sábado, 24 de agosto de 2019


Monólogo a dois

1. Preâmbulo. “U ômi trabáia nada! Peri...” Peri olha aquela sumidade de gente, cheirosa, amiga, na ideia gostosa que faz um cachorro sobre seu amo, protetor, a quem ele mesmo protege ferozmente se precisar sem precisar na pacatez daquela tez morena no sol brando da manhã dessa manhã clara quente mansa e com o mundo quiçá o universo escancarados à sua frente; sua e frente dito aqui é lá com aquela dupla homem e cão, um homem velho (cansado!) um cão solícito ao amigo – ambos amolentados à preguiça ao sol à manhã ao nada do tudo...
A língua que o amigo ouve ao amigo é de um purismo total e absoluto, quer dizer sem nenhuma poesia ou só com a bastante ao manifestar simples do simplório; é apenas som (belo?) da gente do campo quando ainda havendo campo, campo de se trabalhar amanhar a terra; não aceita na fala ou aceita sim mas não sabe ignora a gramática para poder ser pura nada mais. No entanto o cão entende e ri de rabo e olha interessado e até nem coça o pelo curto onde a quase se ver os próprios sugadores do seu sangue de puro sangue dum vira-lata; tudo para ouvir melhor o homem e assim remexe gozado os orelhões, ora uma orelha descreve linha inclinada ora não, reta e perpendicular; ora alevanta estica para colher a colher de chá que o homem amigo lhe atira como interlocutor ali aqui agora naquele antes de antigamente; em que um velho descalço vê nos seus pés, enrolado embodocado achegado, o cachorro seu e de alcunha Peri.
Então completa, possa algo em algum dia do tempo ‘impegável’ e ininteligível ser completo: “num trabáia!”
A um caboclo bem configurado, vida inteira no trato da terra com enxada, ficar sentado frente a certa máquina, uma engenhoca cheia de números e letras e teclas com figuras e algarismos, dia todo! ai meu Deus! não é trabalhar. Trabalhar é...

2.O homem. O homem, não aquele outro homem mas este homem se chama Zé, zé pouco a tanto viver, Zé tem um nome quilométrico a se declinar no lembrar até nobrezas, antigos nobres a repetir apelidos históricos e genealógicos na sua árvore, lembrando dobrando sobrando repetindo repetidos parentes, ancestrais a perder de vista, até nem se ver com a mão em cone igual a se desviar da claridade do sol evitando a cegueira provisória e daí o caboclo a rever por todo canto que olha de novo o sol e... ah, os nomes a manter avoengos desde o macacão de antanho e chegar ao vistoso espécime darwiniano e até o nobre então apenas ‘nobre’ no poder do dinheiro e chegar ao avô caboclo do caboclo desgastado Zé diante seu Peri.
O cão vê o homem, o homem não vê apenas percebe seu cão quando ele próprio fala, fala pouco menos que o necessário mais a ruminar que a proferir anátemas, quem sabe se não com sentido ao cachorro; o cachorro vê naquelas alturas a altura do amo sentado gozado embodocado ele também na guarda da cadeira a despencar ela suas travessas de pau sujo gasto até a alumiar à sombra levemente ensolarada da manhã. Sentado como que arqueado se enclinando ao espaldar, as nádegas pesando de trás pra frente, na frente a traseira do traseiro cansado; a espinha dorsal torta voltada ao espaldar, inclusive descansa um braço na guarda de madeira trançada com ripas fracas lustradas no uso; a outra mão do outro braço solta solta-se a falar... o animal dito Homo sapiens adora gesticular, Zé tem ela solta a conversar, qual um imigrante calabrês o qual numa conversa franca com um amigo também a nadar do Atlântico europeu ao Atlántico americano – só com o ato de falar a dar braçadas e por isso planar... Imita porém com uma só mão no braço solto, o Peri escuta e entende a meia explanação contra o mundo imundo vagabundo dos vagabundos que não trabalham. A si trabalhar apenas se for com enxada com machado, achado eventual (não: rotineiro...) um achado tal machado havendo achado ele no descanso quando a examinar na curva do rio, indo a pescar seu peixe, limpar formigas na lata de minhocas, isso num domingo; contudo na semana o pegar no pesado derrubar a mata matar a erva que invade a plantação; enfim essas coisas de pegar mesmo no pesado; essas, não o que viu vê frequente na cidade, com homem que não é bem homem porque não trabalha. O Peri às vezes olha, temeroso então por aquelas invectivas contra o mundo, e analisa rápido se a bronca não é consigo pelo que porventura haja feito errado. Não é; então sorri com seu rabo ao homem.
O homem, agora de pernas não simetricamente abertas ao contrário do contrário na cadeira tosca também ela cansadíssima; tem ele inclinado por sobre o espaldar do móvel imóvel o prosaico estado de quase encostar sua barriga murcha (por ser magro quase esquelético se vendo na pele esticada morena os ‘cutucos’ dos ossos a quererem sair também ouvirem a fala ou bravata lá fora, junto das orelhas do cão) sim quase toca o ventre emurchecido na guarda de trás da cadeira, que agora virou de frente, frente ao Peri ali atrás da cadeira meio hipnotizado pelo Zé a ruminar.
