas sem desavenças sem vinganças sem promessas... A superlotação carcerária ganhara um passageiro na boca da noite ou no avançado já da madrugada.
Era um homem comum, desses que se não distinguem anéis por fora e intenções nem sempre nobres por dentro. Subira meio apressado desconfiado temeroso, se enganchara por vezes e por fim desceu naquela fedentina lisa morna incômoda prensada, prensado agora com outrem.
Seus companheiros então poderiam ser mesmo companheiros, pois como particularizar direito um desconhecido o sexo dos anjos numa noite escura como breu, infecta como a vida (aqui de novo a confusão) embora não fizesse frio. Aliás sua trouxa em mochila às costas não dispunha cobertores, somenos numa região quente na estação quente na noite morna. Ajeitou-se entre os demais. Demais, ninguém fez comentário, fá-lo-ia berrando? mugindo? Escolheu um canto.
O lugar escolhido ou que lhe sobrara na superlotação era ao menos seco, limpo seria abuso imaginativo, seco. Porque o resto do espaço embaixo escorregadio sujeira esverdeada (o que senão, a cor, em noite escura mesmo sem breu). E o cheiro.
Ai meu Deus, pensou ou terá comentado baixo pra não acordar os outros, ai que mau cheiro que fedor. Claro, não aventara haver acrescentado o seu, por dias e noites em acúmulo de suor dormido na região seca, além ser um forasteiro sem qualquer pecúlio; e portanto quem a lhe estender chuveiro já se ofertando algo para comer a um mendigo passante? Contudo, isso sequer pôs ao chegar àquela viagem a si sem meta de chegada. Que dirá a se exigir conforto e pior no melhor o luxo...

O buraco
Foi nisso haver percebido próximo de si um buraco. Logicamente não o da vida, a existência a um ser comum parecendo um buraco onde guardar incúrias injúrias vergonhas e erros. Um buraco.
O que é um buraco. Ora bolas.
Notou no assoalho do veículo, isto é no comboio em movimento vagaroso e na claridade matinal, notou uma brecha pequena embora mas suficiente para ver o que se passava no chão cada vez mais apressado e até já a confundir a base: uns dormentes espaçados que a pressa quase unia em um todo cor escura de terra; via trilhos, ou somente ouvia; via montões espalhados de pedras britadas e se disputando tamanho e cor, sempre escuras ao reflexo dos raios solares (isto já no dia seguinte) os quais teimavam também vê-las quiçá pegá-las. Vez que outra algo mais estranho e até assustador como os pontilhões e vãos eventuais, que igualmente passavam ou apressados como as rodas do trem ou lentas quando quase a parar... e que saberia ele disto! Era um buraco; pequeno, enorme para observar o mundo rasteiro que fugia aos seus pés – pés dele e das vacas – os pés que não passavam de muitas rodas de ferro, apesar só flagrar duas delas, igualmente apressadíssimas ou lentíssimas a tentar superar os trilhos os dormentes as pedras e os vãos de todos tamanhos e formas.
Ora, que distração, que brincadeira e tanto a engolir as tantas horas que poderiam vir do futuro ao seu presente.
Com isso não ‘vendo’ o cheiro acre de urina curtida e fezes quase líquidas que estariam a escorrer no assoalho comum e decerto a incomodar seus companheiros de viagem.
Olhava o buraco e pelo buraco o chão.
Nisso bolou uma forma de não ‘ver’ nem o cheiro nem o tempo nem seu próprio incômodo. Lógico não se pensar um turista, válido isso aos bois. Quem sabe também incomodados os funcionários a movimentar o comboio; a questão de horário e o peso a deixar suarenta a locomotiva, a qual vez que outra a gritar cansada seu apito de revolta; e a ideia da importância da carga porque o gado valendo dinheiro vultoso requerendo certos cuidados e segurança – um animal sequer que tombasse morto provocando prejuízo enorme a ser coberto pelo seguro e quem sabe se não implicando em dispensa ao empregado quiçá com processo etc.. Todavia não pensavam os funcionários naquele passageiro entrão e menos no seu buraco visor...

