Buraco
Embaixo
1° Quase um acaso
Tem
alguns a falar que a vida é um buraco, decerto ver de cada um; decerto também
sequer pensando que a vida é mais que vida na vida que a gente leva, esta é
apenas o período da existência a vida sendo no plano maior e eterna. O homem
confunde e talvez só veja o buraco por perto. Perto ele vendo agora um buraco
de verdade no sacolejo do trem. Trem? mas o trem não morreu no país. Sim e não.
Viajava quase ao deus-dará, de graça, para onde não sabendo ao certo e se certo
ao menos... Digamos pegara carona com outros passageiros. Ah que tipo de
viajantes, igualmente não pagando bilhete num pagar apenas com a própria vida.
Aqui tornamos à confusão existência-vida.
Antes,
bem antes andara com sua trouxa feito trouxa a trouxa nas costas; ora a pedir
qual mendicante uns restos de almoço, não pediria emprego... menos ainda
trabalho; e dormia ao relento faltassem pontes. Mais ou menos dentro do dizer
‘sem lenço sem documento’ do poeta cantor. Isto posto admite-se não soubesse o
dia. Era noite avançada, avançada demais aos sem destino por anos, a fugir
certamente; a fugir de quê?
Então
surgira aquele presente no seu presente: um trem inteirinho seu. Não, isto
abuso. Encontrava-se parada a locomotiva, quem sabe a cumprir ordens, os
vagões... subiu naquele de gado, se ajeitou como possível com outros ‘passageiros’,
por sinal incomodados (estariam pensando ou se falando “acham que a gente é
bicho por acaso, pondo tantos num só vagão!” Eram. Apertados qual criminosos na
cela de presídio com superlotação, sem celulares sem drogas sem desavenças sem
vinganças sem promessas... A superlotação carcerária ganhara um passageiro na
boca da noite ou no avançado já da madrugada.
Era
um homem comum, desses que se não distinguem anéis por fora e intenções nem
sempre nobres por dentro. Subira meio apressado desconfiado temeroso, se
enganchara por vezes e por fim desceu naquela fedentina lisa morna incômoda
prensada, prensado agora com outrem.
Seus
companheiros então poderiam ser mesmo companheiros, pois como particularizar
direito um desconhecido o sexo dos anjos numa noite escura como breu, infecta
como a vida (aqui de novo a confusão) embora não fizesse frio. Aliás sua trouxa
em mochila às costas não dispunha cobertores, somenos numa região quente na
estação quente na noite morna. Ajeitou-se entre os demais. Demais, ninguém fez
comentário, fá-lo-ia berrando? mugindo? Escolheu um canto.
O
lugar escolhido ou que lhe sobrara na superlotação era ao menos seco, limpo
seria abuso imaginativo, seco. Porque o resto do espaço embaixo escorregadio
sujeira esverdeada (o que senão, a cor, em noite escura mesmo sem breu). E o
cheiro.
Ai
meu Deus, pensou ou terá comentado baixo pra não acordar os outros, ai que mau
cheiro que fedor. Claro, não aventara haver acrescentado o seu, por dias e
noites em acúmulo de suor dormido na região seca, além ser um forasteiro sem
qualquer pecúlio; e portanto quem a lhe estender chuveiro já se ofertando algo
para comer a um mendigo passante? Contudo, isso sequer pôs ao chegar àquela
viagem a si sem meta de chegada. Que dirá a se exigir conforto e pior no melhor
o luxo...
2° O buraco
Foi
nisso haver percebido próximo de si um buraco. Logicamente não o da vida, a
existência a um ser comum parecendo um buraco onde guardar incúrias injúrias
vergonhas e erros. Um buraco.
O
que é um buraco. Ora bolas.