Porque, diz um pouco baixo alto suficiente para que o interlocutor ouça, porque o bicho fica sentado, sentado! Peri, sentado o dia todo frente aquela geringonça cheia de números e letrinhas – Zé pronuncia de fato “númro”, “numrêra” e “abecê” – nem olha pros lado da gente, cutuca aquilo num tri-li-li enervante, depois tira de outro negocinho fazendo nhec-nheczinho o papel já todo escrito para o freguês pagar! um absurdo o roubo a exploração. Por vez é vez no lugar o lugar da mulher, não da mulher dele, uma bonita dessas que a gente fica com vergonha de olhar mas vê que é bonita e cheirosa e graciosa e atenciosa e carinhosa... ah deixa pra lá Peri, isso não é de sua conta. (O Peri arregala olhos ao ouvir seu nome e fica já alerta, o homem prossegue:) O homem não trabalha, fica sentado como um rei e... Não posso provar isso porém recebe do governo um dinheirão sem trabalhar!
Governo é uma convenção atrapalhada ao ser miúdo, por sua enormidade e andar onipresente presente onde menos se espera; escondido a surgir quando acha que deve e a gente não sabe se deve. Cobra exige e não dá troco. Se o pobre não paga – e não é um horror o abuso do dinheiro que ele diz que devemos, Peri! – se a gente não paga pega cadeia porque o governo põe a colheita para garantir o pagamento e está assinzinho com a polícia e o governo ainda tem o juiz que manda tomar as terras da gente, não foi assim com o compadre Tonho, Peri (Peri acorda arregala). Tomaram o sítio dele.
Esse vagabundo que só vive sentado ‘trabalha’ pro governo e não faz nada, tudo lhe cai do céu; até o céu é contra nós nesses momentos.
Enquanto, lá em cima a defesa duma tese, enquanto, em baixo quase a roçar os pelos na pele canina com insetos sanguessugas a se movimentar, descansam uns pesões com dedos sujos nus abertos espalhados espalhando terrões numa coceira sem tamanho, tamanha em conta dar um gozo de quase sonolência e dormir no Zé como um todo; os chinelos ou sandálias de couro cru grosseiro um atrás na frente da cadeira a outra na frente atrás meio a tocar o bodoque de cão todo ouvidos ao dono. Vez que outra mexe remexe um dos pés até ao ponto de cutucar o animalzinho; então, se dormindo acorda, sorri constatando um alarme falso, abre bem as orelhas e torna a escutar.
Ou não.
Nalguns momentos nesse costume sente um cheiro, outro cheiro que não o bom da gente da casa e do amo – percebe persegue o bichano feroz fugitivo milenar, vai corre volta, volta cansado e deita seu cansaço no colo do Zé. Claro, isto abuso no abuso da imaginação porque se enrola, gozado, debaixo do amo, este retoma o discurso caso haja interrompido, dificilmente interrompendo. Ou por outra: não viu as orelhas a correr no gato; em razão disso continua.
Terça-feira, minto (usa muito “minto”, que é o engano quando a gente se engana com o engano; a cidade, a civilização na urbe, diz “quer dizer” e assim prefere proferir escamotear, por vezes não escamotear mas induzir mesmo ao erro no certo, o certo na mentira a fim de levar vantagem em tudo; Zé repete e repete sempre “minto”:) minto, não foi terça foi quarta-feira, lembra que era uma quarta, Peri? Então, quarta passada foi pior lá no posto. Me parece que o posto de saúde anda doente, ninguém se entende, fizeram greve e não queriam atender a pobreza nem fui atendido, aquele negócio das juntas e a dor aqui (mostra forçando um pouco as costas, desencosta um pouco da guarda da cadeira, se torce se retorce faz careta consegue indicar ao outro lá em baixo aqui em cima dele o lugar das dores, aí desconcerta descaminha destrambelha a narrar como fez pra não sarar propriamente dito porém a melhorar a piora do drama, usando chás e emplastros caseiros pois os sem-vergonha todos sentados feito reis, homens e mulheres sem trabalhar ali só remexendo uns papéis a tapear e cutucando suas máquinas; sem atender direito a população. Ninguém pega no pesado.
Isso está certo! Peri.

3.O cão. O Peri contudo não palpita não indaga não interrompe sequer o pensamento humano, que dirá discordar em voz audível.
