sexta-feira, 23 de agosto de 2019

Cidade Fantasma


Cidade Fantasma

- Viajou chegou desceu na rodoviária faustosa desejosa ser exemplo arquitetônico longe da antiga então sua conhecida mas agora desconhecida da população em a nova geração; desembarcou após percurso longo à sua terra e se espantou – não com o fausto não com a nova geração porém com o motorista do ônibus, um sujeito fechado, quem sabe nunca houvese um dia sorrido, tem gente desse temperamento. O condutor sequer o notando na saída a entregar seu bilhete de passagem; piormente nem se voltando ao passageiro assim como não olhava também aos outros viajantes que saíam, talvez preocupado a conferir documentação e satisfazer a burocracia de sua empresa; a conferência das bagagens extraídas da barriga do coletivo exalando combustível e graxa, essa conferência como responsabilidade de outro funcionário. Não obstante o sujeito chocou-se pela indiferença daquele comandante. Doutro lado compensava estar de volta à terra natal anos distante. Compensava observar a pressa ou a lentidão e a disposição dos outros que também chegavam tomavam seus pertences comentavam olhavam pelos seus; algumas crianças choravam outras brincavam corriam ao desespero das mães – e isso tudo uma graça ao ‘chegante’, que a tudo observava faminto, a tudo bebia com a sede da saudade longo anos curtida fora, agora ali a se saciar.
De maneira que o imprevisto da decepção na saída do veículo compensado na vista do que via: a gente a se saudar e o barulho de motores no entra-sai e ainda o povo alerta a matracar no encontro alegre; se bem o mal notar um que outro afundado nos seus pensamentos e alguns seres mostrando ostensivamente sua tristeza, tristeza da gente que nem toda gente pode comunicar à gente. Ele não, andava (parado apreciando) andava feliz no retorno e no sentir os ares da terra onde nascera e vivera por décadas.

- Logo partia rever se não os seus ao seus passos de anos anteriores nas ruas da urbe querida. Uma espécie de satisfazer saudades acumuladas. Isto porque não diria abusivamente como em geral se afirma “matar saudades” visto se se mata não mais existe, embora existindo no coração; no apego que sentia, não aceitava a violência da morte como o comum admitir.
O sol matinal e benfazejo se adequava à sua propensão no rever tudo. Tudo que perdera ou não quisera perder, realmente não perdendo nada porque em se revendo algo já se ganha; enfim satisfazia a gula do desejo de sua saudade acumulada, vivendo tantos anos longe dali. Ali a andar, firme, na visita da revisita revendo o que era seu. Sim, havia qualquer coisa numa parecença com bairrismo, ele admitindo aquele apego semelhando o apego dos outros concidadãos de amor profundo à terra, um quase patriotismo. Os alegres raios solares apenas realçavam essa querência, apenas contribuía e reforçava o sentimento.
Andou ao deus-dará. Sem compromisso, não fosse compromissado ao rever, como não estivesse tornando mas a continuar ali viver sem interrupção da continuidade. Contudo apreendia não ser o mesmo. Ora, nunca somos os mesmos e assim também a cidade não poderia ser de fato a mesma. Uma soma considerável de novos edifícios a imitar arranha-céus apontavam do solo sagrado de sua urbe, deixada tão pequena e jovem – logicamente a população não podendo ser a mesmíssima que deixara antanho agora comparando pelo seu raciocínio. Então imaginou quase imediato que não poderia reencontrar as amizades e nisso convindo pudessem ambos, ele e a população, serem estranhos na mesma cidade que os recebera, ele bem antes que a nova geração de seres que ali via circularem. Circularem! conversar movimentar gritar inclusive, existem os que falam ardido alto quase violentamente para ouvidos desacostumados. Via também mil profissionais ocupados na sua ocupação: o martelo o tijolo o veículo a vassoura o dístico na fachada o som das formas sonantes da atualidade – tudo quem sabe a se chocar com a antiga voz do silêncio do seu tempo de vivente naquelas mesmas vias públicas. Nessas vias públicas lembrava sem dizer mas sentindo a história de cada uma delas; a rua nascente, o assentamento dos parelepípedos, a lustração também ao sol e no som característico de pessoas animais conduções da época, a passar gastar brilhar e até arriscarem escorregar no liso do limo da pedra molhada em dia de chuvisco; e mais, a enxurrada carreando areia e detritos e a comer corroendo a superfície daquele horizonte tão seu conhecido – tudo no olhar do coração! Portanto sentia agora vendo o visto ontem, ontem que a noite do tempo teimava não matar e vivendo no reviver carinhoso!
         