Notou
no assoalho do veículo, isto é no comboio em movimento vagaroso e na claridade
matinal, notou uma brecha pequena embora mas suficiente para ver o que se
passava no chão cada vez mais apressado e até já a confundir a base: uns
dormentes espaçados que a pressa quase unia em um todo cor escura de terra; via
trilhos, ou somente ouvia; via montões espalhados de pedras britadas e se
disputando tamanho e cor, sempre escuras ao reflexo dos raios solares (isto já
no dia seguinte) os quais teimavam também vê-las quiçá pegá-las. Vez que outra
algo mais estranho e até assustador como os pontilhões e vãos eventuais, que
igualmente passavam ou apressados como as rodas do trem ou lentas quando quase
a parar... e que saberia ele disto! Era um buraco; pequeno, enorme para
observar o mundo rasteiro que fugia aos seus pés – pés dele e das vacas – os
pés que não passavam de muitas rodas de ferro, apesar só flagrar duas delas,
igualmente apressadíssimas ou lentíssimas a tentar superar os trilhos os
dormentes as pedras e os vãos de todos tamanhos e formas.
Ora,
que distração, que brincadeira e tanto a engolir as tantas horas que poderiam
vir do futuro ao seu presente.
Com
isso não ‘vendo’ o cheiro acre de urina curtida e fezes quase líquidas que
estariam a escorrer no assoalho comum e decerto a incomodar seus companheiros
de viagem.
Olhava
o buraco e pelo buraco o chão.
Nisso
bolou uma forma de não ‘ver’ nem o cheiro nem o tempo nem seu próprio incômodo.
Lógico não se pensar um turista, válido isso aos bois. Quem sabe também incomodados
os funcionários a movimentar o comboio; a questão de horário e o peso a deixar
suarenta a locomotiva, a qual vez que outra a gritar cansada seu apito de
revolta; e a ideia da importância da carga porque o gado valendo dinheiro
vultoso requerendo certos cuidados e segurança – um animal sequer que tombasse
morto provocando prejuízo enorme a ser coberto pelo seguro e quem sabe se não
implicando em dispensa ao empregado quiçá com processo etc.. Todavia não pensavam
os funcionários naquele passageiro entrão e menos no seu buraco visor...
3° Um dia em
viagem
Agora
o passageiro quase do acaso que se introduzira no vagão para gado afugentava
insetos. Aqueles horríveis zumbidos e esvoaçar atraídos embora não por ele (ou
seria exatamente por um ser já emporcalhado inclusive pela vida que levara levava?)
atraídos queria parecer pelo lamaçal com seu cheiro a exalar naquele ambiente.
Afugentava, nervoso, voltavam zumbiam lambiam chupavam aquelas gostosuras
decerto pensando os insetos, as que brotavam com o suor humano – ora, era sim
ainda um homem, pô! pensou reclamando exortando direitos adquiridos em milhares
de anos.
Contudo
parecia mesmo o esvoaçamento ser por causa do ‘aroma’ dos outros bichos; puxa,
arregalou olhos admirados pegos de chofre na rotina do crer – puxa vida, também
sou bicho, o humano um animal; porém pensamos fazemos criamos e com isso nos
safamos de problemas que vocês, disse examinando aquele fétido meio e no meio
mil patas mil cascos enlameados e cérebros ‘destamanhinho’. Todavia, falou de
si para si contrariado, todavia com todo esse cabedal humano eu ando preso numa
jaula numa gaiola de gado! pior: se me flagrar a fiscalização aqui neste canto
da cela, se não apanhar primeiro dela por qualquer deferência, serei a seguir levado
à gaiola da superlotação carcerária e... Assustou-se à lembrança. Nisso lhe
picaram o antebraço brotando um sanguinho vermelho (ora, seria azul!) provavelmente
gostoso às trombas daqueles infames mosquitinhos. Palmou-se, se bateu,
manchou-se do seu próprio sangue e de restos do animálculo. Apenas daí sentiu,
ressentiu, o cheiro terrível das fezes mil vezes misturadas trituradas
cheirosas malcheirosas em seu entorno, até a espantar sua consciência daquelas
insignificâncias que voavam visitando a
cadeia em movimento. O trem agora parecia desembestado numa corrida louca na loucura
de viagem.