Neste momento dito, dito na mente do homem ou até proferida a lamentação humana, o cão encontra-se alerta é claro neste escuro, alerta sim numa expectativa engraçada: olha olho de Zé vê cara de Zé encara a boca de lábios grossos a se mexer de Zé, percebe pronto o homem pronto a esborrifar os restos em cusparada na mascação do fumo; talvez descubra o queixo meio pronunciado do amo, num aspecto hilariante no conjunto humano – mas não se percebe como deve (ou deveria?) estar sendo visto pelo Zé. E é interessante sua posição não apenas pelo estado de alerta num descendente da espécie canídea. Peri não se encontra embodocado agora sim esticado no corpo esguio, de barriga pra baixo com a barriga encostada no chão, forçando um pouco as patas dianteiras para cima por essa situação meio esdrúxula, um pouco teso visto andar atento; a cabeça não só desperta, pisca rápido olhos até, não só desperta, alevantada; quase a deixar sim o corpo rijo tenso porém as patas dianteiras estão soltas, numa espécie de confronto e contraste com o restante do seu soma miúdo e magrela, ela, elas, meio como que intumescidas soltas leves e por causa do tempão nesse estado parecendo maiores do que são, enfim volumosas. Mais que isso isto: as mãos das patas embora com as garras das unhas na posição descansar, elas estão uma sobre a outra cruzadas na frente, frente ao homem – o homem perdido nos seus achados de memória, sequer analisa o cãozinho a olhá-lo e preste para o que der e vier... nada ocorre, fica o alerta sem precisar como hábito acordar e se dispor executar mandos do amo; até pelo contrário, está como feito em monumento de pedra a representar por escultor talentoso um cachorro do tipo vira-lata o mais prosaico possível... ora, todo mundo sabe que um artista digno desse nome representaria um cachorro de raça não um pulgueiro na frente dum matuto meio louco ou apenas comum pra ser normal.
Contudo Zé resolve, a esmo, desanuviar, a se sentir quem sabe, resolve tomar de um pau, podre e portanto leve e daí a viajar baixo pouco cair quase imediato nas imediações; resolve atirar um pedaço de madeira lá que é ali – a exigir que Peri vá caçá-lo primeiro e depois mordê-lo violentamente mesmo sabendo uma saudável brincadeira de adulto sem ter o que fazer; e violentamente também e à força preciso for a trazer como terceira fase a coisa, saltitando ele por entre a vegetação arisca e que risca até o ventre desprevenido desse cachorrinho; ele pula pula chega com o tesouro na boca, a entregar para quem de direito, o dono do tesouro. Daí fica sem graça, ladra fraco e esquisito por estar com o objeto preso nos dentes, agora sem violência; pronto, se dispõe a entregar a riqueza; então é que vai ficar sem graça porque o Zé já fala doutra coisa e sequer percebe o amigo com o pedaço de pau seguro no focinho alizinho pertinho do outro; está decepcionado. Decepcionado o pobre ser, torna à prontidão, agora enrolado no seu costumeiro jeito aos pés humanos. Lá em cima o Zé tece misérias sobre o mundo ingrato e seus habitantes que raro se encontram no encontro de palavras; estas em geral mais discursos inflamados da sabedoria de cada homem, pra nenhum peri botar defeito...
Apesar disso, algo desponta na ponta daquele focinho sem grandes exigências, sim ali a mando de lá de dentro dele algo que é a fome, a fome tão velha quanto o mundo.
Bem, a fome que espere mas fome não espera, exige... Todas fomes são exigentes e embora o velho não entenda o cão, o cão novo entende o homem velho e o atende nos mínimos detalhes, como agora a se pôr a pensar, num gesto muito seu que o cachorro lê com facilidade: põe a mão no queixo comprido enquanto a mão livre outra desenha um parafuso nos anéis dos cabelos que não tem mais e por isso revira lá em cima na calva mesmo; assim Peri aguarda como toda hora espera a ordem que brotará disso... Entretanto e a fome.
A fome pode esperar agora, agora é o império da fome tão velha quanto a outra ou até mais velha ainda que o velho mundo. O alarme ou ordem dessa ordem vem do olfato... ou seria doutros cães a acorrer para um lindo e apetitoso chamado; ou seja que fosse da própria donzela cheirosa e bela, tanto que quando Peri para aderir à malta se descobre se conscientiza, aí já reforça o magote a ladrar ou só na espera, então da ordem da cadela ou do seu cheiro atraente a si e aos demais concorrentes... Tem mil deles, de todos tamanhos e de todas raças inclusive os de raça nobre por entremeio à galera ignara pobre mal nutrida bem espancada.
Peri esquece Zé, o Zé decerto fora comer não fora sim dentro de sua casa, uma típica moradia roceira porém nisso esquecido pelo companheiro, o companheiro que suspendera a fome por causa da nova-velha fome e a cadela sendo linda de morrer (isto na jocosidade da fala humana).
Tem mil. Mil e um somando Peri. Aguardam pacientes os pacientes dessa incurável enfermidade. Alguns se dentam outros se sentam no chão a ladrar ou se levantam a correr das pedras, porque onde isso tem sempre moleque ou na torcida ou por maldadezinhas inocentes e daí querem acertar o errado de todos bichos machos pra valer, acertam só alguns; sobra ao Peri uma leve raspada o sangue brota porém o interesse na fêmea lhe deixa enceguecido e assim se aproxima da beldade não importa a saraiva moleca. Horas. Horas assim, assim por mais de um dia. Enfrenta valentões de plantão, é preterido em prol dum mais forte, não mais belo ou menos feio, ele horrendo todo sujo magro tendo esquecido o almoço do Zé.