Um dia em viagem
Agora o passageiro quase do acaso que se introduzira no vagão para gado afugentava insetos. Aqueles horríveis zumbidos e esvoaçar atraídos embora não por ele (ou seria exatamente por um ser já emporcalhado inclusive pela vida que levara levava?) atraídos queria parecer pelo lamaçal com seu cheiro a exalar naquele ambiente. Afugentava, nervoso, voltavam zumbiam lambiam chupavam aquelas gostosuras decerto pensando os insetos, as que brotavam com o suor humano – ora, era sim ainda um homem, pô! pensou reclamando exortando direitos adquiridos em milhares de anos.
Contudo parecia mesmo o esvoaçamento ser por causa do ‘aroma’ dos outros bichos; puxa, arregalou olhos admirados pegos de chofre na rotina do crer – puxa vida, também sou bicho, o humano um animal; porém pensamos fazemos criamos e com isso nos safamos de problemas que vocês, disse examinando aquele fétido meio e no meio mil patas mil cascos enlameados e cérebros ‘destamanhinho’. Todavia, falou de si para si contrariado, todavia com todo esse cabedal humano eu ando preso numa jaula numa gaiola de gado! pior: se me flagrar a fiscalização aqui neste canto da cela, se não apanhar primeiro dela por qualquer deferência, serei a seguir levado à gaiola da superlotação carcerária e... Assustou-se à lembrança. Nisso lhe picaram o antebraço brotando um sanguinho vermelho (ora, seria azul!) provavelmente gostoso às trombas daqueles infames mosquitinhos. Palmou-se, se bateu, manchou-se do seu próprio sangue e de restos do animálculo. Apenas daí sentiu, ressentiu, o cheiro terrível das fezes mil vezes misturadas trituradas cheirosas malcheirosas em seu entorno, até a espantar sua consciência daquelas insignificâncias que voavam  visitando a cadeia em movimento. O trem agora parecia desembestado numa corrida louca na loucura de viagem.
Relanceou seus companheiros do vagão, incomodados no sacolejo da condução e pelo seu estado se esbarrando ao sabor de curvas e brecadas além decerto pela fome pela sede brabas que atingiam o todo, inclusive o passageiro acrescentado suspeito entrão e indevido (suporiam supusessem os bois). O homem gritou, grito mesmo sem figuração nenhuma mas em alto e bom som “seus filhos disto daquilo etc. e tal” sem que os pobres quadrúpedes ouvissem sequer, o trem mais barulhento no seu toque-toque e no bater rodas de ferro no ferro dos trilhos, numa briga sem fim por ordem lá da frente na locomotiva onde nem os próprios funcionários e técnicos se ouviam ouvindo apenas o caos no movimento do comboio. Ora, iriam escutar uma reclamação berrada!?
Assim acalmou-se e se acomodou, fugindo um pouco e provisoriamente daquele cheiro forte sob ação agora do calor que aumentava ao bombardeio dos raios solares ali incidentes.
Acalmou no seu esbravejo o homem, ou após o esbravejar, se ajeitando se segurando a uma das vigas de ferro da cadeia mexilona e sacolejante. Quase, de tanto sentir, quase já não recebia aquela exalação fedorenta, a ultrapassar certamente sua própria catinga, visto a gente não se sentir com a rotina e a desistir de reclamar por aquele azedume nauseante em algumas pessoas, muita vez reconhecido pelo transpirante mesmo. Aqui nada que ver com o gado vacum ali espremido por conta das finanças do empresário da pecuária a aguardar um desfecho lucrativo ao final da viagem. Claro não pensar o poder econômico num foragido da sociedade a gozar sua gratuidade na passagem entrando furtivamente num vagão pleno de animais chifres carnes cascos e embarreados fétidos.
Ele entretanto parava, não estivesse quase estático no seu canto de viagem, para rever sua vida pregressa, a título de quê? sob pretexto de quê?
Parece que nada sugerira lembrança. O fato é que revia a fuga dela...