- Continuou a andar e apreciando o que via o que mais propriamente revia pois integrado desde o nascimento nessa terra; sem exagero podendo garantir amar cada metro quadrado, cúbico mesmo, cada pedacinho da urbe. Tanto assim se ofender ao constatar o sumiço de um viaduto tido dito histórico no município – um prefeito maluco, ex-administrador, detonara a passagem, passagem de veículos num concreto pontilhão de concreto (verdade que no momento do desmanche já abandonado e só despontando como esqueleto nas suas estruturas então trincadas); mandara derrubar, limparam montes do entulho sobrante e... ah aqui condenando deveras: nada fizera o político no embelezamento do lugar! A vegetação teimosa brotava viçava tomava a área desde as rachaduras do cimento e dos vãos em reentrância no solo. Abandono, ‘enfeiamento’! Dessa maneira lamentou aquela ofensa praticada e minizou o sofrimento num desabafo: “devia ser tal prefeito um homem de fora, sem apego à cidade”; isto bem a forma bairrista dum cidadão consciente ver as coisas do lugar; talvez igual os outros seus conterrâneos, todos mais ou menos patriotas, deduzia, em defesa dos seus bens culturais. Dele por exemplo. Ele continuou a caminhada ora em alegria ora em tristeza como nessa consternação no viaduto ora ansioso em ver mais e mais de sua terra amada.
Enquanto as conduções e as condições de barulho e de movimento próximo; e as pessoas suas irmãs conterrâneas a passar a conversar a olhar quiçá olhá-lo; enquanto, andava meio a esmo, livre como livre seu pensamento e as lembranças comparativas do que observava. Andava cansava quase mas quase não se cansando, a imprimir seus passos no solo sagrado de sua terra natal no retorno; ou seria visita numa revisita!
Desde a rodoviária donde partira lá longe, visto haver conferido tal distância e conferido também com alegria patriota haver sua cidade crescido qual uma importante capital, assim como que inchando avolumando aumentando consideravelmente o tamanho da população, e aqui fazendo a alegria também duma estatística que se preze; desde a chegada à rodoviária andara quilômetros e quilômetros, curiosamente sem se cansar, sem que a musculatura se ofendesse, sem dor nas dores que as pernas os pés o todo no corpo denota por horas sem parar caminhando... sem parar entretanto com os descontos próprios dos momentos em que se para a examinar o que examinar; nesses instantes comumente usados a fotografar o que guardar além do guardar no íntimo da memória; contudo não usara máquina fotográfica. Outrem sim, via quase abismado os demais com celulares, alguns tomando poses a fotografar com tais aparelhinhos, todo mundo na febre do modismo na consulta de telefones celulares; aliás não se surpreendia muito visto ter visto constante a mesma situação noutras cidades, inclusive na terra donde viera recente para a rodoviária de sua terra. Em suma todos, veículo e gente, todos à sua volta se mexendo passando movimentando como sangue nas veias de sua querida urbe. Assim registrou na mente e prosseguiu.
Agora constatava andar na mais antiga vila, a mais velha e já existente quando ele apenas menino; já então amando a cidade, inclusive se apegando tanto a ponto imaginar que o mundo inteiro fosse a sua região. Agora de volta a ela, vistoriava quase como a fiscalizar o andamento da vila. Parou frente um templo budista, observou suas formas arquitetônicas orientais, leu sem entender dísticos ali no frontal, e respeitou cerimonioso mesmo sem saber o que dizia; aqui relembrou o quanto sobretudo os nipônicos fizeram pela cidade, ficou grato como se houvessem feito a si e não a todos. Conferiu a avenida ampla e bela rumo aos outros municípios, a qual já antes servindo à saída para fora. Chegou a demarcar com os pés onde achava acabar os limites da sua para iniciar os doutras regiões vizinhas. Sorriu patriotismo ao perceber o quanto a avenida esticara e se esticara portanto a cidade em crescimento. Inclusive, não se aguentando no entusiasmo, quase se dirigiu a um passante pra indagar o óbvio do crescimento além, como não soubesse exatamente por ver ali o encompridamento da via pública num provar o aumento dos limites. Mas que responderia um conterrâneo desconhecido o que já sabia de sobra sua vaidade! Calou-se, falasse. Aproveitou seu silêncio a desembaraçar do que guardava na memória; e dessa maneira passeou criança nos tempos antigos com deleite, diante da glória estar no mesmo espaço agora; orgulhoso!