A luta por um lugar ao sol lhe deixa desanimado e temeroso ou só alerta pela natureza sua defensora. Não foi dessa vez que pôde perpetuar a espécie...
Chega com língua de metro à casa. Cheira horrivelmente, chega numa aparência desanimadora e não pode se ver não se vê mesmo apenas sente e agora é fome das mais bem tipificadas. O amo olha para aquela sujeira de quatro pés, patas, um ser imundo igual o mundo no pensamento do homem ali a balançar negativamente a cabeça. Tem alguma pena do molambo, lamenta gritado o sangue advindo das dentadas, um fiozinho escorre ainda e o restante é negro também ferida. O homem faz careta por asco e também dó. Toma dum balde com água do poço, bota creolina e remexe, amarra o cão pra não fugir e despeja inunda lava de longe com a vassoura aquela imundície fedorenta; agora ela a gritar pela dor e pelo ardido talvez mais por medo. Fica depois assim horas, a tarde inteira, a secar no sol, a morder suas incomodadas pulgas; já se chocalhara imediato ao golpe da água fria. Seco, encontra-se incomodado também.
O Zé sorri suas maldades e graçolas humanas por cima do prisioneiro, agora com uma fome tamanha... Entre maldades sonoras está o “burro!” a ofender o cachorro. Solta o preso, o preso em agradecimento ou por se ver livre corre pra lá corre pra cá, aí aumenta ainda sua fome. O amo põe no chão vasilha de lata usada enferrujada com arroz feijão e osso, osso não duro de roer e inclusive tendo alguns nacos de carne de vaca grudados. Em geral, quer dizer todos dias, iria largar o arroz seco o feijão já cheirando mal e embocaria gulosamente na carne; pra ficar no resto das horas a roer o osso, uma distração e tanto. Após o passeio feito, faminto, avança, come esganada e barulhentamente de boca aberta (que fazer se Peri é um cachorro!) Come tudo, caindo alguns grânulos de arroz ataca com mais valentia a carne e o osso. Cansado tanto comer, corre lamber a água e o faz com volúpia na língua; no seu dia a dia é comportado educado delicado pra ingerir o líquido, agora... Depois dorme, feliz.
O amo olha o amigo e nada fala, apenas sorri enigmático; o que uma verdadeira vitória do inusitado pois Zé não sabe como todo homem comum pensar e avaliar as coisas sem falar; às vezes até a proferir sentenças, aqui quase sempre condenatórias a alguém; e seria então dirigidas agora a Peri. O Zé não fala, abana a cabeça tão só; apenas escapando contra o cão uns resmunguinhos de nada.

4.História do cão. Peri, disse uma vez Zé ao seu amigo, Peri um dia eu conto a minha história, todo mundo tem as coisas da sua vida eu tenho o compadre até você tem uma história. O cachorro se voltou curioso para o amo, o amo agora sentado decente na cadeira, só esta não mostrando decência, mole e a despencar. Todo mundo. Mas agora não a minha, a sua, portanto abra os orelhões, você é até bonitinho e essas orelhas... Peri mexe pra lá pra cá as duas e mostra um talento todo especial quando pondo uma inclinada para frente, mexe a outra quase para trás, geralmente ri com o rabo nesse momento, dando ideia ter ideia e mesmo ideias alegres pros lados do amigo seu dono. Olhe aqui, vou antes repreender você porque me acaba matando o meu coqueiro de estimação, pois vive a urinar nele para marcar território feito um cachorro bobo. Peri abaixa as orelhas notando que o mar não está pra peixe; se embodoca daí mais longe da cadeira, embora possa dali ver ainda e melhor ouvir o homem.