Relanceou
seus companheiros do vagão, incomodados no sacolejo da condução e pelo seu
estado se esbarrando ao sabor de curvas e brecadas além decerto pela fome pela
sede brabas que atingiam o todo, inclusive o passageiro acrescentado suspeito
entrão e indevido (suporiam supusessem os bois). O homem gritou, grito mesmo
sem figuração nenhuma mas em alto e bom som “seus filhos disto daquilo etc. e
tal” sem que os pobres quadrúpedes ouvissem sequer, o trem mais barulhento no
seu toque-toque e no bater rodas de ferro no ferro dos trilhos, numa briga sem
fim por ordem lá da frente na locomotiva onde nem os próprios funcionários e
técnicos se ouviam ouvindo apenas o caos no movimento do comboio. Ora, iriam
escutar uma reclamação berrada!?
Assim
acalmou-se e se acomodou, fugindo um pouco e provisoriamente daquele cheiro
forte sob ação agora do calor que aumentava ao bombardeio dos raios solares ali
incidentes.
Acalmou
no seu esbravejo o homem, ou após o esbravejar, se ajeitando se segurando a uma
das vigas de ferro da cadeia mexilona e sacolejante. Quase, de tanto sentir,
quase já não recebia aquela exalação fedorenta, a ultrapassar certamente sua
própria catinga, visto a gente não se sentir com a rotina e a desistir de
reclamar por aquele azedume nauseante em algumas pessoas, muita vez reconhecido
pelo transpirante mesmo. Aqui nada que ver com o gado vacum ali espremido por
conta das finanças do empresário da pecuária a aguardar um desfecho lucrativo
ao final da viagem. Claro não pensar o poder econômico num foragido da
sociedade a gozar sua gratuidade na passagem entrando furtivamente num vagão
pleno de animais chifres carnes cascos e embarreados fétidos.
Ele
entretanto parava, não estivesse quase estático no seu canto de viagem, para
rever sua vida pregressa, a título de quê? sob pretexto de quê?
Parece
que nada sugerira lembrança. O fato é que revia a fuga dela...
4° Ela e o
que mais lembrar e o perigo numa parada
Estava
nisso, ou seja a repensar o pensar, seus poucos ganhos suas perdas enormes na
existência, quando deu-se como que um choque um susto um pare! Os outros na
gôndola se espremeram se juntaram se ampararam um só escorregando pressionado
pelo peso do conjunto dos companheiros caiu, ele como homem em autodefesa
imediato grudou-se na barra de ferro próximo sem chegar a pensar no perigo e o
trem parou de vez. Em verdade não de repente: longe gritaram depois pararam atritaram
ferros e fungos da locomotiva, subindo por isso um cheiro do metal atritado
esquentado e um som característico da frenagem quase inesperada. Daí seguiu-se
o silêncio, o silêncio que é muito maior quando se dá, antes tendo um barulho
avassalador; quase que também se possa abusar dizendo do silêncio um silêncio
igualmente avassalador. Então possível ouvir-se até o cri-cri no cricrilar dos
grilos, um piado anônimo que chega, um choro de noite com fragrância de seiva
na seminoite o rei sol já sumindo vermelho cansado. E nesse silenciar rodas em
que uma que outra vaca a reclamar na sua língua, o silêncio se fez presente mas
nas vozes a chegar dos homens ausentes, empregados, no seu falar técnico.
Congregaram, ciciaram primeiro falaram audível depois e depois ainda e isto
válido apenas a um invisível (a população carcerária espremida no vagão não via
os trabalhadores daí serem todos invisíveis:) apenas ele a falar gritado ardido
machucador desagradável aos ouvidos da gente, natural não se pedisse opinião
dos irracionais. Chegaram perto mais perto ainda, um de boné (o passageiro
intruso somente vendo o boné por cima, a cabeça o corpo os membros abaixo) e
junto ali do carro o de boina vermelha cobrando, encostado na forma cabocla e
brasileira a descansar mesmo não havendo trabalhado não sendo o caso pois um
dos técnicos com chefia e por chefe chamava ardidamente irritantemente
altamente os subalternos na linguagem deles e naquilo que porventura erraram ou
se enganaram; aqui a hipótese da amizade em que os erros são postos com carinho
e até doçura; aos outros a ira e a secura da lei o constranger o exigir. Enfim
os homens confrontaram seus atos, justificaram a se santificar quem sabe,
fizeram conselho ou espécie de análise do trabalho ao bom desempenho da
deslocação do comboio; e após – isto atingindo em cheio os interesses daquele
último passageiro em forma de penetra a subir na composição – após então
levaram a efeito a fiscalização dos muitos vagões e sua valiosa carga. Claro
que ao descobrir descobrindo um ilegal acompanhante poderiam não considerá-lo
valioso. Ao contrário o gado de grande valor, tanto haver sido feito certo
seguro pela carga preciosa.