- Tornou da vila ao centro urbano, sem precisar contar os passos: só se soma quando cansado no entanto não se cansara ver, rever, muito na terra onde nascera. Nisso o calor que fazia despejou sua água, a qual no imprevisto do descuido desabou em pancada – forçando a correria mais ou menos intempestiva de todas pessoas, dele também. Os guarda-chuvas se abriam escurecendo cada ser no clarão de relâmpagos afoitos. Ele não tendo o seu. Por isso recostou-se ao abrigo improvisado duma marquise, a aguardar o final do perigo se perigo. Examinava lá em cima a laje, não seria possível que desabasse! sim, não lembrava a possibilidade havendo os desastres desse tipo que a televisão frequente divulga com ‘esganadice’ sempre? e temeu. Aliás o ser humano teme inclusive o absurdo que dirá uma possibilidade. Então chegou um concidadão também àquele abrigo. Era um homem franzino apresentando um cacoete curioso de fungar assoprando uma espécie de som em ‘chiite’ engraçado, além de acender um noutro cigarro, o que irritava o visitante. O visitante revisitante afastou-se quanto pôde do estranho, e ao mesmo tempo fugindo da chuva. A chuva amenizou parou, como é próprio no verão, e abriu caminho a ambos prosseguirem; sentiu alívio não ter de conviver mais tempo com o outro, sequer dirigiu-se ao mesmo; antes que isso: torcia que o homenzinho não propusesse durante a chuva uma conversa; mesmo porque não se dispunha a esse tipo de contato, estando ali a andar e revisitar e a agir o mais mudamente possível, o que se não contrassenso curioso para quem desejoso de rever sua terra; fosse uma pessoa de mais fácil comunicação, procuraria não apenas ligar-se mas estenderia bastante um diálogo, na pior das hipóteses a ampliar o conhecimento do estado atual da urbe e os fatos passados em sua ausência. Parece que o andejo visitante fugia do contato com a gente. Isto postura esquisita pra quem deseja saber. Não punha apesar tal discussão, mais se satisfazendo tão só observar.
'Virolou' algumas horas na atividade observadora.
Assim ficou tempo a gozar o centro; feliz no que via; e após dirigiu-se ao sul, no ponto do perímetro onde em sua época de vivente ali havia cafezais e movimento na pachorra de matutos do campo. Agora eram ruas e avenidas bem traçadas, não edifícios de grande porte e imponentes, apenas o pitoresco da zona residencial. O casario mostrava as residências comuns como o comum do ver em qualquer cidade interiorana; umas bem acabadas outras mais aparecendo pelas peculiaridades ou dessemelhanças; no entanto o que marcava eram casebres e casas pobres semiacabadas – o pobre e ainda mais o miserável parece tendente a nunca terminar a moradia! Assim via; via assim também outra vertente da mesma pobreza ou desvalimento: era ostensivo a existência de duas periferias – a rica a pobre. Esta eram casebres a despencar ou inacabados como se se fizessem uma colcha de retalhos com seus remendos e placas acrescidas emendadas coladas; suas ruas menos ruas, mais caminhos e carreadores sujos. Deplorou a situação. A outra, a rica como pensou dizer dissesse, essa melhor apresentada embora também pobre. Ruas se não limpas, andáveis e mesmo com tráfego de veículos usados funcionando e garagem e cães e crianças, estas e estes igualmente mui vistos muito na periferia miserável... Água tratada encanada, esgoto, serviço de coleta de lixo; inclusive à sua passagem observou na calçadinha sacolas de supermercado enganchadas em lixeiras ou no chão com detritos acondicionados e decerto cheirando e a indefectível situação semelhante vista mil vezes noutras localidades e agora flagrado na sua terra: os cachorros, antes vira-latas hoje os fura-sacos no seu ramerrão na cata de alimento... Ora, olhou com desagrado; enfim como ‘conhecer’ algo sem ver tudo!