O homem: saiba que se o pé de coco morrer, dou uma paulada em você... ah deixa isso pra lá, você nem nasceu ainda. Na minha história da sua história não. Peguei você um cachorrinho, desses que são perdidos na estrada caídos de alguma mudança, mudança de pobre você sabe tem muitos cacarecos e badulaques a ponto de algo se perder no caminho; e assim você ficou feito tonto sem saber onde ir, com fome com sede enfim totalmente perdido. Eu tinha ido à venda na beira da estrada, naquele tempo bebia, comia com farinha! depois, se não caísse por aí no estradão, ia pra casa cambaleando e daí chegava e ainda ouvia a reclamação da mulher – você não conheceu a Catarina, um dia conto dela também, antes vamos à sua história. Então como falei vinha vindo bêbado pra casa, esta mesma casa de hoje... Aí encontrei você ganindo seu medo e sua insegurança, perdidinho. Fiquei com pena, um cachorro ainda menino sofrendo sem dono. Não digo como foi que pude chegar em casa tão ébrio enfim cheguei – você iria agora perguntar se a Catarina aceitou, ela gostava mais de gato que cachorro, ela não deu palpite nem brigou comigo por isso, a gente sempre se desentendia por outras coisinhas; não brigou quando cheguei porque já havia morrido... noutra vez eu lhe conto como foi isso, voltemos ao seu aparecer neste lugar. Um filhotinho lindo, embora sujo largado na estrada. Me engracei de você, me apeguei porque vivia já solitário e apenas o que me distraía era o trabalho, não aquele falso trabalho do rapaz lá na cidade mexendo na máquina de escrever, sentadinho e ganhando rios de dinheiro do governo safado. Não: um trabalho decente, trabalho de gente mesmo, na enxada sol a sol e... Não tinha ninguém adotei você. Tratei dei comida; e você gostou de mim, nunca foi embora daqui, em não ser temporariamente na época do cio atrás da cachorrada, como ocorreu na outra semana. Sempre comigo e amigo. Verdade que o quero como um filho, um filho que nunca tive, porque a mulher negou fogo... depois eu esclareço isso. Então, foi ficando ficando, envelheci... quer dizer já era maduro nesse tempo e fiquei mais velho menos forte. (Nesse instante olha para os lados do bicho e este dorme, ronca sonha! sabe-se lá. O Zé dá um cutucão com o pé no dorminhoco, o dorminhoco estremece acorda, o outro continua:) Você fazia muitas gracinhas – Zé narra as mais importantes ou marcantes, talvez o faça julgando que o cachorro não se lembre direito; em todo caso o ouvinte arregala olhos pros lados do amo, supondo-se haver arregalado também os ouvidos – fazia mil gracinhas, inclusive a vizinhança me elogiava ter um animal tão inteligente, você. Quando percebi, um dia você já era crescido, um adulto, e me seguia para todo canto. Você deve se lembrar disso: eu apenas ralhava consigo, por mui latidor que era e hoje menos ainda é; só não suportando a ladração quando na curva do rio, visto que me espantaria os peixes! Não foi lá na curva onde achei o machado? O cão agora alevanta a cabeça ou por isso, o machado a servir sempre ao Zé como prova do seu labor, ou por ter Peri ouvido barulho estranho; o Zé toma o primeiro alvitre, que mais lhe convém e prossegue a história, mais parecida estória que algo com fundamento documentado, o que não abala a convicção da fala humana. Diz ainda que o Peri se tornou exímio caçador e aprendeu a calar-se enquanto a vara e o anzol na espera; não aprendeu nem a fumar a palha do amo, não experimentou sequer; nem a tomar cachaça, a qual segundo o afirmante já houvera ele mesmo deixado como vício... isto sem que Peri contestasse; verdadeiro sim que o cão amigo haja tentado bebericar na sua latinha de água dose da água que passarinho não bebe, que o amo lhe ofereceu; fizera um gesto de desagrado e daí fora lamber a água pura na beira do riacho. Contou mil e uma façanhas artes e graçolas do seu cão em criança; o que enfim não deixando ser verdade, e sem contestação, caso fosse mentira exposta pelo representante humano. Aqui encerra o papo sobre a história do amigo, afirmando a insistir que para onde quer se deslocasse ele, o cachorro atrás. Parecia minha sombra, Peri – fala agora rindo de si mesmo ou da cena. Aí o cachorrinho se levanta e sorri também de cauda pro dono. Nesse momento e em momentos tais ele se espreguiça se estica se encolhe e de novo se estica e mais: raspa o chão com unhas a atirar saraiva de sujeira e grama longe; não para o Zé se rir dele, porém se ri sim do bobalhão.
Já indo embora, voltou-se com o rosto para o cachorro, o cachorro ali no seu encalço; então o amo gritou-lhe como se estivessem ambos dezenas de metros longe: esqueci falar “di dizê” diz Zé, falar que você não tem ninguém de seu, não tem pai não tem mãe não tem irmão; decerto teve parentes, eu nunca vi nenhum deles, iria mentir e inventar só para agradar você!?

5.História do homem. Peri, encontrei, não me acredita mas encontrei na cidade outro dia um irmão seu roxo! roxo sim, Peri, vi com estes olhos que a terra há de comer; guiado por uma senhora numa corda a ele presa; e fiquei a pensar: se as mulheres – e tem agora uns homens maricas a pintar os seus fios também – se elas tingem os cabelos, por que não dar o direito desse malefício igualmente aos seus cães!? Acontece que elas às vezes se embelezam assim, assim não a maioria delas que se enfeiam ao se deturpar se mostrando no que não são, são do carnaval e não no tempo carnavalesco – a cidade tem disso, meu Peri – o carnaval para tais pessoas são todos dias. Agora, aquele vira-lata tingido de roxo... pelo amor de Deus. O curioso nisto, uma quase amenidade, o curioso é Zé clamar a Deus, o que chega às raias da absurdidade visto afirmar diário ao cão só crer no Cão, em vez de acreditar como a maioria em Deus. Outra curiosidade é falar falando então manso embora indignado com as ‘roxuras’. Antes um pouco havia pego seu cachorro urinando outra vez na árvore de estimação; ralhou feio com o feioso, tanto assim que Peri não completara a irrigação ou marcação do ponto de sua referência e fora, humildemente medrosamente, fora de crista abaixada se deitar longe do amigo: a um amigo nervoso e feroz é melhor escolher um inimigo de garras à mostra. E dormiu logo, logo acordando outra vez; então é que o Zé lhe narra numa indignação amansada a recordação roxa da urbe.