Chegaram
em não só vigiar os bens transportados e sobretudo a indicar e até contar cada
boi. Logo foram tratar dos lados do vagabundo (e isto não seria ultraje e
transpor também a decência na linguagem!) Postaram-se nas imediações, um gritava
ou cantava o que contava a um deles anotador com prancheta ao lado do chefe
daquilo tudo. Perceberam deram baixa, decerto indo ao setor ‘perdas &
danos’ na escrituração; enfim tiraram do rol da carga válida um bezerro ou
bezerra pisoteado morto. Logo teriam que se desfazer do cadáver, visto próxima
a fiscalização oficial, bem mais exigente que a do próprio grupo alugando a
viagem.
Nesse
ínterim conversaram muita coisa paralela e sobre problemas individuais
conhecidos ou não e os dramas familiais e até entrando no deboche e na
brincadeira amenos, o que demonstrando a chefia não ser tão durona... Chegaram
próximo do canto daquele homem com passagem precária. Fez então de tudo o pobre
para se livrar das vistas dos empregados, ou... Conseguiu, deitado encolhido
espremido na lama fedorenta, passar seu cheiro de corpo ao corpo do assoalho
quebrado e estendido com fezes dos animais; ou melhor dito, doutros animais ou
companheiros de sofrimento. Ninguém a dedá-lo, claro. Nenhum funcionário
descobriu o infeliz – e não seria por essa razão e nesse particular um ser
feliz?
Os
sons humanos andaram como andaram seus pés; já longe se ouvindo o mexer remexer
alavancas, um apito em não perder o costume ferroviário e o comboio partiu.
Novamente os chiados as fricções os sons os cheiros em movimento. Tornando o
olfato humano agora ao hálito desagradável daquele vagão, o qual decerto se
cumulando em somar outros dos mesmos cheiros nos cheiros dos outros vagões
engatados na composição.
O
susto passara. Ele se ajeitando ao seu buraco, os dormentes as rodas o
sacolejar se acelerando após a gritaria lá na frente, na ponta a locomotiva e
sua pressa e seu resfolegar e seu cansaço seu nunca-chegar.
5° Rememorações...
Lembrava
a mulher fugida ingrata, pensou, e por isso pego desprevenido na parada
obrigatória para fiscalização, desnecessária a si; assim num átimo esqueceu
momentaneamente a mulher contudo lembrou a menina. No seu caminhar pregresso
encontrara a inocência nuns olhinhos brilhantes faiscantes na perdição e no
desalento em que um dia se encontrava, num contato pouco durável porém muito
gratificante duma casa em que por piedade lhe ofertaram abrigo. Conversando com
a criança de igual para igual, com liberdade embora os atentos olhos da mãe
dela. Um dia o serzinho, exatamente no dia do seu oitavo natalício, quando
ofertara para a menininha uma flor do jardim da casa dos próprios hospedeiros;
não deixando sua miséria ir além. Apesar, a garotinha abriu sorrisos gratos.
Nisso fora chamado por elinha para apreciar um fato inusitado. Uns passarinhos
em acasalamento, o que poético e ao mesmo tempo bem prosaico. A inocência
desconhecia; achava indizível graça um dos pássaros voar subir cobrir o outro,
outra, e depois ambos a abrir asas alevantar penas... e repetir e repetir.
Então explicou à neófita com palavras mansas respeitosas porém justas.