Ela e o que mais lembrar e o perigo numa parada
Estava nisso, ou seja a repensar o pensar, seus poucos ganhos suas perdas enormes na existência, quando deu-se como que um choque um susto um pare! Os outros na gôndola se espremeram se juntaram se ampararam um só escorregando pressionado pelo peso do conjunto dos companheiros caiu, ele como homem em autodefesa imediato grudou-se na barra de ferro próximo sem chegar a pensar no perigo e o trem parou de vez. Em verdade não de repente: longe gritaram depois pararam atritaram ferros e fungos da locomotiva, subindo por isso um cheiro do metal atritado esquentado e um som característico da frenagem quase inesperada. Daí seguiu-se o silêncio, o silêncio que é muito maior quando se dá, antes tendo um barulho avassalador; quase que também se possa abusar dizendo do silêncio um silêncio igualmente avassalador. Então possível ouvir-se até o cri-cri no cricrilar dos grilos, um piado anônimo que chega, um choro de noite com fragrância de seiva na seminoite o rei sol já sumindo vermelho cansado. E nesse silenciar rodas em que uma que outra vaca a reclamar na sua língua, o silêncio se fez presente mas nas vozes a chegar dos homens ausentes, empregados, no seu falar técnico. Congregaram, ciciaram primeiro falaram audível depois e depois ainda e isto válido apenas a um invisível (a população carcerária espremida no vagão não via os trabalhadores daí serem todos invisíveis:) apenas ele a falar gritado ardido machucador desagradável aos ouvidos da gente, natural não se pedisse opinião dos irracionais. Chegaram perto mais perto ainda, um de boné (o passageiro intruso somente vendo o boné por cima, a cabeça o corpo os membros abaixo) e junto ali do carro o de boina vermelha cobrando, encostado na forma cabocla e brasileira a descansar mesmo não havendo trabalhado não sendo o caso pois um dos técnicos com chefia e por chefe chamava ardidamente irritantemente altamente os subalternos na linguagem deles e naquilo que porventura erraram ou se enganaram; aqui a hipótese da amizade em que os erros são postos com carinho e até doçura; aos outros a ira e a secura da lei o constranger o exigir. Enfim os homens confrontaram seus atos, justificaram a se santificar quem sabe, fizeram conselho ou espécie de análise do trabalho ao bom desempenho da deslocação do comboio; e após – isto atingindo em cheio os interesses daquele último passageiro em forma de penetra a subir na composição – após então levaram a efeito a fiscalização dos muitos vagões e sua valiosa carga. Claro que ao descobrir descobrindo um ilegal acompanhante poderiam não considerá-lo valioso. Ao contrário o gado de grande valor, tanto haver sido feito certo seguro pela carga preciosa.
Chegaram em não só vigiar os bens transportados e sobretudo a indicar e até contar cada boi. Logo foram tratar dos lados do vagabundo (e isto não seria ultraje e transpor também a decência na linguagem!) Postaram-se nas imediações, um gritava ou cantava o que contava a um deles anotador com prancheta ao lado do chefe daquilo tudo. Perceberam deram baixa, decerto indo ao setor ‘perdas & danos’ na escrituração; enfim tiraram do rol da carga válida um bezerro ou bezerra pisoteado morto. Logo teriam que se desfazer do cadáver, visto próxima a fiscalização oficial, bem mais exigente que a do próprio grupo alugando a viagem.
Nesse ínterim conversaram muita coisa paralela e sobre problemas individuais conhecidos ou não e os dramas familiais e até entrando no deboche e na brincadeira amenos, o que demonstrando a chefia não ser tão durona... Chegaram próximo do canto daquele homem com passagem precária. Fez então de tudo o pobre para se livrar das vistas dos empregados, ou... Conseguiu, deitado encolhido espremido na lama fedorenta, passar seu cheiro de corpo ao corpo do assoalho quebrado e estendido com fezes dos animais; ou melhor dito, doutros animais ou companheiros de sofrimento. Ninguém a dedá-lo, claro. Nenhum funcionário descobriu o infeliz – e não seria por essa razão e nesse particular um ser feliz?
Os sons humanos andaram como andaram seus pés; já longe se ouvindo o mexer remexer alavancas, um apito em não perder o costume ferroviário e o comboio partiu. Novamente os chiados as fricções os sons os cheiros em movimento. Tornando o olfato humano agora ao hálito desagradável daquele vagão, o qual decerto se cumulando em somar outros dos mesmos cheiros nos cheiros dos outros vagões engatados na composição.
O susto passara. Ele se ajeitando ao seu buraco, os dormentes as rodas o sacolejar se acelerando após a gritaria lá na frente, na ponta a locomotiva e sua pressa e seu resfolegar e seu cansaço seu nunca-chegar.