Peri... (dizem que gato escaldado...) Peri examina como lhe aparenta Zé, um amigo manso, e sorri, o rabo encostado na terra seca, a seca então braba na roça; e encostado rente ao solo abanando pra lá pra cá com ciscos indevidos atirados pelo rabo longe dele, deles. Pois é Peri, não lhe disse que uma vez iria contar minha história! não narro tudo, precisando mais outra vez falar durante oitenta anos apenas a fim de contar isso, não falei que faço oitenta neste julho! O cão fica plenamente alegre se não com a esperança do picaresco dos lances a virem da existência do amo, ao menos contente pela expressão pacífica mostrada no semblante do narrador.
Quando apanhei você na estrada, aquele negócio de bicho bobinho caído da carroça de mudança, quando isso eu já vindo de longo caminho na vida e inclusive já perdera a esposa... foi mui doloroso, depois eu conto a você; vivia sozinho e mal acompanhado, mal porque meus compadres, estes você conhece bem, eles falam sempre que o sujeito não crendo em Deus é mais acompanhado sim do diabo; isto não vem ao caso. Nasci sem ver (conhecer seria demais ninguém conhece a fundo ninguém e sequer a si mesmo e nisto nos igualamos, Peri; Peri olha enigmático o homem) sim sem ver a própria mãe; muitos veem a mãe nunca o pai, pai tive certamente e nunca vi. Olhe (olhou sem saber o cão) olhe, encurtando, também não conheci os outros meus de sangue; fui criado por dona Veva a quem chamava mãe; bondosa entretanto me batia, batia também nos seus filhos e nos outros filhos de criação, tendo ela uma penca que adotava... não disse ser senhora bondosa. Sofri. Apanhava frequente dos irmãos de criação maiores que eu e ainda fugia do pai adotivo quando bêbado pra não levar umas pauladas! Um dia eu igualmente lhe darei umas lambadas por mijar no meu coqueiro... se insistir nisso bato mais e se morrer por isso: enterro sua magreza e seus carrapatos juntos no pé de coco! Peri terá entendido ou por medo na bravata do outro se encolhe todo murcha orelhões e ainda fecha olhos, visto vista fechada não ver brutalidades.
Zé sorri matreiro pelo temor do cãozinho. Raspa a garganta que ele trata “gogó” e prossegue na sua arenga.
Apanhei, aprendi a trabalhar, o trabalho de ficar sentado ‘trililicando’ no abecê da tecla! capaz, não senhor, senhor Peri – trabalhar sim como gente. Aprendi a viver, cresci e até andei pelos bailes, sabe que os bailes na roça são animados; num baile me engracei das meninas... (nisto Zé exagera falar ao cachorro as garotas conquistadas, ele um tímido roceiro, exagera nas numerosas mulheres seduzidas, isto decerto o cãozinho não crendo;  diminui um pouco o pecado a lembrar nunca ter sido belo porém doutro lado nunca ter sido horrendo; isto outro dado que o animal não pôde avaliar, mesmo sendo tão inteligente o Peri. Peri se retorce se contorce e o velho toma isso por negação, por isso ameniza o explanar:) Bem, meu caro, você tem razão, nunca fui de fato uma beleza de macho, macho sim eu fui... e agora o tempo fez sua parte ao estragar o resto que me sobrou. Quando peguei você para criar como um filho, ainda eu fortalhão e possuía dentes... Hoje perdi quase os cacos, falo assoprado como tivesse vento na boca, ainda bem que me entende; os forasteiros que se aventuram passar neste mato, a eles preciso sempre repetir o que disse: não entendem, você me entende. O cachorro olha o velho e até sorri, agora o rabo solto no ar dando ar da graça; o homem toma isso por assentimento e continua. Aí namorei noivei casei no padre lá na cidade com a Catarina, não no cartório não tinha cartório nessa época, foi em mil e novecentos e... já esqueço datas antes esquecia apenas os nomes dos outros agora as datas sumiram; esqueço e você não pode lembrar, sequer nascido perdido na estrada e nesse tempo eu não bebia tanto pra ir ao boteco a tornar embriagado com um cachorrinho no colo pra casa. Casei e não mudei. Conhece aquela gozação “fulano, casou e mudou”? fiquei por estas bandas mesmo, nessa tapera aí imitando casa que é a nossa casa; e se você uivar como noutro dia, noutra noite, me acordando: jogo você pra fora no frio e na chuva; e na noite, nunca vi cachorro tão medroso e a viver só na perna da gente; castigarei você (Zé diz constantemente não você sim “ocê”) você que teme e treme dormir no terreiro no escurão!