Esclareceu comparando rápido e conciso a situação válida para todos casais e
aos casais de toda espécie, até comum ao homem. Insistiu que o ato ligado à
beleza e à sabedoria vindos do Criador. Embora com vocábulos secos ainda assim
poéticos, suficiente mas ‘perigosos’ à moral tacanha da família – fora
advertido levemente pela senhora ali olhos e ouvidos da religião, embora usando
ela do artifício da forma brincalhona na adversão, decerto em não ferir aquele
hóspede, ele, tão relegado pela sorte (ou azar?) na sociedade e no tempo.
Sorriu
à lembrança. Voltou a contar dormentes rodas trilhos vãos: o escuro da hora não
permitiu se não ver a silhueta nebulosa de sombras no movimento. O comboio
acelerava acelerando seus passos certamente com pressa em chegar, onde o
apócrifo não sabendo. Ora, para que saber onde ir onde chegar onde parar se não
sabia ao certo donde vinha!
Um
andarilho, aqui caronista ilegal, um assim sequer precisa pôr indagações tais.
Incomodando de fato sua situação desconfortável e as dificuldades próximas.
Apareciam reaparecendo o fantasma da fome e mais o da sede. Passara horas quase
em jejum; a custo comera algo antes da viagem, uma viagem de surpresas pois não
esperava encontrar o caminho dum trem no seu caminho; mais ainda menos: não supunha
poder subir num trem. Este em tudo especial, com passageiros mal acomodados espremidos
e agora também espremido ele com os outros. Tinha seu respiradouro para baixo
no buraco de contar o solo em movimento. Contudo sobravam azares na catinga do
gado e no incômodo na sua autodefesa, visto precisar andar todo minuto atento
no aguardo negativo que aqueles bichos desequilibrados seja numa curva seja num
frear repentino caíssem em cima de si, já de si acoitado no canto menos mais
inseguro. Por essa altura o defuntinho cheirava por causa das horas do
passamento; quem sabe se os vivos outros igualmente não sentissem não
ressentissem o companheirinho então músculos retorcidos esquartejados e sangues
no chão feito massa morta. Morta de fato.
Aquele
cheiro mais enjoativo que outros enjoativos cheiros e por que não somar
acrescer um pouquinho o bodum do homem, nada nada visitante e incorporado à
carga!
Todavia
o ser humano tem outras saídas aos dramas o que não ocorre nos outros animais:
a imaginação a lembrança o pensamento criador e até a curiosidade, nele
doentia. Aliás era preciso mesmo fazer algo tomar alguma atitude; ou morrer no
açougue; o destino da carga era com certeza o frigorífico.
Por
isso precisou investir a fugir daquele perto ameaçador e daquela briga suicida,
que era a lembrança do seu passado; ou já memória visto os anos e as datas
natalícias se ocultarem no que chamam esquecimento das coisas, mui comum em idosos,
ele quase um velho, negativo que também pesa em jovens doentes, objeto de
psiquiatras.
6° Relembranças
Estava
nesse pensar quando por pouco o balanço o sacolejo mal dirigido ou bem
intencionado, quando quase um casco atinge pisa fere sangra um pé... Se
recompôs.
Então
ouvindo nos recônditos bem escondidos da memória mil sons mil vozes mil
ladainhas mil cantos religiosos mil vezes relembrados e novamente escondidos
nos recônditos por mil vezes; rememora um momento de crise por que passara
quando gente. Sim porque agora com trouxa nas costas trouxa de todos, e mais
ainda se não a cheirar estrume curtido de curral ao menos visivelmente lamecado
na sua roupa em trapos nos trapos que o cobriam na pele queimada e decerto a
feder bastante não só o couro, a musculatura e os ossos já cansados... A
lembrança levou-o de volta à época deles dela dele delinhos, estes serzinhos
expulsos prematuramente e aí ah aí foram mil consequências, como a que vivia no
hoje com seus parceiros de quatro cascos envoltos em mil e uma sujeiras – nisso
não via e para que ver se sentindo? – a noite quente mostrando a lama o lago
escorregadio se não doutras imundícies as fezes e a urina dos animais. Só deles!
dele...