- Volta para a zona central de sua terra; passa por outros recantos, observa o falatório da gente, as tarefas na rotina dos moradores. Descobre muita coisa, não sem alguma surpresa porém cônscio do que esperava ver; convicto de sua alegria ao sentir o regurgitamento nas vias públicas, agora todas elas asfaltadas urbanizadas organizadas longe do seu tempo de menino em que analogicamente a urbe era uma criança, apenas chegando à menina no slogan que a distinguira das demais localidades; enfim descobre a cidade moderna “e bela!” gritou-lhe a vaidade. Nessa altura vem-lhe uma lembrança talvez menos feliz mas certamente também construtiva para uma estranha visita da revisita, que é a visita à cidade dos mortos da cidade. Assim se põe em direção do cemitério municipal, o qual às mais das vezes se não sempre fica na avenida saudade em todas urbes do orbe.
Chegou. Parou. Olhou, viu aquelas muralhas intransponíveis (menos aos ladrões, admitiu...) Ainda nos seus portões, examinou a beleza discreta ou tristonha de suas árvores e seus gramados, leu, releu o dístico frontal; então penetrou de vez a cidade dos mortos. Vistoriou avenidas imponentes com imponentes capelas e sua estaturária no fausto, o fausto mesmo onde tudo se acaba. Foi além, reviu a área dos remediados, ou seja aqueles enterrados que vivos não chegavam a mortos pela riqueza porém não se acabando na miséria dos vivos mortos sem recurso; isto não desejando rever, desejasse, iria constatar o espaço pobretão, onde nem os túmulos se mantêm se nivelando no gasto dos montes de terra e até a cruz descamba entorta soçobra... Não. Preferiu rever a gente morta na superfície remediada, onde ‘descansavam’ os seus e sobretudo seus pais. Ah que saudade deles. Duas lágrimas rolam então; então se vê frente à tumba dos velhos. É se não miserável pobre o local onde se encontram os ossos.. Vê no cume quase da carneira de tijolos e rebocos descorados pelo tempo duas fotos amarelecidas. O pai está sério, era sério; sofrera bem seu final. A viúva também sofrera, sofrera mais talvez e o retrato é de uma senhora de feições gastas, rosto franco embora, e já com as ranhuras das rugas, que o fotógrafo não pôde consertar. Olha o filho ali como quem ansia algo, o que fá-lo verter mais lágrimas de pensamento e expectação. Puxa diz o revisitante vendo imaginando recordando – quanto fizemo-los sofrer desnecessariamente com nossas atrapalhadas, quem sabe com ingratidão! Daí uniu lembrou a algazarra dos manos, eles ou sumidos ou enterrados – e novamente chorou. Abarcando agora a prole deles, ele, solitário, não dera as merecidas alegrias de avós aos avós; agora pensa sobrinhos. Vai além: desenterra a lembrança de parentes vizinhos conhecidos, estes mais desconhecidos que realmente amigos. Enfim repassa ex-conviventes. Encontra-se por essa razão negativo, numa viagem de revisita positiva.
Então se dispõe a sair da necrópole municipal, ver sentir tomar novos ares.
Assim torna à cidade, que é como se referem as pessoas ao centro dela.
Não obstante, indo, volta ao pensamento, agora corajosamente desencadeado e abarcando o todo... o todo quase ou exatamente ostensivo ligado ao que vira sentira abordara compreendera dessa estada em sua terra.

- Quando dera por si, indo (para onde? indo decerto ao centro urbano) indo meio a esmo embora a desejar ver mais partes do todo que formava sua terra natal, percebeu andar longe dela... Ora, muita vez quando longe é que perto o ser humano. Estranhou – como pudesse estranhar alguém a viver décadas solitário – estranhou sim a solidão... Uniu as imagens do que vira na sua urbe querida e iniciou a pensar num fato ocorrido em todas elas, o fato de em nenhuma haver sentido que outrem o sentia, muito menos avaliando caso o visse. Mais uma vez estranhou, agora pela constatação. Ninguém se dirigiu a si; mais que esse menos: ninguém o enxergara! Será...
Será que minha terra não se tornou um fantasma urbano? Duvidando repensou, ou seria ele o fantasma; não se daria o caso ser ele menos que um invisível, um invisível na solidão!
Marília   outubro  2013



         



           

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