O Peri agora se assusta, assunta o terreno, não responde, não faz nada; só mira o então adversário. Sequer ouve o homem prometer a si mesmo em pensamento noutra oportunidade contar sobre a velhaca... “veiáca” diz alto e o cachorro não percebe.

6.Ruína do homem. Não o homem mas Peri, ele anda nos últimos meses semelhante a um verdadeiro destroço, qual um velho ser humano e que por ser velho vive o final da existência; então não passa de um destroço a soçobrar no mar de lama que ajuntou nos anos precedentes, sendo e tendo conspurcado o equilíbrio. Não. Não tanto assim Peri porém anda, quase não andando mais e se anda anda lento e daí correr! ah a mentira a que todos seres têm direito no seu direito à ignorância. Não. Peri, diverso do homem, ainda guarda sua inocência e a sabedoria da inocência; também sim como Zé vive uma ruína. Olha só de longe o gato e talvez por já familiarizado e em camaradagem com o felino, o  qual sempre lhe dirigira caretas não indo agora ladrar contra o pobre; ou por faltar-lhe forças a uma briga séria; ou por doença mesmo. Peri é só ossos, as costelas aparecem forçando a pele de pelos poucos, os bichos sanguessugas não têm o que comer, sugar. Assim mesmo olha e tem que ouvir ou aturar seu mestre sábio. Prometera Zé enterrá-lo no pé da árvore preferida, não parasse ele de regá-la e hoje não sente precisar marcar guardar lugar algum de mando. Não obstante se enrola a seu jeito gozado debaixo em frente do homem, que vive decerto a ferir-lhe com suas abobrinhas.
Zé sorri triste, que é forma de enganar a alegria nas dores que viveu pra viver; num pior disso rememorar, ainda que a um amigo confiável.
De repente circunspecto, o homem olha pra lá pra cá, examina à espreita os ouvidos indevidos, não os do cachorro mas doutros homens, nestes não confia. Sonda estarem de fato a sós. Ora, que mais existe só que dois seres, velhos, sem maiores compromissos nem compromisso com a verdade; mesmo porque o que é a verdade? não saberia o homem menos certamente o cão. Nenhum vizinho por perto; a temência por causa de uma testemunha costumar se voltar vinda do escuro contra a gente. Então, onde andaria a paz! O Zé não tendo paz na consciência. Quem sabe, pensou o mais baixo possível e que não ouvisse nenhum vizinho de perto ou de longe sempre distante de si naqueles sítios remotos; quem sabe não se aliviasse expondo suas dores mais pungentes ao Peri.
Peri, não falei que a Catarina não me dera herdeiro? Não deu. No fim de sua vida, que se interrompeu tão bruscamente, andava ela a esperar criança... Uma questão mui chata e constrangedora narrar, mesmo a um íntimo e de confiança igual você. No entanto conto; mais até que isso, digo tudo embora resumindo para não precisar sofrer de novo o velho sofrimento passado com ela e antes por ela. Um dia a comadre, a companheira daquele compadre que lhe falei, o do juiz que havia tomado a terra dele e entregue a mesma ao governo. Essa comadre experiente examinou minha esposa e vaticinou gravidez. Eu não deveria ficar feliz tendo vivido anos sem família! (O caboclo mistura ‘família’ e ‘filho’, pronuncia “famía” pronuncia “fío”, ter família é ter novo herdeirinho, Zé nunca tivera família). Olhe Peri, Peri faz esforço abre vê a cadeira e montado nela qual cavalo o cavaleiro seu amo, olha a ouvir. Olhe meu nego, fiquei apreensivo, passei desde então a observar os passos da mulher... Poderia dizer mulher carinhosa? não, nunca tivemos ambos abracinhos beijinhos carinhos, essas coisas; doutro lado nunca relei a mão nela, enquanto nossos compadres por comum batiam nas mulheres nossas comadres; nunca violentei Catarina, Peri, nunca. No entanto sempre fora com ela se não violento ao menos rude um grosseiro um secarrão. Eu interessado apenas no trabalho, eu e ela também pois trabalhadeira demais e até indo à roça comigo. Porém deixei o trabalho – não aquele ‘trabalho’ do moço na cidade, a labuta na roça; havia desanimado da pescaria e no lugar pus a vendinha no estradão, ameno boteco tão ligado ao meu encontro com você menino Peri, antes disso o mesmo boteco. Deixei a roça ao mato a fim de estudar os passos da Catarina. Veja o que pensei: se não me deu filho por anos de casamento e agora espera menino... de quem? me perguntei aqui por dentro, assombrado. É claro, era claro uma traição. Descobri um compadre na coisa. Sabia que traíra muito a infeliz comadre Zefa. Apertei o cerco, cheguei aos dois traidores. Logo os desafetos assassinaram o homenzinho. Ninguém, se fala Zé, ninguém provou ser eu o eliminador do sem-vergonha; e garanto a você que não fui eu, Peri.