Enquanto
não chegava o nunca-chegar do trem, o trem a desesperar parecendo linguiça
engatada a linguiças e por correr em corrida maluca quem sabe a cumprir
horário; enquanto ele e companheiros sem hora talvez mas com pressa. O veículo
sacolejando demais, a ponto temer que descarrilasse. Curioso, a vida nas
condições da então existência de nada valia, entretanto havendo algo que o
dispunha a defendê-la, dum descarrilamento inclusive.
Nesse
ponto, tornando do temor fugaz que o trem saísse dos trilhos tombasse amassasse
todos, pensou nela; pensou ela. Sua formosura seus anos de alegria no convívio
e depois nos desgastes conjugais. Via revendo nitidamente ela ele mesmo e
elinhos. Num momento se pega indesejado, soma prós e contras sem entender como
é que a bela companheira então desejando se descartar dele.
A
questão era mais intrincada aos olhos de outrem; no entanto viviam os atritos
constantes e piorou quando ela eliminou elinhos... Os médicos garantiram-lhes
que esperavam gêmeos; a mãe não aceitou, porocurando seres inescrupulosos os
quais lhe deram beberagens a expulsar os fetos. Um dia a esposa garantiu haver
acabado com as indesejáveis criaturinhas; ajuntou a isso que o companheiro não
se metesse, pois o corpo sendo dela ela poderia fazer e desfazer como lhe
conviesse; daí tornou a mulher às suas festas e aos seus amigos. Assim não teve
jeito o matrimônio. O interessante nisso o fato de embora a consorte desejando
desfazer-se do marido, este chega no lar (aqui abuso na linguagem porque mera
casa mal habitada...) chega e encontra bilhete dela se despedindo. Foi quando
desandou pelos caminhos que o mundo lhe ofertara, até se defrontar na convivência
sofrível com fezes de animais num vagão de trem.
Puxa,
se disse após sofrer outra vez nas mil das mil e uma lembranças, puxa vida por
quanto sofrimento já passei; e quantos o futuro estará prometendo... De maneira
que um mais dia mais uma noite se acabando ouvindo o ninar compassado das rodas
e trilhos e inclusive precisando aturar o bafejo desagradável da sujeira da
lama da fome da sede por que passava ou passavam também, incluídos os infelizes
bois. Sim de maneira que, apesar de tudo isso, isso não passando de experiência
difícil realmente porém curta, bem mais curta que o conjunto dos anos
anteriores. Verdade que ele não tendo destino, é certo, entretanto aguardando
com base um final. Aliás parecia não longe o final visto do comboio o
alvorecer; pelo menos um início por final. Poderia noutra parada, antes que os
empregados da companhia descessem da composição, descesse ele mesmo rápido como
subira – ganhasse a liberdade. É possível até ficasse com pena dos seus
companheiros nesse estranho turismo...
7° Um fim?
Alvoreceu
e por fim o sol mostrou-se se mostrando alegre, justo o passageiro estando a
viver a tristeza de suas lembranças; e também na expectativa que o trem parasse
– aquele negócio que ouvira da fiscalização do governo, o governo tanto a si
como ao povo uma entidade que não se pega concretamente mas que concretamente
se teme. Haja visto ser um andarilho e portanto um devedor talvez sem dívida.
De
fato interrompeu a composição sua viagem, interrompendo igualmente ele suas
reminiscências; substituindo-as pela fuga quase planejada, quiçá honrosa, de
uma situação quem sabe insustentável. Segurou-se nas barras de ferro da parede,
olhou seu buraco no vagão decerto já com saudade antecipada, enquanto o trem
acabou por frear de vez. Num instante se encontra nos altos da caçamba, por
onde entrara a contragosto da lei.
Logo
está descendo cuidadosamente – pra não cair, pra não ser notado – olha e se vê
só, quase ao nível do solo. Sequer se despedira dos bois.
Então
se depara com braços fortes que sente a enlaçá-lo por trás. Chegam mais
empregados, todos querem falar e falam ao mesmo tempo na vitória contra a caça.
A caça muda, engolira a língua ou não sabendo o que dizer.
Marília dezembro
2012
Nenhum comentário :
Postar um comentário