Rememorações...
Lembrava a mulher fugida ingrata, pensou, e por isso pego desprevenido na parada obrigatória para fiscalização, desnecessária a si; assim num átimo esqueceu momentaneamente a mulher contudo lembrou a menina. No seu caminhar pregresso encontrara a inocência nuns olhinhos brilhantes faiscantes na perdição e no desalento em que um dia se encontrava, num contato pouco durável porém muito gratificante duma casa em que por piedade lhe ofertaram abrigo. Conversando com a criança de igual para igual, com liberdade embora os atentos olhos da mãe dela. Um dia o serzinho, exatamente no dia do seu oitavo natalício, quando ofertara para a menininha uma flor do jardim da casa dos próprios hospedeiros; não deixando sua miséria ir além. Apesar, a garotinha abriu sorrisos gratos. Nisso fora chamado por elinha para apreciar um fato inusitado. Uns passarinhos em acasalamento, o que poético e ao mesmo tempo bem prosaico. A inocência desconhecia; achava indizível graça um dos pássaros voar subir cobrir o outro, outra, e depois ambos a abrir asas alevantar penas... e repetir e repetir. Então explicou à neófita com palavras mansas respeitosas porém justas. Esclareceu comparando rápido e conciso a situação válida para todos casais e aos casais de toda espécie, até comum ao homem. Insistiu que o ato ligado à beleza e à sabedoria vindos do Criador. Embora com vocábulos secos ainda assim poéticos, suficiente mas ‘perigosos’ à moral tacanha da família – fora advertido levemente pela senhora ali olhos e ouvidos da religião, embora usando ela do artifício da forma brincalhona na adversão, decerto em não ferir aquele hóspede, ele, tão relegado pela sorte (ou azar?) na sociedade  e no tempo.
Sorriu à lembrança. Voltou a contar dormentes rodas trilhos vãos: o escuro da hora não permitiu se não ver a silhueta nebulosa de sombras no movimento. O comboio acelerava acelerando seus passos certamente com pressa em chegar, onde o apócrifo não sabendo. Ora, para que saber onde ir onde chegar onde parar se não sabia ao certo donde vinha!
Um andarilho, aqui caronista ilegal, um assim sequer precisa pôr indagações tais. Incomodando de fato sua situação desconfortável e as dificuldades próximas. Apareciam reaparecendo o fantasma da fome e mais o da sede. Passara horas quase em jejum; a custo comera algo antes da viagem, uma viagem de surpresas pois não esperava encontrar o caminho dum trem no seu caminho; mais ainda menos: não supunha poder subir num trem. Este em tudo especial, com passageiros mal acomodados espremidos e agora também espremido ele com os outros. Tinha seu respiradouro para baixo no buraco de contar o solo em movimento. Contudo sobravam azares na catinga do gado e no incômodo na sua autodefesa, visto precisar andar todo minuto atento no aguardo negativo que aqueles bichos desequilibrados seja numa curva seja num frear repentino caíssem em cima de si, já de si acoitado no canto menos mais inseguro. Por essa altura o defuntinho cheirava por causa das horas do passamento; quem sabe se os vivos outros igualmente não sentissem não ressentissem o companheirinho então músculos retorcidos esquartejados e sangues no chão feito massa morta. Morta de fato.
Aquele cheiro mais enjoativo que outros enjoativos cheiros e por que não somar acrescer um pouquinho o bodum do homem, nada nada visitante e incorporado à carga!
Todavia o ser humano tem outras saídas aos dramas o que não ocorre nos outros animais: a imaginação a lembrança o pensamento criador e até a curiosidade, nele doentia. Aliás era preciso mesmo fazer algo tomar alguma atitude; ou morrer no açougue; o destino da carga era com certeza o frigorífico.
Por isso precisou investir a fugir daquele perto ameaçador e daquela briga suicida, que era a lembrança do seu passado; ou já memória visto os anos e as datas natalícias se ocultarem no que chamam esquecimento das coisas, mui comum em idosos, ele quase um velho, negativo que também pesa em jovens doentes, objeto de psiquiatras.
         