No entanto logo planejei acabar com a festa da Catarina, porque se me enganara com o compadre, havia haver outros vizinhos não confiáveis.
Não disse direto a ela não desejar criar filho dos outros: acabei... (Zé torna examinar o ambiente onde sua boca e as orelhas do cachorro; limpo o lugar, continua; ou conclui:)
Levei certo dia Catarina comigo, ela naquele barrigão e se queixando mal-estar, levei a mulher ao capão de mato alegando precisar de alguém, pois derrubava então árvores queimava e limpava o terreno para novo roçado, milho feijão mandioca essas coisas; precisando derrubar a capoeira, lembra do machado que achei um dia na curva do rio? levava comigo o machado e claro foice e enxada.
Num determinado examinado planejado momento, fiz o corte na base duma árvore velha e grossa e havendo feito a cava antes de modo que o tronco pesado pudesse pender para onde a mulher estando... então forcei e a coisa desabou com galharia por cima da infeliz! Matei-a indiretamente. Eliminava a adúltera e por tabela o filho que iria nascer do crime dela com o compadre, me vingando dos dois.
Após chamei gritei a vizinhança para ser testemunha do ‘acidente’ que era meu crime. Chamada a polícia depois do choro das comadres e um vizinho indo avisar na cidade a lei, saí-me bem, provada a inocência.
Peri, fiz promessa a mim mesmo, porque não acreditava nos santos de barro nem em Deus, o diabo devendo estar mui feliz comigo nessa época; fiz promessa em nunca mais ter mulher e a viver solitário, o que ocorrendo como foi quando eu achei você.

7.Fim do cão. Aquele homem que não era compadre do compadre, aquele andante andando perdido sem destino pelo estradão e que, a desapertar decerto suas necessidades fisiológicas, se embrenhou na capoeira seca cálida deserta – aquele homem se deparou com uma cena chocante a quase desmontar na surpresa: encontrou o Zé e o Peri. O inusitado aqui lá onde os surpreendera está em estando o homem morto e o cão semivivo.
A área suja andava desarrumada mas não foi por isso o espanto, levara antes inclusive um susto, o susto sendo um espantozinho com medo. Ao fundo uma tapera de paus de coqueiro em pé com ripas cruzadas preenchidas por barro do lugar mesmo e prensado e faltando nas muitas partes material e portanto com buracos à mostra, tudo em vista da preguiça ou falta de coragem do morador; para retificar retificando aqui: moradores, tendo ali um cachorro sem marca, quer dizer o mais chão na raça canina, mero vira-lata, vivo; morto o morador principal (e não se sabe quem o principal entre principais já ambos na segunda categoria e por isso não principal).
Estavam num limpo no chão sujo e largado, um cadáver logicamente morto e um cachorrinho sem coragem morto-vivo ou vivo-morto, quase sem forças mesmo a ter fome e sem força para enfrentar adversário inimigo explorador entrão abusivo, até para ladrar sua defesa à propriedade e sobretudo a defender o defunto mumificado, que meio escandalosamente encontrava-se sentado de trás para diante, portanto na forma contrária numa cadeira; esta sim já anos morta quieta a despencar sua fraqueza cambaleante. Logo pensou o estranho “com certeza o cão terá expulso os urubus; agora nem cheiro tem...”
Que fez o desconhecido forasteiro?
Primeiro, em atitude cristã mesmo não fosse de igreja, primeiramente pensou salvar o vivo, o morto precisando tão só sepultura nada mais; o vivinho morrendo era necessário salvar. Fê-lo arrombando adentrando porta, coisa fácil no frágil e tênue. Se apropriou da linguiça enrolada lá em cima no teto baixo dependurada, não contra a fome se o homem tivesse fome mas contra investida do cão sem hora até pra se alimentar. Tomou gomos, ofertou também a si mesmo mas sobretudo ao cachorro. Deu-lhe água na latinha já seca; acordou-o, não a fim de latir intrusos porém a sorrir agradecimento de rabo.
E se pôs no fazer com a enxada da casa, realmente enxadão, uma cava no solo. Preferiu o pé de coco, única área não roubada pela erva daninha. Cobriu em monte, inventou uma cruz no improviso, quem sabe tal coveiro não sendo inclusive um crente descrente.
A observar o trabalho humano o bicho não falou, pelo menos alto de se ouvir; decerto a pensar: “Puxa, o amo garantiu que se eu molhasse o coqueiro me enterraria ao pé da árvore...”
Feito isso, e também frugalmente saciado na falta que não sobrava na tapera, botou de novo o pé na estrada. Supôs que o cãozinho pele e ossos o seguisse. Não.
Peri permaneceu a defender o Zé, o Zé agora um monte vivo sobre um morto sob monte. Permaneceu ali, deitado, enrolado, embodocado a aguardar certamente não seu respectivo monte, a sua própria decomposição.
Marília   setembro  2014


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