Relembranças
Estava nesse pensar quando por pouco o balanço o sacolejo mal dirigido ou bem intencionado, quando quase um casco atinge pisa fere sangra um pé... Se recompôs.
Então ouvindo nos recônditos bem escondidos da memória mil sons mil vozes mil ladainhas mil cantos religiosos mil vezes relembrados e novamente escondidos nos recônditos por mil vezes; rememora um momento de crise por que passara quando gente. Sim porque agora com trouxa nas costas trouxa de todos, e mais ainda se não a cheirar estrume curtido de curral ao menos visivelmente lamecado na sua roupa em trapos nos trapos que o cobriam na pele queimada e decerto a feder bastante não só o couro, a musculatura e os ossos já cansados... A lembrança levou-o de volta à época deles dela dele delinhos, estes serzinhos expulsos prematuramente e aí ah aí foram mil consequências, como a que vivia no hoje com seus parceiros de quatro cascos envoltos em mil e uma sujeiras – nisso não via e para que ver se sentindo? – a noite quente mostrando a lama o lago escorregadio se não doutras imundícies as fezes e a urina dos animais. Só deles! dele...
Enquanto não chegava o nunca-chegar do trem, o trem a desesperar parecendo linguiça engatada a linguiças e por correr em corrida maluca quem sabe a cumprir horário; enquanto ele e companheiros sem hora talvez mas com pressa. O veículo sacolejando demais, a ponto temer que descarrilasse. Curioso, a vida nas condições da então existência de nada valia, entretanto havendo algo que o dispunha a defendê-la, dum descarrilamento inclusive.
Nesse ponto, tornando do temor fugaz que o trem saísse dos trilhos tombasse amassasse todos, pensou nela; pensou ela. Sua formosura seus anos de alegria no convívio e depois nos desgastes conjugais. Via revendo nitidamente ela ele mesmo e elinhos. Num momento se pega indesejado, soma prós e contras sem entender como é que a bela companheira então desejando se descartar dele.
A questão era mais intrincada aos olhos de outrem; no entanto viviam os atritos constantes e piorou quando ela eliminou elinhos... Os médicos garantiram-lhes que esperavam gêmeos; a mãe não aceitou, porocurando seres inescrupulosos os quais lhe deram beberagens a expulsar os fetos. Um dia a esposa garantiu haver acabado com as indesejáveis criaturinhas; ajuntou a isso que o companheiro não se metesse, pois o corpo sendo dela ela poderia fazer e desfazer como lhe conviesse; daí tornou a mulher às suas festas e aos seus amigos. Assim não teve jeito o matrimônio. O interessante nisso o fato de embora a consorte desejando desfazer-se do marido, este chega no lar (aqui abuso na linguagem porque mera casa mal habitada...) chega e encontra bilhete dela se despedindo. Foi quando desandou pelos caminhos que o mundo lhe ofertara, até se defrontar na convivência sofrível com fezes de animais num vagão de trem.
Puxa, se disse após sofrer outra vez nas mil das mil e uma lembranças, puxa vida por quanto sofrimento já passei; e quantos o futuro estará prometendo... De maneira que um mais dia mais uma noite se acabando ouvindo o ninar compassado das rodas e trilhos e inclusive precisando aturar o bafejo desagradável da sujeira da lama da fome da sede por que passava ou passavam também, incluídos os infelizes bois. Sim de maneira que, apesar de tudo isso, isso não passando de experiência difícil realmente porém curta, bem mais curta que o conjunto dos anos anteriores. Verdade que ele não tendo destino, é certo, entretanto aguardando com base um final. Aliás parecia não longe o final visto do comboio o alvorecer; pelo menos um início por final. Poderia noutra parada, antes que os empregados da companhia descessem da composição, descesse ele mesmo rápido como subira – ganhasse a liberdade. É possível até ficasse com pena dos seus companheiros nesse estranho turismo...

Um fim?
Alvoreceu e por fim o sol mostrou-se se mostrando alegre, justo o passageiro estando a viver a tristeza de suas lembranças; e também na expectativa que o trem parasse – aquele negócio que ouvira da fiscalização do governo, o governo tanto a si como ao povo uma entidade que não se pega concretamente mas que concretamente se teme. Haja visto ser um andarilho e portanto um devedor talvez sem dívida.
De fato interrompeu a composição sua viagem, interrompendo igualmente ele suas reminiscências; substituindo-as pela fuga quase planejada, quiçá honrosa, de uma situação quem sabe insustentável. Segurou-se nas barras de ferro da parede, olhou seu buraco no vagão decerto já com saudade antecipada, enquanto o trem acabou por frear de vez. Num instante se encontra nos altos da caçamba, por onde entrara a contragosto da lei.
Logo está descendo cuidadosamente – pra não cair, pra não ser notado – olha e se vê só, quase ao nível do solo. Sequer se despedira dos bois.
Então se depara com braços fortes que sente a enlaçá-lo por trás. Chegam mais empregados, todos querem falar e falam ao mesmo tempo na vitória contra a caça. A caça muda, engolira a língua ou não sabendo o que dizer.
Marília   dezembro  2012



         



           

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